“Tropas norte-coreanas” na Operação Militar Especial nem deveriam ser um problema para o Ocidente

(Lucas Leiroz, in Strategic Culture Foundation, 28/10/2024, Trad. da Estátua)

Se os coreanos estão, ou não, lutando pela Federação Russa é uma questão que interessa apenas a Moscovo e Pyongyang.


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A mais recente grande controvérsia na mídia ocidental é a suposta presença de tropas norte-coreanas no campo de batalha da Operação Militar Especial. Recentemente, surgiram relatos de que soldados coreanos chegaram à frente para lutar ao lado dos russos, o que causou pânico no Ocidente. Autoridades americanas comentaram que tais unidades coreanas seriam “alvos legítimos” para a Ucrânia e condenaram hipocritamente a suposta ação de Pyongyang de “enviar tropas” para o Donbass.

As autoridades russas negaram tais rumores, esclarecendo que não há tais tropas nas linhas da frente, mas a mídia ocidental insiste que há evidências de tal presença por meio de imagens de satélite. Na mídia alternativa, muitas fontes relatam dados contraditórios, tanto confirmando quanto negando os rumores, mas nada de concreto foi apresentado, até agora, para refutar o que foi oficialmente comunicado pelas autoridades russas.

No entanto, é interessante ver como tais rumores se tornaram uma questão relevante no Ocidente. Simplesmente não deveria haver nenhum problema em torno dessa questão, já que é algo que não diz respeito ao Ocidente, mas apenas aos laços militares diretos entre a Federação Russa e a República Popular Democrática da Coreia.

Recentemente, ambos os países assinaram um acordo de defesa estabelecendo um pacto de assistência militar mútua, em caso de ataque. Por outras palavras, Moscovo e Pyongyang atualmente têm um acordo de defesa coletiva, semelhante ao que os países ocidentais têm no âmbito da NATO. Um ataque à Rússia é uma declaração de guerra à Coreia. Um ataque à Coreia é uma declaração de guerra à Rússia.

Obviamente, esses acordos não preveem nenhuma “implementação automática” da cláusula de defesa coletiva. Embora a Coreia pudesse legalmente enviar tropas para apoiar a Rússia com base no acordo, ela só o faria se a própria Rússia o solicitasse ou autorizasse. Como Moscovo é uma potência militar absolutamente autossuficiente, não há razão para que tal solicitação ocorra.

No entanto, a falta de necessidade por parte dos russos não impede os coreanos de enviarem discretamente algumas unidades especiais para estas ganharem experiência de combate. Não há razão para a Rússia recusar tal suporte se os coreanos o oferecerem. No final, isso beneficiaria muito mais a Coreia, pois permitiria que os militares coreanos lidassem com situações reais de combate, trazendo experiência e conhecimento vitais para o resto das tropas do seu país – o que é do seu interesse, dadas as tensões curso na Península Coreana.

De facto, como a Rússia e a Coreia do Norte têm um acordo de defesa coletiva, não há nada no direito internacional que as impeça de lutarem juntas em qualquer conflito em que qualquer uma das partes esteja envolvida.

Os EUA estão certos quando dizem que os soldados coreanos são “alvos legítimos” para a Ucrânia. De facto, Kiev tem o direito de tentar eliminar quaisquer soldados inimigos, independentemente de sua nacionalidade. Mas deve lembrar-se que a Rússia também tem esse direito – e que se Moscovo começar a destruir os centros de tomada de decisão da NATO na Ucrânia, a situação tornar-se-á muito difícil para o regime neonazi e para os seus patrocinadores internacionais.

A NATO, que está diretamente envolvida na guerra enviando sistematicamente tropas disfarçadas de “mercenários”, não pode dizer nada. Os coreanos, que aparentemente não estão realmente envolvidos no conflito, têm o direito de lutar pela Rússia no âmbito de um tratado internacional. Os ocidentais, que são conhecidos por estarem envolvidos na guerra, não têm o direito de lutar pela Ucrânia, pois não há qualquer tratado que o fundamente.

Qualquer crítica do Ocidente no caso do apoio coreano à Rússia deve ser vista como mera hipocrisia, quando é o próprio lado ocidental-ucraniano que está violando as normas internacionais ao promover uma coligação internacional anti Rússia na guerra atual.

Fonte aqui.


Digo com orgulho que sou mais preto que o Obama

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 18/10/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos sobre a atuação de Israel em Gaza, no Líbano e nas suas relações com a ONU, do Major-General Carlos Branco, (ver aqui).

Pela sua atualidade e por manifestar, em parte, algum exercício de contraditório, além da forma assertiva como põe a nu as atrocidades de Israel e desmonta o apoio do Ocidente ao genocídio em curso, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 18/10/2024)


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“As queixas do povo palestino não podem justificar os terríveis ataques do Hamas. E, esses ataques terríveis, não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. – citação do artigo.


A primeira frase é uma mentira e uma violação da lei mundial. A segunda frase é um facto que ninguém respeita. Sim, as queixas (invasão, ocupação, roubo de casas, terra arável e água, ditadura racista – isto é, apartheid, limpeza étnica constante, massacres frequentes, e genocídio lento, tornado rápido desde 7 de Outubro -, justificam tudo o que o Hamas e o Hezbollah fizerem. Aliás, o tribunal da ONU, o ICJ (sigla inglesa para Tribunal Internacional de Justiça), assim o decidiu: a resistência armada (isto é, violenta) contra o ocupante/agressor (o sionista “Israel”) é legalmente justificada, é um direito humano, é direito internacional, está na Carta da ONU.

Quanto à resposta dos nazi-sionistas ocidentais, via projeto colonial racista (“Israel”), tal como o ICJ decidiu, nada a justifica, nem assim nem assado. “Israel” é o agressor, e a Palestina é o agredido. O agressor/invasor não pode usar a resistência como desculpa para agravar a sua agressão/invasão. Esta decisão é do direito internacional, lei do mundo após tal decisão do ICJ ter transitado em julgado, como dizem os parolos dos advogados.

Ou seja, o Hamas tem o direito legal de repetir um 7 de outubro sempre que puder, especialmente legítimo quando feito em território da Palestina ocupada, que não fazia parte de “Israel” no mapa desenhado em 1947. Ou seja, “Israel” não pode entrar em Gaza nem na Cisjordânia e muito menos no Líbano, e já devia ter saído da Síria.

Ou seja, todos os que repetem “começou em 7 de outubro de 2023” estão a mentir e são, ou vítimas da propaganda nazi-sionista genocida, ou fazem parte do “polvo” de corrupção civil (por exemplo, as presstitutas pagas para mentir e manipular), ou de corrupção moral (por exemplo, quem acredita piamente na colonização da Mesopotâmia por homens brancos ocidentais, só porque são judeus).

Ou seja, estão a ser cometidos mais crimes contra a humanidade na Palestina ocupada diariamente, do que na guerra por procuração – já a caminho de 3 anos – dada aos nazis da NATO (EUA+vassalos), contra a Rússia.

Ou seja, andam à solta, na “democracia” liberal, monstros comparáveis a Hitler. E nenhum deles alguma vez será julgado como os outros foram em Nuremberga.

Ou seja, se há alguém que merecia sanções, bloqueio, isolamento, e ser levado de volta à idade das cavernas, são os países que vendem e até dão armas para que se continue um GENOCÍDIO, onde 99% das vítimas são civis, e onde 70% dos corpos despedaçados são de mulheres e crianças.

Ou seja, se alguém der um tiro no Biden, na Kamala ou no Blinken e companhia, no Trump, no Starmer, no Boris, no Sunak e companhia, no Scholz e na Baerbock, no Macron e na Meloni, na Leyen, no Stoltenberg e no Rutte, no Montenegro, no Marcelo e no Nuno Santos e companhia, e também nas presstitutas que fazem a propaganda desses porcos assassinos, isso não é um crime. É justiça. E eu adoro quando a justiça acontece.

Isto leva-me a outro ponto de discordância com o texto do Carlos Branco. É quando ele cita alguém que chama “sionismo fascista” a isto, por oposição a um alegado “sionismo liberal” supostamente benigno.

Porra! É preciso ser surdo e cego (mas não mudo) para, em 2024, não perceber que nazismo e genocídio, supremacismo branco e violação impune de direitos humanos, colonialismo e fascismo, são a base ideológica real do LIBERALISMO. Todo o paleio sobre “liberdade e democracia” é propaganda para enganar tolos. Liberalismo é o que está a passar-se em Gaza, em Kiev, e se passou no Vietname, Belgrado, Benghazi, etc.

Não existe uma diferença entre nazismo e liberalismo. Isto lembra-me uma notícia (omitida pelas presstitutas do nazi-sionismo genocida ocidental) sobre o Canadá há uns dias: queriam fazer um monumento para lembrar/homenagear as “vítimas da Rússia soviética”, mas quando foram ver os nomes dos cerca de 500 defuntos que queriam homenagear, constataram que mais de 300 dessas “vítimas” eram oficiais nazis (até mesmo das SS). Quando a notícia/escândalo se espalhou no Canadá, a construção do monumento não foi cancelada, foi suspensa até de corrigir o “mero lapso”.

Isto para lembrar que o Canadá é um dos líderes dos rankings da “Liberdade”, da “Democracia”, do Liberalismo em geral. É exatamente o mesmo regime que teve o Parlamento em pé a aplaudir um velhote das SS e, quando a coisa se tornou viral, em vez de pedirem desculpa, em vez de se demitirem, qualificaram às vozes antinazis como sendo “propaganda do Putin”.

Isto é o mesmo regime de todos os outros países do Ocidente: a mesma ideologia de todos os “democratas” liberais, desde a direção do Bloco de Esquerda até ao Chega, passando por todo o estrume do meio.

Isto é a mesma UE que proíbe a celebração do Dia Da Vitória – veteranos da Segunda Guerra até foram detidos pela polícia na Letónia! -, que compara o comunismo ao nazismo, que censura canais de notícias, que quer um “Ministério da Verdade” (tipo uma PIDE da UE/EUA), e que apoia descaradamente os nazis na Ucrânia (depois de passar décadas a apoiá-los às escondidas, ou a contratá-los para a máquina de terror da NATO). Isto é a ideologia da “democracia” liberal.

É só lembrar o seguinte: a tal da “Constituição dos EUA” que falava dos “homens iguais”, foi escrita durante a escravatura. Isto é a natureza dos regimes ocidentais, e infelizmente também de boa parte deste povo profundamente ignorante e racista, mas cheio de canudos universitários…

O facto de alguns países colocarem mulheres, jovens, negras e LGBT, à frente das câmaras e dos microfones, não muda a sua natureza. Apenas demonstra o quão maquiavélico o supremacismo branco se tornou. Mas a mim não me enganam. Estou vacinado contra a propaganda e manipulação. Sempre que vejo um Obama, sei que estou a olhar para um Hitler. E sempre que vejo uma Catherine Jean Pierre, sei que estou a olhar para o antigo homem branco que exterminou os nativos da América do Norte.

O racismo não acabou no Ocidente. Algo muito pior aconteceu: os pretos, latinos, etc, assimilaram completamente a ideologia do seu opressor. Agora chamam-lhe “progressismo”.

É por isso que quando veem um corpo de um bebé despedaçado em Gaza, repetem o que hoje diriam também Hitler, Goebbels, Himmler ou Göring: nós é que somos o lado bom, os outros são todos maus, por isso matá-los é justificado, é a defesa da nossa raça…

É isto o liberalismo. Nem mais, nem menos. É pior que o fascismo. Mas o que fazem estes nazi-sionistas genocidas no dia 25-Abril em Portugal? Colocam o cravo na lapela, e colocam-se de pé a aplaudir o discurso de um ditador nazi ucraniano que acha que glorificar os ucraNazis da antiga UPA/OUN e dos actuais Azov “é normal” – coloquei as aspas porque é uma citação do Zelensky! O palhaço que os liberais andaram a promover como o “campeão da democracia e da liberdade”.

É isso que estas duas palavras significam realmente na boca desta gentalha: nazismo, guerra, imperialismo, opressão, racismo, supremacia branca, colonialismo, mentira, violação dos direitos humanos, apartheid, massacres, invasões, tortura, terrorismo, sanções para provocar pobreza e fome, limpeza étnica, e um GENOCÍDIO em direto num campo de concentração com mais de 2 milhões de pessoas, 70% dos quais mulheres e crianças.

Por isso hoje digo com orgulho: sou antiliberal. Aliás, sempre fui, mas não sabia. E mesmo tendo a pele branca, posso também dizer com orgulho que sou mais preto do que o Obama.

PS: O Carlos Branco esqueceu-se também de dizer que o tal partido israelita que Einstein e Arendt compararam aos nazis, deu mais tarde origem ao Likud de Netanyahu, um partido que entretanto ganhou práticas e ideologia bem pior que o original, e é o mais votado pelos “inocentes” daquele projeto colonial racista e fanático religioso. O “Israel” é o JSIL (J substituindo a primeira letra do ISIL, sigla inglesa para “estado islâmico do Iraque e do Levante”) daquela região, tal como o jornalista do Greyzone uma vez disse: o Jewish State of Israel and the Levant.

Mas como essa explicação demora muito, eu prefiro ser mais direto: o “Israel” é uma ditadura colonial nazi-sionista, exterminadora de mulheres e crianças. Ou, como os liberais lhe chamam: “a única democracia do Médio Oriente

Será que Netanyahu e Zelensky fazem parte do projeto neoconservador?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/10/2024)

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites.


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Quando, em 1997, Zbigniew Brzezinski, antigo Conselheiro Nacional de Segurança do presidente Jimmy Carter, escreveu na sua obra de referência (O Grande Tabuleiro de Xadrez) o que deveriam fazer os Estados Unidos para controlar o mundo, prescreveu um programa de ação geopolítica para os EUA que inspirou a ala neoconservadora do establishment político norte-americano, e tem influenciado de modo determinante a política externa norte-americana no pós-guerra fria.

Não será de estranhar o surgimento ainda nesse ano do Project for the New American Century (PNAC), um think tank fundado por William Christol e Robert Kagan, onde se advogava ser o século XXI o século americano, onde o domínio militar dos EUA não só protegeria a segurança nacional e os interesses nacionais dos EUA, mas também estabeleceria uma Pax Americana global. Defendia ainda o PNAC que “a liderança americana é, ao mesmo tempo, boa para a América e para o mundo”.

De entre as muitas ideias avançadas por Brzezinski, pela sua atualidade, uma deve merecer a nossa particular atenção. Dizia ele que o cenário mais perigoso para o projeto hegemónico norte-americano seria uma coligação anti hegemónica constituída pela China, Rússia e Irão. Adiantando que “uma coligação que alie a Rússia à China e ao Irão só pode desenvolver-se se os Estados Unidos forem suficientemente míopes para antagonizarem simultaneamente a China e o Irão.”

Apesar do conselho avisado de Brzezinski, foi exatamente isso que aconteceu. A arrogância das sucessivas Administrações norte-americanas conseguiu alienar os seus adversários ao ponto de se coligarem contra Washington e pugnarem por uma ordem multipolar que desafia o projeto da primazia norte-americana. Não faltaram oportunidades para Washington aproximar Moscovo e Teerão do Ocidente, estupidamente desperdiçadas.

Muito se poderia escrever sobre a alienação da Rússia pelos EUA, desde o alargamento da NATO, apesar das garantias que foram dadas a Mikhail Gorbachev de que a Aliança não se expandiria para leste, à rejeição categórica da ajuda ocidental à União soviética em 1991, que impossibilitou que se produzisse na Rússia um efeito psicológico e político galvanizador semelhante ao do Plano Marshall para a Europa Ocidental no pós II Guerra Mundial, quando Moscovo procurava desesperadamente aproximar-se do Ocidente.

A invasão do Afeganistão pelos EUA foi outra oportunidade perdida para se esquecerem os acontecimentos do passado e aproximar Teerão de Washington. Em 2001, o Irão não hesitou em cooperar com os EUA na luta contra a Al-Qaeda e os talibãs. Teerão forneceu Intelligence e apoiou os EUA na operação de contraterrorismo Enduring Freedom.

Os iranianos estavam ansiosos por ajudar Washington e mostrar-lhe os benefícios estratégicos em cooperarem. No entanto, o comportamento colaborativo de Teerão não foi recompensado. Em 29 de janeiro de 2002, no discurso sobre o estado da União, o presidente George W. Bush incluiu o Irão no grupo dos países do “eixo do mal”, fazendo tábua rasa de toda a colaboração prestada pelo Irão aos EUA. Exauriu-se nesse momento, a possibilidade de se ultrapassarem experiências negativas do passado e encetar-se um novo capítulo nas relações entre os dois Estados.

A ter em conta a prosa prospetiva de Brzezinski, não será de estranhar que os três grandes focos de conflitualidade/tensão da atualidade sejam a Ucrânia, Israel e Taiwan, com os EUA a procurar tardiamente contrariar essa aliança anti hegemónica e a procurar reparar erros de cálculo estratégico passados muito difíceis agora de reverter. Como dizia Mike Pompeo, ex-diretor da CIA e ex-secretário de Estado, enganado telefonicamente por uma brincadeira feita por russos, “a Rússia precisa ser puxada de volta para a Europa, para longe da China.” Tarde piaste!

Há semelhanças evidentes naquilo que levou a União Soviética a invadir o Afeganistão, a Rússia a Ucrânia e o Irão a responder militarmente a Israel. Em todas essas situações, procurou-se, com sucesso, provocar o adversário criando-lhe uma situação psicológica insustentável. Visa-se com essas provocações levá-lo a envolver-se militarmente, utilizando esse pretexto para lhe responder e o derrotar, explorando a sua vulnerabilidade percebida.

No Afeganistão, o sucesso do apoio norte-americano aos Mujahidins que combatiam o regime pró-Moscovo de Mohammad Najibullah; na Ucrânia, a interferência de Washington na política interna de Kiev, o golpe de Estado em Maidan (2014), obra dos neoconservadores instalados na Administração Obama (nunca é demais recordar que a obreira Nuland participou em todas as Administrações norte-americanas desde a primeira Administração Clinton, em 1993), o armamento das fações ultranacionalistas e o iminente ataque às comunidades russófonas ucranianas.

No caso do Irão, o ataque a instalações diplomáticas iranianas em Damasco, os sucessivos assassinatos seletivos de dirigentes iranianos, do Hezbollah e do Hamas, muito em particular o de Ismail Haniya em Teerão, tinham como objetivo provocar o Irão, criar-lhe uma situação insustentável, não lhe dando outra alternativa que não fosse a de retaliar. Encostado à parede, o Irão respondeu à provocação e voltou a atacar Israel a 1 de outubro. O fornecimento de armamento e treino militar a Taipé ainda não colocou a China numa situação insustentável, em que não tenha outra alternativa senão intervir, como sucedeu com a Rússia e o Irão.

A Ucrânia e Israel desempenham papeis muito semelhantes no xadrez geopolítico mundial para os EUA. A primeira para controlar a Rússia, e o segundo o Médio Oriente. Se dúvidas existissem sobre isso, elas foram desfeitas num discurso do então energético Joe Biden ao Congresso norte-americano, em 1986, quando afirmou que “Israel é o melhor investimento que fazemos [EUA], caso Israel não existisse os EUA teriam que inventar um Estado de Israel para proteger os nossos interesses na região, os Estados Unidos teriam de inventar Israel.”

É também à luz disto que se deve procurar entender o comportamento de Washington, mais precisamente da ativa ala neoconservadora. Enquanto o enfraquecido Biden procura limitar a resposta de Telavive à retaliação de Teerão, de 1 de outubro, as fações da administração pública norte-americana trabalham nos bastidores em estreita coordenação com Israel, discutindo os possíveis ataques e “explorando opções de resposta ao ataque de mísseis do Irão contra Israel”, como afirmou o vice-secretário de Estado dos EUA, Kurt Campbell.

Segundo o Politico, ao mesmo tempo que a Administração Biden instava publicamente o Governo israelita a reduzir os seus ataques, “funcionários americanos apoiavam discretamente a ação militar de Israel contra o Hezbollah… figuras de topo da Casa Branca diziam a Israel que os EUA apoiariam o aumento da pressão militar contra o Hezbollah.”

Este comportamento aplica-se igualmente à possibilidade de uma contrarretaliação israelita ao ataque iraniano de 1 de outubro. Segundo o texto de Kenneth M. Pollack (Which path to Persia?) publicado pela Brookings, em 2009, o facto de os EUA afirmarem não querer que Israel ataque as instalações nucleares iranianas baseia-se numa estratégia de manter uma negação plausível enquanto, de facto, ataca o Irão, incluindo as suas instalações nucleares.

Por outras palavras, os neoconservadores instalados no poder querem uma guerra com o Irão, querem destruir a sua indústria de armamento, o seu programa nuclear, a sua economia e derrubar o seu governo, mas não querem ser alvo de condenação e retaliação a nível mundial, pelo que estão a armar/apoiar Israel para o fazer por eles.

Falamos daquilo a que Mearsheimer chamou de buck-passing. Isto é, quando uma grande potência se encontra numa postura defensiva, tentando evitar que os seus rivais ganhem poder à sua custa, pode optar pelo equilíbrio ou intervir, transferindo a responsabilidade de agir para outros Estados, mantendo-se à margem no assento traseiro.

Entretanto, multiplicam-se os apelos aos ataques ao Irão. “De facto, esta é a oportunidade ideal para destruir o programa nuclear do Irão. O tempo que o país leva para chegar a uma bomba é de uma a duas semanas. Não está previsto qualquer novo acordo nuclear. O Hamas e o Hezbollah não estão em posição de retaliar. E a República Islâmica acabou de o pedir. De facto, esta pode ser a última oportunidade para impedir Teerão de ter uma bomba.”

Na mesma linha, o antigo primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett veio dizer que se trata da “grande oportunidade em 50 anos, para alterar a face do Médio Oriente, destruir o programa nuclear do Irão, as instalações energéticas terroristas, que se encontra mortalmente incapacitado.” “Temos uma justificação. Temos ferramentas. Agora o Hezbollah e o Hamas estão paralisados, o Irão está exposto. Há alturas em que a história nos bate à porta, e nós temos de a abrir. Esta oportunidade não pode ser desperdiçada.”

De facto, este é o momento indicado para o fazer aproveitando o vácuo de poder na Casa Branca e antes que Trump se possa vir a sentar-se na Sala Oval. Nesta matéria, Trump não é fiável para os neoconservadores, que já os tinha impedido em 2019 de materializar um ataque ao Irão. Os neoconservadores têm de aproveitar esta janela de tempo, porque com Trump no poder, se ganhar as eleições, essa possibilidade pode desaparecer.

Os projetos, as ideias e as ambições pessoais e políticas de Zelensky e Netanyahu só serão concretizáveis se inseridas numa grande estratégia, que lhes é alheia, atuando por procuração e colaborando na concretização da primazia geoestratégica norte-americana abraçada pelos neoconservadores: provocar mudanças de regime em Moscovo e Teerão (como o afastamento do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953, que teve a aleivosia de privatizar as petrolíferas) infligindo-lhes derrotas estratégicas.

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites. O envolvimento de Taiwan nesse projeto encontra-se, por enquanto, comprometido.

A grande interrogação que se nos coloca neste momento é saber se Teerão tem capacidade para responder à retaliação israelita, como Moscovo está a responder ao desafio geoestratégico colocado por Washington. Teerão já fez saber aos EUA, através do Qatar, que a fase da contenção unilateral terminou. Está para se ver se vai conseguir dar a volta por cima, como estão a fazer os russos.