Sanções, sanções, sanções, o estertor final da hegemonia do dólar?

(Peter Koenig,  20/08/2018)

dolar

Sanções para a esquerda e sanções para a direita. Financeiras principalmente, impostos, tarifas, vistos de entrada, proibições de viagens, confisco de activos no estrangeiro, proibições e limitações de importação e exportação, sanções e punições também para aqueles que não respeitam as sanções impostas por Trump, aliás pelos EUA, contra amigos de seus inimigos. O absurdo parece interminável e crescente, como se houvesse uma data fatal para o colapso do mundo. Parece ser um último esforço para derrubar o comércio internacional em favor de – o quê? – “Make America Great Again” ? Preparar-se para as eleições intercalares dos EUA? Reunir as pessoas atrás de uma ilusão? O quê então?

Tudo parece arbitrário e destrutivo. Tudo obvia e totalmente ilegal por qualquer lei internacional ou, esqueça a lei, que de qualquer modo não é respeitada pelo império e seus vassalos, mas nem mesmo pelos padrões morais humanos. As sanções são destrutivas. Elas estão a interferir na soberania de outros países. São feitas para punir países, nações, que se recusam a submeter-se a uma ditadura mundial.

Parece que toda agente aceita esta nova guerra económica como o novo normal. Ninguém objecta. E as Nações Unidas, o corpo criado para manter a paz, para proteger o nosso mundo de outras guerras, para defender os direitos humanos, este mesmo corpo está silenciosa – por medo? Medo de ser “sancionada” ao esquecimento pelo império moribundo? Por que não pode a grande maioria dos países – muitas vezes é uma proporção de 191 contra 2 (Israel e EUA) – dominar os criminosos?

Imagine-se a Turquia, de súbito tarifas enormes sobre o alumínio (20%) e o aço (50%) impostas por Trump, além da interferência sobre a moeda do banco central que fez a Lira turca cair 40%, e isso “apenas” porque Erdogan não liberta o pastor Andrew Brunson, que enfrenta na Turquia uma sentença de 35 anos de prisão por “terror e espionagem”. Um tribunal de Izmir acaba de recusar outro pedido de clemência dos EUA, convertendo no entanto a sua sentença de prisão em prisão domiciliária por motivos de saúde. Há a plena convicção que os supostos 23 anos de “trabalho missionário” do Sr. Brunson foram apenas uma cortina de fumo para espionagem.

O presidente Erdogan acaba de declarar que vai procurar novos amigos, incluindo novos parceiros comerciais no leste – Rússia, China, Irão, Ucrânia, até na inviável União Europeia, e que seu país planeia emitir certificados financeiros denominados em Yuan para diversificar a economia da Turquia, em primeiro lugar as reservas do país, gradualmente afastando-se da hegemonia do dólar.

Procurar novos amigos, também pode incluir novas alianças militares. Estará a Turquia a planear sair da NATO? Poderá a Turquia ser “autorizada” a sair da NATO dada a sua posição estratégica marítima e terrestre entre o leste e o oeste? A Turquia sabe que ter aliados militares que aplicam sanções por agir soberanamente em assuntos internos significa um desastre para o futuro. Por quê continuar então a oferecer seu país à NATO, cujo único objetivo é destruir o leste – o próprio leste, que não é apenas o futuro da Turquia, mas do mundo? A Turquia já está a aproximar-se da SCO (Organização de Cooperação de Xangai) e pode realmente aderir a ela num futuro previsível. Isto poderá ser o fim da aliança da Turquia com a NATO.

E se o Irão, Venezuela, Rússia, China – e muitos outros países que não se dispõem a curvar-se ao império – prendessem todos os espiões das embaixadas dos EUA ou camuflados nas instituições financeiras nacionais desses países, a actuarem como Quintas Colunas, minando políticas nacionais e económicas dos seus países de acolhimento? Cidades inteiras de novas prisões teriam que ser construídas para acomodar o exército de criminosos do império.

Imagine-se a Rússia – mais sanções foram impostas apenas pelo alegado e totalmente não comprovado (pelo contrário, refutado) envenenamento russo de quatro cidadãos do Reino Unido com o agente nervoso mortal, Novichok e por não admitir isso. Trata-se de uma farsa total, uma mentira flagrante, que se tornou tão ridícula que a maioria das pessoas que pensam, mesmo no Reino Unido, apenas riem disso. No entanto, Trump e seus pigmeus na Europa e em muitas partes do mundo sucumbem a essa mentira e por medo de serem sancionados, também sancionam a Rússia. O que se tornou o mundo?

O ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, ficaria orgulhoso por ter ensinado a importante lição aos mentirosos do universo: “Deixem-me controlar os media e vou transformar qualquer nação numa vara de porcos”.Nisto é o que nos tornámos – uma vara de porcos.

Felizmente, a Rússia também já se afastou tanto da economia controlada pelo dólar que tais sanções não mais a afectam. Elas servem Trump e aos seus capangas como meras ferramentas de propaganda para exibicionismo: “ainda somos os maiores!”

Na Venezuela, alimentos importados, produtos farmacêuticos e outros bens estão sendo desviados nas fronteiras e em outros pontos de entrada, de modo que nunca chegarão às prateleiras dos supermercados – tornam-se mercadorias clandestinas na Colômbia, onde esses produtos são vendidos a taxas manipuladas de dólar de que tiram proveito cidadãos venezuelanos e colombianos.

Estes gangs de tipo mafioso são financiados pelo NED (National Endowment for Democracy) e outras “ONG” financiadas pelo Departamento de Estado, treinadas pelos serviços secretos dos Estados Unidos, dentro ou fora da Venezuela. Uma vez infiltrados na Venezuela – aberta ou secretamente – eles tendem a boicotar a economia local, espalhar a violência e tornarem-se parte da Quinta Coluna, principalmente sabotando o sistema financeiro.

A Venezuela que tem pessoas sofrendo, está lutando para sair deste dilema, tirando a sua economia do dólar, em parte através de uma criptomoeda recém-criada, o Petro, baseado nas enormes reservas de petróleo do país e também através de um novo Bolívar na esperança de colocar um freio às crescentes explosões de inflação. Esse cenário lembra muito o Chile em 1973, quando Henry Kissinger era secretário de Estado (1973-1977) e inspirou o golpe da CIA, fazendo “desaparecer” alimentos e outros bens dos mercados chilenos, assassinando o presidente legitimamente eleito Salvador Allende e levando ao poder Augusto Pinochet, um horrendo assassino e déspota. A ditadura militar provocou a morte e o desaparecimento de dezenas de milhares de pessoas e durou até 1990. Subjugar a Venezuela poderá contudo não ser tão fácil. Afinal, a Venezuela tem 19 anos de experiência revolucionária Bolivariana e um sólido sentido de resistência.

O Irão está a ser mergulhado num destino semelhante. Sem motivo algum, Trump renegou o chamado Acordo Nuclear, assinado em Viena em 14 de Julho de 2015 depois de quase dez anos de negociações. Agora de certeza impulsionado pelo ultra sionista Netanyahu novas sanções, as mais severas de sempre, estão a ser impostas ao Irão, dizimando também o valor de sua moeda local, o Rial.

O Irão, sob o Ayatollah, já embarcou num curso de “Economia de Resistência”, o que significa a desdolarização da sua economia e mover-se rumo à auto-suficiência alimentar e industrial, bem como aumentar o comércio com países do Leste, China, Rússia, SCO e outras nações amistosas e culturalmente alinhadas, como o Paquistão. No entanto, o Irão também tem uma forte Quinta Coluna, enraizada no sector financeiro, que não deixa de forçar e propagar o comércio com o inimigo, ou seja, o Ocidente, a União Europeia, cujo sistema monetário do Euro faz parte da hegemonia do dólar, apresentando portanto uma vulnerabilidade similar às sanções como as que o dólar produz.

A China – o grande prémio do Grande Jogo de Xadrez global – está também a ser “sancionada” com tarifas sem fim, por ter-se tornado a economia mais forte do mundo, superando de longe os EUA, quer em produção real quer medida pelo poder de compra das pessoas. A China também tem uma economia sólida e uma moeda baseada no ouro, o Yuan, que está a caminho de rapidamente ultrapassar o dólar americano como a moeda de reserva número um do mundo. A China retalia, é claro, com “sanções” idênticas, mas, em geral, o seu domínio dos mercados asiáticos e a crescente influência económica na Europa, África e América Latina é tal que a guerra tarifária de Trump pouco significa para a China.

Quanto à Coreia do Norte a muito falada cimeira Trump-Kim de meados de Junho em Singapura há muito tempo se tornou um pequeno ponto no passado. Os alegados acordos obtidos estão a ser violados pelos EUA, como era de esperar. Tudo sob o pretexto falso e puramente inventado de que a RPDC não aderiu ao seu compromisso de desarmamento; uma razão para impor novas sanções procurando estrangular a economia.

O mundo olha. É normal. Ninguém se atreve a questionar os auto-intitulados Donos do Mundo. A miséria continua a ser distribuída tanto para a esquerda como para a direita, aceite pelas massas ao redor do mundo, sujeitas a lavagem cerebral. Guerra é paz e paz é guerra.

Literalmente. O Ocidente vive uma zona de conforto “pacífica”. Para quê perturbar isso? Se as pessoas morrem de fome ou por bombas isso acontece longe e permite-nos viver em paz. Para quê importar-se? Especialmente porque somos gotejados continuamente a dizerem-nos o que está certo.

Numa recente entrevista à PressTV, perguntaram: por que os EUA não aderem a nenhum dos tratados ou acordos celebrados internacional ou bilateralmente? Boa pergunta. Washington está a quebrar todas as regras, convenções, acordos e tratados, não está a respeitar nenhuma lei internacional ou mesmo padrão moral, simplesmente porque seguir tais padrões significaria renunciar à supremacia mundial. Estar em pé de igualdade não é do interesse de Washington ou de Telavive. Sim, esta relação simbiótica e doentia entre os EUA e o Israel sionista está a tornar-se progressivamente mais visível; a aliança da força militar bruta e o domínio financeiro pleno e traiçoeiro, juntos lutando pela hegemonia mundial, pelo domínio total. Esta tendência está a acelerar-se sob Trump e sob aqueles que lhe dão ordens, simplesmente porque “eles podem”. Ninguém faz objecções. Isso tende a retratar uma imagem de poder inigualável, incutindo medo e esperando que incite à obediência.

Na realidade, o que está a acontecer é que Washington está a isolar-se, o mundo unipolar está a mover-se rumo a um mundo multipolar, que desconsidera e desrespeita cada vez mais os Estados Unidos, despreza a sua agressividade e belicismo – que mata e lança na miséria centenas de milhões de pessoas, a maioria delas crianças indefesas, mulheres e idosos, pela força militar directa ou por conflitos liderados por procuração. O Iémen é apenas um exemplo recente, provocando sofrimentos humanos infindos a pessoas que nunca fizeram mal aos vizinhos, muito menos aos americanos. Quem poderia ter algum respeito por tal nação, chamada Estados Unidos da América, pelas pessoas por trás destes monstros mentirosos?

Este comportamento do império agonizante está a levar aliados e amigos para o campo oposto, para o Leste, onde jaz o futuro, longe de uma Ordem Mundial globalizada, rumo a um mundo multipolar saudável e mais igualitário. Seria bom se os membros do nosso corpo mundial, as Nações Unidas, criada em nome da paz, finalmente reunissem coragem e se levantassem contra as duas nações destruidoras, pelo bem da humanidade, do globo e da Terra-Mãe.


[*] Economista e analista geopolítico. 


Fonte aqui

 

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O capitalismo em estado de guerra civil

(José Goulão, in AbrilAbril, 19/07/2018)

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(Excelente análise da situação política internacional. Afinal, Trump é tudo menos estúpido, ou pelo menos é muito menos estúpido do que aqueles que acham que ele o é.

Comentário da Estátua, 20/07/2018)


A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

«é importante não avaliar [Trump] pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial»

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

Uma delas é, com toda a certeza, o facto de o capitalismo ter entrado em estado de guerra civil. O que pode ser uma coisa boa, porque exibe cruamente o esgotamento do espírito e da letra do catecismo neoliberal; mas pode ser também uma coisa péssima, porque as contradições capitalistas, quando levadas ao extremo, são capazes de conduzir a confrontos sanguinários como a Primeira Guerra Mundial. Onde as vítimas não foram as desavindas elites mas os povos obrigados a sacrificar-se por elas como carne para canhão.

Entretanto, à escala global, os movimentos sociais, a mobilização dos trabalhadores contra um sistema que os isola para melhor os escravizar e a envergadura das esquerdas políticas consequentes estão longe de conseguir abrir caminho para impor uma alternativa democrática e popular tirando proveito dos ajustes de contas entre as castas dominantes.

Ao invés, afirmam-se cada vez mais poderosas as forças autoritárias que, aproveitando-se de uma convergência de circunstâncias sociais nefastas geradas pela mistificação neoliberal, queimam etapas restaurando cenários evocativos das mais horríveis memórias históricas. Forças essas que arrastam sectores humanos mobilizáveis por genuínos movimentos sociais – se os houvesse com poder – nas suas dinâmicas de enganos.

É neste quadro que surge a figura inusitada de Trump. Que é importante não avaliar pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial.

Um homem do establishment

E o essencial é: Donald Trump é um homem do establishment governante norte-americano, que tem uma amplitude transnacional consolidada pela mundialização de teor anglo-saxónico. Porém, o establishment ecoa agora o esgotamento da ortodoxia neoliberal, enovelada em crises atrás de crises, pelo que a guerra civil do capitalismo passa pelo meio dele. Assim sendo, o clima de confronto, de ajuste de contas, difunde-se inevitavelmente através do capitalismo universal.

Em termos muito genéricos, tende a explicar-se que o grande confronto se trava entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência. No fundo estão em confronto duas formas de conservar o domínio neoliberal, emergindo a que é autoritária sem disfarce face ao esgotamento da que continua a invocar o primado da democracia – embora cada vez menos. Não será necessário lembrar que tanto o capitalismo produtivo como o financeiro são tanto mais compensatórios para as minorias que os cultivam quanto mais limitados forem os direitos das maiorias.

Trump representa, ou pretende representar, os interesses do capitalismo produtivo e daí o seu alinhamento com as correntes nacionalistas e restauracionistas, mais «viradas para dentro», para o desenvolvimento interno – o que o conduz ao confronto com as múltiplas instâncias da gestão global. E, sobretudo, com as elites políticas e burocráticas ao serviço destas, seja na União Europeia, na NATO, na ONU, na componente transnacional do establishment.

A União Europeia foi despedida

As frentes desta guerra civil são ainda fluidas e têm fronteiras muito difusas: não se enfrentam nações, mas diferentes conceitos de ordem internacional e interpretações dissonantes sobre as vias mais eficazes de o capitalismo cumprir as metas de obtenção dos lucros máximos.

O presidente dos Estados Unidos da América não esconde que a União Europeia passou a ser «um inimigo» – apesar de se manter «um aliado», desde que submetido à ordem militar da NATO – enquanto rejeita agora tratar a Rússia como «adversário», embora mantenha com este país uma tensão militar de alto risco.

As amostras do comportamento de Donald Trump e dos interesses que representa em relação à União Europeia não permitem ainda identificar a sua estratégia para tentar desmantelar o «inimigo/aliado», mas confirmam a animosidade latente. O presidente norte-americano desafiou Emmanuel Macron a retirar a França da União Europeia, em troca de relações económicas e comerciais privilegiadas; mantém a intriga pressionante sobre os conservadores britânicos, de modo a que o Brexit se concretize sem hesitações; interferiu, através de enviados próprios, na formação do actual governo italiano, matizando-o com forte atitude anti-europeísta.

«o grande confronto trava-se entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência.»

Estas deixas seriam suficientes para os dirigentes e os governos europeus, pelo menos aqueles que ainda têm ilusões de soberania, reflectissem sobre o que é realmente a União Europeia, agora que todas as máscaras se dissolveram. Ficou a descoberto a sua essência de sempre: a de não passar de uma serventuária dos objectivos de dominação que orientam o establishment de raízes norte-americanas – até que um dia este, ou parte dele, a olhasse como estorvo.

Esse dia chegou.

Várias estratégias imperiais definidas em Washington, entre elas a «teoria do caos» que está na base da ordem mundial agora em decomposição, estabeleceram o dogma segundo o qual nenhuma potência ou aliança de países, mesmo «aliadas», poderia elevar-se a um patamar suficiente para rivalizar com o poder imperial norte-americano. A União Europeia e suas antecessoras a isto se confirmaram como regra fundamental do jogo, tornando os seus povos vítimas dela.

Os tão celebrados «pais fundadores» não conseguiram ter visão mais brilhante de futuro do que a criação dos «Estados Unidos da Europa»; e os federalistas seus herdeiros – que perseguem esse objectivo através de manobras tanto às claras como clandestinas – melhor não conseguiram almejar. E eis que a União Europeia se mostra hoje ao mundo tal como é: um apêndice imperial infectado na hora em que precisa de ser extirpado.

A NATO como polícia das riquezas mundiais

Consta, porém, que a já célebre sentença proferida por Trump em relação à administração de Berlim não se destinava prioritariamente a atingir a senhora Merkel mas sim a burocracia da NATO e o seu actual chefe, o falcão norueguês Stoltenberg. Em termos gerais, dando como exemplo a Alemanha, o presidente norte-americano deixou a mensagem que não se podem recolher as vantagens económicas resultantes de ser «amigo» da Rússia e, ao mesmo tempo, ter alguém a sustentar as obrigações militares de ser «inimigo» de Moscovo. Isto é, já é tempo de a NATO redefinir prioridades, o que não se consegue aprovando esboços de declarações finais elaborados previamente e antes do fim de uma reunião deliberativa, como aconteceu na recente cimeira. E todos os «aliados» terão que contribuir com as verbas estipuladas por Washington. Ao que os súbditos, ainda que insultados e humilhados, anuíram humildemente.

O que estará a acontecer para tamanhas desavenças nas cúpulas capitalistas globais, partindo do princípio de que a truculência de Trump e a eternização da crise não justificam tudo?

Em primeiro lugar, o que terá levado a que os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia anunciassem um novo começo nas relações entre os dois países, coisa que ainda não passa de mera intenção verbalizada?

«A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.»

Diz-se nos bastidores mais afectos a Trump que este terá ficado perturbado com a envergadura do potencial confronto entre as duas potências a que poderia ter conduzido o ataque com mísseis de cruzeiro contra a Síria, em Abril último. Não só os resultados alcançados foram de êxito muito duvidoso como a operação, e outras realizadas nos últimos tempos, confirmaram a eficácia elevada de alguns novos engenhos militares russos.

A situação terá reforçado a atracção do presidente norte-americano pelo nacionalismo e até pelas teses não-intervencionistas defendidas pelo ex-candidato presidencial Ron Paul, um neoliberal puro e duro, porém orientado pela necessidade de recuperação do poderio económico interno dos Estados Unidos. Teses estas que, sem qualquer dúvida, tornam inconvenientes o chamado «comércio livre», grandes investimentos e dispêndios no exterior. Daí até à crucificação da União Europeia e à tentativa de revisão dos objectivos prioritários da NATO, provavelmente a orientar mais como polícia das riquezas naturais e jazidas de matérias-primas estratégicas disseminadas pelo mundo, foi um pequeno passo.

«Encontrar-me-ão no caminho dos que tentam iniciar a Terceira Guerra Mundial», declarou Trump em Helsínquia, após o encontro com Putin, confirmando aparentemente que os dois presidentes nacionalistas convergiram nas suas «Tordesilhas externas» para se dedicarem prioritariamente aos assuntos internos de cada qual.

A clivagem, o confronto e a oportunidade

Inevitavelmente, uma viragem deste tipo provoca uma clivagem brutal no establishment e no chamado «Estado profundo» norte-americano, onde a elite burocrática instalada e os interesses por ela favorecidos – designadamente o lobbyarmamentista – rejeitam liminarmente tais inflexões estratégicas.

A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.

Não se estranha, por isso, que as castas policiais e dos serviços secretos tenham posto a circular, na véspera da cimeira de Helsínquia, as supostas «provas» de que Trump foi eleito pelos serviços secretos russos; ou que o presidente seja acusado de «traição», por sinal pelo senador McCain, o elo de ligação entre o poder político-militar norte-americano e os grupos terroristas mercenários transnacionais, à cabeça dos quais estão a al-Qaida e o Isis ou «Estado Islâmico».

Passo a passo, o presidente norte-americano tenta reforçar o seu peso ideológico, mediático e propagandístico dando poder às suas clientelas, incentivando correntes conservadoras e ultra-conservadoras do país, sobretudo as tendências fundamentalistas religiosas – tanto católicas como evangélicas.

E assim vai aclarando a voz a tenebrosa e reacionária «América profunda», para o mal e para o pior. Por um lado, a elite instalada acusa Trump de ter sido eleito pelos serviços secretos de Putin; por outro lado, de todos os presidentes das últimas décadas, incluindo Ronald Reagan, Donald Trump foi o que perdeu menor percentagem de apoio ao cabo de período comparável de governação. De paradoxo em paradoxo, chegamos ao mais intrigante: este presidente dos Estados Unidos parece agora estar mais disposto a afastar-se da iminência de uma nova guerra mundial do que qualquer dos seus antecessores próximos. Pedra de toque para o futuro a curto prazo: tentar perceber se as frentes russa e da NATO se distanciam uma da outra no Leste da Europa, tal como dizem ter sido negociado entre Trump e Putin.

A guerra civil capitalista está lançada nestes moldes. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

O ideal seria mesmo que as forças mundiais da paz, da cidadania, da igualdade e do desenvolvimento social percebessem a oportunidade que está aberta e soubessem tirar proveito destes tempos de explosão das contradições capitalistas.


Fonte aqui

“ NÃO VOS INQUIETEIS, A REALIDADE É QUE SE ENGANA “

(Rodrigo Sousa Castro, 18/07/2018)

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“ NÃO VOS INQUIETEIS, A REALIDADE É QUE SE ENGANA “ – Dos impenitentes maoístas aos filhotes das madrassas lusitanas.

Não é preciso ser-se dotado de grande perspicácia, para entender que a demografia esmagadora , a dinâmica económica e tecnológica exuberante e o capital abundante da China, se juntos ao imenso território, às praticamente inesgotáveis matérias-primas energéticas e de metais raros e á capacidade nuclear avassaladora da Rússia, criarão uma super potência continental do leste europeu ao mar do Japão que não terá rival no mundo, mesmo que só sobre a forma de aliança.

A pergunta que se põe é:
– Que mal tem o facto de ter sido Trump e a sua administração a fazer esta avaliação e dela tirarem consequências ?

Então não é verdade que a tentativa de em tempos abortar esta possibilidade, foi feita pelos neocons capitalistas do partido democrático que , se não fosse Putin teriam subjugado a Federação Russa, como fizeram com a Ucrânia e outros pequenos ex- satélites soviéticos, hoje abocanhados pelas multinacionais americanas ?

É que, mais uma vez na História, a grande nação Russa resistiu ao seu desmembramento e conquista e aparece hoje como o fiel da balança da politica internacional.

Que os impenitentes maoístas os filhotes das madrassas lusitanas , como um tal Germano Almeida ( RTP, onde mais podia ser ? ) que parafraseando MC Cain disse ser este encontro Trump-Putin o dia mais negro dos USA, sigam a sua saga ideológica da russo-fobia sem sentido ainda se compreende, mas que toda uma Europa esteja entregue a bizarros políticos que perdem o pé a cada dor ciática é verdadeiramente preocupante.