O capitalismo em estado de guerra civil

(José Goulão, in AbrilAbril, 19/07/2018)

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(Excelente análise da situação política internacional. Afinal, Trump é tudo menos estúpido, ou pelo menos é muito menos estúpido do que aqueles que acham que ele o é.

Comentário da Estátua, 20/07/2018)


A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

«é importante não avaliar [Trump] pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial»

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

Uma delas é, com toda a certeza, o facto de o capitalismo ter entrado em estado de guerra civil. O que pode ser uma coisa boa, porque exibe cruamente o esgotamento do espírito e da letra do catecismo neoliberal; mas pode ser também uma coisa péssima, porque as contradições capitalistas, quando levadas ao extremo, são capazes de conduzir a confrontos sanguinários como a Primeira Guerra Mundial. Onde as vítimas não foram as desavindas elites mas os povos obrigados a sacrificar-se por elas como carne para canhão.

Entretanto, à escala global, os movimentos sociais, a mobilização dos trabalhadores contra um sistema que os isola para melhor os escravizar e a envergadura das esquerdas políticas consequentes estão longe de conseguir abrir caminho para impor uma alternativa democrática e popular tirando proveito dos ajustes de contas entre as castas dominantes.

Ao invés, afirmam-se cada vez mais poderosas as forças autoritárias que, aproveitando-se de uma convergência de circunstâncias sociais nefastas geradas pela mistificação neoliberal, queimam etapas restaurando cenários evocativos das mais horríveis memórias históricas. Forças essas que arrastam sectores humanos mobilizáveis por genuínos movimentos sociais – se os houvesse com poder – nas suas dinâmicas de enganos.

É neste quadro que surge a figura inusitada de Trump. Que é importante não avaliar pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial.

Um homem do establishment

E o essencial é: Donald Trump é um homem do establishment governante norte-americano, que tem uma amplitude transnacional consolidada pela mundialização de teor anglo-saxónico. Porém, o establishment ecoa agora o esgotamento da ortodoxia neoliberal, enovelada em crises atrás de crises, pelo que a guerra civil do capitalismo passa pelo meio dele. Assim sendo, o clima de confronto, de ajuste de contas, difunde-se inevitavelmente através do capitalismo universal.

Em termos muito genéricos, tende a explicar-se que o grande confronto se trava entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência. No fundo estão em confronto duas formas de conservar o domínio neoliberal, emergindo a que é autoritária sem disfarce face ao esgotamento da que continua a invocar o primado da democracia – embora cada vez menos. Não será necessário lembrar que tanto o capitalismo produtivo como o financeiro são tanto mais compensatórios para as minorias que os cultivam quanto mais limitados forem os direitos das maiorias.

Trump representa, ou pretende representar, os interesses do capitalismo produtivo e daí o seu alinhamento com as correntes nacionalistas e restauracionistas, mais «viradas para dentro», para o desenvolvimento interno – o que o conduz ao confronto com as múltiplas instâncias da gestão global. E, sobretudo, com as elites políticas e burocráticas ao serviço destas, seja na União Europeia, na NATO, na ONU, na componente transnacional do establishment.

A União Europeia foi despedida

As frentes desta guerra civil são ainda fluidas e têm fronteiras muito difusas: não se enfrentam nações, mas diferentes conceitos de ordem internacional e interpretações dissonantes sobre as vias mais eficazes de o capitalismo cumprir as metas de obtenção dos lucros máximos.

O presidente dos Estados Unidos da América não esconde que a União Europeia passou a ser «um inimigo» – apesar de se manter «um aliado», desde que submetido à ordem militar da NATO – enquanto rejeita agora tratar a Rússia como «adversário», embora mantenha com este país uma tensão militar de alto risco.

As amostras do comportamento de Donald Trump e dos interesses que representa em relação à União Europeia não permitem ainda identificar a sua estratégia para tentar desmantelar o «inimigo/aliado», mas confirmam a animosidade latente. O presidente norte-americano desafiou Emmanuel Macron a retirar a França da União Europeia, em troca de relações económicas e comerciais privilegiadas; mantém a intriga pressionante sobre os conservadores britânicos, de modo a que o Brexit se concretize sem hesitações; interferiu, através de enviados próprios, na formação do actual governo italiano, matizando-o com forte atitude anti-europeísta.

«o grande confronto trava-se entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência.»

Estas deixas seriam suficientes para os dirigentes e os governos europeus, pelo menos aqueles que ainda têm ilusões de soberania, reflectissem sobre o que é realmente a União Europeia, agora que todas as máscaras se dissolveram. Ficou a descoberto a sua essência de sempre: a de não passar de uma serventuária dos objectivos de dominação que orientam o establishment de raízes norte-americanas – até que um dia este, ou parte dele, a olhasse como estorvo.

Esse dia chegou.

Várias estratégias imperiais definidas em Washington, entre elas a «teoria do caos» que está na base da ordem mundial agora em decomposição, estabeleceram o dogma segundo o qual nenhuma potência ou aliança de países, mesmo «aliadas», poderia elevar-se a um patamar suficiente para rivalizar com o poder imperial norte-americano. A União Europeia e suas antecessoras a isto se confirmaram como regra fundamental do jogo, tornando os seus povos vítimas dela.

Os tão celebrados «pais fundadores» não conseguiram ter visão mais brilhante de futuro do que a criação dos «Estados Unidos da Europa»; e os federalistas seus herdeiros – que perseguem esse objectivo através de manobras tanto às claras como clandestinas – melhor não conseguiram almejar. E eis que a União Europeia se mostra hoje ao mundo tal como é: um apêndice imperial infectado na hora em que precisa de ser extirpado.

A NATO como polícia das riquezas mundiais

Consta, porém, que a já célebre sentença proferida por Trump em relação à administração de Berlim não se destinava prioritariamente a atingir a senhora Merkel mas sim a burocracia da NATO e o seu actual chefe, o falcão norueguês Stoltenberg. Em termos gerais, dando como exemplo a Alemanha, o presidente norte-americano deixou a mensagem que não se podem recolher as vantagens económicas resultantes de ser «amigo» da Rússia e, ao mesmo tempo, ter alguém a sustentar as obrigações militares de ser «inimigo» de Moscovo. Isto é, já é tempo de a NATO redefinir prioridades, o que não se consegue aprovando esboços de declarações finais elaborados previamente e antes do fim de uma reunião deliberativa, como aconteceu na recente cimeira. E todos os «aliados» terão que contribuir com as verbas estipuladas por Washington. Ao que os súbditos, ainda que insultados e humilhados, anuíram humildemente.

O que estará a acontecer para tamanhas desavenças nas cúpulas capitalistas globais, partindo do princípio de que a truculência de Trump e a eternização da crise não justificam tudo?

Em primeiro lugar, o que terá levado a que os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia anunciassem um novo começo nas relações entre os dois países, coisa que ainda não passa de mera intenção verbalizada?

«A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.»

Diz-se nos bastidores mais afectos a Trump que este terá ficado perturbado com a envergadura do potencial confronto entre as duas potências a que poderia ter conduzido o ataque com mísseis de cruzeiro contra a Síria, em Abril último. Não só os resultados alcançados foram de êxito muito duvidoso como a operação, e outras realizadas nos últimos tempos, confirmaram a eficácia elevada de alguns novos engenhos militares russos.

A situação terá reforçado a atracção do presidente norte-americano pelo nacionalismo e até pelas teses não-intervencionistas defendidas pelo ex-candidato presidencial Ron Paul, um neoliberal puro e duro, porém orientado pela necessidade de recuperação do poderio económico interno dos Estados Unidos. Teses estas que, sem qualquer dúvida, tornam inconvenientes o chamado «comércio livre», grandes investimentos e dispêndios no exterior. Daí até à crucificação da União Europeia e à tentativa de revisão dos objectivos prioritários da NATO, provavelmente a orientar mais como polícia das riquezas naturais e jazidas de matérias-primas estratégicas disseminadas pelo mundo, foi um pequeno passo.

«Encontrar-me-ão no caminho dos que tentam iniciar a Terceira Guerra Mundial», declarou Trump em Helsínquia, após o encontro com Putin, confirmando aparentemente que os dois presidentes nacionalistas convergiram nas suas «Tordesilhas externas» para se dedicarem prioritariamente aos assuntos internos de cada qual.

A clivagem, o confronto e a oportunidade

Inevitavelmente, uma viragem deste tipo provoca uma clivagem brutal no establishment e no chamado «Estado profundo» norte-americano, onde a elite burocrática instalada e os interesses por ela favorecidos – designadamente o lobbyarmamentista – rejeitam liminarmente tais inflexões estratégicas.

A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.

Não se estranha, por isso, que as castas policiais e dos serviços secretos tenham posto a circular, na véspera da cimeira de Helsínquia, as supostas «provas» de que Trump foi eleito pelos serviços secretos russos; ou que o presidente seja acusado de «traição», por sinal pelo senador McCain, o elo de ligação entre o poder político-militar norte-americano e os grupos terroristas mercenários transnacionais, à cabeça dos quais estão a al-Qaida e o Isis ou «Estado Islâmico».

Passo a passo, o presidente norte-americano tenta reforçar o seu peso ideológico, mediático e propagandístico dando poder às suas clientelas, incentivando correntes conservadoras e ultra-conservadoras do país, sobretudo as tendências fundamentalistas religiosas – tanto católicas como evangélicas.

E assim vai aclarando a voz a tenebrosa e reacionária «América profunda», para o mal e para o pior. Por um lado, a elite instalada acusa Trump de ter sido eleito pelos serviços secretos de Putin; por outro lado, de todos os presidentes das últimas décadas, incluindo Ronald Reagan, Donald Trump foi o que perdeu menor percentagem de apoio ao cabo de período comparável de governação. De paradoxo em paradoxo, chegamos ao mais intrigante: este presidente dos Estados Unidos parece agora estar mais disposto a afastar-se da iminência de uma nova guerra mundial do que qualquer dos seus antecessores próximos. Pedra de toque para o futuro a curto prazo: tentar perceber se as frentes russa e da NATO se distanciam uma da outra no Leste da Europa, tal como dizem ter sido negociado entre Trump e Putin.

A guerra civil capitalista está lançada nestes moldes. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

O ideal seria mesmo que as forças mundiais da paz, da cidadania, da igualdade e do desenvolvimento social percebessem a oportunidade que está aberta e soubessem tirar proveito destes tempos de explosão das contradições capitalistas.


Fonte aqui

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“ NÃO VOS INQUIETEIS, A REALIDADE É QUE SE ENGANA “

(Rodrigo Sousa Castro, 18/07/2018)

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“ NÃO VOS INQUIETEIS, A REALIDADE É QUE SE ENGANA “ – Dos impenitentes maoístas aos filhotes das madrassas lusitanas.

Não é preciso ser-se dotado de grande perspicácia, para entender que a demografia esmagadora , a dinâmica económica e tecnológica exuberante e o capital abundante da China, se juntos ao imenso território, às praticamente inesgotáveis matérias-primas energéticas e de metais raros e á capacidade nuclear avassaladora da Rússia, criarão uma super potência continental do leste europeu ao mar do Japão que não terá rival no mundo, mesmo que só sobre a forma de aliança.

A pergunta que se põe é:
– Que mal tem o facto de ter sido Trump e a sua administração a fazer esta avaliação e dela tirarem consequências ?

Então não é verdade que a tentativa de em tempos abortar esta possibilidade, foi feita pelos neocons capitalistas do partido democrático que , se não fosse Putin teriam subjugado a Federação Russa, como fizeram com a Ucrânia e outros pequenos ex- satélites soviéticos, hoje abocanhados pelas multinacionais americanas ?

É que, mais uma vez na História, a grande nação Russa resistiu ao seu desmembramento e conquista e aparece hoje como o fiel da balança da politica internacional.

Que os impenitentes maoístas os filhotes das madrassas lusitanas , como um tal Germano Almeida ( RTP, onde mais podia ser ? ) que parafraseando MC Cain disse ser este encontro Trump-Putin o dia mais negro dos USA, sigam a sua saga ideológica da russo-fobia sem sentido ainda se compreende, mas que toda uma Europa esteja entregue a bizarros políticos que perdem o pé a cada dor ciática é verdadeiramente preocupante.

A NATO, em expansão e cada vez mais cara, alastra-se pela Europa

(Manlio Dinucci, in Rede Voltaire,  12/07/2018)

NATO and EU leaders sign joint declaration

A Comissão Europeia e o Secretariado-Geral da NATO fizeram preceder a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Aliança, pela assinatura de uma Declaração Conjunta. Para essas Administrações tratava-se de impossibilitar o sistema que gerem de maneira a impedir que as (autoridades) eleitas o contestassem.

Agindo como orgãos programados desde a sua criação, as Administrações da NATO e da União Europeia, prosseguem o seu projecto afastadas de qualquer controlo político.As burocracias militares e civis resultantes da ocupação norte-americana da Europa Ocidental, pretendem defender os interesses da elite transnacional sem se preocupar com a vontade dos povos.


Em 11 e 12 de Julho de 2018, desenvolve-se em Bruxelas a CIMEIRA NATO ao nível de Chefes de Estado e de Governo, dos 29 países membros. Confirma ao mais alto nível o fortalecimento da estrutura de comando, principalmente, na função anti-Rússia. Serão estabelecidos:

- um novo Comando Conjunto para o Atlântico, em Norfolk, nos EUA, contra os “submarinos russos que ameaçam as linhas de comunicação marítima entre os Estados Unidos e a Europa”

- um novo Comando Logístico, em Ulm, na Alemanha, como “dissuasor” contra a Rússia, com a tarefa de “mobilizar mais rapidamente as tropas em toda a Europa em qualquer conflito”.

Em 2020, a NATO terá, na Europa, 30 batalhões mecanizados, 30 esquadrilhas aéreas e 30 navios de combate, apetrechados em 30 dias ou menos, contra a Rússia. O Presidente Trump terá, portanto, cartas mais fortes na Cimeira bilateral, que terá a 16 de Julho, em Helsínquia, com o Presidente Putin, da Rússia. Daquilo que o Presidente dos EUA estabelecer na mesa de negociações, dependerá, fundamentalmente, a situação na Europa.

O raio de expansão da NATO vai muito além da Europa e dos próprios membros da Aliança. Ela tem vários parceiros ligados à Aliança por vários programas de cooperação militar. Entre os vinte incluídos na Parceria Euro-Atlântica, figuram a Áustria, a Finlândia e a Suécia. A parceria mediterrânica inclui Israel e a Jordânia, que têm missões oficiais permanentes na sede da NATO, em Bruxelas, e Egipto, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia. A parceria do Golfo inclui o Kuwait, o Qatar e os Emirados, com missões permanentes a Bruxelas, além do Bahrein. A NATO também tem nove “Parceiros globais” na Ásia, na Oceania e na América Latina – Iraque, Afeganistão, Paquistão, Mongólia, Coreia do Sul, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Colômbia – alguns dos quais “contribuem, activamente, para as operações militares da NATO”.

A NATO – criada em 1949, seis anos antes do Pacto de Varsóvia, baseada formalmente no princípio defensivo estabelecido pelo Artigo 5 – foi transformada numa aliança que, de acordo com o “novo conceito estratégico”, compromete os países membros a “liderar operações de resposta a situações de crise não previstas no artigo 5.º, fora do território da Aliança”. Segundo o novo conceito geoestratégico, a Organização do Tratado do Atlântico Norte estendeu-se às montanhas afegãs, onde a NATO está em guerra há 15 anos.

O que não mudou, na mutação da NATO, foi a hierarquia dentro da Aliança. É sempre o Presidente dos Estados Unidos que nomeia o Comandante Supremo Aliado na Europa, que é sempre um general dos EUA, enquanto os Aliados se limitam a ratificar a sua escolha. O mesmo aplica-se aos outros comandos chave. A supremacia dos EUA fortaleceu-se com a ampliação da NATO, pois que os países do Leste europeu estão mais vinculados a Washington do que a Bruxelas.

O próprio Tratado de Maastricht, de 1992, estabelece a subordinação da União Europeia à NATO, da qual fazem parte 22 dos 28 países da UE (com a Grã-Bretanha de saída da União). O mesmo estabelece no artigo 42.º, que “a União respeita as obrigações de alguns Estados Membros, que consideram que a sua defesa comum se efectue através da NATO, no âmbito do Tratado do Atlântico Norte”. E o protocolo n. 10 sobre a cooperação estabelecida pelo art. 42 salienta que a NATO “continua a ser a base da defesa” da União Europeia. A Declaração Conjunta sobre a Cooperação NATO/UE, assinada em 10 de Julho em Bruxelas, na véspera da Cimeira, confirma esta subordinação: “A NATO continuará a desempenhar a sua função única e essencial como pedra angular da defesa colectiva para todos os aliados, e os esforços da UE também fortalecerão a NATO” [1]. A PESCO e o Fundo Europeu para a Defesa, sublinhou o Secretário-Geral Stoltenberg, “são complementares e não alternativas à NATO”. A “mobilidade militar” está no centro da cooperação NATO/UE, consagrada na Declaração Conjunta. Igualmente importante é a “cooperação marítima NATO/UE no Mediterrâneo, para combater o tráfico de migrantes e, assim, aliviar o sofrimento humano”.

Sob pressão dos EUA e neste contexto, os aliados europeus e o Canadá aumentaram a sua despesa militar em 87 biliões de dólares, desde 2014. Apesar disso, o Presidente Trump vai bater com os punhos na mesa da Cimeira, acusando os aliados porque, todos juntos, gastam menos do que os Estados Unidos. “Todos os aliados estão a aumentar as despesas militares”, afirma o Secretário Geral da NATO, Stoltenberg.

Os países que destinam à despesa militar, pelo menos 2% do seu PIB, aumentaram para 3%, em 2014, e para 8%, em 2018. Prevê-se que, desde agora até 2024, os aliados europeus e o Canadá aumentarão a sua despesa militar em 266 biliões de dólares, expandindo a despesa militar da NATO para mais de 1 trilião de dólares por ano. A Alemanha, em 2019, ampliará para uma média de 114 milhões de euros por dia e planeia aumentá-la em 80% até 2024. A Itália comprometeu-se a alargá-la dos actuais 70 milhões de euros por dia, para cerca de 100 milhões de euros/dia. Como exige aquele que, no programa do governo, é definido como “o aliado privilegiado da Itália”.


Fonte aqui