O que poderia acontecer se os EUA rejeitassem o ultimato russo?

(The Saker, in Resistir, 21/12/2021)

Há muitas discussões em curso sobre o que a Rússia poderia fazer se o Ocidente ignorasse o seu ultimato. Tudo o que me proponho fazer aqui é partilhar convosco algumas reflexões. Não se trata de uma análise exaustiva, apenas algumas ideias minhas sobre o que tenho ouvido.

Primeiro, Putin é simultaneamente muito previsível e, ao mesmo tempo, muito imprevisível. A coisa previsível sobre Putin é que ele só usa a força quando já não há outra opção. A coisa muito imprevisível sobre Putin é como e onde ele está disposto a usar a força. Ele não interveio no Donbass, o que todos esperavam, e não permitiu sequer que as LDNR tomassem Mariupol, sem se importar com o resto da Ucrânia. Mas quando transferiu uma força especial para a Síria, ninguém previu a sua chegada. Idem à mudança para proteger a Crimeia de uma invasão ucraniana. Ao avaliar os próximos passos possíveis de Putin, temos de ter em mente este paradoxo de ele ser previsível e imprevisível.

Em segundo lugar, não há maneira de a Rússia começar simplesmente uma guerra, nem contra a Ucrânia, nem contra a UE ou a NATO e nem contra os EUA. Só um tolo ignorante desencadearia deliberadamente uma situação que pudesse resultar num holocausto nuclear planetário. Mas a Rússia tem muitas outras opções.

Terceiro, enquanto nos anos 60 a URSS precisava de Cuba (ou da Venezuela) para posicionar os seus mísseis a fim de forçar os EUA a retirar os seus mísseis da Turquia, hoje em dia a Rússia não tem tal necessidade. As armas russas, tanto nucleares como convencionais, podem chegar aos EUA a partir de praticamente qualquer lugar, incluindo da Rússia, é claro.

Em quarto lugar, todos os porta-aviões da US Navy e outros navios têm agora alvos hipersónicos pintados sobre si, e eles sabem-no. Isto afectará dramaticamente o que a USN pode ser ordenada a fazer ou para onde se deve enviar. Alguns observadores acusaram a Rússia de ter a Ucrânia como refém. Isto é um disparate. Mas sim, os russos estão, para todos os efeitos práticos, a manter toda a USN como refém, desde pequenos barcos-patrulha a grupos de combate de porta-aviões inteiros. A única, mas importante, excepção a esta dominação são os submarinos de ataque nuclear, onde a Rússia tem paridade qualitativa (ou mesmo superioridade), mas onde os EUA têm uma forte vantagem quantitativa sobre a Rússia. Contudo, os submarinos da USN não têm mísseis modernos e não podem vencer uma guerra sozinhos. Têm também as mãos ocupadas com a China.

Em quinto lugar, sabemos pela dimensão da força terrestre russa actualmente destacada a várias centenas de quilómetros da fronteira russo-ucraniana que se trata de uma força defensiva cuja tarefa seria deter um ataque terrestre ucraniano contra as LDNR (forças Ukie, mas de menor dimensão, estão destacadas a algumas dezenas de quilómetros dessa mesma fronteira). Portanto, não espere para breve tanques russos no centro de Kiev.

Além disso, porque deveria a Rússia interferir de alguma forma se tanto a Ucrânia como a UE estão a cometer proactivamente suicídio cultural, económico, político, social e até espiritual?

Sexto, não nos devemos concentrar apenas no teatro europeu de operações militares. Recordemos que a China e a Rússia são agora oficialmente “mais do que aliados” e que a Rússia pode vender à China exactamente o tipo de material militar que realmente horrorizaria os EUA. Do mesmo modo, a Rússia pode facilmente atingir as forças dos EUA em qualquer parte do Pacífico, dissimuladamente e abertamente, a propósito.

Sétimo, depois há o Médio Oriente. Imagine-se o que a Rússia poderia fornecer, rapidamente, a, digamos, o Irão (enquanto fornece garantias verbais, mas significativas a Israel de que a Rússia não permitiria ao Irão utilizar esses sistemas contra Israel, a menos, claro, que Israel atacasse primeiro (Nota: não há muito amor entre a Rússia e Israel, mas pelo menos ambos os lados são suficientemente inteligentes para se compreenderem mutuamente, o que ajuda muito quando necessário).

Em oitavo lugar, a Rússia tem uma enorme vantagem sobre EUA+NATO na guerra electrónica (desde o nível táctico ao estratégico) e pode facilmente utilizá-la com um efeito devastador enquanto a NATO não tem nada para retaliar da mesma espécie. A propósito, isto também se aplica ao Médio Oriente onde, aparentemente, a Rússia tem os meios para interromper/ludibriar os sinais GPS em toda a região.

Nono, não devemos assumir que a Rússia só pode retaliar proactivamente, isso seria um erro. Por exemplo, a Rússia pode fazer à Alemanha o que o Kremlin fez à Ucrânia: deixar de atender as suas chamadas e permitir que o Nord Stream 2 seja totalmente detido. Porquê? Porque embora isto afecte apenas marginalmente a Rússia (os preços do gás já estão altos e a China absorve muito dele), ao mesmo tempo que é uma sentença de morte para a economia alemã, especialmente para as exportações. Assim, permitir que o NS2 fique “indefinidamente” (na realidade temporariamente) suspenso seria a melhor e, possivelmente, a única forma de trazer os alemães actualmente delirantes de volta à realidade.

Décimo, a Rússia poderia deixar de vender energia aos EUA. Sim, os EUA estão a importar muita energia da Rússia e se os russos decidirem parar com isto, o já claramente “pré-apocalíptico” estado da economia dos EUA sofrerá ainda mais e não se vê como os EUA possam recorrer à Venezuela ou ao Irão em busca de energia 🙂 Quanto a “Biden”, ele já teve de libertar uma parte das reservas dos EUA.

Décimo primeiro, a Rússia poderia fechar o seu espaço aéreo a todos os países da NATO, estou a falar aqui do tráfego aéreo civil. A Rússia tem o espaço aéreo mais caro do planeta, e se ela o fechar aos transportadores ocidentais, o caos resultante no ar e no solo será total. Quanto aos custos de voar à volta da Rússia, eles seriam absolutamente enormes.

Décimo terceiro, há então o movimento óbvio: reconhecer as LDNR como estados soberanos. Há um forte apoio a tal movimento, tanto nas LDNR como na Rússia. O Kremlin poderia fazer isso sem mover um único soldado ou disparar um único tiro, e depois observar o que os Ukronazis em Kiev fariam em relação a isso. O meu palpite é que os Ukronazis não fariam muito sobre isso, mas se o fizerem, os russos simplesmente declararão uma zona de exclusão aérea sobre as LDNR e avisarão que qualquer ataque às LDNR resultará na destruição da força atacante. Se os Ukies persistirem, as forças atacantes serão vaporizadas enquanto o resto dos militares Ukie perderão a sua coesão e desfazer-se-ão sob o efeito combinado de ataques russos e capacidades A2/AD. Putin falou recentemente do “ainda não reconhecido” e falou de “genocídio”. Agora que sabemos que um Kalibr lançado de submarino tem um alcance “superior a 1000 km”, vejamos como um submarino russo pode alcançar todos os Ukies a partir do centro do Mar Negro (Odessa estaria a menos de 500 km desse submarino) e lembremo-nos de que os Ukies não têm qualquer capacidade de guerra anti-submariana (ASW) e apenas defesas aéreas da era soviética (e estas de qualquer forma estão em péssimas condições). Para informação: a frota do Mar Negro tem 6-7 SSK (subs diesel-eléctricos), ao passo que as defesas costeiras russas “cobrem” todo o Mar Negro.

Décimo quarto, raramente, se é que alguma vez, informou-se no Ocidente, que a Ucrânia tem conduzido ataques terroristas tanto nas LDNR e mesmo na própria Rússia. Até agora, a Rússia nunca retaliou da mesma forma. Mas lembram-se do que aconteceu depois de os Takfiris terem explodido vários edifícios na Rússia? Se não, o que aconteceu foi a 2ª guerra chechena e a obliteração total dos Takfiris na Chechénia (o que todos os “analistas” ocidentais consideravam à partida como uma tarefa impossível). Até ao momento, o FSB conseguiu abortar todos os ataques ucranianos, mas se um for bem sucedido, então está acabado o regime de Kiev.

Décimo quinto, a Ucrânia está actualmente a construir bases navais para a NATO em vários locais, incluindo uma no Mar de Azov (que é o plano que os dois génios Johnson e Zelenskii conceberam). Supõe-se que este plano crie uma marinha ucraniana dentro de dois anos. Consegue imaginar como seria fácil para a Rússia deixar Johnson e Ze “brincar de Lego” durante algum tempo e depois simplesmente desactivar estas futuras bases?

Tenho a certeza de que há muitas mais opções que não considerei acima.

O poder do ultimato russo está precisamente no facto de os russos terem prometido fazer “alguma coisa” militar e/ou militar-técnica, mas não terem escrito o que essa “alguma coisa” poderia ser. Aposto que, na realidade, não estamos a lidar com uma única “alguma coisa”, mas sim com uma sucessão de passos graduais que irão exercer cada vez mais pressão sobre os EUA e a NATO/UE (não que esta última seja a menos importante). Tenha em mente que, embora os EUA possam fazer contra-propostas, não estão em posição de fazer quaisquer ameaças críveis, daí a assimetria fundamental entre os dois lados:  A Rússia pode fazer ameaças críveis, ao passo que os EUA só podem produzir mais palavras, algo a que os russos basicamente deixaram de prestar atenção.

A partir de agora, o jogo é simples: A Rússia irá gradualmente aumentar o “mostrador da dor” e ver como o Império vai enfrentar isto. A China estará a fazer exactamente o mesmo pois as acções russas e chinesas são obviamente coordenadas de modo cuidadoso.

A minha sensação é que o tio Shmuel deixará os europeus guinchar de dor e apenas lhes dará “firme apoio moral aos nossos amigos, parceiros e aliados”, preocupando-se apenas com uma coisa: ele próprio. Tão logo a dor comece a afligir seriamente os EUA, estes últimos serão forçados a negociar tanto com a Rússia como com a China.

Nessa altura, a Rússia e a China teriam vencido.

Quando a Rússia aumentará o mostrador da dor?

Pode-se imaginar que os primeiros passos serão dados em breve, a menos que o lado americano mostre alguns sinais tangíveis de estar disposto não só a negociar de forma significativa mas também a fazê-lo rapidamente. Putin acaba de repetir hoje que nenhuma táctica de adiamento dos EUA será aceitável para a Rússia.

Até agora, parece que os EUA irão fazer uma contra-oferta a Moscovo. Se for a treta habitual sobre a exclusividade dos EUA, o mostrador da dor será mostrado muito em breve, nas próximas semanas. Se a administração “Biden” for realmente séria e mostrar sinais tangíveis, verificáveis, de que Washington negociará, então a Rússia poderá esperar um pouco mais, estamos a falar de um mês, talvez apenas um pouco mais. Mas ninguém na Rússia está a falar de anos, ou mesmo de muitos meses. O relógio está agora a contar e os EUA têm de agir com grande rapidez: antes de Março, com certeza.

Terminarei com uma nota semi-optimista: “Biden” já me surpreendeu pelo menos duas vezes e talvez “ele” o faça novamente? Muitos analistas russos parecem pensar que Sullivan é a voz da sanidade na administração dos EUA. Também sabemos que o general Milley não estava disposto a arriscar um ataque preventivo chinês (o que seria um peido num furacão em comparação com o que os russos poderiam desencadear contra os EUA se decidissem antecipar um ataque dos EUA contra a Rússia). Haverá mais vozes sãs no estado americano (profundo ou não)? Talvez os Estados Unidos façam o que a Rússia fez e tentem parecer recuar apenas para ganhar tempo? Mesmo isso seria preferível a uma guerra em grande escala.

Além disso, os russos estão bem conscientes de uma possível estratégia de retardamento, pelo que fizeram o seu ultimato vinculado a um prazo específico: “mostrem-nos algo tangível, e não apenas platitudes, ou então tomaremos medidas unilaterais”. Qualquer Presidente americano sensato não tentaria chamar a isto “o bluff de Putin”. Esperemos e rezemos para que “Biden” tenha sanidade suficiente para entender isso. Os EUA acabam de anunciar que uma resposta oficial será apresentada a Moscovo na sexta-feira.

Continuo muito, muito duvidoso, mas suponho que a esperança seja a última a morrer.


PS: hoje Putin falou com Sholtz e Macron, ontem com Johnson.
PPS: Putin declarou hoje que está “farto” do Ocidente: “E quando o direito internacional e a Carta das Nações Unidas interferem com eles, declaram tudo isto obsoleto e desnecessário”. E quando algo corresponde aos seus interesses, referem-se imediatamente às normas do direito internacional, à Carta das Nações Unidas e às regras humanitárias internacionais. Estou farto de tais manipulações”.

Autor – Analista militar.


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Sete potências e um destino

(Por José Luís Fiori, in Outras Palavras, 24/06/2021)

Ativistas do movimento socioambientalistas Extinction Rebellion encentam em 13/6, na Cornuária (Reino Unido), uma sátira fotográfica do G7.
Denominaram-na “Muita garganta e calças na mão” [All mouth and no throusrs]

Tudo, na reunião do G7, sugeria uma resposta à China. Mas tudo tinha ar de velho. Não só por parecer impossível deter Pequim, mas em especial porque sua civilização nem planeja a catequese, nem crê em supremacia moral do Ocidente.


O espetáculo foi montado de forma meticulosa, em cenários magníficos, e com uma coreografia tecnicamente perfeita. Primeiro foi o encontro bilateral entre Joe Biden e Boris Johnson, os líderes das duas grandes potências que estiveram no centro do poder mundial nos últimos 300 anos. A assinatura de uma nova Carta Atlântica foi a forma simbólica de reafirmar a prioridade da aliança anglo-americana frente aos demais membros do G7 e seus quatro convidados, que se reuniram nos dias 11 e 12 de junho numa praia da Cornuália, sul da Inglaterra, como um ritual de retorno dos Estados Unidos à liderança da “comunidade ocidental”, depois dos anos isolacionistas de Donald Trump. Em seguida, os sete governantes voltaram a se encontrar em Bruxelas, na reunião de cúpula da OTAN encarregada de redefinir a estratégia da organização militar euro-americana para as próximas décadas do século XXI. E ali mesmo, na capital da Bélgica, o presidente americano reuniu-se com os 27 membros da União Europeia pela primeira vez desde o Brexit e, portanto, sem a presença da Grã-Bretanha. Por fim, para coroar esse verdadeiro tour de force de Joe Biden em território europeu, o novo presidente dos Estados Unidos teve um encontro cinematográfico com Vladimir Putin num palácio do século XVIII, no meio de um bosque de pinheiros, às margens do Lago Leman, em Genebra, Suíça.

A reunião do G7 discutiu três temas fundamentais: a pandemia, o clima e a retomada da economia mundial. Com relação à pandemia, as sete potências anunciaram a doação coletiva de um bilhão de vacinas para os países mais pobres; com relação ao clima, reafirmaram sua decisão coletiva de cumprir com os objetivos do Acordo de Paris; e com relação à reativação da economia global, anunciaram um projeto de investimentos em infraestrutura, nos países pobres e emergentes, sobretudo no entorno da China, no valor de 40 trilhões de dólares, em clara competição com o projeto chinês do Belt and Road, lançado em 2013, e que já incorporou mais de 60 países, inclusive na Europa. Na reunião da OTAN, com a presença de Joe Biden, pela primeira vez na sua história, a organização militar liderada pelos Estados Unidos declarou que seu novo e grande “desafio sistêmico” vem da Ásia, e responde pelo nome de China. Este se transformou no estribilho de todos os demais discursos e pronunciamentos do presidente americano: de que o mundo vive uma disputa fundamental entre países democráticos e países autoritários, destacando-se, neste segundo grupo, uma vez mais, a China. Por fim, na reunião de cúpula entre Biden e Putin, que foi sobretudo um espetáculo, os dois interpretaram papéis rigorosamente programados, reafirmando suas divergências e concordando apenas no seu desejo de preservar e administrar em comum seu duopólio atômico mundial.

O problema desse espetáculo programado com tamanho esmero é que seu enredo e sua coreografia já estão ultrapassados. Em certos momentos, inclusive, um observador desatento poderia imaginar que tivesse voltado aos anos 1940-50 do século passado, quando foi assinada a primeira Carta Atlântica (em 1941), começou a Guerra Fria (em 1946), foi criada a OTAN (em 1949), e a atual União Europeia deu seus primeiros passos (em 1957). Para não falar também do lançamento pelos Estados Unidos – ainda nos anos 40 – do seu Plano Marshall de investimentos na reconstrução da Europa e o Projeto Desenvolvimentista de mobilização de capitais privados para investimento no “Terceiro Mundo”, em competição direta com a atração exercida pelo modelo econômico soviético que havia saído vitorioso na sua guerra contra o nazismo.

A diferença é que, no revival atual, a promessa de vacinas do G7 está muito aquém dos 11 bilhões solicitados pela OMS; da mesma forma, as novas metas climáticas das sete potências não inovaram em praticamente nada com relação ao que elas já haviam decidido previamente; e por fim, o novo “projeto desenvolvimentista” proposto pelos Estados Unidos e apoiado pelo G7 envolve recursos e contribuições que não foram definidos, empresas privadas que não foram consultadas, e projetos de investimento que não têm nenhum tipo de detalhamento. Além disso, a Grã-Bretanha e os demais países europeus estão divididos e mantêm relações separadas com a Rússia e com a China; são governos fracos em muitos casos, porque estão em fins de mandato como na Alemanha e na França, ou com eleições parlamentares marcadas para 2022, como no caso dos Estados Unidos, quando os democratas poderão perder sua estreita maioria congressual, paralisando o governo Biden.

Mais importante do que tudo isto, entretanto, é que a nova política externa americana e a estratégia que propôs aos seus principais aliados ocidentais estão ultrapassadas e são inadequadas para enfrentar o “desafio sistêmico chinês”. A elite política e militar americana e europeia segue prisioneira do seu sucesso e de sua vitória na Guerra Fria, e não consegue perceber as diferenças essenciais que distinguem a China da antiga União Soviética. Não apenas porque a China é hoje um sucesso econômico indispensável para a economia capitalista internacional, mas também porque a China já foi a economia mais dinâmica do mundo ao longo dos últimos vinte séculos. Basta dizer que em “dezoito dos últimos vinte séculos, a China produziu uma parcela maior do PIB mundial total do que qualquer sociedade ocidental. E ainda, em 1820, ela produzia mais de 30% do PIB mundial – quantidade que ultrapassava o PIB da Europa Ocidental, da Europa Oriental e dos Estados Unidos combinados”1.

Além do sucesso econômico, o que realmente distingue a China da antiga URSS, e a situação atual da antiga Guerra Fria, é o fato de a China ser uma “civilização milenar” muito mais do que um Estado nacional. E uma civilização que nasceu e se desenvolveu de forma inteiramente independente da civilização ocidental, com seus próprios valores e objetivos que não foram alterados por seu novo sucesso econômico.


Por isso, soa absurdo aos ouvidos chineses quando os governantes ocidentais falam de uma luta que os separa da China, entre a democracia e o autoritarismo, sem que os ocidentais consigam se dar conta de que esta polaridade é inteiramente ocidental. E que, na verdade, trata-se de uma disputa que está sendo travada neste momento dentro das próprias sociedades ocidentais, sobretudo nos Estados Unidos, mas também em alguns países europeus, onde a democracia vem sendo ameaçada pelo avanço de forças autoritárias e fascistas. A civilização chinesa não tem nada a ver com isso, nem pretende se envolver com essa briga interna do Ocidente. Sua história e seus princípios éticos e políticos nasceram e se consolidaram há três mil anos, muito antes das civilizações greco-romana e cristã do Ocidente. Até hoje, os chineses não tiveram nenhum tipo de religião oficial, nem jamais compartilharam seu poder imperial com nenhum tipo de instituição religiosa, nobreza hereditária ou “burguesia” econômica, como aconteceu no Império Romano e em todas as sociedades europeias. Durante suas sucessivas dinastias, o império chinês foi governado por um mandarinato meritocrático que pautou sua conduta pelos princípios da filosofia moral confuciana, laica e extremamente hierárquica e conservadora, que foi adotada como doutrina oficial pelo Império Han (206 a.C.-221 d.C.), e depois se manteve como a bússola ética do povo e da elite governante chinesa até os dias de hoje. Uma visão absolutamente rigorosa e hierárquica do que seja um “bom governo”, e do que sejam suas obrigações com o povo e a civilização chinesa.

Foi o Império Han que construiu a “Rota da Seda” e começou a instituir o sistema de relações “hierárquico-tributárias” da China com seus povos vizinhos. Depois a China dividiu-se várias vezes, mas sempre voltou a reunificar-se, mantendo sua fidelidade à sua civilização e à sua moral confuciana. Isto aconteceu no século IX, com a Dinastia Song (960-1279), e voltou a ocorrer com a Dinastia Ming (1368-1644), que reorganizou o Estado chines e liderou uma nova “época de ouro” da civilização chinesa, de grande criatividade e conquistas territoriais. E o mesmo voltaria a ocorrer, finalmente, durante a Dinastia Qing, entre 1644 e 1912, quando a China duplicou seu território. Depois, entretanto, foi derrotada pela Grã-Bretanha e pela França, nas duas Guerras do Ópio, em 1839-1842 e 1856-1860, e submetida a um século de assédio e humilhação por parte das potências ocidentais, até os chineses reassumirem seu próprio comando após a sua revolução republicana de 1911, e a vitoriosa revolução comunista de 1949.

A história recente é mais conhecida de todos: nos últimos 30 anos, a economia chinesa foi a que mais cresceu, e hoje é a segunda maior economia do mundo, devendo superar a norte-americana até o final da terceira década do século XXI. Nos últimos cinco anos, a China logrou erradicar de seu território a pobreza absoluta, venceu a luta contra a pandemia, vacinou mais de um bilhão de chineses e já exportou ou doou cerca de 600 milhões de vacinas para os países mais pobres do sistema mundial. Ao mesmo tempo, nos primeiros meses de 2021, a China pousou o seu robô Zhu Ronc na superfície do planeta Marte; iniciou a montagem e colocou em funcionamento sua própria estação espacial ao redor da Terra – Tiangong; enviou com sucesso a nave Shezhou 12, com três taikonautas para permanecerem três meses na nova estação; anunciou para 2024 a colocação em órbita de um telescópio 300 vezes mais potente do que o Hubble, dos norte-americanos2; tornou público o roadmap feito junto com os russos para a criação de um laboratório e experimentação lunar, com instalações colocadas na superfície e na órbita da Lua; concluiu a construção do protótipo de computador quântico – batizado como Jihuzang – capaz de executar certos tipos de cálculo 100 trilhões de vezes mais rápido que o atual supercomputador mais potente do mundo; avançou na construção do seu reator de fusão nuclear (o Toka Mak Experimental Super Conductor), o “sol artificial” que já atingiu uma temperatura de 160 milhões de graus centígrados. Por outro lado, com os pés na terra, a China já é hoje, depois de apenas vinte anos do começo do seu programa de trens de alta velocidade, o país com a maior rede de trens-bala, e acabou de apresentar o protótipo de seu novo trem com levitação magnética que poderá alcançar até 800 km por hora.3

Apesar de todo o estrondoso sucesso social, econômico e tecnológico, a China não está se propondo ao mundo como um modelo de validade universal, nem está se propondo substituir os Estados Unidos como centro articulador do “poder global”. Não há dúvida de que seu sucesso já a transformou numa vitrine extremamente atrativa para o mundo. Mesmo assim, o que mais aflige os governantes ocidentais é o sucesso de uma civilização diferente da sua e que não mostra o menor interesse em disputar ou substituir a tábua de valores da Cornuália. O que parece que as potências ocidentais não conseguem perceber inteiramente é que está instalada no mundo uma nova espécie de “equipotência civilizatória” que já rompeu com o monopólio ético do Ocidente, tornando público um dos segredos mais bem guardados pelas grandes potências vitoriosas de todos os tempos: o fato de que só elas definem os valores e a regras do sistema mundial, porque só elas fazem parte do que o historiador e teórico inglês Edward Carr chamou de “círculo privilegiado dos criadores da moral internacional”.4

Hoje parece rigorosamente impossível reverter a expansão social, econômica e tecnológica chinesa. E seria uma “temeridade global” tentar bloqueá-la através da guerra convencional. Assim mesmo, se prevalecerem a onipotência e a insensatez das “potências catequéticas”, o “acerto de contas” do Ocidente com a China já está agendado e tem lugar e hora marcados: será na Ilha de Taiwan. Mas não é impossível imaginar um futuro em que o hiperpoder econômico e militar dessas grandes civilizações que dominarão o mundo no século XXI impeça uma guerra frontal e possibilite um longo período de “armistício imperial” em que se possa testar a proposta chinesa de um mundo em que todos ganhem, como vem defendendo o presidente chinês Xi Jinping, ou mesmo a proposta alemã de uma “parceria competitiva” com a China, como propõe Armin Laschet, provável sucessor de Angela Merkel. O problema é que um “armistício imperial” desse tipo requer que as “sete potências da Cornuália” abram mão de sua “compulsão catequética” e do seu desejo de converter o resto do mundo aos seus próprios valores civilizatórios.


1Kissinger, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2011, p. 28. p:29

2Para efeito de comparação, o Programa Espacial Chines foi criado em 1991, três anos apenas antes da criação da Agencia Espacial Brasileira, em 1994.

3Ainda para efeito de comparação, o Brasil havia planejado há uma década atrás, inaugurar seu primeiro trem-bala importado no dia 30 de junho de 2020.

4Carr, E. H., The Twenty Years’ Crisis, 1919-1939. New York: Perennial, 2001, p. 80.


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G7: Uma procura desesperada por relevância

(Por Pepe Escobar, in Resistir, 09/06/2021)

O próximo G7 na Cornualha à primeira vista pode ser encarado como o estranho encontro da “América está de volta” (“America is Back”) com a “Global Britain”.

Contudo, o grande quadro é muito mais delicado. Três cimeiras seguidas – G7, NATO e EUA-UE – estarão a abrir caminho para um muito aguardado drama de suspense: a cimeira Putin-Biden em Genebra – a qual certamente não será uma reinicialização.

Os interesses que controlam por trás o holograma que dá pelo nome de “Joe Biden” têm uma agenda claramente abrangente: arregimentar democracias industrializadas – especialmente as da Europa – e mantê-las coesas a fim de combater ameaças “autoritárias” à segurança nacional dos EUA, a “maligna” Rússia e a China.

É como um regresso àqueles dias tão estáveis da Guerra Fria dos anos 70, completos com James Bond a combater demónios estrangeiros e a subversão comunista do Deep Purple. Bem, os tempos em estão mudados. A China está consciente de que agora o Sul Global “representa quase dois terços da economia global a comparação com um terço do Ocidente: na década de 1970, era exactamente o oposto”.

Para o Sul Global – ou seja, a esmagadora maioria do planeta – o G7 é em grande medida irrelevante. O que importa é o G20. A China, a superpotência económica em ascensão, provém do Sul Global e é líder no G20. Por todos os seus problemas internos, os actores da UE no G7 – Alemanha, França e Itália – não podem dar-se ao luxo de antagonizar Pequim em termos económicos, comerciais e de investimento.


Um G7 reinicializado como uma cruzada sinofóbica não terá compradores. Incluindo o Japão e convidados especiais na Cornualha: a potência tecnológica da Coreia do Sul, a Índia e a África do Sul (ambos membros dos BRICS), apresentaram a cenoura suspensa de uma possível adesão ampliada.

A ofensiva de relações públicas de Washington resume-se a vender-se como o primus inter pares do Ocidente, como um líder global revitalizado. A razão pela qual o Sul Global não compra isso pode ser observada, graficamente, pelo que aconteceu durante os últimos oito anos. O G7 – e especialmente os americanos – simplesmente não conseguiu responder à ampla estratégia de comércio/desenvolvimento pan-euro-asiático da China, a Belt and Road Initiative (BRI).

A “estratégia” americana até agora – demonização constante do BRI como uma “armadilha da dívida” e uma máquina de “trabalho forçado” – não teve êxito. Agora, demasiado pouco e demasiado tarde, surge um esquema do G7, envolvendo “parceiros” como a Índia, para “apoiar”, pelo menos em teoria, vagos “projectos de alta qualidade” por todo o Sul Global: é a Iniciativa Verde Limpo (Clean Green Initiative), centrada no desenvolvimento sustentável e na transição verde, a ser discutida tanto nas cimeiras do G7 como nas cimeiras EUA-UE.

Em comparação com a BRI, a Clean Green Initiative dificilmente se qualifica como uma estratégia geopolítica e geoeconómica coerente. A BRI foi endossada e participada por mais de 150 estados-nação e organismos internacionais – e isso inclui mais da metade dos 27 membros da UE.

Os factos no terreno contam a história. A China e a ASEAN estão prestes a fechar um acordo de “parceria estratégica abrangente”. O comércio entre a China e os países europeus do centro e do leste (CCEC), também conhecidos como o grupo 17+1, incluindo 12 países da UE, continua a aumentar . A Estrada da Seda Digital, a Estrada da Sede da Saúde e a Estrada da Seda Polar continuam a avançar.

Assim, o que resta é um estridente ronco ocidental sobre vagos investimentos em tecnologia digital – talvez financiados pelo Banco Europeu de Investimento, sediado no Luxemburgo – a fim de extirpar o “alcance autoritário” da China por todo o Sul Global.

A cimeira UE-EUA pode estar a lançar um “Conselho de Comércio e Tecnologia” para coordenar políticas sobre 5G, semicondutores, cadeias de fornecimento, controlos de exportação e regras e normas tecnológicas. Um lembrete gentil: a UE e os EUA simplesmente não controlam este ambiente complexo. Eles precisam muito da Coreia do Sul, de Formosa e do Japão.

Espere um minuto, Sr. Cobrador de impostos

Para ser justo, o G7 pode ter prestado um serviço público a todo o mundo quando os seus ministros das Finanças fizeram um alegado acordo “histórico” no sábado passado em Londres sobre um imposto global mínimo de 15% [NR] sobre as empresas multinacionais (MNCs).

triunfalismo estava a funcionar – com infindáveis elogios à “justiça” e à “solidariedade fiscal” aliados a notícias realmente más para variados paraísos fiscais.

Bem, isso é ligeiramente mais complicado.

Este imposto foi discutido aos mais altos níveis da OCDE, em Paris, durante mais de uma década – especialmente porque estados-nação estão a perder pelo menos US$427 mil milhões por ano em evasões fiscais das multinacionais e multi-milionários variados. Em termos do cenário europeu isso nem mesmo chega à perda de IVA por fraude – algo alegremente praticado pela Amazon, dentre outros.

Por isso, não é de admirar que os ministros das Finanças do G7 tivessem os US$1,6 milhão de milhões (trillion) da Amazon quase na sua mira . A divisão de computação em nuvem da Amazon deveria ser tratada como uma entidade separada. Neste caso, o grupo mega-tecnologia terá de pagar mais impostos corporativos em alguns dos seus maiores mercados europeus – Alemanha, França, Itália, Reino Unido – se o imposto global de 15% for ratificado.

Portanto, sim, trata-se sobretudo da Big Tech – peritos em fraude fiscal e em lucrar com paraísos fiscais localizados mesmo dentro da Europa, tais como a Irlanda e o Luxemburgo. A forma como a UE foi construída permitiu que a concorrência fiscal entre os estados-nação se instalasse. Discutir isto abertamente em Bruxelas continua a ser um tabu virtual. Na lista oficial da UE de paraísos fiscais, não se encontra o Luxemburgo, os Países Baixos ou Malta.

Poderia tudo isto ser apenas um golpe de RP? É possível. O grande problema é que no Conselho Europeu – onde governos dos estados-membro da UE discutem as suas questões – eles têm estado a arrastar os pés durante um longo tempo e o destino delegou tudo isso para a OCDE.

Tal como estão as coisas, pormenores sobre o imposto de 15% ainda são vagos – mesmo que o governo dos EUA se prepara para tornar-se o grande vencedor, porque as suas MNCs deslocaram lucros maciços por todo o planeta a fim de evitar os impostos corporativos dos EUA.

Sem mencionar que ninguém sabe se, quando e como o acordo será globalmente aceite e implementado: isso será uma tarefa de Sísifo. Pelo menos será discutido, novamente, no G20 em Veneza, em Julho.

O que quer a Alemanha

Sem a Alemanha não haveria qualquer avanço real no Acordo de Investimento UE-China do fim do ano passado. Com uma nova administração nos EUA, o acordo está outra vez num impasse. A chanceler Merkel, que está de saída, é contra a desconexão económica China-UE – assim como os industriais alemães. Será um grande prazer assistir a esta subtrama no G7.

Em suma: A Alemanha quer continuar a expandir-se como uma potência comercial global utilizando a sua grande base industrial, ao passo que os anglo-saxões abandonaram completamente a sua base industrial para abraçar a financeirização não produtiva. E a China, por seu lado, quer comerciar com todo o planeta. Adivinhe quem é o jogador bizarro.

Considerando o G7 como um encontro de facto da potência hegemónica com as suas hienas, chacais e chihuahuas, será também um grande prazer observar a semântica. Que grau de “ameaça existencial” será atribuído a Pequim – especialmente porque para os interesses por trás do holograma “Biden” a verdadeira prioridade é o Indo-Pacífico?

Estes interesses não se poderiam importar com um anseio da UE por uma autonomia mais estratégica. Washington anuncia sempre os seus ditames sem sequer se preocupar em consultar Bruxelas previamente.

Portanto, é disto que trata este Triplo X de cimeiras – G7, NATO e UE-EUA: a potência hegemónica a fazer tudo para conter/fustigar a emergência de um poder em ascensão, alistando as suas satrápias para “combater” e assim preservar a “ordem internacional baseada em regras” que concebeu há mais de sete décadas.

A história nos ensina que isto não funcionará. Apenas dois exemplos: os impérios britânico e francês não poderiam travar a ascensão dos EUA no século XIX. E, ainda melhor, o eixo anglo-americano só travou a ascensão simultânea da Alemanha e do Japão pagando o preço de duas guerras mundiais, com o império britânico destruído e a Alemanha outra vez como potência líder na Europa.

Isso deveria dar à reunião da “América está de volta” (“America is Back”) e da “Global Britain” na Cornualha o estatuto de uma mera nota de rodapé histórica.


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