A nova Guerra Fria não será fria

(Francisco Louçã, in Expresso, 08/08/2020)

Na relação com a China, Trump opta pela tensão máxima. Mas é a economia que manda no conflito, o que o torna mais imprevisível do que o confronto EUA-URSS

Mike Pompeo, um sempre surpreendente chefe da diplomacia norte-americana, fez há dias um discurso definindo o programa do conflito com a China em que anuncia que é tempo de terminar o “paradigma de compromisso cego” que vigora desde a viagem de Nixon em 1972, há quase 50 anos, e que, “se queremos um século XXI livre, o mundo livre tem de triunfar contra esta nova tirania”. Alguns analistas descobriram nesta agressividade o esboço de uma nova Guerra Fria ou uma repetição da história. Estão enganados.

A POLÍTICA DO MEDO

Na disputa pela sua reeleição, atormentado pela incompetência grosseira da sua resposta à pandemia, que levanta contra ele parte da “maioria silenciosa” que o elegeu, Trump só pode tentar salvar-se através de dois expedientes: o medo interno (a ordem contra os desordeiros) ou o medo externo (a tensão com a China). Vai usar os dois. O primeiro foi ensaiado por estes dias em Portland, com a intervenção na rua de agentes federais sem permissão das autoridades estaduais, procurando agravar o conflito e sobrepor-lhe uma confusão institucional. O segundo foi exposto por Pompeo e vai ser dramatizado até ao dia das eleições. Vai haver muito mais disto, com manobras militares, provocações e ameaças, logo veremos até onde pode ir, para dominar a agenda eleitoral. Só que não é uma nova Guerra Fria. A ser alguma coisa é diferente e só pode ser pior. A Trump, em rota de derrota, só resta a ordem do caos, e é nela que vai basear a sua tentativa de recuperação.

A Guerra Fria entre os EUA e a URSS foi uma estratégia bilateral de tensão política e militar de longo prazo, que bordejou o conflito aberto (a crise de Berlim, os mísseis em Cuba), mas sempre o evitou (as guerras eram por procuração, como em África). No entanto, as duas potências tinham escassa relação económica.

Hoje, a China é o principal destino das exportações norte-americanas (incluindo, por ordem de grandeza, a compra de aviões, máquinas, instrumento médicos e automóveis, produtos agrícolas) e os EUA são o principal destino das chinesas (por ordem, máquinas, móveis, brinquedos, plásticos), entre três e quatro vezes mais valiosas. Até abril, a diferença já ultrapassa 100 mil milhões de dólares. Poderá ser o triplo no final do ano.

DEPENDÊNCIA MÚTUA E TENSÃO MÁXIMA

Com esse rendimento, a China compra a dívida pública norte-americana e vende produtos baratos, além de mandar 400 mil estudantes cujas propinas sustentam as universidades dos EUA. Uma rutura teria uma implicação devastadora na economia norte-americana e significaria imediatamente a redução dos salários reais no país. Por isso, uma repetição de uma Guerra Fria de longo desgaste e isolamento dificilmente acontecerá, além de que poderia significar a derrota da potência dominante. Se a nova guerra é primordialmente económica, o que significa que não dispensa os porta-aviões mas que se concentra em novas ameaças, como a transformação do sistema de pagamentos bancários internacionais em arma de destruição massiva, as suas primeiras trincheiras já estão à nossa vista, são a Huawei e a TikTok ou a dominação dos sistemas de comunicações. Aí será a luta sem quartel.

Assim, é a economia que manda no conflito, o que o torna mais imprevisível do que o confronto EUA-URSS. Além disso, e ao contrário do que se passou durante a Guerra Fria, o limite institucional está agora consagrado à sobrevivência de um bufão. E, se só um Presidente desesperado pode escolher a tensão máxima, é mesmo um homem dessa raça que mora agora na Casa Branca, para quem o futuro é nada mais do que um jogo pessoal.


Dentro de meses será tarde demais para o Novo Banco

Se há algo em Portugal que seja tão regular e previsível como o relógio de cuco são os escândalos no Novo Banco. A administração, que já recebeu o quinhão anual prometido pelo contrato negociado por Sérgio Monteiro e certificado pelo Banco de Portugal e por Mário Centeno, exige agora mais €176 milhões por conta de prejuízos deste ano. Mas, sendo esta gula ilimitada, os supervisores sentiram-se forçados a revelar, a tal os obriga a pressão pública, que há €260 milhões que foram irregularmente incluídos nas contas e que estavam fora do perímetro das contas que determinam as injeções públicas. A trapalhada monumental em que se tornou o que foi o maior banco privado nacional estava inscrita desde o primeiro dia deste processo, mas não deixa de surpreender pela imaginação fértil.

O problema é que não foi difícil. Houve, como seria de esperar, uma conjugação de demasiada incompetência ou de interessada competência: a Deloitte atrasa a auditoria, já vai em cinco meses, e não se sabe o que apresentará, o Fundo de Resolução nem tem meios nem parece ter vontade de controlar as operações, o Ministério das Finanças aprecia mais as reivindicações do Lone Star do que as contas públicas. Todos se conjugaram para este maravilhoso resultado.

Se houver uma réstia de decência, substituir a administração do Novo Banco, cuja idoneidade está posta em causa por sucessivas operações desastradas para impor prejuízos ao erário público, é a primeira condição para o saneamento da instituição. Se assim não for, ao longo deste ano continuará a limpeza do baú em modo catástrofe, para no fim o cadáver do banco ser vendido a algum outro aventureiro por tuta e meia.


As dinastias do eixo do mal

Com dados da OCDE publicados esta semana, a Tax Justice Network, uma rede de investigadores que se dedica ao combate à fraude fiscal e à lavagem de dinheiro, detetou 467 mil milhões de dólares de lucros empresariais escondidos em offshores para evitar o pagamento de impostos no ano passado. As perdas em impostos devidos teriam sido de 117 mil milhões. Constata-se que o Reino Unido, a Suíça, o Luxemburgo e a Holanda captam 72% deste total. A Holanda é campeã, seguindo-se vários territórios britânicos (como as Bermudas). O Reino Unido, aliás, impediu agora a OCDE de publicar os dados detalhados país por país, apesar de há quatro anos o ter aceite.

Mas, como se trata de dados sobre unicamente 15 países, os investigadores usaram a metodologia do FMI para projetarem um total mundial de 1,3 biliões de dólares escondidos das autoridades fiscais, que perderão 330 mil milhões de pagamentos devidos. Nenhuma surpresa com esta constatação. É para isso que servem os offshores, para ocultar fortunas e para proteger a fuga ao fisco e a corrupção. Sem esses instrumentos, os bancos que procediam tradicionalmente a estas operações teriam muito mais dificuldade em ocultá-las. Aliás, como aqui lembrei um dia, foi precisamente para o garantir que foi aprovada a legislação do sigilo bancário na Europa na década de 30.

Não é de surpreender, portanto, que os offshores sejam tão conspícuos nos crimes de colarinho branco como a Dona Constança em cada festança. No caso recente da comissão saudita paga ao rei Juan Carlos e escondida numa conta suíça, o padrão é o mesmo. As contas secretas servem precisamente para isso, para ocultar as fortunas, para não pagar os impostos e para proteger o crime da corrupção. O certo é que não foi o primeiro caso, mesmo em tempos recentes. Há anos, o príncipe Bernhard, consorte da rainha Juliana da Holanda, recebeu um bónus da Lockheed para facilitar um contrato militar, o que só reconheceu no final da vida. O cunhado do atual rei de Espanha, Iñaki Urdangarin, foi condenado a prisão por fraude fiscal. O pequeno detalhe monárquico acrescenta uma dimensão nova a estes crimes: quem defende que a chefia do Estado deve ser entregue perpetuamente a uma família cujo poder não seja submetido à democracia e que aceite ainda a transmissão do poder por privilégio de nascimento dificilmente evitará a consequência: notar que o poder irrevogável facilita o crime. Então, se há neste imbróglio espanhol uma vantagem, é mostrar que, havendo delito, a dinastia favorece a perceção de impunidade pelos criminosos. Juan Carlos presta, assim, um último serviço à democracia: exibir a consequência do privilégio régio.


Tal como a Líbia e a Síria, a Venezuela não é “só sobre petróleo”

(Por André Vltchek, 01/05/2019, Tradução de Luís Garcia)

Sim, a mais recente pesquisa confirma que a Venezuela é tão rica em recursos naturais que poderia sozinha satisfazer toda a procura mundial de petróleo durante mais de 30 anos. E tem muito mais do que petróleo para oferecer na sua bacia do Orinoco e noutras áreas do país.

Mas a questão aqui não é só “só sobre petróleo”. Longe disso!

Aqueles que acreditam que o que impulsiona a propagação do terror Ocidental pelo mundo afora são apenas alguns “interesses comerciais” e a lendária ganância Ocidental estão, do meu ponto de vista, a passar ao lado da questão.

Noto que tais indivíduos e analistas deveras acreditam que “o capitalismo é responsável por tudo” e que este cria a cultura da violência de que, quer vítimas quer agressores, já se tornaram todos reféns.

Depois de ter trabalhado em todas as partes do mundo, estou cada vez mais convencido de que, na realidade, o capitalismo é que é fruto da cultura ocidental, cultura essa que se baseia predominantemente no expansionismo, no excepcionalismo e na agressão. Esta cultura assenta também num desejo profundamente enraizado de controlar e de ditar. A ganância financeiro-monetária é apenas um subproduto desta cultura que elevou a sua superioridade a algo que poderia até ser definido como religioso ou mesmo religiosamente fundamentalista.

Por outras palavras, a crença na sua própria superioridade é, actualmente, a principal religião quer na Europa quer na América do Norte.

O que torna afinal tão semelhantes os cenários líbios, sírios e venezuelanos? Porque é que o Ocidente se mostra tão ansioso por atacar e destruir estes três países que, à primeira vista, parecem ser tão diferentes?

A resposta é simples, embora raramente seja pronunciada no Ocidente (pelo menos publicamente):

“Os três países estiveram na vanguarda da promoção e luta determinada por conceitos como o “pan-africanismo”, o “pan-arabismo” e a Patria Grande que, na sua essência, defende a independência e unidade Latino-Americana.”

Gaddafi, al-Assad e Chávez foram regional e internacionalmente reconhecidos como combatentes anti-imperialistas, inspirando e dando esperança a centenas de milhões de pessoas.

Gaddafi foi assassinado, Chávez provavelmente também foi morto e Al-Assad e sua nação têm vindo a lutar literalmente, e por vários anos, pela sua sobrevivência.

O actual presidente venezuelano Maduro, que é decididamente leal aos ideais revolucionários Bolivarianos, já sobreviveu a pelo menos uma tentativa de assassinato e, agora, enfrenta ameaças directas ao bom estilo mafioso provenientes do Ocidente. A qualquer momento, o seu país pode ser atacado, directamente ou através dos estados latino-americanos “vassalos” do Ocidente.

Assim é porque a África, o Médio Oriente e a América Latina foram durante séculos tratados como suas colónias. Assim é porque sempre que as pessoas se revoltavam, eram quase imediatamente esmagadas pelo punho de ferro do imperialismo ocidental. E aqueles que pensam que estão ao comando do planeta graças a algum divino desígnio, esses não querem que as coisas jamais mudem.

A Europa e a América do Norte estão obcecadas com a ideia de controlar os outros e, para o fazer, sentem que têm de se certificar que exterminam toda e qualquer oposição nas suas colónias e neo-colónias.

É um verdadeiro estado de enfermidade mental no qual o Ocidente se encontra; um estado que eu, em meus trabalhos anteriores, defini como Transtorno Sádico de Personalidade (TSD).

Para se obter um quadro completo, é preciso também recordar a Indonésia, que foi literalmente liquidada enquanto nação independente e progressista em 1965. O seu presidente internacionalista, Sukarno (pai do Movimento dos Países Não-Alinhados e aliado próximo do Partido Comunista da Indonésia, o PKI), foi derrubado pelo general Suharto escolhido a dedo pelo Ocidente, um intelectual traiçoeiro e moralmente perturbado, abrindo assim as portas ao turbo-capitalismo e à pilhagem desenfreada dos recursos naturais da sua nação. Outrora uma luz orientadora da luta pela independência de toda a Ásia, depois do horrífico genocídio orquestrado pelos EUA/Reino Unido/Austrália, a Indonésia foi reduzida a nada mais do que um estado “vassalo” do Ocidente, pobre e lobotomizado.

O Ocidente tem a incrível capacidade de identificar verdadeiros líderes independentistas regionais e os desacreditar e os tornar vulneráveis através da mentira para, em seguida, defender a assim chamada “oposição local” e, mais tarde, liquidá-los a eles e também aos seus países e até mesmo as suas regiões inteiras.

Às vezes, o Ocidente ataca países específicos, como foi o caso do Irão (1953), Iraque ou Nicarágua. Mas, mais frequentemente, ataca directamente o “peixe graúdo” (líderes de oposição a um nível regional), como na Líbia, na Indonésia, na Síria e agora na Venezuela.

Muitos indivíduos, desafiadores da ordem ocidental já foram literalmente assassinados: Gaddafi, Hussein, Lumumba e Chávez, para citar apenas alguns.

E claro, faça o que fizer, o Ocidente está tentado em destruir os maiores líderes da coligação anti-ocidental e anti-imperialista: Rússia e China.

A questão está bem longe de ser apenas sobre petróleo ou sobre lucros.

O Ocidente sente necessidade de governar. É obcecado com a ideia de controlar o mundo, de sentir-se superior e excepcional. É um jogo, um jogo mortal. Durante séculos, o Ocidente tem-se comportado como um fanático religioso fundamentalista, e o seu povo nunca sequer reparou que as suas perspectivas sobre o mundo se tornaram de facto sinónimos de excepcionalismo e de superioridade cultural. É por isso que o Ocidente é tão bem-sucedido em criar e injectar movimentos religiosos extremistas de todas as denominações em praticamente todas as partes do mundo: da Oceânia à Ásia, da África à América Latina e, claro, na China. Os líderes ocidentais sentem-se “em casa” com extremistas cristãos, muçulmanos ou até budistas.

Mas a Síria conseguiu sobreviver e até hoje mantém-se pé. A única razão pela qual as forças governamentais não estão tentando reconquistar o último bastião terrorista de Idlib é porque a população civil sofreria enormes perdas durante essa batalha.

A Venezuela também recusa se ajoelhar e render-se. E é claro que, se o Ocidente e seus aliados se se atreverem a atacar, a resistência, alguns milhões de pessoas, irão lutar pelas suas vilas e campos e, se necessário, retirar-se-ão para a selva e haverão de travar uma guerra de libertação de guerrilha contra os invasores e contra as traidoras elites.

Washington, Londres, Paris e Madrid estão claramente utilizando uma estratégia extremamente desactualizada: uma estratégia que funcionou contra a Líbia, mas que falhou completamente na Síria.

Recentemente, na Síria, perto da linha de frente de Idlib, dois comandantes de alta patente disseram-me que estão lutando “não só pela Síria, mas por todo o mundo oprimido, incluindo a Venezuela”. Eles perceberam com clareza que o Ocidente está usando contra Caracas exactamente a mesma estratégia que tentou usar contra Damasco.

Agora, também a Venezuela também está sofrendo e lutando em nome de todo o mundo oprimido.

Não tem “o direito de falhar”, tal como a Síria não teve o direito de se render.

A destruição da Líbia já havia causado um enorme impacto negativo em África. E abriu as portas à renovada e desenfreada pilhagem francesa do continente. A França prontamente juntou-se ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

A Síria é o último bastião no Médio Oriente. É tudo o que sobra agora, resistindo ao controlo total do Médio Oriente pelo Ocidente. Síria e Irão. Mas o Irão ainda não é uma “frente”, embora muitas vezes pareça que em breve se possa tornar numa.

A Venezuela não pode cair, pelas mesmas razões. Está no extremo norte da América do Sul. Abaixo, há um continente inteiro aterrorizado pela Europa e pela América do Norte,  e que durante séculos e séculos foi brutalizado, pilhado e torturado. Uma América do Sul onde dezenas de milhões de pessoas costumavam ser exterminadas como animais, forçadas a se converter ao cristianismo, roubadas de tudo e obrigadas a seguir bizarros modelos políticos e económicos ocidentais.

No Brasil, o governo socialista progressista do PT já foi derrubado.

Se a Venezuela cair, tudo pode ser perdido, por décadas, talvez até séculos.

E por isso lutará. Juntamente com os outros poucos países de esquerda que ainda sobram nesse “hemisfério ocidental”; países que os ditadores em Washington D.C. abertamente descrevem como “o seu quintal”.

Caracas ergue-se e luta pelas vastas favelas do Peru, por milhões de carentes no Paraguai, pelas favelas brasileiras, por aquíferos privatizados e pela floresta tropical assassinada no Brasil.

Exactamente como a Síria tem lutado pela Palestina, pelas abandonadas minorias da Arábia Saudita e do Barém, pelo Iémene, pelo Iraque e pelo Afeganistão (estes últimos, dois países a quem a NATO roubou quase tudo).

A Rússia já mostrou o que pode fazer pelos seus irmãos árabes, e agora está a demonstrar a sua disponibilidade para apoiar o seu outro aliado chegado, a Venezuela.

A China está rapidamente juntando-se à coligação de combatentes anti-imperialistas. Outro exemplo é a África do Sul.

Não, a Venezuela não é só sobre petróleo.

É sobre o Ocidente ser capaz de impedir o acesso de navios chineses ao Canal do Panamá.

É sobre o controlo total do mundo: ideológica, política, económica e socialmente. Sobre liquidar toda a oposição no Hemisfério Ocidental.

Se a Venezuela cair, o Ocidente pode ousar atacar a Nicarágua e, em seguida, atacar o bastião do socialismo e do internacionalismo: Cuba.

É por isso que não se deverá nunca permitir que a Venezuela caia. 

A batalha pela Venezuela já está a ser travada, em todas as frentes, incluindo a ideológica. Na Venezuela não estamos apenas lutando por Caracas, Maracaibo ou Ciudad Bolivar. Estamos lutando por todo o mundo oprimido, como fizemos e estamos fazendo em Damasco, Aleppo, Homs e Idlib, como podemos ter que fazer em breve em muitas outras cidades do mundo inteiro. Enquanto o imperialismo Ocidental se mantiver vivo, enquanto não desistir dos seus sonhos de controlar e arruinar a totalidade do planeta, não podemos descansar, não podemos baixar a guarda, não podemos celebrar vitória final em nenhuma parte do mundo.

E portanto, tudo isto está longe de ser “apenas sobre petróleo”. É sobre a sobrevivência do nosso planeta inteiro.


Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês na NEO – New Eastern Outlook.

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula: O Brasil de Bolsonaro – O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.


A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos

(Por Thierry Meyssan, rede Voltaire, 26/03/2019)

Muitos pensam que os Estados Unidos estão muito activos mas que não concretizam grande coisa. Por exemplo, que as suas guerras ao Médio-Oriente Alargado são uma sucessão de fracassos. Mas, para Thierry Meyssan eles têm uma estratégia militar, comercial e diplomática coerente. De acordo com os seus próprios objectivos, ela avança pacientemente e é coroada de sucesso.



Os pensadores da Grande estratégia dos EUA : o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld e o seu conselheiro Almirante Arthur Cebrowski ; o Presidente Donald Trump e o seu conselheiro comercial Peter Navarro ; e por fim o Secretário de Estado Mike Pompeo e o seu conselheiro Francis Fannon.

É habitual nos Estados Unidos crer que o país já não tem qualquer Grande Estratégia desde o fim da Guerra Fria. Uma Grande Estratégia, é uma visão do mundo que se tenta impor e que todas as administrações devem respeitar. Assim, se se perde num teatro de operações, em particular, prossegue-se em outros e acaba por se triunfar. No fim da Segunda Guerra Mundial, Washington escolheu seguir as directivas fixadas pelo Embaixador George Keenan no seu célebre telegrama diplomático. Tratava-se de descrever um pretenso expansionismo soviético para justificar uma contenção da URSS (containment). Efectivamente, muito embora eles tenham perdido as guerras da Coreia e do Vietname, os Estados Unidos acabaram por triunfar.

É muito raro conseguir lembrar uma Grande Estratégia, mesmo se houve outras neste período como com Charles De Gaulle, em França.

No decurso dos dezoito últimos anos, Washington conseguiu progressivamente fixar novos objectivos e novas tácticas para os atingir.

1991-2001 : um período de incerteza

Aquando do desaparecimento da União Soviética, a 25 de Dezembro de 1991, os Estados Unidos de Bush Sr consideraram que não tinham rival. O Presidente vitorioso pelas circunstâncias desmobilizou 1 milhão de soldados e imaginou um mundo de paz e de prosperidade. Ele liberalizou as transferências de capitais para que os capitalistas pudessem enriquecer-se e, acreditava ele, assim enriquecer os seus concidadãos.

No entanto o capitalismo não é um projecto político, mas, sim um meio de ganhar dinheiro. As grandes empresas dos EUA —não o Estado federal— aliaram-se ao Partido Comunista chinês (de onde a famosa «viagem para o Sul» de Deng Xiaoping). Elas deslocalizaram as suas empresas, de fraco valor acrescentado no Ocidente, para a China, onde os trabalhadores não eram instruídos, e onde os salários eram em média 20 vezes menores. Começava o longo processo de desindustrialização do Ocidente.

Para gerir os seus negócios transnacionais, o Grande capital deslocou os seus bens para países de fiscalidade reduzida onde descobriu que podia escapar às suas responsabilidades sociais. Estes países, nos quais o regime fiscal de excepção e a discrição são indispensáveis ao comércio internacional, viram-se subitamente embarcados numa gigantesca optimização fiscal, ou seja numa fraude maciça, da qual beneficiaram pela calada. O reino da Finança sobre a Economia começava.

Estratégia militar

Em 2001, o Secretário da Defesa, e membro permanente do «governo de continuidade» [1], Donald Rumsfeld, criou um Gabinete de Transformação da Força (Office of Force Transformation) que ele confiou ao Almirante Arthur Cebrowski. O personagem, que havia já informatizado as Forças Armadas, modificou então a sua missão.

O mundo sem a União Soviética tornara-se unipolar, quer dizer não mais governado de acordo com o Conselho de Segurança, mas unicamente pelos Estados Unidos. Para manter a sua posição dominante, eles deviam «ceder nos tostões para guardar os milhões», quer dizer dividir a humanidade em duas partes. De um lado, os Estados estáveis (os membros do G8 —Rússia incluída— e seus aliados), do outro o resto do mundo considerado como um simples reservatório de recursos naturais. Washington já não considerava mais o acesso a estes recursos como vital para si mesmo, mas entendia que não deviam ficar acessíveis aos Estados estáveis sem passar por si. Convinha pois, desde logo, destruir preventivamente todas as estruturas estatais neste reservatório de recursos, de tal maneira que ninguém pudesse um dia opor-se à vontade da primeira potência mundial, nem passar sem ela [2].

Esta estratégia foi posta em acção desde aí sem interrupções. Ela começou no Médio-Oriente Alargado (Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Iémene). Todavia, contrariamente ao que havia sido anunciado pela Secretária de Estado Hillary Clinton (Pivot to Asia), ela não se estendeu para o Extremo-Oriente por causa do desenvolvimento militar chinês, antes para a Bacia das Caraíbas (Venezuela, Nicarágua).

Estratégia diplomática

Em 2012, o Presidente Barack Obama retomou o leitmotiv do Partido Republicano e fez da exploração do petróleo e do gás de xisto por fracturação hidráulica uma prioridade nacional. Em alguns anos, os Estados Unidos multiplicaram os seus investimentos e tornaram-se o primeiro produtor mundial de hidrocarbonetos, alterando os paradigmas das relações internacionais. Em 2018, o antigo director do fornecedor de equipamento petrolífero Sentry international, Mike Pompeo, tornou-se Director da CIA, depois Secretário de Estado. Ele criou um Gabinete de recursos energéticos (Bureau of Energy Resources) que confiou a Francis Fannon. Era o correspondente do que tinha sido o Gabinete de Transformação da Força no Pentágono. Ele pôs em marcha uma política inteiramente virada para a tomada de controlo do mercado mundial dos hidrocarbonetos [3]. Para isso imaginou um novo tipo de alianças como a da região Indo-Pacifíco Livre e Aberta (Free and Open Indo-Pacific). Já não se trata mais de criar blocos militares, como os Quads, mas de organizar estas alianças em trono de objectivos de crescimento económico assente num acesso garantido a fontes de energia.

Este conceito integra-se na estratégia Rumsfeld/Cebrowski : não se trata de apropriar-se dos hidrocarbonetos do resto do mundo (Washington já não precisa deles), antes de determinar quem os poderá obter para se desenvolver e quem deles será privado. É uma ruptura com a doutrina da rarefacção do petróleo, promovida pelos Rockfeller e o Club de Roma desde os anos 1960, depois pelo Grupo de desenvolvimento da política energética nacional (National Energy Policy Development Group) do Vice-presidente Dick Cheney. Agora, os Estados Unidos estimam que não apenas o petróleo não vai desaparecer, como até, apesar do aumento enorme da procura, a humanidade dispõe dele por, pelo menos, um século.

Sob pretextos diversos e variados, Pompeo acaba de bloquear o acesso do Irão ao mercado mundial, depois da Venezuela e, por fim, de manter tropas no Leste da Síria para impedir que lá se explore as jazidas que aí foram descobertas [4]. Simultaneamente, ele exerce pressões sobre a União Europeia para que ela renuncie ao gasoduto russo Nord Steam 2 e sobre a Turquia para que ela renuncie ao Turkish Stream.

Estratégia comercial

Em 2017, o Presidente Donald Trump tenta repatriar uma parte dos empregos dos Estados Unidos deslocalizados na Ásia e na União Europeia. Apoiando-se nos conselhos do economista de esquerda Peter Navarro [5], pôs fim à Parceria Trans-Pacífico e renegociou o Acordo de livre-comércio da América do Norte. Simultaneamente, instaurou direitos alfandegários elevadíssimos sobre os automóveis alemães e a maior parte dos produtos chineses. Ele completou o conjunto com uma reforma fiscal encorajando o repatriamento dos capitais. Esta política permitiu já melhorar a balança comercial e relançar o emprego.

O dispositivo está agora completo no plano militar, económico e diplomático. Cada parte está articulada uma com a outra. Cada um sabe o que deve fazer.

A força principal desta nova Grande Estratégia é que ela não foi compreendida pelas elites do resto do mundo. Washington dispõe, pois, do efeito de surpresa, reforçado pela comunicação deliberadamente caótica de Donald Trump. Se observamos os factos, e não os tweets presidenciais, constata-se o avanço dos Estados Unidos após o duplo período de incerteza dos Presidentes Clinton et Obama.

NOTAS:

[1] O Governo de continuidade é uma instância norte-americana criada pelo Presidente Eisenhower durante a Guerra Fria e sempre vigente. Ela tem por finalidade assegurar a continuidade do Estado em caso de ausência do Executivo, quer dizer de morte do presidente, do vice-presidente e dos presidentes das assembleias durante uma guerra nuclear. A sua composição exacta é em princípio secreta muito embora disponha de meios muito importantes.

[2] Esta estratégia foi popularizada pelo assistente de Cebrowski, Thomas Barnett. The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

[3] “Mike Pompeo Address at CERAWeek”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 12 March 2019.

[4] Ontem à noite, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu um aviso contra qualquer forma de comércio de petróleo com o Irão ou com a Síria: “Sanctions Risks Related to Petroleum Shipments involving Iran and Syria”, Voltaire Network, 25 March 2019.

[5Death by China, Peter Navarro, Pearson, 2011. Crouching Tiger: What China’s Militarism Means for the World, Prometheus Books, 2015.


Fonte aqui