(Por Verbena Córdula, in Diálogos do Sul, 11/06/2026)

A deportação de um árbitro somali e as denúncias de gentrificação, vigilância e exclusão mostram como a Copa de 2026 convive com estruturas que hierarquizam povos, territórios e formas de circulação.
A Copa do Mundo de Futebol é apresentada como uma das poucas experiências verdadeiramente universais da contemporaneidade, um momento em que nações inteiras suspenderiam suas diferenças para compartilhar a mesma emoção diante do futebol.

A FIFA constrói essa narrativa com disciplina quase monástica — apoiada por campanhas publicitárias, cerimônias de abertura e discursos oficiais que insistem na ideia de que o esporte seria um território capaz de produzir união onde antes haveria apenas conflito.
Entretanto, quando observamos o que se acumula ao redor desse espetáculo ao longo das décadas, torna-se difícil sustentar essa imagem sem ignorar o que acontece fora do enquadramento das câmeras. E agora, em 2026, não é diferente.
Mas algumas perguntas precisam ser feitas. Que tipo de união é possível quando as fronteiras permanecem abertas para investidores e patrocinadores enquanto trabalhadores, migrantes e cidadãos de determinados países são tratados como suspeitos? Que universalidade existe em um evento que depende de um sistema internacional profundamente desigual? Que fraternidade pode ser construída sobre estruturas que reproduzem discriminações históricas?
Vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias
Desde que a Copa se transformou em um megaevento global plenamente integrado à lógica corporativa e estatal contemporânea, ela passou a funcionar como uma poderosa engrenagem de reorganização dos espaços urbanos e das relações sociais nos países-sede. O que se anuncia como festa frequentemente se materializa como um processo de reestruturação acelerada de cidades inteiras, no qual interesses econômicos, políticos e imobiliários se sobrepõem às necessidades concretas das populações que ali vivem.
A promessa de desenvolvimento — repetida em cada edição — costuma vir acompanhada de endividamento público, flexibilização de leis urbanísticas e expansão de dispositivos de vigilância. E também de intensificação do controle policial sobre territórios considerados estratégicos para o espetáculo.
As perguntas que fiz acima ajudam a explicar por que os movimentos contra a Copa se expandiram para além das críticas tradicionais aos gastos públicos e às obras urbanas. É nesse contexto que se evidenciam, de forma recorrente e em diferentes continentes, movimentos de resistência à Copa do Mundo e à própria FIFA enquanto instituição. E esses movimentos não podem ser reduzidos a uma única identidade política, pois reúnem desde organizações de moradores ameaçados por remoções até coletivos feministas, sindicatos, grupos antirracistas, organizações indígenas e iniciativas ecologistas.
Da Olimpíada nazista à Copa do mundo dos EUA, a neutralidade do esporte volta a encobrir violência
O que os conecta não diz respeito a uma oposição abstrata ao futebol, mas à percepção concreta de que o megaevento funciona como vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias sociais já existentes. Suas denúncias conectam o futebol-espetáculo a questões mais amplas — como colonialismo, racismo estrutural, destruição ambiental, violência de gênero, militarização dos territórios e concentração de riqueza. Essa crítica se fortalece quando observamos a repetição de padrões ao longo das edições da Copa do Mundo.
Agora, em 2026, no México, por exemplo, organizações feministas e coletivos de familiares de desaparecidos lembram que a chegada da Copa ocorre em um país marcado por uma crise humanitária permanente.

Em diversas regiões, mães continuam procurando filhos desaparecidos enquanto autoridades investem recursos na construção da imagem internacional do país. Em comunidades indígenas, persistem conflitos ligados à exploração econômica dos territórios. Em áreas urbanas, moradores denunciam processos de gentrificação associados à preparação para o megaevento.
Esses movimentos demonstram que a Copa não funciona como um evento isolado. Ela deve ser lida como um dispositivo de reorganização de relações de poder em escala transnacional, pois mobiliza recursos públicos e privados, redefine prioridades estatais e constrói uma imagem cuidadosamente administrada dos países-sede para consumo global.
Nesse processo, a FIFA atua como um centro de poder capaz de negociar diretamente com governos, influenciar políticas públicas e impor exigências estruturais. Isso tudo evidencia o distanciamento entre a narrativa de neutralidade esportiva e as condições materiais que tornam o espetáculo possível.
A preparação para a Copa de 2026 — organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá — tornou visível o papel das fronteiras e dos regimes migratórios na definição de quem pode participar efetivamente daquilo que é anunciado como um evento que une povos.
O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan — reconhecido internacionalmente e selecionado para atuar no torneio, mas impedido de entrar nos Estados Unidos e posteriormente deportado, apesar de sua credencial oficial — tornou-se emblemático por escancarar que nem mesmo a condição de agente diretamente integrado à estrutura da Copa garante mobilidade plena dentro do sistema que a sustenta.
A justificativa baseada em procedimentos migratórios internos do país anfitrião foi aceita pela FIFA sem contestação significativa, evidenciando os limites de sua autoridade quando confrontada com regimes estatais de controle fronteiriço.
Legitimador de concentração de poder e [re]produtor de desigualdades
Mas esse episódio não é o único. Ele está contido em um contexto de revistas excessivas, constrangimentos administrativos e tratamento diferenciado enfrentado por delegações, jornalistas e profissionais oriundos de países africanos e do Sul Global durante o processo de preparação do torneio. Ainda que essas práticas sejam frequentemente apresentadas como “questões burocráticas” ou “de segurança”, elas reforçam uma assimetria estrutural que contrasta diretamente com o discurso de inclusão global promovido pela organização.

A ideia de uma Copa do Mundo aberta a todos os povos torna-se, nesse contexto, uma abstração que convive com sistemas concretos de filtragem, hierarquização e controle de circulação baseados em nacionalidade, origem e posição geopolítica.
Sendo mais enfática, parece-me uma piada de mau gosto. Essa coexistência entre discurso universalista e prática seletiva legitima a crítica à FIFA e ao modelo de megaevento esportivo que ela representa. Para os movimentos que se opõem à Copa, não se trata tão somente de questionar custos financeiros ou impactos urbanos.
A intenção é evidenciar o futebol — ao ser incorporado plenamente à lógica corporativa global — como legitimador de processos mais amplos de concentração de poder e de [re]produção de desigualdades.
A celebração do espetáculo não elimina esses problemas, como querem pensar muitas pessoas; ao contrário, frequentemente os encobre sob a estética da festa, da emoção compartilhada e da identidade nacional temporariamente reativada.
Mas é preciso ressaltar que a crítica à Copa não se confunde com uma rejeição ao futebol enquanto prática social. Em diversos contextos surgem iniciativas que buscam recuperar o esporte como experiência comunitária, desvinculada da mediação corporativa e das estruturas de mercado que caracterizam o futebol de elite.
Campeonatos populares, ligas autogeridas e projetos esportivos de base expressam a tentativa de reinscrever o jogo em circuitos locais de sociabilidade, nos quais o futebol não é mercadoria, e sim prática coletiva.
Essa dimensão é central para que possamos compreender que o conflito não se dá entre o futebol e seus opositores, mas entre diferentes formas de organização e apropriação de uma prática enraizada nas classes populares.
Precisamos não perder de vista que a Copa do Mundo concentra fluxos financeiros globais, reorganiza territórios, intensifica regimes de controle e, ao mesmo tempo, mobiliza afetos e identificações profundas em escala planetária. E que essa combinação entre emoção coletiva e estrutura de poder torna possível a sua permanência como espetáculo global, mesmo diante das denúncias reiteradas que a acompanham há décadas.
E devemos ressaltar que os movimentos contra a Copa querem lembrar que essa festa não é igualmente vivida por todas as pessoas que dela participam — seja como espectadoras, trabalhadoras ou habitantes das cidades que a tornam possível; que, em vez de uma suspensão temporária das desigualdades, o evento frequentemente funciona como um mecanismo que as reorganiza e, em muitos casos, as intensifica sob novas formas.
(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.




