A armadilha de Tucídides

(João Gomes, in Facebook, 15/05/2026)


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Quando Xi Jinping recebeu Trump e evocou a necessidade de “evitar a Armadilha de Tucídides”, não estava apenas a citar um conceito académico ou um episódio remoto da Grécia Antiga. Estava a estabelecer o tom político de toda a conversa que se seguiria. E talvez mais do que isso: estava a anunciar ao mundo que a China já não se apresentava diante dos Estados Unidos numa posição de subalternidade estratégica.

Na superfície diplomática, a frase talvez tenha parecido conciliadora, como uma advertência prudente sobre os perigos históricos da rivalidade entre potências dominantes e potências emergentes. Tucídides escrevera que foi o crescimento de Atenas e o medo que esse crescimento provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável e Xi recuperou essa ideia para afirmar que a História não precisava repetir-se. Mas a política internacional raramente vive apenas da superfície das palavras.

Ao invocar Tucídides naquele momento, Xi Jinping fazia algo muito mais profundo: colocava os Estados Unidos e a China no mesmo plano histórico. Não como mestre e discípulo. Não como império e periferia. Não como vencedor da Guerra Fria e potência em ascensão obrigada a aceitar regras alheias. Mas como dois centros de poder civilizacional obrigados a negociar um novo equilíbrio.

Esse é decisivo. Durante décadas, Washington habituou-se a falar com o mundo a partir de uma posição de supremacia quase incontestável – militar, financeira, tecnológica e cultural. A China, por sua vez, cresceu dentro dessa ordem internacional, beneficiando dela enquanto preparava o momento em que pudesse alterar o próprio eixo da balança global.

A referência à Armadilha de Tucídides é, portanto, simultaneamente um gesto com diplomacia e uma declaração de soberania estratégica. Xi quis dizer a Trump: “Podemos evitar o conflito. Mas apenas se os Estados Unidos aceitarem que o mundo deixou de ser unipolar.”

E talvez tenha sido precisamente essa a frase não pronunciada o mais importante de toda a visita. Porque a verdadeira questão nunca foi apenas comercial. Muito se falou das tarifas, dos défices, da tecnologia, das fábricas e da concorrência industrial. Mas por detrás desses temas encontra-se uma disputa muito maior: quem define as regras do século XXI? Quem controla as cadeias energéticas, os semicondutores, as rotas marítimas, as moedas de reserva, as infraestruturas digitais e os corredores comerciais que ligam continentes inteiros?

A China percebeu há muito tempo que o confronto moderno já não depende apenas de exércitos. Um bloqueio tecnológico pode ser tão destrutivo quanto um bloqueio naval. Uma sanção financeira pode ter o mesmo efeito de um míssil. E uma guerra prolongada no Médio Oriente pode desorganizar cadeias energéticas inteiras, provocar inflação global e travar o crescimento das economias dependentes da estabilidade comercial.

E é aqui que a questão de Taiwan e do Irão ganham significado. Quando Xi fala em evitar a Armadilha de Tucídides, não está apenas a falar da relação bilateral entre Pequim e Washington. Está também a enviar um sinal sobre a arquitetura global do conflito.

A China observa a sua região e o Médio Oriente não apenas como regiões marcadas por crises recorrentes, mas como peças vitais da sua segurança estratégica e económica. A história de Taiwan e o petróleo iraniano, as rotas energéticas do Golfo, os corredores marítimos e os projetos ligados à Nova Rota da Seda fazem parte de uma lógica estratégica central para Pequim.

Nesse contexto, a mensagem implícita tornou-se mais clara. A China não parece disposta a assistir passivamente a uma sucessão interminável de confrontos, sanções e intervenções que desestabilizem regiões fundamentais para o seu crescimento económico. E menos ainda a aceitar que crises internacionais sejam conduzidas exclusivamente segundo os interesses geopolíticos de Washington.

Quando Xi fala de “programas sem sentido”, ou quando Pequim critica políticas de confrontação contínua, o que está verdadeiramente em causa é a ideia de que o sistema internacional não pode continuar eternamente subordinado à lógica da guerra permanente ou da pressão estratégica unilateral. Pequim sabe que uma escalada regional envolvendo o Irão teria efeitos globais profundos: aumento brutal do preço da energia; instabilidade financeira internacional; perturbação do comércio marítimo; aceleração da militarização global; e fragmentação ainda maior da economia mundial.

Tudo isso ameaça diretamente aquilo que a China considera essencial: estabilidade para continuar a crescer, exportar, investir e consolidar a sua influência. Por isso, a frase de Xi teve uma densidade muito superior à aparência protocolar. Ela funcionou como aviso histórico, mas também como linha vermelha diplomática.

A China afirmou que não aceitaria ser empurrada para uma posição defensiva dentro de uma ordem internacional desenhada exclusivamente pelos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, procurou deixar claro que qualquer tentativa de contenção absoluta da ascensão chinesa poderia gerar precisamente aquilo que todos afirmam querer evitar: uma espiral de confronto sistémico.

Todos dizem querer evitar a Armadilha de Tucídides. Mas quase todos os movimentos estratégicos do presente parecem empurrar o mundo para dentro dela. Os Estados Unidos reforçam alianças militares no Indo‑Pacífico, restringem tecnologias sensíveis e tentam reduzir dependências industriais da China. Pequim expande a sua marinha, acelera a autonomia tecnológica, fortalece laços energéticos e financeiros alternativos e aproxima‑se de países pressionados pelo Ocidente.

Cada lado afirma agir defensivamente. Cada lado vê o outro como potência revisionista. E cada passo dado para garantir segurança acaba por aumentar a insegurança do adversário. Foi exatamente isso que Tucídides descreveu há mais de dois mil anos.

Talvez por isso a frase de Xi Jinping tenha ecoado tão fortemente. Porque nela existia simultaneamente prudência e desafio. Prudência, ao reconhecer que uma colisão entre grandes potências seria desastrosa para o planeta.

Desafio, ao afirmar que a China já não aceita um lugar secundário na hierarquia global. No fundo, a Armadilha de Tucídides não é apenas uma teoria sobre guerras. É uma teoria sobre o medo. O medo de perder poder. O medo de ver surgir uma nova ordem. O medo de que o futuro pertença a outro.

E talvez seja precisamente esse medo – mais do que qualquer ideologia – que hoje molda silenciosamente o destino do século XXI.

Algumas consequências geoestratégicas do ataque norte-americano ao Irão

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2026)


A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA.


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A incapacidade de os EUA concretizarem os objetivos políticos a que alegadamente se propuseram, isto é, a mudança de regime no Irão, com o recurso à força militar, evidenciou as limitações do seu poderio bélico: as suas bases militares no Golfo Pérsico foram atacadas e destruídas pelos mísseis e drones iranianos, foram incapazes de honrar os compromissos securitários com os seus aliados da região, e os navios da quinta esquadra debandaram do Golfo para não serem afundados.

Entretanto, o estreito de Ormuz encontra-se sob o controlo de Teerão que determina quem o cruza. Os EUA não conseguiram restabelecer a liberdade de navegação na região. A marinha norte-americana não foi sequer capaz de colocar na região três grupos de porta-aviões, uma capacidade militar muito distante daquela empregue nas guerras em que se envolveu nessa parte do mundo (seis grupos em 1991 e oito em 2003, nas guerras contra o Iraque). Todos estes desenvolvimentos estão a ser seguidos por todo o mundo com muita atenção, em particular pela China.

A antes ‘senhora dos mares’, vê-se agora em dificuldades. Para além do estreito de Bab-el Mandeb e do mar do Sul da China, enfrenta também sérias dificuldades no controlo do estreito de Ormuz. O resultado pífio do embate nestas duas frentes poderá ser determinante nas ambições hegemónicas norte-americanas. Ao que se junta o facto de a indústria naval dos EUA enfrentar uma crise sistémica, a qual faz perigar as pretensões dos EUA de domínio incondicional dos oceanos.

A confrontação militar com Pequim

Os acontecimentos recentes no Irão permitem-nos antever o resultado desse possível confronto. O tema tem sido recorrentemente abordado nos círculos militares norte-americanos. Os argumentos em abono de uma confrontação militar com a China são mais do foro comunicacional do que do técnico, podendo isso levar os decisores a confundir narrativas com factos e, consequentemente, a tomarem decisões erradas.

A ocorrer, esse embate teria lugar na Ásia Oriental/Pacífico ocidental, onde se situam os potenciais focos de um conflito sino-americano, e seria provocado pelas restrições à liberdade de navegação no Mar do Sul da China ou por uma ação militar chinesa em Taiwan. Em qualquer dos casos, os EUA encontrar-se-iam sempre numa situação difícil e desvantajosa. A China combaterá na sua área geográfica e começa a dispor de vantagem tecnológica.

A China tem vindo ao longo das duas últimas décadas a preparar-se para esse eventual embate. O confronto seria travado principalmente no ar, mar, espaço (contra satélites) e ciberespaço (contra sistemas informáticos). É pouco provável que envolva operações terrestres de relevo. O combate no Pacífico Ocidental obrigaria os EUA a operar uma extensa e vulnerável linha de comunicações.

As bases militares norte-americanas na primeira e na segunda cadeia de ilhas não lhes conferem presentemente o potencial de combate necessário para derrotar as forças chinesas. O sistema de ilhas artificiais, criadas pela China no Mar do Sul da China, enquadra-se num poderoso sistema de A2AD (Anti acesso/Negação de Área) desenvolvido por Pequim para controlar o acesso à região e para dificultar ou impedir que o oponente opere nelas.

Uma força expedicionária norte-americana participante nesse combate colocaria os porta-aviões norte-americanos vulneráveis aos mísseis hipersónicos da China, para os quais não têm defesa. As bases norte-americanas localizadas na segunda cadeia de ilhas seriam igualmente alvos ao alcance dos mísseis chineses. Falamos, por exemplo, de Guam. Há dez anos, os EUA estariam numa situação de vantagem. Hoje essa vantagem desvaneceu-se, tanto em meios como em tecnologia.

Os ‘choke points’

É conhecida a dependência chinesa das vias marítimas para as exportações e importações de mercadorias e, consequentemente, a sua vulnerabilidade a um bloqueio da marinha norte-americana. Com base no que temos assistido nos últimos dois meses, é importante perceber se Washington seria, nesta altura, capaz de levar por diante o bloqueio das rotas marítimas no Pacífico e dos choke points que lhes estão associados, quando não foi capaz de o fazer no estreito de Bab el-Mandeb, perturbado pela ação dos Hutis, no Iémen. Incapaz de os derrotar, imagine-se o resultado de uma intervenção numa área consideravelmente mais vasta contra um opositor incomensuravelmente superior.

Para fazer frente a esse risco, que pode evoluir para ameaça, a China tem vindo a aumentar a sua marinha, que, nesta altura, é a maior do mundo. Já tem três porta-aviões operacionais e estão mais dois em construção, sendo um deles nuclear. A sua frota de submarinos tem tido um crescimento constante, construindo anualmente cerca de quatro unidades. A sua enorme guarda costeira é composta por navios de combate e é dotada de uma capacidade que deve ser levada muito a sério. Pelo contrário, a marinha norte-americana, apesar de ser uma força de combate formidável, perdeu o fulgor de há algumas décadas.

Taiwan, sempre Taiwan

Neste confronto pela manutenção da liderança global insere-se o controlo de Taiwan que, no caso de uma confrontação militar com a China, conferiria uma grande vantagem aos EUA, por integrar a “primeira cadeia de ilhas”, crucial para impedir e/ou dificultar a projeção de poder da China na região do Indo-Pacífico.

Cabe dizer que não nos encontramos nos preliminares de uma invasão, a menos que Taipé optasse por declarar a independência, o que é altamente improvável. Enquanto isso não acontecer, uma operação militar chinesa em Taiwan não acontecerá. Se assim não fosse, Taipé já teria tomado uma série de medidas preventivas, nomeadamente preparar uma defesa robusta do seu território. Um país que está prestes a ser invadido não mantém um serviço militar de apenas quatro meses.

A China não tomou no passado a iniciativa de desencadear uma guerra no Pacífico, não se vê porque o faria agora. Não se descortinam razões plausíveis para que isso aconteça, nem precedentes históricos. Nas últimos séculos em que a China foi a potência dominante da região, excluindo os últimos 150 anos, nunca tentou invadir o Japão. Pelo contrário, foi Tóquio que atacou a China em várias ocasiões (1592, 1894-5, 1931 e 1937).

No entanto, não se pode descartar a ocorrência de wild cards. A militarização do Japão (onde se inclui a aquisição de uma eventual capacidade nuclear) e/ou a colocação de uma força militar norte-americana na ilha, para lá de pequenos contingentes com a missão de formar as forças militares locais, poderia provocar uma reação militar por parte de Pequim. Independentemente da modalidade de ação escolhida pela China para intervir em Taiwan, interrogamo-nos como é que os EUA reagiriam a uma operação militar chinesa de grande envergadura na ilha, cientes da estratégia de ambiguidade estratégica seguida por Washington. Estariam os EUA dispostos a combater por Taiwan?

E os aliados asiáticos?

Depois do que aconteceu aos aliados dos EUA na Ásia Ocidental, os aliados asiáticos devem estar muito apreensivos. Ao contrário dos democratas (liberais intervencionistas), o presidente Donald Trump assume não necessitar de aliados para afirmar as suas ambições hegemónicas. A hubris está a sair-lhe cara. Já hostilizou os europeus – não se trata apenas de não cooperar com eles, mas também de os criticar e punir – e também já deu indícios de o vir a fazer com os asiáticos.

A posição dos EUA em relação ao QUAD – uma aliança informal entre os EUA, Japão, Austrália e Índia, criada para contrariar a influência da China na região – que outrora foi a pedra angular da estratégia norte-americana no Indo-Pacífico, deteriorou-se significativamente desde o regresso de Trump à Casa Branca, em 2025, deixando o grupo sem liderança e com o seu valor geoestratégico degradado. No seu primeiro mandato, Trump reavivou o QUAD, após uma década de dormência, e integrou-o firmemente na estratégia norte-americana, para agora o relegar para a insignificância geopolítica.

O comandante do Comando norte-americano do Pacífico manifestou publicamente a sua preocupação com o facto de não ter navios anfíbios, contratorpedeiros e submarinos de ataque suficientes. Alguns responsáveis da administração vieram dizer que os EUA gastaram tanta munição no Irão que não conseguiriam executar na íntegra os planos de contingência para defender Taiwan em caso de uma invasão chinesa. Os EUA poderão demorar até seis anos a repor as munições gastas.

O que à partida visava ser um passo na afirmação do poderio norte-americano, está a transformar-se num desaire que afeta seriamente a reputação militar norte-americana, deixando claro aos olhos de todos que uma aventura militar vencedora contra a China, no Pacífico ocidental, não tem qualquer viabilidade. A ambição hegemónica norte-americana poderá ter soçobrado no estreito de Ormuz.

Como se isso não bastasse, Pequim não reconhece nem vai cumprir as sanções dos EUA às compras de petróleo iraniano. O presidente Xi Jinping deu instruções às empresas e aos bancos chineses para desrespeitarem as sanções norte-americanas à refinação de petróleo na China. As enormes reservas estratégicas de petróleo, a diversificação das fontes de abastecimento e um mix energético único (o petróleo representa apenas cerca de 4% da produção de eletricidade da China) tornaram a China praticamente invulnerável aos acontecimentos em curso.

A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA. É neste cenário que Trump e Xi se vão encontrar.

O manual de instruções – ou réquiem para uma arquitetura

(José Pendão, in Facebook, 12/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade deste texto, no seu propósito de revisitar e nos facultar pistas de leitura interpretativa do mundo atual. Sim, citando Gramsci: “O mundo velho está a morrer e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

Os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/05/2026)


Chamemos as coisas pelo nome, que é o mínimo que se deve a um cadáver: a ordem do pós-guerra morreu. Não foi assassinada — isso implicaria um ato, um momento, um culpado com as mãos ensanguentadas e a decência de fugir. Não. A ordem do pós-guerra foi abandonada. Deixada numa cadeira de rodas num corredor de hospital, com os documentos todos em dia e ninguém para a reclamar. Morreu da morte mais obscena que as civilizações conhecem: morreu porque deixou de ser útil a quem tinha a obrigação de a manter viva.

E o mais notável — o mais cirurgicamente notável — é que o guião dessa morte já tinha sido escrito. Várias vezes. Por pessoas diferentes. Em livros que toda a gente leu, ou diz ter lido, ou pelo menos reconhece a capa quando aparece na lista dos 100 livros que mudaram o mundo. Nenhum deles mudou nada, evidentemente. Mas voltaremos a esse ponto.

Comecemos pela arquitetura. Não a de betão — a outra. A de papel, de tratados, de instituições com siglas que durante décadas soaram a tédio burocrático e que, por isso mesmo, funcionavam. A ONU. O FMI. O Banco Mundial. A NATO. A União Europeia. O GATT e o seu rebento, a OMC. Os Acordos de Helsínquia. A Convenção de Genebra. O Tribunal Penal Internacional. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos — redigida, como se sabe, em 1948, por pessoas que ainda tinham nos olhos as imagens de Auschwitz e de Hiroxima e que, precisamente por isso, acreditavam que era possível (e sobretudo necessário) construir um sistema que impedisse a repetição do impensável.

Esse sistema não era bonito. Não era eficiente. Era lento, contraditório, hipócrita em muitas das suas aplicações, e frequentemente impotente. Mas existia. Tinha paredes. Tinha regras. Tinha, no mínimo, a força simbólica de dizer: Há coisas que não se fazem. E essa força simbólica — que os cínicos sempre desprezaram e os pragmáticos sempre subestimaram — era o que separava a ordem, do caos. Não uma muralha. Uma convenção. Um acordo tácito entre adultos de que o regresso à barbárie era demasiado caro.

Pois bem. A muralha está de pé. As paredes continuam visíveis. Os edifícios continuam em Genebra, em Nova Iorque, em Bruxelas, em Haia. Continuam a ter funcionários, orçamentos, logótipos, comunicados de imprensa e cafetarias com preços escandalosos. Mas, por dentro — por dentro — foram esvaziados com a meticulosidade de um ladrão que rouba um museu substituindo cada quadro pelo seu poster.

O Conselho de Segurança da ONU é um teatro onde dois dos cinco atores principais (que detêm o poder de veto, convém lembrar — e esse poder é absoluto, como o dos reis que a democracia supostamente aboliu) são, respetivamente, uma autocracia que invade países vizinhos e uma autocracia que constrói ilhas artificiais para reclamar mares. Os outros três — Estados Unidos, França, Reino Unido — oscilam entre a impotência, a hipocrisia e a amnésia seletiva que permite bombardear a Líbia em nome dos direitos humanos e ignorar o Iémen em nome do comércio de armas. A ONU não falhou. A ONU foi neutralizada por design, por dentro, pelos seus próprios fundadores, que desenharam o veto como uma válvula de segurança e criaram, na prática, uma máquina incapaz de agir contra os poderosos. Só contra os fracos. Sempre contra os fracos.

A OMC é um tribunal sem polícia. A Convenção de Genebra é uma carta de princípios que ninguém lê antes de disparar. O Tribunal Penal Internacional é uma jurisdição à qual os Estados Unidos nunca aderiram — e aprovaram, em 2002, uma lei (o chamado Hague Invasion Act, que não é paródia, embora mereça ser) que autoriza o uso de força militar para libertar qualquer cidadão americano detido pelo tribunal. Sim, leram bem. O país que se apresenta como farol da ordem internacional legislou o direito de invadir Haia.

E a União Europeia — ah, a União Europeia. O projeto mais ambicioso de cooperação supranacional da história da humanidade, nascido dos escombros de duas guerras e construído com a paciência beneditina de juristas, economistas e burocratas que acreditavam que a prosperidade partilhada era o melhor antídoto contra o nacionalismo. Transformada, sessenta anos depois, num mecanismo de gestão de crises que responde a cada crise tarde, mal, e com o entusiasmo de quem preenche formulários num serviço de finanças. Brexit. A crise migratória. A pandemia. A guerra na Ucrânia. De cada vez a mesma coreografia: surpresa, reunião de emergência, comunicado, divisão, compromisso diluído, comunicado sobre o comunicado. Bruxelas como Sísifo de fato e gravata — a empurrar a pedra encosta acima, de agenda em agenda, sabendo que volta a cair.

Isto seria apenas triste — o tipo de tristeza administrativa que gera editoriais sensatos e livros de quinhentas páginas com títulos como O Declínio da Ordem Liberal — se não fosse uma outra coisa: previsto. Inteiramente, meticulosamente, e por vezes assombrosamente previsto. Abramos os manuais.

1 George Orwell publicou 1984 em 1949 — um ano depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A coincidência cronológica é quase obscena. Enquanto Eleanor Roosevelt redigia o artigo 19.º (liberdade de opinião e expressão), Orwell descrevia a Novilíngua: um sistema em que as palavras são esvaziadas de significado até que “guerra” signifique “paz,” “liberdade” signifique “escravidão,” e o Ministério da Verdade se encarregue de reescrever o passado para que o presente nunca possa ser questionado.

Setenta e sete anos depois, a liberdade de expressão existe. Está consagrada em dezenas de constituições. É invocada diariamente — sobretudo por quem a usa como escudo para mentir sem consequências. O problema nunca foi a censura clássica, o corte, a proibição. Orwell percebeu isso: o problema é o excesso. O ruído. A multiplicação infinita de versões até que nenhuma seja verificável. Não é preciso proibir a verdade. Basta afogá-la em alternativas. O Ministério da Verdade não usa carimbos vermelhos — usa algoritmos. E funciona melhor do que Orwell imaginou, porque as pessoas colaboram voluntariamente. O Big Brother não precisa de vigiar: nós publicamos.

(E se isto parece exagero, perguntem-se: quando foi a última vez que leram uma notícia — uma — e tiveram a certeza de que era inteiramente verdadeira? Não “provavelmente verdadeira.” Não “verdadeira segundo fontes.” Certeza. A resposta, para a maioria, é que já não se lembram. A dúvida tornou-se o estado natural. E esse é, precisamente, o objetivo.)

2 Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo em 1932, antes da guerra, antes dos campos, antes da bomba. O seu aviso era diferente do de Orwell, e por isso mais difícil de ouvir. Orwell temia os que proíbem livros. Huxley temia que não houvesse razão para os proibir, porque ninguém os quereria ler. A tirania de Huxley não oprime — entretém. Não castiga — seduz. O soma, a droga universal que elimina a ansiedade, a angústia e qualquer impulso de revolta, não é imposto. É desejado. Procurado. Consumido com entusiasmo.

Chamem-lhe soma. Chamem-lhe feed. Chamem-lhe scroll infinito, séries em catadupa, notificações que interrompem o pensamento exatamente no momento em que ele ameaçava tornar-se perigoso. A arquitetura da distração não foi construída por tiranos. Foi construída por engenheiros de Silicon Valley com licenciaturas em psicologia comportamental e stock options generosas, e funciona com uma eficácia que Huxley, que morreu em 1963, teria achado inverosímil. Não precisamos de ser obrigados a não pensar. Pagamos para não pensar. Pagamos subscrições mensais para não pensar. E quando, por acidente, pensamos, a próxima notificação chega em sete segundos. (Pausa para verificar o telemóvel. Sim, vocês também).

3 Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451 em 1953. O título é a temperatura a que o papel arde. Os bombeiros, no romance, não apagam fogos — queimam livros. Mas Bradbury, numa entrevista tardia que merecia ser obrigatória, disse que o livro não era sobre censura governamental. Era sobre a sociedade que deixa de querer saber. Sobre a erosão lenta, confortável, democrática, do interesse pelo complexo. Sobre a substituição do argumento pelo slogan, da análise pelo soundbite, do debate pela performance. Os livros não ardem porque alguém os queima. Ardem porque ninguém os abre.

4 E George Miller — que ninguém confunde com um intelectual, porque usava carros e explosões em vez de palavras, e a academia tem estes preconceitos — filmou em Mad Max um mundo em que o contrato social se dissolveu e os recursos (água, gasolina, comida) são controlados por tiranos grotescos que os distribuem com conta-gotas para manter a dependência. A violência não é aberração: é sistema. A escassez não é acidente: é instrumento. E a estrada — interminável, árida, sem destino — é a única instituição que sobrevive.

Olhem agora para os preços da energia em qualquer país europeu. Olhem para o mercado da água na Califórnia. Olhem para as cadeias alimentares controladas por quatro ou cinco conglomerados que decidem o que comemos, quanto pagamos, e que agricultores sobrevivem. Miller não precisava de ter feito um documentário. Fez um.

— * —

O padrão, para quem ainda resista à evidência, é este: cada distopia foi lida pelas pessoas certas — e usada pelas erradas. Os que deviam ter protegido a verdade leram Orwell e perceberam que a desinformação é mais eficiente do que a censura: não é preciso destruir factos, basta fabricar dúvida. Os que deviam ter protegido a cultura leram Huxley e perceberam que o entretenimento é o controlo social mais barato que existe: não é preciso reprimir, basta saturar. Os que deviam ter protegido o conhecimento leram Bradbury e perceberam que a ignorância é autossustentável: não é preciso queimar livros, basta torná-los irrelevantes. Os que deviam ter protegido os recursos leram Miller e perceberam que a escassez é uma vantagem competitiva: não é preciso partilhar, basta controlar o acesso.

E todos — absolutamente todos — olharam para as instituições do pós-guerra e fizeram o mesmo cálculo: estas paredes ainda estão de pé, mas já ninguém as vigia. Podem ser esvaziadas por dentro. Lentamente. Respeitavelmente. Com comunicados e conferências de imprensa.

É o que Cícero, se fosse menos elegante, chamaria o roubo perfeito: não destruir a República, mas ocupá-la. Não demolir o Senado, mas torná-lo irrelevante. Deixar a fachada intacta, mudar as fechaduras.

A negociação — essa arte lenta, inglória, exasperante, que durante décadas impediu que desacordos entre potências nucleares se transformassem em cogumelos atómicos — foi substituída pela retórica do mais forte. Não porque a retórica seja mais eficaz. É-o menos. Mas é mais rápida. Dá melhores soundbites. E, sobretudo, não exige a humildade de reconhecer que o outro lado existe.

A subsidiariedade — essa ideia incómoda de que os que mais têm devem algo aos que nada têm, não por caridade mas por cálculo civilizacional, porque sociedades demasiado desiguais implodem — foi substituída pela mística da extração. Extrair valor. Extrair dados. Extrair trabalho. Extrair atenção. Extrair até não haver mais nada para extrair, e depois vender o relatório que documenta a extração como “caso de estudo em eficiência.”

A compaixão — e peço desculpa pela palavra, que parece de outro século, e talvez seja — foi reclassificada como fraqueza. A solidariedade como ingenuidade. O bem comum como conceito vago, bom para discursos inaugurais e nada mais.

— * —

Saramago, em O Ensaio sobre a Cegueira, escreveu que o pior não é a cegueira em si — é a cegueira de quem, podendo ver, escolhe não ver. Nesse romance, uma epidemia inexplicável cega toda uma cidade. A ordem dissolve-se. As instituições colapsam. A violência instala-se. E os que ainda vêem — que existem, que estão ali, que testemunham tudo — são demasiado poucos para impedir o que quer que seja.

Nas distopias, porém, há sempre um rebelde. Winston Smith. O Selvagem de Huxley. Montag, o bombeiro que começa a ler. Max, no deserto. Alguém que resiste. Alguém que vê. Alguém que, mesmo derrotado (e quase todos são derrotados — os autores de distopias são honestos quanto a isso), pelo menos encarna a possibilidade de que a resistência exista.

Na realidade — nesta realidade, a nossa, a que não tem créditos finais — o rebelde existe. Tem um podcast. Vende suplementos alimentares. Tem cinquenta e três teorias sobre o que realmente se passa, todas mutuamente incompatíveis, e o único ponto em que se distingue do sistema que diz combater é que ainda não tem orçamento suficiente para o replicar.

E aqui reside o veneno final. O mais lento. O mais eficaz.

A resistência — a verdadeira, a que os autores de distopias imaginaram como último reduto da dignidade — foi absorvida pelo próprio sistema que devia combater. Transformada em produto. Em nicho de mercado. Em estética. Usamos a palavra “resistência” como se fosse um hashtag (e, de facto, é — verifiquem). Lemos Orwell e partilhamos citações no Instagram. Citamos Huxley em threads do X entre dois anúncios de cripto moedas. A própria denúncia do sistema tornou-se conteúdo. E o conteúdo, como sabemos, precisa de engagement. E o engagement precisa de plataformas. E as plataformas pertencem — ironia magistral, ironia que os deuses gregos apreciariam com o seu humor cruel — exatamente às pessoas contra quem a resistência devia ser dirigida.

Orwell avisou. Huxley avisou. Bradbury avisou. Miller filmou. Saramago narrou. Cada um deles ofereceu, à sua maneira, uma planta do edifício em chamas. Um mapa do desastre. Um diagnóstico. Nós lemos o diagnóstico, concordámos com a gravidade, partilhámos nas redes, e voltámos a sentar-nos.

As instituições do pós-guerra estão de pé. Ocas, esvaziadas, habitadas por fantasmas que ainda emitem comunicados. Os manuais de instruções estão todos escritos — lidos, sublinhados, citados. E o edifício arde. Sem pressa. Sem drama. Com a lentidão de quem sabe que ninguém vai chamar os bombeiros. Até porque os bombeiros, como Bradbury nos explicou, estão ocupados. A queimar livros.

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