Os EUA arriscam perder a guerra comercial com a China

(Joseph Stiglitz, in Expresso, 04/08/2018)

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Os EUA têm, na verdade, um problema, mas não é a China. É interno. A América tem poupado pouco. Trump e muitos americanos têm uma visão tremendamente míope


NOVA IORQUE — O que começou por ser uma escaramuça comercial, com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a impor taxas aduaneiras sobre o aço e o alumínio, parece estar rapidamente a transformar-se numa guerra comercial generalizada com a China. Se as tréguas aprovadas entre a Europa e os EUA se mantiverem, Washington enfrentará quase exclusivamente Pequim, em vez de enfrentar o mundo (e, evidentemente, o conflito comercial com o Canadá e o México continuará em lume brando, dadas as exigências dos EUA que não podem nem devem ser aceites por qualquer um desses países).

Além da afirmação verdadeira, mas agora já óbvia, de que todos perderão, o que podemos dizer das consequências possíveis da guerra comercial de Trump?

Em primeiro lugar, a macroeconomia triunfa sempre: se o investimento nacional dos EUA continuar a exceder as suas poupanças, o país terá de importar capital e de manter um défice comercial assinalável. Pior que isso, devido aos cortes fiscais promulgados no fim do ano passado, o défice orçamental dos EUA está a atingir novos máximos — recentemente, foi previsto que ultrapassasse 1 bilião de dólares até 2020. O que significa que, quase certamente, o défice comercial aumentará, independentemente das consequências da guerra comercial. O único cenário em que isso não acontecerá é se Trump levar os EUA para uma recessão, fazendo os rendimentos diminuir tanto que o investimento e as importações caiam a pique.

A “melhor” consequência da obtusa insistência de Trump no défice comercial com a China seria a melhoria do saldo bilateral, contrabalançada por um aumento correspondente no défice com um qualquer outro país (ou países). Os EUA poderiam vender mais gás natural à China e comprar menos máquinas de lavar; mas venderiam menos gás natural a outros países e comprariam máquinas de lavar, ou quaisquer outros bens, à Tailândia ou a outro país que tenha evitado a colérica ira de Trump. Mas, como os EUA interferiram com o mercado, pagariam mais pelas suas importações e conseguiriam menos pelas suas exportações do que em caso contrário. Em resumo, a ‘melhor’ consequência significa que os EUA ficarão pior do que estão hoje.

Os EUA têm um problema, mas não com a China. O seu problema é interno: a América tem poupado demasiado pouco. Trump, como muitos dos seus compatriotas, tem uma visão imensamente míope. Se tivesse um mínimo de entendimento da economia e uma visão de longo prazo, teria feito o que pudesse para aumentar a poupança nacional. Isso teria reduzido o défice comercial multilateral.

A ‘MELHOR’ CONSEQUÊNCIA SIGNIFICA QUE OS EUA FICARÃO PIOR DO QUE ESTÃO HOJE

Existem soluções rápidas e óbvias: a China poderia, de facto, comprar mais petróleo americano, e vendê-lo, de seguida, a outros países. Isto não faria qualquer diferença, a não ser talvez um ligeiro aumento dos custos de transação. Mas Trump poderia anunciar, então, que teria eliminado o défice comercial bilateral. Mas, na verdade, será difícil reduzir significativamente o défice comercial bilateral de um modo relevante. À medida que diminuir a procura de bens chineses, a taxa de câmbio do renminbi depreciará, mesmo sem qualquer intervenção governamental. Isto compensará, em parte, o efeito das taxas aduaneiras dos EUA; mas, ao mesmo tempo, aumentará a competitividade da China relativamente a outros países. E isso acontecerá mesmo se a China não usar outros instrumentos que detém, como os controlos sobre os salários e os preços, ou se incentivar fortemente aumentos de produtividade. A balança comercial global da China, tal como a dos EUA, é determinada pela sua macroeconomia.

Se a China intervier de forma mais ativa, e retaliar mais agressivamente, a alteração na balança comercial entre os EUA e a China pode ser ainda mais reduzida. A dor relativa que cada um provocará ao outro é de difícil determinação. A China tem um maior controlo sobre a sua economia, e tem procurado orientar-se para um modelo de crescimento baseado na procura interna, em vez de no investimento e nas exportações. Os EUA estão simplesmente a ajudar a China a fazer o que tem estado a tentar fazer. Por outro lado, as ações dos EUA surgem numa altura em que a China tenta gerir uma alavancagem excessiva e uma capacidade excessiva; em alguns sectores, pelo menos, os EUA dificultarão estas tarefas.

Se um país entra numa guerra, comercial ou não, deve certificar-se de que tem bons generais — com objetivos claramente definidos, uma estratégia viável, e apoio popular — no comando. É aqui que as diferenças entre a China e os EUA são importantes. Nenhum país poderia ter uma equipa económica menos qualificada que a de Trump, e a maioria dos americanos não apoia a guerra comercial.

O apoio do público esmorecerá ainda mais à medida que os americanos compreenderem que perderão duplamente com esta guerra: por um lado, os empregos desaparecerão, não apenas devido às medidas retaliatórias da China, mas também porque as taxas aduaneiras dos EUA aumentam o preço das exportações dos EUA e as tornam menos competitivas; e, por outro lado, aumentarão os preços dos bens que compram. Isto pode forçar a descida da taxa de câmbio do dólar, aumentando ainda mais a inflação nos EUA — e promovendo uma oposição ainda maior. A Reserva Federal terá então de aumentar as taxas de juro, originando um enfraquecimento do investimento e do crescimento, e mais desemprego.

Trump já demonstrou como responde quando as suas mentiras são expostas ou quando as suas políticas falham: dobra a aposta. A China disponibilizou repetidamente saídas airosas para que Trump abandonasse o campo de batalha e declarasse vitória. Mas ele recusa aceitá-las. Talvez possamos encontrar esperança em três outras características suas: a sua ênfase na aparência em vez da substância, a sua imprevisibilidade, e o seu carinho pela política de “homem forte”. Talvez, numa reunião grandiosa com o Presidente Xi Jinping, venha a declarar que o problema foi resolvido, com alguns pequenos ajustes de taxas aqui e ali, e alguma nova iniciativa no sentido da liberalização do mercado que a China já tenha planeado anunciar, e todos poderão regressar felizes a casa.

Nesse cenário, Trump terá “resolvido”, de forma imperfeita, um problema criado por si. Mas o mundo que se seguir à sua disparatada guerra comercial continuaria a ser diferente: mais incerto, menos confiante nas normas do direito internacional, e com fronteiras mais rígidas. Trump mudou o mundo, permanentemente, para pior. Mesmo nos melhores cenários possíveis, o único vencedor é Trump — com o seu ego desmedido um pouco mais inflado.


Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia.© Project Syndicate 1995-2018

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A comunidade de inteligência dos EUA como propulsora do colapso

(Por Dmitry Orlov, In Blog Resistir, 24/07/2018)

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Nos Estados Unidos de hoje, o termo “espionagem” não é muito utilizado a não ser em alguns contextos específicos. Ainda há conversas esporádicas sobre espionagem industrial, mas quanto aos esforços dos americanos para entender o mundo além das suas fronteiras, eles preferem usar o termo “inteligência”. Isso pode ser uma escolha inteligente ou não, dependendo de como se olham as coisas.

Em primeiro lugar, a “inteligência” dos EUA está vagamente relacionada com o jogo da espionagem, como tem sido tradicionalmente praticado, e ainda é, por países como a Rússia e a China. A espionagem envolve colectar e validar informação estratégica vital e transmiti-la apenas aos tomadores de decisão pertinentes do seu lado, mantendo-se de facto a colectá-la e validá-la às ocultas de toda a gente.

Em eras passadas, um espião, se descoberto, tentaria ingerir uma cápsula de cianeto; Nos dias de hoje, a tortura é considerada não-cavalheiresca e os espiões que são apanhados esperam pacientemente serem permutados numa troca. Uma regra não escrita e de bom senso sobre trocas de espiões é que são feitas silenciosamente e que os libertados nunca se intrometem outra vez porque isso complicaria a negociação de futuras trocas de espiões. Nos últimos anos, as agências de inteligência dos EUA decidiram que torturar prisioneiros é uma boa ideia, mas elas têm torturado sobretudo pessoas inocentes, não espiões profissionais, forçando-os por vezes a inventar coisas tais como a “Al Qaeda”. Não existia tal coisa antes de a inteligência dos EUA popularizá-la como marca entre os terroristas islâmicos.

Mais recentemente, os “serviços especiais” britânicos, que estão como uma espécie de Mini-Me para o Dr. Evil, que é o aparelho de inteligência dos EUA, consideraram adequado interferir com um de seus próprios espiões, Sergei Skripal, um agente duplo que eles retiraram de uma prisão russa numa troca de espiões. Eles o envenenaram utilizando um produto químico exótico e tentaram atribuir a culpa à Rússia com base em nenhuma evidência. É improvável que haja mais trocas de espiões britânicos com a Rússia e os espiões britânicos que trabalham na Rússia provavelmente receberão boas cápsulas de cianeto à moda antiga (uma vez que o supostamente super-poderoso Novichok que os britânicos mantêm no seu laboratório “secreto” em Porton Down não funciona bem e só é fatal em 20% dos casos).

Há uma outra regra não escrita, de senso comum, acerca da espionagem em geral: seja o que for que aconteça, ela precisa ser mantida fora dos tribunais, porque um processo de descoberta em qualquer julgamento forçaria a acusação a divulgar fontes e métodos, tornando-os parte do dominio público. Uma alternativa seria manter tribunais secretos, mas como estes não podem ser verificados independentemente quanto ao seguimento do processo devido e das regras de evidência, eles não são de muito valor.

Um padrão diferente aplica-se a traidores. Nestes casos, enviá-los aos tribunais é aceitável e serve a um alto propósito moral, uma vez que aqui a fonte é a própria pessoa em julgamento e o método – traição – pode ser divulgado sem danos. Mas esta lógica não se aplica a espiões profissionais decentes que estão simplesmente a fazer o seu trabalho, mesmo que se tornem agentes duplos. De facto, quando a contra-inteligência descobre um espião, a coisa profissional a fazer é tentar recrutá-lo como um agente duplo ou, se isso não der certo, tentar utilizar o espião como um canal para injectar desinformação.

Os americanos têm feito o melhor que podem para quebrar esta regra. Recentemente, o advogado especial Robert Mueller acusou uma dúzia de operacionais russos a trabalharem na Rússia de hackearem o servidor de correio do Comité Nacional Democrata (DNC) e enviar os emails para a Wikileaks. Enquanto isso, dizem que o referido servidor não está em parte alguma (foi extraviado), se bem que as marcações de hora (time stamps) nos ficheiros publicados na Wikileaks mostrem que foram obtidos copiando-os para uma pen drive ao invés de enviá-los pela Internet. Assim, isto foi uma fuga, não um hack, e não poderia ter sido feito por ninguém a trabalhar remotamente a partir da Rússia.

Além disso, é um exercício de futilidade para um responsável dos EUA indiciar cidadãos russos na Rússia. Eles nunca serão julgados num tribunal dos EUA devido à seguinte cláusula na Constituição Russa: “Art. 61.1 Um cidadão da Federação Russa não pode ser deportado para fora da Rússia ou extraditado para outro Estado”. Mueller pode reunir um painel de académicos constitucionalista para interpretar esta frase, ou pode apenas lê-la e chorar. Sim, os americanos estão a fazer o melhor que podem para quebrar a regra não escrita contra o arrastamento de espiões a tribunais, mas o seu melhor está muito longe de ser suficiente.

Dito isto, não há qualquer razão para acreditar que os espiões russos pudessem ser impedidos de hackear o servidor de correio do DNC. Provavelmente funcionava com Microsoft Windows e esse sistema operacional tem mais buracos do que um edifício no centro de Raqqa, na Síria, depois de os americanos terem bombardeado aquela cidade reduzindo-a a escombros, com muitos de civis de permeio. Quando questionado sobre esse alegado hacking pela Fox News, Putin (que trabalhara como espião na sua carreira anterior) teve dificuldade em manter a cara séria e claramente desfrutou do momento. Ele destacou que os emails hackeados ou extraídos numa fuga mostravam um padrão claro de irregularidades: funcionários da DNC conspiraram na Primária Democrática para roubar a vitória eleitoral a Bernie Sanders, e depois de essa informação ter vazado eles foram forçados a demitir-se. Se o hack russo aconteceu, então foram os russos que trabalharam para salvar a democracia americana de si própria. Então, onde está a gratidão? Onde está o amor? Ah, e por que os perpetradores do DNC não estão presos?

Uma vez que existe um acordo entre os EUA e a Rússia para cooperar em investigações criminais, Putin sugeriu interrogar os espiões acusados por Mueller. Ele até sugeriu que Mueller participasse do processo. Mas em contrapartida ele queria interrogar os responsáveis americanos que podem ter ajudado e incitado um criminoso condenado com o nome de William Browder, o qual deve cumprir uma sentença de nove anos na Rússia a partir de agora e que, a propósito, doou copiosas quantias de seu dinheiro mal ganho para a campanha eleitoral de Hillary Clinton. Em resposta, o Senado dos EUA aprovou uma resolução a proibir russos de interrogarem responsáveis dos EUA. E ao invés de emitir um requerimento válido para que os doze espiões russos fossem entrevistados, pelo menos um responsável dos EUA fez o pedido absurdamente fútil de que ao invés eles fossem remetidos para os EUA. Mais uma vez, qual a parte do artigo 61.1 que eles não entendem?

A lógica dos funcionários dos EUA pode ser difícil de acompanhar, mas só se aderirmos às definições tradicionais de espionagem e contra-espionagem – “inteligência” no linguajar dos EUA – que é providenciar informações validadas com o objectivo de adoptar decisões informadas sobre os melhores meios de defender o país. Mas tudo isso faz perfeito sentido se abdicarmos de tais noções estranhas e aceitarmos a realidade que podemos realmente observar: o propósito da “inteligência” dos EUA não é produzir ou trabalhar com factos, mas simplesmente “fazer merda”.

A “inteligência” que as agências de inteligência dos EUA fornecem pode ser tudo excepto inteligente. De facto, quanto mais estúpido melhor, porque seu objectivo é permitir que pessoas pouco inteligentes tomem decisões pouco inteligentes. Na verdade, eles consideram os factos como prejudiciais – sejam eles acerca de armas químicas sírias; ou conspirações para roubar as eleições primárias de Bernie Sanders; ou armas iraquianas de destruição em massa; ou o paradeiro de Osama Bin Laden – porque os factos exigem precisão e rigor ao passo que eles preferem habitar no reino da pura fantasia e do capricho. Nisto, seu objectivo real é facilmente discernível.

O objectivo da inteligência estado-unidense é sugar toda a riqueza que resta para fora dos EUA e dos seus aliados e embolsar tanto quanto possível. Enquanto finge defendê-la de agressores fantasmas, esbanja recursos financeiros inexistentes (tomados emprestados) em ineficazes operações militares e sistemas de armas super-facturados. Onde os agressores não são fantasmas, eles são especialmente organizados para o objectivo de conseguirem alguém que os substitua a combater: terroristas “moderados” e assim por diante. Um grande avanço nesta arte tem sido a mudança de operações de falsa bandeira reais, à la 11/Set, para operações de falsa bandeira falsas, à la ataque químico de Gouta Leste na Síria (já totalmente desacreditado). A história de interferência eleitoral russa talvez seja o passo final nessa evolução: nenhum arranha-céu de Nova York ou criança síria foi prejudicado no processo de cozinhar essa falsa narrativa. E ela pode ser mantida vivo aparentemente para sempre apenas através do esforço furioso de numerosas bocas a palrarem. Trata-se agora de um esquema de pura confiança na fraude. Se diante disso ficar pouco impressionado com as suas narrativas inventadas, então você é um teórico da conspiração ou, na reavaliação mais recente, um traidor.

Trump foi recentemente questionado sobre se confiava na inteligência dos EUA. Ele tartamudeou. Uma resposta jovial teria sido:

“Que tipo de idiota é você para me fazer uma pergunta tão estúpida? Claro que eles estão mentindo! Eles foram apanhados a mentir mais de uma vez e, portanto, já não se pode mais confiar neles. A fim de afirmar que eles actualmente não estão mentindo, é preciso determinar quando é que deixaram de mentir e que não mentiram desde então. E isso, na base da informação disponível, é uma tarefa impossível”.

Uma resposta mais séria, atendo-se à matéria de facto, teria sido:

“As agências de inteligência dos EUA fizeram uma alegação ultrajante: de que entrei em conivência com a Rússia para falsificar o resultado da eleição presidencial de 2016. O ónus da prova cabe a eles. Eles ainda têm de provar seu caso num tribunal de justiça, o qual é o único lugar onde o assunto pode legitimamente ser resolvido, se é que pode ser resolvido de todo. Até que isso aconteça, devemos tratar sua afirmação como teoria da conspiração, não como um facto”.

E uma resposta dura e impassível teria sido:

“Os serviços de inteligência dos EUA fizeram um juramento de defender a Constituição dos EUA, segundo a qual sou o seu Comandante-em-chefe. Eles reportam-se a mim, não eu a eles. Eles devem ser leais a mim, não eu a eles. Se eles são desleais a mim, então isso é razão suficiente para a sua demissão”.

Mas nenhum diálogo prático com base na realidade parece possível. Tudo o que ouvimos são respostas falsas a perguntas falsas e o resultado é uma série de decisões falhas. Com base em inteligência falsa, os EUA passaram quase todo este século envolvidos em conflitos muito caros e, em última instância, fúteis. Graças aos seus esforços, o Irão, o Iraque e a Síria formaram um crescente contínuo de estados alinhados religiosa e geopoliticamente, amistosos em relação à Rússia, ao passo que no Afeganistão os Taliban estão a ressurgir e a combater o Estado Islâmico – uma organização que se constituiu graças aos esforços americanos no Iraque e na Síria.

O custo total das guerras até agora neste século para os EUA é de US$4.575.610.429.593. Dividido pelos 138.313.155 americanos que preenchem declarações fiscais (se eles realmente pagam algum imposto é uma questão demasiado subtil), isso equivale a pouco mais de US$33 mil por contribuinte. Se pagar impostos nos EUA, essa é a sua conta até agora para os vários “acidentes” da inteligência dos EUA.

As 16 agências de inteligência dos EUA têm um orçamento combinado de US$66,8 mil milhões e isso parece muito até que se perceba quão supremamente eficientes são elas: seus “erros” custaram ao país cerca de 70 vezes seu orçamento. Com um nível de pessoal de mais de 200 mil empregados, cada um deles custou ao contribuinte dos EUA perto de US$23 milhões, em média. Esse número é totalmente aproximativo! O sector de energia tem os mais altos ganhos por empregado, em torno de US$1,8 milhão per capita. A Valero Energy destaca-se com US$7,6 milhões per capita. Com US$23 milhões, a comunidade de inteligência dos EUA tem ganho três vezes melhor que a Valero. Tiremos o chapéu! Isso torna a comunidade de inteligência dos EUA, de longe, o melhor e mais eficiente condutor imaginável rumo ao colapso.

Há duas hipóteses possíveis para explicar porque assim é.

Primeiro, podemos nos aventurar a imaginar que essas 200 mil pessoas são grosseiramente incompetentes e que os fiascos que elas desencadeiam são acidentais. Mas é difícil imaginar uma situação em que pessoas grosseiramente incompetentes consigam ainda assim canalizar US$23 milhões, em média, para uma variedade de empreendimentos fúteis de sua escolha. E é ainda mais difícil imaginar que seria permitido a tais incompetentes poderem cometer erros crassos década após década sem serem chamadas à pedra pelos seus erros.

Uma outra hipótese, muito mais plausível, é que a comunidade de inteligência dos EUA tem feito um trabalho maravilhoso para levar o país à bancarrota e conduzi-lo ao colapso financeiro, económico e político ao forçá-lo a participar de uma série interminável de conflitos caros e fúteis – o maior acto contínuo de grande furto já experimentado no mundo. Como é que isso pode ser uma coisa inteligente a fazer para o seu próprio país, em qualquer definição concebível de “inteligência”, deixarei para si o cuidado de elaborar. Enquanto estiver nisto, também pode querer chegar a uma melhor definição de “traição”: algo melhor do que “uma atitude céptica em relação a alegações ridículas e não comprovadas feitas por aqueles que são conhecidos como mentirosos perpétuos”.


O capitalismo em estado de guerra civil

(José Goulão, in AbrilAbril, 19/07/2018)

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(Excelente análise da situação política internacional. Afinal, Trump é tudo menos estúpido, ou pelo menos é muito menos estúpido do que aqueles que acham que ele o é.

Comentário da Estátua, 20/07/2018)


A ordem mundial – chamemos-lhe assim, por comodidade – monolítica e unipolar, nascida nos escombros do muro de Berlim, e consolidada através do cada vez mais misterioso atentado de 11 de Setembro de 2001, está à beira do fim.

Atribuir o funesto desenlace de um sistema que fica como espelho da ortodoxia neoliberal aos maus humores de Donald Trump, à sua embirração com a senhora Merkel, à falta de polimento congénita e à mais do que comprovada tendência autoritária é uma explicação apenas ao alcance de indigentes mentais. Só as cabeças que se deixaram formatar pela quadratura neoliberal, a arte de transformar a ausência de reflexão e de ideias em pensamento único, podem alinhar numa tese tão desfasada da realidade.

«é importante não avaliar [Trump] pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial»

Observar o presidente dos Estados Unidos da América passar um atestado de óbito à União Europeia, vê-lo desqualificar a elite governante da NATO, sentar-se ao lado do presidente da Rússia com o desejo declarado de iniciar uma nova relação entre Washington e Moscovo não pode ser uma questão humoral; nem subjectiva; nem um delírio. Tem que haver causas objectivas.

Uma delas é, com toda a certeza, o facto de o capitalismo ter entrado em estado de guerra civil. O que pode ser uma coisa boa, porque exibe cruamente o esgotamento do espírito e da letra do catecismo neoliberal; mas pode ser também uma coisa péssima, porque as contradições capitalistas, quando levadas ao extremo, são capazes de conduzir a confrontos sanguinários como a Primeira Guerra Mundial. Onde as vítimas não foram as desavindas elites mas os povos obrigados a sacrificar-se por elas como carne para canhão.

Entretanto, à escala global, os movimentos sociais, a mobilização dos trabalhadores contra um sistema que os isola para melhor os escravizar e a envergadura das esquerdas políticas consequentes estão longe de conseguir abrir caminho para impor uma alternativa democrática e popular tirando proveito dos ajustes de contas entre as castas dominantes.

Ao invés, afirmam-se cada vez mais poderosas as forças autoritárias que, aproveitando-se de uma convergência de circunstâncias sociais nefastas geradas pela mistificação neoliberal, queimam etapas restaurando cenários evocativos das mais horríveis memórias históricas. Forças essas que arrastam sectores humanos mobilizáveis por genuínos movimentos sociais – se os houvesse com poder – nas suas dinâmicas de enganos.

É neste quadro que surge a figura inusitada de Trump. Que é importante não avaliar pelo seu aspecto grotesco, pela boçalidade dos seus dizeres, mas pelo caminho que vai traçando entre contradições susceptíveis de ser apenas aparentes ou pouco determinantes quanto ao essencial.

Um homem do establishment

E o essencial é: Donald Trump é um homem do establishment governante norte-americano, que tem uma amplitude transnacional consolidada pela mundialização de teor anglo-saxónico. Porém, o establishment ecoa agora o esgotamento da ortodoxia neoliberal, enovelada em crises atrás de crises, pelo que a guerra civil do capitalismo passa pelo meio dele. Assim sendo, o clima de confronto, de ajuste de contas, difunde-se inevitavelmente através do capitalismo universal.

Em termos muito genéricos, tende a explicar-se que o grande confronto se trava entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência. No fundo estão em confronto duas formas de conservar o domínio neoliberal, emergindo a que é autoritária sem disfarce face ao esgotamento da que continua a invocar o primado da democracia – embora cada vez menos. Não será necessário lembrar que tanto o capitalismo produtivo como o financeiro são tanto mais compensatórios para as minorias que os cultivam quanto mais limitados forem os direitos das maiorias.

Trump representa, ou pretende representar, os interesses do capitalismo produtivo e daí o seu alinhamento com as correntes nacionalistas e restauracionistas, mais «viradas para dentro», para o desenvolvimento interno – o que o conduz ao confronto com as múltiplas instâncias da gestão global. E, sobretudo, com as elites políticas e burocráticas ao serviço destas, seja na União Europeia, na NATO, na ONU, na componente transnacional do establishment.

A União Europeia foi despedida

As frentes desta guerra civil são ainda fluidas e têm fronteiras muito difusas: não se enfrentam nações, mas diferentes conceitos de ordem internacional e interpretações dissonantes sobre as vias mais eficazes de o capitalismo cumprir as metas de obtenção dos lucros máximos.

O presidente dos Estados Unidos da América não esconde que a União Europeia passou a ser «um inimigo» – apesar de se manter «um aliado», desde que submetido à ordem militar da NATO – enquanto rejeita agora tratar a Rússia como «adversário», embora mantenha com este país uma tensão militar de alto risco.

As amostras do comportamento de Donald Trump e dos interesses que representa em relação à União Europeia não permitem ainda identificar a sua estratégia para tentar desmantelar o «inimigo/aliado», mas confirmam a animosidade latente. O presidente norte-americano desafiou Emmanuel Macron a retirar a França da União Europeia, em troca de relações económicas e comerciais privilegiadas; mantém a intriga pressionante sobre os conservadores britânicos, de modo a que o Brexit se concretize sem hesitações; interferiu, através de enviados próprios, na formação do actual governo italiano, matizando-o com forte atitude anti-europeísta.

«o grande confronto trava-se entre o capitalismo produtivo, politicamente entrincheirado nos nacionalismos, autoritarismos e outras antecâmeras do fascismo, e o capitalismo financeiro ainda reinante, por muito que projecte sucessivas imagens de decadência.»

Estas deixas seriam suficientes para os dirigentes e os governos europeus, pelo menos aqueles que ainda têm ilusões de soberania, reflectissem sobre o que é realmente a União Europeia, agora que todas as máscaras se dissolveram. Ficou a descoberto a sua essência de sempre: a de não passar de uma serventuária dos objectivos de dominação que orientam o establishment de raízes norte-americanas – até que um dia este, ou parte dele, a olhasse como estorvo.

Esse dia chegou.

Várias estratégias imperiais definidas em Washington, entre elas a «teoria do caos» que está na base da ordem mundial agora em decomposição, estabeleceram o dogma segundo o qual nenhuma potência ou aliança de países, mesmo «aliadas», poderia elevar-se a um patamar suficiente para rivalizar com o poder imperial norte-americano. A União Europeia e suas antecessoras a isto se confirmaram como regra fundamental do jogo, tornando os seus povos vítimas dela.

Os tão celebrados «pais fundadores» não conseguiram ter visão mais brilhante de futuro do que a criação dos «Estados Unidos da Europa»; e os federalistas seus herdeiros – que perseguem esse objectivo através de manobras tanto às claras como clandestinas – melhor não conseguiram almejar. E eis que a União Europeia se mostra hoje ao mundo tal como é: um apêndice imperial infectado na hora em que precisa de ser extirpado.

A NATO como polícia das riquezas mundiais

Consta, porém, que a já célebre sentença proferida por Trump em relação à administração de Berlim não se destinava prioritariamente a atingir a senhora Merkel mas sim a burocracia da NATO e o seu actual chefe, o falcão norueguês Stoltenberg. Em termos gerais, dando como exemplo a Alemanha, o presidente norte-americano deixou a mensagem que não se podem recolher as vantagens económicas resultantes de ser «amigo» da Rússia e, ao mesmo tempo, ter alguém a sustentar as obrigações militares de ser «inimigo» de Moscovo. Isto é, já é tempo de a NATO redefinir prioridades, o que não se consegue aprovando esboços de declarações finais elaborados previamente e antes do fim de uma reunião deliberativa, como aconteceu na recente cimeira. E todos os «aliados» terão que contribuir com as verbas estipuladas por Washington. Ao que os súbditos, ainda que insultados e humilhados, anuíram humildemente.

O que estará a acontecer para tamanhas desavenças nas cúpulas capitalistas globais, partindo do princípio de que a truculência de Trump e a eternização da crise não justificam tudo?

Em primeiro lugar, o que terá levado a que os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia anunciassem um novo começo nas relações entre os dois países, coisa que ainda não passa de mera intenção verbalizada?

«A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.»

Diz-se nos bastidores mais afectos a Trump que este terá ficado perturbado com a envergadura do potencial confronto entre as duas potências a que poderia ter conduzido o ataque com mísseis de cruzeiro contra a Síria, em Abril último. Não só os resultados alcançados foram de êxito muito duvidoso como a operação, e outras realizadas nos últimos tempos, confirmaram a eficácia elevada de alguns novos engenhos militares russos.

A situação terá reforçado a atracção do presidente norte-americano pelo nacionalismo e até pelas teses não-intervencionistas defendidas pelo ex-candidato presidencial Ron Paul, um neoliberal puro e duro, porém orientado pela necessidade de recuperação do poderio económico interno dos Estados Unidos. Teses estas que, sem qualquer dúvida, tornam inconvenientes o chamado «comércio livre», grandes investimentos e dispêndios no exterior. Daí até à crucificação da União Europeia e à tentativa de revisão dos objectivos prioritários da NATO, provavelmente a orientar mais como polícia das riquezas naturais e jazidas de matérias-primas estratégicas disseminadas pelo mundo, foi um pequeno passo.

«Encontrar-me-ão no caminho dos que tentam iniciar a Terceira Guerra Mundial», declarou Trump em Helsínquia, após o encontro com Putin, confirmando aparentemente que os dois presidentes nacionalistas convergiram nas suas «Tordesilhas externas» para se dedicarem prioritariamente aos assuntos internos de cada qual.

A clivagem, o confronto e a oportunidade

Inevitavelmente, uma viragem deste tipo provoca uma clivagem brutal no establishment e no chamado «Estado profundo» norte-americano, onde a elite burocrática instalada e os interesses por ela favorecidos – designadamente o lobbyarmamentista – rejeitam liminarmente tais inflexões estratégicas.

A guerra civil capitalista tem, por isso, a sua principal batalha no interior do poder político e económico norte-americano, onde a nova administração pretende substituir as cliques instaladas – bipartidárias num sistema que funciona como de partido único – pelas suas próprias clientelas.

Não se estranha, por isso, que as castas policiais e dos serviços secretos tenham posto a circular, na véspera da cimeira de Helsínquia, as supostas «provas» de que Trump foi eleito pelos serviços secretos russos; ou que o presidente seja acusado de «traição», por sinal pelo senador McCain, o elo de ligação entre o poder político-militar norte-americano e os grupos terroristas mercenários transnacionais, à cabeça dos quais estão a al-Qaida e o Isis ou «Estado Islâmico».

Passo a passo, o presidente norte-americano tenta reforçar o seu peso ideológico, mediático e propagandístico dando poder às suas clientelas, incentivando correntes conservadoras e ultra-conservadoras do país, sobretudo as tendências fundamentalistas religiosas – tanto católicas como evangélicas.

E assim vai aclarando a voz a tenebrosa e reacionária «América profunda», para o mal e para o pior. Por um lado, a elite instalada acusa Trump de ter sido eleito pelos serviços secretos de Putin; por outro lado, de todos os presidentes das últimas décadas, incluindo Ronald Reagan, Donald Trump foi o que perdeu menor percentagem de apoio ao cabo de período comparável de governação. De paradoxo em paradoxo, chegamos ao mais intrigante: este presidente dos Estados Unidos parece agora estar mais disposto a afastar-se da iminência de uma nova guerra mundial do que qualquer dos seus antecessores próximos. Pedra de toque para o futuro a curto prazo: tentar perceber se as frentes russa e da NATO se distanciam uma da outra no Leste da Europa, tal como dizem ter sido negociado entre Trump e Putin.

A guerra civil capitalista está lançada nestes moldes. Quanto aos resultados a proporcionar pela vitória de qualquer dos campos em confronto, por indefinidos que ainda sejam, que venha o diabo e escolha.

O ideal seria mesmo que as forças mundiais da paz, da cidadania, da igualdade e do desenvolvimento social percebessem a oportunidade que está aberta e soubessem tirar proveito destes tempos de explosão das contradições capitalistas.


Fonte aqui