O fracasso total da diplomacia de Washington

(Por Strategic Culture Foundation, In Resistir, 14/08/2019)

Aparentemente já não há qualquer tentativa, ou simulacro, de diplomacia por parte de Washington. Sanções e agressões são exercidas com descaramento. A Rússia, a China e mesmo os supostos aliados europeus dos Estados Unidos são sujeitos a sanções por Washington – numa rejeição arrogante a qualquer diálogo para resolver alegados diferendos. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, evoluiu para uma certa atitude maximalista estridente nas relações internacionais. Ela pode ser resumida assim: do meu modo ou de modo nenhum. 

Um exemplo recente é a imposição de sanções ao ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif. Isto indica que os EUA amputaram qualquer possibilidade de uma desescalada negociada de tensões no Golfo Pérsico. 

Zarif, do Irão, revelou nesta semana que quando estava numa visita diplomática aos EUA no mês passado foi-lhe dito por autoridades que era aguardado na Casa Branca para uma reunião com o presidente Trump. Se Zarif recusasse a “oferta” ele seria então colocado numa lista de sanções, informaram-no. Sob estas circunstâncias de coerção aparente o principal diplomata iraniano declinou o convite, só para descobrir posteriormente que fora na verdade punido com sanções. Que espécie de diplomacia americana é esta? Soa como uma oferta do tipo máfia, que não pode ser recusada. 

Esta abordagem “diplomática” com mão pesada sugere que não há de facto diplomacia alguma proveniente de Washington. O presidente Trump twittou na semana passada que o seu governo estava a “ficar sem opções” em relação ao Irão quanto às crescentes tensões no Golfo Pérsico. Parece que a Casa Branca está a “oferecer” falsas tentativas de negociação, enquanto ao mesmo tempo monta opções militares para atacar o Irão. 

Outro exemplo de diplomacia fracassada foi a renúncia, esta semana, do embaixador dos EUA na Rússia, John Huntsman. Ele abandonou o cargo em parte por frustração com a inutilidade de seu dever diplomático de facilitar o diálogo bilateral com Moscovo. A tarefa de Huntsman tornou-se insustentável devido ao maníaco animo anti-russo agora entranhado em Washington, pelo qual qualquer tentativa de diálogo é retratada como uma espécie de “acto de traição”. 

Outro exemplo de repúdio da diplomacia pelos EUA é a ordem executiva de Trump esta semana de impor um embargo comercial total à Venezuela. Aquele país sul-americano está efectivamente a ser submetido à fome para submeter-se a Washington e aceitar que o presidente eleito Nicolas Maduro se retire, de acordo com o ditame dos EUA, a fim de permitir que um duvidoso político da oposição apoiado pelos EUA tome as rédeas do poder em Caracas. 

Estes exemplos, entre muitos outros, demonstram que Washington não tem intenção de buscar um discurso diplomático com outras nações e está totalmente empenhado em emitir ditames – ou utilizar outros meios; a fim de alcançar seus objectivos geopolíticos. 

O mais chocante e perigoso é que Washington está a operar na base do ultimato da soma zero. As premissas para os seus ditames são invariavelmente infundadas ou irracionais. A Rússia é tratada como um Estado pária por alegações bizarras de interferência nas eleições dos EUA; o Irão é tratado como um estado pária sob alegações vazias acerca de uma agressão iraniana; a Venezuela é tratada como um Estado pária com alegações contra um presidente eleito. A China é caluniada com alegações de ser um “manipulador da divisa”. A Europa supostamente estaria “a aproveitar” os termos comerciais dos EUA. E assim por diante. É a tirania enlouquecida. 

O padrão do direito internacional e as normas da diplomacia estão a ser jogados no lixo do modo mais deliberado e selvagem possível, puramente na base do capricho americano e na sua agenda em causa própria de dominação. 

Esta é uma situação global extremamente perigosa, pois o viés político americano e o preconceito irracional estão a ser tornados padrão ao invés dos princípios do direito internacional e da soberania das nações. Não há diplomacia absolutamente nenhuma. Só a notificação das exigências americanas de obediência ao ditame irracional de Washington para satisfazer seus anseios de hegemonia. 

Não há outro meio de descrever a presente ilegalidade global do assumido poder americano e do seu farisaísmo senão considerá-la como uma forma de fascismo de estado-pária com esteróides. 

Quando a diplomacia, as negociações, o diálogo e o respeito pela soberania são totalmente desrespeitados por Washington – cuja única resposta são as sanções e a agressão militar – então deveríamos saber que a presente descrição do poder americano não é uma hipérbole. É uma descrição da realidade lamentável de que a diplomacia americana não existe mais. Está a tornar-se passado a possibilidade de conduzir relações normais com esse regime paranóico e sem lei. Um estado pária nuclear, também, capaz de destruir o planeta num capricho ou num impulso paranóico do seu cérebro doentio. 

Poderão os cidadãos americanos controlar um regime tão errático e irracional? O tempo dirá. Mas uma coisa parece certa, a paz mundial é continuamente ameaçada pelo regime de Washington, o qual opera dentro do seu próprio reino de fantasia e megalomania criminal. 

Está claro que a diplomacia dos EUA é um fracasso absoluto. Porque, na tortuosa megalomania guerreira de Washington, a diplomacia parece ter-se tornado totalmente irrelevante. O que é isso senão fascismo? 


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As cidadelas das elites da América: fracturadas e em conflitos entre si

(Alastair Crooke, in Resistir, 05/08/2019)

John Bolton

Algo está a acontecer. Quando dois colunistas do Financial Times – pilares do establishment ocidental – levantam uma bandeira de advertência, devemos prestar atenção. Martin Wolf foi o primeiro, com um artigo dramaticamente intitulado: Os 100 anos que se deparam, conflito EUA-China ( The looming 100-year, US-China Conflict ). Não uma “mera” guerra comercial, ele deu a entender, mas uma luta total (full-spectrum struggle). A seguir o seu colega do FT, Edward Luce, destacou que o argumento de Wolf contém mais nuances do que o título. Tendo passado parte desta semana entre importantes decisores e pensadores políticos no Fórum anual de Segurança Aspen, no Colorado, Luceescreve : “Inclino-me a pensar que Martin não exagerava. A velocidade com a qual líderes políticos estado-unidenses de todas as faixas se uniram por trás da ideia de uma “nova guerra fria” é algo que me tira o fôlego. Dezoito meses atrás a frase era afastada como alarmismo periférico. Hoje é consenso”. 

Uma mudança significativa está em curso em círculos políticos dos EUA, aparentemente. A última observação de Luce é que “é muito difícil ver o que, ou quem, vai impedir que esta grande rivalidade de poder domine o século XXI”. É claro que há de facto um claro consenso bipartidário nos EUA sobre a China. Luce certamente está certo. Mas isso está longe de ser o fim do assunto. Uma psicologia colectiva da beligerância parece estar a formar-se e, como observou um comentarista, tornou-se não apenas uma rivalidade de grande potência, mas uma rivalidade entre gabarolas políticos da “Beltway” para mostrar “quem tem o maior pénis”. 

E James Jeffrey, enviado especial dos EUA para a Síria (e vice Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA), presente em Aspen , passou rapidamente a demonstrar o seu (depois de outros terem desvelado sua masculinidade quanto à China e ao Irão). Uma política estado-unidense, diz ele, reduz-se a um componente prioritário: “martelar a Rússia”. O “martelar a Rússia” (insistiu repetidamente) continuará até o presidente Putin entender que não há solução militar na Síria (ele disse isso com elevada ênfase verbal). A Rússia assume falsamente que Assad “venceu” a guerra: “Ele não conseguiu”, disse Jeffrey. E os EUA estão comprometidos a demonstrar esta “verdade” fundamental. 

Portanto, os planos dos EUA para “elevar a pressão” escalarão o custo para a Rússia, até que uma transição política se verifique, com uma nova Síria a emergir como “nação normal”. Os EUA “alavancarão” os custos sobre a Rússia de cabo a rabo. Através da pressão militar – assegurando uma falta de progresso militar em Idlib; através de israelenses a operarem livremente por todo o espaço aéreo da Síria; através de “parceiros dos EUA” (isto é, os curdos) a consolidarem no nordeste da Síria; através de custos económicos (“nosso êxito” em travar a ajuda para a reconstrução da Síria); através de extensas sanções dos EUA à Síria (integradas com aquelas ao Irão) – “estas sanções estão a ter êxito”, afirma, e em terceiro lugar pela pressão diplomática: isto é, “martelar a Rússia” na ONU. 

Bem a mudança dos EUA sobre a Síria também nos apanha de surpresa. Recorde-se que pouco tempo atrás a conversa era de parceria, de os EUA a trabalhar com a Rússia a fim de encontrarem uma solução na Síria. Agora a conversa do Enviado dos EUA é de Guerra fria com a Rússia na mesma medida dos seus colegas de Aspen – embora a respeito da China. Tal “machismo” evidencia-se que também vem do Presidente dos EUA. “Eu podia – se quisesse – acabar a guerra dos EUA no Afeganistão em uma semana” (mas isto implicaria a morte de 10 milhões de afegãos), exclamou Trump. E, do mesmo modo, Trump agora sugere que para o Irão é fácil: guerra ou não – qualquer dos caminhos é bom, para ele. 

Toda esta jactância recorda o final de 2003 quando a guerra no Iraque estava a entrar na sua etapa insurgente: Foi dito então que simples “rapazes vão para Bagdad, mas que homens de verdade optam por ir para Teerão “. Isto ganhou ampla difusão em Washington naquele tempo. Este tipo de conversa deu origem, como bem me lembro, a algo que se aproxima de uma euforia histérica. Responsáveis pareciam estar a andar quinze centímetros acima do solo, a anteciparem todos os dominós que esperavam tombar em sucessão. 

A questão aqui é que a união tácita da Rússia – agora denominada como um grande “inimigo” da América por responsáveis do Departamento da Defesa – e da China inevitavelmente está a ser reflectida de volta para os EUA, em termos de uma crescente parceria estratégica russo-chinesa, pronta a desafiar os EUA e seus aliados. 

Na quinta-feira passada um avião russo, a voar numa patrulha conjunta com um correspondente chinês, entrou deliberadamente no espaço aéreo sul-coreano. E, pouco antes, dois bombardeiros russos Tu-95 e dois aviões de guerra chineses H-6 – ambos com capacidade nuclear – confirmadamente entraram na zona de identificação aérea da Coreia do Sul. 

“Esta foi a primeira vez , que eu saiba, que aviões de combate chineses e russos voaram em conjunto através da zona de identificação de defesa aérea de um importante aliado dos EUA – neste caso, de dois aliados dos EUA. Claramente trata-se de um assinalar geopolítico bem como uma colecta de inteligência”, disse Michael Carpenter, um antigo especialista em Rússia do Departamento da Defesa dos EUA. Foi uma mensagem para os EUA, Japão e Coreia do Sul. Se fortalecer a aliança militar EUA-Japão, a Rússia e a China não tem opção excepto reagir militarmente também. 

Assim, quando olhamos em torno, o quadro parece ser de que a belicosidade dos EUA está de certo modo a consolidar-se como um consenso da elite (mas com uns pouco indivíduos corajosamente a fazerem contra-pressão a esta tendência). Então, o que está a acontecer? 

Os dois correspondentes do FT estavam efectivamente a assinalar – nos seus artigos separados – que os EUA estão a entrar numa transformação monumental e arriscada. Mais ainda, aparentemente a elite da América está a ser fracturada em enclaves balcanizados que não se estão a comunicar entre si – nem querem comunicar-se entre si. Trata-se antes de mais um conflito entre rivais mortais. 

Uma orientação insiste sobre uma renovação da Guerra fria para sustentar e renovar o super-dimensionado complexo militar-segurança, o qual representa mais da metade do PIB da América. Outros da elite exigem que a hegemonia global do US dólar seja preservada. Outra orientação do Estado Profundo está desgostosa com o contágio de decadência sexual e corrupção que penetrou na governação americana – e espera realmente que Trump “drenará o pântano”. E outra ainda, que encara a amoralidade agora explícita de DC como pondo em risco a posição global e a liderança da América – quer ver um retorno aos costumes tradicionais americanos – um “rearmamento moral”, por assim dizer. (E depois há os deploráveis, que simplesmente querem que a América cuide de sua própria renovação interna.) 

Mas todas estas divididas facções do Estado Profundo acreditam que a beligerância pode funcionar. 

No entanto, quanto mais essas fraccionadas facções rivais da elite dos EUA, com seus estilos de vida endinheirados e confortáveis, enclausuraram-se nos seus enclaves, alguns nas suas visões separadas sobre como a América pode reter sua supremacia global, menos provável é que entendam o impacto muito real da de sua beligerância colectiva sobre o mundo exterior. Como qualquer elite mimada, eles têm um sentido exagerado do seus direitos – e da sua impunidade. 

Estas facções de elite – apesar de todas as suas rivalidades internas – parecem ter-se fundido em torno de uma singularidade de fala e de pensamento que permite às classes dominantes substituírem a realidade de uma América sujeita a stress e tensão severos – a fábula de um hegemonista que ainda pode escolher quais governos e povos não complacentes intimidar e remover do mapa global. Sua retórica solitária está a azedar as atmosferas no não-ocidente. 

Mas uma outra implicação da incoerência dentro das elites é aplicável a Trump. Assume-se amplamente, por causa do que ele diz, que não quer mais guerras – e porque ele é presidente dos EUA – não acontecerão guerras. Mas não é assim que o mundo funciona. 

O líder de qualquer nação nunca é soberano. Ele ou ela senta-se no topo de uma pirâmide de principezinhos brigões (principezinhos do Estado Profundo, neste caso), os quais têm os seus próprios interesses e agenda. Trump não está imune às suas maquinações. Um exemplo óbvio sendo a artimanha do sr. Bolton, com êxito, ao persuadir os britânicos a apresarem o petroleiro Grace I ao largo de Gibraltar. De uma penada, Bolton escalou o conflito com o Irão (“aumentou a pressão” sobre o Irão, como provavelmente diria Bolton); colocou o Reino Unido na linha de frente da “guerra” da América com o Irão; dividiu os signatários do JCPOA e embaraçou a UE. Ele é um “operador” sagaz – não há dúvida acerca disso. 

E aqui está a questão: estes principezinhos podem iniciar acções (incluindo de falsas bandeiras) que conduzem os acontecimentos para a sua agenda; que podem encurralar um Presidente. E isto é presumir que o Presidente está de algum modo imune a uma grande “mudança de estado de espírito” entre os seus próprios lugares-tenentes (ainda que este consenso não seja mais do que uma fábula que se segue à beligerância). 

Mas será seguro assumir que Trump é imune ao “humor” geral entre as variadas elites? Seus recentes comentários improvisados sobre o Afeganistão e o Irão não sugerem que ele possa se inclinar para a nova beligerância? Martin Wolf concluiu seu artigo no FT sugerindo que a mudança nos EUA indica que podemos estar a testemunhar um tombo rumo a um século de conflito. Mas no caso do Irão, qualquer movimento equivocado poderia resultar em algo mais imediato – e não controlado. 

[*] Antigo diplomata britânico, fundador e director do Conflicts Forum, com sede em Beirute. 


Fonte aqui

O mundo em realidade paralela

(José Goulão, 25/06/2019)

A elite governante mundial, em aliança com o aparelho comunicacional global que trata da sua propaganda, querem forçar-nos a viver numa realidade paralela, aquela em que a versão ficcional e oficial dos factos se transforma em verdade única, indiscutível, sendo a discordância anatemizada como fake news. 

Para ter a noção da envergadura da burla basta-nos pegar em alguns factos que fazem a actualidade, segundo a agenda ditada pelo aparelho de propaganda, e aprofundá-los um pouco. Não será necessário cavar muito fundo, porque a mistificação fica exposta a partir das primeiras incisões: não pode dizer-se que haja especial cuidado em preparar algumas das farsas. 

No topo da actualidade está a guerra contra o Irão: haverá ou não haverá? Quando haverá? Como haverá? O problema resume-se a estas dúvidas. 

Presume-se, pois, que existam razões justas, mecanismos legais para que a guerra se faça, talvez resoluções das Nações Unidas ou coisas do género. 

Não, resoluções não há; tão pouco o Congresso dos Estados Unidos deu o consentimento constitucional ao presidente para atacar o Irão. E, já agora, alguém sabe dizer o que fez o Irão para que mereça ser alvejado? Parece que uns petroleiros danificados no Golfo de Omã sem que haja provas de quem cometeu o crime; e o derrube de um drone norte-americano que invadiu o espaço aéreo iraniano, facto de que existem sobejas provas embora sejam censuradas pela comunicação global. 

Digamos, porém, que estas circunstâncias poderão ser pretextos circunstanciais, os casus belli, a ignição do conflito armado. 

Porque a pergunta que conta é esta: por que razão está o Irão a ser vítima de uma guerra através de sanções económicas arbitrárias que pode estender-se à componente militar? Procurem a resposta no mainstream: encontrá-la é tão difícil como acertar no euromilhões. Isto é, parte-se do princípio de que o Irão tem de ser punido porque sim ou por alguma coisa que já se manipulou e dissolveu algures entre notícias empolgadas, comentários e análises de uma guerra, afinal, imprescindível – é isso que interessa. 

De vez em quando cita-se o presidente dos Estados Unidos dizendo que, coitado, ele não quer a guerra, Teerão é que a força; por ele, preferia negociar… 

Negociar o quê? Ao que parece que o Irão se comprometa a não ter armas nucleares. Mas isso já ficou estabelecido num acordo aprovado em 2015 entre Teerão, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha. Um acordo que está a funcionar, como comprova a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) nos relatórios das suas inspecções trimestrais. 

Acontece que os Estados Unidos deram o dito por não dito e retiraram-se há tempos do texto que assinaram. O que não inviabiliza o acordo nem significa que o Irão o viola. Então a guerra de que se fala é uma acção unilateral dos Estados Unidos – em que quer arrastar o mundo inteiro – para supostamente negociar o que está negociado. Sendo que, por ironia da história, o único projecto nuclear militar que o Irão alguma vez teve foi criado pelos Estados Unidos quando sustentavam a ditadura criminosa do Xá Reza Pahlevi. 

O mainstream, porém, não trata disto: dá muito trabalho às pessoas, ocupa-lhes a cabeça, faz pensar. Coisa que normalmente não é boa para as guerras.  

E as guerras são para fazer. 

Onde entra a NATO 

E quando se fala em guerra surge a NATO; como se sabe, sempre com a mais louvável e indiscutível postura ” ;defensiva” ; – não é assim que assegura a comunicação/propaganda? 

A NATO é sempre notícia, e mais ainda quando, como agora, se reuniram os ministros dos Estados membros. 

Sempre no seu estilo contido, disseram os ministros, em redor do seu secretário-geral renomeado de fresco, que ou a Rússia suspende a produção de um determinado míssil de médio alcance com capacidades nucleares ou a NATO procederá em conformidade. 

Ficou dado o recado, bem distribuído pela comunicação social. E basta! O resto é dispensável, toda a gente sabe muito bem quem são os russos. 

Vamos então aprofundar um pouco a matéria. 

Os russos dizem que o míssil em questão não viola o tratado de mísseis de médio alcance (INF), mas isso nada vale – é dito pelos russos. Poder-se-iam confrontar as duas versões, mas o que a NATO diz está dito, é um dogma. 

Além disso, as várias formas de rearmamento visando a Rússia que a NATO tem adoptado, em terra e no mar, viola esse tratado porque transforma objectivos supostamente defensivos em vantagens ofensivas e com capacidades nucleares. 

Bom, mas isto é dito igualmente pelos russos e também por pessoas informadas mas cujas opiniões e factos apresentados não cabem na versão oficial. 

No entanto, seria importante sublinhar que o recado é enviado pela NATO aos russos precisamente na mesma altura em que a Junta de chefes do Estado-maior das forças armadas norte-americanas – isto é, da NATO – aprovou uma nova doutrina. E esse normativo prevê o recurso a armas nucleares como meios ” ;decisivos” ; para resolver situações em que não haja ” ;vitórias convincentes” ; das forças do bem, as que asseguram ” ;o nosso civilizado modo de vida” ;. Isto é, situações como as do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, quiçá do Irão, da Crimeia e o mais que ao bem aprouver. Trata-se, diz a Junta, de garantir a ” ;estabilidade estratégica” ;, ao que parece uma situação que apenas é alcançável com vitórias plenas e domínio absoluto dos Estados Unidos e da NATO, nem que seja, a partir de agora, com bombas nucleares. 

O mainstream deveria ter dito alguma coisa sobre isto, pelo menos para os cidadãos ficarem a saber que as bombas nucleares poderão passar a decidir conflitos convencionais. Dizer para quê? Isso só iria agitar consciências tão postas em sossego com a informação fast food que lhes é servida. 

O humanitário Guaidó 

Estando o Irão no topo da agenda parece ter amainado, por ora, a sanha contra a Venezuela e as escolhas democráticas dos venezuelanos; até a RTP reduziu a intensidade dos esforços para transformar em grandes e legítimos democratas os fascistas enviados por Trump, Bolton & Cia. 

Isto não significa que a guerra travada em várias frentes, designadamente as sanções contra o povo e o roubo de bens do Estado não prossigam. O assunto é que transitou das manchetes para páginas interiores e posições intermédias dos alinhamentos. 

Por isso o grande público não foi informado do episódio mais actual da ” ;operação liberdade” ;, aquela tentativa de golpe em Fevereiro passado montada em torno do pretexto da entrada de ” ;ajuda humanitária” ; na Venezuela, com o conquistador Juan Guaidó na frente. 

Pois os bens angariadas por organizações tuteladas pela CIA e os milhões alcançados no concerto Live Aid ficaram na Colômbia e, segundo informações que são agora do conhecimento público, filtradas por agentes dos próprios serviços secretos colombianos, foram direitinhos para os bolsos e as contas pessoais das hostes de Guaidó, o presidente interino nomeado por Washington. Até o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, um dos mentores de toda a ” ;operação liberdade” ;, surge agora a pedir um inquérito às circunstâncias, uma vez que, por outro lado, parte da ” ;ajuda” ; alimentar ficou a apodrecer em armazéns em Cúcuta, comunidade colombiana a que poderia ser útil pois está muito carente de tudo o que não lhe chega de Bogotá. 

Portanto, este desfecho da tão empolgante ” ;operação liberdade” ; que iria ” ;libertar” ; os venezuelanos do ” ;jugo” ; do democraticamente eleito Maduro ficou por contar pela comunicação/propaganda. E trata-se, afinal, de um final feliz – e rentável – para aqueles que, embora não ” ;libertassem” ; a Venezuela se viram livres de hipotéticas dificuldades financeiras pessoais. 

Epílogo ecológico 

Viria a talhe de foice destas situações recordar palavras recentes do secretário-geral da ONU, Eng. António Guterres, que tiveram apropriadas tonalidades autocríticas embora, mais uma vez, passassem ao lado do essencial – a mentira, o desprezo e o desrespeito em que vive mergulhada a esmagadora maioria dos seres humanos do planeta, perante a complacência das Nações Unidas. 

Disse o Eng. Guterres que a geração dos dirigentes actuais não tem estado à altura das necessidades – mas fê-lo no contexto da degradação ambiental e das alterações climáticas. 

Ora há muitas situações trágicas a montante e das quais a contaminação ambiental e os problemas climáticos são óbvias consequências. Há a guerra, as desigualdades cada vez mais profundas entre Estados e povos, as armadilhas financeiras, o desprezo ostensivo pelos direitos humanos, as antigas e mais recentes formas de colonialismo militar e económico, a desenfreada corrida às matérias-primas, o destruidor expansionismo agrícola transnacional, a impunidade da exploração de matérias-primas por métodos destruidores da água e dos solos, o comércio injusto dito ” ;livre” ;, o descarado desrespeito do capitalismo transacional por normas que poderiam preservar o ambiente mas, no seu entender, provocam restrições à ganância intrínseca. 

O meio ambiente e a ecologia não existem por si, como bolhas que possam ser tratadas isoladamente sem mudar o mundo. 

Imagine-se que agora até o mainstream é ecológico, fala contra as alterações climáticas, descobriu que o plástico é nocivo para o ambiente. Falta-lhe apurar e explicar, porém, como é que o desastre ambiental afecta drasticamente a esmagadora maioria dos pobres e poupa os ricos, os que o provocam, construindo-se assim mais um sistema de apartheid. 

A comunicação global e o Eng. Guterres estão, afinal, no mesmo comprimento de onda, cumprindo-se a ordem natural das coisas. Uma, porque a sua missão neste mundo é impor a realidade paralela; o outro porque contribui para fabricá-la, embora pudesse não o fazer, ao menos para respeitar os direitos humanos. 

Fonte aqui