Propaganda e histeria no ocidente

(André Vitchek, in Resistir, 08/06/2020)

Se não fosse tão trágico, seria ridículo: os brigões políticos na América do Norte e na Europa furiosos, cuspindo injúrias e revirando os olhos, apontam os dedos em todas as direções, gritando incoerentemente: “China!”, “Rússia!”, “Venezuela e Cuba!”, “Irão!”; “Tu, tu, e TU!”.


A China e a Rússia estão silenciosamente a construir um novo mundo, que inclui infraestruturas totalmente novas, fábricas e bairros inteiros para o povo. Hospitais estão a ser construídos, assim como universidades, parques, salas de concerto e redes de transportes públicos. Ambos os países estão a fazer tudo isto de maneira rápida, silenciosa e com grande determinação. Apesar das sanções e embargos, eles nunca gritam de volta às bocas espumando raivosas dos gurus ocidentais da lavagem cerebral.


A diferença entre o Ocidente e os dois poderosos aliados no Oriente é enorme. De facto, não é uma diferença, mas um contraste total.
Não é que a China e a Rússia sejam países perfeitos. Não. A perfeição é deprimente e é dirigida por fanáticos religiosos (graças a Deus sem sucesso) e por revistas de moda. Eu nem sei o que realmente significa, filosoficamente – perfeição.


O que sei é que na China e na Rússia as pessoas vêm primeiro. Os seus padrões de vida estão no centro de quase todos os esforços das economias planeadas. Pequim e Moscovo e a maioria das suas burocracias existem para que as pessoas vivam mais e melhor, e tenham vidas mais significativas. As cidades e vilas são projetadas para que os cidadãos se tornem mais educados e saudáveis, enquanto desfrutam de uma vida cultural mais profunda.

Visitando a Rússia, de Vladivostok a Kaliningrado, e também a China, de Guangzhou a Urumqi, isto é claramente visível, inegável.

Os grandes media e os governos ocidentais pararam de fazer as perguntas básicas e impediram que outros as fizessem publicamente. Perguntas como: “O que realmente queremos da vida?” “Do que temos medo?” “Em que tipo de sociedade queremos viver?”


A sério: quer realmente morar num país onde você e sua família poderiam conduzir os mais recentes Maserati ou Lamborghini, numa estrada cercada por favelas infestadas? Desejaria fazer compras em centros comerciais com casas de banho decoradas a mármore e torneiras douradas, enquanto, apenas a 100 metros, as pessoas morrem sem saneamento básico e cuidados médicos decentes?


Desejaria viver numa bolha ou no seu exíguo país, que está indo muito bem, simplesmente porque colonizava territórios enormes e continua indiretamente a colonizá-los, neste exato momento? Ou num país que se orgulha de nunca ter colonizado ninguém diretamente, mas que “investe” no expansionismo ocidental desde há décadas e séculos. Note-se que desta vez não estou a nomear nomes, nem a apontar dedos. Deixo o leitor preencher os espaços em branco.

Podem chamar-me ingénuo, mas sempre pensei que a maioria das pessoas quer viver vidas seguras, plenas de conhecimentos e cultura, sem medo de adoecer, sem ondas de crimes que proliferam com a miséria, sem a preocupação de como vão pagar o telhado acima de suas cabeças, amanhã ou daqui a um mês, ou mesmo daqui a dez anos.

Quantas pessoas no Ocidente estão assustadas, petrificadas? Estou a falar de medos desnecessários; medos que poderiam ser facilmente eliminados? Quantos estão deprimidos, até desesperados; que se tornam suicidas com pílulas venenosas que lhes são dadas, para que possam manter-se dia a dia?

E quantas pessoas nas neocolónias estão a viver na absoluta miséria; em África e no Médio Oriente, na América Latina, Ásia e Oceânia?

Tudo isso é necessário? Não é tudo totalmente absurdo? Os grandes media e as universidades no Ocidente e nas suas colónias estão ao serviço de um regime, que consiste principalmente nas grandes empresas e nas suas fachadas de relações públicas – os chamados governos eleitos.

O funcionamento do sistema político ocidental quase nunca é abordado. De novo, não são feitas grandes perguntas. Incluindo uma das mais essenciais: “Por quê a maioria das pessoas na América do Norte e Europa que desprezam o seu próprio sistema, continua elegendo os mesmos indivíduos e partidos que dizem detestar? Por que continuam a ser enganados no tecer dos próprios laços que os prendem? “

Será isto realmente, liberdade e democracia?

Na Rússia e na China, as pessoas estão muito mais satisfeitas com os sistemas que possuem.

As pessoas também estão, quase sempre, muito mais satisfeitas com os sistemas revolucionários pelos quais lutaram e venceram, em países como Venezuela e Cuba, Irão e Bolívia antes que o Ocidente decidisse afastá-los, brutal e sem cerimonia. Obviamente, se sanções terríveis forem impostas, ou mesmo embargos; se planos de assassinato e ataques terroristas são desencadeados por mercenários ocidentais e seus aliados, a vida não pode ser feliz, equilibrada e agradável. Basta olhar para a Síria. Mas será culpa do socialismo ou do comunismo, culpa de sistemas que são diferentes?

Francamente: nenhum verdadeiro sistema comunista ou socialista teve a hipótese de florescer, ou se desenvolver, ininterruptamente. Eles sempre foram atacados, brutalizados e despedaçados pelos interesses ocidentais e seus exércitos, de aliados ou mercenários

E assim foi porque todos os sistemas comunistas lutaram com determinação contra o colonialismo, o imperialismo e a pilhagem.

Seria interessante ver o que aconteceria, se não tivessem existido intervenções, campanhas de difamação, embargos e guerra. Talvez a maioria dos países comunistas florescesse?

E, no entanto, apesar de todo esse horror imposto pelo Ocidente, a China e a Rússia estão florescendo.

A América do Norte e a Europa estão em pânico. Eles estão literalmente tremendo. Suas elites estão totalmente excitadas, tentando inventar novas fórmulas, novos insultos, para manchar os dois pioneiros globais.

O maior medo que eles têm é: e se o resto do mundo notar? E se alguns países começassem a mudar de lado e de alianças. Alguns países estão a fazer exatamente isso! Tudo está subitamente mudando, evoluindo. As coisas estão sendo discutidas agora, nas Filipinas e no México, no Quénia e em muitos outros lugares.

A maioria das pessoas nos países colonizados ainda está com muito medo de sonhar. Eles não se atrevem a acreditar que outro mundo é possível; que as tentativas de construir um planeta muito melhor não seriam novamente afogadas naqueles banhos de sangue habituais. Muitos são como reféns mantidos num subterrâneo imundo durante anos, não estão mais acostumados aos raios do sol, vivem com medo constante. A síndrome de Estocolmo parece estar omnipresente.

Nações imensas e inegavelmente bem-sucedidas, como China e Rússia, podem estar absolutamente, totalmente erradas? Podem ser completamente más? Lendo os media ocidentais, ouvindo funcionários do governo na América do Norte e na Europa, aqueles países são precisamente isso: enganosos, sinistros e perigosos para seu próprio povo e para o mundo.

Não há absolutamente nada de positivo escrito (no Ocidente) sobre nações que decidiram ou foram forçadas a seguir o seu próprio caminho: China, Rússia, mas também Coreia do Norte, Síria, Irão, Venezuela, Cuba e até a África do Sul.

Eles enfrentam uma enxurrada de negatividade, agressões cínicas e insultos. Todo sucesso é questionado e menosprezado. Quase todas as notícias são apresentadas com um ponto de interrogação sarcástico. Líderes são ridicularizados


No Ocidente, o jornalismo praticamente morreu. Milhares de escribas são destacados pelos meios de comunicação corporativos, em busca dos “segredos mais sombrios” dentro da China, Rússia e outros países não ocidentais. As histórias positivas só podem ser destacadas se ocorrerem no Ocidente ou nas neocolónias do Império Ocidental.


Tudo isso porque o regime luta desesperadamente pela sua sobrevivência. Porque não pode mais inspirar ninguém. Não pode oferecer otimismo ou motivar com ideais entusiásticos. Manchar os seus oponentes é “o melhor que pode fazer”.

A Rússia e a China não podem competir com o mecanismo de propaganda do Ocidente. E eles não tentam mais. Faziam-no, mas desistiram há já algum tempo.

Em vez disso, estão a desenvolver novos conceitos sociais para seu povo, trabalhando na implementação de uma civilização ecológica e na melhoria dos padrões de vida de todos.

Em vez de brigar, apontar dedos e insultar os oponentes, a Rússia e a China estão a avançar irreversivelmente. Esta marcha confiante é o que provavelmente salvará a humanidade do colapso iminente, da terrível agonia do canibalismo, promovido como “democracia” e “liberdade” pelo fundamentalismo do mercado ocidental e a ditadura brutal dos 1%.

A China e a Rússia podem não ser perfeitas, mas o que está a acontecer no Ocidente é monstruoso. O que acontece no novo tipo de colónias do Ocidente é simplesmente um crime contra a humanidade, da Papua Ocidental ao Médio Oriente, da República Democrática do Congo à Amazónia brasileira, para citar apenas algumas partes completamente saqueadas e arruinadas do mundo.

E há um silêncio total quando se trata desses crimes. Quanto a isto os media ocidentais são silenciosos, obedientes e disciplinados.

As partes arruinadas e feridas do mundo levitam silenciosamente em direção à Rússia e à China. Sofreram enormemente, durante décadas e séculos. Eles não têm mais lágrimas nos olhos; nem sangue nas veias. Eles não leem folhas de propaganda. Eles estão com cicatrizes, famintos e doentes. Eles precisam sobreviver, precisam de uma tábua de salvação, rapidamente. Eles precisam de um braço forte e determinado para se apoiar. Rússia e China estão lá, prontas para ajudar. Agora, imediatamente, incondicionalmente.

E eles sabem isso – em Londres, Washington, Paris, Berlim, Camberra, Otava! Eles sabem isso e fazem todo o possível para interromper o processo. Silenciar as vítimas. Para manter o controlo sobre o mundo. Para continuar saqueando. Decidir quem deve viver e quem deve morrer, quando e como.

Não é uma vida boa. Nada bom. Nem para o planeta, nem para a maioria das pessoas no Ocidente. As grandes questões precisam ser colocadas; as essenciais.

Rússia, China, Irão, Venezuela, Cuba – eles perguntam e respondem a essas questões, nem sempre por palavras, mas construindo as suas próprias sociedades, geralmente contra todas as probabilidades.

Quanto mais alto os propagandistas ocidentais gritam, mais claro se torna que têm medo. No fundo, sabem que estão errados e que seus dias estão contados.

Nem preciso escrever sobre o COVID-19 neste ensaio. Muitas pessoas que leiam estas linhas estão bem conscientes do terrível fracasso e da vergonhosa falta de solidariedade no Ocidente.

Da próxima vez, quando ouvirem gritos e insultos altos, cheire esse terrível mau hálito que surge e veja os dedos a apontarem para a Rússia e a China, procure uma cadeira, sente-se e calmamente, com muita calma, faça a si próprio pelo menos algumas perguntas básicas:

“É este o mundo em que quero viver?” “Se o mundo em que vivo me assusta, me frustra, me deixa infeliz, por que devo confiar em seus ideólogos e propagandistas?”

“Talvez a razão pela qual os governantes ocidentais odeiem, desprezem e temam países como a Rússia e a China, seja porque eles estão realmente fazendo algo essencialmente bom para o nosso planeta e o povo! Se sim, não deverei apoiá-los? “



[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigação, tendo coberto guerras e conflitos em dezenas de países. É o criador de Vltchek’s World in Word and Images . Alguns dos seus livros: China’s Belt and Road Initiative: Connecting Countries Saving Millions of Lives . Escreve regularmente para “New Eastern Outlook.”

O original encontra-se em journal-neo.org/…

Choque de titãs no coração da Terra

(Pepe Escobar, in Resistir, 26/01/2020)

Os loucos anos vinte começaram com o estrondo do assassínio do general iraniano Qasem Soleimani.

No entanto, um estrondo maior nos aguarda ao longo da década: os vários desdobramentos do Novo Grande Jogo na Eurásia mercê do afrontamento dos Estados Unidos contra a Rússia, a China e o Irão, os três principais pilares da integração na região.

Qualquer acto de mudança neste jogo em termos de geopolítica e geoeconomia terá de ser analisado em conexão com esse choque de grande envergadura.

O Estado Profundo (Deep State) norte-americano e os sectores determinantes da classe dominante dos Estados Unidos da América vivem absolutamente aterrorizados com o facto de a China estar a ultrapassar economicamente a “nação indispensável” e de a Rússia a ter superado militarmente . O Pentágono designa oficialmente os três pilares da Eurásia como “ameaças”.

As técnicas de guerra híbrida – acompanhadas pela demonização sorrateira incessante – irão proliferar com o objectivo de conter a “ameaça” da China, a “agressão” russa e o “patrocínio do terrorismo” do Irão. O mito do “mercado livre” continuará a sentir-se de maneira asfixiante através da imposição de uma enxurrada de sanções ilegais, eufemisticamente apresentadas como novas “regras” comerciais.

No entanto, tais práticas dificilmente serão suficientes para inviabilizar a parceria estratégica sino-russa. Para desvendar o significado mais profundo dessa parceria é importante compreender que Pequim a define como o rumo para “uma nova era”. Isso significa um planeamento estratégico a longo prazo – na perspectiva da data-chave de 2049, o centenário da Nova China.

O horizonte para os múltiplos projectos da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), também conhecida como Nova Rota da Seda, é, de facto, a década de 2040, altura em que Pequim calcula ter tecido completamente um novo paradigma multipolar de nações/parceiros soberanos na Eurásia e além dela, todos associados por um labirinto interligado de cinturas e estradas.

Quanto ao projecto russo – a Grande Eurásia – reflecte de alguma maneira a Cintura e Estrada e estará integrado nesse processo. A Iniciativa Cintura e Estrada, a União Económica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai e o Banco de Investimento em Infraestruturas da Ásia convergem na mesma perspectiva.

Realpolitik

Esta “nova era” definida pela parte chinesa depende fortemente de uma estreita coordenação entre Pequim e Moscovo em cada sector. O projecto “Made in China 2025” engloba uma série de avanços técnico-científicos. Ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se com recursos tecnológicos sem paralelo em armas e sistemas, em níveis que a China ainda não consegue atingir.

Na última cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada em Brasília, o presidente Xi Jinping disse a Vladimir Putin que “a actual situação internacional, com crescentes instabilidade e incerteza, instou a China e a Rússia a estabelecer uma coordenação estratégica mais estreita”. A que Putin respondeu: “Na situação actual, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica”.

A Rússia está a mostrar à China como o Ocidente respeita o poder da Realpolitik de qualquer forma; e Pequim está finalmente começando a usá-lo. O resultado é que, após cinco séculos de dominação ocidental – que, aliás, levaram ao declínio das antigas rotas da seda – o Heartland [1] está de volta com estrondo, afirmando a sua influência.

A minha observação pessoal, as viagens que realizei nos últimos dois anos na Ásia Ocidental e Central e as minhas conversas nos últimos dois meses com analistas em Nur-Sultan (Casaquistão), Moscovo e Itália permitiram-me mergulhar na complexidade do que algumas mentes afiadas definem como Double Helix (dupla hélice). Estamos cientes dos imensos desafios que há pela frente – ao mesmo tempo que é difícil acompanhar o impressionante ressurgimento do Heartland em tempo real.

Em termos de soft power, o papel de destaque da diplomacia russa tornar-se-á ainda mais importante – sustentado por um Ministério da Defesa liderado por Serguei Shoigu, um tuvano da Sibéria e um braço de inteligência capaz de dialogar construtivamente com todos: Índia/Paquistão, Coreia do Norte/Sul, Irão/Arábia Saudita, Afeganistão.

Esse processo amortece (complexas) questões geopolíticas de uma maneira que ainda ilude Pequim.

Paralelamente, praticamente toda a região Ásia/Pacífico tem agora em consideração a Rússia e a China como forças opostas à superioridade financeira e naval dos Estados Unidos.

Apostas no Sudoeste asiático

O assassínio direccionado do general Soleimani, por todas as suas consequências a longo prazo, é apenas um movimento no tabuleiro do Sudoeste da Ásia. Em última análise, o que está em jogo é um prémio macro-geoeconómico: uma ponte terrestre do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental.

No Verão passado uma reunião trilateral Irão-Iraque-Síria estabeleceu que “o objectivo das negociações é activar o corredor de carga e transportes” entre os três países “como parte de um plano mais vasto que é o da reactivação da Rota da Seda”.

Não poderia haver um corredor de ligação mais estratégico, capaz de se interligar simultaneamente com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; com a conexão Irão-Ásia Central-China até ao Pacífico; e com Latakia (Síria) em direcção ao Mediterrâneo e ao Atlântico.

O que está no horizonte é, de facto, uma sub-secção da Iniciativa Cintura e Estrada no Sudoeste da Ásia. O Irão é um nó central da ICE. A China está fortemente envolvida na reconstrução da Síria; e Pequim e Bagdade assinaram vários acordos e criaram um Fundo de Reconstrução Iraquiano-Chinês (receitas de 300 mil barris de petróleo por dia em troca de crédito chinês para as empresas chinesa que reconstroem as infraestruturas iraquianas).

Uma rápida olhadela aos mapas revela o “segredo” da atitude dos Estados Unidos de se recusarem a fazer as malas e a deixar o Iraque, conforme lhes foi exigido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro iraquianos: impedir o ressurgimento desse corredor através de todos os meios necessários. Especialmente quando sabemos que todas as estradas em construção pela China na Ásia Central – passei por muitas delas em Novembro e Dezembro – acabam ligando a China ao Irão.

O objectivo final: unir Xangai ao Mediterrâneo Oriental por terra, através do Heartland.

Por mais que o porto de Gwadar no Mar da Arábia (no Baluchistão paquistanês) seja um nó essencial do Corredor Económico China-Paquistão, e parte da multifacetada estratégia da China para “escapar ao Estreito de Malaca” (controlado pelos Estados Unidos), a Índia também cortejou o Irão para replicar Gwadar com o porto de Chabahar, no Golfo de Omã.

Enquanto a China pretende ligar o Mar da Arábia ao Xinjiang através do corredor económico, a Índia deseja conectar-se ao Afeganistão e à Ásia Central via Irão.

No entanto, os investimentos da Índia em Chabahar podem dar em nada, uma vez que Nova Deli ainda está a ponderar se deve tomar parte activa na estratégia “Indo-Pacífico” dos Estados Unidos; nesse caso, o Irão retirar-se-ia desse processo.

O exercício militar conjunto Rússia-China-Irão em finais de Dezembro, iniciado exactamente em Chabahar, foi um sinal inequívoco dado a Nova Deli. A Índia não pode simplesmente ignorar o Irão ou acaba por perder o seu principal nó de ligação, Chabahar.

Há um facto imutável: todas as partes interessadas têm necessidade de ligações com o Irão. Por razões óbvias, desde o Império Persa, trata-se de um centro privilegiado de todas as rotas comerciais da Ásia Central.

Mais importante ainda é o facto de, para a China, o Irão ser uma questão de segurança nacional. A China investe fortemente no sector energético do Irão. Todo o comércio bilateral é processado na moeda chinesa ou numa cesta de moedas que ignora o dólar norte-americano.

Enquanto isso, os neocons (neoconservadores) dos Estados Unidos sonham ainda com o objectivo de Cheney na década passada: mudança de regime no Irão que permita aos Estados Unidos dominarem o Mar Cáspio como trampolim para a Ásia Central, apenas a um passo de distância de Xinjiang e do incentivo aos procedimentos anti-chineses. Isto poderia ser encarado como uma Nova Rota da Seda ao contrário, para afundar o projecto da China.

A batalha das eras

Um novo livro, The Impact of the Belt and Road Iniciative (O Impacto da Iniciativa Cintura e Estrada) da China, de Jeremy Garlick, da Universidade de Economia de Praga, tem o mérito de admitir que o facto de a ICE “fazer sentido” é “extremamente difícil”.

Trata-se de uma tentativa extremamente séria de teorizar sobre a imensa complexidade da Iniciativa Cintura e Estrada, especialmente considerando a abordagem flexível e sincrética da China para elaboração de políticas, bastante desconcertante para os ocidentais. Para atingir o seu objectivo, Garlick entra no paradigma da evolução social do professor Shiping Tang , mergulha na “hegemonia neo-gramsciana” e disseca o conceito de “mercantilismo ofensivo” – tudo como parte de um esforço no sentido do “ecletismo complexo”.

O contraste com a vulgar narrativa de demonização da ICE terrestre que emana dos “analistas” norte-americanos é flagrante. O livro aborda em pormenor a natureza multifacetada do transregionalismo da ICE como um processo orgânico em evolução.

Os criadores de políticas imperiais não se preocupam em compreender como e porquê a ICE tem vindo a estabelecer um novo paradigma global. A recente cimeira da NATO em Londres proporcionou algumas dicas. A NATO adoptou acriticamente três prioridades dos Estados Unidos: política ainda mais agressiva em relação à Rússia; contenção da China (incluindo vigilância militar); e militarização do espaço – uma recuperação da doutrina do domínio do espectro total (Full Spectrum Dominance) de 2002.

Deste modo, a NATO será atraída para a estratégia “Indo-Pacífico”, o que significa contenção da China. E como a NATO é o braço armado da União Europeia, isso implica que os Estados Unidos venham a interferir, a todos os níveis, na maneira como a Europa negoceia com a China.

O coronel na reserva do Exército dos Estados Unidos Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete de Colin Powell de 2001 a 2005, vai directo ao ponto:

“Hoje a América existe para fazer a guerra De que outra maneira poderemos interpretar 19 anos seguidos de guerra e sem fim à vista? Faz parte de quem somos. Faz parte do que é o Império Americano. Vamos mentir, trapacear e roubar, como Pompeo está a fazer, como Trump está a fazer, como Esper está a fazer… e vários outros membros do meu partido político, os republicanos, estão a fazer. Vamos mentir, trapacear e roubar de maneira a fazer o que for preciso para manter esse complexo de guerra. Esta é a verdade de tudo isto. E essa é a agonia”.

Moscovo, Pequim e Teerão têm plena consciência das apostas. Diplomatas e analistas estão a trabalhar na tendência do trio para desenvolver um esforço conjunto de modo a protegerem-se entre si de todas as formas de guerra híbrida – incluindo sanções – lançadas contra cada um deles.

Para os Estados Unidos, esta é realmente uma batalha existencial – contra todos os processos de integração da Eurásia, as Novas Rotas da Seda, a parceria estratégica Rússia-China, as armas hipersónicas russas com uma diplomacia flexível, as profundas oposição e revolta contra as políticas norte-americanas através de todo o Sul global, o quase inevitável colapso do dólar norte-americano. Mas é certo que o Império não se irá desvanecer silenciosamente durante a noite. Todos devemos estar preparados para a batalha das eras.


(1) Heartland, “coração da terra” é uma teoria geoestratégica exposta em 1904 pelo geógrafo britânico Halford John Mackinder assente na importância da Eurásia como “Grande Ilha” e cujo desenvolvimento, em termos de interligações terrestres, demonstraria que as grandes potências marítimas estavam confrontadas com os seus limites. Berlim-Moscovo seria o eixo do Heartland, substituído hoje por Moscovo-Pequim mas mantendo-se Rússia, Alemanha e China como “Estados-pivot”. O Heartland deve ser entendido hoje, em termos de desenvolvimento, como “deslocado” para Leste, isto é, menos europeu e mais asiático.



O preço da traição: um milhão de dólares

(In Resistir, 24/11/2019)

O general boliviano que exigiu a renúncia do Presidente Evo Morales recebeu um milhão de dólares do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz, sr. Bruce Willianson , juntamente com um visto de residência permanente nos EUA (para onde foi viver).

Trata-se do general Williams Kaliman, que anteriormente fora adido militar da Embaixada da Bolívia em Washington. No seu curriculum conta-se uma passagem pela School of Americas, em Fort Bennings, Georgia, destinada a formar militares e polícias latino-americanos. O general Kaliman assumira o cargo de chefe das Forças Armadas Bolivianas em 24/Dezembro/2018. Anteriormente estivera no comando do Exército. Quando se dirigia ao Presidente Evo Morales chamava-o de “irmão”.


Ver abaixo vídeo síntese em 2 minutos do golpe de Estado na Bolívia