Quando os depravados se tornam heróis

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 30/03/2026, revisão da Estátua)


Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é.


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E de súbito saiu de cena a podridão trazida parcialmente à superfície pelo muito pouco que ainda se conhece sobre os chamados «documentos Epstein». Os depravados, corruptos e predadores sexuais que neles constam assumiram agora a sua faceta de heróis salvadores da humanidade numa nova cruzada para tentar erradicar os hereges do planeta e fazer valer os inquestionáveis «valores ocidentais». Se possível, sobretudo, para tentar garantir a posse eterna e plena das terras e das riquezas mundiais que nos foram ofertadas por mandato divino. 

A trama criada por um obscuro professor do ensino médio pedófilo, não muito inteligente mas com uma esperteza imensa e o dom inato da chantagem, é algo de tenebroso muito diferente do que já se conhecia. Não é uma sociedade secreta, uma máfia organizada, um culto, uma clique em busca de poder, uma fraternidade, uma entidade conspirativa ou golpista guiada por padrões comuns.

Tal como é possível apurar até agora, momento em que as malhas censórias tecidas pelo capitalismo clandestino dominante apertam cada vez mais a divulgação substancial da teia, os documentos Epstein põem a nu as alienações entranhadas na superestrutura globalista do sistema transnacional da «democracia liberal». Revelam os desvios comportamentais e a insensibilidade da elite mundial governante, corrupta, sem princípios e que abusa, sem pudor nem limites, sexual e socialmente, dos mais fracos, discordantes e indefesos. Os factos conhecidos demonstram que as âncoras deste sistema de poder absoluto, desde os regimes políticos, militares e financeiros dos Estados Unidos, Reino Unido e Israel a extractos das cliques governantes e diplomáticas de países da União Europeia e da NATO, se alimentam da guerra, do roubo indiscriminado de fundos nacionais, depósitos bancários e matérias-primas, do terrorismo, das mega fraudes fiscais, com desprezo absoluto pela vida humana, a lei e as instâncias internacionais. Façamos uma excepção para a Espanha de Pedro Sánchez, que dá uma lição de independência a todas as marionetas de Washington e Telavive.

Epstein tinha um enorme talento, neste ambiente marcado pelos atropelos neoliberais, para trabalhar os egos imensos, a gula, a ganância e a amoralidade das minorias influentes e determinantes, para quem o dinheiro e o poder valem tudo, sob a cobertura do conceito aberrante de mercado livre. E para manipular e tirar proveito desta ambição desmedida, organizava convívios de conluio e decisão nos quais os ilustres convidados podiam também refastelar-se em orgias sexuais, sobretudo de carácter pedófilo, que lhes permitiam dar largas às depravações e à impunidade de cada um e cada uma.

Neste quadro, as agências de inteligência faziam os seus jogos recorrendo aos eficazes instrumentos de que dispõem, desde escutas, filmagens, espionagem directa, criando um acervo de material de chantagem para que o sistema se alimentasse a si mesmo num doentio ciclo vicioso. Aliás, alguns dos documentos e o «Livro Negro» agora expostos, contra a vontade de Trump, estavam em poder do FBI há oito anos.

Epstein funcionava assim como um mestre de cerimónias de um convívio global onde se cruzavam os altos e poderosos de todas as áreas de actuação – políticos, banqueiros, banksters, os ricos dos ricos, de Musk, Branson ao «benfeitor» Gates; congressistas, senadores, deputados, reitores de universidades da Ivy League, presidentes, ministros, príncipes, princesas, sheiks e emires; velhas famílias do establishment, CEO’s, administradores, escritores, pivots de TV, comentadores, ideólogos, directores de jornais e jornalistas afamados; donos dos principais fundos abutres, celebridades do jet set, finórios da moda, vedetas de Hollywood, sem esquecer os gangues Rothschild, Rockefeller e Maxwell; e ainda os serviços secretos e dirigentes de Israel, até ao cargo de primeiro-ministro. Enfim, a nata da governação, da comunicação e da «cultura» do Ocidente. 

Ehud Barak, o último chefe do sionismo trabalhista, um dos exterminadores do «processo de paz» e carrasco de Gaza, tinha «escritório» numa mansão de Epstein em Manhattan, Nova York. Barak solicitou ao anfitrião que lhe desse pareceres sobre os seus escritos públicos, incluindo o livro de memórias intitulado Meu País, Minha Vida: Lutando por Israel, Buscando a Paz. A «paz» que está à vista de todos.

Quanto a Robert Maxwell, imperador da imprensa/propaganda anglo-saxónica, tinha laços directos a Epstein através de uma filha, Ghislaine Maxwel, alcoviteira de luxo associada a este obscuro ex-professor. Está detida e viva, por enquanto. Maxwell era também um financiador directo do regime sionista; morreu prematuramente, e em condições misteriosas, em consequência do suspeito naufrágio do seu iate. No funeral, realizado em Jerusalém Ocidental, compareceram Shimon Peres, que foi primeiro-ministro e presidente de Israel, e dois ex-directores da Mossad.

Uma das figuras centrais dos documentos divulgados até ao momento é Peter Mandelson, também conhecido como «príncipe das trevas», por ter sido o principal conselheiro do vigarista e criminoso de guerra Anthony Blair na transformação do Partido Trabalhista britânico no novo «Partido Trabalhista» neoliberal. Mandelson idealizou e montou a campanha de calúnias contra o dirigente trabalhista de esquerda Jeremy Corbyn, que o forçou a abandonar a direcção do partido e o próprio partido.

No quadro da ligação íntima e directa que cultivavam, Mandelson informou Epstein cinco horas antes de a União Europeia anunciar, em plena crise de 2010, que iria desbloquear 500 mil milhões de euros para «salvar» a Zona Euro, mergulhada em crise existencial. Foi o maior delito de iniciados de que há memória.

Victoria Harvey, companheira nestas andanças de André, irmão do rei de Inglaterra, declarou um dia: «Quem não estiver nos documentos Epstein é porque é um looser» (fraco, incapaz, perdedor).

Epstein não era um frequentador entusiasta do Fórum de Davos, o cenáculo neoliberal globalista, onde «se perde muito tempo» mas, no entanto, «se encontram pessoas fascinantes».

Entre essas pessoas «fascinantes» e frequentadoras do Fórum Económico Mundial estavam o diplomata norueguês Roed-Larsen, um dos mediadores iniciais do Acordo de Oslo entre israelitas e palestinianos, e Børge Brend, que em Fevereiro renunciou ao cargo de presidente daquela instituição. Em tais ocasiões, de acordo com documentos tornados públicos, os convivas concluíram que «a ONU não serve para nada» e o direito internacional é «um entrave». O Fórum de Davos deve substituí-la e permitir que a elite mundial dite a sua lei, uma espécie de privatização dos mecanismos de gestão da legalidade internacional.

O primeiro ensaio desta «solução» é o chamado «Conselho de Paz» para Gaza, inventado por Trump e no qual os países que pretendam aderir serão obrigados a pagar mil milhões de dólares.

Trump e os outros

A divulgação dos documentos Epstein incidiu, sobretudo, no facto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ser um dos participantes nos eventos proporcionados pelo «doutor financeiro para os ricos», como se intitulava o facilitador, na sua ilha privada de Little Saint-James. Nada que surpreenda: Trump tem o perfil ideal dos amigos e convivas depravados de Epstein.

Trump ficou colocado, deste modo, no epicentro do escândalo, apontado a dedo por adversários políticos que pouco ou nada diferem dele.

Vejamos o caso do casal Clinton. Ele, William, o carniceiro dos Balcãs que pulverizou a Jugoslávia a ferro, fogo e sangue, era uma espécie de convidado de honra e prestigiador dos saraus de Epstein na sua ilha, aos quais se seguiam voos em jactos privados para outros jardins de delícias. O ex-presidente democrata norte-americano era mesmo um dos amigos que sugeria nomes a convidar para os festins na ilha ou outros paradeiros. Ela, Hillary, esquartejadora da Líbia e da Síria, pertencia também ao círculo de amigos do mestre pedófilo, o qual, segundo a versão oficial, se suicidou na prisão em 10 de Agosto de 2019. Um suicídio muito conveniente.

Os Clinton continuam no escalão mais elevado da hierarquia do Partido Democrata, que agora reclama a sua superioridade moral para atacar Trump. Por muito que se esforce, esta outra face do partido Estado norte-americano nada tem de santidade em tão repelente evangelho.

Num email a Peter Thiel, chefe da empresa de corrupção e conspiração Palantir, financiada pela CIA, Epstein elogiou a «confusão no Médio Oriente», por ser tudo o que Obama queria. Por isso, acrescentou em relação ao processo sangrento que culminou com a entrega da capital da Síria à al-Qaida, «teremos de admitir que foi uma estratégia executada com brilhantismo» – obra lançada e chefiada no terreno por Hillary Clinton. Antes disso, a secretária de Estado de Obama tinha conduzido pessoalmente a criminosa implantação da anarquia terrorista na Líbia – transformado num país falhado.

Parece agora, no entanto, que ninguém se dava com Epstein, a não ser em encontros esporádicos, fugidios, mesmo fortuitos; ou, pelo menos, os seus amigos simulam que desconheciam as actividades de pedófilo e de proxeneta de luxo para as elites. 

No entanto, é difícil acreditar que um qualquer frequentador das actividades deste facilitador das elites, que na sua ilha ajudava os ricos e os advogados de grandes fortunas a manter milhões e milhões de dólares à margem das leis fiscais, não conhecesse o seu comportamento pedófilo. Não era possível que ignorasse o facto de Epstein ter cumprido pena de prisão por abuso sexual de crianças e pornografia infantil entre 2009 e 2010.

«Como vai a tua vida afortunada e dissoluta?», perguntou-lhe, em 2017, o democrata e antigo secretário do Tesouro da Administração Clinton, Larry Summers. Ao que Epstein respondeu: «Quando nos encontrarmos vou esforçar-me por te fascinar com histórias loucas de Washington».

Ariane de Rothschild, chefe do grupo bancário francês Edmond de Rothschild, mantinha amigáveis conversas com Epstein. «A turbulência na Ucrânia deve proporcionar-nos muitas oportunidades», dizia. E, por outro lado, depois do golpe em Tripoli, quando «os líbios passaram a ser “legítimos”», haveria de ter atenção especial aos milhões dos seus activos congelados. Epstein confessou-lhe então que «estava a trabalhar» com o MID, a direcção de inteligência militar de Israel, e também com a Mossad, para «identificar activos roubados e recuperá-los». Os serviços secretos israelitas, claro, negam que tivessem qualquer relação com Epstein. Sem dúvida um credível desmentido. Tudo isto se passava durante a administração democrata de Barak Obama.

É muito improvável que o conteúdo de milhões e milhões de documentos espalhados pelos armazéns e residências de Epstein venha a ser conhecido na sua plenitude e gere quaisquer medidas contra os predadores identificados. Os indícios de censura à documentação surgiram logo no início da divulgação, e de uma maneira que revelou o espírito doentio das próprias autoridades judiciais: muitos dos arquivos foram expostos de maneira a que seja possível identificar algumas vítimas, enquanto rostos e nomes de predadores são ocultados. Os abusadores não manifestaram qualquer piedade pelo sofrimento das crianças, ou mesmo adultos, que torturavam, meros objectos para satisfação de depravações humanas, o que corresponde à recrudescência do desprezo pelas pessoas nas deformadas sociedades modernas, como é próprio do sistema capitalista. «Sobretudo nunca peçam desculpa», era o conselho habitual de Epstein aos seus ilustres clientes.

A nova hora dos heróis

Toda esta cáfila de delinquentes que sofrem de comportamentos desviantes saltaram, num ápice, da secção de escândalos da comunicação social globalista para a dos heróis. Bastou-lhes seguir o criminoso Benjamin Netanyahu, também relacionado com Epstein e a contas com um mandado do Tribunal Penal Internacional, na injustificada e ilegal guerra contra o Irão.

Nesta transição temática existe, em comum, o desrespeito pela lei e pelo Direito Internacional – uma recomendação de Epstein aos seus ilustres hóspedes, de modo a entregar ao Fórum Económico Mundial (de Davos) a gestão dos assuntos mundiais.

Caprichando nas sevícias contra civis, entre os quais centenas de crianças, os heróis que fossavam em orgias pedófilas estão, no entanto, a sentir mais dificuldades na guerra do que aquelas a que o estatuto de impunidade os habituou.

Pela primeira vez, o Estado sionista prova a sério do veneno letal que durante quase 80 anos tem forçado outros a ingerir, sobretudo os palestinianos. O Irão independente dá sinais fortes de continuar a resistir, como conclui a própria imprensa de «referência» do regime norte-americano ao reconhecer que nenhuma das bases militares dos Estados Unidos em países do Golfo Árabe-Pérsico está habitável e funcional.

Trump, sem rumo e continuando a crer no realismo das suas próprias e voláteis ilusões, anda numa dobadoira prometendo o ataque final contra Teerão enquanto, juntamente com o aparelho sionista de agressão, vai falando em negociações e ficando com escassez de munições numa guerra de desgaste que parece não ser-lhes favorável.

Aos heróis directamente envolvidos nos ataques juntam-se os outros de sempre, com maior ou menor discrição, no apoio ao crime sangrento. Entre eles, o Governo de Portugal, cúmplice da agressão ao disponibilizar a Base das Lajes como plataforma de guerra. A vida dos portugueses corre sérios riscos em consequência da cegueira dos seus governantes, do seguidismo e do papel de capacho dos Estados Unidos e do selvático sionismo. Culpemos apenas Montenegro e os seus asseclas do «arco da governação» pelo drama que é o facto de o território português estar sob mira do Irão – por muito que tentem fazer-nos crer que isso não acontece.

Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é. Teerão apenas tem apoiado os massacrados palestinianos e outros povos desprotegidos da região, numa estratégia que manteve Israel em respeito. 

Se levarmos Jeffrey Epstein a sério, amanhã não será a véspera do dia em que o assassino Donald Trump cai do trono, apesar das ameaças que surgem de vários azimutes e que não passam disso: ameaças verbais. Nas conversas íntimas que tinha com o confidente Peter Mandelson, o pedófilo e proxeneta de luxo gabava-se do poder que tinha sobre Trump: «sou o único que pode fazê-lo cair».

Verdade, soberba, farronca ou confiança de chantagista emérito, Epstein já cá não está; mais do que suicídio, talvez alguém o tenha «suicidado». São coisas que acontecem nos meandros da «democracia liberal».

Além disso, mesmo que Trump perca o pé, não estamos seguros de que não seja substituído por outro ou outra da mesma laia.

Em boa verdade, apesar dos que gostam de espalhar ilusões para aparentar uma absurda superioridade moral e política, Trump não é apenas a pessoa de um sociopata, é o próprio sistema. O sistema de «democracia liberal» aparentada com o fascismo no qual os Epsteins desta vida podem ser mestres ou, em português anglo-saxónico, superdotados influencers globais.

“As pessoas não percebem bem a magnitude”: Mundo enfrenta maior ameaça energética da História

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 21/03/2026)


O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE) advertiu hoje que o mundo enfrenta a maior ameaça energética da História devido à guerra no Irão, e avisou que pode levar seis meses para restabelecer os fluxos de petróleo e gás do golfo Pérsico.


Numa entrevista ao Financial Times (FT) publicada esta sexta-feira, o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou que os políticos e os mercados subestimam a magnitude da interrupção nos fluxos energéticos, dado que aproximadamente um quinto das reservas está paralisado na região.

“Algumas instalações levarão seis meses para estarem operacionais, outras muito mais”, acrescentou.

“As pessoas entendem que isso representa um grande desafio, mas não tenho a certeza de que se compreenda bem a magnitude e as consequências da situação”, destacou Birol, e acrescentou que a crise também afetou o fornecimento mundial de fertilizantes para culturasprodutos petroquímicos para plásticos, roupas e manufatura.

“Trata-se de matérias-primas vitais para a economia global”, afirmou Birol.

As declarações de Birol ocorrem numa altura em que o preço do petróleo Brent superou os 110 dólares por barril depois dos ataques com mísseis desta semana contra centros energéticos vitais, como o campo de gás South Pars do Irão e o complexo Ras Laffan do Qatar.

Na semana passada, a AIE anunciou a libertação de 400 milhões de barris de petróleo e produtos refinados das reservas mundiais para aliviar a escassez global, o que, segundo Birol, representa apenas 20% das reservas.

“A medida mais importante é a retoma do trânsito pelo estreito de Ormuz”, afirmou. Também apontou que a crise energética pode desencadear mudanças políticas nos governos de todo o mundo, e comparou a situação com as crises do petróleo de 1973 e 1979.

// Lusa

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A barbárie que nos governa… e triunfa (2)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 11/03/2026, revisão da Estátua)


Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial.


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O mundo está no fio da navalha ou, se preferirem em linguagem circense, é como um funâmbulo em cima de uma corda a tremer em todas as direcções sabendo que lá em baixo não existe qualquer rede. De um lado, as poucas vozes de dirigentes e de instituições internacionais a tentar fazer valer o senso comum que ainda resta; do outro, o abismo, o caminho aberto para a generalização do terror que está a ser percorrido pelo chamado «Ocidente colectivo» ou a «nossa civilização», com a demência do imperial-sionismo à cabeça.

O Irão resiste e contra-ataca, ainda capaz de demonstrar que a farronca não vence guerras, enquanto os protagonistas mundiais desta tragédia injustificada continuam convencidos de que a sua imagem de escolhidos de Deus chega para dizimar os bárbaros e hereges.

Não tenho simpatia pelo regime iraniano, como sou naturalmente avesso a qualquer política confessional, seja na Arábia Saudita e outras petroditaduras do Golfo, em Israel e mesmo nos Estados Unidos. No entanto, os governos ocidentais são bastante selectivos. O que é odioso nuns lados é tolerado ou mesmo elogiado noutros; o «Irão dos ayatollahs« é o inimigo, mas o fascismo sionista, tal como o terror saudita, são amigos, representam-nos bem, tanto no mundo da política como dos negócios. É a conhecida política de dois pesos e duas medidas que o triste Josep Borrell, quando era o chefe da diplomacia da União Europeia, considerou apropriada para defender os nossos  interesses e necessidades.

O Irão ainda não foi derrotado nesta ofensiva, apesar de o seu dirigente espiritual, o ayatollah Khamenei, ter sido assassinado. Não se escondeu e continuou a trabalhar, sob os cobardes ataques, no seu gabinete de sempre. Partilhou o sacrifício com o seu povo.

Para demonstrar a imensa perspicácia de Trump e seus mastins recorda-se que foi Khamenei quem emitiu a «Fatwa», uma directiva religiosa de cumprimento obrigatório, que rejeita a posse de armas nucleares pelo Irão. O Ocidente acaba de abater um dirigente que se opôs às armas de destruição massiva, o que demonstra, por outro lado, que a invocação da questão nuclear sempre foi um pretexto e não correspondia a uma preocupação real. 

O sacrifício de Khamenei tornou-o um mártir e, fruto dos óculos de cortiça usados pelo mundo ocidental, que nunca se engana e tem a razão sempre do seu lado, provocou efeitos contrários aos desejados pelos criminosos. O povo desceu às ruas às centenas de milhares, em muitas cidades, embora a media globalista apenas tenha canetas, microfones e câmaras para registar os movimentos da oposição. O magnicídio em Teerão teve também como resultado o endurecimento das posições dominantes do regime, elevando os níveis de decisão da Guarda Revolucionária e contribuindo mais para unir do que desagregar. A escolha de Mojtaba Khamenei, filho do dirigente assassinado, como novo líder espiritual, desloca claramente o regime em direcções menos moderadas.

O grande xadrez euroasiático

O primeiro-ministro da República Portuguesa, Luís Montenegro, coitado, declarou-se surpreendido  com o início dos ataques contra o Irão. Das duas uma: ou está a mentir, actividade em que é mestre, para tentar esconder a mais do que exposta incapacidade de gerir o país, sobretudo em situações de catástrofe como os incêndios, as cheia ou as guerras; ou não anda neste mundo e não percebe nada do que se passa à sua volta, pelo que não é mais do que o homem errado no lugar errado.

A relação de forças internacional a que chegámos 35 anos depois da implosão da União Soviética, uma espécie de impasse entre o velho domínio ocidental, imposto através da totalitária e arbitrária «ordem internacional baseada em regras» e a afirmação crescente de uma ordem multipolar, tem a Eurásia como o cenário geoestratégico decisivo, a encruzilhada entre os dois caminhos. E, dentro da Eurásia, o Irão é o nó que precisa de ser desatado para quebrar o impasse.

O Irão é um país imenso, com quase cem milhões de habitantes e mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados, uma área superior à do conjunto da Espanha, França e Suécia, três dos cinco países europeus com maiores dimensões, a seguir à Rússia e à Ucrânia.

O Irão, porém, representa muito mais do que isso. É, desde sempre, uma ponte civilizacional, cultural e comercial entre a Ásia Oriental e Central e a Ásia Ocidental ou Médio Oriente, que abre os caminhos para as regiões ocidentais da Eurásia. No território iraniano coexistem culturas milenares de vários povos, etnias e tribos, formando um mosaico riquíssimo e de saber profundo, desenvolvido desde muito antes do Império Persa e que a cultura ocidental plastificada é incapaz compreender. Daí que a corrompida casta governante neoliberal tenha, para sermos rigorosos, um enorme complexo de inferioridade em relação ao velho e gigantesco país. Um complexo que tenta combater com base na arrogância, na manipulação propagandística e em pretextos inventados para consumo público, a que se agarra desesperadamente de maneira a tentar submeter o Irão à «ordem internacional baseada em regras». 

Esqueçam as lágrimas de crocodilo que Trump e os seus submissos seguidores, da Ucrânia a Portugal, do Reino Unido à Austrália, passando pelo Canadá, vertem pelas «vítimas» do «regime dos ayatollahs» e a situação do povo iraniano. Nada disso os preocupa, como demonstra o estado devastador em que se encontram os países da região agraciados com o proselitismo da «democracia ocidental» ou «liberal», transportada nas ogivas de milhões de toneladas de mísseis, com a colaboração dos carrascos ao serviço da al-Qaida. O que logo se percebeu pelo assassínio de 165 meninas na escola primária feminina de Sharajeh Tayyebeh Minab, ao que dizem devido a um «engano» do sistema de inteligência artificial a quem as forças armadas dos Estados Unidos decidiram entregar a «escolha dos alvos». O «lapso» de pontaria dos mísseis assassinos aconteceu mais ou menos na altura em que Melania Trump, a «primeira-dama» norte-americana, dirigia nas instalações da ONU uma reunião dedicada ao «problema das crianças em conflito». 

As inocentes alunas da escola abatidas por esta agressão «libertadora», que pretende salvar os iranianos «do jugo dos ayatollas», como explica o genocida Benjamin Netanyahu, não devem considerar-se abrangidas pela inquietação da senhora Trump e pelo humanismo próprio da «nossa civilização». Na verdade, graças a esse acto piedoso o mundo ficou livre de 165 «hereges» e potenciais terroristas. Voltando a citar aquele que, segundo membros da administração Trump, é o verdadeiro comandante em chefe desta operação, o primeiro-ministro sionista, a liquidação de recém-nascidos e crianças palestinianas em geral é uma actividade legítima porque um palestiniano – e agora um iraniano – «já é um terrorista quando nasce».

O Irão está, de facto, a ser atacado porque é uma peça essencial no «Grande Jogo de Xadrez» definido em livro pelo falecido «ideólogo» norte-americano Zbigniew Brzezinski, antigo secretário de Estado da Administração Carter e discípulo do criminoso Henry Kissinger. Segundo ele, quem governa a Eurásia governa o mundo e, deduz-se, quem dominar o Irão domina a Eurásia… e o mundo.

Ou seja, o Irão é um obstáculo a remover pelo colonialismo-imperialismo-sionismo ocidental porque desafina a engrenagem da «ordem internacional baseada em regras», atravanca o avanço do globalismo totalitário e, não menos importante do ponto de vista geoestratégico, tem conseguido fechar os caminhos para a construção do Grande Israel.

Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial. 

O Irão tem resistido, continua a resistir e explora todas as possibilidades para não ser derrotado. Fechou o Estreito de Ormuz e lançou a instabilidade militar nas petroditaduras do Golfo que albergam bases militares dos Estados Unidos. E que, por via disso, se transformaram em instrumentos do poder sionista no interior do mundo árabe. Os militares iranianos têm conseguido desactivar, um após outro, todos os radares estratégicos montados pelos Estados Unidos na Ásia Ocidental, incluindo o que protege a V Esquadra norte-americana, estacionada no Bahrein. O que acontece apesar de Trump, Netanyahu e os seus caniches europeus – com a honrosa excepção de Pedro Sanchez – garantirem, com todo o orgulho e esplendoroso humanismo, que o Irão está a ser derrotado. 

A propaganda de guerra, porém, esconde outras realidades, as adversas. Na verdade, Israel, as bases norte-americanas na Ásia Ocidental e as tropas imperialistas têm demonstrado algumas vulnerabilidades, sobretudo devido às falhas, à insuficiência e à incapacidade de repor os sistemas de defesa antiaérea,  que têm manifestado mais fama do que eficácia.

Experientes militares norte-americanos na reserva não se coíbem de garantir que os Estados Unidos têm limites temporais para conduzir uma guerra de desgaste como esta, porque a canalização de material de guerra para a Ucrânia delapidou gravemente os arsenais que permitiriam eternizar o conflito até à hipotética rendição do Irão. Os mesmos peritos militares não estão certos de que os Estados Unidos consigam suportar uma guerra de desgaste durante mais tempo do que o Irão.

O significado da resistência iraniana

O Irão resiste. O que é bom, fundamental mesmo, para o mundo em geral. Não porque o Irão tenha um regime elogiável – o confessionalismo, repete-se, é a desvirtuação da política – mas porque é um país independente, decide por si próprio, é o único apoio externo institucional que resta ao martirizado povo palestiniano e não se verga ao poder e às ordens ocidentais.

É bom que o Irão resista porque é um pilar da multipolaridade internacional em desenvolvimento. Desempenha um papel insubstituível no desenho de novas rotas de transportes e comerciais alternativas às da velha ordem imperial, as que se baseiam na Iniciativa Cintura e Rota, ou Nova Rota da Seda lançada pela China e na qual participam já mais de uma centena de países. Combater a criação de rotas alternativas é hoje um objectivo prioritário da clique dirigente ocidental.

O Irão integra ou está associado a organizações que defendem um novo tipo de cooperação internacional, igualitária e não de submissão, como a Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS, a citada Nova Rota da Seda, a União Euroasiática, que têm em comum a defesa da vigência plena do Direito Internacional e a desactivação da «ordem internacional baseada em regras» – o que seria um grande favor para os desprotegidos povos dos países ocidentais.

A derrota do Irão e consequente nomeação dos novos dirigentes por Donald Trump, a sua maior obsessão actual, acompanhada com júbilo pela estrutura depravada que governa o mundo ocidental, seria um obstáculo à acção dos BRICS e de outras organizações internacionais igualitárias orientadas pelo Direito Internacional.

Esta derrota significaria a abertura imediata do caminho para a Construção do Grande Israel, porque o Irão «ocidentalizado» deixaria de ser um estorvo e, além disso, governos de países como a Síria, o Iraque, o Líbano e o Egipto (sem contar com a martirizada Palestina) não estão em condições nem os seus dirigentes possuem a vontade necessária para combater o domínio da Ásia Ocidental pela aberração do colonialismo sionista, como braço fundamental do imperialismo.

Sendo o sionismo, além disso, uma grande potência nas áreas das finanças, dos media e do entretenimento anestesiadores do chamado «grande público», o seu triunfo seria um passe de gigante na construção do globalismo totalitário, no qual as pessoas não seriam mais do que instrumentos descartáveis. 

Esta guerra ocidental contra o Irão contribuiu também para decifrar um pouco a intrincada associação entre o regime dos Estados Unidos e o sionismo, uma vez que, segundo declarações do secretário de Estado, o fascista Marco Rubio, e do próprio Trump, Washington avançou para a acção militar porque, mesmo que não o fizesse, Israel iniciaria a guerra. E o imperialismo não se poderia dar ao luxo de permitir a derrota do sionismo. Deste modo ficámos a conhecer mais um pouco sobre o mistério de quem manda em quem na aliança Trump-Netanyahu.

Um imenso Irão «ocidentalizado», incrustado como um cancro na Eurásia, seria mais uma machadada no Direito Internacional, uma catástrofe para a construção de uma nova ordem internacional nele baseada e um triunfo geostratégico gigantesco para a «ordem internacional baseada em regras». Este conjunto de circunstâncias iria criar um cenário de base para a construção do globalismo neoliberal em forma de fascismo, de modo a generalizar o poder totalitário do dinheiro e o desprezo absoluto pelas entidades nacionais e pelo ser humano. A China e a Rússia ficariam mais vulneráveis nessa situação, uma vez que a Índia, através do ditador Modri, foi neutralizada imediatamente antes da guerra durante a visita deste a Israel e na qual o genocida Netanyahu o recebeu como um «irmão».

A alternativa entre a construção de uma nova ordem internacional e o triunfo do terror imperialista joga-se em torno do futuro do Irão, o qual, por essa razão, tem um alcance geoestratégico decisivo. A vitória do fascismo de Trump, arrastando com ela todo o mundo ocidental, representaria a agonia da Venezuela – Cuba está no horizonte – e, ironia das ironias, da Dinamarca, neste caso através da anexação da Gronelândia.

Iria garantir também o prosseguimento da conquista imperial de sucessivos países que, não tendo capacidade para entrar no confronto directo, ousem tentar resistir ao diktat de Washington. Então, a guerra, a demência, a irresponsabilidade e a arbitrariedade seriam as únicas leis em vigor no mundo.

Se os cidadãos de todo o mundo não acordarem, continuarem hipnotizados pela propaganda de guerra e a campanha de calúnias contra o Irão, que já entraram no domínio da mentira pura, o futuro imediato do mundo será o agravamento do terror imperial, ancorado na depravação colonial sionista, além da inevitável concretização de uma aniquiladora Terceira Guerra Mundial.

Eis, portanto, o que se joga em torno da dicotomia entre a resistência do Irão e a anulação da sua independência como grande nação euroasiática.

(2) Segundo e último artigo da série A barbárie que nos governa… e triunfa, sobre a situação actual no Médio Oriente. O primeiro pode ser lido aqui.