A Europa do nosso descontentamento

(Vítor Lima, 26/05/2019)

Os EUA sentem-se encurralados. Entendem-se como a força motora, o exemplo a seguir pela cantera dos estados vassalos e pelos outros que, não sendo vassalos arrostam com ameaças mais ou menos concretizadas de sanções e canhoneiras à porta.

O Patriot Act que surgiu no pós 11/9 escancarou as portas, não só para as intervenções militares que sabemos, como para a criação de um Guantanamo (depois de Abu Ghraib), como áreas não direi sem direito mas com o direito da força. E assim, todo o mundo- na lógica dos EUA – parece ficar sobre a jurisdição do Patriot Act e as suas interpretações; sobretudo quando feitas por gente de tão exemplar perfil democrático, de intelectuais como Trump, Pence, Bolton, Pompeo e outras pomposas figuras, perante as quais o “Cão Raivoso” parece um ajuizado menino de coro.

Lembram-se dos intelectuais Hitler, Himmler, Goebbels? Tinham como referência um intelectual racista americano, Chamberlain (homónimo do imbecil que capitulou em Munique) tal como hoje os acima citados escutam o Bannon que entretanto anda pela Europa a doutrinar a família LePen, o Wilders, o Farage, os AfD e o alarve do Vox (embora este se baseie mais num catolicismo ultra-montano, saudoso da Inquisição) e entulho humano do mesmo tipo.

Os impérios não são fontes de liberdades e democracia. O único terá sido o Romano onde só se era obrigado a pagar impostos e venerar o imperador. E quando esse modelo começou a fraquejar com invasões e divisões, Constantino impôs o cristianismo, usando os bispos por si nomeados para controlar e dar uniformidade ao império.

A coisa durou pouco a Ocidente mas ficou a duradoura supremacia do eleitor do Vaticano, árbitro com interesses próprios no jogo dos príncipes europeus.

No estado em que está a Europa, submissa, dividida, sem pingo do que se possa chamar democracia, recheada de bases militares da NATO (nome de um biombo que tem o Pentágono por detrás) e sem sequer uma classe política que vá para além do quantitative easing (leia-se dopping monetário), a única resistência ao desespero trumpeano face à evidente decadência dos EUA, vem da Ásia.

A resistência não parte da Europa, onde uma esquerda é algo que só se vê com lupa. E, embora a vulgata mediática defina os partidos participantes na romaria de hoje, como de esquerda, centro-esquerda, socialistas, sociais-democratas, liberais, ecologistas, as suas práticas e propostas não entusiasmam ninguém.

A nível global a resistência à agressividade dos EUA vai-se centrando no eixo China-Rússia e outros parceiros mais ou menos alinhados – que não são um modelo de liberdades – cabendo à Europa, quatro alternativas:

1 – Integração como ramal ocidental da Rota da Seda, protagonizada pela China.
2 – Integração na mesma (que parece inevitável) mas com um protagonismo de parceiro e não de dependência ou vassalagem.
3 – Continuidade (acentuada) como conjunto de estados vassalos, – mais ou menos desavindos – dos EUA; estes, encarregar-se-ão de semear o terreno com quartéis e armas, para garantir o domínio do Atlântico Norte (na velha lógica de Mahan ou Spykman).
4 – Desagregação da UE, com conflitos latentes e novos que podem desencadear guerras, com os EUA e a OCX (Organização para a Cooperação de Xangai), a procederem a um género de pesca à linha de influências para investimentos, armamentos made in USA.

A coisa está preta…


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Guerra na Venezuela

(Por Marcelo Zero, in Resistir, 10/05/2019)

A grande pergunta que todos se fazem no momento é se haverá ou não uma guerra na Venezuela. 

Bom, em primeiro lugar, é preciso considerar que os EUA já estão em guerra com a Venezuela. Uma guerra híbrida, não-convencional, mas uma guerra. 

Os EUA estão fazendo de tudo na Venezuela. Além do embargo comercial e financeiro , que já ocasionou a morte de pelo menos 40 mil pessoas, confiscaram ouro e outros ativos da Venezuela no exterior , promoveram atos de sabotagem que levaram a apagões , instituíram um títere ridículo (Guaidó) para tentar derrubar Maduro mediante um golpe ,articularam o isolamento diplomático e político do nosso vizinho , fazem pressão para que os militares abandonem o governo constitucional , promovem uma grande campanha de desinformação sobre a Venezuela para criminalizar Maduro e o regime bolivariano, etc. etc. 

A questão não é, portanto, se os EUA entrarão em guerra com a Venezuela, mas se a atual guerra híbrida escalará para uma guerra militar estrito senso. 

Para tentar responder a essa pergunta, temos de levar em consideração dois grandes fatores. 

O primeiro tange à nova geoestratégia dos EUA para América Latina. Eles querem implantar, a ferro e fogo, se necessário, a Nova Doutrina Monroe, segundo a qual a nossa região tem de ser, de novo, um espaço de influência exclusiva dos EUA. Um quintal. Um patio trasero, como dizem os hispânicos. 

Nesse novo cenário, não haveria lugar para países que tenham políticas externas independentes e relações mais aprofundadas com China e Rússia, por exemplo, rivais geopolíticos e geoeconômicos dos EUA. Assim, a derrubada do governo Maduro é essencial para a agenda dos EUA na região, pois Caracas tem hoje relações bastante estreitas com esses rivais dos EUA e pratica uma política externa muito independente, embora jamais tenha deixado de prover seu petróleo para o gigante norte-americano. Diga-se de passagem, o governo brasileiro de Bolsonaro, bem-treinado que é, já ameaça sair do BRICS e abandonar programas sino-brasileiros . 

O segundo fator diz respeito às divergências no governo dos EUA sobre o que e como fazer, em relação à Venezuela. 

Como no Brasil, há dois grandes grupos no governo dos EUA que têm opiniões distintas sobre esse e outros assuntos. 

Há o grupo dos ideólogos de extrema-direita, do qual fazem parte figuras sinistras como John Bolton (conselheiro de segurança nacional), Mike Pompeo (secretário de Estado), e o terrível Eliott Abrams (enviado especial para a Venezuela), entre outros. Embora mais sofisticados que o astrólogo da Virgínia [1] e os integrantes do Clã (qualquer coisa é), compõem um grupo extremado, um tanto delusional, gente que não tem contato muito estreito com a realidade. 

Pois bem, esse pessoal, tutti buona gente, neocons de pura cepa, quer uma intervenção militar na Venezuela. Bolton, em particular, maior ideólogo da Nova Doutrina Monroe, já demandou ao Pentágono cenários variados para a intervenção, desde bombardeios localizados, até invasão com tropas em terra. 

O problema, para ele, é que os militares do Pentágono, como os daqui, estão resistindo e advertindo Trump sobre os perigos de uma guerra na Venezuela, especialmente se esta envolver tropas em terra. 

A Venezuela é duas vezes maior que o Iraque e tem um terreno extremamente difícil para operações em terra, com selvas impenetráveis, pântanos (llanos), montanhas, etc. Enfim, um terreno ideal para uma guerra defensiva de posições táticas e de guerrilhas. Além disso, como já escrevi anteriormente, a Venezuela vem se preparando para este cenário desde 2006, com o Nuevo Pensamiento Militar. Mesmo no caso de uma derrota completa das forças regulares venezuelanas, a Milícia Bolivariana, que poderia reunir até 500 mil membros, oporia feroz resistência por todo o território da Venezuela. 

Não bastasse, os bolivarianos poderiam receber apoio logístico de China e Rússia, especialmente desta última, que desenvolveu cooperação militar estreita com a Venezuela. 

Além dessas questões militares operacionais, pesam também contra uma intervenção militar, notadamente contra uma invasão por terra, a falta de apoio político internacional. O Grupo de Lima , que congrega a direita sul-americana e os satélites dos EUA na região, rejeita a escalada militar, embora apoie entusiasticamente a guerra híbrida contra a Venezuela. Os europeus também preferem apostar apenas na guerra híbrida. 

Mas isso significa dizer que a transformação da guerra híbrida em guerra convencional está descartada? 

Não, não está. 

À medida que a “solução Guaidó” fracassa miseravelmente e não se investe numa solução negociada e pacífica, cresce a impaciência e o descontentamento dos neocons liderados por John Bolton. Há de se considerar que Bolton é um sujeito muito perigoso e influente, que tem um longo e inquietante histórico de manipulação de informações para fazer prevalecer suas teses. 

Parte de grupos a ele ligados [propala] a cretina “informação” de que os generais venezuelanos seriam controlados por “agentes cubanos”, repetida por oligofrênicos da nossa imprensa conservadora. O alvo de Bolton é o lobbyanticastrista, de enorme influência e Washington e decisivo no voto latino nos EUA. 

Trump, embora reticente em aprovar qualquer intervenção militar, confia muito em Bolton e encarregou-o de cuidar do tema. 

O presidente do America First e o resto que se dane não quer se envolver numa guerra que não poderia ganhar no curto prazo, mas também sabe que o atual cenário de fracasso e humilhação o está desgastando ante o eleitorado conservador. 

Na persistência crônica desse cenário de impasse humilhante, é possível que se opte por uma intervenção militar restrita a alguns bombardeios punitivos contra alvos militares e políticos selecionados. [2] 

Do ponto de vista logístico e militar, essa seria uma alternativa viável. A Venezuela está muito próxima dos EUA. Ademais, os EUA têm duas grandes bases militares bem próximas do território da Venezuela: Guantánamo (Cuba) e Soto Cano (Honduras). Os EUA também não teriam grandes dificuldades em usar instalações no Panamá, Colômbia ou, quem sabe, até no Brasil. O deslocamento de uma boa força naval até a costa da Venezuela também poderia se dar de forma muito rápida. 

A capacidade de a Venezuela resistir a tal ataque é limitada, mesmo com seus Sukhois SU-30 e seus mísseis S-300. O poder dos mísseis Cruise e dos aviões com tecnologia stealth é avassalador. Ademais, a Venezuela não tem expertise em guerra eletrônica. Uma vez destruído o sistema de comunicação militar, pouca coisa poderá se fazer. 

A decisão de se fazer ou não um ataque desse tipo dependerá da evolução das condições internas na Venezuela e dos efeitos esperados nos eleitores de Trump. Se o impasse político persistir, se abrirem fissuras nas forças venezuelanas e as condições econômicas continuarem a se deteriorar, e se os eleitores conservadores dos EUA começarem a ver com bons olhos uma ação mais firme, a hipótese de uma intervenção militar restrita, sem tropas em terra, pode não só se tornar factível, mas desejável. 

Bastaria preparar o terreno com uma operação de falsa bandeira, que resultasse em mortos e feridos atribuíveis ao “ditador” Maduro, para que tal ação possa ser “justificada”. Outra hipótese, como esclarece o patético títere, seria o parlamento venezuelano convidar os americanos a destruírem a Venezuela. 

Seria, de qualquer modo, uma aposta de alto risco. Porém, não se deve desprezar a crueldade e a truculência do Império e da direita venezuelana.

Para assegurar seus interesses, o governo dos EUA não se importa em destruir países e matar milhões de pessoas, desde que não sejam vidas norte-americanas. Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria foram destruídos, milhões de vidas foram perdidas, ceifadas, direta ou indiretamente, pela guerra. 

Alguns argumentam que, na América Latina, haveria maiores freios para ações como essas, dada à existência de uma grande população de origem latina nos EUA, mas, ante o total desprezo demonstrado por Trump ante o sofrimento de imigrantes latino-americanos, não é prudente supor que a atual administração dos EUA se guiará, no caso da Venezuela, por princípios humanistas e racionalidade. 

O risco de uma escalada militar, que possa conduzir a Venezuela a uma guerra civil prolongada é, portanto, real. 

Em outros tempos, o Brasil lideraria toda a América Latina contra essa loucura. Agora, no entanto, somos um paiseco submisso, que bate continência, até mesmo literalmente, para gente insana como Bolton. 

Bolsonaro abriu os portões para a barbárie não apenas no Brasil, mas em toda a nossa região. 

Oscar Wilde afirmou que os EUA eram o único país a passar da barbárie para a decadência sem passar pela fase histórica da civilização. 

Já o Brasil dos capitães e astrólogos reúne, numa só fase histórica, decadência e barbárie. 


[1] Refere-se a Olavo de Carvalho, um ex-astrólogo que reside em Virgínia (EUA) e inspira o presidente Jair Bolsonaro. 
[2] A dita intervenção “restrita” poderia vir a ser realizada por mercenários.   Ver Plano de utilização de mercenários para derrubar governo da Venezuela . 


Fonte aqui

Tal como a Líbia e a Síria, a Venezuela não é “só sobre petróleo”

(Por André Vltchek, 01/05/2019, Tradução de Luís Garcia)

Sim, a mais recente pesquisa confirma que a Venezuela é tão rica em recursos naturais que poderia sozinha satisfazer toda a procura mundial de petróleo durante mais de 30 anos. E tem muito mais do que petróleo para oferecer na sua bacia do Orinoco e noutras áreas do país.

Mas a questão aqui não é só “só sobre petróleo”. Longe disso!

Aqueles que acreditam que o que impulsiona a propagação do terror Ocidental pelo mundo afora são apenas alguns “interesses comerciais” e a lendária ganância Ocidental estão, do meu ponto de vista, a passar ao lado da questão.

Noto que tais indivíduos e analistas deveras acreditam que “o capitalismo é responsável por tudo” e que este cria a cultura da violência de que, quer vítimas quer agressores, já se tornaram todos reféns.

Depois de ter trabalhado em todas as partes do mundo, estou cada vez mais convencido de que, na realidade, o capitalismo é que é fruto da cultura ocidental, cultura essa que se baseia predominantemente no expansionismo, no excepcionalismo e na agressão. Esta cultura assenta também num desejo profundamente enraizado de controlar e de ditar. A ganância financeiro-monetária é apenas um subproduto desta cultura que elevou a sua superioridade a algo que poderia até ser definido como religioso ou mesmo religiosamente fundamentalista.

Por outras palavras, a crença na sua própria superioridade é, actualmente, a principal religião quer na Europa quer na América do Norte.

O que torna afinal tão semelhantes os cenários líbios, sírios e venezuelanos? Porque é que o Ocidente se mostra tão ansioso por atacar e destruir estes três países que, à primeira vista, parecem ser tão diferentes?

A resposta é simples, embora raramente seja pronunciada no Ocidente (pelo menos publicamente):

“Os três países estiveram na vanguarda da promoção e luta determinada por conceitos como o “pan-africanismo”, o “pan-arabismo” e a Patria Grande que, na sua essência, defende a independência e unidade Latino-Americana.”

Gaddafi, al-Assad e Chávez foram regional e internacionalmente reconhecidos como combatentes anti-imperialistas, inspirando e dando esperança a centenas de milhões de pessoas.

Gaddafi foi assassinado, Chávez provavelmente também foi morto e Al-Assad e sua nação têm vindo a lutar literalmente, e por vários anos, pela sua sobrevivência.

O actual presidente venezuelano Maduro, que é decididamente leal aos ideais revolucionários Bolivarianos, já sobreviveu a pelo menos uma tentativa de assassinato e, agora, enfrenta ameaças directas ao bom estilo mafioso provenientes do Ocidente. A qualquer momento, o seu país pode ser atacado, directamente ou através dos estados latino-americanos “vassalos” do Ocidente.

Assim é porque a África, o Médio Oriente e a América Latina foram durante séculos tratados como suas colónias. Assim é porque sempre que as pessoas se revoltavam, eram quase imediatamente esmagadas pelo punho de ferro do imperialismo ocidental. E aqueles que pensam que estão ao comando do planeta graças a algum divino desígnio, esses não querem que as coisas jamais mudem.

A Europa e a América do Norte estão obcecadas com a ideia de controlar os outros e, para o fazer, sentem que têm de se certificar que exterminam toda e qualquer oposição nas suas colónias e neo-colónias.

É um verdadeiro estado de enfermidade mental no qual o Ocidente se encontra; um estado que eu, em meus trabalhos anteriores, defini como Transtorno Sádico de Personalidade (TSD).

Para se obter um quadro completo, é preciso também recordar a Indonésia, que foi literalmente liquidada enquanto nação independente e progressista em 1965. O seu presidente internacionalista, Sukarno (pai do Movimento dos Países Não-Alinhados e aliado próximo do Partido Comunista da Indonésia, o PKI), foi derrubado pelo general Suharto escolhido a dedo pelo Ocidente, um intelectual traiçoeiro e moralmente perturbado, abrindo assim as portas ao turbo-capitalismo e à pilhagem desenfreada dos recursos naturais da sua nação. Outrora uma luz orientadora da luta pela independência de toda a Ásia, depois do horrífico genocídio orquestrado pelos EUA/Reino Unido/Austrália, a Indonésia foi reduzida a nada mais do que um estado “vassalo” do Ocidente, pobre e lobotomizado.

O Ocidente tem a incrível capacidade de identificar verdadeiros líderes independentistas regionais e os desacreditar e os tornar vulneráveis através da mentira para, em seguida, defender a assim chamada “oposição local” e, mais tarde, liquidá-los a eles e também aos seus países e até mesmo as suas regiões inteiras.

Às vezes, o Ocidente ataca países específicos, como foi o caso do Irão (1953), Iraque ou Nicarágua. Mas, mais frequentemente, ataca directamente o “peixe graúdo” (líderes de oposição a um nível regional), como na Líbia, na Indonésia, na Síria e agora na Venezuela.

Muitos indivíduos, desafiadores da ordem ocidental já foram literalmente assassinados: Gaddafi, Hussein, Lumumba e Chávez, para citar apenas alguns.

E claro, faça o que fizer, o Ocidente está tentado em destruir os maiores líderes da coligação anti-ocidental e anti-imperialista: Rússia e China.

A questão está bem longe de ser apenas sobre petróleo ou sobre lucros.

O Ocidente sente necessidade de governar. É obcecado com a ideia de controlar o mundo, de sentir-se superior e excepcional. É um jogo, um jogo mortal. Durante séculos, o Ocidente tem-se comportado como um fanático religioso fundamentalista, e o seu povo nunca sequer reparou que as suas perspectivas sobre o mundo se tornaram de facto sinónimos de excepcionalismo e de superioridade cultural. É por isso que o Ocidente é tão bem-sucedido em criar e injectar movimentos religiosos extremistas de todas as denominações em praticamente todas as partes do mundo: da Oceânia à Ásia, da África à América Latina e, claro, na China. Os líderes ocidentais sentem-se “em casa” com extremistas cristãos, muçulmanos ou até budistas.

Mas a Síria conseguiu sobreviver e até hoje mantém-se pé. A única razão pela qual as forças governamentais não estão tentando reconquistar o último bastião terrorista de Idlib é porque a população civil sofreria enormes perdas durante essa batalha.

A Venezuela também recusa se ajoelhar e render-se. E é claro que, se o Ocidente e seus aliados se se atreverem a atacar, a resistência, alguns milhões de pessoas, irão lutar pelas suas vilas e campos e, se necessário, retirar-se-ão para a selva e haverão de travar uma guerra de libertação de guerrilha contra os invasores e contra as traidoras elites.

Washington, Londres, Paris e Madrid estão claramente utilizando uma estratégia extremamente desactualizada: uma estratégia que funcionou contra a Líbia, mas que falhou completamente na Síria.

Recentemente, na Síria, perto da linha de frente de Idlib, dois comandantes de alta patente disseram-me que estão lutando “não só pela Síria, mas por todo o mundo oprimido, incluindo a Venezuela”. Eles perceberam com clareza que o Ocidente está usando contra Caracas exactamente a mesma estratégia que tentou usar contra Damasco.

Agora, também a Venezuela também está sofrendo e lutando em nome de todo o mundo oprimido.

Não tem “o direito de falhar”, tal como a Síria não teve o direito de se render.

A destruição da Líbia já havia causado um enorme impacto negativo em África. E abriu as portas à renovada e desenfreada pilhagem francesa do continente. A França prontamente juntou-se ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

A Síria é o último bastião no Médio Oriente. É tudo o que sobra agora, resistindo ao controlo total do Médio Oriente pelo Ocidente. Síria e Irão. Mas o Irão ainda não é uma “frente”, embora muitas vezes pareça que em breve se possa tornar numa.

A Venezuela não pode cair, pelas mesmas razões. Está no extremo norte da América do Sul. Abaixo, há um continente inteiro aterrorizado pela Europa e pela América do Norte,  e que durante séculos e séculos foi brutalizado, pilhado e torturado. Uma América do Sul onde dezenas de milhões de pessoas costumavam ser exterminadas como animais, forçadas a se converter ao cristianismo, roubadas de tudo e obrigadas a seguir bizarros modelos políticos e económicos ocidentais.

No Brasil, o governo socialista progressista do PT já foi derrubado.

Se a Venezuela cair, tudo pode ser perdido, por décadas, talvez até séculos.

E por isso lutará. Juntamente com os outros poucos países de esquerda que ainda sobram nesse “hemisfério ocidental”; países que os ditadores em Washington D.C. abertamente descrevem como “o seu quintal”.

Caracas ergue-se e luta pelas vastas favelas do Peru, por milhões de carentes no Paraguai, pelas favelas brasileiras, por aquíferos privatizados e pela floresta tropical assassinada no Brasil.

Exactamente como a Síria tem lutado pela Palestina, pelas abandonadas minorias da Arábia Saudita e do Barém, pelo Iémene, pelo Iraque e pelo Afeganistão (estes últimos, dois países a quem a NATO roubou quase tudo).

A Rússia já mostrou o que pode fazer pelos seus irmãos árabes, e agora está a demonstrar a sua disponibilidade para apoiar o seu outro aliado chegado, a Venezuela.

A China está rapidamente juntando-se à coligação de combatentes anti-imperialistas. Outro exemplo é a África do Sul.

Não, a Venezuela não é só sobre petróleo.

É sobre o Ocidente ser capaz de impedir o acesso de navios chineses ao Canal do Panamá.

É sobre o controlo total do mundo: ideológica, política, económica e socialmente. Sobre liquidar toda a oposição no Hemisfério Ocidental.

Se a Venezuela cair, o Ocidente pode ousar atacar a Nicarágua e, em seguida, atacar o bastião do socialismo e do internacionalismo: Cuba.

É por isso que não se deverá nunca permitir que a Venezuela caia. 

A batalha pela Venezuela já está a ser travada, em todas as frentes, incluindo a ideológica. Na Venezuela não estamos apenas lutando por Caracas, Maracaibo ou Ciudad Bolivar. Estamos lutando por todo o mundo oprimido, como fizemos e estamos fazendo em Damasco, Aleppo, Homs e Idlib, como podemos ter que fazer em breve em muitas outras cidades do mundo inteiro. Enquanto o imperialismo Ocidental se mantiver vivo, enquanto não desistir dos seus sonhos de controlar e arruinar a totalidade do planeta, não podemos descansar, não podemos baixar a guarda, não podemos celebrar vitória final em nenhuma parte do mundo.

E portanto, tudo isto está longe de ser “apenas sobre petróleo”. É sobre a sobrevivência do nosso planeta inteiro.


Traduzido para o português por Luís Garcia

Versão original em inglês na NEO – New Eastern Outlook.

André Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu e cobre guerras e conflitos em dezenas de países. Três dos seus últimos livros são Revolutionary Optimism, Western Nihilism, o revolucionário romance Aurora e um trabalho best-seller de análise política: “Exposing Lies Of The Empire”. Em português, Vltchek vem de publicar o livro Por Lula: O Brasil de Bolsonaro – O Novo Tubarão Num Mar Infestado de Tubarões. Veja os seus outros livros aqui. Assista ao Rwanda Gambit, o seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo, assim como ao seu filme/diálogo com Noam Chomsky On Western Terrorism. Pode contactar André Vltchek através do seu site ou da sua conta no Twitter.