Afinal, quem são os bárbaros?

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 15/12/2022)

A série televisiva de produção alemã “Bárbaros” (Barbarians), da Netflix (não, não estou a fazer publicidade!), retratando as campanhas romanas contra os povos germânicos, constitui um retrato muito fiel de como atua um Império com uma pretensa vocação “civilizadora”. Não sei se a intenção foi a de estabelecer qualquer tipo de paralelo, mas se não foi… A introdução, durante a ação, de referências culturais, políticas e filosóficas que constituem paralelismos evidentes entre o Império Romano e o Império Estado Unidense, é demasiado incisiva para não ser propositada. E na Alemanha de hoje…

Pensava eu que iria assistir a mais uma série de pancada. Mas não. Todos os elementos usados pelo Império romano e pelo americano estão presentes, deixando-nos uma certeza: a construção do império anglo-saxónico estado-unidense, nos seus aspetos constitutivos, nada tem de casual. Todos os pilares da sua afirmação, expansão e domínio, estão ali presentes. Todos. Mais do que com qualquer outro Império, é com o Império romano que o Império atual mais semelhanças tem, podendo dizer-se mesmo ser seu herdeiro.

• A construção de uma classe política subserviente, através da educação, em Roma, dos filhos dos mais importantes chefes tribais, que de lá vêm romanos autênticos e, quando colocados na chefia da tribo, prosseguem os interesses do Império. Hoje, este papel é realizado através da captação pelas universidades da Ivy League, ou de universidades proeminentes inglesas (London School of Economics, p.e.), de jovens de todo o mundo, que, quando de lá vêm, já não vêm portugueses ou espanhóis, vêm americanos, defensores acérrimos da ordem liberal que, tal como a pax romana funcionava para o Império romano, a ordem liberal funciona para o Império estado-unidense.

• A ideia de que a submissão à lei romana constitui um requisito fundamental do que se pensa ser a civilização. Hoje, temos a constantemente afirmada “rules based order” (ordem baseada em regras) como matriz reguladora do que constitui a ordem liberal. Tal como a lei romana era feita pelos romanos, a regras da RBO são feitas pelos EUA: (“a RBO é uma comunidade aberta, admitindo todos os estados que lhe queiram aderir; com essa adesão passarão assim a ter uma palavra na feitura das regras”, disse o presidente dos EUA a seguir ao G7).

• A ideia de “pax romana”, ou seja, a submissão ao direito romano não apenas é condição de paz, como garante a continuidade da paz, uma vez que ao garantir a manutenção da superioridade do Império face ao povo assimilado, acaba por unir o que antes estava desunido. Atualmente, este papel é assumido pela submissão à RBO, pois os estados que não se lhe submetem são sancionados, bloqueados, desestabilizados e, por vezes, invadidos, uma vez que a RBO constitui o formato, a normalização, o receituário e o código de conduta que garante a superioridade e a hegemonia imperial.

• A ideia de “bárbaro” como alguém que não partilha da ideologia romana, hoje materializada na ideologia fracionária e intolerante “woke”, na cultura corporativa empresarial que funciona como um exército económico fardado em que todos se vestem, comportam e pensam igual (aqueles fatinhos azuis…) e no papel que os “direitos humanos” assumem, em matéria de RBO, para designar como “bárbaros” todos os que a RBO diz não os cumprirem.

• A ideia de que só pode haver uma forma justa de vida, a romana. As culturas germânicas, tribais, são vistas como atrasadas. A ordem liberal é uma versão moderna desta realidade. Para o ocidente coletivo, a aplicação das regras só pode levar a um estado de desenvolvimento, o estado capitalista liberal. Todas as outras formas de estado ou organização coletiva são apresentadas como atrasadas, ditatoriais, só havendo lugar a um modelo.

• O desrespeito romano pela diversidade de crenças, formas de organização, culturas, consideradas suprimíveis porque não se inserem na sua filosofia civilizadora, o que hoje é mais do que evidente com o processo de ocidentalização de sociedades não ocidentais, num desprezo absoluto por outras formas de vida, levando os povos, pelo domínio dos meios de comunicação, a acreditarem que a sua cultura é de algum modo inferior, nem que seja por considerarem a ocidental mais moderna e sofisticada, garantindo a manutenção da suposta superioridade cultural do ocidente.

• A acusação constante, por parte dos romanos, de que os povos germânicos é que são violentos, sanguinários, injustos e mal-intencionados, branqueando, justificando ou desvalorizando, ao mesmo tempo, todos os atos violentos que o Império usa para submeter esses povos.

• O uso da traição, da corrupção e da subserviência como armas do domínio, colocando umas tribos contra as outras, afirmando a lógica do dividir para reinar, tal como se faz hoje, usando diferenças étnicas e outras, para fazer colapsar nações e povos inteiros; tal como antes, a exploração da dimensão individualista (da liberdade e da identidade) era utilizada como veículo de submissão, na medida em que era mais fácil atrair cada um, de per se, do que toda uma comunidade. Daí a exploração do egoísmo, da ganância, das liberdades meramente individuais, uma vez que são as coletivas (base das diferenças) que são perigosas para a manutenção da lógica de submissão.

• O papel do Latim como língua da civilização. Hoje é o inglês que cumpre essa função a que Orwell chamou de “novilíngua”, fazendo sentir-se complexado quem não o fala, como se, de algum modo, estivesse numa (falsa) posição de inferioridade em relação aos que, por o dominarem, têm acesso ao coração da civilização. Num e outro caso, a língua deixa de ser um veículo de cultura, para se tornar num sistema operativo que garante a submissão constante.

• A superioridade racial, traduzida no sentimento de que o “ser romano” é ser superior, hoje bem presente na ideia de que são os EUA que têm de liderar o mundo e que mais ninguém o pode fazer. Uma ideia absolutamente supremacista com a qual tão bem convivem os mais efusivos “antirracistas” “woke”, para os quais todas as discriminações são importantes, menos a mais importante de todas, a material.

Todos os elementos estão bem presentes e, a cada cena, nos surge a mensagem explícita de que os povos têm direito às diferenças que constituem a sua identidade, a sua liberdade. Esta liberdade não nos é apresentada, apenas, como sendo individual, mas sobretudo, coletiva.

As cenas, inclusive as de guerra, vão-se desenrolando, mostrando que todos os presentes, homens e mulheres, romanos ou germânicos, são capazes da barbárie e da bondade, sendo o contexto em que vivem e em que operam que mais decisivamente influencia o que fazem e não a ideologia ou filosofia de vida que assumem. E, com esta mensagem, não podemos, no final, deixar de pensar que: quanto mais poderosos, mais violentos!

A utilização da ideologia civilizadora, pelos impérios, foi uma constante no ocidente (não exclusivamente), principalmente desde o nascimento do que consideramos constituir o seu pilar fundador, concretamente, a civilização greco-romana. A ideia de “civilização” trouxe substância ideológica e filosófica, a toda uma lógica imperial expansionista e de tendência global. Os romanos chamavam bárbaros a todos os que não partilhavam os pilares constitutivos da sua civilização, como a sua religião, língua, cultura e, principalmente, o direito romano, elemento fundamental para a “pax romana”.

No caso dos impérios ocidentais, em virtude da falta de matérias-primas, da pequenez dos seus domínios, inclusive em matéria de mão-de-obra, esta realidade material moldou-os de forma diferente dos demais. Todos eles, desde as cidades-estado italianas ao português e espanhol primeiro, ao francês e ao holandês depois, e, por fim, o inglês, qualquer um destes pendeu para a expansão global, transcontinental. Outros, como o russo ou o austro-húngaro, tendiam a afirmar-se como potências continentais, junto das suas fronteiras mais próximas.

Esta tendência transcontinental, global, observável, porventura, também nos mongóis e nos povos muçulmanos, constitui a pedra de toque da ideia inicial de “globalização”. Se os romanos aproveitaram a sabedoria, a experiência e o conhecimento gregos para os integrarem na sua conceção de civilização (até os deuses copiaram), os EUA herdaram a vocação global britânica e a ideia civilizadora da “common law”, lei esta que constitui uma transposição da antiga “lei romana”, a que hoje ouvimos chamar “ordem baseada em regras” (rules based order). No âmbito da EU, nunca tanto como hoje se ouviu falar de “estado de direito”, desconsiderando, contudo, quem faz e que direito faz, porque o faz e como o faz.

É esta assunção que permite classificar como “ditadores” todos os que não se conformam às suas regras, pois é a “RBO” (Rules Based Order) que determina o que é, e não é, democracia e liberdade. A mesma lógica prevalece em matéria de direitos humanos, não porque estes não estejam devidamente tipificados na Declaração Universal, mas porque as avaliações das variáveis relativas à sua aplicação são definidas através da “RBO”. A própria “RBO” determina o que é e não é “civilizado”, na medida em que é fonte das regulações sobre os pilares do que se considera constituir a “civilização”.

Neste sentido, a série “Bárbaros” não deixa de constantemente nos alertar: quem são, afinal, os bárbaros?


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Acto de guerra contra os povos

(Hugo Dionísio, in Facebook, 28/09/2022)

Hoje, com o conhecimento que já possuímos, podemos dizer que os EUA – direta ou indiretamente – deram mais um passo na sua interminável, e até ver impune, escalada na direção da barbárie total. Não chegando já as invasões, ocupações, massacres, golpes de estado, ditaduras fantoches e pilhagem indiscriminada de recursos; os últimos tempos assistiram a uma travessia solitária (apenas acompanhados pelas suas colónias), adicionando sanções tão brutais quanto ilegítimas e atos de pirataria internacional, patentes nos barcos e aviões açambarcados a nações terceiras.

Hoje, sobem-se mais dez degraus na escada do desespero, do terror e da arbitrariedade. Certos de que, com o inverno, os povos europeus, cada vez mais se veriam forçados a exigir aos governos europeus que encetassem diálogo com a Rússia e, de alguma forma, se pudesse repor, pelo menos, o fornecimento regular de energia, ao mesmo tempo que se recuava na escalada beligerante, abrindo espaço ao diálogo civilizado, eis que os EUA trataram de o impedir, negando aos países envolvidos e aos povos da europa, qualquer possibilidade de escolha.

Como já é possível comprovar, pelos voos que helicópteros e aviões fizeram, nos últimos dias, ao longo do trajeto do Nordstream 1 e 2, bem como nos recentes testes (bem divulgados) de drones submarinos, os EUA praticaram um ato de sabotagem que inutiliza, pelo menos para os próximos meses, ou mais, uma infraestrutura fundamental, que não era propriedade sua, mas de dois países: Alemanha e Rússia, e com participações residuais ainda de Áustria, Bulgária e possivelmente outros mais. Acresce que, já hoje, os EUA aconselharam os seus cidadãos ainda presentes na Rússia a abandonarem imediatamente o país. O que não indicia nada de bom, como sabemos. Ou seja, prova que os EUA estão em escalada rápida.

Dada a importância da infraestrutura para os envolvidos, ao abrigo da lei internacional, esta sabotagem – já felicitada pelo Primeiro-ministro e ex-Ministro do Exterior da Polónia – constitui um ato de guerra. Mas engane-se que pensar que este ato de guerra é apenas perpetrado contra a Rússia, dona de metade dos gasodutos. Não, nem por sombras.

O ato de guerra é perpetrado contra os países europeus beneficiados, no passado, no presente e no futuro, por tal infraestrutura. O facto de estar hoje desligada, não quer dizer que não pudesse ser reativada quando necessário. E foi isso que a elite imperialista quis impedir.

Daí que este seja, também, um ato de guerra contra os povos europeus, a sua soberania e independência. Por meios terroristas, os EUA impedem, ingerem e imiscuem-se na governação de países que deveriam não estar sob sua dependência. Os EUA negam, assim, aos povos europeus, uma vez mais, e para além de toda a propaganda e influência já praticadas desde a segunda guerra, a sua autonomia para decidir como povos, como nações, como seres humanos, o seu futuro. Mas também os obrigam, apenas porque interessa à política hegemónica que prosseguem, que se cinjam às suas ordens e estratégias, conseguindo por via do terrorismo condicionar as escolhas futuras e submetendo mais de 400 milhões de seres humanos a um inverno de profunda escuridão e gelo.

É esta a escuridão e o gelo que sinto quando constato a falta de verticalidade dos governantes europeus e da tecnocracia de Bruxelas, que age como sua controleira. Um ato de guerra é cometido contra os povos que dizem representar, com consequências que se anteveem brutais – pois os EUA não têm o gás e o petróleo de que necessitamos -, e nem um, nem apenas um só, diz, aponta ou sussurra, o que quer que seja, sobre a matéria.

UM GOVERNO ESTRANGEIRO SABOTA O NOSSO FUTURO E CERCEIA A NOSSA LIBERDADE E SOBERANIA, e nem um pio… Esta gente envergonha-me tão profundamente, que me leva a sentir um desprezo hediondo pela sua existência. Na educação dos meus filhos não me canso de lhes dizer: “estão a ver estes gajos?”, “Façam tudo ao contrário e serão pessoas honradas, corajosas e capazes”!

E, neste quadro, cabe-me perguntar: “onde andam os ambientalistas”? Então os EUA provocam uma catástrofe destas e nem uma palavra? Agora já não importa a proteção dos oceanos, a fauna marinha, as alterações climáticas?

Vejam-se que se chega ao ponto de o jornal “ECO” dizer que Alemanha, Dinamarca e Polónia suspeitam de algo propositado. Bem, a Polónia já cumprimentou os autores, como referi, mas a Alemanha e a Dinamarca ainda vão acabar a culpa os de sempre: os russos, claro. Pensavam que era quem?

Cá para mim estamos prestes a entrar numa espécie de “os russos ocupam a central e bombardeiam-na ao mesmo tempo”, como li algures na net, a respeito dos bombardeamentos ucranianos da central nuclear Energodar. O domínio totalitário da comunicação social corporativa, associada ao domínio dos canais de transmissão, como Google, FB e outros, garantem que nunca aconteça o que acontece em Hollywood: o mau ser sempre apanhado.

Nesta “democracia” também não é o povo quem mais ordena. Daí que, se desenvolva uma narrativa no sentido de perpetuar o faz de conta, os bons contra os maus e que o “Putler” é o pior bandido que a história humana já conheceu. Isto enquanto Biden procura a saída do palco ou onde se situa o teleponto.

Hoje, podemos dizer que passámos a ser uma colónia de corpo inteiro. Se antes a EU e estados membros não assumiam esse colonialismo perante os seus povos, tacitamente, com a sua inação perante tal ato de guerra e ingerência, a condição colonial tem de ser assumida na sua plenitude.

P.s. Estar à espera das confissões dos próprios ou da confirmação da comunicação social cliente, não é racional, face ao que já sabemos dos primeiros e ao que constatamos ser a prática dos segundos. Tal nunca irá acontecer.


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De Beirute a Gaza há coisas que nunca mudam

(José Goulão, in AbrilAbril, 08/08/2022)

Palestinianos inspeccionam um edifício residencial atingido pela aviação israelita, em Rafah, no Sul da Faixa de Gaza, a 6 de Agosto de 2022

Passam agora exactamente 40 anos sobre os dias tórridos de 1982 em que, ao cabo de várias peripécias próprias da vida de um jornalista, consegui chegar a Beirute Ocidental, região cercada e impunemente bombardeada pelas forças armadas de Israel. A invasão israelita consolidara ainda mais a divisão sectária da capital libanesa em sectores ocidental e oriental, separados por uma «linha verde».

Agora, quatro décadas depois, as mesmas forças armadas de Israel cometem mais um pico da agressão permanente que mantêm contra a Faixa de Gaza, território palestiniano transformado num campo de concentração a céu aberto, tal como Beirute Ocidental foi em 1982.

Há coisas que nunca mudam: regimes criminosos agindo tranquilamente à margem das leis internacionais, sustentados por cúmplices dizendo-se democratas, civilizados e juízes dos direitos humanos; e povos sujeitos a guerras de extermínio.

No caso dos palestinianos, quando a situação se altera, é no sentido único do agravamento contínuo. Um povo submetido a um tratamento cruel e a uma limpeza étnica há sete décadas e meia, e que, ao contrário de outros «mais parecidos connosco», como se diz na linguagem própria da xenofobia colonial, não consegue suscitar grandes vagas de comoção internacional, acompanhadas pelo coro de berros transtornados de jornalistas e comentadores sem escrúpulos.

Os palestinianos resistem quase sozinhos, com a sua coragem inigualável e os parcos meios de que dispõem para fazer frente a um inimigo sádico e selvático, sem limites, beneficiando de um ilimitado poder militar e de lóbi transnacional, além de uma impunidade internacional sem restrições.

De Beirute, em 1982, até Gaza, em 2022, há um fio histórico condutor com uma lógica e uma coerência tão fortes que lhe permitiram resistir às grandes convulsões ocorridas ao longo dos últimos 40 anos. Acabou uma guerra fria e começou outra, derrubou-se um muro em Berlim e construíram-se outros na Europa e em vários lugares através do mundo, mas o martírio palestiniano continua, afinal incólume aos terramotos políticos, militares e estratégicos através dos quais se faz, e também se desfaz, aquilo a que a tecnolíngua de consumo obrigatório decidiu chamar globalismo.

A arbitrariedade militarista e racista israelita passou por cima da imensa vaga de transformações à escala mundial, o que não é surpreendente graças às relações de forças que foram emergindo no fim da guerra fria; no entanto, de maneira insólita e mesmo inesperada (que não para os próprios), a resistência palestiniana não foi liquidada por essa mesma onda, entre pequenos e traiçoeiros avanços e devastadores mas não fatais recuos. Perdoe-se a ligeireza da analogia, mas a justiça e os direitos legítimos de uma aldeia de Asterix continuam a sobreviver à força bruta e à crueldade expansionistas no coração do império – embora sem alcançarem o devido reconhecimento em forma de Estado nacional.

Ashraf al-Qaisi, de 46 anos (segundo à esquerda), deixou que os bulldozers demolissem a sua casa para que a protecção civil salvasse os seus vizinhos // Hosam Salem / Al Jazeera

O exemplo de Beirute

É assim em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Leste como foi em Beirute no ano de 1982.

Para os que não eram nascidos ou não se recordam, Beirute era alvo de uma brutal ofensiva militar israelita, comandada pelo general Ariel Sharon, que depois chegou a primeiro-ministro mesmo tendo sido condenado internamente por crimes cometidos nessa operação. O objectivo declarado, como de costume, era o de «combater o terrorismo palestiniano», isto é, liquidar as estruturas embrionárias de um Estado árabe na Palestina, na altura instaladas no Líbano. E, se possível, assassinar o próprio dirigente máximo da resistência nacional palestiniana, então Yasser Arafat, o que foi tentado várias vezes, na altura sem êxito.

No recuo perante as tropas invasoras israelitas, apoiadas por uma força aérea poderosíssima que agia sem qualquer oposição, a resistência conjunta palestiniana e libanesa concentrou-se na parte Oeste de Beirute, que ficou então completamente cercada.

Do lado da resistência aos invasores actuavam as estruturas paramilitares das forças políticas palestinianas concentradas na Organização de Libertação da Palestina (OLP) e o Exército de Libertação da Palestina – embrião do exército nacional do futuro Estado; e também grupos paramilitares libaneses ligados a partidos e movimentos políticos, além de organizações de âmbito nacional ou das várias confissões religiosas: muçulmanas sunitas, xiitas, drusas e até cristãs maronitas.

As tropas agressoras sionistas eram ainda apoiadas pelas principais organizações fascistas cristãs maronitas libanesas, como o Partido da Falange, da poderosa família Gemayel, de índole feudal e «cultura» colonial francesa, e o chamado Exército do Sul do Líbano, de facto criado pelo regime de Telavive.

Embora as peripécias vividas pelo jornalista para chegar à área cercada de Beirute não sejam para aqui chamadas, há uma que tem um cariz relevante, sobretudo pela sua actualidade. No caminho por estrada entre a capital síria, Damasco, e Beirute Oriental fui submetido a vários controlos de identificação pela miríade de grupos militares e paramilitares presentes no terreno mas o último, e decisivo, aconteceu no quartel-general dos fascistas da Falange, fazendo o papel de filtro de admissão a rogo das forças israelitas.

Como viajava num grupo de jornalistas e operadores de câmara britânicos e norte-americanos, o processo decorreu sem grandes sobressaltos, mas fica a nota da colaboração das forças ditas civilizadas, ocidentais e democráticas, na ocasião briosamente representadas pelas tropas invasoras israelitas, com as organizações fascistas e terroristas libanesas. Coisa que se diria contranatura mas que, tendo em conta a presente colaboração da NATO com os nazis ucranianos na defesa de um regime ditatorial em Kiev, não passa de uma intimidade de longa data, natural, frequente, corrente e até coerente, pode dizer-se.

O estado de Beirute Ocidental era indiscritível e cada minuto a mais de existência, dia e noite, sentia-se como um milagre de sobrevivência. A maior parte dos edifícios estava arrasada ou em ruínas, cadáveres insepultos, desfigurados, muitos já em decomposição, jaziam por todo o lado, principalmente nas imediações e no interior dos campos de refugiados palestinianos – não existiam condições para os funerais escaparem ao fogo dos aviões israelitas; não havia água e apenas funcionavam alguns precários pontos de electricidade dependentes de geradores, numa cidade quase desprovida de combustíveis; os recursos alimentares eram mínimos, os refugiados amontoavam-se em pequenas divisões no interior dos edifícios que restavam, situados principalmente na Rua Hamra, até então uma área comercial, financeira, jornalística e hoteleira da cidade. O uso de telex – o meio de comunicação escrita existente na altura – era possível apenas algumas horas por dia, de maneira intermitente e a preços proibitivos; o telefone para numerosos países, entre os quais Portugal, não funcionava.

De noite, os bombardeamentos israelitas com obuses eram cegos, não importava onde caíssem desde que fosse no perímetro urbano cercado, chegando a atingir o hotel onde se concentravam os representantes da imprensa e da TV norte-americanas – habitualmente alvo de precauções especiais por parte dos agressores. A partir dos primeiros sinais de dia começavam os bombardeamentos aéreos, em vagas sucessivas de F-15 – a geração mais avançada de caças-bombardeiros então em poder da Força Aérea israelita – e sem qualquer oposição. As consequências eram devastadoras, não havia refúgios, e no dia 10 de Agosto, que ficou para a história como a «horrenda quinta-feira», a chacina foi impiedosa sobre multidões que corriam desencontradas e à deriva pelas ruas.

Uma visão do Apocalipse. Quem tenha vivido uma situação destas, como posteriormente me aconteceu várias vezes em Gaza, jamais poderá considerar como lícito, justificado, muito menos banal o recurso à guerra e o seu prolongamento como via para criar estabilidade, resolver conflitos, pacificar regiões. É exactamente o oposto da democracia e do respeito pelos direitos humanos. O predomínio do militarismo é uma porta franqueada ao terrorismo, é criminoso.

A resistência armada libanesa-palestiniana, civil, paramilitar e militar, unida no interior de uma região que sempre fora desmilitarizada e deixara de o ser por força do avanço dos invasores, não se vergou nem rendeu durante 82 intermináveis dias, um feito pouco menos que inacreditável mesmo para quem viveu os combates. A todo o momento se esperava a entrada das tropas israelitas, mas o certo é que não se atreveram nem mesmo após o massacre de 10 de Agosto. Os assaltantes sionistas fugiram a experimentar o combate urbano contra quem, em boa verdade, pouco tinha a perder além da vida.

Muitos cadáveres de soldados chegariam então ao território israelita se isso acontecesse, um preço que o regime de Telavive não se sentiu em condições de pagar. E então negociou, sempre em vantagem porque, como viria a tornar-se um hábito, a «mediação» foi exercida pelos Estados Unidos. O acordo encontrado estabeleceu que as forças do Exército de Libertação da Palestina e os dirigentes da OLP poderiam sair em segurança de Beirute para a Tunísia e que tropas transnacionais, especialmente francesas, garantiriam a necessária interposição entre as partes em conflito, além de assegurarem a protecção dos campos de refugiados palestinianos.

O mecanismo era precário mas funcionou durante algumas semanas. Em 17 de Setembro, porém, os terroristas cristãos pró-Israel do Exército do Sul do Líbano, protegidos pelas tropas israelitas, o que foi muito fácil de testemunhar, entraram nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila e chacinaram a sangue frio cerca de cinco mil pessoas entre homens, mulheres, crianças e idosos, sem discriminação. Ainda não se chamava assim, mas foi um concludente exemplo da «ordem internacional baseada em regras».

O massacre teve algum eco através do mundo, até porque violou um acordo «mediado» pelos Estados Unidos, e deu origem a sinais de má consciência entre membros reservistas do Exército israelita, de que dá conta o interessante filme Danças com Bachir. O comandante da operação, Ariel Sharon, foi condenado na sequência de um inquérito oficial mas alguns anos depois chegou a primeiro-ministro e, no início deste século, esteve à frente do terror contra o chamado «Segundo Intifada» palestiniano.

Foi breve e quase inconsequente a consternação em relação à chacina de Sabra e Chatila. Massacres recentes incomprovados, certamente montados segundo guiões falsos como o de Bucha, nos subúrbios de Kiev, fizeram correr bastante mais tinta e geraram uma ampla, descontrolada e mirabolante cacofonia de poluição sonora.

Jornalismo e jornalistas

Fui o único jornalista português a trabalhar em Beirute Ocidental durante o cerco israelita. Se anoto esta situação, é porque se trata de um facto relevante a que as circunstâncias conferem actualidade, apesar de terem passado 40 anos. Os jornalistas portugueses, como se constata, acorrem na sua esmagadora maioria para lugares de conflito armado onde a narrativa dos factos coincide com a posição das instituições públicas do país, convergindo na formação de uma opinião hoje ainda mais restritiva e única do que então; o «inimigo» não deve ter cobertura, não pode ter voz dada a conhecer aos cidadãos portugueses, está do lado errado do conflito e dos «nossos valores partilhados», o salmo dogmático de Bruxelas e Washington.

No Verão de 1982, jornalistas nacionais instalaram-se comodamente em Beirute Oriental de acordo com os critérios seguidos actualmente no Zelenskistão; os raríssimos profissionais que procuram testemunhar a realidade no Donbass, como acontece, por exemplo, com o valiosíssimo e profundo trabalho de Bruno Amaral de Carvalho, são considerados uma espécie de traidores à Pátria, até por membros do governo; chegam a ser convocados por colegas para dar entrevistas, como se necessitassem de justificar um comportamento autoritariamente interpretado como aberrante.

Também neste aspecto a situação não mudou; agravou-se mesmo em termos de desrespeito pelo pluralismo de opiniões e pelo direito de acesso a todos os ângulos de informação. É uma outra guerra produzida pela própria guerra e pelo avanço galopante da ideologia militarista.

Islam abu Ramadan, de 24 anos, é uma das centenas de feridos nos bombardeamentos israelitas realizados entre 5 e 7 de Agosto de 2022; alguns necessitam de ser submetidos a intervenção cirúrgica // Hosam Salem Al Jazeera

O fracasso da ONU

Depois de Beirute, estive em Gaza cinco anos, dez anos, 15 anos, 20 anos depois e testemunhei a gradual transformação do pequeno território palestiniano numa versão ainda mais aterradora da que existiu há 40 anos na parte ocidental da capital libanesa.

O governo terrorista de Israel, com o apoio permanente dos Estados Unidos e também de vários outros países da NATO, sobretudo a França e o Reino Unido, tentou por várias vezes voltar a conquistar uma presença militar no Líbano de modo a domesticar este país e transformá-lo num satélite inofensivo para as suas ambições de controlo regional – principalmente sobre a Síria.

Mas a emergência dos nacionalistas xiitas do Hezbollah, em parte incentivada pela chacina de Sabra e Chatila, travou todas as tentativas de invasão, principalmente em 1996 e 2006. O grupo de índole religiosa, que ganhou respeito e apoios em outros sectores religiosos e até não religiosos, transformou-se num adversário de respeito que obriga a tropa sionista a ponderar as suas acções na região, evitando o confronto militar directo. Recorre cobardemente, como sempre, aos ataques permitidos pela sua superioridade aérea, mas o à-vontade já não é o mesmo desde que existem o Hezbollah e sistemas mais avançados de defesa anti-aérea instalados pela Rússia na Síria, a partir de 2015.

Mas em Gaza isso não acontece. Gaza é hoje Beirute Ocidental de há 40 anos, com a agravante de a sua população, calculada em dois milhões de pessoas num território ínfimo de 360 quilómetros quadrados (área aproximada do concelho de Montijo, por exemplo), ter sido privada de todos os meios de defesa e até de sobrevivência.

A Faixa de Gaza, governada pelo movimento radical islâmico Hamas depois de uma divisão catastrófica da resistência palestiniana na sequência dos acordos de «paz» conduzidos pelos Estados Unidos, novamente como «mediadores», e por Israel, está fisicamente envolvida por cercas, muros, e meios navais de guerra no Mediterrâneo, impedida de se abastecer de todos os bens essenciais à vida, desde alimentos a medicamentos. A água é escassíssima e cada vez mais salgada, não existe energia eléctrica durante grande parte do dia, os bombardeamentos permanentes de Israel, com picos de grande violência como agora mais uma vez se registou, destruíram grande parte das estruturas sociais, como escolas e hospitais, e devastaram o parque habitacional.

Gaza é um monte de ruínas, uma sociedade de famílias destroçadas e um universo de carências como Beirute Ocidental há 40 anos. Centenas de milhares de palestinianos eram, e são, refugiados no Líbano e são-no também na sua própria terra, em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Leste.

Ninguém, nenhum país e organização com capacidade de intervenção no mundo se move em favor dos direitos deste povo. O comportamento da ONU é deplorável e as atitudes dos secretários-gerais tornam-se cada vez mais irrelevantes à medida que se sucedem os ocupantes do cargo: quando isso parecia impossível, António Guterres supera em alheamento e ineficácia o desastre que foi a gestão do sul-coreano Ban Ki-moon.

Tão célere a tomar posição, por sinal enviesada, parcial e desinformada (no mínimo) na questão ucraniana, o eng. Guterres contempla imobilizado a agonia e as periódicas chacinas de Gaza; e, quando age, os resultados chegam a ser patéticos. A ONU tem em seu poder todos os instrumentos para fazer justiça, finalmente, ao povo palestiniano. Existem, contudo, povos de primeira, segunda e terceira, e o da Palestina não cabe sequer em qualquer destes níveis discriminatórios.

É um pária do qual os senhores do mundo, uma elite parasita que representa pouco e ainda manda muito, observam tranquilamente o extermínio gradual. No entanto, esse povo resiste, como há 40, há 75 anos. E onde estão as sanções contra Israel pela Nakba (a catástrofe terrorista, genocídio, limpeza étnica) em prática há sete décadas e meia?

A situação do povo palestiniano diz muito, quase tudo, sobre a qualidade humana, o conceito de justiça, a consideração pelo direito internacional, o respeito pelos direitos humanos por parte da casta colonial e imperial que ainda controla o mundo em coligação com o poder sionista transnacional, não apenas centrado em Israel.


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