O preço da traição: um milhão de dólares

(In Resistir, 24/11/2019)

O general boliviano que exigiu a renúncia do Presidente Evo Morales recebeu um milhão de dólares do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz, sr. Bruce Willianson , juntamente com um visto de residência permanente nos EUA (para onde foi viver).

Trata-se do general Williams Kaliman, que anteriormente fora adido militar da Embaixada da Bolívia em Washington. No seu curriculum conta-se uma passagem pela School of Americas, em Fort Bennings, Georgia, destinada a formar militares e polícias latino-americanos. O general Kaliman assumira o cargo de chefe das Forças Armadas Bolivianas em 24/Dezembro/2018. Anteriormente estivera no comando do Exército. Quando se dirigia ao Presidente Evo Morales chamava-o de “irmão”.


Ver abaixo vídeo síntese em 2 minutos do golpe de Estado na Bolívia


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América Latina: a lição da resistência

(Manuel Loff, in Público, 14/11/2019)

Manuel Loff

A América Latina é, com as revoluções mexicana (1917) e cubana (1959), a Unidade Popular chilena (1970-73) ou o sandinismo (1979), um laboratório de experiências políticas com mais impacto mundial do que se julga. A grande viragem progressista, que irrompeu com Chávez (1998) e se alastrou com os movimentos emancipadores de Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) e com as vitórias eleitorais contra as receitas do FMI (Lula, os Kirchner, Pepe Mujica), constituiu a primeira grande vaga de contestação global ao neoliberalismo que começou a devastar os direitos sociais a partir do fim dos anos 1970. Os latino-americanos têm dado lições ao mundo sobre a emancipação camponesa e a batalha pela terra, que hoje, finalmente, se começa a perceber ser uma batalha pela salvação da natureza; sobre a emancipação das mulheres e das minorias LGBTI num subcontinente onde a violência de género tem sido mais combatida do que em qualquer outro; sobre a luta anticolonial contra a dominação económica, sustentada sobre o preconceito racista e a crueldade social das burguesias de origem europeia. A origem popular de Lula ou Mujica, que Chávez e Correa sejam mestiços e que Evo Morales seja um uru-aimará, são argumentos centrais no ataque a todos eles e nas caricaturas que deles fazem os media e as direitas de todo o mundo. O racismo nauseabundo e o fundamentalismo religioso de Bolsonaro ou do novo líder da extrema-direita boliviana, Luis Fernando Camacho, garantem a ambos um lugar de destaque como símbolos acabados da burguesia branca latino-americana.

Depois de terem desencadeado e coordenado nos anos 1970 a batalha pelo extermínio físico e político das esquerdas revolucionárias, fomentando por todo o lado ditaduras de militares e ricos empresários, os EUA, julgando-a definitivamente vencida, passaram nos anos 1980 a permitir que se aliviasse a repressão e que os militares se retirassem com a condição de que os seus sucessores prosseguissem extensão à América Latina das políticas neoliberais já adotadas pelas direitas e a social-democracia dos países ricos. Esta fórmula democratização + privatização generalizada + aumento da desigualdade entrou em crise no final do século passado e abriu caminho à vaga progressista, que, por sua vez, entrou em crise a partir de 2015.

Não é que quem sempre mandou nas repúblicas americanas desde há 200 anos tivesse aceitado algum dos projetos de mudança socioeconómica, que, apesar de todas as suas hesitações (raramente se renacionalizou algum dos avultadíssimos recursos privatizados nos anos 1990; grandes multinacionais americanas, europeias, agora também asiáticas, continuaram a operar livremente), trouxeram melhorias consistentes ao nível de vida dos mais pobres e um reconhecimento constitucional da plurinacionalidade de Estados historicamente construídos sobre o genocídio dos povos ameríndios (Venezuela, Bolívia, Equador, mas não no Brasil, ou no Chile). Também na radicalização das direitas, a América Latina foi pioneira. Acrescentou-se sabotagem económica e corrupção a modelos de produção não reformados; em sociedades em que a violência é um recurso permanente, juntou-se-a a processos de contestação social. Direitas abertamente saudosas das ditaduras do passado recente passaram a denunciar o “autoritarismo” e o “populismo” dos governos progressistas ou a “ditadura cultural marxista” que estaria na agenda destes. Para os derrubar, têm usado sobretudo meios “institucionais”: Manuel Zelaya nas Honduras (2009), Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Dilma Rousseff no Brasil (2016). Pela via eleitoral, ganharam apenas na Argentina (Macri, 2015) — e acabam de voltar a perder; e no Brasil, mas só depois de prenderem Lula. Como acaba de se demonstrar na Bolívia (e em 2002 contra Chávez), nunca perderam o velho tique do golpe militar.

Enganou-se quem julgava que, com Trump e Bolsonaro, a vitória das direitas americanas era irreversível. O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México: “Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Golpe de Estado na Bolívia é para aprofundar o saqueio capitalista

(Cecília Zamudio, in Resistir, 11/11/2019)

Está consumado o Golpe de Estado contra o governo de Evo Morales na Bolívia. Agora segue-se o mais aterrorizante contra o povo boliviano, particularmente contra a classe trabalhadora, contra as organizações camponesas e indígenas de base, contra o pensamento crítico, contra toda pessoa que se oponha ao saqueio capitalista, à depredação da natureza, à exploração. Segue-se o fundamentalismo católico declarado e o racismo abjecto, a misoginia mais brutal e a nostalgia do tempo das cruzadas (é o que anunciam as acções e proclamações dos golpistas); segue-se a intensificação do saqueio do lítio, do gás, da prata, do ouro, do estanho, do ferro, dos mananciais e demais riquezas naturais, segue-se maior exploração contra as e os trabalhadores, fome e extermínio contra o povo, montanhas e rios capitalizados por um punhado de multinacionais e latifundiários.

Sob o governo de Evo foi garantida a educação gratuita, universalizou-se o acesso à água potável, a crianças, as mulheres grávidas e os anciões tiveram garantias essenciais, criou-se o Seguro Universal de Saúde, etc. Agora o que se segue com os golpistas fanáticos religiosos e ávidos pela intensificação do saqueio capitalista, é a privatização da educação, o desmantelamento do Seguro Universal de Saúde para que assim um punhado de capitalistas possa lucrar mediante suas seguradoras médicas privadas. A privatização da saúde assassinará por falta de assistência médica milhões de pessoas que não possam pagar os seguros privados. Possivelmente também introduzirão as caixas privadas de pensões, para especular com gigantescos capitais, enquanto as pensões dos anciões serão reduzidas a uma miséria macabra, como fizeram no Chile.

Sob o governo de Evo Morales investiu-se o capital gerado pela mineração e os impostos em serviços sociais, para implementar uma melhoria da qualidade de vida as pessoas mais empobrecidas da classe explorada (mas não se questionou pela raiz o capitalismo e continuou a existir uma classe explorada e uma classe exploradora). As medidas sociais obviamente representaram um alívio para milhares de famílias bolivianas, mas como toda medida que não modifica a própria estrutura do sistema económico, sua durabilidade tinha data de caducidade. Tinha data de caducidade porque a classe exploradora não cessa nunca o seu afã pelo aprofundamento dos níveis de exploração e saqueio, uma vez que com base nesses mecanismos se enriquece.

A burguesia local e transnacional queria livrar-se de Evo para aprofundar os níveis de saqueio capitalista: já não tolerava um governo que não estivesse disposto a ser-lhe 100% funcional. Evo não colectivizou os meios de produção, o que equivale a dizer que a economia boliviana não foi socialista, de modo que continuou a ser capitalista. Se houvesse feito mudanças estruturais, se houvesse colectivizado os meios de produção, se houvesse fortalecido a Bolívia frente às pretensões imperialistas; e a burguesia boliviana, profundamente exploradora e hostil a tudo o que não seja governar a Bolívia como se as e os trabalhadores fossem seus serviçais semi-escravizados, não teria ficado enredado no poder económico, mediático e inclusive institucional. É o debate de fundo que este tipo de tragédias põe em evidência: os limites do Reformismo e a necessidade de mudanças estruturais, revolucionárias. É o debate que Rosa Luxemburgo já colocava em “Reforma ou Revolução” e que a História, reiteradas vezes, se encarrega de por em evidência. O Reformismo é tolerado pela burguesia por algum tempo, inclusive pode chegar a ser-lhe funcional em certas circunstâncias, na medida em que “retira pressão da panela” das tensões sociais inerentes às injustas relações de produção do Capitalismo. No caso da Bolívia, é inegável que o governo de Evo contribuiu com grandes avanços, mas também era totalmente vulnerável à vontade da burguesia ao não ter produzido o aprofundamento revolucionário.

O Golpe de Estado estava há algum tempo a forjar-se em Washington. O povo boliviano estava há semanas a enfrentar o ataque do fascismo: a burguesia boliviana e transnacional, na sua pretensão de derrubar o presidente Morales e seu governo, com o objectivo de poder incrementar os níveis de saqueio capitalista contra o povo e a natureza, desencadeou hordas mercenárias e incentivou o maior ódio racista. Linchamentos contra indígenas e pessoas eleitas perpetrados por todo o país pelos paramilitares fascistas (mulheres vexadas, desnudadas, a presidente de municipalidade de Vinto, Patricia Arce, sequestrada, besuntada de tinta vermelha, tosquiada e golpeada, dirigentes sindicais torturados e obrigados a “pedir perdão” de joelhos por apoiar Evo, comunicadores alternativos aos media mentirosos amarrados a árvores, anciãs indígenas agredidas por vestirem seus trajes tradicionais). A ferramenta fascista da burguesia perpetrou numerosos atentados, incêndios de sedes de organizações camponesas e indígenas, incêndios de casas de membros do governo. A ferramenta mediática da burguesia participou da desestabilização, mediante manipulação e notícias mentirosas a nível nacional e internacional. Um dos pilares da manipulação que a burguesia difundiu através dos seus media foi o fomento intensificado do ódio racista, avivando um incêndio que perdura séculos: o racismo foi fomentado como mecanismo de controle social, num país em que o colonialismo europeu deixou sua pegada marcada de sangue e injustiça social, num país cuja população é entretanto de maioria indígena.

A ingerência estado-unidense financiou e treinou mercenários, a polícia pôs-se do lado dos fascistas e não deteve nem os espancamentos contra as famílias indígenas, nem a tomada de edifícios institucionais, e sim participou. O exército não fez nada para deter as agressões contra as bases indígenas e camponesas e, no final, acabou por se posicionar com os golpistas.

O povo lutou de maneira contundente contra os destacamentos fascistas para impedir que fosse derrubado o primeiro presidente indígena de toda a História da Bolívia (desde a chegada dos colonizadores os indígenas foram explorados e excluídos). Evo Morales não havia seguido estritamente os ditames do grande capital (e por isso os magnatas quiseram retirá-lo e não quiseram reconhecer sua vitória eleitoral).

A OEA, que se cala totalmente sobre a repressão no Chile (cala-se acerca das violações e mutilações perpetradas pelos carabineros porque o governo chileno é totalmente funcional ao saqueio capitalista), em contrapartida lançou-se contra a Bolívia para alegar uma suposta fraude nas eleições de 20 de Outubro (exercendo seu papel pró imperialista). Perante as acusações da OEA (que replicavam a versão da burguesia golpista), Evo Morales convidou, com suma ingenuidade, “verificadores da OEA”. Enquanto isso os mercenários fascistas continuavam a espalhar terror nas ruas. Finalmente a OEA emitiu sua amanhada decisão política, que foi o sinal de partida para os últimos passos do Golpe de Estado na Bolívia, algo que era fortemente previsível. Aday Quesada diz: “O governo de Evo Morales cometeu ‘erros’ dificilmente explicáveis. Torna-se absolutamente insólito que o Executivo boliviano solicitasse a “supervisão” da OEA (Organização dos Estados Americanos) para que efectuasse a perícia e contabilização dos votos resultantes das últimas eleições presidenciais. (…) essa solicitação de ‘arbitragem’ à organização que mais genuinamente representa os interesses estado-unidenses na América Latina era uma petição suicida, semelhante a encomendar a uma raposa a custódia de um galinheiro. (…)o parecer final da OEA estava assinado antes de se realizar a ‘inspecção’. A OEA determinou velozmente o que correspondia ao papel que os Estados Unidos lhe haviam encomendado” [1] .

A seguir os acontecimentos encadearam-se a uma velocidade vertiginosa. A Polícia amotinou-se em várias cidades. Chegaram à capital da Bolívia numerosas hordas fascistas provenientes de Santa Cruz. Os meios de comunicação do Estado e vários media comunitários foram atacados. Várias casas de governadores foram incendiadas pelos mercenários. O governo de Evo tinha nesse momento duas opções: ou ceder à chantagem do fascismo e cair na armadilha de convocar novas eleições, em meio do clima de terror imposto pelos mercenários da burguesia, ou em alternativa radicalizar o processo popular, tomando a sua força das maciças mobilizações em seu apoio que continuavam nas ruas.

Decidiu-se nas primeiras horas de 10 de Novembro por convocar novas eleições, uma vez que já havia ganho nas eleições de 20 de Outubro e que claramente a burguesia não se acalmaria até ter nas suas mãos todo o poder (ou seja, em eventuais novas eleições o clima de terror imposto pela ferramenta fascista da burguesia impediria muitos votantes a favor de Evo sequer aproximarem-se para votar e, caso Evo ganhasse novamente, a burguesia continuaria com a desestabilização). Mas nem sequer o anúncio de Morales de convocar novas eleições foi suficiente para a burguesia: nesse mesmo 10 de Novembro a cúpula militar emitiu um comunicado no qual se posicionou ao lado dos golpistas, apelando a Evo Morales para renunciar. O povo boliviano, contudo, continuou maciçamente nas ruas a combater contra as hordas fascistas e sua pretensão de Golpe de Estado.

Após o comunicado do alinhamento da cúpula militar com o Golpe de Estado em curso, chegou-se a temer o pior: que Evo renunciasse, ficando o fascismo com todos os poderes na Bolívia. A burguesia queria tudo e no imediato, não pretendia deixar sequer que se realizassem novas eleições. A mensagem foi clara: ou governo o candidato escolhido por Washington ou nada. Tristemente não foi preciso esperar muito, após o comunicado golpista dos militares, para que Evo anunciasse sua renúncia, tal como lhe exigiram os golpistas, tal como vinha preparando o imperialismo estado-unidense e a burguesia através da sua ferramenta fascista. Após essa renúncia, perante o Golpe de Estado consumado, as organizações sociais, camponesas e indígenas ficaram à mercê do pior fascismo.

É evidente que a imensa maioria do povo boliviano votou por Evo Morales, pois a maioria da população indígena e camponesa, a classe trabalhadora, o apoiava. Mas a burguesia e o grande capital transnacional pretendiam já removê-lo para poder depredar com maior voracidade os imensos recursos da Bolívia. Mas por que Evo renunciou tão rapidamente quando tinha uma forte base de apoio popular nas ruas? Os media da burguesia afirmaram que o presidente renunciou, quando está claro que foi um Golpe de Estado. A renúncia de Evo foi anunciada sob um clima de terror e ameaça, após várias renúncias de membros do seu governo, igualmente aterrorizados: “Renunciaram para salvar a sua família ameaçada” [2] , relatou Evo em conferência de imprensa. As “renúncias” verificaram-se sob coação: mediante o sequestro de familiares por parte da ferramenta fascista, que chantageou os representantes com o assassínio dos seus familiares se não se demitissem e não pedissem publicamente a Evo Morales que renunciasse.

O Golpe de Estado na Bolívia deu-se mediante a brutalidade fascista e o amedrontamento. A maior parte da polícia não estava a proteger o povo dos ataques dos mercenários, os militares anunciaram que se alinhavam com o Golpe de Estado. Como sempre, quando a classe exploradora não consegue o quer mediante eleições recorre ao golpe militar e paramilitar, à ameaça, ao terror: práticas mafiosas de um sistema putrefacto.

A classe exploradora quase sempre consegue o quer mediante eleições pois tem o capital para impor seus candidatos mediante milionárias campanhas alienantes. Mas quando excepcionalmente ganha algum candidato mais afim aos interesses das classe trabalhadora, este tem os dias contados.

Assim está a guerra que a classe exploradora faz à classe explorada: agora saca a sua ferramenta fascista, por todo o planeta, para tentar varrer todos os governos que não lhe sejam totalmente funcionais e para aprofundar a taxa de exploração e saqueio que incrementa a sua acumulação capitalista. Os povos têm as suas mãos desnudas para defenderem-se e sua consciência de que se não vencem na batalha contra a ferramenta fascista burguesia seguem-se tempos de maior terror, repressão, exploração, saqueio, empobrecimento e barbárie. Enquanto o capitalismo continuar vivo, continua viva em seu seio a ferramenta fascista e continua a imperar a brutal injustiça social que esfaima povos e devasta a natureza.


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