De Beirute a Gaza há coisas que nunca mudam

(José Goulão, in AbrilAbril, 08/08/2022)

Palestinianos inspeccionam um edifício residencial atingido pela aviação israelita, em Rafah, no Sul da Faixa de Gaza, a 6 de Agosto de 2022

Passam agora exactamente 40 anos sobre os dias tórridos de 1982 em que, ao cabo de várias peripécias próprias da vida de um jornalista, consegui chegar a Beirute Ocidental, região cercada e impunemente bombardeada pelas forças armadas de Israel. A invasão israelita consolidara ainda mais a divisão sectária da capital libanesa em sectores ocidental e oriental, separados por uma «linha verde».

Agora, quatro décadas depois, as mesmas forças armadas de Israel cometem mais um pico da agressão permanente que mantêm contra a Faixa de Gaza, território palestiniano transformado num campo de concentração a céu aberto, tal como Beirute Ocidental foi em 1982.

Há coisas que nunca mudam: regimes criminosos agindo tranquilamente à margem das leis internacionais, sustentados por cúmplices dizendo-se democratas, civilizados e juízes dos direitos humanos; e povos sujeitos a guerras de extermínio.

No caso dos palestinianos, quando a situação se altera, é no sentido único do agravamento contínuo. Um povo submetido a um tratamento cruel e a uma limpeza étnica há sete décadas e meia, e que, ao contrário de outros «mais parecidos connosco», como se diz na linguagem própria da xenofobia colonial, não consegue suscitar grandes vagas de comoção internacional, acompanhadas pelo coro de berros transtornados de jornalistas e comentadores sem escrúpulos.

Os palestinianos resistem quase sozinhos, com a sua coragem inigualável e os parcos meios de que dispõem para fazer frente a um inimigo sádico e selvático, sem limites, beneficiando de um ilimitado poder militar e de lóbi transnacional, além de uma impunidade internacional sem restrições.

De Beirute, em 1982, até Gaza, em 2022, há um fio histórico condutor com uma lógica e uma coerência tão fortes que lhe permitiram resistir às grandes convulsões ocorridas ao longo dos últimos 40 anos. Acabou uma guerra fria e começou outra, derrubou-se um muro em Berlim e construíram-se outros na Europa e em vários lugares através do mundo, mas o martírio palestiniano continua, afinal incólume aos terramotos políticos, militares e estratégicos através dos quais se faz, e também se desfaz, aquilo a que a tecnolíngua de consumo obrigatório decidiu chamar globalismo.

A arbitrariedade militarista e racista israelita passou por cima da imensa vaga de transformações à escala mundial, o que não é surpreendente graças às relações de forças que foram emergindo no fim da guerra fria; no entanto, de maneira insólita e mesmo inesperada (que não para os próprios), a resistência palestiniana não foi liquidada por essa mesma onda, entre pequenos e traiçoeiros avanços e devastadores mas não fatais recuos. Perdoe-se a ligeireza da analogia, mas a justiça e os direitos legítimos de uma aldeia de Asterix continuam a sobreviver à força bruta e à crueldade expansionistas no coração do império – embora sem alcançarem o devido reconhecimento em forma de Estado nacional.

Ashraf al-Qaisi, de 46 anos (segundo à esquerda), deixou que os bulldozers demolissem a sua casa para que a protecção civil salvasse os seus vizinhos // Hosam Salem / Al Jazeera

O exemplo de Beirute

É assim em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Leste como foi em Beirute no ano de 1982.

Para os que não eram nascidos ou não se recordam, Beirute era alvo de uma brutal ofensiva militar israelita, comandada pelo general Ariel Sharon, que depois chegou a primeiro-ministro mesmo tendo sido condenado internamente por crimes cometidos nessa operação. O objectivo declarado, como de costume, era o de «combater o terrorismo palestiniano», isto é, liquidar as estruturas embrionárias de um Estado árabe na Palestina, na altura instaladas no Líbano. E, se possível, assassinar o próprio dirigente máximo da resistência nacional palestiniana, então Yasser Arafat, o que foi tentado várias vezes, na altura sem êxito.

No recuo perante as tropas invasoras israelitas, apoiadas por uma força aérea poderosíssima que agia sem qualquer oposição, a resistência conjunta palestiniana e libanesa concentrou-se na parte Oeste de Beirute, que ficou então completamente cercada.

Do lado da resistência aos invasores actuavam as estruturas paramilitares das forças políticas palestinianas concentradas na Organização de Libertação da Palestina (OLP) e o Exército de Libertação da Palestina – embrião do exército nacional do futuro Estado; e também grupos paramilitares libaneses ligados a partidos e movimentos políticos, além de organizações de âmbito nacional ou das várias confissões religiosas: muçulmanas sunitas, xiitas, drusas e até cristãs maronitas.

As tropas agressoras sionistas eram ainda apoiadas pelas principais organizações fascistas cristãs maronitas libanesas, como o Partido da Falange, da poderosa família Gemayel, de índole feudal e «cultura» colonial francesa, e o chamado Exército do Sul do Líbano, de facto criado pelo regime de Telavive.

Embora as peripécias vividas pelo jornalista para chegar à área cercada de Beirute não sejam para aqui chamadas, há uma que tem um cariz relevante, sobretudo pela sua actualidade. No caminho por estrada entre a capital síria, Damasco, e Beirute Oriental fui submetido a vários controlos de identificação pela miríade de grupos militares e paramilitares presentes no terreno mas o último, e decisivo, aconteceu no quartel-general dos fascistas da Falange, fazendo o papel de filtro de admissão a rogo das forças israelitas.

Como viajava num grupo de jornalistas e operadores de câmara britânicos e norte-americanos, o processo decorreu sem grandes sobressaltos, mas fica a nota da colaboração das forças ditas civilizadas, ocidentais e democráticas, na ocasião briosamente representadas pelas tropas invasoras israelitas, com as organizações fascistas e terroristas libanesas. Coisa que se diria contranatura mas que, tendo em conta a presente colaboração da NATO com os nazis ucranianos na defesa de um regime ditatorial em Kiev, não passa de uma intimidade de longa data, natural, frequente, corrente e até coerente, pode dizer-se.

O estado de Beirute Ocidental era indiscritível e cada minuto a mais de existência, dia e noite, sentia-se como um milagre de sobrevivência. A maior parte dos edifícios estava arrasada ou em ruínas, cadáveres insepultos, desfigurados, muitos já em decomposição, jaziam por todo o lado, principalmente nas imediações e no interior dos campos de refugiados palestinianos – não existiam condições para os funerais escaparem ao fogo dos aviões israelitas; não havia água e apenas funcionavam alguns precários pontos de electricidade dependentes de geradores, numa cidade quase desprovida de combustíveis; os recursos alimentares eram mínimos, os refugiados amontoavam-se em pequenas divisões no interior dos edifícios que restavam, situados principalmente na Rua Hamra, até então uma área comercial, financeira, jornalística e hoteleira da cidade. O uso de telex – o meio de comunicação escrita existente na altura – era possível apenas algumas horas por dia, de maneira intermitente e a preços proibitivos; o telefone para numerosos países, entre os quais Portugal, não funcionava.

De noite, os bombardeamentos israelitas com obuses eram cegos, não importava onde caíssem desde que fosse no perímetro urbano cercado, chegando a atingir o hotel onde se concentravam os representantes da imprensa e da TV norte-americanas – habitualmente alvo de precauções especiais por parte dos agressores. A partir dos primeiros sinais de dia começavam os bombardeamentos aéreos, em vagas sucessivas de F-15 – a geração mais avançada de caças-bombardeiros então em poder da Força Aérea israelita – e sem qualquer oposição. As consequências eram devastadoras, não havia refúgios, e no dia 10 de Agosto, que ficou para a história como a «horrenda quinta-feira», a chacina foi impiedosa sobre multidões que corriam desencontradas e à deriva pelas ruas.

Uma visão do Apocalipse. Quem tenha vivido uma situação destas, como posteriormente me aconteceu várias vezes em Gaza, jamais poderá considerar como lícito, justificado, muito menos banal o recurso à guerra e o seu prolongamento como via para criar estabilidade, resolver conflitos, pacificar regiões. É exactamente o oposto da democracia e do respeito pelos direitos humanos. O predomínio do militarismo é uma porta franqueada ao terrorismo, é criminoso.

A resistência armada libanesa-palestiniana, civil, paramilitar e militar, unida no interior de uma região que sempre fora desmilitarizada e deixara de o ser por força do avanço dos invasores, não se vergou nem rendeu durante 82 intermináveis dias, um feito pouco menos que inacreditável mesmo para quem viveu os combates. A todo o momento se esperava a entrada das tropas israelitas, mas o certo é que não se atreveram nem mesmo após o massacre de 10 de Agosto. Os assaltantes sionistas fugiram a experimentar o combate urbano contra quem, em boa verdade, pouco tinha a perder além da vida.

Muitos cadáveres de soldados chegariam então ao território israelita se isso acontecesse, um preço que o regime de Telavive não se sentiu em condições de pagar. E então negociou, sempre em vantagem porque, como viria a tornar-se um hábito, a «mediação» foi exercida pelos Estados Unidos. O acordo encontrado estabeleceu que as forças do Exército de Libertação da Palestina e os dirigentes da OLP poderiam sair em segurança de Beirute para a Tunísia e que tropas transnacionais, especialmente francesas, garantiriam a necessária interposição entre as partes em conflito, além de assegurarem a protecção dos campos de refugiados palestinianos.

O mecanismo era precário mas funcionou durante algumas semanas. Em 17 de Setembro, porém, os terroristas cristãos pró-Israel do Exército do Sul do Líbano, protegidos pelas tropas israelitas, o que foi muito fácil de testemunhar, entraram nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila e chacinaram a sangue frio cerca de cinco mil pessoas entre homens, mulheres, crianças e idosos, sem discriminação. Ainda não se chamava assim, mas foi um concludente exemplo da «ordem internacional baseada em regras».

O massacre teve algum eco através do mundo, até porque violou um acordo «mediado» pelos Estados Unidos, e deu origem a sinais de má consciência entre membros reservistas do Exército israelita, de que dá conta o interessante filme Danças com Bachir. O comandante da operação, Ariel Sharon, foi condenado na sequência de um inquérito oficial mas alguns anos depois chegou a primeiro-ministro e, no início deste século, esteve à frente do terror contra o chamado «Segundo Intifada» palestiniano.

Foi breve e quase inconsequente a consternação em relação à chacina de Sabra e Chatila. Massacres recentes incomprovados, certamente montados segundo guiões falsos como o de Bucha, nos subúrbios de Kiev, fizeram correr bastante mais tinta e geraram uma ampla, descontrolada e mirabolante cacofonia de poluição sonora.

Jornalismo e jornalistas

Fui o único jornalista português a trabalhar em Beirute Ocidental durante o cerco israelita. Se anoto esta situação, é porque se trata de um facto relevante a que as circunstâncias conferem actualidade, apesar de terem passado 40 anos. Os jornalistas portugueses, como se constata, acorrem na sua esmagadora maioria para lugares de conflito armado onde a narrativa dos factos coincide com a posição das instituições públicas do país, convergindo na formação de uma opinião hoje ainda mais restritiva e única do que então; o «inimigo» não deve ter cobertura, não pode ter voz dada a conhecer aos cidadãos portugueses, está do lado errado do conflito e dos «nossos valores partilhados», o salmo dogmático de Bruxelas e Washington.

No Verão de 1982, jornalistas nacionais instalaram-se comodamente em Beirute Oriental de acordo com os critérios seguidos actualmente no Zelenskistão; os raríssimos profissionais que procuram testemunhar a realidade no Donbass, como acontece, por exemplo, com o valiosíssimo e profundo trabalho de Bruno Amaral de Carvalho, são considerados uma espécie de traidores à Pátria, até por membros do governo; chegam a ser convocados por colegas para dar entrevistas, como se necessitassem de justificar um comportamento autoritariamente interpretado como aberrante.

Também neste aspecto a situação não mudou; agravou-se mesmo em termos de desrespeito pelo pluralismo de opiniões e pelo direito de acesso a todos os ângulos de informação. É uma outra guerra produzida pela própria guerra e pelo avanço galopante da ideologia militarista.

Islam abu Ramadan, de 24 anos, é uma das centenas de feridos nos bombardeamentos israelitas realizados entre 5 e 7 de Agosto de 2022; alguns necessitam de ser submetidos a intervenção cirúrgica // Hosam Salem Al Jazeera

O fracasso da ONU

Depois de Beirute, estive em Gaza cinco anos, dez anos, 15 anos, 20 anos depois e testemunhei a gradual transformação do pequeno território palestiniano numa versão ainda mais aterradora da que existiu há 40 anos na parte ocidental da capital libanesa.

O governo terrorista de Israel, com o apoio permanente dos Estados Unidos e também de vários outros países da NATO, sobretudo a França e o Reino Unido, tentou por várias vezes voltar a conquistar uma presença militar no Líbano de modo a domesticar este país e transformá-lo num satélite inofensivo para as suas ambições de controlo regional – principalmente sobre a Síria.

Mas a emergência dos nacionalistas xiitas do Hezbollah, em parte incentivada pela chacina de Sabra e Chatila, travou todas as tentativas de invasão, principalmente em 1996 e 2006. O grupo de índole religiosa, que ganhou respeito e apoios em outros sectores religiosos e até não religiosos, transformou-se num adversário de respeito que obriga a tropa sionista a ponderar as suas acções na região, evitando o confronto militar directo. Recorre cobardemente, como sempre, aos ataques permitidos pela sua superioridade aérea, mas o à-vontade já não é o mesmo desde que existem o Hezbollah e sistemas mais avançados de defesa anti-aérea instalados pela Rússia na Síria, a partir de 2015.

Mas em Gaza isso não acontece. Gaza é hoje Beirute Ocidental de há 40 anos, com a agravante de a sua população, calculada em dois milhões de pessoas num território ínfimo de 360 quilómetros quadrados (área aproximada do concelho de Montijo, por exemplo), ter sido privada de todos os meios de defesa e até de sobrevivência.

A Faixa de Gaza, governada pelo movimento radical islâmico Hamas depois de uma divisão catastrófica da resistência palestiniana na sequência dos acordos de «paz» conduzidos pelos Estados Unidos, novamente como «mediadores», e por Israel, está fisicamente envolvida por cercas, muros, e meios navais de guerra no Mediterrâneo, impedida de se abastecer de todos os bens essenciais à vida, desde alimentos a medicamentos. A água é escassíssima e cada vez mais salgada, não existe energia eléctrica durante grande parte do dia, os bombardeamentos permanentes de Israel, com picos de grande violência como agora mais uma vez se registou, destruíram grande parte das estruturas sociais, como escolas e hospitais, e devastaram o parque habitacional.

Gaza é um monte de ruínas, uma sociedade de famílias destroçadas e um universo de carências como Beirute Ocidental há 40 anos. Centenas de milhares de palestinianos eram, e são, refugiados no Líbano e são-no também na sua própria terra, em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Leste.

Ninguém, nenhum país e organização com capacidade de intervenção no mundo se move em favor dos direitos deste povo. O comportamento da ONU é deplorável e as atitudes dos secretários-gerais tornam-se cada vez mais irrelevantes à medida que se sucedem os ocupantes do cargo: quando isso parecia impossível, António Guterres supera em alheamento e ineficácia o desastre que foi a gestão do sul-coreano Ban Ki-moon.

Tão célere a tomar posição, por sinal enviesada, parcial e desinformada (no mínimo) na questão ucraniana, o eng. Guterres contempla imobilizado a agonia e as periódicas chacinas de Gaza; e, quando age, os resultados chegam a ser patéticos. A ONU tem em seu poder todos os instrumentos para fazer justiça, finalmente, ao povo palestiniano. Existem, contudo, povos de primeira, segunda e terceira, e o da Palestina não cabe sequer em qualquer destes níveis discriminatórios.

É um pária do qual os senhores do mundo, uma elite parasita que representa pouco e ainda manda muito, observam tranquilamente o extermínio gradual. No entanto, esse povo resiste, como há 40, há 75 anos. E onde estão as sanções contra Israel pela Nakba (a catástrofe terrorista, genocídio, limpeza étnica) em prática há sete décadas e meia?

A situação do povo palestiniano diz muito, quase tudo, sobre a qualidade humana, o conceito de justiça, a consideração pelo direito internacional, o respeito pelos direitos humanos por parte da casta colonial e imperial que ainda controla o mundo em coligação com o poder sionista transnacional, não apenas centrado em Israel.


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A União Europeia morreu e ninguém a informou

(José Goulão, in AbrilAbril, 02/08/2022)

Mural anti-Nato por ocasião das eleições legislativas na Sérvia. Belgrado, 4 de Abril de 2022

A Europa Ocidental tem apenas mais 20 a 30 anos de democracia; depois disso deslizará sem motor e sem leme sob o mar envolvente da ditadura (…)
                      Willy Brandt, chanceler da República Federal da Alemanha, 1974


Willy Brandt, polémico mas suficientemente lúcido para não fechar pontes em plena guerra fria, era um estadista, espécie entretanto desaparecida como os dinossauros. Governou nos tempos em que se pensava existir uma coisa chamada «social-democracia», que durante as últimas décadas também «deslizou sem motor e sem leme» para a selvajaria neoliberal, a ditadura da economia sobre a política, passo decisivo para a extinção da democracia – como estamos a perceber.

Brandt não era um bruxo; limitou-se a reflectir sobre perspectivas a médio prazo com base na percepção, leitura objectiva das realidades, experiência e intuição que não lhe faltavam porque era um praticante de política, actividade que é um direito geral de cidadania entretanto «promovida» a uma espécie de «ciência oculta» actualmente apenas ao alcance de uma seita de predestinados com capacidade para governar, dominada pela arrogância, a frieza desumana, a irresponsabilidade e a mediocridade, particularidades afinal essenciais num regime autoritário.

As palavras do antigo chanceler alemão, proferidas pouco antes de deixar o cargo, projectam-se na actualidade de maneira tão evidente como inquietante. Acertam em cheio no «deslizamento» da Europa para a ditadura política, completando-se assim o cenário aberto pelo totalitarismo da economia (ditadura do mercado), embora mantendo aparências formais em matéria de direitos cívicos, entretanto ferozmente vigiados e combatidos passo-a-passo por meios antidemocráticos.

Esta Europa, desde que assumiu a forma dominante de União Europeia como expressão do poder oligárquico e braço político da NATO, reforça a visão etnocentrista de uma pax imperial assente em nações «aliadas» orientadas pelo dogma mítico segundo o qual a paz generalizada será encontrada como resultado final de múltiplas guerras «defensivas» e «humanitárias». O chamado Ocidente criará assim as condições propícias para a implantação do globalismo neoliberal, de preferência gerido por um governo único e obviamente totalitário tal como postulam há muito o veterano guru imperialista Henry Kissinger, o conspirativo Grupo de Bilderberg e mais recentemente o Fórum Económico Mundial, instrumento das oligarquias sem pátria que representam menos de um por cento da população mundial e dos expoentes políticos que as servem.

Os fundamentos deste modelo imperial pressupõem a continuação do funcionamento inquestionável de uma ordem unipolar mundial, ou «ordem internacional baseada em regras» dirigida de Washington e contornando o direito internacional reconhecido pela esmagadora maioria das nações do mundo. Para a garantir existem 800 bases militares norte-americanas distribuídas pelo mundo, reforçadas com o policiamento permanente dos mares, uma estrutura que tem um papel indispensável na pretendida «globalização da NATO».

Apesar disso, essa ordem sente-se ameaçada. A guerra na Ucrânia, efectivamente travada entre a NATO e a Rússia, contribuiu para trazer à superfície os sinais inequívocos da ascensão da ideia de um mundo polifacetado no qual direitos nacionais plenos até agora violentamente reprimidos pelos poderes coloniais e imperiais do Ocidente se afirmam de modos bastante concretos, operacionais e explícitos.

Esse é o combate existencial do nosso tempo, em que a ideia do «fim dos Estados-nação» de que se apropriou a oligarquia globalista sem pátria se confronta com a crescente afirmação de relações mais justas e igualitárias entre nações soberanas, independentemente dos seus sistemas políticos. E não, soberanismo não se confunde com nacionalismo e muito menos com populismo.

Como é próprio dos conflitos existenciais, sobretudo este que envolve capacidades e estratégias de extermínio global, a situação actual é aterradora. As declarações de um e outro lado encarando a hipótese «limitada» de recurso a esse tipo de armas revelam a irresponsabilidade, a inconsciência e até a loucura sociopata de quem as profere. Sabendo nós que não se trata de casos isolados e de simples ameaças, mas de balões de ensaio induzindo a ideia de que as partes em confronto estão indisponíveis para comprometer-se com a rejeição do uso desses «argumentos» fatais para a humanidade.

Daí os esforços necessários para criar e aproveitar cada oportunidade de paz. Embora a «paz» esteja proscrita e os seus defensores sejam olhados como perigosos dissidentes da narrativa única própria de uma ditadura como a que, há quase meio século, o ex-chanceler alemão Willy Brandt anteviu para a Europa.

As ditaduras, porém, são absolutistas mas não absolutas. Existem sempre meios de as driblar e derrotar se houver vontade e união para isso.

Soldados ucranianos com material de guerra enviado pelo Ocidente  

Salve-se quem puder

A primeira grande vítima do combate de âmbito global em curso é a União Europeia. Morreu, mas ninguém a informou disso. O seu monstruoso aparelho burocrático e autoritário em modo de realidade paralela funciona em piloto automático, agora definitivamente orientado de Washington, como intermediário privilegiado do tráfego – e tráfico – de armas para alimentar a guerra na Ucrânia; e também como esbirro federalista dos povos do continente às ordens da insaciável oligarquia neoliberal.

A União Europeia desapareceu enquanto comunidade com identidade própria, que nunca foi muita. Teve uma síncope na crise financeira de 2008, que procurou combater através da tortura de países governados por apátridas invertebrados e com recurso a instrumentos coloniais. Esteve novamente à beira da morte em 2019 com a hecatombe do pretenso combate colectivo contra a Covid, mais um episódio de salve-se quem puder, cada um por si. Não havendo duas sem três, a União Europeia finou-se agora devido ao comportamento na guerra da Ucrânia convertendo-se, sem reservas nem reticências e com muito afã, num indisfarçado instrumento de mão de Washington e numa ramificação menor da NATO. Já aplanara o caminho nessa direcção há oito anos, ao comparticipar na entronização golpista de um regime nazi em Kiev.

Hoje, o zombie da União Europeia já nem se debate no poço sem fundo em que caiu devido ao modo como abordou a questão ucraniana. A führer Van der Leyen, plagiadora da sua tese de medicina, eleita a pior ministra da Defesa de sempre na Alemanha e admiradora confessa de Erwin Rommel, marechal de campo de Hitler na sua conveniente vertente mítica «anti-III Reich», insiste em cumprir as ordens do decadente presidente Biden para liquidar os ucranianos e arrasar a Ucrânia. O seu escudeiro socialista Borrell, cada vez mais ridicularizado mas sempre perigoso, deveria fazer um voto de silêncio para não agravar ainda mais a situação.

É por estes caminhos que a Comissão Europeia, entidade não eleita que gere uma estrutura desumana e feroz sobretudo contra os mais desfavorecidos, caminha agora fantasmagoricamente – mas ainda e sempre cruel.

Aos Estados membros, liberais, iliberais ou assim-assim compete obedecer, esvaziar os arsenais de todas as armas e enviá-las para a Ucrânia, meter as mãos nos bolsos dos contribuintes para financiar com centenas de milhões de euros o corrupto e nazi Zelensky. Em contrapartida, devem obrigar os seus povos, através de mecanismos totalitários de manipulação, coacção e chantagem, a aceitar impavidamente os efeitos das sanções impostas à Rússia – ilegais segundo o direito internacional – enterrados numa crise em que o pior ainda está para vir. Willy Brandt sabia do que falava mesmo que os tempos e as circunstâncias fossem bastante diferentes da realidade actual. Certamente porque os traços desviantes em relação ao discurso oficial, a hipocrisia e o cinismo enganador dos povos já então se manifestavam como tendências que são intemporais.

A arrogância, o autoconvencimento suicida e a subserviência doentia dos dirigentes da União Europeia perante o diktat norte-americano transformou a guerra na Ucrânia no acontecimento fatal para a comunidade.

A guerra e a maneira etnocêntrica, xenófoba e mistificadora como a União Europeia a encarou impondo sanções arbitrárias à Rússia, obedecendo a Washington convencida de que o mundo «iria atrás», funcionou apenas, afinal, dentro dos 27 e no universo muito limitado de países que compõem o chamado Ocidente – conceito que é um alter-ego dos Estados Unidos imperiais. O resto do mundo, cerca de 85 da população mundial, assumiu posições próprias, mais ou menos diferenciadas e desafiantes das ordens emanadas de Washington.

Ao mesmo tempo as sanções impostas à Rússia contribuíram para gerar outras consequências perversas, além do efeito de boomerang contra os povos dos países que as impuseram. As transformações no mundo com sentido multipolar foram aceleradas pelas novas circunstâncias; daí que seja possível observar como países de outros continentes, com maiores ou menores envergaduras económicas, se juntam em recém-criadas organizações regionais e transnacionais, algumas delas ainda embrionárias, harmonizando interesses próprios, abrindo novas vias de comunicação e de transporte, intercambiando matérias-primas, commodities e outros bens da economia real, tangível, tanto quanto possível à margem do casino financeiro de ambição globalista e do dólar cada vez mais contaminado pela financeirização e a dependência da economia virtual.

São relações novas ou ampliadas estabelecidas em condições mais equilibradas e igualitárias, livres de imposições de obediência e das obrigações desiguais próprias das relações até agora dominantes, de índole colonial e imperial.

A nova realidade emergente atrai cada vez mais países que estão a redescobrir a importância da soberania e se atrevem a desafiar o Ocidente como nunca o fizeram.

Na recente Cimeira das Américas, dirigentes de várias nações disseram ao presidente dos Estados Unidos coisas que ele jamais pensou ouvir; os países ribeirinhos do Mar Cáspio decidiram, em cimeira recente, reforçar a soberania regional, declarando as águas livres de navios da NATO; os presidentes do Irão, da Turquia e da Rússia acordaram modos de cooperação, sobretudo na Síria, que têm como objectivo trabalhar pela saída das tropas norte-americanas deste país, acabando assim com o roubo de petróleo; o presidente norte-americano foi à Arábia Saudita mendigar a redução dos preços do petróleo nos mercados internacionais, mas não passou de Jeddah e as suas súplicas não foram atendidas; ao invés, o encontro do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, com os dirigentes da Liga Árabe, foi considerado um êxito. Entretanto, o artista da moda e chefe do regime nazi de Kiev não conseguiu pregar a sua homilia à cimeira do Mercosul depois de, há algumas semanas, ter sido escutado por apenas quatro dos 55 chefes de Estado da União Africana. Há realmente cada vez mais mundo para lá da Ucrânia e do Ocidente. E o New York Times já se «esquece» de falar da guerra da Ucrânia em algumas das suas edições.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a visita desta a Kiev, a 8 de Abril de 2022, para acelerar o processo de adesão da Ucrânia à União Europeia

O que resta?

Então o que resta, nestas circunstâncias, da defunta União Europeia? Ou mesmo da Europa, alargando o conceito à antevisão de Willy Brandt?

Observa-se, por exemplo, que a democracia é cada vez mais um invólucro desgastado de sistemas económicos e políticos com notáveis tiques ditatoriais.

Aliás no Leste europeu, desde a Polónia às Repúblicas do Báltico, tão acarinhadas pela NATO e a União Europeia, os regimes de índole fascista e xenófoba são indisfarçáveis. Na Letónia e na Estónia os cidadãos de origem russa são de segunda categoria, não podem votar, não têm direitos sociais, são párias na sua pátria. Zelensky não inventou nada. Como se percebe, foram instalados regimes de apartheid no interior da União Europeia sem registo de qualquer escândalo por parte da comunicação social corporativa, sempre tão vigilante e de dedo em riste.

Então, para defender um regime nazi até às últimas consequências – que não se anunciam promissoras – a União Europeia decidiu «cancelar» a Rússia, isto é, prescindir das suas relações políticas e, sobretudo, económicas e comerciais com este país. E fê-lo numa ocasião em que Moscovo já decidira estrategicamente uma ancoragem prioritária com mira no Oriente, abrindo-se daí, ainda mais, para a Ásia, a África e a América Latina.

Quem ganha e quem perde com esta opção, que não é uma versão da história do ovo e da galinha?

Uma pergunta que os lunáticos de Bruxelas e das restantes capitais dos 27 não fizeram a si próprios antes de investirem com tudo (já só falta a bomba nuclear), e praticamente sem rectaguarda, contra a Rússia.

A Europa é um continente envelhecido, uma manta de retalhos que se vai cosendo por conveniência e apenas para imagem externa, um espaço de inércia crescente dominado por uma burocracia retrógrada apesar de digitalizada, mergulhado numa autoimagem arrogante e desligada da realidade mundial. Carece de produtos básicos de alimentação, de matérias-primas essenciais, da maioria dos recursos fundamentais estratégicos, sobretudo fontes de energia e de autonomia tecnológica, sector em que, no que toca a desenvolvimento e inovação, começa a estar a anos de luz não só dos Estados Unidos mas também, e principalmente, da Ásia. O que resta da indústria europeia é subsidiário e dependente do exterior.

A questão do abastecimento energético, porém, ilustra como nenhuma o delírio incontrolável de Bruxelas e da maioria dos seus satélites. Para prescindir do petróleo da Rússia, barato e há décadas calibrado para as necessidades europeias, a senhora Van der Leyen pratica mendicidade com países que maltrata e sanciona, como a Venezuela e o Irão, e promete soluções inexistentes a curto e médio prazo. Quanto ao gás natural, está disponível para comprá-lo em estado líquido aos Estados Unidos, em quantidades muito insuficientes e por preços quatro a cinco vezes superiores ao russo, apesar de ser produzido pelo método altamente poluente de fractura hidráulica (fracking). Para que haja uma noção do que aí vem anote-se que o gás natural estava a 200 dólares por mil metros cúbicos antes das sanções, situando-se agora entre os 1500 e 1800 dólares pelos mesmos mil metros cúbicos – sete a nove vezes mais.

Além disso, a presidente da Comissão Europeia assegura, com o ar mais solene deste mundo, que está para mais breve do que supomos a autossuficiência energética com moinhos de vento e painéis solares. Pode acrescentar-lhe a produção de gás resultante do tratamento de lixo, dejectos de passarinhos e suínos. Boa sorte com isso. À cautela, conhecendo muito bem a incompetência dos seus subordinados na Comissão e governos adjacentes, os patrões recomendam a restauração do funcionamento das centrais a carvão para tentarem refrear a hecatombe económica que começa a sentir-se, por exemplo, no gigante alemão. O combate às alterações climáticas, claro, pode esperar – aliás como sempre.

A Europa transformou-se numa aberração cultural, aceitou que as suas culturas com origens milenares fossem contaminadas e asfixiadas pelo pior dos exemplos, a plastificação dos ambientes criativos pelos mais medíocres centros norte-americanas de propaganda de um «way of life» postiço, estupidificante, monolítico. A «classe política» e a comunicação social corporativa recriaram-se nesse formato e as consequências estão à vista numa opinião única militarizada, hipnotizada pela violência, numa sociedade de vigilância, coacção e bufaria, num entretenimento idiota, alienante e intoxicante onde avulta a programação televisiva uniformizada de cariz preferencialmente alarve.

A Europa é provavelmente o único continente que não consegue ser autossuficiente do ponto de vista económico. Mas decidiu isolar-se agarrada ao capote do Tio Sam. No entanto, o espaço para funcionamento dos mecanismos coloniais já não é o que era à medida que a maioria das nações do mundo acordam para novas realidades de relacionamento; a invulnerabilidade militar já teve os seus dias; é cada vez mais difícil roubar os bens alheios: talvez o ouro da Venezuela e do Afeganistão, os fundos soberanos venezuelanos e as reservas cambiais russas sejam os derradeiros assaltos tolerados. E que, mais dia menos dia, terão resposta.

Os políticos europeus vocacionados para governar através de uma máquina de manipulação que erradicou na prática o pluralismo, o debate e o esclarecimento, recitam discursos vazios de conteúdo, carregados de promessas vãs, manifestam um ostensivo desrespeito pelas pessoas, pelo trabalho, pelos mais idosos; os comentadores tagarelam dislates, mensagens encomendadas, mentiras, quando não é pura propaganda terrorista; desdobram-se em delações e desfazem-se dos derradeiros resquícios de compostura e vergonha quando lhes oferecem uma guerra «civilizacional» – o que acontece em sessões contínuas.

A Europa, evidentemente, precisa muito mais da Rússia, país no topo mundial das matérias-primas, dos recursos naturais estratégicos e das reservas de energia essenciais, do que a Rússia necessita da Europa. Pode passar muito bem sem ela.

A Europa, porém, insiste nas sanções, condenando os seus povos a carências há muito não sentidas e, para isso, nem será necessário que Moscovo aperte muito o «torniquete da dor». Pela calada, para não perder a pose perante os seus, Bruxelas vai levantando algumas sanções, como a do comércio de titânio, ou então os aviões começariam a ficar em terra. As medidas avulsas, porém, não tocam no fundo das questões, apenas suscitam ainda mais desprezo por parte da Rússia e de muitos outros países para quem a União Europeia deixou de ser entidade «confiável».

As sanções à Rússia e o alinhamento na defesa de regimes nazi-fascistas europeus, caminho para a própria degeneração ditatorial, não são corriqueiros tiros nos pés. São armas de suicídio num caminho que não tem volta. Os tempos da velha e nobre Europa e da sua mítica e falsa União já lá vão. Agora o chamado «Velho Continente» não passa de um corpo estranho, um satélite mumificando em redor da estrela cadente do império. Nem sequer pode desejar-se paz à sua alma. Alma não tem; e repudia a paz.


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A excomunhão do Papa

(José Goulão, in AbrilAbril, 21/07/2022)

Soldados ucranianos com material de guerra enviado pelo Ocidente 

A figura principal da Igreja Católica, entidade associada a cruzadas e outras atrocidades cometidas ao longo de séculos, opõe-se às chacinas actuais, considerando que a vida de um ucraniano vale tanto como a de um sírio, um líbio, um iraquiano.


O Papa Francisco escreveu um pequeno livro intitulado Contra a Guerra – A Coragem de Fazer a Paz. Desconheço se o tão provocador ensaio já caiu no índex dos «intelectuais» do regime ou mesmo se foi adicionado aos 100 milhões de livros que o bom democrata Zelensky deu ordens para destruir em Junho passado, reeditando as práticas hitlerianas. Pelo menos a sua edição em russo será certamente para queimar.

O título da obra papal é um desafio à «ordem internacional baseada em regras» que nos governa sem apelo nem agravo. O conteúdo tem passagens nada menos que heréticas. Francisco testemunha que a Terceira Guerra Mundial está em curso na forma de «peças soltas», que são as guerras simultaneamente existentes no Iraque, na Líbia, na Síria, no Iémen, na Ucrânia, na Somália – no Afeganistão também, porque a fuga da NATO não significou o fim do conflito. O Vaticano, através do seu dirigente máximo, não aceita que haja guerras boas e más ou pesos e medidas diferentes para avaliar os conflitos armados.

O chefe da Igreja Católica transformou-se assim num marginal, um desalinhado da opinião única a que devemos respeito absoluto sob pena de sermos cúmplices das malfeitorias de Putin e, desde a recente cimeira da NATO, das insidiosas tramas chinesas.

Como sabemos, e disso somos recordados frequentemente pelo zelo dos poligrafistas de todos os tipos, desde políticos a jornalistas com alma de censores, não é possível confundir a guerra na Ucrânia, criada a dois tempos pela NATO e a Rússia, com as outras lançadas pela Aliança Atlântica. Devemos todos acatar a ordem segundo a qual não é admissível qualquer comparação entre uma guerra inusitadamente decorrer na Europa, ao nosso lado e vitimando pessoas «como nós»; e outras guerras legitimadas por razões humanitárias e, sobretudo, civilizacionais, expressões de uma superioridade ainda e sempre de índole missionária para expansão da matriz «cristã». Não há que confundi-las, não é permitido assimilá-las. Nem ao Papa é possível tal atrevimento.

Por essa via vamos encontrar paradoxalmente a figura principal da Igreja Católica, entidade associada a cruzadas e outras atrocidades cometidas ao longo de séculos, do lado da oposição às chacinas actuais ao considerar que a vida de um ucraniano vale tanto como a de um sírio, um líbio, um iraquiano; e que um agressor é sempre um agressor seja qual for o seu «grau» de civilização. O que leva o Papa a defender como único remédio para estes flagelos a busca incessante da paz através de negociações, da diplomacia e do silenciamento das armas. O que parece humanista, lúcido, lógico e de bom senso.

De Borrell a Costa

Nada disso, argumentam as vozes que de Oeste a Leste do Ocidente comandam a formatura dos exércitos doutrinados, os desfiles das opiniões milimetricamente alinhadas pretendendo impor universalmente, na ponta dos mísseis pacificadores, uma democracia degenerada para conter no bojo um autoritarismo onde só a aparência e a embalagem são benignas.

Atentemos no comportamento do socialista e sinistro Borrell, chefe da «política externa» da União Europeia, que emana directamente do Departamento de Estado em Washington, ao garantir que a guerra na Ucrânia «só pode ter solução militar». Poder-se-ia chamar-lhe «anti-Papa», mas é melhor não o fazer porque nos tempos que correm iria soar a elogio.

O mesmo alter ego do secretário de Estado Anthony Blinken voltou a evidenciar-se mais recentemente ao condenar dirigentes europeus que, segundo ele, estão mais preocupados em defender os «interesses nacionais», isto é, os dos cidadãos dos seus países, do que que em «atacar Putin». Para o «ministro dos Negócios Estrangeiros» da União Europeia a soberania das nações tornou-se um crime que lesa a NATO e a própria União Europeia. Já desconfiávamos, mas agora ficou confirmado preto no branco.

Quem não corre o risco de receber reprimendas do inquisidor Borrell é alguém mais próximo de nós, o primeiro-ministro e também socialista Costa, legítimo subproduto do clima de guerra que devasta todas as expressões sociais construtivas e criativas, contaminando com a agitprop do sangue, da morte e da violência toda a vida em sociedade.

Costa acha que a recente e alarmante cimeira da NATO foi um «acontecimento histórico». É «histórico», por conseguinte, dissolver Portugal numa organização que se reuniu essencialmente para definir os inimigos a combater, sem dúvida aplanando o caminho para a guerra cada vez mais integrada e generalizada. A NATO é «defensiva», sentenciam Costa e os demais confrades, acenando sob a batuta do diminuído chefe Biden. E todos devemos acreditar nesse desgastado mantra enquanto a própria NATO não esconde as intenções de funcionar como um exército expansionista global concentrando os mais apurados meios de guerra e de extermínio em redor da Rússia e na região da Ásia-Pacífico para «conter» – «cancelar» é como agora se diz – a China.

Nos idos de 1984 um ex-alto quadro da CIA, John Stockwell, escrevia que «a procura de inimigos é a história da CIA». Ora quem diz CIA diz NATO, são todos membros da imensa família mafiosa empenhada em que não haja alternativas à cultura de guerra.

Stockwell abandonou a CIA dizendo-se enojado com o que considerou ser o desvio da agência em relação aos seus alegados objectivos de segurança. «A CIA estava sempre à procura da próxima guerra, amoral, implacável, ansiosa por fazer o que queria», escreveu.

Onde é que já vimos isto em forma de NATO? Confirmando o conteúdo do livro do dissidente Stockwell, o comboio da guerra prosseguiu viagem sem se deter, desde o sanguinário conflito Irão-Iraque, onde o «civilizado» (e a seguir «bárbaro») Saddam Hussein, utilizador de armas químicas, foi então extremosamente apoiado pelo Ocidente, até ao caso presente da Ucrânia. Passando pelos episódios atrás enumerados, sem esquecer o desmantelamento da Jugoslávia e a agressão da NATO contra a Sérvia, realizada à revelia da ONU e «justificada» por um massacre de civis comprovadamente encenado. Estratagema recorrente, utilizado pelo «mundo livre», principalmente na Líbia e na Síria e, como já se percebeu, também na Ucrânia.

Pois o primeiro-ministro Costa não só participa militantemente no culto de guerra por via de tratados nos quais o Portugal do salazarismo e depois do soarismo foi anexado pela NATO e a União Europeia sem que os portugueses tenham sido tidos e achados, como faz gala em pôr-se em bicos de pés perante as chefias. Depois do envio de materiais militares e tropas para a guerra da Ucrânia, diz-se que o chefe do governo da República Portuguesa manda 14 tanques com o mesmo destino. Gesto inútil no contexto do conflito, cometido para agradar aos senhores da guerra e revelando uma subserviência que só pode envergonhar ainda mais os portugueses. Quanto aos tanques, a viagem equivale a condená-los à sucata, o fim de grande parte dos armamentos remetidos pelos Estados Unidos e os países da União Europeia e da NATO para enfrentar o exército russo até ao último dos ucranianos.

Outra parte desses meios de guerra destinados ao regime nazi de Kiev, como tem vindo a perceber-se através da comunicação social corporativa, segue via mercado negro (florescente sobretudo na natíssima Albânia) com destino à imensa nebulosa de grupos terroristas transnacionais «radicais islâmicos», nazi-fascistas, milícias sectárias e bandos de mercenários de todos os tipos e origens. Nestas traficâncias, tais armas podem até regressar ao serviço da NATO, uma vez que muitos desses grupos acabam por ser utilizados pela aliança nas suas múltiplas guerras transnacionais por procuração.

Portugal, claro, não ficará com 14 tanques a menos. Costa irá provavelmente comprar os substitutos aos Estados Unidos, novinhos em folha, por mais alguns milhões de euros a somar às centenas de milhões necessárias para cumprir o recentemente prometido aumento dos donativos para a NATO e – até ver – aos 250 milhões ofertados a Zelensky, para quem os nazis com os quais governa são gente «fixe», assim como é lógico ter o bandido hitleriano Bandera como «herói nacional». Na óptica e na prática do governo português, para a guerra é sempre a somar centenas de milhões; enquanto isso, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser paulatinamente desmantelado, os salários dos portugueses não sobem, os pensionistas são contemplados com um generoso «bónus» de 10 euros. Aliás um chorado esforço governamental que custa ao erário público menos umas dezenas de milhões de euros que a verba depositada na conta do ditador da Ucrânia Ocidental. Costa não incorre no crime condenado por Borrell, o do apego à independência do país: contra Putin tudo; e os portugueses podem continuar a esperar, a soberania nacional há muito que se esfumou ao sabor das trapaças dos chefes não-eleitos da União Europeia e da NATO.

Universo inquisitorial

A cultura de guerra profundamente entranhada no mundo ocidental, e que se manifesta cada vez mais como um poder coercivo caminhando para a repressão autoritária de direitos, corrói as liberdades de expressão e de opinião por via da inquisitorial perseguição intelectual e difamatória. Trata-se de uma exibição extrema da cultura colonialista e da suposta superioridade civilizacional do chamado «mundo livre». Hoje os mentores da «civilização ocidental» continuam a achar que podem tudo, que têm o direito de punir quem não obedece às suas «regras» feitas à medida, tal como durante séculos levaram o «bem» e a «luz» aos «povos primitivos» em troca do seu sangue e da rapina dos seus recursos. E a imagem de impunidade auto-cultivada por uma arrogância sem limites chega a provocar situações caricatas, cada vez mais anacrónicas, como a de se enfurecerem e vitimizarem quando os países e povos atingidos pelas suas sanções ilegais e arbitrárias decidem, finalmente, responder-lhes.

Nunca é demais, a propósito desta e outras situações, reler o filósofo e psiquiatra Frantz Fanon, originário da Martinica, resistente francês antifascista e depois herói argelino, autor, entre muitas obras, da Psicopatologia do Colonialismo.

As reflexões e investigações que deixou sobre as práticas e as aberrações coloniais continuam de uma actualidade gritante, apesar do seu desaparecimento prematuro, em 1961: «Quando procuro o Homem no desenvolvimento técnico e no estilo da Europa, encontro apenas uma sucessão de negações do homem e uma avalancha de assassínios».

É, hoje como ontem, uma imagem crua da cultura de guerra instalada, da legitimidade da violência contra o «inimigo», tendendo o inimigo a ser cada vez mais aquele que simplesmente discorda da manutenção de uma ordem internacional injusta, cruel e mortífera para a esmagadora maioria da população mundial.

A guerra tornou-se banal, inerente à vida quotidiana; conviver com a imagem da morte em cada momento do dia-a-dia, até às refeições, tornou-se natural, como se não houvesse diferença entre o drama real, considerado indispensável para que o «bem» e a «ordem» prevaleçam, e a ficção da vitória sempre justa e certa desse mesmo «bem». Uma ficção replicada até à exaustão em formato de Hollywood, arma imprescindível e moralizadora da cultura de guerra, garantia de que os «bons» ganham sempre.

A guerra enraíza-se hoje desde tenra idade por efeito da enxurrada de produções de cinema e TV formatando as mentes dos jovens através da vulgarização da violência e da competição sem princípios – e também dos videojogos. Estes são mesmo encarados como peça básica e estratégica de entretenimento, de acordo com futurologistas do globalismo, isto é, da expansão da «civilização ocidental» a todo o planeta e sob um governo único.

O problema desta «evolução» em direcção ao futuro, na opinião do teorizador, escritor e «visionário» Yuval Noah Harari, é que nas próximas décadas, em que «nada teremos e seremos felizes», segundo o Great Reset (Grande Reinício do capitalismo) projectado pelo Fórum Económico Mundial (FEM, Davos), tenderá a emergir uma «classe inútil global», levantando a dúvida sobre «o que fazer com todas essas pessoas inúteis», afectadas por «tédio, sem o que fazer e sem encontrarem sentido na vida».

O mesmo Harari já pensou numa maneira de contornar a situação. «A minha previsão, no momento, é uma combinação de drogas e jogos de computador como solução».

Yuval Noah Harari não é um mero e anónimo sociopata, as suas opiniões têm receptividade entre os Gates, Bezos, Musks, Soros, Bransons deste mundo como um dos principais gurus do próprio Fórum Económico Mundial – entidade que reúne anualmente os gestores executivos do mundo e os expoentes do neoliberalismo global, seus patrões. Harari, historiador na Universidade Hebraica de Jerusalém, discursou nas sessões do FEM em 2018 e 2020, e nas suas teses antevê um futuro no qual «os organismos biológicos inteligentes serão superados pelas suas criações».

Nos cenários dominantes, reais e desumanizados uns, delirantes outros mas todos idolatrados pelos fazedores da opinião única, os defensores da paz, como o Papa Francisco – em contracorrente da própria «civilização» oficial que sustenta a rapina e a xenofobia invocando o cristianismo – são apresentados como lunáticos agarrados a utopias completamente desacreditadas.

A cultura de guerra preocupa-se, aliás, em desmontar e desacreditar tudo aquilo que se assemelhe a paz e possa resultar da diplomacia e de negociações entre partes em conflito. Todos ouvimos falar nos Acordos de Minsk, embora muitos não conheçam a sua letra por lhes ser sonegada pela comunicação doutrinária. O seu conteúdo, assinado em 2015 pelas partes ucranianas sob garantia da Rússia, da Alemanha e da França, inclui os elementos necessários para solucionar a questão dos antagonismos comunitários na Ucrânia. Uma vez aplicados, esses entendimentos evitariam a intervenção russa. Alemanha e França, porém, nada fizeram para que entrassem em vigor. Mais recentemente, o ex-presidente ucraniano Petro Porochenko, um dos signatários dos acordos, confessou que Kiev sempre os considerou uma «farsa» para não cumprir, apenas uma oportunidade de o regime ganhar tempo e preparar-se para a guerra.

Se a assinatura de tratados de paz se transformou assim em arma de guerra, é natural que os diplomatas sejam condenados ao desemprego, para gáudio dos fabricantes de armas, expansionistas, intelectuais do HIMARS e outras maravilhas da morte, militaristas e agentes de uma infinidade de tráficos associados.

É natural, portanto, que os inquisidores de opinião, agentes da cultura militarizada e missionários impiedosos da «civilização cristã e ocidental» olhem para os defensores da paz como alguém que se limita a encarar a guerra como um fenómeno «abstracto». Uma «abstracção», é certo, que continua a vitimar milhões e mais milhões de seres humanos concretos.

Assim vamos todos vivendo estes tempos em que o Papa foi excomungado.


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