A barbárie que nos governa… e triunfa (2)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 11/03/2026, revisão da Estátua)


Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial.


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O mundo está no fio da navalha ou, se preferirem em linguagem circense, é como um funâmbulo em cima de uma corda a tremer em todas as direcções sabendo que lá em baixo não existe qualquer rede. De um lado, as poucas vozes de dirigentes e de instituições internacionais a tentar fazer valer o senso comum que ainda resta; do outro, o abismo, o caminho aberto para a generalização do terror que está a ser percorrido pelo chamado «Ocidente colectivo» ou a «nossa civilização», com a demência do imperial-sionismo à cabeça.

O Irão resiste e contra-ataca, ainda capaz de demonstrar que a farronca não vence guerras, enquanto os protagonistas mundiais desta tragédia injustificada continuam convencidos de que a sua imagem de escolhidos de Deus chega para dizimar os bárbaros e hereges.

Não tenho simpatia pelo regime iraniano, como sou naturalmente avesso a qualquer política confessional, seja na Arábia Saudita e outras petroditaduras do Golfo, em Israel e mesmo nos Estados Unidos. No entanto, os governos ocidentais são bastante selectivos. O que é odioso nuns lados é tolerado ou mesmo elogiado noutros; o «Irão dos ayatollahs« é o inimigo, mas o fascismo sionista, tal como o terror saudita, são amigos, representam-nos bem, tanto no mundo da política como dos negócios. É a conhecida política de dois pesos e duas medidas que o triste Josep Borrell, quando era o chefe da diplomacia da União Europeia, considerou apropriada para defender os nossos  interesses e necessidades.

O Irão ainda não foi derrotado nesta ofensiva, apesar de o seu dirigente espiritual, o ayatollah Khamenei, ter sido assassinado. Não se escondeu e continuou a trabalhar, sob os cobardes ataques, no seu gabinete de sempre. Partilhou o sacrifício com o seu povo.

Para demonstrar a imensa perspicácia de Trump e seus mastins recorda-se que foi Khamenei quem emitiu a «Fatwa», uma directiva religiosa de cumprimento obrigatório, que rejeita a posse de armas nucleares pelo Irão. O Ocidente acaba de abater um dirigente que se opôs às armas de destruição massiva, o que demonstra, por outro lado, que a invocação da questão nuclear sempre foi um pretexto e não correspondia a uma preocupação real. 

O sacrifício de Khamenei tornou-o um mártir e, fruto dos óculos de cortiça usados pelo mundo ocidental, que nunca se engana e tem a razão sempre do seu lado, provocou efeitos contrários aos desejados pelos criminosos. O povo desceu às ruas às centenas de milhares, em muitas cidades, embora a media globalista apenas tenha canetas, microfones e câmaras para registar os movimentos da oposição. O magnicídio em Teerão teve também como resultado o endurecimento das posições dominantes do regime, elevando os níveis de decisão da Guarda Revolucionária e contribuindo mais para unir do que desagregar. A escolha de Mojtaba Khamenei, filho do dirigente assassinado, como novo líder espiritual, desloca claramente o regime em direcções menos moderadas.

O grande xadrez euroasiático

O primeiro-ministro da República Portuguesa, Luís Montenegro, coitado, declarou-se surpreendido  com o início dos ataques contra o Irão. Das duas uma: ou está a mentir, actividade em que é mestre, para tentar esconder a mais do que exposta incapacidade de gerir o país, sobretudo em situações de catástrofe como os incêndios, as cheia ou as guerras; ou não anda neste mundo e não percebe nada do que se passa à sua volta, pelo que não é mais do que o homem errado no lugar errado.

A relação de forças internacional a que chegámos 35 anos depois da implosão da União Soviética, uma espécie de impasse entre o velho domínio ocidental, imposto através da totalitária e arbitrária «ordem internacional baseada em regras» e a afirmação crescente de uma ordem multipolar, tem a Eurásia como o cenário geoestratégico decisivo, a encruzilhada entre os dois caminhos. E, dentro da Eurásia, o Irão é o nó que precisa de ser desatado para quebrar o impasse.

O Irão é um país imenso, com quase cem milhões de habitantes e mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados, uma área superior à do conjunto da Espanha, França e Suécia, três dos cinco países europeus com maiores dimensões, a seguir à Rússia e à Ucrânia.

O Irão, porém, representa muito mais do que isso. É, desde sempre, uma ponte civilizacional, cultural e comercial entre a Ásia Oriental e Central e a Ásia Ocidental ou Médio Oriente, que abre os caminhos para as regiões ocidentais da Eurásia. No território iraniano coexistem culturas milenares de vários povos, etnias e tribos, formando um mosaico riquíssimo e de saber profundo, desenvolvido desde muito antes do Império Persa e que a cultura ocidental plastificada é incapaz compreender. Daí que a corrompida casta governante neoliberal tenha, para sermos rigorosos, um enorme complexo de inferioridade em relação ao velho e gigantesco país. Um complexo que tenta combater com base na arrogância, na manipulação propagandística e em pretextos inventados para consumo público, a que se agarra desesperadamente de maneira a tentar submeter o Irão à «ordem internacional baseada em regras». 

Esqueçam as lágrimas de crocodilo que Trump e os seus submissos seguidores, da Ucrânia a Portugal, do Reino Unido à Austrália, passando pelo Canadá, vertem pelas «vítimas» do «regime dos ayatollahs» e a situação do povo iraniano. Nada disso os preocupa, como demonstra o estado devastador em que se encontram os países da região agraciados com o proselitismo da «democracia ocidental» ou «liberal», transportada nas ogivas de milhões de toneladas de mísseis, com a colaboração dos carrascos ao serviço da al-Qaida. O que logo se percebeu pelo assassínio de 165 meninas na escola primária feminina de Sharajeh Tayyebeh Minab, ao que dizem devido a um «engano» do sistema de inteligência artificial a quem as forças armadas dos Estados Unidos decidiram entregar a «escolha dos alvos». O «lapso» de pontaria dos mísseis assassinos aconteceu mais ou menos na altura em que Melania Trump, a «primeira-dama» norte-americana, dirigia nas instalações da ONU uma reunião dedicada ao «problema das crianças em conflito». 

As inocentes alunas da escola abatidas por esta agressão «libertadora», que pretende salvar os iranianos «do jugo dos ayatollas», como explica o genocida Benjamin Netanyahu, não devem considerar-se abrangidas pela inquietação da senhora Trump e pelo humanismo próprio da «nossa civilização». Na verdade, graças a esse acto piedoso o mundo ficou livre de 165 «hereges» e potenciais terroristas. Voltando a citar aquele que, segundo membros da administração Trump, é o verdadeiro comandante em chefe desta operação, o primeiro-ministro sionista, a liquidação de recém-nascidos e crianças palestinianas em geral é uma actividade legítima porque um palestiniano – e agora um iraniano – «já é um terrorista quando nasce».

O Irão está, de facto, a ser atacado porque é uma peça essencial no «Grande Jogo de Xadrez» definido em livro pelo falecido «ideólogo» norte-americano Zbigniew Brzezinski, antigo secretário de Estado da Administração Carter e discípulo do criminoso Henry Kissinger. Segundo ele, quem governa a Eurásia governa o mundo e, deduz-se, quem dominar o Irão domina a Eurásia… e o mundo.

Ou seja, o Irão é um obstáculo a remover pelo colonialismo-imperialismo-sionismo ocidental porque desafina a engrenagem da «ordem internacional baseada em regras», atravanca o avanço do globalismo totalitário e, não menos importante do ponto de vista geoestratégico, tem conseguido fechar os caminhos para a construção do Grande Israel.

Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial. 

O Irão tem resistido, continua a resistir e explora todas as possibilidades para não ser derrotado. Fechou o Estreito de Ormuz e lançou a instabilidade militar nas petroditaduras do Golfo que albergam bases militares dos Estados Unidos. E que, por via disso, se transformaram em instrumentos do poder sionista no interior do mundo árabe. Os militares iranianos têm conseguido desactivar, um após outro, todos os radares estratégicos montados pelos Estados Unidos na Ásia Ocidental, incluindo o que protege a V Esquadra norte-americana, estacionada no Bahrein. O que acontece apesar de Trump, Netanyahu e os seus caniches europeus – com a honrosa excepção de Pedro Sanchez – garantirem, com todo o orgulho e esplendoroso humanismo, que o Irão está a ser derrotado. 

A propaganda de guerra, porém, esconde outras realidades, as adversas. Na verdade, Israel, as bases norte-americanas na Ásia Ocidental e as tropas imperialistas têm demonstrado algumas vulnerabilidades, sobretudo devido às falhas, à insuficiência e à incapacidade de repor os sistemas de defesa antiaérea,  que têm manifestado mais fama do que eficácia.

Experientes militares norte-americanos na reserva não se coíbem de garantir que os Estados Unidos têm limites temporais para conduzir uma guerra de desgaste como esta, porque a canalização de material de guerra para a Ucrânia delapidou gravemente os arsenais que permitiriam eternizar o conflito até à hipotética rendição do Irão. Os mesmos peritos militares não estão certos de que os Estados Unidos consigam suportar uma guerra de desgaste durante mais tempo do que o Irão.

O significado da resistência iraniana

O Irão resiste. O que é bom, fundamental mesmo, para o mundo em geral. Não porque o Irão tenha um regime elogiável – o confessionalismo, repete-se, é a desvirtuação da política – mas porque é um país independente, decide por si próprio, é o único apoio externo institucional que resta ao martirizado povo palestiniano e não se verga ao poder e às ordens ocidentais.

É bom que o Irão resista porque é um pilar da multipolaridade internacional em desenvolvimento. Desempenha um papel insubstituível no desenho de novas rotas de transportes e comerciais alternativas às da velha ordem imperial, as que se baseiam na Iniciativa Cintura e Rota, ou Nova Rota da Seda lançada pela China e na qual participam já mais de uma centena de países. Combater a criação de rotas alternativas é hoje um objectivo prioritário da clique dirigente ocidental.

O Irão integra ou está associado a organizações que defendem um novo tipo de cooperação internacional, igualitária e não de submissão, como a Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS, a citada Nova Rota da Seda, a União Euroasiática, que têm em comum a defesa da vigência plena do Direito Internacional e a desactivação da «ordem internacional baseada em regras» – o que seria um grande favor para os desprotegidos povos dos países ocidentais.

A derrota do Irão e consequente nomeação dos novos dirigentes por Donald Trump, a sua maior obsessão actual, acompanhada com júbilo pela estrutura depravada que governa o mundo ocidental, seria um obstáculo à acção dos BRICS e de outras organizações internacionais igualitárias orientadas pelo Direito Internacional.

Esta derrota significaria a abertura imediata do caminho para a Construção do Grande Israel, porque o Irão «ocidentalizado» deixaria de ser um estorvo e, além disso, governos de países como a Síria, o Iraque, o Líbano e o Egipto (sem contar com a martirizada Palestina) não estão em condições nem os seus dirigentes possuem a vontade necessária para combater o domínio da Ásia Ocidental pela aberração do colonialismo sionista, como braço fundamental do imperialismo.

Sendo o sionismo, além disso, uma grande potência nas áreas das finanças, dos media e do entretenimento anestesiadores do chamado «grande público», o seu triunfo seria um passe de gigante na construção do globalismo totalitário, no qual as pessoas não seriam mais do que instrumentos descartáveis. 

Esta guerra ocidental contra o Irão contribuiu também para decifrar um pouco a intrincada associação entre o regime dos Estados Unidos e o sionismo, uma vez que, segundo declarações do secretário de Estado, o fascista Marco Rubio, e do próprio Trump, Washington avançou para a acção militar porque, mesmo que não o fizesse, Israel iniciaria a guerra. E o imperialismo não se poderia dar ao luxo de permitir a derrota do sionismo. Deste modo ficámos a conhecer mais um pouco sobre o mistério de quem manda em quem na aliança Trump-Netanyahu.

Um imenso Irão «ocidentalizado», incrustado como um cancro na Eurásia, seria mais uma machadada no Direito Internacional, uma catástrofe para a construção de uma nova ordem internacional nele baseada e um triunfo geostratégico gigantesco para a «ordem internacional baseada em regras». Este conjunto de circunstâncias iria criar um cenário de base para a construção do globalismo neoliberal em forma de fascismo, de modo a generalizar o poder totalitário do dinheiro e o desprezo absoluto pelas entidades nacionais e pelo ser humano. A China e a Rússia ficariam mais vulneráveis nessa situação, uma vez que a Índia, através do ditador Modri, foi neutralizada imediatamente antes da guerra durante a visita deste a Israel e na qual o genocida Netanyahu o recebeu como um «irmão».

A alternativa entre a construção de uma nova ordem internacional e o triunfo do terror imperialista joga-se em torno do futuro do Irão, o qual, por essa razão, tem um alcance geoestratégico decisivo. A vitória do fascismo de Trump, arrastando com ela todo o mundo ocidental, representaria a agonia da Venezuela – Cuba está no horizonte – e, ironia das ironias, da Dinamarca, neste caso através da anexação da Gronelândia.

Iria garantir também o prosseguimento da conquista imperial de sucessivos países que, não tendo capacidade para entrar no confronto directo, ousem tentar resistir ao diktat de Washington. Então, a guerra, a demência, a irresponsabilidade e a arbitrariedade seriam as únicas leis em vigor no mundo.

Se os cidadãos de todo o mundo não acordarem, continuarem hipnotizados pela propaganda de guerra e a campanha de calúnias contra o Irão, que já entraram no domínio da mentira pura, o futuro imediato do mundo será o agravamento do terror imperial, ancorado na depravação colonial sionista, além da inevitável concretização de uma aniquiladora Terceira Guerra Mundial.

Eis, portanto, o que se joga em torno da dicotomia entre a resistência do Irão e a anulação da sua independência como grande nação euroasiática.

(2) Segundo e último artigo da série A barbárie que nos governa… e triunfa, sobre a situação actual no Médio Oriente. O primeiro pode ser lido aqui.

A barbárie que nos governa… e triunfa (1)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 02/03/2026, revisão da Estátua)


Abedin Taherkenareh / EPA

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se.


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Depois da rábula da Gronelândia, do rapto e sequestro presidencial na Venezuela, como antecâmara da mudança de regime, da criminosa e desumana asfixia a que está submetido o povo de Cuba, chegou a vez do Irão. Já se previa, porque a aniquilação do regime independente iraniano é uma velha obsessão do sionismo internacional governante, de que o imperialismo norte-americano é o mais importante e fiável instrumento.

Esqueçam tudo quanto o nosso governo, a União Europeia, os Macrons, Merz, Starmers, Costas, Von der Leyens e outros energúmenos e energúmenas do género disseram sobre Donald Trump. Que era um louco, um demente, um aparentado de fascista, um inimigo da Europa, quiçá da NATO, um aliado de Putin e outros desvarios do mesmo tipo.

Esqueçam o mandado do Tribunal Penal Internacional emitido contra o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, as sucessivas declarações de reconhecimento do Estado Palestiniano feitas por governos da União Europeia, incluindo o português, as condenações, ainda que suaves, feitas ao regime sionista pelo genocídio do povo palestiniano.

Vivemos os dias em que todos os dirigentes ocidentais, desde os aparentemente menos trumpistas a todos os outros, acorreram, sem restrições, a beijar os pés de Donald Trump e as mãos sangrentas de Netanyahu, gratos pelo ataque bárbaro e assassino contra o Irão. Se os governos ocidentais já não passavam de caniches do império, agora resta-lhes seguir os rastos e ficar com as migalhas, cada vez mais racionadas.

Se são as horas dos beija-pés e beija-mãos a criminosos de guerra encartados, também são estes os tempos em que deixou de haver limites para a hipocrisia dos nossos dirigentes, arvorados em guias da «nossa civilização» superior e humanitária. 

Dizer que a selvajaria em curso contra o Irão se desenvolve para livrar o povo iraniano da tirania dos ayatollahs, como se ouve e repete desde Netanyahu ao joguete Montenegro, é o argumento em que só os débeis mentais poderão acreditar; sobretudo quando se sabe que o objectivo desta operação de terror é deitar a mão ao petróleo de um dos segundos produtores mundiais desta riqueza e devolver o governo do Irão ao jugo dos xás e correspondente polícia política, formada, industriada e coordenada pelo Mossad sionista É isso que está verdadeiramente em causa. Trump, Netanyahu, a União Europeia e até outros países e instituições menos «ocidentais» não querem saber para nada do povo iraniano, como aliás desprezam, por princípio, todos os povos do mundo.

Registe-se que, mais nuance menos nuance, os dirigentes não eleitos da União Europeia e a quase totalidade dos governos dos 27 (a Espanha de Sánchez é, de novo, a honrosa excepção) além de saudarem as acções ilegais norte-americanas e sionistas (à luz do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e das próprias leis dos Estados Unidos), não hesitam em condenar o Irão por responder militarmente à agressão.

Isto é, os governos mundiais – sejam eles quais forem – têm o dever de se ajoelhar e aceitar a punição quando as forças imperiais os atacarem apenas porque lhes apetece ou lhes convém.

É altura de nos interrogarmos por que razão a União Europeia se está a armar até aos dentes, arrasando o que resta das economias nacionais e ameaçando hipotecar o futuro das suas gerações mais jovens, invocando a simples suposição de que poderá ser vítima de uma agressão militar russa. Se os países que receiam ser atacados por Moscovo fizerem como Bruxelas e os seus governos amestrados exigem ao regime iraniano, podiam, pelo menos, poupar na militarização a todo o custo.

A última fronteira

Enquanto o enxame de comentadores que zumbe nas TV’s, nossas e dos outros – extasiando-se sadicamente com as supostas imagens do assassinado ayatollah Khamenei, um idoso com 86 anos, dirigente espiritual do Irão e da comunidade mundial xiita – se deleita com as maravilhas militares do imperial-sionismo e as limitações terceiro-mundistas de Teerão, avancemos um pouco mais, para as consequências que estão no horizonte se os agressores deitarem mão à velha Pérsia.

No início deste século, o general norte-americano Wesley Clark, que foi o comandante da NATO na Europa, escreveu que os neoconservadores, o suporte ideológico do imperialismo desde a queda da União Soviética, tinham como objectivo mudanças de regime ou, se necessário, a destruição de sete países que ensombravam o poder sionista e imperial sobre todo o Médio Oriente.

Esses países eram o Iraque, o Iémen, a Líbia, a Síria, a Somália, o Líbano e o Irão. O Egipto e a Jordânia já tinham sido conduzidos ao redil graças aos «processos de paz» montados sob «mediação» dos Estados Unidos e de Israel, pelo que não era necessário incluí-los na lista.

Não é preciso que o leitor faça grandes esforços de memória para recordar o que aconteceu e continua a acontecer a cada um desses países.

O general Wesley Clark não era um profeta nem um bruxo. Enquanto muitos dirigentes norte-americanos, sionistas, de países ocidentais e os seus mentores e apêndices, seja na banca, nos gangs económicos, nos media e no entretenimento, se refastelavam nas orgias de Epstein, revelando os seus elevados valores morais, cada um dos citados países foi abatido ao activo, contribuindo para o sossego dos salteadores sionistas – que assim puderam dedicar-se à sistemática chacina do povo palestiniano.

A Somália foi arrasada, e dessa operação veio a nascer uma aberração, a Somalilândia, agora transformada em braço militar de Israel no Corno de África. O Iémen estrebucha enquanto pode, depois de gravemente ferido durante a guerra programada que lhe foi movida pela Arábia Saudita, a rogo de Washington e Telavive. Em tempos recentes, os sectores patrióticos iemenitas ainda conseguiram incomodar Israel e perturbar o tráfego marítimo na região, mas a fragilização ou a eventual mudança de regime em Teerão irão pôr em causa essa resistência.

O Iraque está reduzido a uma pulverização de poderes tribais, religiosos e étnicos em todo o território, enquanto um arremedo de poder finge que governa – ainda assim sob tutela norte-americana – nos bunkers para lá da linha verde em Bagdade. O petróleo, porém, está nas mãos das multinacionais norte-americanas.

A Líbia foi arrasada. A guerra norte-americana e ocidental «contra o terrorismo» entregou o país a bandos de terroristas ditos islâmicos depois do assassínio repugnante de Muammar Khaddafi e o roubo das reservas de ouro do país. «Chegámos, vimos e ele morreu», declarou a secretária de Estado da Administração Obama, Hillary Clinton, mulher íntegra e com grande bagagem moral, ao desembarcar no território, a proclamar a tutela imperial e a garantir que o petróleo (as maiores reservas de África) passava a custar uns trocos às multinacionais do costume.

A Síria, que os Estados Unidos, Israel e a União Europeia entregaram a um chefe da al-Qaida, está a ser desmantelada para que, depois de correrem rios de sangue, fique transformada num quebra-cabeças de entidades étnicas, religiosas e tribais que nada obstem aos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Antes disso, como já acontece, o petróleo escorre em direcção à entidade sionista e às vampirescas transnacionais. O próprio Trump assegurou que as suas tropas permaneceriam no país para tomar conta do petróleo.

O pobre Líbano, dizimado por sucessivas agressões de Israel ao longo de 50 anos, e pelas guerras internas apadrinhadas por Telavive e Washington, tem os dias contados caso o Irão independente não resista. Gravemente ferido pela desfecho da guerra imposta à Síria, o único movimento libanês armado, independente e com capacidade de resistência, o Hezbollah, dificilmente sobreviverá sem o apoio de Teerão.

O Irão, nascido do derrube do Xá Reza Pahlavi, em 1979, é a última barreira a ultrapassar pelo sionismo e o imperialismo, de acordo com os planos revelados há 25 anos pelo general Clark. Teerão garantia o apoio à resistência libanesa e iemenita, desenvolveu grande parte dos esforços para que a Síria não fosse desmantelada, ainda sustenta vários grupos que combatem pela independência no interior do Iraque. E, na verdade, o xiismo iraniano, num gesto que se sobrepõe a velhas questões religiosas, é o apoio que resta ao povo palestiniano, maioritariamente muçulmano sunita.

O Irão independente é a resistência que sobra para evitar que o sionismo e o imperialismo assumam o poder absoluto em todo o Médio Oriente e travar os avanços para a construção do Grande Israel, o sonho colonial e expansionista nascido no fim do século XIX. As petroditaduras selváticas do Golfo, da Arábia Saudita ao Qatar, são simples capachos dos Estados Unidos e Israel e, além disso, mais uma vez contra os interesses dos seus povos, que desprezam, anseiam por uma mudança de regime em Teerão.

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se. Seguindo uma política em que o regime sionista é mestre, Trump fingiu negociar com o Irão o tempo necessário para montar a operação terrorista em curso e tentar que Teerão se mantivesse na dúvida sobre ser ou não atacado. 

Donald Trump não foi e não é, como se chegou a tentar fazer crer, um erro de casting do complexo militar-industrial-tecnológico norte-americano, transformado numa cáfila de ladrões e assassinos. Trump corresponde às necessidades de sobrevivência do neoliberalismo como estado actual e supremo do imperialismo – a fase em que o fascismo se apresenta cada vez mais como horizonte imprescindível perante o descalabro e o desprestígio da «democracia liberal».

A convergência temporal e ideológica do aparecimento de Trump nos Estados Unidos e da consolidação do totalitarismo sionista em Israel confirma a aposta no fascismo desencadeada pelo desespero do neoliberalismo, uma espécie de regresso às origens, ao terror do Chile de Pinochet, agora com uma ameaçadora amplitude transnacional. Já notaram, em termos domésticos, como Passos Coelho voltou a falar grosso, sobrepondo-se até ao ventríloquo Ventura?

O mundo está no fio da navalha. O terror norte-americano e sionista contra o Irão é muito mais do que uma fuga para a frente, atinge proporções que o podem conduzir a um grande salto em frente. Até ao momento, não existe qualquer movimentação no mundo que manifeste coragem para tentar travá-lo. O imperialismo-sionismo moveu-se e deu xeque no xadrez geoestratégico. No outro lado do tabuleiro são poucas as acções para evitar o xeque-mate. E as palavras de condenação leva-as o vento.

(1) Primeiro de dois artigos de José Goulão sobre a situação actual no Médio Oriente

A Terceira Guerra Mundial vai começar

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 27/02/2026)


Sinais geopolíticos indicam escalada de tensão entre EUA, China, Rússia e Irão.


Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o cheiro da guerra estava no ar, um dos mais prolixos defensores da paz, o escritor Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura de 1915, escrevia que a urgência do momento já não permitia a circunspecção analítica da complexidade dos fatores que impulsionavam a guerra. A guerra podia começar a qualquer momento, antes mesmo de terminarmos as nossas reflexões. Posso estar redondamente enganado, mas sinto-me hoje a viver a mesma perplexidade que assombrou Rolland nos meses que antecederam o início da Primeira Guerra Mundial. Por isso, este texto desagradará aos meus leitores habituais. E, para complicar as coisas, eu desejo ardentemente estar enganado ao escrever, no que se segue, a iminência da guerra.

Ao contrário do que aconteceu nas guerras anteriores, menos gente no mundo pode declarar-se surpreendida quando as notícias da próxima guerra global rebentarem. É que os sinais são muito evidentes e são muito conhecidos. Tal como aconteceu com os impérios anteriores, o declínio do imperialismo norte-americano será lento e violento até que uma guerra precipite o seu fim. Em 1914, havia quatro grandes impérios: o alemão, o austro-húngaro, o russo e o otomano. Nenhum deles sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Restaram os impérios assentes em colônias (britânico, francês, italiano, japonês, português, holandês, belga e espanhol). Nenhum deles sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, embora agonizassem durante algum tempo (o português, até 1975).

Que impérios existem hoje? Se entendermos, por império, toda a unidade política de grande escala com um poder central que exerce o controle sobre povos distintos tratados discriminadamente em resultado de conquista militar, colonização ou pressão económica, podemos afirmar que hoje existem os seguintes impérios: EUA, China, Rússia, Israel e União Europeia. Pode surpreender incluir na lista Israel, porque a sua escala é menor. Mas em contrapartida é o país que mais diretamente assume as formas mais antigas de dominação imperial: conquista militar e colonização. Pode também surpreender que a União Europeia seja considerada um império. É um quase-império, um império em formação. Não o era na origem, mas tem-se vindo a constituir como tal à medida que aumenta a assimetria política entre os povos que a constituem (relações imperiais entre países supostamente iguais na partilha da soberania) e se prepara para agressões militares (ainda que justificadas como defesas militares). A nova rivalidade imperial pode definir-se assim: de um lado, EUA, UE e Israel; e do outro, China e Rússia. Cada grupo tem um líder que define uma estratégia colectiva. Na atualidade, os líderes são EUA e China.

Cada grupo imperial defende a ideia de multipolaridade enquanto isso convém ao seu fortalecimento. Continua a convir à China, mas deixou de convir aos EUA. É esta assimetria que vai conduzir à próxima guerra. Mas os rivais evitam enfrentar-se diretamente durante o maior tempo possível. Para isso, usam as guerras por procuração (proxy wars) com o objetivo de enfraquecer o rival. A primeira guerra por procuração é a guerra Rússia-Ucrânia, uma guerra encorajada pelos EUA para neutralizar um dos principais aliados da China – a Rússia. Enquanto precisar dos EUA para terminar a guerra com a Ucrânia, a Rússia não interferirá em qualquer outra intervenção imperial norte-americana.

A segunda guerra por procuração foi a guerra Israel-Palestina com o objetivo de consolidar a derrota histórica do Islão que remonta às Cruzadas. Devido a essa derrota, os países islâmicos têm estado sempre sob suspeita porque a sua lealdade às potências cristãs que historicamente os derrotaram é sempre vista como matéria de conveniência. O modo como eles se têm comportado perante a guerra Israel-Palestina mostra ao grupo imperial EUA-UE-Israel que o Islão está bem neutralizado. Com uma excepção, o Irão, o único Estado que se define como teocracia e que, como tal, vê a ferida da derrota histórica como permanentemente sangrando. O Irão não pode ser neutralizado. Tem de ser destruído. O mesmo se pode dizer de Cuba, mas Cuba não tem para a China ou para a Rússia a importância que tem o Irão.

Por esta razão estou convencido de que a guerra vai começar e o Irão será o centro dessa guerra. O problema é que o Irão é muito mais forte que a Ucrânia ou que a Palestina e por isso uma guerra por procuração contra o Irão terá consequências imprevisíveis.

Entre elas, a menos imprevisível é a generalização da guerra quando a China concluir que, com a derrota do Irão (que é muito provável), deixou de poder dispor dos recursos energéticos essenciais para a sua expansão. É preciso ter em vista que a China acaba de sofrer uma enorme derrota na Venezuela e que os países latino-americanos são para a China o que os países do Médio Oriente são para os EUA. A sua lealdade decorre da conveniência e, além disso, estão sob crescente pressão norte-americana para diminuir as relações com a China.

É, pois, muito provável que a Terceira Guerra Mundial comece. Como disse, os sinais são evidentes, mas isso não significa que não cause surpresa. É que tal como Cuba é o mesmo que Gaza, mas sem bombas, a Terceira Guerra Mundial pode começar por qualquer elo fraco do imperialismo EUA-UE-Israel. Suspeito que esse elo fraco seja o dólar como moeda de reserva mundial. A guerra começa com a perda do poder econômico à escala mundial e amplia-se com o colapso do capital financeiro assente no dólar. As bombas podem ser usadas como causas ou como consequências. Só assim não será se as reservas de ouro que os países têm vindo a acumular freneticamente o impedir. Duvido muito.

Nada podemos fazer para evitar a Terceira Guerra Mundial?

Podemos.

1 – Uma petição internacional, pedindo ao Secretário-geral da ONU, António Guterres, que se demita imediatamente ante a alta probabilidade da ocorrência da guerra e a impotência da ONU para a evitar.

2 – Ir para as ruas em defesa de Cuba e do Irão como fomos em defesa da Palestina.

3 – Organizar protestos em frente das embaixadas dos EUA, de Israel e das representações da UE.

4 – Considerando que o elo mais repugnante (ainda que não mais fraco) da tríade EUA-UE-Israel é Israel, boicotar Israel por via do movimento BDS.

Fonte aqui

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