Licença para matar

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/03/2020)

Coisas estranhas estão a acontecer.

A primeira vítima do pânico coletivo é a racionalidade. A Austrália tem, no momento em que escrevo, 41 casos de Covid-19 diagnosticados. A Austrália tem 24,6 milhões de pessoas. A Austrália, um país avançado e civilizado, desatou a açambarcar papel higiénico. Nos supermercados, o papel higiénico foi racionado e quando chegava dos fornecedores era logo arrebanhado. Quando uma cadeia de notícias tentou perguntar às pessoas uma razão específica para a escolha do papel higiénico, alguém respondeu: se calhar, uma pessoa começou a comprar muitos rolos de papel higiénico e as outras foram atrás. Também compraram latas de conserva e pasta de dentes, mas por uma razão decerto metafísica, ontológica, o papel higiénico tornou-se um bem precioso.

Este o comportamento que esperamos de povos ditos primitivos. Em crises de pânico, são os povos avançados que se portam mal. Nas vidas confortáveis, o medo torna-se uma incógnita maligna e uma autorização para o disparate, incluindo a xenofobia, a desconfiança, o proselitismo, a mentira, a acusação, o linchamento, o açambarcamento. Uma estudante de Hong Kong foi tratada como uma leprosa em Itália. As pessoas afastaram-se dela, disseram-lhe para se colocar imediatamente em quarentena, deixar de aparecer em público, usar máscara e, de um modo geral, ir morrer longe. Por causa de uns olhos asiáticos. Veio a coisa descrita no “NY Times”. A estudante ficou desapontada com a Itália.

Uma das formas primitivas de atacar esta crise é apontar o dedo aos media. Os jornais sérios, dizem alguns. Nos últimos dias, com olhar reprovador, disseram que a culpa era nossa. Os media criaram esta histeria, os media são responsáveis, os media não têm padrões de comportamento, os media massacram as pessoas, os media propagam o vírus. Só falta dizer que os media foram os responsáveis pela criação do vírus em laboratório. Algures na China.

Compare-se esta crítica com a oposta. Na China, os media não reportaram a verdade, o regime comunista censurou as notícias, controlou a narrativa, não podemos acreditar em nada do que dizem os chineses. Ou o Irão, onde está em vigor uma censura oficial de todas as notícias respeitantes ao vírus. Se os media reportam em liberdade, são histéricos. Se omitem, são censurados ou mentirosos. Numa crise de pânico, os media são o mensageiro e o mensageiro é fácil de culpar. Há uma licença coletiva para matar o mensageiro.

Os media, ou como se diz, com a boca franzida e o sobrolho erguido, os “jornais sérios”, nem têm sido muito alarmistas e certamente não têm sido os autores das fake newsmemes, vídeos e conspirações virais que contaminam a informação, circulam nas redes sociais e são disseminados pelas mesmas pessoas que estendem o dedinho. Saem do rumor do Facebook e do Twitter para o discurso moralista sobre a histeria mediática e os jornalistas. O inferno são sempre os outros. Nunca compreendi a raiva contra o jornalismo sério, tão ameaçado, enquanto o falso, o especulativo, o sensacionalista, é celebrado como forma extrema da liberdade de expressão.

Enquanto a atenção mundial está mobilizada para o vírus, ou as primárias americanas, o resto do mundo passa despercebido. O raio de atenção da geração tik tok são 15 segundos, podemos avaliar a dificuldade de fazer passar uma ideia. Ou conceber uma ideia. Não admira que ninguém se interesse por notícias que seriam grandes noutra ocasião em que o papel higiénico não se tornasse essencial.

O Presidente Trump disse uma coisa extraordinária, mais uma. “Tive uma boa conversa com o mullah.” E cumprimentou os talibãs pela sua dureza e resistência. Trump acaba de assinar o que os Estados Unidos querem fazer passar por um acordo de paz para a retirada das tropas e mais não é do que uma derrota militar e uma capitulação. Em Doha, no Qatar, um país até há pouco tempo na lista negra da diplomacia americana por via dos sauditas e do príncipe louco, as negociações para a retirada das tropas americanas chegaram mais ou menos a termo. Quase 20 anos passados sobre o 11 de Setembro, e triliões de dólares mais tarde, a América descobriu que perdeu a guerra. Milhares de soldados “aliados” morreram no Afeganistão para entregar Cabul de novo aos talibãs. O país mudou nestas duas décadas, pelo menos na capital, mas os talibãs não mudaram. O mullah de Trump é o mesmo fundamentalista que era o mullah Omar, e ninguém duvida de que uma sociedade islâmica repressora, violenta e medieval será a consequência política deste “acordo”, e que a retirada das tropas apenas dará aos novos chefes fundamentalistas licença para matar todos os “inimigos” e retirar às mulheres os direitos adquiridos.

O Afeganistão continua tão tribal, belicoso, dividido, corrupto e primitivo como era, e o verniz de Doha estalará. Uma guerra civil entre senhores da guerra não é de excluir. A grande diferença é que ninguém quer saber. E os terroristas? O Paquistão tratará disso, à sua maneira. Com a Rússia do outro lado. Decerto em mais conversas positivas com os mullahs. Eis como a América passou de ameaçar bombardear o Paquistão até à Idade da Pedra, frase que os generais gostam de dizer desde o Vietname e com os bons resultados que sabemos, para a constatação de que o mullah afegão é um duro, um tough cookie na linguagem Trump, e um parceiro a convidar talvez para um fim de semana em Mar-a-Lago. Melhor do que Camp David. Umas torres em Cabul, logo se verá.

E quem quer saber de mais uma crise humanitária nas fronteiras e mares da Grécia e da Turquia? Os sírios, ainda? Mais os afegãos, refugiados da paz que há de vir? A Síria, tal como a Líbia, não estavam arrumadas?, cogitam as massas. O Putin tinha tratado disso. Putin e Erdogan zangaram-se e a Turquia entrou em guerra com a Síria.

E não se concebe maior miséria moral do que bombardear com gás pimenta gente que foge da guerra e do extermínio, que tenta salvar os filhos e que é usada como arma dos turcos contra os europeus. Gente que não sabe nadar e afunda o próprio barco para ser resgatada. E tudo isto às portas da Europa, ocupada a desinfetar as mãos.


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Coronavírus-Montijo: adeus défice zero, olá elefante de Alcochete

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 28/02/2020)

A. O VÍRUS

Habituarmo-nos ao coronavírus é a nova ideia. Menos pânico, mais realismo. Como evitar a transmissão de uma gripe? Impossível. A estirpe “made in China”, resultante do cruzamento alimentar entre o pangolim e o ser humano, já é património mundial. Nada que a encefalopatia espongiforme bovina (doença das vacas loucas) não tivesse feito também na nossa “avançada” sociedade ocidental. É a vida, imprevisível e global.

Se a nova estirpe não tivesse saído de Whuan, a conversa era outra. Mas coincidiu com o ano novo chinês. Muitos milhões partiram dali para todo o mundo (literalmente) e o Covid-19 passou a fazer parte de mais um desafio à sobrevivência da espécie.

A boa notícia é de que nunca como hoje a ciência trabalha em rede global, em contrarrelógio, para inventar uma vacina. (A Internet é a mais importante invenção desde Gutemberg e Edison). Mas a nova vacina significará muito dinheiro de despesa pública, com os países a gastarem milhões de milhões para vacinar os seus cidadãos. E, além deste custo, há a despesa de todos os sistemas de monitorização e prevenção, internamento e medicação para tratar o Covid-19.

Este é, para já, o princípio da história quanto aos gastos diretos dos Estados. Entretanto, surgem os outros impactos. Olhe-se para um título da página de Economia do Expresso deste último fim-de-semana – “Prevemos que o turismo cresça entre 5 a 7% este ano” – dito pela secretária de Estado do sector, e percebemos como todos os cálculos da realidade portuguesa foram feitos com base em expetativas de transcendente otimismo.

B. CENTENO: SI YO FUERA MARADORA

Há uma música de Manu Chao que diz uma coisa simples: “Se eu fosse Maradona viveria como ele”. O nosso ministro das Finanças prefere a metáfora de Ronaldo, mas Cristiano ainda alcançou o estrelato das músicas dos grandes artistas. Quero dizer com isto que, se eu fosse ministro das Finanças e pudesse escolher um momento para sair, seria este. Centeno teve quatro anos a seu a favor e soube merecer a sorte. E quando não conseguia os golos com o pé, usava a mão (cativações) como fez o eterno Diego Armando Maradona.

Um milagre como o dos últimos quatro anos não se repete indefinidamente. E ele não está para aturar isto – com alguma razão. O clima social mudou de tal forma que já ninguém se lembra dos tais sacrifícios feitos para chegarmos a taxas de juro negativas para Portugal nos mercados (lembrete: continuamos a devorar dívida – vale 120% do PIB – que tem de ser refrescada todos os meses).

Pela primeira vez o Governo de Costa vai ter más notícias simultâneas: abrandamento da economia, das exportações, aumento dos gastos com saúde e, sobretudo, menos turismo.

Chegou então a hora de dizermos adeus ao “défice zero”. Quase ninguém terá saudades. É uma política que, definitivamente, não dá votos nem é popular (como poderia sê-lo?) A ideia de gastar menos não pega em lado nenhum. Só sabemos viver em crescimento.

O Governo está, ainda por cima, a desperdiçar uma enorme oportunidade de acelerar a libertação dos fundos comunitários já aprovados. Há um colapso da máquina do Estado nos diversos ministérios, que se acentua nesta fase final de utilização do pacote comunitário 2014/2020. Há uma verdadeira dessincronia entre a realidade e o Terreiro do Paço. Os empresários estão a ferver e ninguém os ouve.

Mário Centeno olha para tudo isto e vê o alinhamento das estrelas. Há uma balbúrdia política instalada. É verdade que as aprovações parlamentares “à la carte” são democráticas, mas nem por isso deixam de ser muitas vezes profundamente demagógicas. Não havendo quem defenda o “menos”, só restam os poderosos lobbies que ganham com o crescimento de “mais despesa”.

Ora então, é hora de dizer adeus. Citando o popular Clemente, sobre Centeno:

“Vais partir, naquela estrada, onde um dia chegaste a sorrir”. E avancemos para um novo capítulo: a mais colossal obra do império, capaz de absorver investimento público como nenhum outro: Alcochete, o aeroporto. Uma obra que, definitivamente, nos colocará na senda “Sócrates” a todos os títulos.

C. O AEROPORTO

Ponto prévio: a “boutade” típica de quem faz opinião neste assunto é a de que “Portugal não decide”, como se fosse um problema tipicamente português. Não é verdade. Em quase todos os países onde a opinião das pessoas conta, um aeroporto é sempre polémico porque poucas obras têm tanto impacto pela dimensão, ruído, poluição e custo.

Os ingleses, por exemplo, discutiram desde 1990 quantas pistas deviam adicionar às duas existentes em Heathrow, o principal aeroporto nacional. Decidiram apenas em 2018, mas foram mudando de ideias ao longo de quase 30 anos. O projeto inicial passava por fazer mais duas pistas na fachada sul de Heathrow. Acabaram por aprovar no Parlamento apenas uma pista na zona norte.

Pelo meio houve décadas de discussões e confrontos, demissões e a feroz oposição do “mayor” de londres, Boris Johnson (quando estava na versão ambientalista).

Ao contrário do que parece, as razões para não se decidir precipitadamente um novo aeroporto são as melhores. Não se pode criar uma fratura com esta dimensão no território sem se avaliar mais do que simples ideias de oferta e procura.

Além disso, quando na Portela não há mais capacidade (no Verão), não há mais voos. O problema vai-se autorresolvendo através da diminuição da pressão do turismo nos picos do Verão.

Mas voltemos um pouco atrás. Andei na “batalha da Ota” há 15 anos. É hoje claríssimo que o país ganhou em não instalar um gigantesco e dispendioso aeroporto num leito de cheia do Tejo, numa zona com recorrentes nevoeiros e, mais do que tudo, com pistas rodeadas a Norte e Oeste da Serra de Montejunto – um disparate imenso para descolar e aterrar. A Ota caiu, apesar do “jamais” de Mário Lino sobre não recuar.

Já na altura, a opção Portela + 1 parecia fazer sentido tendo em conta a devastação ambiental que representaria instalar uma nova infraestrutura, desta dimensão, na Margem Sul. É lá que estão os maiores lençóis freáticos (água pura) da Península Ibérica, um brutal ecossistema de montado e toda a biodiversidade a ele associada. Mesmo assim, Rio Frio e Alcochete sempre foram desejados pelos progressistas (que iam, na altura, de Ricardo Salgado a autarcas do PCP).

O Montijo surgiu, entretanto, como ovo de Colombo do Governo Passos-Portas. Como já existe uma pista militar, alargar a infraestrutura parecia não ser complexo. Mas, na verdade, a nova pista seria demasiado curta para grandes aviões. Então, como aliviar a Portela? Ainda por cima as aves vivem no estuário, representando sempre um ponto de risco enorme na descolagem e aterragem.

Tal como na Ota, esta semana, o Montijo morreu. Mas não foi pelo Ambiente. Tal como há 10 anos, são de novo os comunistas a puxar pelo “desenvolvimento” da Margem Sul. Alcochete. E com ele a ideia de construir a desejadíssima travessia Chelas-Barreiro. Só uma coisa em grande traz o tal crescimento e emprego ao PCP.

O ministro Pedro Nuno Santos não é parvo e já percebeu de que lado corre o vento. E ele corre sempre do mesmo lado: dos gigantescos negócios que uma obra destas potencia.

Em simultâneo, para a Vinci (que tem o monopólio dos aeroportos portugueses), desde que o aeroporto seja do lado de lá… haverá sempre portagens nas suas pontes sobre o Tejo porque as pontes também são deles – incluindo uma potencial ponte do Barreiro que também lhe dará dinheiro, mesmo que não ganhe o concurso da terceira travessia.

Extra: o aeroporto será mais caro? Alguém pagará. Com um monopólio na mão é fácil decidir. Quem não quiser aterrar em Portugal… que aterre em… Madrid…?

Portanto, isto está-se a compor.

Com jeito, o PCP até faz tacitamente com o Governo um pacto de não-agressão por uns tempos (pelo menos na aprovação dos Orçamentos de Estado que contemplem essas grandes obras). E finalmente há luz ao fundo do túnel para Jerónimo de Sousa. Talvez a Margem Sul e o Alentejo reconheçam qual o partido que está do lado deles…! Alcochete é nosso!

Portanto, quem está contra um grande novo aeroporto de Lisboa que levante o braço? Vai ser difícil encontrar quem se oponha. Exceto os do costume – os ambientalistas.

Já agora, podemos dar-lhes o benefício da dúvida por uns segundos? Voltemos à discussão sobre para que serve uma enorme obra aeroportuária em Alcochete.

Começando pelo dia de hoje: a cidade de Lisboa abdica de ter o seu aeroporto dentro de portas? Quantos anos são necessários para o aeroporto sair da Portela por causa do ruído, poluição e incapacidade para mais aviões? E no final, vai-se construir naqueles terrenos um megaempreendimento imobiliário?

Outra questão essencial: a prazo, a TAP tem futuro em Alcochete? Não por acaso o presidente da companhia disse esta semana que não ia para o Montijo.

Por tudo isto, vale a pena olhar para uma alternativa razoável do ponto de vista do investimento, competitividade, menor impacto ambiental e mais desenvolvimento para o país como um todo. Ou seja, o tal Portela + 1 em versões cumulativas.

1. O projeto de Alverca, defendido por vários especialistas de aviação e engenharia, complementaria muito melhor a Portela sem tirar a TAP dali. Ao mesmo tempo, ampliaria a operacionalidade deste “hub” com mais duas pistas.

O transporte fluvial e ferroviário de passageiros poderia ser a base de entrada e saída dali (como em Veneza, por exemplo). Tem ainda a vantagem de ser a obra mais barata de todas. As limitações de aterragem, por estar no mesmo corredor aéreo da Portela são obviamente geríveis. A base logística já ali funciona e não obrigaria à deslocação de centenas de armazéns para a Margem Sul. Porque não Alverca? As críticas sobre a pressão acrescida na autoestrada A1 não são consistentes. A Portela sim, é um garrote à entrada de Lisboa.

2. Há já um verdadeiro projeto por desenvolver na Margem Sul: o aeroporto de Beja. Poderia ser apoiada por uma ligação ferroviária rápida, aproveitando a que está a ser construída até Évora para se ligar a Espanha.

Beja/Évora e o Sotavento algarvio não teriam mais a ganhar com esta aposta? E Lisboa ficaria a menos de 75 minutos por ferrovia – como por exemplo os aeroportos secundários que apoiam Munique ou Frankfurt. Mesmo os acessos rodoviários entre Lisboa e Beja podiam ser melhorados. Por fim, o aeroporto já está construído. Não conseguiríamos encaminhar uma parte do excesso de procura da Portela para Beja?

3. Porque não explorar a Base Aérea de Monte Real, o aeroporto mais próximo de Fátima, mantendo-lhe o perfil militar, mas acrescentando o tráfego civil com companhias aéreas que geram tráfego para Portugal com turismo religioso e low-cost? Aliás, com uma linha ferroviária a apoiar o triângulo Marinha Grande-Pombal-Leiria, resolvia-se a brutal lacuna ferroviária que, por exemplo, faz com que os 27 quilómetros entre Pombal a Leiria demorem 2h19m se a opção for o comboio (há que ir de pombal a Alfarelos para depois se poder embarcar para Leiria).

Aliás, o comboio colocaria Monte Real a pouco mais de uma hora de comboio de Lisboa. Mas, sobretudo, abrir-se-ia uma enorme janela de desenvolvimento para o turismo do Centro – que vai das Caldas da Rainha a Santarém, ou de Coimbra a Castelo Branco.

4. Há uma pergunta que também devemos fazer: os aviões vão continuar a fazer tanto barulho dentro de uma década? Vão continuar a poluir? Mudando o tipo de combustível, vão continuar a precisar de pistas tão longas para descolar e aterrar ou fá-lo-ão num formato mais parecido com o dos helicópteros? Os voos de médio curso não serão substituídos por aviões leves e de menores dimensões, capazes de aterrar em todo o lado?

Esta é a questão fundamental, mais do que todas as outras: esperamos 40 anos para arranjar uma alternativa para a Portela. E queremos agora escolher um elefante branco, capaz de absorver quase todo o investimento público por mais de uma década, sem olhar para os saltos exponenciais da tecnologia e mudança de paradigma.

Daí a pergunta final: precisamos mesmo de um novo aeroporto gigante? O que será dentro de 20 anos um aeroporto? A Portela não acabará por ser, afinal, um tesouro estratégico de Lisboa onde poderão aterrar aviões de grande dimensão sem ruído, poluição e em plena cidade? Ou seja, citando o futuro presidente da TAP – não será a Portela “o melhor aeroporto do mundo”?



O anti-Trump

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/03/2020)

Daniel Oliveira

Era suposto Bernie Sanders vencer no Nevada. Não era suposto esmagar. E esmagou. Por outro lado, era suposto perder na Carolina do Sul contra Joe Biden, mas não ser suposto perder por tanto. Joe Biden continua a ter o voto negro à boleia de Obama. A verdade é que os centristas – não lhes chamem moderados, porque Sanders é tão radical como um social-democrata escandinavo – continuam às voltas com a escolha de quem se tem de medir com Bernie. Já se pensou que era Buttigieg, e como se viu desistiu. Já se pensou que fosse Biden, depois pareceu que estava fora e agora volta a parecer que está dentro. E pensou-se que seria Bloomberg, mas a sua prestação no primeiro debate deixou claro que o dinheiro não compra tudo. Hoje, a tão esperada super terça-feira, ficará tudo mais claro. Com vantagem para Biden se transformar num forte rival de Sanders.

Duas ideias tentam-se instalar na cúpula democrata: que Bernie é um perigoso socialista e que, tocando-se os extremos, ele é uma versão esquerdista de Donald Trump, cabendo nesse conveniente saco sem fundo do “populismo”. Esta tem sido a linha da CNN, que já replica como se fossem objetivos os termos dos adversários, referindo-se a Bernie Sanders como “milionário”, por causa do dinheiro que ele ganhou com a venda dos seus livros e que não dá para pagar um pequeno devaneio de Trump ou Bloomberg. O comportamento dos media nestas primárias dariam para um tratado sobre as razões profundas da crise do jornalismo.

Como escreveu Paul Krugman, Bernie Sanders nem é propriamente um socialista. Pelo menos para um europeu, Bernie é um social-democrata ao estilo tradicional escandinavo (não confundir com a corruptela portuguesa). Não defende nacionalizações nem sequer uma economia mista. Mas teve a inteligência que falta aos que julgam que a “moderação” é uma boa estratégia defensiva: antes que dissessem que ele era socialista afirmou-o ele. E com isso normalizou o que era tratado como um insulto, obrigando Michael Bloomberg a dizer que ele é um “comunista”, o que nos EUA se aproxima de dizer que é criminoso e levou a uma reação indignada de quem assistia ao primeiro debate em que participou o milionário (esse é mesmo).

Bernie Sanders não é um Trump de esquerda. Há uma enorme diferença entre propor a perseguição a imigrantes ou exigir que os milionários paguem impostos, entre defender o preconceito como forma de convivência social ou o aumento do salário mínimo como forma de partilhar a riqueza. E a tentativa de criar um paralelo entre as duas coisas, fazendo assemelhar os mais fortes e protegidos aos mais fracos e vulneráveis, o esmagamento dos excluídos ao combate ao privilégio, é um programa político. Ele sim, radical

Como também escreveu Paul Krugman, que não é um apoiante do senador (tem mostrado mais simpatias por Elizabeth Warren), Bernie Sanders também não é um Trump de esquerda. Tirando apresentar-se como adversário de um sistema político e económico em falência, o que apenas faz dele um candidato eficaz no combate a Trump, Bernie não aposta na divisão mas na unidade, não aposta no ódio mas na solidariedade. Bernie Sanders não é um fanfarrão.

Claro que Bernie tem um adversário social. Mas há uma enorme diferença entre propor a perseguição a imigrantes ou exigir que os milionários paguem impostos, entre defender o preconceito como forma de convivência social ou o aumento do salário mínimo como forma de partilhar a riqueza. E a tentativa de criar um paralelo entre as duas coisas, fazendo assemelhar os mais fortes e protegidos aos mais fracos e vulneráveis, a base social ao topo do poder, o esmagamento dos excluídos ao combate ao privilégio, é um programa político. Ele sim, radical. A ideia instalada de que “os extremos se tocam” tenta tornar moderado o que é extremo – a crescente desigualdade económica e a demissão de uma pequena elite dos seus deveres sociais – e tornar radicais todas as propostas democráticas e populares.

“Vote blue no matter who” é o mantra democrata destas primárias. Que todos se unirão em torno daquele que vencer na convenção. Mas há uma parte do partido que prepara o caminho para não o seguir. Ou para passar a ideia de que não o vai seguir, dando força à tese de que Bernie nem os democratas consegue unir. Apesar de várias sondagens dizerem que ele é dos candidatos mais bem colocados para enfrentar Trump, não me fio nisso. Os candidatos só o são no confronto, com a narrativa que se constrói quando se enfrentam. E sobre isso ninguém pode fazer adivinhações. Por isso, não sei se Sanders é o melhor candidato para derrotar Trump. Nem ele nem outro qualquer. Sei que ele é o melhor candidato para contrariar a sua narrativa, assim como Hillary foi e Bloomberg seria dos melhores candidatos para a confirmar. Exatamente porque ele não é o Trump de esquerda, é o anti-Trump.

A ideia absurda que as antíteses se assemelham deitaria por terra todos os movimentos libertadores que a História conheceu, fazendo deles a mesma coisa que combatiam. Bernie Sanders é o candidato ideal contra Trump porque, ao contrário de Trump, é mesmo antissistémico. Porque o sistema que ele combate não é o democrático, é o que está a destruir a democracia. Bernie Sanders é o único que pode mostrar que Trump é o sistema em versão descarada e musculada. E isso torna-se evidente quando, sem uma única proposta que possa levantar qualquer dúvida quando ao seu respeito pela democracia, o aparelho democrata parece ter mais medo dele do que de Trump. Bernie propõe-se libertar a democracia da desigualdade extrema que a limita, Trump propõe-se libertar a desigualdade de uma democracia já frágil que ainda a limita.

Só a nomeação de Bernie Sanders para enfrentar Tump já teria efeitos políticos internacionais. Assim como teve a nomeação de Donald Trump, ainda antes de vencer as eleições. Em vez de ser um sistema em crise contra a extrema-direita xenófoba, o que só dá força à extrema-direita, é a recuperação da agenda social para travar o ódio. Foi ela que o travou quando Roosevelt impediu que os EUA seguissem o caminho que seguiu a Europa. Foi ela que reconstruiu a própria Europa. Por isso, definir quem é o adversário contra a extrema-direita é o mais determinante neste momento. Porque determinará se será mesmo um adversário ou, como seria com um Michael Bloomberg, uma cedência.