Zelensky armadilhado por Moscovo e Washington

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 22/11/2022)

O Presidente ucraniano dirigindo-se ao G20

A evolução da relação de forças no campo de batalha ucraniano e o trágico episódio do G20 em Bali marcam uma viragem da situação. Se os Ocidentais continuam a acreditar na vitória próxima sobre Moscovo, os Estados Unidos iniciaram já negociações secretas com a Rússia. Eles aprestam-se a deixar cair a Ucrânia e em deitar as culpas exclusivamente a Volodymyr Zelensky. Tal como no Afeganistão, o despertar será brutal.


Conversando, há cerca de dez dias em Bruxelas, com um chefe de bancada de deputados que diria de mente aberta, escutei-o dizer-me que o conflito ucraniano era decerto complexo, mas que a coisa mais saliente era que a Rússia tinha invadido esse país. Respondi-lhe observando que o Direito internacional obrigava a Alemanha, a França e a Rússia a aplicar a Resolução 2202, o que Moscovo (Moscou-br), sozinho, havia feito. Prossegui lembrando-lhe a responsabilidade de proteger as populações em caso de falha do próprio governo.

Ele cortou-me a palavra e perguntou-me : « Se o meu governo se queixar da sorte dos seus cidadãos na Rússia e atacar esse país, achará isso normal? ». Sim, respondi-lhe, se tiver uma Resolução do Conselho de Segurança. Você tem alguma? Apanhado de surpresa, ele mudou de assunto. Por três vezes, perguntei-lhe se podíamos abordar a questão dos « nacionalistas integralistas » ucranianos. Por três vezes, ele recusou. Despedimo-nos com cortesia.

A questão da responsabilidade de proteger deveria ter sido esbatida. Este princípio não justifica uma guerra, mas sim uma operação de policia, realizada com meios militares. É por isso que o Kremlin cuida em não designar este conflito como uma « guerra », mas como uma « operação militar especial ». As duas maneiras de falar referem os mesmos factos, mas « operação militar especial » limita o conflito. Desde a entrada das suas tropas na Ucrânia, o Presidente russo, Vladimir Putin, precisou que não pretendia anexar este território, mas unicamente libertar as populações perseguidas pelos « nazis » ucranianos. Num longo artigo precedente, indiquei que, embora a expressão «nazis» seja correcta no sentido histórico, ela não corresponde ao modo como esta gente se refere a si própria. Eles utilizam a expressão: « nacionalistas integralistas ». Lembremos que a Ucrânia é o único Estado do mundo a ter uma Constituição explicitamente racialista.

O facto de constatar que o Direito internacional dá razão à Rússia não significa que se lhe dê um cheque em branco. Todos devem criticar a forma como ela aplica o Direito. Os Ocidentais continuam a considerar a Rússia «asiática», «selvagem» e «brutal», embora eles próprios se tenham mostrado muito mais brutais em muitas ocasiões.

VIRAGEM DE SITUAÇÃO

Tendo esclarecido os pontos de vista russos e ocidentais, é forçoso constatar que vários acontecimentos suscitaram uma evolução ocidental. – Estamos a entrar no inverno, uma estação dura na Europa Central. A população russa tem consciência, desde a invasão napoleónica, que não pode defender um país tão vasto. Assim, ela aprendeu a usar justamente a imensidão do seu território e as estações do ano para vencer aqueles que a atacavam. Com o inverno, a frente fica bloqueada durante vários meses. Todos podem ver que, contrariamente à narrativa segundo a qual os Russos estão derrotados, o Exército russo libertou o Donbass e uma parte da Novorussia.
 Antes de o inverno começar, o Kremlin retirou a população libertada que habitava a Norte do Dniepre, depois retirou o seu Exército abandonando a parte de Kherson situada na margem Norte do Dniepre. Pela primeira vez, uma fronteira natural, o rio Dniepre, marca uma fronteira entre os territórios controlados por Kiev e os controlados por Moscovo. Ora, no período entre-as duas-guerras, foi a ausência de fronteiras naturais que fez cair todos os sucessivos poderes na Ucrânia. Agora, a Rússia está em posição de aguentar.
 Desde o início do conflito, a Ucrânia pôde contar com a ajuda ilimitada dos Estados Unidos e seus aliados. No entanto, as eleições intercalares nos Estados Unidos retiraram a maioria à Administração Biden na Câmara dos Representantes. Agora, o apoio de Washington será limitado. De forma idêntica, a União Europeia encontra também os seus limites. As suas populações não compreendem o aumento dos custos da energia, do encerramento de certas fábricas (usinas-br) e a impossibilidade de aquecimento normal.

 Finalmente, em certos círculos de Poder, após terem admirado o talento de comunicação do actor Volodymyr Zelensky, começa-se a questionar os rumores sobre a sua súbita fortuna. Em oito meses de guerra, ele teria ficado bilionário. A imputação não é verificável, mas o escândalo dos Pandora Papers (2021), torna-a credível. É necessário ser completamente cego para não ver as doações que chegam à Ucrânia, mas que desaparecerem nas sociedades offshore ?

Os Anglo-Saxónicos (ou seja, Londres e Washington) desejavam transformar o G20 de Bali numa cimeira (cúpula-br) Anti-Russa. Primeiro, eles fizeram pressão para que Moscovo fosse excluída do Grupo, tal como o haviam conseguido no G8. Mas se a Rússia tivesse estado ausente, a China, de muito longe o primeiro exportador mundial, não teria vindo. Assim, foi o Francês Emmanuel Macron que foi encarregado de convencer os outros convidados a assinar uma declaração tonitruante contra a Rússia. Durante dois dias, as agências de notícias ocidentais garantiram que o caso estava resolvido. Durante dois dias, as agências de notícias ocidentais garantiram que o caso estava arrumado. Mas, em última análise, a declaração final, embora resuma o ponto de vista ocidental, encerra o debate com estas palavras: « Havia outras visões e diferentes avaliações da situação e das sanções. Reconhecendo que o G20 não é o fórum para resolver os problemas de segurança, sabemos que questões de segurança podem ter consequências importantes para a economia mundial ». Por outras palavras, pela primeira vez, os Ocidentais não conseguiram impor a sua visão do mundo ao resto do planeta.

A ARMADILHA

Pior: os Ocidentais impuseram uma intervenção vídeo de Volodymyr Zelensky como tinham feito, em 24 de Agosto e 27 de Setembro, no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ora, enquanto a Rússia tinha em vão tentado opor-se a tal em Setembro em Nova Iorque, aceitou em Novembro em Bali. No Conselho de Segurança, a França, que detinha a presidência, violou o regulamento interno para dar a palavra a um chefe de Estado por vídeo. Pelo contrário, no G20, a Indonésia manteve uma posição absolutamente neutra e não arriscou aceitar dar-lhe a palavra sem autorização russa. Tratava-se obviamente de uma armadilha. O Presidente Zelensky, que não conhecia o funcionamento dessas instâncias, caiu nela.

Depois de ter caricaturado a acção de Moscovo, ele apelou para a sua exclusão do… « G19 ». Ou seja, o pequeno Ucraniano deu, em nome dos Anglo-Saxónicos, uma ordem aos Chefes de Estado, Primeiros-Ministros e Ministros dos Negócios Estrangeiros (Chanceleres-br) das 20 maiores potências mundiais e não foi ouvido. Na realidade, o litígio entre estes dirigentes não tinha a ver com a Ucrânia, mas sobre a sua submissão ou não à ordem mundial americana. Todos os participantes latino-americanos, africanos e os quatro asiáticos disseram que essa dominação acabara ; que agora o mundo é multipolar.

Os Ocidentais devem ter sentido o chão tremer sob os seus pés. Eles não foram os únicos. Volodymyr Zelensky viu, pela primeira vez, que os seus padrinhos, até aqui donos absolutos do mundo, o deixavam cair sem hesitação para manter ainda por mais algum tempo a sua posição.

É provável que Washington estivesse de conluio com Moscovo. Os Estados Unidos constatam que, à escala mundial, as coisas viram-se contra eles. Eles não hesitarão em passar as culpas ao regime ucraniano. William Burns, Director da CIA, já se encontrou com Serguei Naryshkin, o Director do SVR, na Turquia. Essas reuniões seguem-se às de Jake Sullivan, o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, com várias funcionários russos. Ora, Washington nada tem a negociar na Ucrânia. Dois meses antes do conflito na Ucrânia, expliquei que o fundo do problema não tinha nenhuma relação com esse país, muito menos com a NATO. Tem a ver essencialmente com o fim do mundo unipolar.

Portanto, não nos devemos espantar que, alguns dias após a bofetada do G20, Volodymyr Zelensky tenha contradito, pela primeira vez em público, os seus padrinhos norte-americanos.

Ele acusou a Rússia de ter lançado um míssil sobre a Polónia e manteve as suas declarações quando o Pentágono indicou que ele estava errado, tinha sido um contra-míssil ucraniano. Para ele, tratava-se de continuar a agir em linha com o Tratado de Varsóvia, concluído em 22 de Abril de 1920, pelos nacionalistas integralistas de Symon Petliura com o regime de Piłsudski ; de empurrar a Polónia para entrar em guerra contra a Rússia. Foi a segunda vez em que Washington fazia soar uma campainha aos seus ouvidos. Ele não a ouviu.

Provavelmente, estas contradições não irão aparecer em público. As posições ocidentais vão-se suavizar. A Ucrânia está avisada: nos próximos meses, ela vai ter que negociar com a Rússia. O Presidente Zelensky pode preparar desde já a sua fuga porque os seus compatriotas estropiados não lhe perdoarão tê-los enganado.


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Biden lança promessas a Xi. Que razões tem a China para confiar nos EUA?

(Pepe Escobar, Diálogos do Sul, 25/11/2022)

Durante reunião do G20, o Presidente estadunidense afirmou que Washington não deseja uma nova Guerra Fria e que apoia a política de Uma Só China.


A cultura balinesa, um perpétuo exercício em sutileza sofisticada, não distingue entre o secular e o sobrenatural – sekala e niskala. Sekala é o que nossos sentidos conseguem discernir. Como, por exemplo, os gestos ritualizados dos líderes mundiais – os reais e os secundários – em um G20 altamente polarizado.

Niskala é o que não pode ser percebido diretamente, mas apenas “sugerido”. O que também se aplica à geopolítica.

Em Bali, o ponto alto talvez tenha trazido uma intersecção entre sekala e niskala: o badaladíssimo encontro cara a cara entre Xi e Biden (ou melhor, o encontro cara a fone de ouvido).

O Ministério de Relações Públicas chinês preferiu ir direto ao cerne da questão e selecionar os Dois Pontos Altos.

1. Xi disse a Biden – ou melhor, a seu fone de ouvido – que a independência de Taiwan é um assunto simplesmente fora de questão.

2. Xi também espera que a NATO, a União Europeia e os Estados Unidos venham a se engajar em um “diálogo amplo” com Moscovo.

As culturas asiáticas, sejam elas balinesas ou confucionistas – são avessas a confrontações. Xi colocou três camadas de interesses em comum:

● evitar conflito e confrontação, e levar à coexistência pacífica
● desenvolvimento em que os países se beneficiam uns aos outros
● promover a recuperação pós-covid em nível global, lidar com as mudanças climáticas e enfrentar de forma coordenada os problemas regionais.

É significativo que a reunião de três horas e meia tenha tido lugar na residência da delegação chinesa em Bali, e não nas instalações do G20. E que ela tenha sido solicitada pela Casa Branca. 

Biden, segundo os chineses, declarou que os Estados Unidos não desejam uma Nova Guerra Fria, não apoia a independência de Taiwan, não apoia as “Duas Chinas” nem a “uma China, uma Taiwan”, não busca se “desacoplar” da China e não deseja conter a China.

Mas digam isso aos straussianos/neocons/neoliberalcons que se inclinam à contenção da China. A realidade mostra que Xi tem poucas razões para confiar em Biden – ou melhor, no combo que, dos bastidores, monta todo o enredo. Então, no pé em que as coisas andam, continuamos em niskala.

O jogo soma-zero

O Presidente da Indonésia, Joko “Jokowi” Widodo, ficou com péssimas cartas nas mãos: como realizar um G20 para discutir segurança alimentar e energética, desenvolvimento sustentável e questões climáticas quando tudo que existe sob o sol está polarizado pela guerra na Ucrânia. 

Widodo fez o melhor possível, conclamando todo o G20 a “pôr fim à guerra”, com a insinuação sutil de que “ser responsável significa criar situações que não sejam de soma-zero”.

O problema é que boa parte do G20 chegou a Bali querendo uma soma-zero – buscando confrontação (com a Rússia), e quase nenhuma conversa diplomática.

As delegações dos Estados Unidos e da União Europeia pretendiam esnobar abertamente o Chanceler russo Sergey Lavrov a cada passo. Com a França e Alemanha foi diferente: Lavrov teve rápidas conversas tanto com Macron quanto com Scholz. E disse a eles que Kiev não quer negociar. 

Lavrov também revelou algo de grande importância para o Sul Global: 

“Os Estados Unidos e a União Europeia entregaram ao Secretário-Geral da ONU promessas por escrito de que as restrições às exportações de grãos e fertilizantes russos serão suspensas – vamos ver como isso será implementado”.

A tradicional foto do grupo antes do início dos trabalhos do G20 – um ritual que marca todas as cimeiras realizadas na Ásia – teve que ser adiada. Porque – quem mais seria? – “Biden” e Sunak se recusaram a estar na mesma foto que Lavrov.

Histeria infantilóide e nada diplomática desse tipo só faz ofender profundamente a graça, a gentileza e o ethos de não-confrontação de Bali.

A versão ocidental é que “a maioria dos países do G20” queria condenar a Rússia quanto à Ucrânia. Bobagem. Fontes diplomáticas insinuaram que o placar verdadeiro era de 50/50. A condenação vem do bloco Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia. A não-condenação do grupo Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia e, é claro, Rússia.

Em termos gráficos, o Sul Global contra o Norte Global. 

A declaração conjunta, portanto, irá se referir aos impactos da “guerra na Ucrânia” sobre a economia global, e não à guerra da Rússia na Ucrânia”.

O colapso da economia da União Europeia

O que não vinha acontecendo em Bali envolveu a ilha em uma camada adicional de niskala. O que nos leva a Ancara.

A névoa ficou mais espessa porque, no pano de fundo do G20, os Estados Unidos e a Rússia conversavam em Ancara, representados pelo diretor da CIA William Burns e pelo diretor da SVR (serviços de inteligência estrangeira) Sergei Naryshkin.

Ninguém sabe ao certo o que está sendo negociado. Um cessar-fogo é apenas um dos cenários possíveis. Mas a retórica acalorada vinda da NATO em Bruxelas e dirigida a Kiev sugere que uma escalada irá prevalecer sobre algum tipo de reconciliação.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi peremptório, de facto e de jure: a Ucrânia não pode e não irá negociar. A operação militar especial, portanto, irá continuar.

A NATO vem treinando novas unidades. Os próximos alvos possíveis serão a usina nuclear de Zaporíjia e a margem esquerda do Dnieper – ou até mesmo uma maior pressão ao norte de Lugansk. De sua parte, os canais militares russos colocam a possibilidade de uma ofensiva no inverno sobre Nikolaiev: a apenas 30 quilômetros das posições russas.

Os analistas militares russos sérios sabem o que os analistas sérios do Pentágono têm também que saber: a Rússia levou ao campo de batalha ucraniano apenas uma fração de seu potencial militar. Apenas uns poucos soldados do exército russo foram convocados, a maioria deles sendo spetsnaz – forças especiais. Quem de fato luta são as milicias das Repúblicas Populares de Donetsk e de Luhansk, os comandos Wagner, os chechenos de Kadyrov e voluntários. 

O repentino interesse dos americanos em conversar, e Macron e Scholz se aproximando de Lavrov, apontam para o cerne da questão: a União Europeia e o Reino Unido talvez não consigam sobreviver ao próximo inverno, o de 2023-2024, sem a Gazprom.

A Agência Internacional de Energia calculou que o déficit total, naquele momento, se aproximará de 30 bilhões de metros cúbicos. E tudo isso pressupõe circunstâncias “ideais” para este próximo inverno: em geral quente, a China ainda sob lockdowns, um consumo de gás muito mais baixo na Europa e até mesmo um aumento na produção (na Noruega?) 

Os modelos da Agência Internacional de Energia vêm operando com duas ou três ondas de aumento de preços nos próximos doze meses. Os orçamentos da União Europeia já estão em alerta vermelho – compensando as perdas causadas pelo atual suicídio energético. 

Quaisquer custos adicionais imprevisíveis ao longo de 2023 significarão que a economia da União Europeia entrará em total colapso: fechamento de fábricas em todo o espectro, o euro em queda livre, a subida da inflação, a dívida corroendo todas as latitudes, dos países do Club Med à França e à Alemanha.

É claro que a dominatrix Ursula von der Leyen, líder da Comissão Europeia, deveria estar discutindo todos esses tópicos – defendendo os interesses dos países da União Europeia – com os atores globais, em Bali. Mas, muito pelo contrário, mais uma vez sua única agenda foi a demonização da Rússia. Sem qualquer niskala, apenas com a mais tosca dissonância cognitiva. 

Fonte aqui.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIV

(Por Carlos Marques, in Estátua de Sal, 25/11/2022)

A Ucrânia mergulhou na escuridão – Na manhã de 24 de novembro, mais de 70% de Kyiv permanecia sem eletricidade. Não há água em metade da capital. Os cortes de energia continuam em todas as partes do país.


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos do General Carlos Branco ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 26/11/2022)


Quando a boca lhes foge para a verdade, para lá de toda a propaganda:

“O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas dos EUA, general Mark Milley, veio afirmar publicamente que, por ser altamente improvável que a Ucrânia tenha capacidade para recuperar o território sob controlo russo, seria conveniente iniciar-se um processo de negociações de paz neste inverno, assinalando que a Rússia dispõe ainda de um poder de combate significativo.”

Ele sabe que a Rússia não foi expulsa de Kherson. Evacuou civis para evitar que os lunáticos explodissem a barragem de Nova Kakhovka. E tiraram a tropas para uma zona também protegida disso.

Não tenho dúvida que se tivesse já capacidade para tal, a Rússia teria ido até Nikolaev, mas não a tem.
Vai agora colocar novos mobilizados a ganhar estaleca na margem esquerda do Rio Dnieper, e só em 2023, finalmente com igualdade numérica, irá mais para Oeste.

Até lá, vai continuar como até aqui, com avanços lentos mas significativos nas zonas de alta densidade de bunkers em redor de Donetsk, e com as suas defesas a “limpar” todas as tentativas Ucranianas de avançar para Ligando a partir da frente de Kharkov, entre os rios Oskil e Zherebets.

Vou mais longe e pego nas palavras de Scott Ritter: a razão pela qual vemos cada vez mais ataques desesperados dos ucranianos, inclusive o de falsa bandeira em território polaco, e este paleio todo de “paz” vindo de quem andou meio ano a prometer mais guerra e derrota total da Rússia, é porque sabem o que aí vem a seguir, sabem que a seguir serão esmagados.

O que vem a seguir é o que acusaram a Rússia de fazer, mas esta não fez, pois não estava preparada para tal: uma invasão de facto. Estamos agora a ver os dias finais da intervenção em nome do povo do Donbass e em defesa preemptiva da Crimeia. Estamos s começar a ver novos mobilizados a ganhar experiência (ou a relembrar).

De uma situação de 250 mil ucranianos (cerca de 1 em cada 3 ultra-naZionalistas) frescos e preparados pela NATO ao longo de 8 anos mas que perderam quase 4 oblasts mesmo tendo a Rússia apenas 150 mil tropas, vamos passar para uma situação em que o exército da Ucrânia está de rastos, o povo está insatisfeito, e do outro lado está uma Rússia finalmente preparada e mentalizada para derrotar totalmente os lunáticos.

No resto da Europa, a inflação, o cansaço, talvez até recessão, o agravar da crise de refugiados, as mentiras cada vez mais descaradas e desmascaradas de Kiev, a hipocrisia de quem sanciona isto mas compra aquilo, e os zigue-zagues de quem (vassalos de Washington na Europa) não fala de factos nem faz o que tem sentido, apenas obedece a cada momento à vontade da oligarquia USAtlantista.

No início de 2023 a Rússia estará novamente em Kherson e Kharkov, irá a caminho das fronteiras da República de Donetsk e a caminho de Zaporojie e de Nikolaev, de modo respetivamente a que os lunáticos deixem de estar à distância de bombardear a central nuclear de Energizar e a barragem que protege Kherson da destruição.

É por isso que se fala agora em “paz”. Porque agora dá a sensação que a vitória geoestratégica dos EUA está no papo, que a UE deixou de ter qualquer autonomia, que a Rússia sofre muito com sanções, e que a Ucrânia tem alguma hipótese de recuperar mais territórios.
Só mesmo lunáticos acham que faz sentido querer roubar o Donbass, a Taurida e a Crimeia a quem lá vive, gente que é esmagadoramente pró-Russa ou Russa de facto.

A Rússia teve de facto uma derrota humilhante no oblast de Kharkov, onde perdeu território de Balakleya até Izium, e depois também até Lyman e mesmo até às fronteira da República de Lugansk, de forma muito rápida, sem conseguir proteger os seus civis pró-Russos, e deixando até muito material para trás, tal foi a pressa.
A Ucrânia aproveitou muito bem, e o tal exército, já com menos nazis, mas mais mercenários da NATO, deu uma lição de humildade à Rússia.

Mas desde então muito mudou, e o erro foi tal que duvido que se atrevem a repetir. Na próxima fase terão mais 300 mil mobilizados, já com alguns meses de experiência em situação defensiva ou de combates de artilharia posicionais. Já para não falar dos milhares de voluntários para além desse número. Os referendos estão feitos, dos territórios oficialmente no mapa da Rússia. E acham os palermas que era agora, antes da hora H, e após mais umas quantas provocações em Belgorod e Sevastopol, que a Rússia ia atirar a toalha ao chão?

Não sei se acompanham os mapas diariamente. Eu faço-o em várias fontes, algumas com o pormenor até de dizer onde está cada batalhão. Aquilo que vemos em Kharkov, após a derrota humilhante, foi um exército Russo em inferioridade numérica a corrigir o erro e a travar os UcraNazis+NATO na linha que definiu. No Donbass é a Rússia que avança e ainda não parou de destruir naZionalistas, material e bunkers. Em Zaporojie a linha da frente está onde a Rússia a quer nesta fase.

E nas várias grandes movimentações de Kherson, a linha da frente foi definida pela Rússia onde a Rússia muito bem entendeu. Até os lunáticos de Kiev tiveram dificuldade em chamar vitória ao seu avanço, pois este aconteceu sobre os corpos dos milhares que morreram na tal “contra-ofensiva”, e a Rússia é que foi escolhendo a seu bel-prazer onde era a linha da frente em cada momento.
Agora, devido à questão da barragem, decidiu que passará o Inverno na margem leste do Dnieper, mas já antes tinha decidido que a linha da frente era de Oleksandrivka até Snigurivka, e de Andreevka até perto de Dudchany. A Ucrânia foi “lutando” (morrendo) onde a Rússia decidiu.

Os EUA, em particular o senhor que citei, sabe o que eu sei. Sabem muito mais. Sabem que estes meses de Inverno são a última hipótese do regime de Kiev assinar um acordo de paz em que salve minimamente a face e em que a NATO não seja totalmente tornada inútil (na questão Ucraniana).
E o pior é que os lunáticos também sabem, mas insistem na propaganda do “forte resistente” que ainda vai re-conquistar a Crimeia toda não tarda nada… É que é já a seguir. Prova disto é que perante a esperada invasão de facto, já colocam bunkers pré-fabricados na fronteira a Norte de Kiev, em toda a extensão desde a Polónia até à Rússia.

Sabem o que aí vem, mas em vez de fazerem a paz, agora com o menor número de concessões territoriais possível (perante a derrota Russa de Kharkov até Lyman), e perante o recuo estratégico na cabeça-de-ponte de Kherson, em vez disso vão continuar de peito feito, a prometer derrotar a Rússia, eles nos palácios de Kiev (ou mansōes compradas aqui e ali), enquanto os desgraçados estão a morrer na linha da frente, ou já com data marcada para o enterro na fase 3…

E aqui, confesso, tenho o coração dividido. A paz, mesmo paz, era o ideal, sempre, e evitava-se mais mortos civis e de soldados comuns. Mas só com a continuação da guerra, até à derrota total da ditadura de Kiev, é que será feita justiça, é que será possível a liberdade de todos os pró-Russos, é que será possível a desnaZificação completa (como a imposta pela URSS à Finlândia, ou pelos Aliados à Alemanha), é que será possível a humilhação da NATO, é que será possível dar início a todo o vapor à Nova Ordem Mundial Multipolar, e quiçá será possível dar mais alguma dor à Europa de maneira a que está abra os olhos e comece a deixar a droga dos EUA, e dê início ao longo e penoso caminho de normalização das relações com a restante Eurásia, Rússia e China obviamente incluídas.

A alternativa é a derrota de tudo, até da verdade dos factos e da decência, a normalização do Nazismo, e a vitória de quem só merece desaparecer do mapa: o regime autoritário imperialista genocida dos EUA. Isso, a derrota da Rússia perante a NATO, é o pior que pode acontecer ao Mundo em 2023.
Seria usado como motivação para repetir a pouca-vergonha em Taiwan e quiçá com uma NATO Mundial, como os belicistas e corruptos USAtlantistas já se atreveram a dizer. Esta gentinha já matou milhões suficientes, isto tem de acabar em Kiev. Nem mais um metro para a NATO, os assassinos do regime genocida de Washington e seus idiotas que prestam vassalagem na Europa.

A diferença é esta, nas nossas vidas em Portugal, daqui por exemplo a 10 anos:
– ou adormecer com medo que o nosso governo vá censurar mais alguém, e cobrar-nos impostos para ajudar os EUA a invadir mais algum país, com Nazis como aliados e ameaça de guerra nuclear permanente, e só com FakeNews na TV;
– ou acordar com orgulho, soberania, progresso, cooperação, paz, e o dinheiro bem usado para o bem de todos e o desenvolvimento humano, preocupados só em votar em quem nos representa, com confiança renovada em jornalistas que falam dos factos sem medo de lhes acontecer uma perseguição como ao Bruno Amaral de Carvalho ou ao Julien Assange.

É esta a escolha. Eu já fiz a minha. Quero lá saber se é com Putin ou se foi com Stalin. Interessa é não estar do lado dos nazis originais ou dos Azov actuais. Mas sei que estou em minoria, e sei que a maioria está completamente manipulada, treinada como o cão de Pavlov, mas agora para abanar o rabo de alegria perante as insígnias militares dos EUA, e para espumar de raiva perante o que não seja ocidental, em particular se russo ou chinês.

Sei ainda mais uma coisa: para que o futuro da Europa seja risonho e decente, a UE (agora revelada às claras como o braço financeiro da NATO, que por sua vez é o braço armado do império) não pode continuar a existir… Mas isso é outra conversa, e fica para outra oportunidade.


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