Após o tempo das catedrais, o tempo da indecência, da hipocrisia e da incompetência

(Por Rémy Herrera, in Resistir, 2204/2019)

Uma catedral incendiou-se. Uma das mais belas, na ilha de la Cité, coração ancestral de Paris; uma das mais imponentes, erigida na Idade Média central, ao longo de quase dois séculos (provavelmente entre 1163, sob Luís VII, o Piedoso, e 1345); uma das mais grandiosas, construída graças aos talentos de gerações de arquitectos da nova arte gótica e às mãos de ouro de uma multidão de artesãos e operários dos ofícios tradicionais, posteriormente àquelas de seus companheiros que a restauraram no século XIX depois de o génio de Victor Hugo – o mesmo que celebrou os sans culottes e abriu a porta para os communards – reanimou o apego popular por esta obra-prima. É o monumento mais visitado da Europa: 20 milhões de pessoas por ano passam pelo seu claustro e 13 milhões entram na igreja. Mas os seus sótãos incendiaram-se e o fogo devorou 100 metros da “floresta” de 1.300 troncos de carvalho da sua estrutura, as suas telhas de chumbo e o seu grande pináculo. 

QUEM DÁ MAIS? 

As brasas do incêndio mal haviam sido extintas pelos nossos bombeiros e os bilionários já, como pragas recônditas, desembainhavam suas carteiras polpudas. Os “líderes da caravana” acotovelavam-se uns aos outros a fim de pagarem um belo “golpe publicitário” e, para quem tem fé, um ingresso na tribuna de honra e alojamento particular no paraíso. As doações afluíram numa colecta obscena. Os leilões alçaram-se no salão de vendas do espiritual. Ouçam, ouçam, boa gente, prosternai-vos aos pés de vossos senhores, dai-lhes graças por sua bondade, agradecei-lhes por sua generosidade e alinhai-vos sob a bandeira da unidade nacional! 

Indecência repugnante no seu mundo onde tudo é mercadoria e comunicação, onde tudo se monetiza, compra-se, vende-se, recompra-se, revende-se, avilta-se, corrompe-se, prostitui-se, põe o dinheiro! 

À minha direita, 10 milhões de euros oferecidos pelos irmãos Martin e Olivier Bouygues, mestres da construção, da TF1, das telecoms (e até do petróleo canadiano e gás do off-shore da Costa do Marfim), através do seu holding familiar SCDM. Ambos recebem mais de 100 milhões de dividendos por ano, apaixonaram-se pelas vinhas de Château Montrose no Médoc (compraram 130 milhões de euros) e desejariam de desfazer-se do seu iate de 62 metros pelo “preço convidativo” de 59,95 milhões. O império Bouygues factura 33 mil milhões de euros e tem mais de 115 mil assalariados. 

Aqui, 10 milhões de euros de Marc Ladreit de Lacharrière, proprietário da sociedade financeira Fimalac, para “o esforço nacional de reconstrução” e “o pináculo, símbolo da catedral”. 

O importante neste jogo é que os licitantes se mostrem, sejam vistos e mantenham sua posição. Então, quando o martelo sela toda transferência de propriedade, o leiloeiro continua. 

Cem milhões de euros ofertados pela família Pinault através do grupo Kering (antigamente Pinault-Printemps-Redoute) da holding Artemis. A fortuna de François Pinault, presente sobretudo no luxo, na cultura e na distribuição, proprietário do Château Latour, de Yves-Saint-Laurent e de Christie’s, entre outros, ultrapassa os 30 mil milhões de euros. Ela mais que duplicou desde a chegada ao poder de Emmanuel Macron e corresponde a 31 vezes o valor do donativo… 

Quem oferece mais? Deste lado, a família Bettencourt-Meyers doa 200 milhões de euros! Isto representa 0,2% da capitalização do mercado de acções da L’Oréal, a empresa (fundada por um colaboracionista sob a ocupação) actualmente é a número um mundial em produtos cosméticos e da qual a sra. Françoise Bettencourt-Meyers é herdeira. Ao vosso bom coração, senhoras e senhores! 

E ainda 200 milhões de euros colocados no cesto pela família Arnault, que mobilizará, para “ajudar a reconstrução”, suas “equipes criativas, arquitectónicas e financeiras”! Bernard Arnault, à frente do maior grupo de luxo do mundo, a LVMH, também actuante na grande distribuição, nas finanças e na imprensa, é o homem mais rico da França. Esta doação de 200 milhões é apenas 0,25% de sua fortuna, estimada em 73,2 mil milhões de euros (contra 46,9 há um ano). 

ALMAS CARIDOSAS 

Todos eles, informa-se, ficaram sinceramente comovidos e afectados pela terrível tragédia. Alguns comoveram-se até às entranhas, alguns mesmo choraram. Que almas caridosas! 

E não esqueçamos as pessoas jurídicas que acorreram e espontaneamente trouxeram socorro logo que souberam do drama. Breve écran publicitário: o grupo informático CapGemini (doação de um milhão de euros), La Française des Jeux recentemente privatizada e já generosa (2 milhões de euros [para a lotaria da Páscoa!]), o banco Credit Agricole (5 milhões), a farmacêutica Sanofi (10 milhões), assim como o banco Société Générale e a seguradora Axa, BNP Paribas e seu balanço de 2 mil milhões de euros, ou seja, duas vezes as despesas das administrações públicas do país (20 milhões), tanto como o grupo de publicidade JCDecaux, a petrolífera Total e seus 209 mil milhões de facturação – mas que não pagou nenhum imposto entre 2009 e 2014 – (100 milhões)… 

Uma vez que se trata acima de tudo de aparecer na bela fotografia da família capitalista, outros formularam “promessas de doação” sem precisar o montante: o grupo de obras públicas Vinci, o fabricante de pneumáticos Michelin, o especialista de gases industriais Air Liquide… Todos eles estão lá! A própria [confederação patronal] Medef apelou a todos os empresários a que participassem na colecta. 

Gestos tão tocantes:   a companhia de seguros Groupama dará de presente carvalhos das suas florestas privadas para a nova estrutura (caso ela seja em madeira), a siderúrgica ArcelorMittal aço para consolidar a construção, o grupo Saint-Gobain materiais de construção, a companhia aérea Air France o transporte gratuitos dos actores oficiais que participarão na “reconstrução”. E o Château Mouton Rothschild? O produto da venda de caixas de vinho… 

E a liga de futebol profissional francesa. E o rei de Krindjabo do reino Sanwi . E a Apple, o fundo de investimento norte-americano KKR e a associação French Heritage Society de Nova York, a University of Notre Dame de Indiana… Com certeza, Walt Disney (que ganhou US$300 milhões em receitas com seu Corcunda de Notre-Dame )… Eles se empurram diante do portão. 

Não faltava neste quadro senão a Ubisoft, o editor de jogos vídeo originário do [departamento de] Morbihan, que anuncia uma doação de um pequeno meio milhão de euros (apenas) para a reconstrução, mas com um bónus, para festejar à sua maneira a Semana santa: uma oferta de telecarregamento gratuito do seu jogo emblemático Assassin’s Creed Unity [Unidade de credo dos assassinos] – permitindo uma visita virtual e aventurosa a Notre-Dame. 

Mil milhões de euros desbloqueados em 48 horas – mais um jogo vídeo gratuito – é o Natal na Páscoa! Não joguem mais, a taça está cheia! Melhor: o Vaticano, tão rico quanto Creso e mesquinho como Harpagon, parece que manterá sua bolsa bem fechada… Mas declarou-se pronto a disponibilizar “seus conselhos técnicos” e “seu savoir-faire mundialmente reconhecido”. 

Ao exibicionismo dos bem-nascidos e dos poderosos veio acrescentar-se a hipocrisia repugnante e a incompetência crassa dos governantes que eles escolheram para nós. Pois esta orgia de beneficência é organizada nos meandros de um Estado que tolera as mais odiosas rapinas e incivilidades, desde a evasão fiscal – pudicamente qualificada de “optimização” e que alimenta tantos peritos – até a fraude em grande escala.

Quaisquer que sejam as estimativas, mesmo as mais baixas, os montantes envolvidos na fraude fiscal, que são tanto insultos à nação quanto receitas que fazem falta ao Estado, seriam suficientes para cobrir défices públicos, inclusive os locais. 

Como se isso não bastasse, eis que todos os salvadores miraculosos de Notre-Dame poderão a pedido beneficiar de vantajosas reduções de impostos – pelo menos para o que eles consentiram pagar em França. Desde uma lei relativa ao financiamento das actividades culturais de 2003 (dita “lei Aillagon”, do nome do ministro da Cultura do governo Raffarin na época do presidente Jacques Chirac), as sociedades podem deduzir 60% das suas despesas a favor do mecenato, com possibilidade de escalonamento da dedução fiscal ao longo de vários anos. 

A redução fiscal pode mesmo atingir 90% (no limite da metade do imposto devido) quando a doação se refere à compra de um bem cultural considerado como “um tesouro nacional” ou apresenta “um interesse maior para o património nacional”). Está claro, a empresa mecenas, investindo no mercado da arte, não contribuirá nestas condições com mais do que 10% das suas doações. 

Em princípio esta medida de redução de 90% não se aplica no caso da “reconstrução de Notre-Dame”. Contudo, quando a catedral ainda estava em chamas, houve vozes a reclamar um gesto incitativo do Estado. Afinal de contas, Notre-Dame não é um “tesouro nacional”? Foi o que ousou pedir, por exemplo, o autor da lei em causa, o ex-ministro Jean-Jacques Aillagon – que hoje está reconvertido e tornou-se o conselheiro do Sr. François Pinault, coleccionador de obras de arte diante do eterno, a fim de esclarecê-lo nos seus judiciosos investimentos. Sem dúvida é puro acaso! Estas pessoas são sem vergonha, mas elas têm escrúpulos: Aillagon retira sua proposta e Pinault, indignado com a suspeita de querer ganhar dinheiro ao doar, renunciou rapidamente à sua dedução fiscal. Quem o imitará? 

Finalmente, incompetência aflitiva de um presidente da República e do seu governo. Sem saber nada, sem que tivesse sido feita qualquer perícia técnica nem realizado qualquer consulta, o comediante Emmanuel Macron declama: “reconstruiremos ainda mais bela catedral e eu quero que isso seja feito dentro de cinco anos”. Ora, só a avaliação dos danos exigirá muito mais tempo quando se compreende que é a totalidade do telhado que cobre a nave, coro e transepto da catedral Notre-Dame que foram devastados, que algumas das abóbadas do tecto ameaçam entrar em colapso, que a estrutura do conjunto do edifício (passeios incluídos) foi fragilizada pelo despejar de toneladas de água, que as próprias pedras talhadas podem ter sido danificadas pelo calor do incêndio… Por que não destruir ainda mais o direito do trabalho para fazer mourejar noite e dia aqueles que se dedicarão a “reconstruir”?

PROEZAS ARTÍSTICAS DE UM GENERAL 

Cinco anos, isso conduzirá exactamente a 2024, ou seja, à organização dos Jogos Olímpicos de Paris. Seria este o objectivo oculto? Isto seria realmente medíocre! Qual a relação entre Notre-Dame e uma competição desportiva, por famosa que seja? O actor-presidente mostra-se resoluto, nomeia de imediato um “Senhor Reconstrução”. Um arquitecto? Que ideia tola! Um restaurador de monumentos históricos? Seria bom! Um historiador da arte? Nada disso! Era preciso um militar para “reconstruir” Notre-Dame – tal como aqueles que se voltam contra os coletes amarelos –, um general do exército, na pessoa de Jean-Louis Georgelin, cujas proezas artísticas consistiram outrora em servir nos paraquedistas, em passar pela escola de formação do U.S. Army Command and General Staff College do Kansas e em participar na força de estabilização na Bosnia-Herzegovina. Retorno à aliança da espada e do aspersório (alliance du sabre et du goupillon), como nos bons velhos tempos! 

Sob os olhares maliciosos das gárgulas apotropaicas a vomitarem os vícios para fora da Igreja, as goelas dos exploradores, dos fraudadores, dos poluidores, dos usurários regurgitaram seus lucros. Num estalar de dedos, alguns maços de notas terão bastado a um punhado de reis privados, fortunas da França cobiçosas de nichos fiscais, para jogarem sobre a mesa do banquete o equivalente a mais de três vezes o total do orçamento que o Estado consagra anualmente à restauração dos monumentos do património nacional (300 milhões de euros). Um orçamento do património lamentavelmente negligenciado desde há décadas, abandonado à tal lotaria popular, a tais boas obras de bilionários filantrópicos. Será preciso que o Louvre também arda para que finalmente o Estado (dono da Notre-Dame e das obras de arte que se encontram no interior) lembre que ele existe? 

E eis que subitamente, como por obra do Espírito Santo, os capitalistas que demolem o país e cavam as desigualdades sociais, metamorfoseiam-se em “construtores” de catedrais e em garantidores da “unidade nacional”. “O mal que fazem os bons é o mais prejudicial dos males”, pôde escrever o autor de Zaratustra. Tudo isso arrisca-se a terminar muito mal. Talvez antes mesmo de o monumento reabrir aos peregrinos e turistas o seu Portal do Julgamento Final. A Grande Jacquerie de 1358 eclodiu logo após a inauguração de Notre-Dame… 

Há muito tempo atrás (no primeiro século, o início da era cristã, é o que parece indicar o “pilar dos Nautas” encontrado em 1711 nas fundações do altar de Notre-Dame), um templo pagão galo-romano, de escala impressionante para a época, elevava-se no local exacto da actual catedral. Este templo era dedicado a Júpiter, de que Emmanuel Macron pensa ser um descendente directo. Ao anunciar a “reconstrução” de Notre-Dame, o presidente jupiteriano quer marcar seu século; faz disso um assunto pessoal. Entre os dois braços do Sena, ele pensa estar em casa. Pior: no clímax do calendário litúrgico, nesta semana especial da Páscoa, nosso sátiro nacional também se toma pelo filho de Maria – que venceu a morte e ressuscitou para a vida. Não se irá “reconstruir” Notre-Dame; não se fará senão a restauração, a reparação dos danos. Pois a mais admirada das 93 catedrais da França, que havia resistido às vicissitudes dos últimos 856 anos, foi, sob seu pequeno reinado, definitivamente perdida. É o que ainda não chegou a compreender aquele que ficará na história como o estafeta dos mercadores do templo.


Fonte aqui


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O lumpesinato no poder: os 100 dias de Bolsonaro

(Por Gilberto Maringoni e Artur Araújo, in Resistir, 10/04/2019)

O governo de Jair Messias Bolsonaro representa um feito inédito em termos mundiais. Trata-se da primeira vez em que o lumpesinato, de forma organizada, chega ao poder de Estado. Não existe experiência semelhante em países da dimensão do Brasil. 

O lumpesinato (ou lumpemproletariado) não é exatamente uma classe. O conceito inicial referia-se a uma fração de classe constituída por trabalhadores muito pobres sem qualquer lugar ou vínculo com a produção ou com o mercado de trabalho formal. Sobrevivem à custa de pequenos expedientes e atividades intermitentes. Por sua própria fragmentação, é uma camada que tende a realizar ações individuais em detrimento de iniciativas coletivas. Raramente atua de forma organizada. 

Karl Marx e Friedrich Engels o descrevem no Manifesto Comunista(1848): “O lumpemproletariado, esse produto passivo da putrefação das camadas mais baixas da velha sociedade pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária; todavia, suas condições de vida o predispõem mais a vender-se à reação”. 

Marx voltaria a se referir ao lumpemproletariado no Dezoito de Brumário Luís Bonaparte (1852). Trata-se de uma análise profunda sobre o processo social compreendido entre a Revolução de 1848 e o golpe de Estado de 1851, na França. O autor amplia o conceito, ao descrever os apoiantes de Luís Bonaparte: “Esse Bonaparte se constitui como chefe do lumpemproletariado, porque é nele que identifica maciçamente os interesses que persegue pessoalmente, reconhecendo, nessa escória, nesse dejeto, nesse refugo de todas as classes, a única classe na qual pode se apoiar incondicionalmente”. 

Mais adiante, Marx mostra que o conceito não se referia apenas às camadas mais baixas da sociedade, ao se referir ao sobrinho de Napoleão como “lumpemproletário principesco”. N’ As lutas de classes na França (1850), Marx estenderia ainda mais a classificação: “A aristocracia financeira, tanto no modo de obter seus ganhos quanto no modo de desfrutar deles, nada mais é que o renascimento do lumpemproletariado nas camadas mais altas da sociedade burguesa”. 

Quase um século mais tarde, no final dos anos 1950, o belga Ernest Mandel cria a definição de lumpemburguesia. Em 1973, o alemão André Gunder Frank lança Lumpemburguesia: lumpemdesenvolvimento – Dependência, classe e política na América Latina. Sua argumentação mostra que: “A partir da conquista, a dinâmica colonial do sistema capitalista forma na América Latina a estrutura de classes e a estrutura econômica, de modo que quanto mais estreitas são as relações econômicas e coloniais entre a metrópole e sua lumpemburguesia satélite (…), tanto mais as políticas econômicas intensificam um lumpendesenvolvimento”. 

A partir de tais definições, vale a pena tentar entender que classes e frações de classe compõem o primeiro escalão da administração eleita em 2018. 

Grupos de interesse 

O governo Bolsonaro resulta de uma confluência de interesses solidamente enraizados na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, a representação institucional – ou expressão política – dessa coalizão parece materializar profundas alterações ocorridas desde o final da ditadura (1964-1985) na composição social do país. 

O período é marcado por um processo de desindustrialização, privatização e desnacionalização de empresas que se soma à desregulamentação e fragmentação do mundo do trabalho. Ramos inteiros da produção deixaram de existir, a indústria de transformação reduziu sua participação na formação do Produto Interno Bruto (PIB) e o país assistiu sua burguesia industrial vender empresas e tornar-se mera montadora, maquiadora, empacotadora e, principalmente, especuladora no mercado financeiro, beneficiando-se de uma das mais altas taxas de juros do planeta. A burguesia associada do capital externo vai se tornando uma burguesia compradora e rentista. Podem-se vislumbrar pelo menos quatro grandes grupos de interesse contemplados no primeiro escalão do atual governo. 

Em primeiro lugar está o círculo próximo a Jair Bolsonaro. Forma a vertente mais ideológica do poder, com nomes indicados por igrejas fundamentalistas e pelo autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Entram nessa conta os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Vélez Rodríguez [NR] (Educação), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). Agregam-se a essa equipe os três filhos do capitão, que teriam ligações com milícias armadas do Rio de Janeiro e com representantes da extrema direita dos Estados Unidos, como o ex-ideólogo de Donald Trump, Steve Bannon. É o grupo que dirige politicamente o governo. 

A segunda equipe em importância é representada por oito altos oficiais militares de direita, além do vice-presidente Hamilton Mourão. São eles: Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Carlos Alberto Santos Cruz (Secretaria de Governo), Floriano Peixoto Vieira Neto (Secretaria Geral da Presidência), Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Bento Costa Lima de Albuquerque (Minas e Energia), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), e Wagner Campos Rosário (Transparência e Controladoria Geral da União). 

O plantel dos militares tem duas vozes principais, Mourão e Augusto Heleno, e forma o polo organizativo central da gestão. O ex-comandante da missão da ONU no Haiti é o militar mais próximo de Bolsonaro. 

Um terceiro campo compõe o que poderia ser denominado de “Ministério da Intimidação e Punitivismo”. Aqui brilha a constelação do ex-juiz Sergio Moro, ligado à extrema-direita do Judiciário. 

Há, por fim, a grande pasta dos negócios, firmemente alicerçada no capital financeiro. Sua estrela é o economista e especulador Paulo Guedes, ministro da Economia. Seguem-se a ele o executivo do grupo Santander, Roberto Campos Neto, que pilota o Banco Central, e o ex-diretor do Bradesco, Joaquim Levy. 

Os dois primeiros grupos – ideológicos e militares – disputam publicamente espaços e diretrizes na máquina pública. 

A força da farda 

A presença das Forças Armadas no governo revela um sério problema político: Bolsonaro não tem um partido que lhe dê sustentação. Sarney valia-se do PMDB, FHC contava com o PSDB e Lula com o PT. Não se tratavam de meras legendas parlamentares para encaminhar e votar projetos no Congresso. As agremiações eram vetores orgânicos com presença na política institucional e real inserção na sociedade. 

O PMDB dos anos 1980 contava com alguns dos mais relevantes intelectuais brasileiros, mantinha intervenção no movimento sindical e no empresariado. O mesmo pode ser dito dos dois outros casos. PMDB, PSDB e PT, além disso, expressam demandas de determinadas classes sociais e as representam no embate político e no conflito distributivo. 

No caso de Bolsonaro, qual é o vetor que sintetiza demandas de classe que o sustentam na disputa institucional? Não é o PSL, evidentemente! Esta é uma legenda artificial e um agregado de aventureiros, sem expressão social clara. Expressão social é diferente de ter votos. O PSL tem votos, mas é incapaz de organizar minimamente uma administração. 

Estamos em uma situação semelhante às dos governos da ditadura militar. Eles tinham um partido (a Arena) que não formava um corpo de ideias muito definido, a não ser dar voz às oligarquias regionais. O vetor organizador dos governos ditatoriais eram as Forças Armadas, com destaque para o Exército, de onde saíram seus cinco presidentes. É o que ocorre hoje. 

O Exército, a força mais numerosa e mais capilarizada social e geograficamente, vocaliza uma reivindicação difusa da classe média e de parcela dos pobres por ordem, segurança e moralidade. Seria o que o cientista político e jornalista Oliveiros Ferreira denominou de partido fardado, entre os anos 1970-80. Vale uma ressalva: os setores militares que ascendem com Bolsonaro são caudatários dos porões (Garrastazu Médici e Silvio Frota, ligados à repressão) e não aos ideólogos da ditadura (Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel). 

Assim, Bolsonaro não tem saída. Ou apela para as Forças Armadas ou não existe governo que pare em pé. Não há escapatória a não ser ele colocar cerca de cem militares em cargos de primeiro e segundo escalão. 

O terceiro (Justiça) e o quarto (Economia) grupo materializam o grande consenso interno do governo. A facção ideológica e a militar têm até aqui pleno acordo com o projeto punitivista de Sergio Moro e com a opção ultraliberal de Paulo Guedes. São também os fiadores da sustentação do governo entre o capital financeiro, os especuladores internacionais, a grande mídia e um setor da classe média que, desde 2013, bradava por intervenção militar. 

Mas a existência desses consensos não tira de cena a renhida disputa de rumos. Voltemos ao início deste texto: o sentido principal do jogo de forças intramuros é o embate entre um corpo profissional do Estado e a inédita chegada do lumpesinato ao palácio. Detalhemos. 

O lumpesinato com a caneta na mão 

O principal representante do lumpesinato nas esferas do poder é o próprio presidente da República. Expulso do Exército por indisciplina, Jair Bolsonaro buscou a carreira parlamentar como meio de vida. Em 28 anos de Congresso, teve atuação apagada e agregou-se ao chamado baixo clero da instituição. 

Bolsonaro nunca representou um setor social específico, mas surfou em ondas de insatisfação difusas do eleitorado pobre do Rio de Janeiro e no corporativismo da massa militar. Seu mentor, Olavo de Carvalho, sujeito sem ocupação definida, é um lúmpen da intelectualidade, misto de astrólogo e guru de vasta legião conservadora. Damares fez sua carreira nas igrejas pentecostais e não se sabe de seus vínculos claros com o mundo formal do trabalho. O mesmo se dá com outro ativista pentecostal, Marcelo Álvaro Antônio, chefe da pasta do Turismo. Vélez Rodríguez, por sua vez, é um obscuro professor universitário, sem publicações relevantes e desconhecido em seu meio. Araújo expressa uma ínfima minoria no Itamaraty. 

O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, é um economista marginal, tanto na academia quanto no mercado. Pérsio Arida, um dos criadores do plano Cruzado (1986) e ex-presidente do BNDES e do Banco Central no governo FHC, tem opiniões arrasadoras sobre ele. Em setembro de 2018, Arida declarou ao jornal O Estado de S. Paulo que “Paulo Guedes é um mitômano (…). Nunca escreveu um artigo acadêmico de relevo e tornou-se um pregador liberal. (…) Ele nunca dedicou um minuto à vida pública, não tem noção das dificuldades. Partiu para uma campanha de difamação que é de um grau de incivilidade que não se vê em outro assessor econômico”. Envolvido em acusações de fraudes em fundos de pensão, Guedes pode ser classificado sem erro como um lumpenfinancista. 

Entre os militares, o astronauta Marcos Pontes foi para a reserva após seu voo orbital em 2006. Tornou-se palestrante de autoajuda, vendedor de travesseiros e guia turístico na Flórida. Ou seja, passou a viver de expedientes que não deram muito certo até ser recolhido por Bolsonaro. 

O PSL, partido do presidente, por sua vez, é quase todo composto por aquilo que Marx classificou como lumpesinato no Dezoito brumário: “Rufiões decadentes, com meios de subsistência duvidosos (…), rebentos arruinados e aventurescos da burguesia (…) vagabundos, soldados exonerados (…), trapaceiros, (…) donos de bordel, (…) em suma, toda essa massa indefinida, desestruturada e jogada de um lado para outro, que os franceses denominam la bohème [a boemia]”. 

Qual o problema de um governo ser dirigido pelo lumpesinato de diversas classes? 

O lumpesinato, por característica inata, é avesso a qualquer projeto coletivo de longo prazo. Não é classe, não é coletivo, não forma grupos. Não há previsibilidade ou rotina possível em um conjunto de indivíduos para os quais vigoram as saídas individuais e a disputa de cada um contra todos. 

Pode-se afirmar que o lumpesinato vive no Estado de Natureza conceituado por Thomas Hobbes, em Leviatã (1651). Trata-se de uma situação anterior à criação do Estado, sem regras ou normas, em que “todo homem é inimigo de todo homem”. 

Nas palavras de Hobbes: “Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. 

Não há descrição mais apropriada para um mundo traçado por Jair Bolsonaro em discurso proferido para uma plateia de extrema direita em Washington, em março último: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa”. 

Não se trata de deslize de um improviso mal feito. Hamilton Mourão já havia declarado ao jornal Valor Econômico em fins de 2018 que o governo faria “um desmanche do Estado”. 

São frases-síntese de um governo lúmpen que se move por pequenos e grandes negócios de ocasião. Em geral, eles se dão por fora da política institucional e de suas regras e, não raro, apelando para situações de força. Uma administração de todos contra todos.


[NR] Foi demitido em 08/Abril/2019 e substituído por Abraham Bragança Weintraub. 


Fonte do artigo aqui


Sim, houve colaboração com os russos. Sim, houve obstrução à Justiça

(Pacheco Pereira, in Público, 20/04/2019)

Pacheco Pereira

Já me queixei disto e vou-me queixar outra vez: eu sou vítima do Trump. Sou vítima do Trump, porque a política americana desde 2016 é a mais interessante do mundo, a mais importante de seguir, a mais perigosa do mundo. Aquela em que melhor se pode perceber o que é o carisma, o que é a política pós-pós-moderna, a criatividade perversa, a degeneração interior da democracia, os mecanismos científicos de manipulação das massas na época das “redes sociais”, a autodestruição de um grande partido nacional pelo medo e pela gula, a tentativa de governar em autocracia, sem respeito pela separação de poderes, sem limites do “executivo”, a hipocrisia religiosa dos zelotas face ao poder, o ódio e o ridículo como instrumentos para rebaixar o adversário, o papel da violência sugerida e incentivada para destruir os laços sociais de vida em comum, a arregimentação dos “nossos” contra os “deles”, a relativização absoluta da verdade, a mentira e o abandono dos factos numa linguagem ficcional de slogans e propaganda. George Orwell deveria conhecer Trump para escrever um segundo 1984.

Eis o catálogo. Como é que se pode esperar que eu encontre qualquer forma de interesse nas vicissitudes políticas caseiras, feitas de palha e nada, este disse, aquele não disse, este fez um inuendo, aquele fez um contra-inuendo, esta fez um ataque a coisa nenhuma, aquele defendeu-se com uma mão-cheia de nada e por aí adiante? Não devia, mas não consigo. Chega Trump e o seu reino do mal e, com a diferença de horas, lá se vai a noite e a madrugada.

Agora, é esse documento fabuloso que é o relatório Mueller, pelo menos na parte que foi divulgada, com páginas cheias de linhas grossas a negro. Por detrás dessas linhas podem ter a certeza que há muito mais e mais importantes coisas que virão a ser conhecidas. Estamos mais no princípio do que no fim. Mas vale a pena ler tudo, é mesmo daqueles documentos que prendem a atenção e a leitura sem parar, muito melhor do que qualquer ficção política.

Com a mesma pressa e ligeireza analítica com que nos primeiros dias se desvalorizou a vitória democrática no Congresso, antes de se perceber que tudo mudara, agora ficamos umas semanas com a síntese mentirosa do procurador Barr a desvalorizar o relatório e as salvas de vitória com o mantra de Trump do “no collusion, no obstruction”, nenhuma das coisas confirmadas pelo relatório nestes termos propagandísticos. Pelo contrário, houve extensa colaboração com os russos, aquilo a que hoje se chama “sinergias”, mas não houve provas suficientes para a acusação de um crime. No entanto, vários colaboradores próximos de Trump vão para a cadeia exactamente por terem mentido sobre os seus contactos com os russos. Coincidências. É só esperar que um dia se abra o arquivo do GRU e do FSB, para então as partes encaixarem entre si. E se Trump lhes escapar, os russos são meninos para fazer “fugas” selectivamente. Nós sabemos e Trump também sabe.

E houve obstrução, que Mueller atira para cima do Congresso, sabendo muito bem que já será o novo Congresso democrático a decidir. O elo fraco da resistência a Trump é o Partido Democrático, e não é certo o que vai acontecer. Mas basta ler o relatório para se perceber a continuada tentativa de Trump de impedir as investigações, e Mueller escreve, preto no branco, que não pode exonerar o Presidente dessa acusação.

Depois, há os detalhes, imensos detalhes. Os detalhes são onde habita o Diabo, e aqui é uma confraria de diabos inteira que fica à solta. O relatório Mueller será sempre, por isso, um documento singular para um tratado que precisa de ser escrito nos nossos dias intitulado “Como Se Destrói Uma Democracia por Dentro”. Claro que há muito precedentes, havia inconsistências legais, definições do poder executivo ambíguas, contradições, patologias da democracia americana, que são todas anteriores a Trump. Mas Trump usou-as todas em seu proveito para instituir uma presidência autocrática, acolitada por uma espécie de grand guignol, uma administração de gnomos maldosos, dirigida, moldada, dominada, por uma personagem carismática completamente amoral, capaz de fazer tudo o que acha que pode fazer sem pensar duas vezes.

É um erro considerar que Trump é um epifenómeno que passará depressa, uma anomalia que o “sistema” engolirá nas próximas eleições. A palavra carisma é muito mal usada por cá, mas é mesmo isso que Trump é, carismático, um tipo intuitivo, criador, poiético, que revelou mais do que ninguém as fragilidades da democracia no século XXI.

Mas o relatório Mueller faz-lhe muita mossa. Não era preciso ser um génio da análise para se perceber que vinha aí uma gigantesca pedra feita de detalhes e contexto que caía em cima de Trump, de Barr, de Pence, de Jared, de Ivanka, dos “trumpinhos”, de Sarah Sanders, de Kellyanne, e dos propagandistas da Fox News, Hannity, Tucker, e do partido da vergonha, os republicanos. Eles vivem na lama, e se calhar gostam dos salpicos, mas a pedra vem a caminho e é grande.

E a pedra vai-se dissolver aos poucos, com cada detalhe fazendo o seu caminho “revelador”, viral, moldando a cabeça das pessoas, umas (talvez poucas) mudando-lhes a opinião, outras mobilizando-as para a necessidade da “resistência”, e outras, talvez a maioria, dando-lhes consciência do perigo por que o país está a passar com este homem à frente. Por isso mesmo, Trump tinha razão quando disse sobre esta investigação: “I’m fucked.