Aventura na baía dos leitões

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 23/06/2020)

Um bando de mercenários foi preso há dois meses ao tentar desembarcar nas costas da Venezuela, a coisa parecia um arremedo da saga do coronel Alcazar do Tintin, uma simples graçola, quando um deles veio reclamar direitos legais com papel passado em notário. A curiosidade é mesmo o contrato que os mercenários traziam no bolso.


E agora um assunto completamente diferente: não é sobre a pandemia e os seus números sempre preocupantes, não são as mais cem mil pessoas desempregadas a somar à estatística, não é o fiasco anunciado da gloriosa marcha sobre Lisboa daquela “maioria silenciosa” que está no sótão desde o saudoso 28 de setembro de 1974, é sobre as desventuras de um bando de mercenários na Venezuela.

O detalhe do caso foi reportado, ao que sei, pelo “Washington Post” e, depois, replicado pela imprensa mundial, incluindo a portuguesa. E é curioso: um bando de mercenários foi preso há dois meses ao tentar desembarcar nas costas daquele país, a coisa parecia um arremedo da saga do coronel Alcazar do Tintin, uma simples graçola, quando um deles veio reclamar direitos legais com papel passado em notário. A curiosidade é mesmo o contrato que os mercenários traziam no bolso.

O grupo obedecia ao comando de um empresário norte-americano do ramo, Jordan Goudreau, que veio dar explicações. Segundo a sua versão, a sua empresa, a Silvercorp, foi abordada por representantes de Juan Guaidó, o proclamado presidente interino da Venezuela, reconhecido pela diplomacia dos Estados Unidos e pelos seus aliados, incluindo, com diversos graus de devoção, algumas chancelarias europeias.

Esses embaixadores pagaram-lhe para preparar uma operação militar: 800 soldados, sobretudo desertores do exército venezuelano e milícias de extrema-direita, deveriam ser treinados para uma invasão a curto prazo.

A empresa seria autorizada a usar sem riscos judiciais a força necessária, como o assassinato de dirigentes políticos e a morte dos militares oficialistas que resistissem, receberia um bom prémio de centenas de milhões de dólares e, depois, mais dezasseis milhões por cada mês no período de transição em que os seus serviços de segurança fossem reclamados pelos clientes. Tudo escrito em oito páginas de contrato e 41 de aditamentos, com as indicações detalhadas para a operação.

Goudreau, zangado porque os 800 voluntários não apareceram, ou os poucos que vieram se preocupavam mais com diversão avulsa do que com o garbo militar, escandalizado pelo naufrágio das lanchas dos comandos, que foram recebidos e dizimados pelo inimigo, em vez de serem festejados pela população, e, sobretudo, amofinado com a falta de pagamento, revelou o contrato e lavrou o seu protesto.

A assinatura era do braço direito de Guaidó, que viajou para os Estados Unidos para concretizar o compromisso, assinado em outubro do ano passado, e que não teve como desmentir o mercenário. É tudo verdade. É mesmo estimável que, em tempos tão turbulentos, de gigantescas conspirações e fake news, haja quem tenha o rigor processual de contratualizar por escrito os assassinatos, a invasão militar e o regime posterior, tudo para que as devidas autoridades comerciais possam aferir o cumprimento das cláusulas, a ser necessário. Só que falhou tudo, nem exército, nem dinheiro.

Trump, que, ao que revela Bolton no seu livro hoje publicado, acha que a Venezuela é parte dos EUA, veio no domingo mostrar algum arrependimento sobre a sua aposta em Guaidó. Não é para menos, o homem tem fracassado em todos os seus intentos de tomar o poder: parece que faltam as manifestações; quando tentou levantar os quartéis ficou sozinho a tirar selfies em frente ao portão; e o seu peso institucional depende mais do sequestro da direita histórica venezuelana do que de propostas realizáveis.

Não sei o que dirá o governo português, que procedeu com aquela matreirice de reconhecer Guaidó como presidente mas de manter o embaixador oficial e de, para todos os efeitos, tratar com Maduro de todos os assuntos de Estado. A Espanha já se pôs a milhas desse jogo. E a crise daquele país continua a agravar-se. Pobre Venezuela, tão destruída e tão cobiçada.


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Guia para derrubar estátuas

(Henrique Monteiro, in Expresso Diário, 11/06/2020)

Estátua de Gengis Khan na Mongólia, diz-se ser a maior estátua equestre do mundo

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes.


É sempre lamentável – e infelizmente é cada vez mais comum – verificar como um conjunto de energúmenos dão cabo de boas causas. Há imagens lindas e comoventes das manifestações antirracistas após o assassínio de George Floyd por um polícia. A própria família de Floyd apelou a que não existissem distúrbios. Porém, isso não impediu que extremistas partissem e pilhassem o que podiam, mesmo se de comerciantes sem outros meios de subsistência se tratasse.

Mas chegou-se ao cúmulo em Bristol, com o derrube e lançamento à água, de uma estátua do benfeitor da cidade (no séc. XVIII) que foi um traficante de escravos, e com a vandalização da estátua de Churchill em frente ao Parlamento de Londres, com o argumento de que o herói da II Guerra terá sido racista.

Além da idiotice que é olhar para a História com os olhos de hoje (não viveremos para ver o que dirão, daqui a 100 ou 200 anos, dos nossos heróis atuais), a ideia de que os seres humanos são dominados apenas por uma entre várias características é estúpida e primitiva. Sim, Churchill teve umas saídas racistas, mas livrou-nos de um (ou dois) totalitarismos sufocantes; sim, Colston ganhou dinheiro com o tráfico negreiro (numa época em que a consciência geral não condenava essa atividade, desenvolvida por negros, árabes, indianos, índios), mas fez na sua cidade (Bristol) e noutras, hospitais, creches, casas de recolhimento para pobres, enfim foi um filantropo. A sua estátua, atirada ao rio por um conjunto de inconscientes (que o próprio presidente da Câmara da cidade não condenou) mostra que este olhar unívoco sobre as personalidades do passado é uma desgraça a que poucos dão combate.

Por mim, e alinhando nesta onda histérica, tenho várias propostas. Por exemplo, todas as homenagens a Júlio César, ele próprio dizimador dos gauleses e possuidor de escravos. Mas não devemos ficar por aqui,

Na Hungria há uma estátua de Átila. Acorra-se a derrubá-la. Esse Átila invadiu a Europa e semeou o terror por aqui – tanto quanto Colston entre os negros, provavelmente. A palavra escravo provém de Eslavo, e perde-se na História quando os eslavos passaram a ser os seres mais procurados como… escravos.

A maior estátua equestre do mundo é na Mongólia. Dedicada a Gengis Khan, outro aterrorizador de chineses, indianos e europeus. Penso que é de bom senso derrubá-la.

Maomé II que fez cair Constantinopla e pôs fim ao Império Romano do Oriente, deixou que um saque (leia-se genocídio) brutal decorresse durante um dia inteiro. Profanando a cultura local, entrou a cavalo na principal Igreja (Santa Sofia, ou Hagia Sophia, em grego) e proclamou-a mesquita, numa demonstração de feroz colonialismo intolerante. Não sei se haverá por aí alguma coisa para destruir, mas há a de Solimão o Magnífico que fez do Império Otomano uma enorme potência imperialista, atacando os húngaros e os próprios austríacos, para além de gregos e búlgaros. Desde o seu antecessor Murat I que os otomanos raptavam crianças aos cristãos para os educarem de forma muçulmana e agressiva, transformando-os em janízaros, os mais fiéis ao sultão. Solimão tem uma estátua em Istambul que deve ter como destino o fundo do mar (para citar o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, a propósito de Colston).

Sitting Bull, o célebre ‘Touro Sentado’, índio que conjuntamente com ‘Crazy Horse’ dizimou as tropas norte-americanos em Little Big Horn (Montana), tem um monumento e um busto no Estado de South Dakota. É duvidoso. Tanto mais que ele depois se juntou ao circo de Buffalo Bill e ambos divertiram a América racista e a Europa colonialista. Teremos de pensar nesse monumento.

Como no da rainha Nginga, em Luanda. É certo que ela afrontou os portugueses por questões que nada têm a ver com a lenda que se fez. Mas é mais ou menos certo que, para não ficar de pé frente a um pouco cavalheiresco governador de Angola, mandou um negro pôr-se de quatro e sentou-se em cima dele. Num gesto que é manifestamente racista ou outra coisa qualquer que lhe queiram chamar.

E a rotunda da Boavista? Já viram que se chama Mouzinho da Silveira? O homem que derrotou Gungunhana e o obrigou às maiores humilhações? Será isto admissível? Para não falar de Pedro IV no Rossio, que parece não ser outro do que o seu primo Maximiliano do México, entretanto deposto quando a estátua feita em França ia a caminho do Novo Mundo. Não me recordo por que razão terá sido deposto, mas lá que o México estava cheio de escravos (se é que ainda os não tem…), sem dúvida.

Enfim, por motivos semelhantes a Colston, e bem piores do que as frases de Churchill, há muita coisa para os radicais antifa se entreterem. É pena que eles apenas olhem com os olhos de hoje, com o preconceito e certo ódio ao homem branco.


Carta aberta ao Presidente da República

(Sérgio Tréfaut, in Público, 09/06/2020)

Bolsonaro saúda um grupo de apoiantes em Brasília, 31 de Maio

Dizem os políticos que Portugal e o Brasil são países irmãos. Marcelo Rebelo de Sousa aprecia esta figura retórica. Mas chegou o momento em que é necessário decidir de que país Portugal é irmão. Do Brasil que está a matar? Ou do Brasil que está a morrer? O que se passa no Brasil hoje é mais grave do que um crime de Estado.

Desde o final de março, das janelas da minha casa no Rio de Janeiro, ouvi todos os dias gritar: “Bolsonaro genocida!” Porquê gritam assim os vizinhos à janela? Porque vários genocídios invadiram suas vidas.

O primeiro é um genocídio de populações indígenas, denunciado no Tribunal de Haia em 2019, e denunciado também por Sebastião Salgado. A indiferença de Bolsonaro ao extermínio dos índios tornou-se óbvia no vídeo da reunião de 22 de abril, divulgado a pedido de Sérgio Moro.

Nessa reunião de ministros, vemos o ministro do Meio Ambiente definir a atual epidemia como uma oportunidade para fazer passar as leis (ilegais) de desmatamento da Amazônia, o que significa quase o fim dos índios. Sabemos que 90% das populações indígenas morreram no século XVI de doenças como a varíola, levadas por europeus. O governo brasileiro pretende agora que os índios que restam morram de covid. O ministro do Ambiente representa bem os valores do governo Bolsonaro.

A segunda forma de genocídio praticada no Brasil de hoje é a mais mortífera. Trata-se do negacionismo face à pandemia.

Desde março, Bolsonaro insultou as televisões por divulgarem as mortes na Itália: o Brasil nunca viveria aquilo. Hoje Bolsonaro esconde o número de mortos. Este negacionismo é o espelho da sua política. “O Brasil não pode parar”, afirmava Bolsonaro, apoiado pelos grandes industriais.

Os dois ministros da Saúde que tentaram defender o confinamento foram despedidos ou forçados a sair. Aliás, o negacionismo mais criminoso é o do Ministério da Saúde. Como se tratava de uma “gripezinha”, houve uma ausência total de plano para enfrentar a pandemia. Falta de testes, falta de material de proteção, falta de camas, falta de ventiladores, falta de tudo. Em números absolutos, Portugal fez mais testes à covid-19 do que o Brasil, com 210 milhões de habitantes.

Curiosamente, durante a epidemia de dengue de 2008 (174 mortos), o Governo de Brasília, com o apoio das Forças Armadas, montou três hospitais de campanha no Rio de Janeiro e salvou vidas. Face ao coronavírus, o Governo Federal negou a importância do perigo. Não ponderou um instante sobre a necessidade de cordões sanitários para proteger aldeias indígenas, ou para proteger áreas urbanas sobrepovoadas, onde o confinamento seria impossível por falta de condições. Tudo foi lançado para os governadores, não por uma visão descentralizadora, mas em forma de ataque. Assim Brasília culpou os estados pela crise sanitária e pela crise económica.

Bolsonaro e os seus filhos defenderam uma política eugenista, de cariz hitleriana: “É velho? É doente? Tem mesmo que morrer.” “É a lei da vida.” Frases como esta foram repetidas até a exaustão. São dez mil mortos? “E daí?”

Pela falta de cuidados, o Brasil tornou-se o país com maior número de enfermeiros mortos por covid. Agora será o país com maior número de mortes do mundo. Não fazer face à pandemia, optar por 100 mil mortos em vez de 10 mil em nome da economia, o que é senão um crime de Estado?

O clã Bolsonaro lançou milícias anti-confinamento, com manifestações ilegais nas ruas. Assim, vários militantes anti-confinamento morreram de covid. Mas agora, com mais de mil mortes diárias, as manifestações já não são necessárias. Governos e prefeituras cederam a Bolsonaro, abrindo praias e comércio.

O que pensariam os portugueses se, durante o confinamento, Marcelo Rebelo de Sousa lutasse contra as normas do Ministério da Saúde, reunindo multidões em passeatas anti-confinamento? Em Portugal, imagino que o Presidente seria impedido, ou preso. Não é o caso no Brasil. Bolsonaro está acima da lei. E o genocídio no Brasil não se limita à covid.

Existe um genocídio diário levado a cabo pela polícia nas favelas. Os Estados Unidos mobilizaram-se agora com o assassinato de George Floyd. “Black lives matter” conquistou o mundo.

Se o assassinato de George Floyd tivesse ocorrido no Brasil, a polícia teria dado um tiro na cabeça da adolescente de 17 anos que estava a filmar, como faz todos os dias. Ninguém saberia. Esta é a banalização da impunidade policial validada por Bolsonaro. No ano de 2019, só no Rio de Janeiro, a polícia foi responsável por 1814 assassinatos, ou seja, cinco mortos por dia.

A polícia entra nas favelas e mata sem receio da lei. Nenhum polícia precisa de prestar contas dessas mortes. Bolsonaro assina por baixo: “Bandido bom é bandido morto.” Sem julgamento. Sem provas. Raras vezes um caso ganha destaque. Por exemplo, quando, no dia 18 de maio, João Pedro, 14 anos, brincava com amigos em casa e foi morto pela polícia. Dias antes tinham sido encontrados 12 corpos com marcas de tortura policial. Nenhum polícia foi detido. Nas favelas denuncia-se o genocídio negro. Mas ninguém ouve.

À banalização do crime acresce a liberação por Bolsonaro da venda de armas a civis, armas que eram de uso exclusivo dos militares. A imprensa diz que Bolsonaro aposta numa guerra civil. Aqui chegamos ao extermínio da própria democracia.

O que Portugal tem a ver com isto? Tudo.

No dia 1 de janeiro de 2019, há pouco mais de um ano, Marcelo Rebelo de Sousa era a estrela internacional da tomada de posse de Bolsonaro. Angela Merkel, Theresa May, Emmanuel Macron não foram à cerimónia, apesar de convidados. Os dirigentes da direita europeia tomavam uma posição distante face a um novo Presidente do Brasil, com um conhecido desprezo pela democracia.

Os únicos chefes de Estado europeus eram Marcelo e Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, cujas declarações sobre ciganos parecem extraídas de compêndios nazis. O ministro dos Negócios Estrangeiros português também não esteve presente, mas, sendo quem é, bem poderia ter estado. Quanto a Marcelo, pode ser acusado de tudo o que quiserem, mas não pode ser acusado de ser mal informado. Por isso, o seu silêncio à data de hoje é preocupante.

Marcelo terá visionado a criminosa reunião de ministros de 22 de abril, chefiada por Bolsonaro, vulgo covil dos infames. Pode ser que outros presidentes do mundo não compreendam o que foi dito nessa reunião. Marcelo compreende.

Marcelo também sabe que Bolsonaro fez ameaças de morte aos membros do Supremo Tribunal Federal.

Marcelo sabe que Bolsonaro falou em manifestações que pediam uma ditadura militar e o encerramento do Congresso. Sabe que em nenhum país democrático um cidadão poderia sequer se candidatar às eleições presidenciais tendo feito a apologia da tortura e lamentando os poucos mortos de um regime ditatorial. Marcelo recebe informações sobre a impunidade da polícia no Brasil. Cinco George Floyd por dia. bMarcelo sabe que Bolsonaro luta pelo descrédito da democracia. E que contra ele existem mais de 30 pedidos de impeachment. Quem cala, consente.

O que poderia fazer o Presidente da República? Poderia muito. Poderia liderar um movimento de pressão internacional. Poderia e deveria convocar o embaixador do Brasil e pedir explicações – nem que seja considerando a comunidade portuguesa no Brasil. A diplomacia não é apenas um entreposto para vender vinhos e azeite.

Além do Presidente, através do seu governo e dos seus deputados, Portugal pode apresentar moções condenatórias no Parlamento Europeu, no Conselho da Europa, na ONU.

Isto seria próprio de um país irmão.