Cronologia de uma provocação aterradora

(José Goulão, in Abril Abril, 22/04/2021)

(Depois da leitura deste artigo surgiu-me uma pergunta que até pode ser considerada heresia: Será que o mundo estava mais seguro com Trump? Malgrè tout…

Estátua de Sal, 23/04/2021)

——————————————————————————–

Biden, Blinken, Nuland, Pyatt – a equipa operacional do golpe Euromaidan está de regresso à Ucrânia. Entretanto, continuamos a ser informados de que tudo está a acontecer por causa da «agressão russa».

Continuar a ler aqui: aqui

Republicanos: depois da cobardia, o vazio

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/11/2020)

Daniel Oliveira

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Depois de Donald Trump ter posto em causa umas eleições presidenciais dos Estados Unidos, falando de fraude e de roubo sem qualquer indício para tal, discursou o seu vice-Presidente. Mike Pence não o secundou. Nem o afrontou. Limitou-se a pedir vigilância perante a contagem dos votos que o seu Presidente não quer contados e a mostrar-se otimista. Houve quem reparasse na diferença de estilo e o tenha elogiado. Em mim, teve o efeito oposto. Ele tem consciência do absurdo que estava a ser dito, da irresponsabilidade de partir um país a meio em torno da credibilidade do processo eleitoral e do perigo que aquele homem representa para a democracia norte-americana. Pior do que um fanático é o oportunista que o apoia.

Quando cheguei a Cleveland, em 2016, e comecei a conversar com delegados à convenção republicana, percebi que depois da sua nomeação Trump não iria encontrar qualquer resistência interna. Que aquelas duas máquinas de poder, democratas e republicanas, só não estão preparadas para alguém que ponha em causa o poder do dinheiro – e é por isso que Bernie Sanders nunca teve as abébias que foram dadas a Trump. Ouvi, na altura, de uma apoiante de Ted Cruz: “As pessoas precisam que lhes digam a verdade. Concordo com muito do que [Trump] defende, o problema é não bater certo com o que fez.” Ted Cruz e muitos do que ainda resistiam a baixar a cabeça perante o novo rei não eram mais moderados do que Trump. Seriam apenas mais polidos e coerentes. Mas não havia nenhum cisma programático no Partido Republicano. O problema para o establishment republicano não era o que Trump defendia, é ser ele a defendê-lo. Até ele passar a ser a cúpula do establishment republicano.

Mas nem a facilidade com que transformou aquela convenção num evento pessoal me chegou para perceber até onde podia ir a capitulação republicana. Tirando alguns corajosos resistentes, toda a estrutura republicana, de governadores a senadores, de congressistas ao vice-Presidente, se vergou aos caprichos deste homem. A coisa foi tão longe, o ultraje à tradição republicana foi de tal forma aviltante, que não sei o que sobrará depois disto. Quando um Presidente do seu campo político põe em causa a legitimidade do processo eleitoral, que ligação sobra entre os republicanos de hoje e a sua história? Que raízes não foram arrancadas pela megalomania de um Presidente eleito mas com perfil de autocrata?

Claro que a radicalização que levou a Trump não começou agora. Começou com a candidatura de Barry Goldwater, que em 1964 iniciou a caminhada que levou a Reagan, quase vinte anos depois. Continuou com a chegada do inepto filho de Bush à Casa Branca. E iniciou a sua fase decadente quando o honrado McCain foi obrigado a aceitar a inenarrável Sarah Palin como sua vice, mostrando como os republicanos já eram reféns da sua própria derrota intelectual. Todos eles parecem normais quando olhamos para Trump. Mas nenhum conseguiu transformar, como Trump, o Partido Republicano numa alforreca.

Claro que os republicanos, movidos como os democratas pela luta pela sobrevivência, se irão adaptar ao pós-Trump, quando esse momento chegar. A dúvida é como o conseguirão fazer depois de um silêncio coletivo tão confrangedor, depois de tantos senadores e congressistas terem transigido em todos os valores democráticos. Quanto maior é a cedência na vitória maior será o vazio depois da derrota. A questão não é o que sobra da agenda política dos republicanos. É o que sobra da sua dignidade.

Quando vemos que entre as novas congressistas eleitas está uma adepta do QAnon, uma seita de lunáticos de extrema-direita que acredita que Donald Trump foi escolhido para combater uma organização secreta de pedófilos que reúne altos funcionários do Estado, estrelas de Hollywood, os Clinton, Obama e Soros, percebemos que o manicómio é o limite.

Saia Trump da Casa Branca em janeiro ou daqui a quatro anos, a cobardia dos seus cúmplices deixa um vazio moral, político e intelectual que será ocupado por malucos cada vez mais extremistas. Como Trump faz Bush parecer um estadista e Bush fez Reagan parecer um intelectual, o atual Presidente ainda nos parecerá normal. Até a direita norte-americana se autodestruir com a sua própria radicalização e loucura.

Tudo isto é extensível à direita europeia que se está a trumpizar e àquela que com ela se alia. Onde a direita moderada e democrática achou que venceria esta loucura integrando-a no sistema foi derrotada. Porque essa absorção só serviu para legitimar aos olhos de muitos o que deveria ser aberrante. Angela Merkel foi das poucas a perceber que esse não era o caminho e é das poucas que não está refém desta loucura. A noite eleitoral de terça-feira, o inédito ataque de Trump ao sistema democrático eleitoral do país e a cumplicidade de todo um partido mostram que a integração da extrema-direita no poder não matará este fenómeno. Apenas lhe dará força para ser cada vez mais arrojada. Matando por dentro os que aceitem ser seus hóspedes.


A vacina russa contra a COVID 19, sobre os ombros da URSS

(Angeles Maestro (*), in Resistir, 21/08/2020)

Se escrevo este artigo é porque creio que ninguém está a dizer o óbvio:   as equipas científicas russas foram capazes de criar a vacina porque ainda existe uma poderosa estrutura estatal de laboratórios de investigação que foi desenvolvida pela União Soviética.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.


O anúncio de que a Rússia já dispunha de uma vacina contra a Covid-19 deu lugar a massivas desqualificações prenhes de carga política e económica. O alinhamento com os EUA por parte dos grandes meios de comunicação, correias de transmissão da servil subordinação política ao imperialismo norte-americano – que por outro lado se assemelha cada vez mais àquele que tenta salvar-se agarrando-se a quem se afoga –, leva a desqualificar tudo o que vem da Rússia com a irracionalidade e sistematicidade de uma mola.


No caso da vacina russa, a rejeição mediática generalizada está também untada pelos poderosíssimos interesses das multinacionais farmacêuticas. Os impérios do medicamento já esfregavam as mãos e preparavam os seus cofres para recolher os lucros da venda mundial de centenas de milhões de vacinas.

Ainda está fresca a memória dos milhares de milhões de dólares obtidos pela Gilead [1] com o Sovaldi ou pela Roche com o Tamiflu [2] , fármaco criado contra uma epidemia, a da Gripe A, que nunca existiu.

Muito se ironizou sobre os dois lapsos de Fernando Simón ao atribuir a vacina à URSS. Desconheço qual é a opinião de Simon sobre a URSS, mas efectivamente, os avanços soviéticos em saúde pública e medicina preventiva – alguns dos quais sobreviveram à Perestroika de Gorbachev, que considerava suspeito de ineficácia tudo o que era público – tornaram possível uma vacina à qual, significativamente, chamaram Sputnik V.

A URSS e a saúde pública

A Revolução de Outubro de 1917 deu origem ao primeiro sistema público de saúde, universal, baseado na promoção da saúde e na prevenção da doença e que exigia no seu funcionamento a participação da população na tomada de decisões [3] .

Num Estado que apresentava no início do século XX taxas de mortalidade infantil elevadíssimas – de cada 1.000 mortos, dois terços eram crianças com menos de 5 anos – e de mortalidade por doenças infecciosas (a mortalidade por tuberculose era de 400/100.000), a implementação de serviços de saúde em todos os recantos do imenso território foi acompanhada pela implementação de medidas de prevenção generalizadas [4] .

A vacinação de toda a população foi mais uma medida, entre outras também decisivas. O acesso a água potável e ao tratamento de resíduos, à electricidade (“O comunismo é o poder dos sovietes mais a electrificação de todo o país” V.I. Lénine [5] ), a habitação higiénica com aquecimento, a boa alimentação, a condições de trabalho decentes, a educação, … e ao poder político – conditio sine qua non –, são muito mais importantes do que os medicamentos para melhorar a saúde das populações [6] .

A Rússia czarista já havia desenvolvido uma importante trajectória científica em microbiologia, e especificamente em vacinas, que não chegavam ao seu povo. Antes da descoberta da vacina contra a varíola por Edward Jenner em 1796 e uma vez que a doença devastava desde há séculos a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, aplicava-se um procedimento arriscado: a variolização. Provocava-se o contágio para induzir imunidade, embora o risco de morte fosse elevado.

Após a morte por varíola do czar Pedro I em 1730, a imperatriz Catarina II, juntamente com o seu séquito, submeteu-se publicamente a tal procedimento – que teve êxito – e utilizou-o como arma propagandística a favor da ciência e contra a superstição. Efectivamente, com apoio estatal foram desenvolvidas instituições científicas relacionadas com a imunologia.

O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia, responsável pela descoberta da vacina contra a Covid 19, tem o nome do cientista Fiodor Gamaleya . Gamaleya desenvolveu nos finais do século XIX importantes investigações sobre a raiva com Luis Pasteur e com o seu apoio fundou o primeiro Instituto Bacteriológico da Rússia, o segundo do mundo. Seguiram-se descobertas de Gamaleya e outros cientistas russos sobre vacinas e mecanismos de transmissão da cólera, peste, tifo, etc.

O triunfo da Revolução em 1917 criou as condições para a aplicação desses avanços, que tinham permanecido encerrados em laboratórios, ao conjunto da população. Realizou-se a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade:   em 18 de Setembro de 1918, o Comissário do Povo para a Saúde Pública N.A. Semashko adoptou o “Regulamento de vacinação contra a varíola” baseado no relatório científico de Gamaleya e em Abril de 1919 o Presidente do Conselho de Comissários do Povo V.I. Lénine assinou o decreto correspondente. Foi a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade [7] .

No início dos anos 1930, a URSS foi o primeiro território do mundo a anunciar a erradicação da varíola. À escala mundial esse facto ocorreu 50 anos depois.

Os anos em que a OMS gozou de prestígio e autoridade mundiais – antes de ser engolida pelas multinacionais farmacêuticas – foram tempos de grande influência da URSS. Em 1958, Viktor Zhdanov, vice-ministro da Saúde soviético, propôs à Assembleia da OMS um plano para erradicar a varíola à escala global, que foi aprovado e posto em marcha. Algo mais de vinte anos depois, ao declarar a erradicação da varíola no planeta, o director da OMS lembrou a contribuição extraordinária da URSS para os países carentes de recursos: 400 milhões de doses da vacina [8] .

A vacina contra a poliomielite na URSS e a da Covid 19

Em meados do século XX uma nova epidemia causava grande mortandade e incapacitações: a poliomielite. Nos EUA, em 1955, foi desenvolvida a primeira vacina, baptizada Salk com o nome do seu descobridor. Pouco depois, o virologista Albert Sabin descobriu outro tipo de vacina mais eficaz, mais barata e mais segura (a vacina de Salk tinha apenas 60% de eficácia). Dado o sucesso da primeira não foi possível testá-la nos EUA.

Os cientistas soviéticos, Mikhail Chumakov e Anatoly Smorodintsev, foram enviados aos Estados Unidos. Sabin e Chumakov acordaram continuar a desenvolver a vacina em Moscovo. Vários milhares de doses da vacina foram trazidos dos Estados Unidos numa mala vulgar e as primeiras vacinações começaram.

Chumakov e a sua companheira, a virologista Marina Voroshilova, iniciaram a experiência em Moscovo com os seus próprios filhos. A vacina consistia num vírus debilitado, utilizava-se a via oral e era administrada por meio de um torrão de açúcar, de forma que não necessitava de pessoal qualificado.

Em ano e meio acabou a epidemia na URSS. Em 1960, 77,5 milhões de pessoas foram vacinadas. Albert Sabin foi chamado a depor acusado de actividades anti-americanas.

Uma anedota da época acaba por ser de grande actualidade. No Japão, a poliomielite assolava a população infantil e apenas a vacina Salk, de eficácia limitada e além disso em quantidade insuficiente, estava disponível. A vacina produzida na URSS não conseguia, por óbvias razões políticas e económicas, as licenças para ser importada. Depois de diversas peripécias, milhares de mulheres japonesas saíram à rua para exigir a vacina e alcançaram o seu objectivo. O filme soviético-japonês “Step” do realizador Alexander Mitta conta a história [9] .

Deve sublinhar-se que os avanços russos em matéria de vacinas continuaram após a queda da URSS. O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia descobriu recentemente uma vacina contra o Ébola e trabalha actualmente em várias linhas de investigação, uma das mais avançadas a que tenta encontrar a vacina contra outro Coronavírus, o MERS-Cov. Desta forma, como reiteraram proeminentes investigadores russos, a rapidez do processo com a vacina contra a Covid-19 deve-se ao facto de se ter trabalhado sobre plataformas criadas há anos que avançavam em direcções semelhantes. De momento, a Rússia anunciou a fabricação de 1.000 milhões de doses para 20 países solicitantes.

A experiência continuará a escrever história. O que não se pode ignorar é que a campanha para desacreditar a vacina russa é orquestrada por gente que nada tem a ver com procedimentos científicos e tem, sim, muita relação com poderosíssimos interesses económicos, entre outros, da indústria farmacêutica.

Por outro lado, apesar dos lapsos de Fernando Simón, nem Putin é Lénine, nem a Rússia é a URSS. Mas nós, trabalhadores de todo o mundo, não deveríamos esquecer que a gigantesca gesta operária de Outubro de 1917 e a derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial, ainda continua a permitir alcançar, como neste caso, avanços científicos desenvolvidos sobre décadas de trabalho não sujeito aos interesses do capital e produzidos em instituições públicas.

Não é de todo provável que, apesar do sofrimento causado pela pandemia e do evidente desastre do sistema de saúde no Estado espanhol, o governo “progressista” se atreva a dar prioridade à saúde do seu povo e enfrentar, mesmo que apenas uma vez, o poder de um dos baluartes do imperialismo:   a indústria farmacêutica.

A conquista da independência, da verdade, terá que vir de outras mãos, da construção de outro poder capaz de derrotar a barbárie.


(A autora é médica e dirigente da Red Roja em Espanha)

[1] A multinacional norte-americana Gilead quadruplicou os seus lucros ao comprar a patente do medicamento Sofosbuvir para Hepatite C. O medicamento, descoberto em laboratórios públicos dos Estados Unidos, era vendido em função da negociação com o Estado comprador. Um tratamento na Índia custava entre 100 e 200 dólares e em Espanha, 25.000. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[2] O Tamiflu da farmacêutica Roche, a maior vigarice da história. Governos de todo o mundo gastaram milhares de milhões de dólares num medicamento contra uma epidemia que não existiu. A multinacional ocultou resultados de investigações que demonstraram que não encurtava os internamentos, nem reduzia as complicações e que, pelo contrário, tinha importantes efeitos secundários. O governo de Zapatero gastou 333 milhões de euros em Tamiflú em 2009, em plena crise, quando a despesa pública era maciçamente cortada na saúde e outros serviços públicos. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[3] Uma ampla referência à obra seminal sobre os princípios fundamentais e o desenvolvimento do sistema de saúde soviético e o ensino das profissões da saúde “Social Hygiene and Public Health Organization” por A.F. Serenko e V.V. Ermakor, acessível em espanhol, pode ser consultada em https: www.scielosp.org/article/rcsp/2017.v43n4/645-660/
[4] Um resumo das origens do Sistema de Saúde da URSS e da figura de Nikolai Semasko, primeiro Comissário do Povo para a Saúde, pode ser encontrado em russo, com tradução automática, aqui: regnum.ru/news/polit/ 2318307.html
[5] “Lâmpada de Ilyich” A primeira lâmpada foi inventada por um engenheiro russo em 1874 e sua chegada às aldeias mais remotas da Rússia tornou-se o símbolo da Revolução. Aqui pode ver pormenores do GOELRO, o plano de electrificação de toda a Rússia. https://es.wikipedia.org/wiki/GOELRO
[6] Sobre o médico prussiano Rudolf Virchov, patologista de destaque e considerado o fundador da Saúde Pública. http://webs.ucm.es/centros/cont/descargas/documento28401.pdf
[7] A história da primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade e da erradicação da varíola na URSS pode ser consultada aqui:   books.google.es/…
[8] https://www.who.int/mediacentre/news/notes/2010/smallpox_20100517/es/
[9] Com base nesta história, o realizador Alexander Mitta filmou em 1988 a coprodução sovieto-japonesa “Step”, com Leonid Filatov e Komaki Kurihara nos papéis principais. Oleg Tabakov, Elena Yakovleva, Vladimir Ilyin, Garik Sukachev actuaram com eles. A sua canção “My Little Babe” é reproduzida no filme www.academia.edu/39610881/CINE_RUSO_Historia_y_literatura_rusa_y_española