A confrontação dentro da Igreja com o Papa Francisco

(António Abreu, in AbrilNovoMagazine, 17/09/2018)
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O arcebispo Carlo Maria Vigano pediu há dias ao Papa Francisco que renunciasse, por ter encoberto na Igreja dos EUA o caso do cardeal Theodore McCarrick. Mas fê-lo já depois deste ter renunciado no mês passado e após ter sido comprovadamente denunciado por pedofilia. Vigano negou, vários dias depois, ter sido motivado por vingança pessoal. De facto, tinha sido referido na imprensa italiana que a sua não ascensão a cardeal poderia ter estado por detrás dessa sua inusitada intervenção.
O arcebispo fez publicar a declaração inicial através do blogue de um jornalista da televisão italiana, Aldo Maria Valli, quando há dias o Papa estava na Irlanda e fazia a crítica da pedofilia no clero, pedindo, às vítimas e ao mundo, perdão. Vigano não incluiu nenhum documento comprovativo da sua contundente declaração, limitando-se a referir que os encobrimentos na Igreja estavam a assemelhar-se a «uma conspiração de silêncio não muito diferente da que prevalecia na máfia».
No avião de regresso da Irlanda, Francisco não se quis pronunciar sobre a declaração de Vigano. E pediu aos repórteres que o acompanhavam: «leiam o documento cuidadosamente e julguem por vós mesmos».

O que move o arcebispo Carlo Vigano?

Para quem conhece os meios do Vaticano, outra das afirmações do arcebispo Vigano, ex-embaixador do Vaticano em Washington, de que decidira falar porque «a corrupção atingiu os níveis mais altos da hierarquia da Igreja», só se pode compreender como querendo desconsiderar uma luta que Francisco estava a travar, desde o início do seu mandato – tal como acontecera com Bento XVI –, contra essa corrupção e outros fenómenos muito negativos em que está envolvida boa parte da Cúria, pelo menos desde o papado de João Paulo II.
Dois sacerdotes do Vaticano acusaram posteriormente Vigano de não ter tido consciência do impacto do encontro com uma activista contra o casamento entre homossexuais, que organizou sem prestar contas disso, quando da visita do Papa a Washington. O único encontro marcado que Francisco esperava ter era com um ex-aluno, homossexual, e o seu parceiro. Atitude que é perfeitamente coerente com a sua declaração, de há poucos dias, sobre a aceitação nas famílias e na Igreja dos jovens homossexuais.
Vigano afirmou que Bento XVI referira a Francisco, em 2013, a condenável conduta sexual de McCarrick, a quem tinha imposto sanções. E referiu que Francisco o ignorara. Ora no período em que ele referiu que McCarrick estaria sancionado, o «sancionado» acompanhara em actos religiosos Bento XVI, o que revela uma falha da narrativa de Vigano…Mas sobre isto, nada disse.
Está hoje claro que Vigano1 se escondeu por detrás de meios de comunicação conservadores para publicar a declaração, onde chega a dizer que existe no Vaticano «uma rede homossexual» que promove os homossexuais na Igreja…

As eminências do conservadorismo e a «demissão» do Papa

De acordo com as leis da Igreja Católica, os Papas podem resignar mas por decisão própria. Foi o que aconteceu com Bento XVI quando, ao chegar aos 85 anos, concluiu que já não tinha forças bastantes para o desempenho do papado. Nunca ninguém o levou a resignar, o que torna esta declaração de Vigano duvidosa.
Não se percebe como poderia o Papa renunciar livremente quando existem pessoas a fazer campanha para isso. Não existe no Direito Canónico algo semelhante ao impeachment. Mesmo que a pressão psicológica sobre ele se tornasse insuportável ele não a aceitaria. Face a uma inesperada aceitação, muitos a entenderiam como resultado de uma coacção.
No entanto existem eminências do conservadorismo na Igreja que entendem que o Papa é um bispo como os outros que poderia renunciar «por causas justas ou graves». Outros entendem que os Papas Bento XVI e Francisco foram mal aceites e confundiram os fiéis e a fé.
No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia. E em Setembro do ano passado 62 católicos descontentes, nos quais se incluem um bispo já retirado e um antigo director do Banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta em que apontam a Francisco sete acusações específicas de ensinamentos heréticos.
Edward Peters, um conservador canonista de Detroit, disse no seu blogue que Francisco não deve ser considerado de forma diferente de outros bispos que, segundo a lei canónica, podem renunciar por causas justas ou graves e que o Papa também é bispo (de Roma)…

Um papado popular e que desagrada aos poderosos

A modéstia e humildade que Francisco transmitiu desde o início do mandato conferiram-lhe grande popularidade entre a generalidade dos crentes mas também fúria contra ele, inicialmente dissimulada, por parte dos sectores mais conservadores das hierarquias, nomeadamente em alguns países da Europa Central e nos EUA, acabou por vir à luz do dia.
O facto de ser o primeiro Papa não europeu agradou a todos os que não se conformavam com uma Igreja apenas dirigida por papas europeus, que ignorasse os sinais dos tempos, e a necessidade de dar resposta a novas e não tão novas questões, como a opção pelos pobres e a condenação do capitalismo global, as crescentes desigualdades sociais, a pompa e ostentação da riqueza no Vaticano, a continuidade do combate à corrupção e criminalidade no seio da Cúria e outras estruturas eclesiásticas, o divórcio entre casais católicos e o dificultar da sua normalização de direitos e deveres no seio da sua Igreja, o acolhimento na Igreja e na família dos homossexuais, a exigência do apoio dos estados ao fenómeno, que se acentuou dramaticamente, da imigração clandestina.
Francisco imprimiu acções práticas nas orientações para a Igreja. E também houve gestos simbólicos, mas que falaram por si, como conduzir um Fiat, transportar as próprias malas, pagar a conta em hotéis, receber um casal homossexual no México ou lavar os pés a refugiadas muçulmanas.
Como é evidente, o Papa não está a introduzir alterações revolucionárias, de ruptura, na Igreja. Por exemplo, em quase todo o mundo, os casais que se divorciam e voltam a casar têm acesso à comunhão apesar de ainda haver padres ultraconservadores que o recusam a fazer. Noutras questões há uma crescente abertura no seio dos fiéis e do clero.
«No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia»
A discussão conduzida pelos sectores mais conservadores está inquinada. Para eles, as reformas cautelosas de Francisco põem em causa a crença de que as verdades da Igreja são intemporais. E que assim continuam, porque se não são, então qual o seu valor? Para eles, a doutrina afirma que o Papa não pode estar errado quando se pronuncia sobre questões centrais da fé, e que, portanto, se está errado, não pode ser Papa. Por outro lado, se este Papa está certo, todos os seus antecessores têm de ter estado errados. É uma pescadinha de rabo na boca alimentada por uma teologia dogmática mas que não colhe significativamente entre os fiéis e boa parte do clero.
Esta intervenção do Papa nas chamadas «questões difíceis» pode levar à abertura de outra – que em rigor nunca tem estado fechada – a do celibato dos padres. A não-aceitação do casamento de padres. Se outras intervenções se dirigem mais para a abertura perante a sociedade, esta tem seguramente a ver com o pretendido aumento das vocações sacerdotais e a própria sobrevivência da Igreja.
«[o Papa Francisco] compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização»
Austen Ivereigh, New York Times
Em matérias internacionais, não seria de esperar de Francisco uma confrontação clara com os EUA e outras potências ocidentais, mas foi quebrada a santa aliança de João Paulo II com Reagan e Tatcher na guerra conjunta contra o comunismo. A nomeação do Cardeal Woytila como João Paulo II ocorreu na sequência da morte de João Paulo I, estranha pelas muitas dúvidas que ainda hoje suscita. João Paulo I identificava-se com as causas dos países emergentes e mais pobres, mais caras a Paulo VI.
A condenação da continuidade da guerra da Síria, pelo Papa Francisco, em Fevereiro deste ano, foi dirigida a todos os responsáveis intervenientes no conflito. Depois, em Abril, fez referência a que as populações devam ter acesso às ajudas de que têm urgente necessidade e apelou à cessação imediata da violência, para que seja dado o acesso à ajuda humanitária – alimentos e remédios – e se retirem os feridos e os doentes, nas situações de combate com os terroristas sitiados. Foi o caso presente de Idlib.
Em Bari, em Julho passado, promoveu uma cimeira ecuménica pelo Médio Oriente, com vários responsáveis cristãos, perante os quais recordou o «grande sofrimento» dos fiéis cristãos na Terra Santa, temendo a eliminação desta sua presença histórica.
No que respeita ao processo de reunificação da Coreia, afirmou, em mensagem do final de Março, que na Coreia se vive um processo de distensão após dois anos de escalada da tensão provocada pelos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte. «Que os que têm responsabilidades directas actuem com sabedoria e discernimento para promover o bem do povo coreano e para gerar confiança na comunidade internacional».
Ao falar sobre o Iémen, país devastado por três anos de guerra de agressão saudita, pediu «diálogo e respeito mútuo». Francisco citou, ainda, a Venezuela, país ao qual desejou uma saída «justa, pacífica e humana» para a crise política e humanitária.
O presidente russo e o líder da Igreja Católica, em Dezembro de 2016, tinham trocado pareceres «sobre a proteção dos cristãos na área de conflitos regionais e a importância do diálogo inter-religioso construtivo para preservar a base ética das questões de paz». Falaram ainda das relações entre a Igreja Católica e a Igreja Cristã Ortodoxa, dominante na Rússia.
Em Maio deste ano, o New York Times citava Austen Ivereigh, autor de The Great Reformer: Francisco and the Making of a Radical Pope (Francisco, o grande reformista e a realização de um papado radical), como tendo dito que as opiniões de Francisco se formaram na Argentina, influenciadas por uma vertente do nacionalismo latino-americano mais voltada para a resistência às forças multinacionais, e não para uma nostalgia europeia ligada a um passado de pureza mítica. «Ele compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização».2
Francisco tem tido a capacidade, no quadro de uma de uma situação geoestratégica hoje muito mais policentrada, de fazer pontes para que a paz possa progredir entre muitos actores. Não se lhe pode pedir, porém, que seja outra pessoa e trabalhe com outro Vaticano.
Na minha opinião, o seu papel tem sido construtivo para se atingir a paz em várias situações muito graves.
  • 1. Uma sucinta biografia do arcebispo Vigano e das suas controvérsias pode ser encontrado em «Who is Archbishop Carlo Maria Vigano?», National Catholic Reporter, 28 de Agosto de 2018.
  • 2. Ao contrário, a direita populista, pela voz de «Steve Bannon – ele próprio católico – gosta de chamar a Francisco “comunista”, pela sua política econômica». Em «Pope Francis in the wilderness», New York Times, 29 de Abril de 2018.

Este artigo encontra-se em: antreus http://bit.ly/2QBzJrp

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As soluções à pressa

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 16/09/2018)

JPP

Pacheco Pereira

…estão à vista nos seus maus resultados. Foram as pressas de se fazer alguma coisa que explicam as falcatruas com as casas de Pedrógão, são as pressas para responder ao caos dos comboios que explicam uma bizarra compra de 23 comboios que só chegam daqui a muitos anos.

Percebe-se que a compra, que nada indica, pelo discurso público, que estivesse prevista (se não fosse assim não seria antecedida pela novela dos empréstimos de comboios espanhóis, que se percebe era a solução prevista), foi decidida para responder à pressão política de alguns partidos que descobriram agora que os comboios estão mal.

Até pode ser a melhor solução e ter sido pensada à exaustão, mas custa-me aceitar que não haja no mercado mundial mais oferta de comboios a curto prazo, seja em segunda mão, para resolver os problemas que são de curto prazo. Sim, porque quem usa com frequência comboios, como este vosso autor, já de há muito, antes de o tema ficar na moda, escreveu e falou na Quadratura do Círculo, sobre a acentuada perda de qualidade dos comboios, desde a classe eufemisticamente chamada “conforto” até à classe ainda mais eufemisticamente chamada “turística”.


Degradação da qualidade das capas dos livros
Há excepções à regra, mas a regra é a enorme degradação da qualidade das capas dos livros portugueses, tornando as livrarias uma monótona sucessão de imagens todas iguais, estereotipadas, entre o méli-mélo e umas recriações históricas que parecem cromos juvenis, para pior. Esta degradação é ainda mais evidente quando se passa umas semanas a desenterrar, das suas caixas e do pó, uma biblioteca fechada há muitas dezenas de anos. E é a surpresa das capas, desde colecções comuns, policiais, de ficção, do “coração”, pulp fiction produzida para ser barata e consumida ao ritmo da semana, infantil, tudo com capas originais, cuidadas para chamar a atenção, muitas vezes berrantes ao estilo das histórias de quadradinhos da época, produzidas por nomes que se tornaram conhecidos, ou já eram conhecidos e respeitados, mas também por um proletariado do desenho, da pintura, dos cartazes, que fazia capas, telas para os cinemas, publicidade, cromos de colecção, capas de fados e partituras. Mas tudo explodia de vigor, cor, imaginação, kitsch do bom. Uma exposição dessas capas seria um sucesso. Nada era deslavado, mortiço, esbatido e esmaecido, ton sur ton, aborrecido até ao limite. Lá dentro e cá fora.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Era outro mundo de edição
Noutra altura falarei disso, não eram só as capas, mas o mundo da edição popular, com pequenos livros, mesmo fisicamente falando, em mau papel para serem muito baratos, que saíam todas as semanas para um público popular que hoje não lê.
Eram, para usar a terminologia da época, para “os magalas” e para as “sopeiras”, mas aquelas editoras como a Agência Portuguesa de Revistas fundada no final dos anos quarenta e que publicava milhões de exemplares por mês de tudo, revistas de cinema, livros policiais, novelas amorosas, cromos, histórias aos quadradinhos, um mundo de leitura e de leitores que acabou. Sim, porque ler no Facebook não é ler, e o mito urbano de que a leitura apenas migrou de meio, é apenas um mito.

O principal problema com Trump é que é perigoso, muito perigoso
O livro de Bob Woodward e o editorial anónimo do New York Times têm um ponto em comum, que transcende as circunstâncias do livro e do editorial. Trump é completamente desprovido das qualidades para ser quase tudo o que não seja um apresentador de reality show (sim, Trump não foi um homem de negócios de sucesso como se repete vezes de mais…) e, muito menos, para ser o homem mais poderoso do mundo. É ignorante, presunçoso, impulsivo, preguiçoso, superficial, agressivo, instável, narcisista, amoral e desprovido de qualquer respeito pela democracia e a lei. Tem uma intuição sobre os conflitos, em particular sobre como provocá-los e como alimentar uma clientela com esses conflitos, mas o seu mundo é escasso, tal como a sua linguagem. Por onde passa deixa um rastro de ordens contraditórias, de frases sem sentido, de ameaças e de afirmação da força dos cobardes. Quando as coisas ficam negras, lá hasteia a bandeira para McCain, ou desdiz-se com o que disse com Putin.

O livro e o editorial fazem um retrato sinistro de como funciona a Casa Branca de Trump, com aquele monstro no centro. Os detalhes transpiram todos os dias, e aqui nem sequer precisamos de encontrar o demónio nos detalhes visto que ele está no traço grosso. Os “adultos na sala”, cada vez menos e cada vez menos adultos, podem contê-lo numa luta de exaustão, mas como diz Woodward, “livremo-nos de haver uma verdadeira crise”.

Retrato dos EUA à espera do colapso

(Por Chris Hedges, in Blog OutrasPalavras, 12/09/2018)

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Dominação financeira. Desigualdade. Serviços públicos devastados. Assim se desfaz a “democracia” que inspirou as elites do Ocidente por cem anos. Trump — não se iluda — é só um sintoma.


O governo Trump não emergiu, prima facie, como Vênus numa meia concha do mar. Donald Trump é o resultado de um longo processo de decadência política, cultural e social. É produto da falência da democracia norte-americana. Quando mais o país mantiver a ficção de que é uma democracia que funciona, de que Trump e as mutações políticas à sua volta são de alguma forma um desvio aberrante que pode ser vencido nas próximas eleições, mais nos se precipitará em direção à tirania.

O problema não é Trump. É um sistema político dominado pelo poder corporativo e mandarins dos dois principais partidos políticos, para os quais a sociedade não conta. Só será possível recuperar o controle político desmantelando o estado corporativo, e isso significa desobediência civil maciça e contínua, como aquela demonstrada neste ano por professores de todo o país. Se não nos levantarmos, entraremos numa nova idade das trevas.

O Partido Democrata, que ajudou a construir nosso sistema de totalitarismo invertido, é uma vez mais tido como o salvador por muitos no campo da esquerda. Isso, apesar de o partido recusar-se firmemente a enfrentar a desigualdade social que levou à eleição de Trump e à insurgência de Bernie Sanders. Ele é surdo, mudo e cego ao sofrimento real que flagela metade do país. Não lutará para pagar aos trabalhadores um salário digno. Não derrotará a indústria farmacêutica e a de seguros para propiciar cuidados de saúde para todos. Não conterá o apetite voraz das forças armadas, que estão eviscerando o país e promovendo a instauração de guerras estrangeiras fúteis e caras. Não irá restaurar nossas liberdades civis perdidas, incluindo o direito à privacidade, à liberdade da vigilância governamental e ao devido processo legal. Ele não vai expulsar da política o dinheiro sujo e corporativo. Não vai desmilitarizar a polícia e reformar um sistema prisional que tem 25% dos prisioneiros do mundo, embora os Estados Unidos tenham somente 5% da população mundial. Ele atua para as margens, especialmente em épocas eleitorais, recusando-se a abordar problemas políticos e sociais substantivos, e focando, ao contrário, em questões culturais limitadas como direitos dos homossexuais, aborto e controle de armas, em nossa espécie peculiar de antipolítica.

Essa é uma tática condenada, mas compreensível. A liderança do partido, os Clinton, Nancy Pelosi, Chuck Schumer, Tom Perez são criações da América corporativa. Num processo político aberto e democrático, não dominado pelas elites partidárias e pelo dinheiro corporativo, essas pessoas não teriam poder político. Elas sabem disso. Iriam antes implodir o sistema inteiro que abrir mão de suas posições privilegiadas. E isso, temo, é o que irá acontecer. A ideia de que o Partido Democrata é de algum modo um baluarte contra o despotismo desafia suas atividades políticas nas últimas três décadas. Ele é a garantia do despotismo.

Trump explorou o ódio que enormes segmentos da população norte-americana têm de um sistema político e econômico que os traiu. Trump pode ser inepto, degenerado, desonesto e narcisista, mas ridiculariza habilmente o sistema que estes vastos segmentos desprezam. As provocações cruéis e humilhantes que dirige às agências governamentais, leis e elites do establishment ecoam junto às pessoas para quem essas agências, leis e elites tornaram-se forças hostis.

E para muitos que não veem na paisagem política nenhuma mudança para aliviar seu sofrimento, a crueldade e os insultos de Trump são pelo menos catárticas.

Como todos os déspotas, Trump não tem fundamentos éticos. Escolhe seus aliados e nomeados com base na lealdade pessoal e bajulação obsequiosa que lhe fazem. Ele trai qualquer um. É corrupto, acumula dinheiro para si mesmo – no ano passado fez 40 milhões de dólares somente em seu hotel de Washington – e para seus aliados das corporações. Está desmantelando as instituições governamentais que proporcionaram, um dia, alguma regulação e supervisão. É um inimigo da sociedade aberta, o que o torna perigoso. Seu ataque turbinado aos últimos vestígios de instituições e normas democráticas significa que em breve não haverá nada, nem mesmo nominalmente, para nos proteger do totalitarismo corporativo.

Mas as advertências dos arquitetos de nossa democracia fracassada contra o fascismo rasteiro, entre elas a de Madeleine Albright, são de fazer rir Elas mostram o quão desconectadas do zeitgeist tornaram-se as elites. Nenhuma dessas elites tem credibilidade. Elas construíram o edifício de mentiras, enganações e pilhagem corporativa que tornou Trump possível. E quanto mais Trump ridiculariza essas elites, e quanto mais elas gritam como Cassandras, mais ele preserva sua presidência desastrosa e permite que os cleptocratas saqueiem o país, em rápida desagregação.

A imprensa é um dos principais pilares do despotismo de Trump. Ela tagarela infinitamente, como cortesãos do século 18 na corte de Versalhes, sobre as fraquezas do monarca, enquanto os camponeses não têm pão. Divaga sobre temas vazios, como a intromissão russa e um suborno a uma atriz pornô, que nada têm a ver com o inferno diário que, para muitos, define a vida nos EUA. Recusa-se a criticar ou investigar os abusos do poder corporativo, que destruiu nossa democracia e economia e orquestrou a maior transferência de riqueza, em favor dos mais ricos, da história do país. A imprensa corporativa é uma relíquia deteriorada que, em troca de dinheiro e acesso, cometeu suicídio cultural. E quando Trump a ataca com “fake news” ele expressa, uma vez mais, o ódio profundo de todos aqueles que ela ignora. A imprensa adora o ídolo de Mammon tão servilmente quanto Trump. Ela ama a presidência do reality show. A imprensa, especialmente o noticiário a cabo, mantém luzes acesas e câmeras rodando de modo que os espectadores fiquem colados a uma versão século 21 do “Gabinete do Dr. Caligari”. Isso é bom para os índices de audiência. É bom para os lucros. Mas acelera o declínio.

Tudo isso logo será agravado pelo colapso financeiro. Desde a crise financeira de 2008, os bancos de Wall Street receberam do Federal Reserve e do Congresso 16 trilhões de dólares em resgates e outros subsídios, com juros de quase zero por cento. Eles usaram esse dinheiro, assim como o dinheiro poupado pelos enormes cortes de impostos instituídos no ano passado, para recomprar suas próprias ações, aumentando a remuneração e os bônus de seus gerentes e empurrando a sociedade mais fundo para a servidão de uma dívida insustentável. Só as operações do cassino de Sheldon Adelson tiveram uma isenção fiscal de 670 milhões de dólares na legislação de 2017. A proporção média entre o que é pago a um presidente de empresa e a um trabalhador é agora de 339 para 1, com a maior diferença aproximando-se de 5.000 para 1. Esse uso circular de dinheiro para fazer e acumular dinheiro é o que Karl Marx denominava “capital fictício”. O aumento constante da dívida pública, da dívida corporativa, da dívida de cartão de crédito e da dívida de empréstimos estudantis acabará por levar, como escreve Nomi Prins, a um “ponto de inflexão – quando o dinheiro que entra para suprir essa dívida, ou disponível para empréstimo, simplesmente não cobrirá o pagamento dos juros. Então, as bolhas da dívida irão estourar, começando pelas ações de maior rendimento”.

Uma economia que depende da dívida para seu crescimento faz com que a taxa de juros salte para 28% quando alguém atrasa um pagamento do cartão de crédito. Essa a razão porque os salários estão estagnados ou foram reduzidos em termos reais – se a população tivesse um rendimento sustentável não seria obrigada a pedir dinheiro emprestado para sobreviver. É por isso que uma educação universitária, casas, contas médicas e serviços públicos custam tanto. O sistema é projetado para que nunca possamos nos libertar das dívidas.

Contudo, a nova crise financeira, como aponta Prins em seu livro“Collusion: How Central Bankers Rigged the World” (“Conluio: Como os banqueiros centrais controlaram o mundo”), não será como a última. Isso porque, como ela diz, “não há Plano B”. As taxas de juros não podem ser mais rebaixadas. Não houve crescimento na economia real. Na próxima vez, não haverá saída. Quando a economia quebrar e a raiva explodir, em todo o país, numa tempestade de fogo, surgirão os políticos bizarros, aqueles que farão Trump parecer inteligente e benigno.

E então, para citar Vladimir Lenin, o que fazer?

Precisamos investir nossa energia na construção de instituições paralelas, populares, para proteger-nos e empregar poder contra poder. Essas instituições paralelas, inclusive sindicatos, organizações de desenvolvimento comunitário, de moeda local, partidos políticos alternativos e cooperativas de alimentos terão de ser construídas de cidade em cidade. As elites, num tempo de dificuldade, irão retirar-se para seus condomínios fechados e deixarão que nos viremos por nós mesmos. Os serviços básicos, da coleta de lixo ao transporte público, distribuição de alimentos e assistência médica, entrarão em colapso. O desemprego e subemprego massivo, desencadeando agitação social, serão tratados não através da criação de empregos pelo governo, mas com a brutalidade da polícia militarizada e a completa suspensão das liberdades civis.

Os críticos do sistema, já empurrados para as margens, serão silenciados e atacados como inimigos do Estado. Os últimos vestígios de sindicato de trabalhadores entrarão no alvo, um processo a ser acelerado em breve, com a esperada decisão na Suprema Corte de um caso que enfraquecerá a capacidade dos sindicatos do setor público de representar trabalhadores. O dólar deixará de ser moeda de reserva, causando acentuada desvalorização. Os bancos fecharão as portas. O aquecimento global resultará em custos cada vez mais pesados, especialmente para as populações costeiras, na agricultura e na infraestrutura — custos que o Estado exaurido não conseguirá enfrentar. A imprensa corporativa, como as elites dominantes, irá do burlesco ao absurdo, sua retórica tão patentemente fictícia que, como em todos os Estados totalitários, estará desvinculada da realidade. Os meios de comunicação soarão tão estúpidos quanto Trump. E, para citar W.H. Auden, “as criancinhas morrerão nas ruas”.

Como correspondente estrangeiro cobri sociedades arruinadas, inclusive a antiga Iugoslávia. É impossível para qualquer população atingida compreender, às vésperas da implosão, quão frágil tornou-se o sistema financeiro, social e político degradado. Todos os presságios do colapso são visíveis: infraestrutura em ruínas; subemprego e desemprego crônicos; uso indiscriminado de força letal pela polícia; paralisia política e estagnação; uma economia construída na forca da dívida; fuzilamentos niilistas maciços em escolas, universidades, locais de trabalho, shoppings, casas de shows e cinemas; overdoses de opióides que matam cerca de 64 mil pessoas por ano; epidemia de suicídios; expansão militar insustentável; o jogo como ferramenta desesperada de desenvolvimento econômico e receita do governo; a captura do poder por um grupo minúsculo e corrupto; censura; redução física de instituições públicas, de escolas e bibliotecas a tribunais e equipamentos de saúde; bombardeio incessante de alucinações eletrônicas para desviar-nos da visão deprimente em que se transformou a América e manter-nos capturados por ilusões. Nós sofremos as patologias habituais da morte iminente. Eu ficaria feliz em estar errado. Mas já vi isso antes. Conheço os sinais de aviso. Tudo o que posso dizer é: prepare-se.


Chris Hedges é jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer, autor best selling do New York Times, professor do programa de nível universitário oferecido aos prisioneiros do estado de New Jersey pela Universidade Rutgers, e ordenado…


Fonte aqui