O fim da globalização e o regresso da soberania

(Vitor Raposo, in Facebook, 29/04/2026, Revisão. da Estátua)

World map showing cracked and floating continents over ocean at night

Um mapa-múndi rachado e fragmentado flutuando sobre uma cena oceânica noturna. Imagem gerada por IA

(Este texto é longo mas merece reflexão, até por alguns laivos de radicalidade que me levaram a publicá-lo. Para o autor, a nova ordem mundial não será livre: será apenas mais bem administrada.

Estátua de Sal, 01/05/2026)


Durante anos venderam-nos a globalização como se fosse uma espécie de missa laica do progresso. Disseram-nos que o mundo aberto, integrado, interdependente e gerido por tecnocratas iluminados nos traria paz, prosperidade e eficiência. A China produziria barato. A Europa consumiria com ar condicionado moral. O Japão financiaria o sistema com dinheiro quase gratuito. Os Estados Unidos garantiriam a ordem com o dólar, porta-aviões, sanções e aquela subtileza diplomática típica de quem estaciona uma base militar à porta de casa dos outros para proteger a liberdade. E todos viveríamos felizes para sempre.

Como sempre, quando o poder promete o paraíso, convém contar os talheres. Porque a globalização que nos venderam não foi o mercado livre. Foi outra coisa. Foi a planificação global das elites financeiras, políticas e militares, disfarçada de liberalização económica. Foi comércio internacional sem liberdade real. Foi a mobilidade de capitais para os grandes, burocracia para os pequenos, resgates para os bancos, austeridade para os contribuintes, deslocalização para os trabalhadores e Power Points sobre sustentabilidade para todos.

O que está agora a morrer não é o comércio livre. Isso seria uma tragédia. O que está a morrer é a arquitetura imperial da globalização centralizada. A tal ordem internacional baseada em regras, sendo que as regras eram simples: eles fazem as regras, tu obedeces; eles imprimem a moeda, tu trabalhas; eles deslocalizam a indústria, tu compras barato; eles rebentam com a classe média, tu chamas-lhe progresso.

E quando alguma coisa corre mal, há sempre um painel em Davos para explicar que ninguém podia prever. A globalização falhou porque nunca foi liberdade O primeiro erro é chamar “globalização” a tudo.

Há uma diferença gigantesca entre comércio livre entre povos e globalização administrada por Estados, bancos centrais, instituições supranacionais, gestores de ativos e complexos militares. O comércio livre é simples: duas pessoas, duas empresas ou dois países trocam mercadorias voluntariamente porque ambas as partes acreditam ganhar com isso. Não é precisa uma bandeira da ONU em cima. Não é preciso um painel do Fórum Económico Mundial. Não é precisa uma diretiva escrita por alguém que nunca teve de pagar salários.

O comércio livre é orgânico. A globalização moderna foi outra coisa. Foi um arranjo político-financeiro criado no pós-guerra, consolidado depois do fim da Guerra Fria e acelerado com a entrada da China na economia mundial. Não nasceu da liberdade. Nasceu da engenharia geopolítica.

A lógica foi mais ou menos esta: A China seria a fábrica do mundo. O Japão seria o financiador silencioso, com taxas baixas, liquidez abundante e capital a circular pelo sistema. A Europa seria o consumidor sofisticado, burocrático, moralmente superior e militarmente adolescente, dependente dos americanos para a defesa e de terceiros para a energia. Os Estados Unidos seriam o polícia, o banqueiro, o emissor da moeda global e o dono informal da mesa.

Tudo isso assente no petrodólar. Ou seja: se querias energia, precisavas de dólares. Se precisavas de dólares, tinhas de jogar dentro do sistema. Se jogasses dentro do sistema, tinhas acesso a mercados, financiamento, proteção e investimento. Se não jogasses, recebias sanções, isolamento ou, em casos mais temperamentais, a democracia entregue por via aérea.

Chamaram-lhe ordem liberal internacional. Eu chamar-lhe-ia outra coisa: socialismo para os poderosos, capitalismo disciplinar para os restantes. O petrodólar foi a Constituição invisível do império. O dólar não se tornou a moeda de reserva mundial apenas porque os americanos são simpáticos, comem hambúrgueres e fazem filmes bons. O dólar tornou-se a moeda de reserva mundial porque foi apoiado por poder militar, acordos energéticos, instituições financeiras e uma rede de incentivos e punições.

O petrodólar foi o truque central. O mundo precisava de energia. A energia era comprada em dólares. Logo, o mundo precisava de dólares. E, enquanto o mundo precisasse de dólares, os Estados Unidos podiam exportar papel e importar bens reais.

É uma posição extraordinária. Tu produzes sapatos, aço, máquinas, alimentos, semicondutores, brinquedos, medicamentos. Eles produzem moeda, dívida pública, tecnologia e bombas inteligentes. Tu trabalhas. Eles emitem. É bonito, se fores o emissor.

Agora, claro, nada disto se mantém apenas com confiança. A confiança, em geopolítica, costuma ter um porta-aviões por trás. A rede militar americana, a NATO, as instituições multilaterais, o FMI, o Banco Mundial, o sistema SWIFT, as sanções financeiras, a compra de dívida americana por países aliados ou dependentes: tudo isto fazia parte da mesma arquitetura.

Não era uma conspiração no sentido infantil do termo. Era pior. Era um sistema. E sistemas não precisam de vilões de capa preta. Precisam apenas de incentivos bem alinhados. A classe média foi sacrificada no altar da eficiência Durante algum tempo, a coisa funcionou. Funcionou para Wall Street. Funcionou para o Silicon Valley. Funcionou para as multinacionais. Funcionou para quem tinha ativos financeiros, imóveis, ações, fundos, participações e acesso a capital barato.

Mas para a classe média ocidental, especialmente nos Estados Unidos e em parte da Europa industrial, o custo foi brutal. As fábricas foram-se embora. As cadeias de abastecimento foram-se embora. Os empregos industriais foram-se embora. A capacidade produtiva foi-se embora.

E ficou a narrativa. A narrativa dizia: “Não se preocupem, isto é progresso; os empregos antigos desaparecem, mas virão empregos melhores”. Vieram, de facto, alguns empregos melhores. Para alguns. Para muitos outros vieram call centers, precariedade, Uber, dívida estudantil, rendas impossíveis, antidepressivos e a obrigação moral de fingir entusiasmo por uma economia onde já não se produz quase nada, mas toda a gente tem uma app.

A classe média foi esvaziada enquanto lhe diziam que estava a beneficiar de preços mais baixos. E sim, os produtos ficaram mais baratos. Mas há um pequeno detalhe: quando perdes o emprego, a casa, a dignidade económica e a capacidade de sustentar uma família, talvez poupares 12 euros num micro-ondas fabricado em Shenzhen não seja exatamente a vitória civilizacional que te prometeram.

O problema nunca foi o mercado. O problema foi a aliança entre Estado e capital concentrado. O problema foi o intervencionismo monetário, a manipulação das taxas de juro, os resgates, os privilégios, as tarifas seletivas, os acordos políticos, a proteção dos incumbentes e a destruição lenta da concorrência genuína. Isto não foi capitalismo livre. Foi corporativismo global.

A Europa: a grande aluna de Erasmus da história A Europa, nesta história, merece um capítulo próprio. Porque poucas civilizações conseguiram trocar tanto poder real por tanto conforto administrativo. A Europa decidiu que podia abdicar da energia barata, da defesa própria, da indústria pesada e de uma política externa autónoma, desde que mantivesse boa sinalização moral, conferências climáticas, regulação abundante e direitos sociais financiados por dívida.

Durante décadas, a Europa viveu num regime infantilizado. Energia? Vinha da Rússia, do Médio Oriente ou de onde fosse conveniente. Defesa? Os americanos tratavam. Crescimento? O BCE imprimia, Bruxelas regulava e Berlim exportava. Segurança? NATO. Dinheiro barato? BCE. Consciência tranquila? Parlamento Europeu.

O resultado era previsível: quando a realidade voltou, a Europa descobriu que virtude sem poder é apenas teatro com catering. A guerra na Ucrânia, a crise energética, a dependência industrial, a fragilidade militar e a irrelevância estratégica mostraram o óbvio: quem não controla energia, defesa, moeda e produção não controla o seu destino. Pode ter bons discursos. Pode ter excelentes comissários. Pode até ter relatórios lindíssimos em PDF. Mas não manda. E no mundo real, quem não manda é mandado.

O fim da globalização é também o fim da ilusão americana Os Estados Unidos continuam a ser a maior potência do mundo. Seria absurdo fingir o contrário. Mas já não são a potência incontestada do mundo unipolar dos anos 90. A China cresceu demasiado. A Rússia, apesar de todos os seus problemas, mostrou que ainda consegue desestabilizar a ordem europeia. A Índia quer o seu lugar. O Golfo aprendeu a jogar em vários tabuleiros. Os BRICS querem alternativas.

E muitos países perceberam uma coisa fundamental: se o teu dinheiro pode ser congelado, se os teus pagamentos podem ser bloqueados, se as tuas reservas podem ser confiscadas e se o teu acesso ao sistema financeiro depende da boa vontade de Washington, então talvez aquilo a que chamavas “sistema financeiro internacional” seja, na prática, uma coleira.

Isto não significa que esses países sejam bons. Aqui convém não cair na parvoíce oposta. O facto de o império americano ser hipócrita não transforma automaticamente os seus rivais em campeões da liberdade. Putin não é Murray Rothbard com tanques. Xi Jinping não é um liberal clássico com paciência oriental. O Irão não é uma startup de soberania. A questão não é o bem contra o mal. É poder contra poder. E este é talvez o ponto mais importante: a nova ordem mundial não nasce de uma súbita vontade de liberdade. Nasce de uma redistribuição de força entre elites concorrentes.

Os quatro grandes blocos de poder

O mundo que se aproxima parece estar a ser disputado por quatro grandes blocos. Não são blocos ideológicos puros. São estruturas de poder. O primeiro bloco é o capital financeiro transnacional. Aqui entram os grandes gestores de ativos, os bancos sistémicos, os fundos, os bancos centrais, as instituições financeiras globais e toda a arquitetura que vive da circulação, controlo e alocação de capital.

Este bloco não tem pátria. Tem jurisdição. Não tem bandeira. Tem balanço. Não tem povo. Tem ativos sob gestão. BlackRock, Vanguard, State Street, JPMorgan, os grandes bancos, os bancos centrais e os organismos financeiros internacionais fazem parte desta camada. Não todos com os mesmos interesses, atenção. Há guerras internas. Os gestores de ativos não querem exatamente o mesmo que os bancos. Os bancos não querem exatamente o mesmo que o universo cripto. Os bancos centrais não querem perder relevância. Mas todos vivem de um princípio comum: controlar os fluxos de dinheiro é controlar o mundo sem precisar de governar diretamente.

É a forma mais elegante de poder. Não precisas de censurar um CEO. Basta cortares-lhe o financiamento. Não precisas de prender um conselho de administração. Basta empurrar as ações da empresa para fora dos índices. Não precisas de aprovar uma lei. Basta definires os critérios ESG, os ratings de risco, as condições de crédito, os requisitos de compliance, a elegibilidade para investimento institucional. O mercado deixa de ser um espaço livre de descoberta e passa a ser uma arena administrada por quem controla o acesso ao capital. E depois ainda te dizem que é capitalismo. Claro. E eu sou o Che Guevara de Anadia.

Os soberanistas: os Estados que não querem ser comprados

O segundo bloco é o dos soberanistas. São Estados ou líderes que percebem que, se deixarem o capital transnacional entrar sem limites, perdem o controlo do país. Aqui entram Rússia, China, Coreia do Norte e outros regimes com maior ou menor grau de autoritarismo. A sua lógica é simples: preferem ser mais pobres, mais fechados e mais ineficientes, desde que mantenham controlo sobre energia, indústria, defesa, recursos naturais, moeda e fronteiras.

Do ponto de vista libertário, estes regimes são profundamente problemáticos. São Estados fortes, centralizadores, coercivos, muitas vezes brutais. Mas do ponto de vista estratégico, há que entender a sua racionalidade.

Eles sabem que o capital transnacional não entra apenas para investir. Entra para condicionar. Primeiro compra empresas. Depois influencia elites. Depois financia ONGs. Depois molda a opinião pública. Depois exige reformas. Depois controla setores estratégicos. Depois o país já não é inteiramente país. É um ativo numa carteira global.

Os soberanistas rejeitam isso. Não por amor à liberdade individual, obviamente. Rejeitam porque querem ser eles a mandar. Ou seja: não querem libertar o cidadão. Querem preservar o Estado nacional contra outros centros de poder. É uma guerra entre donos, não uma revolta de escravos.

Os tecnocratas: os padres da nova religião digital

O terceiro bloco é o dos tecnólogos e tecnocratas. Estes são fascinantes porque, em público, falam sempre de eficiência, inovação, inclusão, acesso, democratização, sustentabilidade e futuro. É um sinal para esconderes a carteira.

O tecnocrata moderno acredita que tudo é um problema de design de sistema. A política é ineficiente? Automatiza-se. A moeda é lenta? Programa-se. A identidade é fragmentada? Digitaliza-se. O cidadão é imprevisível? Pontua-se. A liberdade é caótica? Otimiza-se. O mercado é incerto? Modela-se. O comportamento humano é demasiado livre? Audite-se.

E assim nasce o pesadelo mais sofisticado da história: uma prisão sem grades, onde tudo é conveniente, rápido, limpo, digital e moralmente justificado. Identidade digital. Moeda programável. Crédito social. Pagamentos rastreáveis. Cidades inteligentes. Vigilância algorítmica. IA administrativa. Robôs produtivos. Compliance automático. Tudo em nome da segurança, eficiência e inclusão.

A linguagem será sempre bonita. Nunca será “controlo social”. Será “proteção contra fraude”. Nunca será “vigilância”. Será “experiência personalizada”. Nunca será “limitação da liberdade económica”. Será “prevenção de risco sistémico”. Nunca será “censura financeira”. Será “cumprimento regulatório”. É aqui que o libertário deve ser particularmente atento. Porque a tirania do século XXI não virá necessariamente com botas militares. Virá com UX excelente.

O complexo militar-industrial: a velha arte de transformar crises em orçamento

O quarto bloco é o complexo militar-industrial. Este é o mais antigo, o mais bruto e, paradoxalmente, o mais honesto. Enquanto os outros falam de sustentabilidade, democracia, estabilidade financeira, inclusão digital e cooperação internacional, o complexo militar-industrial diz, basicamente: há ameaças, precisamos de mais dinheiro. E recebe. Sempre.

A guerra permanente foi uma das bases do sistema antigo. Não necessariamente guerra total entre grandes potências, isso seria demasiado arriscado, mas guerra permanente em teatros periféricos, tensão constante, inimigos rotativos, ameaças assimétricas, operações especiais, inteligência, cibersegurança, contratantes privados, reconstruções, bases, armamento, logística, consultoria, treino.

É um modelo económico. A instabilidade justifica despesa. A despesa alimenta contratantes. Os contratantes financiam influência. A influência produz novas ameaças. E as novas ameaças justificam nova despesa. É o milagre da multiplicação dos orçamentos. Cristo multiplicava pães. Washington multiplica ameaças.

A tokenização: libertação ou coleira digital?

Chegamos então ao ponto mais interessante: a tokenização. À primeira vista, a tokenização parece profundamente libertadora. E pode ser. Transformar ativos reais: ações, obrigações, imobiliário, commodities, direitos económicos em tokens negociáveis globalmente, 24 horas por dia, com liquidação quase instantânea, fracionamento, transparência e menor custo de intermediação é uma revolução.

Em teoria, isto democratiza o investimento. Permite que uma pessoa comum compre uma fração de um imóvel, de uma empresa, de uma obrigação, de um ativo internacional. Reduz barreiras. Aumenta liquidez. Diminui fricção. Abre mercados. Parece, portanto, um sonho libertário.

Mas há sempre uma pergunta que separa o ingénuo do adulto: Quem controla os carris? Porque a tecnologia em si não é liberdade. A tecnologia é poder. Pode ser poder distribuído ou poder centralizado. Uma blockchain aberta, descentralizada, resistente à censura e sem gatekeepers pode ser uma ferramenta de liberdade.

Uma blockchain controlada por gestores de ativos, bancos, reguladores, identidades digitais e compliance automático pode ser a infraestrutura perfeita para o controlo total.

E é aqui que mora o perigo. A tokenização pode destruir intermediários antigos. Mas também pode criar intermediários novos, ainda mais poderosos. Pode dar liquidez ao pequeno investidor. Mas também pode transformar todos os ativos do mundo em objetos permanentemente monitorizados, congeláveis, taxáveis e programáveis.

Pode abrir o mercado. Mas também pode fechar a liberdade. Imagina um mundo onde tudo o que possuis é tokenizado. A tua casa. As tuas ações. O teu salário. A tua pensão. O teu carro. Os teus direitos económicos. A tua identidade. A tua capacidade de transacionar.

Agora imagina que tudo isso está ligado a uma identidade digital, a uma carteira regulada, a uma pontuação de risco, a critérios políticos, ambientais ou sociais definidos por entidades que não elegeste e que não consegues despedir. Bem-vindo ao feudalismo digital. Terás ativos, talvez. Mas não terás soberania sobre eles.

CBDCs (Central Bank Digital Currency: o sonho húmido de qualquer burocrata

As moedas digitais de bancos centrais são o outro lado desta moeda. Literalmente. Os bancos centrais perceberam que, se o dinheiro físico desaparecer e os pagamentos privados, stablecoins, criptoativos e redes tokenizadas crescerem demasiado, eles podem tornar-se menos relevantes.

E um banco central irrelevante é uma coisa belíssima, mas infelizmente rara. Por isso surgem as CBDCs. A narrativa oficial será previsível: modernização dos pagamentos, inclusão financeira, combate à fraude, eficiência monetária, estabilidade, inovação.

A realidade potencial é mais sombria: dinheiro programável emitido pelo Estado. Dinheiro que pode expirar. Dinheiro que pode ser limitado por categoria de consumo. Dinheiro que pode ser bloqueado. Dinheiro que pode ter taxas de juro negativas aplicadas diretamente. Dinheiro que pode ser rastreado ao cêntimo. Dinheiro que transforma a tua vida económica num ficheiro administrativo.

Se acham que estou a exagerar, lembrem-se do que os Estados fizeram sempre que receberam novos poderes em tempos de crise. Primeiro dizem que é temporário. Depois dizem que é necessário. Depois dizem que é normal. Depois dizem que só um extremista quereria voltar atrás.

A história do Estado é a história da exceção transformada em regra. O Estado não abdica voluntariamente de poder. O Estado acumula poder, racionaliza poder, moraliza poder e depois chama-lhe serviço público.

As cripto moedas como ameaça real ao sistema

É por isso que o universo cripto é tão odiado e tão disputado. Não porque todos os projetos cripto sejam bons. Muitos são lixo. Muitos são casinos com whitepaper. Muitos são esquemas de enriquecimento rápido para adolescentes de 37 anos com foto de perfil em laser eyes. Mas a ideia central das cripto sérias é radical: retirar ao Estado e aos bancos o monopólio sobre o dinheiro.

Ora, isso é dinamite intelectual. Bitcoin, em particular, não é apenas um ativo. É uma provocação civilizacional. Diz ao Estado: não confio na tua moeda. Diz ao banco central: não confio na tua política monetária. Diz ao banco comercial: não preciso da tua permissão. Diz ao sistema financeiro: posso transportar valor sem pedir autorização.

É por isso que o sistema não sabe se deve proibir, cooptar, regular, comprar ou absorver. Provavelmente fará tudo ao mesmo tempo. A batalha real não será entre cripto e bancos num sentido romântico. Será entre liberdade monetária e domesticação regulatória.

O sistema tentará transformar as cripto moedas numa versão esterilizada de si mesma: ETFs (Exchange-Traded Funds) – fundos de investimento negociados em bolsa -, custodiantes, identificação total do utilizador, stablecoins permissionadas, bancos autorizados, smart contracts sujeitos a compliance, carteiras identificadas. Ou seja: deixar a embalagem revolucionária e retirar-lhe o conteúdo subversivo. É sempre assim. Primeiro ridicularizam. Depois combatem. Depois regulam. Depois compram. Depois dizem que foi ideia deles.

A nova ordem mundial será multipolar, mas não necessariamente livre

Muita gente celebra o fim da ordem unipolar americana como se isso significasse automaticamente mais liberdade. Não significa. Um mundo multipolar pode ser menos imperial, mas também pode ser mais fragmentado, mais vigiado, mais protecionista, mais instável e mais autoritário.

Em vez de um império dominante, poderemos ter vários feudos digitais e geopolíticos. O bloco americano com dólar, Wall Street, Silicon Valley, NATO e redes financeiras. O bloco chinês com controlo estatal, moeda digital, vigilância tecnológica e integração industrial. O bloco russo com energia, defesa, recursos naturais e profundidade estratégica. O bloco europeu tentando regular a realidade até ela preencher um formulário. O bloco cripto tentando escapar pelas frestas. O Sul Global negociando com todos, traindo todos, sobrevivendo como pode. Isto não é o nascimento da liberdade. É o fim de uma ordem e o início de uma negociação entre poderes. E quando os grandes poderes negociam, normalmente quem paga a conta é o indivíduo.

A pergunta libertária: onde fica a pessoa?

É aqui que a análise libertária tem de entrar. Porque quase todas as análises geopolíticas falam de Estados, blocos, moedas, alianças, recursos, mercados, bancos, exércitos e tecnologia. Mas raramente perguntam: E o indivíduo?

Onde fica a pessoa comum no meio disto? O trabalhador. O empresário. O investidor pequeno. A família. A comunidade local. O homem que quer trabalhar, poupar, educar os filhos, comprar casa, proteger a sua propriedade e não ser tratado como gado fiscal. A resposta é desconfortável: fica no mesmo sítio de sempre. No menu.

Para os globalistas financeiros, o indivíduo é um fluxo de caixa, utilizador, consumidor, dado, voto delegado, contribuinte indireto e titular passivo de produtos financeiros. Para os soberanistas, o indivíduo é cidadão, soldado potencial, trabalhador nacional, corpo estatístico e peça da grandeza do Estado. Para os tecnocratas, o indivíduo é um problema de gestão, perfil de risco, nó de dados, unidade comportamental e alvo de otimização. Para o complexo militar-industrial, o indivíduo é contribuinte, soldado, ameaça, vítima ou justificação. Todos falam em nome dele. Poucos querem realmente deixá-lo em paz.

E aqui entra a velha sabedoria libertária: o verdadeiro conflito não é a esquerda contra a direita, globalismo contra nacionalismo, Ocidente contra Oriente, Davos contra Moscovo, bancos contra cripto moeda.

O verdadeiro conflito é poder contra liberdade. Centralização contra autonomia. Coerção contra consentimento. Monopólio contra concorrência. Estado contra propriedade. Inflação contra poupança. Burocracia contra vida real.

O mercado livre não é Davos

Uma das grandes vitórias culturais dos inimigos da liberdade foi convencer as pessoas de que Davos representa o capitalismo. Não representa. Davos representa a fusão entre grandes empresas, grandes Estados, grandes bancos, grandes ONGs, grandes burocracias e grandes narrativas. Isso não é mercado livre. É aristocracia gestionária.

O mercado livre é o café da esquina a competir com outro café. É o produtor local a vender diretamente ao consumidor. É a empresa pequena a crescer sem pedir licença aos incumbentes. É o investidor a arriscar o seu capital e a perder se errar. É o banco a falir quando faz asneira. É o consumidor a escolher. É a taxa de juro a emergir da poupança real, não da manipulação de um comité. É a moeda a competir. É o Estado não resgatar amigos. É a propriedade ser respeitada. É o contrato voluntário. É a liberdade de entrar e sair.

Davos é outra coisa. Davos é o capitalismo sem falências, o socialismo sem igualdade, a democracia sem povo e a aristocracia sem coragem para dizer o seu nome.

O que vem aí? O que vem aí será uma luta pela infraestrutura da próxima ordem. Não apenas território. Não apenas petróleo. Não apenas semicondutores. Não apenas moeda. Mas a infraestrutura total. Quem controla os carris financeiros? Quem controla a identidade digital? Quem controla a liquidação dos ativos? Quem controla os dados? Quem controla a energia? Quem controla a IA? Quem controla os chips? Quem controla as redes de pagamento? Quem controla as narrativas? Quem controla o acesso ao capital?

Essa será a guerra silenciosa. E será vendida ao público como modernização. O cidadão comum ouvirá palavras bonitas: inovação, segurança, transição, inclusão, sustentabilidade, resiliência, eficiência. Mas por baixo estará a pergunta eterna: Quem manda? E, mais importante ainda: Quem pode dizer não?

Porque a verdadeira liberdade não é receber benefícios do sistema. É poder sair dele. É poder guardar valor fora da moeda estatal. É poder transacionar sem autorização política. É poder educar os filhos sem programação ideológica. É poder produzir sem ser esmagado por licenças e impostos. É poder investir sem pedir bênção a burocratas. É poder discordar sem ser financeiramente estrangulado. É poder viver sem que cada decisão seja monitorizada, pontuada, aprovada e arquivada.

O erro dos conservadores e o erro dos progressistas

Os progressistas olharão para isto e dirão: precisamos de mais regulação global para controlar os abusos do capital. Como se a regulação global não fosse escrita, capturada e operacionalizada pelos mesmos interesses que dizem combater.

Os conservadores olharão para isto e dirão: precisamos de Estados nacionais fortes para proteger o povo. Como se o Estado nacional forte, uma vez criado, fosse limitar-se a proteger o povo e não a controlá-lo, taxá-lo, recrutá-lo, endividá-lo e vigiá-lo.

Ambos falham porque ambos adoram o poder. Só discordam sobre quem deve segurá-lo. O libertário, pelo contrário, deve desconfiar de todos os poderes concentrados. Do banco central e do ministério. Da multinacional e da agência reguladora. Do general e do tecnocrata. Do gestor de ativos e do demagogo nacionalista. Do globalista que quer dissolver fronteiras para controlar mercados. E do soberanista que quer reforçar fronteiras para controlar pessoas.

A liberdade não está automaticamente em nenhum desses lados. A liberdade está na descentralização real. Na propriedade privada. Na concorrência monetária. Na livre associação. Na secessão. Na subsidiariedade radical. Na capacidade de cada comunidade, empresa, família e indivíduo reduzir dependências dos grandes centros de poder.

A resposta: soberania pessoal antes da soberania política

Muito se fala agora de soberania nacional. E sim, a soberania nacional importa. Um país que não controla energia, defesa, moeda, produção e fronteiras está vulnerável. Mas a soberania nacional sem soberania individual pode ser apenas outra prisão, agora com bandeira local.

A verdadeira pergunta é: como recuperamos soberania pessoal? Soberania sobre o dinheiro. Soberania sobre o trabalho. Soberania sobre a propriedade. Soberania sobre a informação. Soberania sobre a educação. Soberania sobre a mobilidade. Soberania sobre a identidade. Soberania sobre o tempo.

Isto implica uma estratégia prática. Menos dependência de moeda inflacionária. Mais ativos reais. Mais literacia financeira. Mais Bitcoin e instrumentos resistentes à censura, para quem compreende o risco. Mais empresas locais fortes. Mais produção regional. Mais comunidades resilientes. Mais autonomia energética. Mais propriedade privada. Mais capacidade de sair de sistemas capturados. Mais desconfiança saudável perante qualquer poder que diga: “é para o teu bem”.

Porque, regra geral, quando o poder que diz que é para o teu bem, está a preparar-se para ficar com alguma coisa tua. Pode ser dinheiro. Pode ser liberdade. Pode ser tempo. Pode ser silêncio. Mas alguma coisa será.

A grande ironia

A ironia final é deliciosa. A globalização foi vendida como o fim da história. Era suposto termos ultrapassado as velhas lógicas de poder, império, fronteira, moeda, energia e guerra.

Mas afinal não ultrapassámos nada. Apenas escondemos tudo debaixo de linguagem tecnocrática. Chamaram “interdependência” à vulnerabilidade. Chamaram “eficiência” à destruição de capacidade produtiva. Chamaram “ordem internacional” ao domínio americano. Chamaram “estabilidade financeira” à manipulação monetária. Chamaram “integração” à captura. Chamaram “democratização” à concentração. Chamaram “sustentabilidade” ao controlo. Chamaram “segurança” à vigilância.

Mas agora a realidade voltou. E a realidade é sempre deselegante. A globalização falhou não porque havia demasiado mercado, mas porque havia demasiado poder concentrado a fingir que era mercado. Falhou porque os bancos centrais distorceram dinheiro. Estados distorceram comércio. Impérios distorceram alianças. Burocratas distorceram produção. Gestores de ativos distorceram a governação corporativa. E elites políticas distorceram a própria linguagem.

A nova ordem mundial não precisa de ser aceite

A nova ordem mundial virá embrulhada em tecnologia, crise e inevitabilidade. Dirão que não há alternativa. Há sempre alternativa. Foi assim com o padrão-ouro. Foi assim com os bancos centrais. Foi assim com o Estado social. Foi assim com a guerra permanente. Foi assim com a vigilância pós-11 de Setembro. Foi assim com os confinamentos. Foi assim com a inflação. Será assim com as CBDCs, identidades digitais, tokenização regulada e governação algorítmica.

A primeira tarefa é recusar a linguagem da inevitabilidade. Nada disto é inevitável. É escolhido. É negociado. É imposto. É aceite. Ou é resistido.

O fim da globalização pode ser uma oportunidade. Mas apenas se não trocarmos uma jaula por outra. Não basta sair da ordem americana para entrar na ordem chinesa. Não basta trocar bancos centrais por stablecoins corporativas controladas. Não basta trocar burocratas nacionais por gestores de ativos globais. Não basta trocar papel-moeda inflacionário por dinheiro digital programável. Não basta trocar globalismo por soberanismo autoritário.

A questão não é escolher o dono mais simpático. A questão é deixar de ser propriedade.

A nova ordem mundial será desenhada por quem tem capital, armas, servidores, energia, dados e moeda. Mas a liberdade, como sempre, começará noutro sítio: no indivíduo que olha para o sistema, sorri com desprezo e diz: “Não, obrigado. Eu não pedi autorização para ser livre.”

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Carta de um cidadão europeu envergonhado a Mojtaba Khamenei, Líder Espiritual do Irão

(Alcídio Torres, in Telegram, canal Resistir, 28/04/2026, Revisão. da Estátua)

Fighter jets diving over a city skyline during sunset with glowing lights and a colorful sky
Imagem gerada por IA

Senhor Mojtaba Khamenei

Sou um cidadão europeu sem filiação religiosa, e venho pedir-lhe desculpa em nome de um continente que se calou enquanto o seu pai era assassinado.

No dia 28 de Fevereiro de 2026, os EUA bombardearam o Irão. O seu pai foi assassinado. Centenas de crianças, mulheres e inocentes morreram. A Europa (a minha Europa) não condenou. Não protestou. Não se moveu.

Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Polónia, República Checa, Hungria, Bélgica, Países Baixos, Portugal, TODOS em silêncio. O meu país, Portugal, permitiu o uso da Base das Lajes para abastecer os caças que bombardearam o seu povo. Não pago impostos para isto.

A Europa gosta de se chamar “continente dos direitos humanos”. Nesse dia, os direitos humanos iranianos não constavam da agenda.

Não confunda o silêncio de Bruxelas com a vontade de quem vive em Lisboa, Madrid, Berlim ou Paris.

Há uma coisa que me envergonha ainda mais. Os mesmos países que agora se calam sobre o Irão são os maiores fornecedores de armas a Israel. Enquanto Gaza era arrasada, eles enchiam os navios. Enquanto o seu pai era assassinado, eles negociavam novos contratos.

O senhor e o seu pai apoiaram a Palestina. Condenaram o genocídio em Gaza. Nunca esperei ouvir isso de um líder europeu. Mas ouvi do senhor. E isso, confesso, desarmou-me.

Sei distinguir hipocrisia de coerência. E a Europa, hoje, é hipocrisia armada até aos dentes.

O senhor Mojtaba, as suas forças armadas e o seu povo fizeram mais em 40 dias contra o imperialismo do que milhares de discursos vazios em Bruxelas.

A verdade é que eles pensavam que o Irão era apenas mais uma civilização para eliminar do mapa. Não esperavam que, de debaixo dos túneis, dos rochedos e das montanhas, saíssem mísseis hipersónicos capazes de pôr o maior exército do mundo em sentido.

Vocês derrubaram um F-15. Cegaram radares. Fecharam o Estreito de Ormuz, obrigaram a um “cessar fogo” no Líbano. Mostraram que um país médio pode sangrar um superpoder.

Estamos no intervalo de uma guerra e os vossos inimigos continuam a bloquear o estreito e, em simultâneo, a quererem sentar-se à mesa das negociações.

É inacreditável tanto amadorismo, tanta arrogância e tanto desrespeito por uma civilização milenar.

Muitos europeus têm vergonha das suas elites. Mas a luta do povo iraniano dá-nos força para continuar a nossa própria luta. Por uma Europa ao serviço da paz e da justiça, não das guerras imperialistas e do silêncio cúmplice.

O senhor e o seu povo enfrentaram o Império de frente. Nós, europeus comuns, enfrentamos a indiferença e a hipocrisia dos nossos líderes. Mas ao ver-vos combater de frente contra inimigos poderosos, sabemos que é possível resistir.

Atenciosamente, Alcídio Torres, alcidiotorres@gmail.com – um cidadão europeu cansado de pagar, em silêncio, guerras que não escolheu, e envergonhado pelo comportamento das suas elites políticas.

Fonte aqui


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Atentado contra Trump: discurso, evento e produção de sentido na política contemporânea

(Verbena Córdula, in Diálogos do Sul, 28/04/2026)

Registro de Trump instantes após suposto atentado em 13 de julho de 2024, durante a campanha presidencial nos EUA.

A narrativa de Trump como alvo pode gerar um efeito paradoxal: aquilo que (em tese) deveria enfraquecer sua imagem de líder, pode ser reinterpretado como prova de sua centralidade no cenário político.


Como interpretar, de forma minimamente rigorosa, o impacto político de uma tentativa de magnicídio contra Donald Trump? Isso altera sua posição simbólica no campo político, ou somente se trata de mais um episódio rapidamente incorporado a uma narrativa já existente de adversidade e centralidade? A resposta não é imediata (e justamente por isso exige cautela analítica). Em termos estritamente empíricos, eventos dessa natureza podem produzir efeitos distintos, dependendo do contexto político, da cobertura midiática e da recepção pública. Não há, portanto, garantia de que uma tentativa de assassinato produza, automaticamente, fortalecimento simbólico.

Para tentarmos responder, levantarei uma de tantas hipóteses possíveis, qual seja, a de que certos enquadramentos discursivos tendem a reorganizar esse tipo de evento em chave de excepcionalidade. Nesse caso, a violência não aparece somente como ameaça, mas, sobretudo, como evidência de relevância política. Me explico. O líder (Trump) seria alvo justamente porque ocupa uma posição central no imaginário conflitivo.

Reforço a apelos já existentes

O ponto decisivo aqui é que a condição de “ser alvo” pode ser reconfigurada simbolicamente como prova de que o agente político ocupa uma posição de destaque no interior de um campo altamente tensionado. Assim, a tentativa de magnicídio contra Donald Trump não seria unicamente um ato de violência política, mas também um elemento passível de ser reinterpretado como confirmação de sua visibilidade e importância dentro do imaginário coletivo. Nesse enquadramento, o raciocínio tende a se estruturar de forma quase circular, ou seja, de que ele é alvo porque é relevante, e que sua relevância é reforçada justamente pelo fato de ser alvo.

A violência, em certos enquadramentos, não é interpretada como ruptura do sentido político, mas como elemento que contribui para produzi-lo. Em vez de desorganizar a leitura dos acontecimentos, ela é incorporada como confirmação de categorias já estabelecidas, como “ameaça”, “perseguição” ou “confronto”. Essa hipótese é, a meu ver,  analiticamente relevante porque evidencia um mecanismo recorrente em contextos políticos — a transformação de acontecimentos críticos em elementos de confirmação discursiva. Assim, a violência deixa de ser apenas um problema institucional e passa a integrar um repertório simbólico no qual a figura de Donald Trump é continuamente reconstruída como central (e politicamente) significativa.

Me explico melhor. A violência deixa de ser compreendida exclusivamente como um problema de segurança pública ou de estabilidade institucional. O acontecimento, portanto, não esgota seu sentido no fato bruto, mas se prolonga na sua circulação discursiva. Nesse processo, a violência passa a funcionar como um elemento maleável, suscetível a diferentes interpretações — pode ser lida como falha institucional, como sintoma de polarização ou, em certos contextos, como evidência de centralidade política do alvo. O ponto decisivo não está, apenas, no que aconteceu, mas no modo como o acontecimento é transformado em discurso e, posteriormente, estabilizado em interpretações mais ou menos consolidadas.

Ao ser reiteradamente mencionado, reinterpretado e associado a elementos já conhecidos (como no caso do atentado que Donald Trump sofreu durante a campanha eleitoral), o evento vai perdendo sua condição de ruptura isolada e passa a funcionar como parte de uma sequência inteligível. A violência, nesse sentido, não interrompe, necessariamente, a ordem simbólica. Em vez de desorganizar o sentido, ela acaba ajudando a reorganizá-lo, porque passa a reforçar apelos já existentes, tais como “ameaça”, “conflito” ou “perseguição”.

A partir de tal lógica, é possível hipotetizar que esse processo pode produzir efeitos políticos relevantes para o próprio governante envolvido. Ao ser incorporado a uma narrativa de adversidade contínua, Trump deixa de ser percebido como um ator político normal, e passa a ocupar uma posição simbólica de centralidade no interior do conflito. Isso não significa, necessariamente, um aumento automático de apoio, mas sim uma reorganização do modo como sua figura é interpretada publicamente.

O fato de Trump ser alvo tende a ser lido como indicador de importância, e não de vulnerabilidade. Desse modo, a narrativa pode produzir um efeito paradoxal — aquilo que (em tese) deveria enfraquecer sua imagem de líder, pode ser reinterpretado como prova de sua centralidade no cenário político. Esse deslocamento interpretativo ocorre porque a exposição ao risco é frequentemente convertida em sinal de relevância política, sobretudo em contextos de alta polarização. Assim, a vulnerabilidade imediata do mandatário é reinterpretada como evidência de sua posição central nas disputas simbólicas em curso. No limite, o evento deixa de ser exclusivamente uma ameaça pessoal e passa a funcionar como confirmação de sua visibilidade e impacto no cenário político.

Dimensões simbólicas ligadas à sobrevivência

Esse tipo de circulação discursiva tende a deslocar o foco do debate público. Em vez de avaliações centradas exclusivamente em desempenho governamental, em políticas públicas ou em resultados institucionais, a atenção pode ser reorientada para temas como segurança, enfrentamento e resistência. Em termos hipotéticos, esse deslocamento pode ser politicamente vantajoso, especialmente em contextos de baixa popularidade. Quando índices de aprovação são reduzidos (como é o caso), a ênfase em performance administrativa tende a ser um ponto de vulnerabilidade. De acordo com levantamento do jornal The New York Times, 58% dos estadunidenses reprovam o desempenho de Donald Trump, o maior percentual de reprovação desde o fim do primeiro mandato.

Por isso, a reconfiguração do debate em torno de questões de ameaça e de sobrevivência política pode reduzir o peso relativo dessas avaliações negativas. Assim, ao invés de o debate público permanecer concentrado em críticas à gestão, a agenda pode ser reorganizada em torno de uma lógica de crise e de confronto. Isso permite que atributos como força, resiliência e capacidade de enfrentamento ganhem maior destaque na avaliação do presidente. Em outras palavras, o eixo de julgamento se desloca de “eficácia governamental” para “capacidade de lidar com ameaças”.

Esse tipo de deslocamento — do julgamento baseado em desempenho governamental para um julgamento baseado em “capacidade de enfrentar ameaças” — já foi observado em diferentes contextos históricos, e costuma ser descrito na literatura de Ciência Política como “efeito de coesão em torno da bandeira”. Em termos gerais, esse efeito ocorre quando crises de segurança (guerras ou atentados) produzem uma tendência temporária de aumento de apoio ao governo, independentemente de avaliações anteriores sobre sua gestão. O mecanismo central não é uma mudança estrutural de opinião, mas uma reorganização, ainda que momentânea, das prioridades do debate público.

Exemplo frequentemente citado é o período imediatamente posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando o então presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush (Bush filho), experimentou um aumento significativo de aprovação. Naquele contexto, a agenda pública foi fortemente deslocada para temas de segurança nacional, e resposta ao terrorismo. Isso ampliou o espaço político para ações militares subsequentes, incluindo a invasão do Afeganistão e, mais tarde, a guerra no Iraque. Em ambos os casos, a linguagem de “ameaça” desempenhou papel central na reorganização do debate.

Um exemplo especialmente emblemático é o do general francês Charles de Gaulle. Durante a Segunda Guerra Mundial, após a derrota militar da França em 1940 e a instauração do regime de Vichy (governo colaboracionista que administrou a França sob ocupação nazista), o general De Gaulle não ocupava uma posição formal de poder dentro do Estado francês. Sua legitimidade se dá a partir de um ato político excepcional, em junho de 1940, mais precisamente no dia 8 — transmitido de Londres —, conclamando a continuidade da resistência francesa contra a ocupação nazista. Aquele foi o gesto que marca uma ruptura. De Gaulle passa a representar, antes de tudo, a ideia de uma “França que não se rende”, mesmo quando o Estado oficial francês havia capitulado. Sua autoridade política nasceu ali, de uma construção simbólica.

Após a libertação da França, essa dimensão simbólica tem efeitos diretos sobre sua reintegração política. De Gaulle retorna ao centro do processo político francês como figura que já havia sido previamente investida de legitimidade pela experiência da guerra. Sua liderança no pós-guerra — especialmente na reorganização do Estado francês e, posteriormente, na fundação da Quinta República — é fortemente influenciada por essa autoridade simbólica acumulada durante o conflito.

Disputa interpretativa

Como vemos, os exemplos citados ilustram como, em contextos de crise existencial, a avaliação de líderes pode ser profundamente reorganizada. A legitimidade poderá deixar de depender, exclusivamente, de critérios administrativos ou procedimentais, e passar a incorporar dimensões simbólicas ligadas à sobrevivência coletiva, à resistência e à capacidade de representar a continuidade da comunidade política em momentos de ruptura histórica.

A partir daqui, a pergunta que não quer calar é: seria possível observar dinâmica semelhante no caso de Donald Trump? (Ele já foi exposto a um atentado na campanha eleitoral e outro em pleno exercício da Presidência).

A resposta, em termos analíticos rigorosos, não é simples — e justamente por isso a comparação exige cautela. Diferentemente dos casos clássicos de guerra total ou de ocupação territorial, o cenário político contemporâneo estadunidense não se estrutura em torno de uma ameaça externa unificada e, consensualmente, reconhecida como existencial. Isso já altera (profundamente) o tipo de “reorganização de legitimidade” que poderia ocorrer. Ademais, mesmo eventos de alta carga simbólica não produzem efeitos automáticos, ou mesmo homogêneos. Eles são disputados, simultaneamente, em múltiplos circuitos de interpretação (mídia institucional, partidos, redes sociais e instituições). Por isso, o mesmo acontecimento pode ser enquadrado como prova de perseguição política, como falha de segurança estatal ou como sintoma de radicalização interna — dependendo do público e do ator discursivo envolvido.

Outro elemento importante é que, no caso de democracias burguesas altamente polarizadas (como é o caso dos Estados Unidos na atualidade), a lógica de “reorganização simbólica em torno do líder” não funciona de forma unificada. Em vez disso, ela tende a se fragmentar. Parte do eleitorado pode interpretar episódios de violência como reforço da centralidade do líder, enquanto outra parte pode vê-los como sinal de instabilidade ou risco institucional. Ou seja, não há convergência interpretativa, o que limita efeitos semelhantes aos observados em contextos de guerra total.

Há, ainda, um fator estrutural relevante. A avaliação de líderes como Trump permanece fortemente ancorada em critérios domésticos contínuos — economia, imigração, decisões judiciais, desempenho administrativo e disputas institucionais. Isso reduz o espaço para que eventos episódicos sejam convertidos em reconfigurações duradouras de legitimidade, como ocorre em contextos de exceção prolongada. Logo, embora seja possível levantar a hipótese de que episódios de violência política possam deslocar temporariamente o foco do debate público — ativando, em certos segmentos, narrativas de enfrentamento e centralidade —, é metodologicamente mais difícil sustentar que isso produza uma reordenação ampla e estável da legitimidade política nos moldes históricos clássicos.

Por isso, a pergunta se “será assim com Trump” não admite resposta única. O que podemos observar é uma arena de disputa interpretativa em que eventos críticos podem ser incorporados a narrativas concorrentes, sem que nenhuma delas se imponha, de forma totalizante. Isso torna o efeito final necessariamente instável, condicionado ao contexto e à disputa discursiva em curso. Veremos.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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