Um nevoeiro que se adensa e nos asfixia

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 19/05/2022)

Algumas (poucas) vozes bem tinham tentado avisar durante a pandemia da covid-19 que a utilização massiva das técnicas do medo e do choque, bem como a aceitação de lógicas fascizantes, como a de que os fins justificam os meios ou a de que temos é que obedecer e não que pensar, iriam ter consequências, e consequências muito graves, para a nossa vida em sociedade.

E ainda que as novas configurações dessa mesma vida – por mais brutais, anti-democráticas e até absurdas que elas fossem – seriam sempre apresentadas e impostas como “o novo normal”, relativamente ao qual não haveria alternativa.

Agora que as “notícias” sobre a guerra na Ucrânia substituíram nessa “função social” as relativas à pandemia (e isto, ainda que estejam actualmente a morrer muito mais pessoas da covid-19 do que há 1 ano atrás…), tornou-se evidente que tais previsões, não obstante o desprezo e o silenciamento a que os seus autores foram votados, se revelaram, afinal e infelizmente, em absoluto acertadas.

E, todavia, o nevoeiro adensa-se e gruda-se-nos à pele…

Ditadura sanitária em preparação

O anteprojecto de lei de emergência sanitária, apresentado recentemente pelo governo PS, dito de esquerda, e com maioria absoluta no Parlamento, constitui um autêntico projecto, não de emergência, mas de ditadura sanitária, prevendo-se que graves restrições de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos sejam decretadas sem intervenção de um juiz e por mera decisão das entidades governamentais. A completa governamentalização desta questão está, aliás, bem patente quando – passados 48 anos sobre o 25 de Abril! – o governo passa a poder decretar, sozinho, sem qualquer intervenção do Parlamento ou do Presidente da República, e por mera Resolução do Conselho de Ministros, os primeiros 30 dias de emergência. E as privações e restrições de liberdades podem não ter um prazo limite para terminarem, pelo que este regime pode ser, até, tecnicamente perpétuo.

Que bela “Democracia” este nevoeiro oculta!…

A (in)Justiça que temos

A mesma Justiça que permitiu a fuga do banqueiro João Rendeiro – embora o Conselho Superior da Magistratura (CSM), logo se apressasse a proclamar que, claro, não existiriam quaisquer culpas dos juízes dos vários processos… – agora abandona-o como se ele fosse um trapo e o Estado português não tivesse quaisquer responsabilidades nas condições de prisão em que esse arguido se encontrava e nas circunstâncias que terão conduzido à sua morte.

Entretanto, e por outro lado, segundo foi publicamente anunciado, PS e PSD já se teriam entendido para, de forma concertada, indicarem para juiz do Tribunal Constitucional um troglodita jurídico e político, Almeida e Costa (filho de um antigo ministro da Justiça do regime fascista), o qual, enquanto assistente da Faculdade de Direito de Coimbra, e entre outras reaccionárias diatribes, se opunha freneticamente à permissão legal do aborto em caso de violação sob o extraordinário e medieval argumento de que “os casos de gravidez provenientes de violação (são) muito raros”, em abono dos suas teses anti-despenalização do aborto, as opiniões do “médico da morte” Fred Emil Mecklenburg, confessadamente baseadas nas horríveis experiências feitas pelos nazis em prisioneiras de campos de concentração. Como vai um personagem destes fiscalizar o respeito pela Constituição da República Portuguesa? Sobre esta questão conheço uma única posição crítica formal, a da Associação Portuguesa das Mulheres Juristas (APMJ).

Sucedem-se as práticas e as decisões judiciais mais absurdas e até absolutamente ilegais e inconstitucionais, e o mesmo inquietante nevoeiro de silenciamento e de encobrimento se mantém, e até se intensifica. Não se ouve uma palavra de crítica à forma como são recrutados, formados, avaliados e promovidos ou sancionados os juízes e os magistrados do Ministério Público, nem se escuta o mais leve murmúrio, muito menos de auto-crítica, por parte de organismos com responsabilidade directa nessas matérias, como o Centro de Estudos Judiciários (CEJ), o CSM ou o Ministério da Justiça.

Este soma, aliás, mais uma “proeza” ao seu já extenso e lastimável currículo: a lei relativa à conservação dos “metadados” das comunicações[1] transpusera para a ordem jurídica portuguesa uma Directiva Comunitária[2], mas o Tribunal de Justiça da União Europeia, por Acórdão de 08/04/2014, declarara, e bem, a invalidade da dita Directiva, por violação manifesta do princípio da proporcionalidade à luz da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. E a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) portuguesa emitira, entretanto, duas deliberações considerando que a dita Lei era claramente violadora de artigos quer da Carta dos Direitos Fundamentais[3], quer da Constituição da República[4].

Era, assim, mais que evidente a inconstitucionalidade da dita Lei e era mais que previsível que, mais tarde ou mais cedo, ela seria suscitada (como o foi pela Provedora) e declarada (pelo Tribunal Constitucional).

Ora, a Provedora de Justiça alertou o governo disso mesmo, mas a então Ministra da Justiça, Van Dunem, com a arrogância intelectual e política dos que se julgam acima das leis e superiores aos comuns mortais, recusou promover a adopção de alterações à lei que permitissem sanar a referida inconstitucionalidade.

Apenas quando o Tribunal Constitucional[5], justamente declara, com força obrigatória geral, a patente inconstitucionalidade da Lei é que “cai o Carmo e a Trindade”, com os policias e os serviços de informações a lastimarem-se por, pelos vistos, não saberem fazer investigação ou apuramento de informação sem ser com leis inconstitucionais…

E o que diz, sobre tão relevante matéria, o Presidente da República, que jurou respeitar e fazer respeitar a Constituição[6]? Ao estilo Presidente de uma qualquer “república das bananas”, proclama que se a Constituição é “muito fechada”, então que se consigam “fórmulas cada vez mais flexíveis”, ou seja, que se mude a Constituição!?…

Entretanto, e uma vez mais para a Comunicação Social consumir e divulgar, a Procuradora-Geral da República logo apresentou um requerimento de arguição de nulidade do Acórdão, para o qual não tem, de acordo com a Lei e a Constituição, qualquer legitimidade ou fundamento. Se tivesse sido apresentado por um cidadão representado por Advogado, isso acarretaria uma pesada condenação em custas para o primeiro, e decerto, para o segundo, um processo disciplinar na Ordem por litigar contra legem.

E assim, também na Justiça, parece impenetrável este denso nevoeiro que a cobre.

A TAP – uma montanha de ilegalidades e incompetências…

Entretanto, a TAP acumula, e de forma cada vez mais gritante, ilegalidades e incompetências. Do ponto de vista da gestão de pessoal, e sob o pretexto da reestruturação, a TAP pôs na rua centenas de trabalhadores que lhe fazem agora tremenda falta para assegurar a efectiva retoma da actividade.

Depois de um processo de saídas feito com o mais deplorável assédio moral e com ameaças de despedimento (que só o governo e a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) não viram), a TAP, contando com o prestimoso apoio da consultora BCG e da grande sociedade de advogados SRS, consumou o despedimento colectivo de dezenas de resistentes à pressão e à chantagem, dos quais, entretanto, um número considerável obteve, por decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, a suspensão judicial dos despedimentos.

E o que faz a Administração da TAP, presidida por Christine Ourmières-Widene? Não reintegra esses trabalhadores (por exemplo, excluindo ostensivamente do planeamento de voos os pilotos que foram reintegrados por decisão judicial) e destrata outros com décadas de experiência e empenho, dizendo-lhes que “não têm lugar na organização” e substituindo-os por muito bem remunerados “oui-monsieurs”, cuja principal qualidade parece ser a de dizer sempre que sim à Presidente. Sem capacidade de resposta para a mais que necessária recuperação, a TAP cancela voos (desde logo por falta de tripulantes) e não utiliza cerca de 100 (!?) “slots” por dia. E como estes dados são demonstrativos da total incompetência e prepotência, vá de tentar encontrar bodes expiatórios da sua divulgação e perseguir os “suspeitos” com processos disciplinares visando o despedimento. 

As direcções e estruturas intermédias de gestão estão em grande medida esvaziadas de qualquer capacidade de decisão. A derrocada organizativa é de tal ordem que a Administração da TAP se arrogou apresentar aos pilotos uma “proposta” que, sob a promessa de correcção de violações do próprio Acordo de Emergência (!?), implicaria a cedência de folgas em meses críticos, o pagamento do trabalho extraordinário (absolutamente indispensável à operação face à notória falta de pilotos) com retribuições muitíssimo inferiores a 2019 e, mais grave que tudo, a redução dos períodos de descanso subsequentes a voos altamente cansativos no longo curso, questão esta particularmente grave por interferir, claramente, com a segurança de voo. Esta “proposta” provocatória foi peremptoriamente recusada em Assembleia Geral do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) por 879 votos contra e 10 a favor!

É, pois, toda a operação de verão e a própria recuperação da TAP que, por incompetência e arrogância da Administração e da tutela, estão claramente em causa.

E, todavia, o mesmo inquietante e silencioso nevoeiro também se abate sobre esta gravíssima questão, como se ela não existisse e as respectivas consequências não se viessem abater sobre todos nós…

Comunicação ou Manipulação Social?

A nossa Comunicação Social, em especial as televisões, do mesmo passo que desprotege, discrimina ou ataca quem pensa e fala diferente, em particular sobre a guerra na Ucrânia[7], tratou, em geral, de forma absolutamente repugnante o assassinato da jornalista palestiniana e americana da Al Jazeera, Shireen Abu Akleh, de 51 anos.

Fê-lo começando por – tal como já fizera inicialmente o New York Times, mas de cuja posição recuou perante os protestos de muitos dos seus leitores – sem sequer referir a sua identificação e apresentando o ocorrido simplesmente como uma jornalista que morreu numa operação militar do exército de Israel. Como se ela não tivesse nome e como se não tivesse sido assassinada por um tiro certeiro na cabeça disparado por militares israelitas quando, com colete e capacete identificando-a como jornalista, cobria um raide contra o campo de refugiados de Jenine, no norte da Cisjordânia (território palestiniano ocupado por Israel desde 1967). Basta pensar como teria sido tratado por essa mesma comunicação social o caso de uma jornalista ocidental morta a tiro pelas tropas invasoras russas para se aquilatar da “isenção” e “imparcialidade” dessa “informação”[8]

Porém, e de novo o mesmo opressivo e silencioso nevoeiro do pensamento dominante se abate sobre este crime e sobre os seus responsáveis…

Resistir, resistir sempre!

Todos estes silêncios – quantas vezes cometidos precisamente por quem se diz intelectualmente sério e isento, politicamente democrata e até de esquerda – envolvem-nos e asfixiam-nos cada vez mais e são eles que escancaram as portas aos mais perigosos e sinistros populismos e oportunismos. Mas aqueles que não dobramos a cerviz, que não cedemos ao poder do dinheiro e à força da ameaça e da violência, que não aceitamos que nos cortem a raiz ao pensamento, nós somos a resistência!

António Garcia Pereira


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A Rússia reescreve a Arte da Guerra Híbrida

(Pepe Escobar, in Strategic Culture, 20/05/2022, trad. Estátua de Sal)

A Guerra Híbrida está a ser travada predominantemente no campo de batalha económico/financeiro – e o nível da dor para o Ocidente coletivo só vai subir.


A “narrativa” ficcional imposta por toda a NATO é que a Ucrânia está a “ganhar”.

Então, porque é que o vendedor ambulante de armas, o chefe do Pentágono Lloyd “Raytheon” Austin, iria implorar literalmente, desde finais de Fevereiro, que o Ministro da Defesa russo Shoigu lhe atendesse o telefone, apenas para ter finalmente o seu desejo atendido?

É agora confirmado por uma das minhas principais fontes de informação. O telefonema foi uma consequência direta do pânico. O Governo dos Estados Unidos (USG) quer, por todos os meios, acabar com a detalhada investigação russa – e da acumulação de provas – sobre os laboratórios americanos de armas biológicas na Ucrânia, tal como sublinhei num artigo anterior.

Esta chamada telefónica aconteceu exatamente após uma declaração oficial russa ao Conselho de Segurança da ONU, a 13 de Maio: utilizaremos os artigos 5 e 6 da Convenção sobre a Proibição de Armas Biológicas para investigar as “experiências” biológicas do Pentágono na Ucrânia.

Isto foi reiterado por Thomas Markram, Subsecretário-Geral da ONU responsável pelo desarmamento, mesmo quando todos os embaixadores dos países membros da NATO, como era previsível, negaram as provas recolhidas como sendo “desinformação russa”.

Shoigu, frio, antecipa a chegada da chamada com muita antecedência. A Reuters, limitando-se a citar o proverbial “funcionário do Pentágono”, disse que o alegado apelo de uma hora de duração não levou a nada. Disparate. Austin, segundo os americanos, exigiu um “cessar-fogo” – que deve ter dado origem a um sorriso de gato siberiano no rosto de Shoigu.

Shoigu sabe exatamente para que lado sopra o vento no terreno – tanto para as Forças Armadas Ucranianas como para os UkroNazis. Não se trata apenas da derrocada do Azovstal – e do colapso de todo o exército de Kiev.

Após a queda de Popasnaya – o bastião crucial e mais fortificado da Ucrânia em Donbass – os russos e as forças de Donetsk/Luhansk aniquilaram as defesas ao longo de quatro vetores diferentes a norte, noroeste, oeste e sul. O que resta da frente ucraniana está a desmoronar-se – rapidamente, com um caldeirão maciço subdividido num labirinto de mini caldeirões: um desastre militar que o Governo dos EUA não pode evitar.

Assim, podemos esperar uma exposição total – com sobre-exploração – da questão das armas biológicas do Pentágono. A única “oferta que não se pode recusar” que resta aos EUA seria apresentar algo tangível aos russos para evitar uma investigação completa.

Ora, isso não vai acontecer. Moscovo está plenamente consciente de que tornar público o programa ilegal de armas biológicas proibidas é uma ameaça existencial para o Estado Profundo dos EUA. Especialmente quando documentos apreendidos pelos russos mostram que a Big Pharma – através da Pfizer, Moderna, Merck e Gilead – esteve envolvida em várias “experiências”. Expor completamente todo aquele labirinto foi, desde o início, um dos objetivos declarados por Putin.

Mais “medidas militares-técnicas”?

Três dias após a apresentação na ONU, a direção do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo realizou uma sessão especial para discutir “as realidades geopolíticas radicalmente alteradas que se desenvolveram como resultado da guerra híbrida contra o nosso país desencadeada pelo Ocidente – sob o pretexto da situação na Ucrânia – sem precedentes em escala e ferocidade, incluindo o renascimento na Europa de uma visão do mundo racista sob a forma de uma russofobia rupestre, uma via aberta para a “abolição” da Rússia e de tudo o que é russo”.

Portanto, não é de admirar que “o agressivo curso revisionista do Ocidente exija uma revisão radical das relações da Rússia com os Estados hostis”.

Devemos esperar “uma nova edição do Conceito de Política Externa da Federação Russa” que sairá em breve.

Este novo Conceito de Política Externa irá desenvolver o que o Ministro dos Negócios Estrangeiros Lavrov voltou a salientar na reunião da 30ª Assembleia do Conselho de Política Externa e de Defesa: os EUA declararam uma Guerra Híbrida geral contra a Rússia. A única coisa que falta agora, é uma declaração formal de guerra.

Para além do nevoeiro de desinformação que encobre a candidatura da Finlândia e da Suécia – chamemos-lhes os Idiotas e os nórdicos mais idiotas – para aderirem à NATO, o que realmente importa é outro exemplo de declaração de guerra: a perspetiva de mísseis com ogivas nucleares estacionados realmente perto das fronteiras russas. Moscovo já avisou os finlandeses e os suecos, educadamente, que isto seria tratado através de “medidas técnico-militares”. Foi exatamente disso que Washington – e os lacaios da NATO – foram informados do que aconteceria antes do início da Operação Z.

E, claro, isto é ainda mais grave, envolvendo também a Roménia e a Polónia. Bucareste já tem lançadores de mísseis terrestres Aegis Ashore capazes de enviar Tomahawks com ogivas nucleares para a Rússia, enquanto Varsóvia recebeu os mesmos sistemas. Indo diretos ao assunto: se não houver uma desescalada, todos acabarão por receber o cartão-de-visita hipersónico do Sr. Khinzal.

Entretanto, a Turquia, membro da NATO, joga um jogo de destreza, emitindo a sua própria lista de exigências antes mesmo de considerar o jogo dos nórdicos. Ancara não quer mais sanções pelas suas compras de S-400s e ser incluída de novo no programa F-35. Será fascinante ver o que “his master’s voice” vai inventar para seduzir o sultão. Os nórdicos empenharam-se numa “posição clara e inequívoca” autocorretora contra o PKK e o PYD não é claramente suficiente para o sultão, que gostou ainda mais de turvar as águas ao salientar que a compra de energia russa é uma questão “estratégica” para a Turquia.

Contrabalançar o Choque Financeiro

Neste momento, é evidente que a Operação Z em aberto visa a potência unipolar hegemónica, a expansão infinita da NATO vassalada, e a arquitetura financeira mundial – uma combinação entrelaçada que transcende largamente o campo de batalha da Ucrânia.

A histeria do pacote de sanções em série do Ocidente acabou por desencadear os movimentos contra financeiros, até agora bastante bem sucedidos, da Rússia. A Guerra Híbrida está a ser travada predominantemente no campo de batalha económico/financeiro – e o nível de dor para o Ocidente coletivo só vai subir: inflação, preços mais elevados das matérias-primas, rutura das cadeias de abastecimento, custo de vida em explosão, empobrecimento das classes médias, e infelizmente para grandes extensões do Sul Global, pobreza e fome.

Num futuro próximo, à medida que as evidências internas surgirem, talvez mesmo se descubra que a liderança russa até jogou e apostou no roubo flagrante pelo Ocidente de mais de US $ 300 bilhões em reservas russas.

Tal implica que já há anos atrás – digamos, pelo menos a partir de 2016, com base em análises de Sergey Glazyev – o Kremlin sabia que isso iria inevitavelmente acontecer. Como a confiança continua a ser uma base rígida de um sistema monetário, a liderança russa pode ter calculado que os americanos e os seus vassalos, conduzidos pela russofobia cega, jogariam todas as suas fichas de uma só vez quando o empurrão chegasse – demolindo por completo a confiança global no “seu” sistema.

Devido aos infinitos recursos naturais da Rússia, o Kremlin pode ter tido em conta que a nação acabaria por sobreviver ao choque financeiro – e até lucrar com ele (incluindo a valorização do rublo). A recompensa é demasiado doce: abrir o caminho para O Dólar Condenado – sem ter de pedir ao Sr. Sarmat que apresente o seu cartão-de-visita nuclear.

A Rússia pode mesmo até cogitar a hipótese de obter um retorno poderoso desses fundos roubados. Uma grande quantidade de ativos ocidentais – totalizando até US$ 500 bilhões – pode ser nacionalizada se o Kremlin assim o desejar

Assim, a Rússia está a ganhar não só militarmente mas também, em grande medida, geopoliticamente – 88% do planeta não se alinha com a histeria da NATO – e, claro, na esfera económica/financeira.

De facto, este é o campo de batalha chave da Guerra Híbrida, onde o Ocidente coletivo está a ser posto em cheque. Um dos próximos passos fundamentais será uma expansão dos BRICS coordenando a sua estratégia de desvio do dólar.

Nenhum dos passos acima referidos deverá ensombrar as repercussões interligadas ainda por avaliar da rendição em massa dos neonazis Azov no centro do UkroNazistão em Azovstal.

A mítica “narrativa” ocidental sobre os heróis da luta pela liberdade imposta desde Fevereiro pelos meios de comunicação social da NATOstão caiu com um único golpe. Pêsames para o silêncio estrondoso em toda a frente da guerra de informação ocidental, onde nem mesmo os vira-latas tentaram cantar aquela canção merdosa “vencedora” da Eurovisão.

O que aconteceu, no fundo, é que o creme de la creme dos neonazis treinados pela NATO, “aconselhados” pelos melhores peritos ocidentais, armados até à morte, entrincheirados em bunkers antinucleares de betão profundo nas entranhas de Azovstal, foi pulverizado ou forçado a render-se como ratos encurralados.

Novorossiya como uma mudança de jogo

O Estado-Maior russo estará a ajustar as suas táticas para o grande enfrentamento em Donbass – como os melhores analistas e correspondentes de guerra russos incessantemente debatem. Terão de enfrentar um problema inescapável: à medida que o exército russo metodicamente esmaga o – desagregado – exército ucraniano em Donbass, um novo exército da NATO está a ser treinado e armado na Ucrânia ocidental.

Assim, existe um perigo real de que, dependendo dos objetivos finais a longo prazo da Operação Z – que só são partilhados pela liderança militar russa – Moscovo corra o risco de encontrar, dentro de poucos meses, uma reencarnação móvel e melhor armada do exército desmoralizado que está agora a destruir. E é exatamente isso que os americanos querem dizer com o “enfraquecimento” da Rússia.

Até ver, há várias razões pelas quais uma nova realidade Novorossiya pode revelar-se uma mudança de jogo positiva para a Rússia. Entre elas:

  1. O complexo económico/logístico de Kharkov a Odessa – ao longo de Donetsk, Luhansk, Dnepropetrovsk, Zaporozhye, Kherson, Nikolaev – está intimamente ligado à indústria russa.
  2. Ao controlar o Mar de Azov – já um “lago russo” de facto – e subsequentemente o Mar Negro, a Rússia terá o controlo total das rotas de exportação para a produção de cereais de classe mundial da região. Bónus extra: exclusão total da NATO.
  3. Tudo isto sugere um esforço concertado para o desenvolvimento de um complexo agro-industrial integrado – com o bónus extra de um potencial turístico sério.

Neste cenário, uma Ucrânia de Kiev-Lviv remanescente, não incorporada na Rússia, e naturalmente não reconstruída, seria, na melhor das hipóteses, sujeita a uma zona de exclusão aérea mais ataques de artilharia/mísseis/drone selecionados no caso de a OTAN continuar a entreter ideias engraçadas.

Esta seria uma conclusão lógica para uma Operação Militar Especial centrada em ataques de precisão e numa ênfase deliberada em poupar vidas civis e infraestruturas, ao mesmo tempo que incapacita metodicamente o espectro militar/logístico ucraniano.

Tudo isto leva tempo. Contudo, a Rússia pode ter todo o tempo do mundo, uma vez que todos nós continuamos a ouvir o som do Ocidente coletivo a descer em espiral.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Tanta verdade junta mereceu publicação – take IX

(Carlos Marques, 10/05/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Soares Novais ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 10/05/2022)


Muito bem. Bom texto.

Neoliberais e Neofascistas, uma história de amor com décadas. Perdi a paciência e passei a colocar tudo no mesmo saco: são os Capital-Fascistas. Afinal, para quê distinguir o indistinguível.

Pior que isto que fizeram contra o PCP, só o cúmulo da falta de vergonha e falta de decência que alguns (a começar nos Banderistas/Neonazis ucranianos) de insultar a memória de quem nos salvou do nazismo neste Dia da Vitória, fazendo coisas completamente inaceitáveis como chamar-lhe “dia do regime de Putin”.

Num canal francês: France 24 – até lançaram o debate: “porque é que o regime de Putin aumentou a glorificação deste dia”… Fiquei boquiaberto. Pela expressão usada, e pela necessidade de perguntar. Para quem não questiona porque é que a Ucrânia glorifica Bandera e outros nazis colaboradores no Holocausto e condenado em Nuremberga, esperava-se pouco, mas isto foi o bater no fundo da “imprensa livre” Ocidental.

No canal alemão DW, não passou uma única imagem dos povos libertados do Sul da Ucrânia a saírem hoje à rua em segurança para celebrar o que tinha sido proibido desde o golpe de 2014.
Em vez disso estiveram na típica conversa de chacha das “elites” fanáticas     atlantistas/europeístas, a falar de 2 engravatados, Macron e Scholz, e da futura Europa. Completamente alheados do povo, esta gente.

Fazendo aqui um aparte, cada vez percebo melhor como os Sinn Féin das (ainda) duas Irlandas se autodefinem orgulhosamente como populistas. Pois cada vez percebo melhor que o alegadamente “moderado” anti populismo é só mais uma lengalenga para não terem de dizer o que realmente são: a ditadura da burguesia.

Para além disto, andei também na TeleSur, que teve uma excelente de análise em língua PT-Br sobre como Bolsonaro está a preparar mais um golpe. Tem especial relevância pois comenta-se já que os EUA (mesmo estes alegadamente dirigidos por “moderados” “Democratas”) podem preferir que Lula não ganhe, sobretudo depois da verdade inconveniente que ele (tal como o Papa) se atreveu a dizer: estamos nesta situação por causa do imperialismo da NATO.

Vi também que esta perseguição e xenofobia contra russos (num momento em que voltam a dar as vidas contra nazis) os está a unir mais que nunca, e até a aumentar o apoio a Putin. Assim, em Caracas na Venezuela parece que houve pela primeira vez a marcha do Regimento/Exército Imortal, com os russos a levarem ao peito as fotos dos seus antepassados falecidos na Grande Guerra Patriótica na frente ocidental.

Foi assim um pouco por todo o Mundo, sempre com muitos símbolos comunistas e soviéticos, ora por convicção ideológica, ora por respeito à memória. Por outro lado, no site GeoPol vem um artigo interessante sobre os cossacos na Austrália, hoje também com um nacionalismo renovado mesmo sem partilharem qualquer simpatia com o regime da URSS que os expulsou da sua própria casa. Ver aqui.

Por fim, deixo uma sugestão à Estátua De Sal (e a quem quiser) para ler este histórico artigo, em inglês, no blog Moon Of Alabama, onde se explica, passo a passo e factualmente (com base em dados da OSCE) porque é que esta operação militar Russa foi mais que provocada e justificada. Ler aqui.

Chamo em especial a atenção para a parte em que se descrevem os eventos antes da Rússia decidir invadir, como as declarações belicistas do lunático Zelensky, mas em especial o mapa da OSCE de 21-Fevereiro-2022, três dias antes da Operação Especial Militar, que mostra que a guerra começou antes, que o Donbass (zonas civis e não alvos militares) estava a ser bombardeado, que se preparava uma tragédia, e como Putin, com base no precedente do Kosovo (aka Karma do Ocidente) e no artigo 51 da ONU, até fez tudo legal.

E tendo em conta o Direito Humano à autodeterminação dos povos, inscrito na Carta da ONU, a independência das repúblicas de Lugansk e Donetsk, e o seu reconhecimento pela Rússia, hoje vou mais longe e até digo que é caso para perguntar: quem é que invadiu quem?
Por isso usei pela primeira vez o termo “operação militar especial” em vez de invasão.

Neste site – obviamente dedicado a propaganda russa (e a vergonha é que mesmo um canal destes tem mais factos e objetividade do que a “imprensa livre” do Ocidente), vi as celebrações do Dia da Vitória, com bandeiras do Donbass, da Rússia, e da fita de São Jorge (laranja e preta, tal como o grande clube de futebol da região, o Shakhtar Donetsk). Imaginam em que sítio? Em Mariupol.

Na BBC fazem um especial a mostrar “o herói do regimento Azov a resistir na Azovstal”. Mas no terreno, na realidade, esse povo celebra a libertação, sem medo de desaparecer numa operação do SBU por se ter atrevido a cometer o “crime” de usar a tal fita laranja e preta ao peito.

Na Euronews, mas continuando em Mariupol, a já veterana agente do Pentágono disfarçada de jornalista, chamada Vakulina, tentava hoje recuperar a peça de propaganda sobre o teatro com a palavra “crianças” escrita na rua.

Baseia-se num recente artigo da Associated Press para anunciar que no local onde há umas semanas teriam morrido até 1300 pessoas, agora poderiam lá estar 600. Já está a corrigir o número, mas tem azar, eu já vi a peça da RT no local, e cruzei com a peça da AP. A AP diz que estariam muitas pessoas na rua na altura do bombardeamento porque era ali servida comida, diz que centenas de corpos podem lá estar, mas que nunca saberemos ao certo pois já está a ser limpo o entulho e estão proibidos de lá ir filmar. Azar do caraças, eu que não sou jornalista, já vi um vídeo da remoção desse entulho e não está lá corpo nenhum. E a RT já tinha falado com locais e já lá andou a filmar também a desmascarar esta história.
Ou seja, no Dia da Vitória, a Vakulina e a Euronews decidem inventar mais um “genocídio” com base numa estória da AP, que por sua vez se baseia em especulações e nada mais.

Voltando ao início, para falar do ataque ao PCP. Num mundo assim manipulado, onde até a maioria no Ocidente relativamente livre fica com o cérebro completamente lavado pela propaganda e Psy-Ops do Pentágono/Kiev difundidas pela “imprensa livre” sem qualquer verificação, como é que havíamos de querer que os ucranianos, vítimas há décadas de ainda mais propaganda (os 5 mil milhões  da Victoria Nuland foram também para isto), e de facto numa DITADURA desde 2014, como havíamos de querer, dizia, que ainda fossem bons da cabeça ou tivessem noção da realidade? Obviamente não podem ter. Daí eu dar também cada vez mais apoio ao objetivo do Kremlin da desnazificação. Isto não podia ser só invadir, bombardear, pilhar e ir embora, como os EUA/NATO fizeram no Afeganistão. Não. A Rússia tem de levar a cabo uma execução metódica e só descansar quando esse objetivo for atingido. Aos EUA não faz diferença deixar talibãs no poder do outro lado do Mundo. A Rússia não pode fazer isso na sua fronteira!

Por falar em fronteiras, Macron também já as começou a definir. Ou a boca começou a escapar-lhe para a verdade agora que a proxy war está perdida (foram inúmeros os avanços da Rússia no Donbass, de Rubiznhoe até Popasnaya, anunciados hoje e confirmados no terreno).
Disse então o delfim dos Campos Elísios que para a Ucrânia entrar rápido na UE, a UE teria de baixar muito os requisitos. Finalmente começam a admitir a natureza daquele regime. E lembremos que os requisitos nem são assim tão altos, pois na UE já estão (ou ainda estão a Polónia e a Hungria). A alternativa, dizia o Emanuel de Paris, é manter os critérios e esperar que a Ucrânia melhore, o que pode durar anos ou décadas. A continuar assim, um dia destes o Zelensly manda um míssil Tochka-U mas é na direção contrária…

Não estou a brincar, o “herói” que condecora neonazis de Azov, é mesmo lunático. Ou melhor, é aquilo que é: um ex-palhaço impreparado para aquele cargo. Nestes dois dias, ele mandou para a morte pelo menos 50 homens (ficará por saber quantos deles soldados de facto, e quantos deles civis reservistas a quem foi dada uma farda à pressa para serem carne para canhão, e por isso já tantas mulheres protestam contra a sua recruta na Ucrânia), e 4 aviões e 4 helicópteros e mais 2 barcos anfíbios e não sei quantos drones, só para tentar ter uma “vitória” que servisse de propaganda ao Dia da Vitória. Queria recapturar a Ilha da Cobra, o tal rochedo onde “morreram” os 13 guardas que ele condecorou postumamente apesar de estarem vivos…

Portanto eu só tenho uma pergunta para terminar o meu desabafo de hoje: o povo ucraniano, que diz que fez uma “revolução da dignidade” contra um Presidente democraticamente eleito em tempo de paz, porque alegadamente era corrupto e ia adiar um pouco o acordo com a UE, agora está à espera de quê?

Esta guerra prolongada artificialmente pela propaganda e pela NATO, com cada vez mais perda territorial, com tantos civis já transferidos para a linha da frente para substituir a carne para canhão que já foi triturada, com as declarações de Macron, e com os 850 Milhões na conta offshore do Zelensky, não justifica agora sequer uma manifestaçãozinha? A resposta é óbvia. Claro que justificam. Mas o SBU, a polícia política de Kiev que prende opositores e faz desaparecer “traidores”, não o permitem.

A sorte (no sentido em que estão soltos e vivos) dos comunistas portugueses, e bloquistas, e talvez até de Livres e “Socialistas”, é que estão num regime que, apesar de todos os defeitos, é incomparável com o ucraniano. E isso foi o que causou tanta estranheza aos Banderistas que agora vieram para Portugal. Não se trata de não perceberem como o PCP ainda está legalizado. Trata-se de ou não perceberem nada (pois são antidemocratas ou vítimas da propaganda e censura ao longo de 8 anos), ou de perceberem tudo bem demais, pois são parte do problema de nazificação em que o seu regime se tornou (contra a real vontade da maioria da população) e estão cá, agora ainda melhor treinados e avençados pela CIA/Pentágono/NATO, para espalhar a sua luta. Que é como quem diz: a sua kampf

Perante isto, só posso terminar com um V do dia da Vitória, um A de Avante camaradas, um F de Fascismo nunca mais e de Free Assange, e um Z de desnaZificação ou de Zelensky vai p’ró caralh…

O E do “dia da Europa”, esse deixo-o para os que gostam de reescrever a história em Bruxelas e arredores, ou para a história que se segue: Era a vez um país chamado Ucrânia, desenhado por Lenine, que um dia decidiu glorificar Bandera e ameaçar os seus irmãos e vizinhos. O urso deles atacou e a Ucrânia acabou. De 2022 em diante passou a ser dividido em duas regiões: um estado falhado a norte (cuja reconstrução ninguém vai pagar quando o tema se esfumar), e a NovoRússia a sul, acarinhada pelos irmãos e vizinhos e protegida pelo urso como se da sua cria se tratasse. Um novo estado tão legítimo como qualquer outro país da ex-Jugoslávia. E tal como nos Balcãs os bombardeados aderiram ao bloco militar “defensivo” que os bombardeou e criou, também agora o urso convidará a sua cria, que gosta de correr até à Transnístria, a entrar no bloco militar “não invasor” que os bombardeou e criou.

Quem diria que a Rússia também tinha este provérbio: cá se fazem, cá se pagam!
Eu nunca esquecerei o contributo do PCP para a Liberdade e Democracia portuguesas. Não voto no partido, mas pessoas como Cunhal são para mim como heróis. E nunca esquecerei que a ditadura fascista foi uma das fundadoras da NATO. Pelo contrário, os tais ucranianos amigos de “Liberais”, preferem esquecer que os seus “heróis” como Bandera foram nazis que colaboraram no Holocausto e que tais crimes foram provados em Nuremberga.

E até já ouvi alguns europeístas igualmente esquecidos, que disseram coisas como “a NATO defende a democracia e a liberdade” ou “a Europa está em paz desde a queda do muro de Berlim”. Duas alarvidades, como é óbvio.

Um povo que celebra todos os anos o Fogo da Memória, não se esquece e perdura no tempo. Já um povo que se esquece, mais tarde ou mais cedo volta aos erros do passado ou, pior, será passado. Porque nenhum futuro se constrói com base em mentiras!

O PCP, ainda no tempo de Cunhal, criticou o regime Soviético. Os galicianos (ucranianos do noroeste), em 2022, ainda glorificam nazis. O Kremlin fala de todo o contexto desde o início desta história. O Ocidente faz de conta que a história começou em 24 de Fevereiro. Não tenho dúvida de que lado estou, nem tenho dúvida sobre quem perdurará no tempo.

Tal como já disse que terminaria: V, A, F, e Z.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.