Príncipe Harry, duque de Sussex®: tão improdutivo como um aristocrata, tão banal como um burguês

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/01/2020)

O poder do mercado é avassalador. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. E está a destruir a monarquia inglesa, que não é tão bela assim. O príncipe Harry desistiu do privilégio do título em nome do privilégio do dinheiro. Ou, como ele preferiu dizer, em nome da sua “independência financeira”. Ato corajoso? Pelo contrário. Aquilo de que o príncipe desistiu foi dos seus deveres. E, sentado na herança, incluindo a da família real, dispensou apenas 5% dos seus rendimentos – os que eram garantidos diretamente pelo Estado. Sem nenhuma das responsabilidades reais, guardou para si a fama e o estatuto que o privilégio lhe dá, pondo-os a render.

Os duques Harry e Meghan registaram a Sussex ® e SussexRoyal ® e vão viver da marca, sobretudo na América do Norte, onde o showbiz rende mais. O que produz essa marca? Nada. Produz o que o seu estatuto real lhe deu. Um estatuto a que é suposto corresponder responsabilidades. Chamar a isto “independência financeira” é arrojado. Parece-me mais uma forma de chular a monarquia sem sequer se dar ao trabalho de cortar umas fitas, fazer uns discursos anódinos e dar uns beijos por ela.

Há quem compare isto à vida que hoje tem o casal Obama, tentando descansar quem teme o abastardamento do nome real. Dizem que é possível manter a classe. A comparação é absurda. Barack Obama construiu uma carreira política, venceu eleições, governou a maior potência mundial e, sabendo que um Presidente dos EUA não pode ter uma carreira, vive da fama que conquistou com o seu trabalho. Harry limitou-se a nascer. Foi o que teve de fazer para merecer a fama.

Imagino que o gesto dos duques de Sussex ® arrepie qualquer defensor das vantagens da monarquia sobre a República. Que deite por terra a conversa sobre a intemporalidade dos símbolos pátrios (registados ou por registar), representada pelo monarca e nunca por um Presidente da República eleito e transitoriamente no poder.

Mas, como se vê, a monarquia transformou-se em pouco mais do que um ativo para o mundo do espetáculo. A ser usado por quem não tem de ter mais talentos do que qualquer participante num reality show. Basta ser famoso.

O português Fernando Mascarenhas, 12º marquês de Fronteira, mecenas culto e generoso, via o seu estatuto de aristocrata como um dever que herdava com o património, o título e o apelido. Explicou-o numa frase óbvia: “os privilégios trazem consigo responsabilidades.” Nunca aceitarei privilégios de sangue. É por isso que sou republicano. Mas nunca negarei a nobreza a quem a merece, com ou sem título. E se é no título e na herança de um nome que alguém encontra a razão para assumir as responsabilidades do seu privilégio, não deixarei de o respeitar.

No “sermão” que escreveu ao seu sucessor, Fernando Mascarenhas dizia que “qualquer cidadão tem a obrigação de tratar corretamente o seu semelhante, mas o aristocrata tem-na a triplicar, seja pela melhor educação que deve ter recebido, seja pelo crédito de que à partida normalmente beneficia, seja ainda pelo necessário e salutar exercício de dobrar o orgulho que facilmente tenderá a ter”. Nada disto faz sentido para mim. Mas fazia sentido na coerência daquele homem, até porque coerentemente praticou a nobreza de espírito e o que julgava ser o seu dever. E isso chegava e contrasta com o comportamento de Harry e Meghan.

Há qualquer coisa de tristemente poético neste gesto. A lógica mercantil volta a ganhar, esmagando o mundo anacrónico em que vivem reis, rainhas e príncipes, transformados em pouco mais do que estrelas do espetáculo mediático. Mas é a um novo capitalismo que se vergam. Tão improdutivos como um aristocrata, tão comuns como um burguês.


Advertisements

A Igreja católica espanhola

(Carlos Esperança, 12/01/2020)

Pedro Sanchez toma posse

Filha do papa Pio XI, que concedeu à sedição de Franco o carácter de Cruzada, contra a República, é a Igreja que manteve silêncio perante o genocídio que o ditador praticou, depois de ter ganhado a guerra.

A Igreja que goza de pingues contribuições do Estado, isenções de impostos e, até há pouco, do direito à apropriação de bens públicos, é a Igreja que não tolera a democracia, humilha a mulher e esconjura os direitos humanos.

Os clérigos são ainda, na sua maioria, filhos da falange e de pai incógnito, guerrilheiros da extrema-direita e terroristas ideológicos. São talibãs romanos, com colar ao pescoço e batina sebenta, a pedir a Deus que derrube o Governo, mantenha a mulher submissa e consinta aos padres o direito de decidir sobre a sua sexualidade.

A Igreja que João Paulo 2 e Bento 16 abasteceram de cardeais reacionários, bispos ultramontanos e, de defuntos pouco recomendáveis, fizeram um ror de santos, continua a ser o alfobre onde germina a extrema-direita e nascem, como cogumelos, quadros para o VOX, saudosistas de Franco e falangistas fora de prazo.

A tomada de posse do novo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, sem bíblia e crucifixo, deixou aquele bando de parasitas de Deus a espumar de raiva, a uivar imprecações, a ruminar vinganças, e a pedir ao seu Deus que amaldiçoe estes governantes, derrube o governo e faça ajoelhar a Espanha aos seus pés.

O cristo-fascismo está vivo na horda de clérigos saudosos da ditadura e da Reforma, a sonharem com a Inquisição e os autos-de-fé, enquanto rezam o breviário e, em êxtase, relembram as bênçãos que, em gozo místico, lançavam aos republicanos, nas praças de touros, antes de serem fuzilados.

É desta fauna clerical que se alimenta a contrarrevolução em Espanha, que só a pertença à União Europeia impede de porem em marcha.

Foi pena que a CEE retirasse dos conselhos matrimoniais a recomendação aos homens para, no dia em que quisessem ter sexo, deixassem dormir a sesta às esposas.

Que choldra ignóbil!


(Sobre o tema, seguir os links abaixo.)

https://www.lavozdegalicia.es/…/00031578578141232785201.htm…

https://www.elindependiente.com/…/la-conferencia-episcopa…/…

https://www.publico.es/…/conferencia-episcopal-curso-premat…

A complacência com Trump é um erro monumental

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/01/2020)

Pacheco Pereira

Volto a Trump, a única coisa relevante que há hoje para discutir. É pouco mediático num país que é muito indiferente às questões internacionais, não dá títulos saborosos como os pequenos “casos” nacionais, cansa e parece monotemático, mas é decisivo para o nosso futuro. O que fizer ou não fizer Trump, e o que nós lhe permitimos, vai decidir as próximas décadas. E cada vez parece mais uma obrigação ética travar o combate para o deter, porque estamos num desses momentos da história, em que esta se acelera, e, como na maldição, se torna “interessante”. Pensam que isto é um exagero e Trump um epifenómeno? Puro engano. Vejam só que ele já fez.

O que é perigoso na actual discussão é que mais uma vez se verifica algo que vi toda a vida: quando alguém tem força, essa mesma força é interiorizada como razão, como explicação, como realismo e dá-se uma falência crítica e perde-se clareza. E mais do que tudo com Trump é preciso ver claro. Os poderosos têm seguidores pelas vantagens de estar ao lado do poder, mas o efeito mais insidioso é a impregnação do pensamento e da crítica mesmo daqueles que se lhes opõem.

Leia-se o que se escreveu esta semana em Portugal. Vejo com espanto a facilidade com que o discurso trumpista se interioriza, e como o caos e as contradições resultam em discursos salomónicos, e em benefício da dúvida. Claro que não se pode esquecer que em Portugal há mais “trumpinhos” por aí à solta do que se imagina, quer os que o adoram, mas mais ainda os que precisam dele à direita para equilibrar um mundo que, pensam, se deslocou demasiado para a esquerda.

Não lhe dão palmas em público, mas dentro da cabeça, porque Trump bate nos mesmos inimigos em que eles gostariam de bater. É uma simpatia por afinidade que não ousa dizer o seu nome. Existe em Portugal, no Observador, no i , nalguns blogues muito à direita e que são câmaras de eco em bruto do Observador, mesmo na comunicação social de referência com gente mais preocupada em manter “equilíbrios” e distanciações, quando isso é exactamente o que os trumpistas querem.

O discurso de Trump é simples: há vitórias e vitoriosos e derrotados. Ele Trump teve uma “vitória”, porque os iranianos “cederam” e “recuaram” e assim ele pode obter o efeito útil de ter morto um adversário dos EUA, sem grandes consequências e mostrar força, fazer de Rambo e bater com as mãos no peito como o Tarzan para fins eleitorais. É o discurso habitual de Trump e os mecanismos mediáticos, que ele explora com sucesso, são hoje muito adequados a ver as coisas assim. Talvez, se se parasse para pensar, se perceba que não só esta é uma maneira muito grosseira de ver as coisas — o que se adapta muito bem a Trump e às colunas do sobe e desce, e às redes sociais —, como assenta mais no wishful thinking do que em factos, e não nos fornece uma visão coerente do que se passa. E acrescento não é muito complicado perceber que é uma história muito esfarrapada, ou como agora se diz “uma narrativa” que só se sustenta no peso da força e no ainda maior peso da preguiça mental.

Veja-se só, a título de exemplo, o próprio discurso vencedor de Trump — um discurso que em condições normais deveria arrepiar toda a gente. Mas que “passou” bem, porque pareceu moderado. Trump começa por dizer que os iranianos não atingiram ninguém, porque as contramedidas sofisticadas resultaram, impedindo-os de obter o objectivo de matar soldados americanos. Mais adiante, no mesmo discurso, sugeriu que os iranianos afinal deram uma resposta débil, porque recuaram com medo da resposta americana. Então queriam ou não matar americanos?

Nos dias seguintes, fontes militares disseram que sim, outras fontes acentuaram o recuo a “desescalada”, e a tese predominante é a segunda. Por sua vez, os iranianos mantêm também um discurso contraditório, mas porque lhes é vantajoso. Os iranianos não têm o poder dos EUA, como, aliás, os norte-coreanos. Medidos por essa bitola são sempre o lado mais fraco. Mas face a Trump são mais inteligentes, têm uma estratégia consistente e não dependem da imprensa do dia seguinte para prosseguir os seus objectivos — e não têm eleições para ganhar.

Qual é nos dias de hoje o “seguro de vida” do regime iraniano, como, aliás, do norte-coreano? Ter armas nucleares. Agora que não têm as peias do acordo é o que os iranianos vão fazer a toda a velocidade. Ora Israel e os EUA não o podem permitir, o que significa que terão de atacar o Irão. E como é? Vão só atacar de alto e não colocar “botas no chão”? Só com enormes baixas colaterais, civis. E não há Rússia e China?

O assassinato do general iraniano é uma distracção, neste contexto que radicaliza todas as frentes menores e não ajuda a maior, que Trump ajudou a estragar ao abandonar um acordo nuclear que estava a ser cumprido pelo Irão. Quando digo que o principal risco da política de Trump é ser errática e caótica, é por aqui que se mede. Não houve por isso vitória nenhuma, só encurralamento cada vez maior no caminho de uma guerra generalizada. Trump não quer saber disso para nada, desde que entenda que sai favorecido eleitoralmente. E, como quer ter vantagens sem grandes custos, apela aos países da NATO para lhe darem cobertura e homens e mulheres para não haver muitas baixas americanas. A resposta frouxa da NATO é quase tão perigosa como o caos de Trump.

Infelizmente, isto vai continuar.