Trump pensa que o petróleo dos EUA é a sua força – mas é o seu calcanhar de Aquiles

(Tom Luongo, in Resistir, 13/06/2019)

As manchetes são abundantes sobre o aumento maciço na produção de petróleo de xisto (shale oil) nos EUA. Os sabichões que louvam a independência energética [dos EUA] consideram isso como uma grande vitória. Dentre eles inclui-se o presidente Trump. 

Isto seria assim se esse aumento na produção fosse construído sobre um terreno financeiramente estável. Mas não é o caso. A indústria da fracturação [hidráulica] (fracking) continua a sangrar enormes montantes de dinheiro. Como apontei num artigo anterior desta semana , ao explicar esta verdade inconveniente, em grande medida o retorno dos EUA à dominância na área da energia é um bocado de ar quente. 

O artigo de Nick Cunningham no Oilprice.com conta a história. 

A partir de 2019, a indústria prometeu maior vigilância no que se refere à disciplina de capital e ao retorno aos accionistas. Mas essa promessa agora está em perigo de se tornar mais um numa longa lista de objectivos não cumpridos. 

“Mais um trimestre, mais um jorro de tinta vermelha”, escreveu o Institute for Energy Economics and Financial Analysis, juntamente com o Sightline Institut, num relatório conjunto acerca dos ganhos no primeiro trimestre da indústria do xisto. 

O relatório estudou 29 companhias norte-americanas de xisto e encontrou um fluxo de caixa livre negativo combinado de US$2,5 mil milhões no primeiro trimestre. Isso representa uma deterioração em relação ao fluxo de caixa negativo de US$2,1 mil milhões do quarto trimestre de 2018. “Este deplorável desempenho do fluxo de caixa verificou-se apesar de um declínio das despesas de capital de 16% em termos trimestrais”, concluíram os autores do relatório. 

Esta falta de rentabilidade é mantida unicamente através de engenharia financeira e de um contínuo mercado altista do crédito estruturado nos EUA, devido às necessidades de os fundos de pensão terem um rendimento (yield) de 7,5% a fim de manterem seus pagamentos de benefícios definidos. 

Eles não são os únicos que alimentam este boom da fracturação, mas isto é um grande impulsionador tanto das acções americanas quanto do mercado de papéis comerciais. Esta é só mais uma das consequências da política de taxas de juros zero da Reserva Federal. 

Assim, por que é que isto é o calcanhar de Aquiles da política externa de Trump? Porque com a desaceleração da economia global, a produção interna dos EUA já está com um excesso de oferta (oversupply) maciço. Há um excesso de petróleo e gás tão profundo a garantir que os resultados dessas empresas não melhorarão, deixando-as à mercê dos credores. 

A boa notícia para elas, no curto prazo, é que provavelmente serão capazes de continuar no seu estilo Ponzi, porque o Fed começará a cortar as taxas de juros em Setembro. 

Mas do ponto de vista da política externa, Trump está a apostar na restrição da oferta de petróleo dos “competidores” a fim de tornar o petróleo dos EUA mais atraente. Há dois problemas com isso. 

Em primeiro lugar, outros países com custos de produção mais baixos podem manter o mercado em relativo equilíbrio, vivendo com pequenos lucros, mas no entanto lucros. 

Em segundo lugar, e ainda mais importante, o óleo de xisto dos EUA tem um limite superior na procura pois é demasiado leve para a maior parte das refinarias e requer misturas com matéria-prima mais pesada. Esta é a razão, por exemplo, porque as importações americanas de petróleo russo estão a subir rapidamente para alimentar as refinarias da costa do Golfo, privadas do petróleo venezuelano graças à tentativa de Trump de retirá-lo do mercado. 

Países como Venezuela e Irão podem e irão competir no preço. Eles podem e irão encontrar maneiras de contornar as sanções de Trump. Mais uma vez, a Rússia entra em cena para atender a um défice do mercado, desta vez com pagamentos por serviços de compensação através de bancos já sancionados pelos EUA. 

Com cada nova tarifa ou sanção sobre terceiros Trump prejudica ainda mais os produtores norte-americanos de todas as indústrias em relação a mercados estrangeiros. 

E os sauditas estão aprisionados nesta armadilha. Eles agora sabem que não podem expandir a produção porque a procura é muito fraca. De facto, em Maio cortaram a sua produção em 120 mil barris . Na medida em que têm a garantia de Trump que ficarão com a fatia de mercado perdida pelo Irão. 

Os preços estão em queda devido à acumulação de stocks, os quais significam uma procura frouxa e não uma oferta mais elevada. 

Além disso, a OPEP quer continuar os cortes de produção, mas a Rússia assinalou fortemente que não está interessada em acompanhá-los. Putin sabe que tem a Arábia Saudita na equação do preço porque o orçamento da Rússia valorizou o barril em US$40, ao passo que os sauditas precisam de um múltiplo disso. 

Assim, ele continuará a cravar uma cunha entre os sauditas e os EUA quanto à fatia do mercado de petróleo. Os sauditas não podem permitir-se perder nada ao passo que a Rússia pode aumentar a sua produção ou expandir o seu programa de troca petróleo por outros bens com o Irão. 

O que fará Trump? Sancionar a Rússia ainda mais? 

Uma economia global em contracção é uma receita para os baixos preços do petróleo que provocam bancarrotas em toda a área do xisto. É por isso que Trump exorta o Fed a cortar as taxas, para permitir que o fracassado Ponzi tenha um pouco mais de tempo para por o Irão de joelhos. 

Isto é o jogo da galinha que Trump está a jogar com a China, Rússia e Irão. Ele está a apostar em que o sofrimento a curto prazo provoque a capitulação. Eles estão a jogar o longo jogo fazendo com que se estenda. Há sempre soluções alternativas para atenuar esse sofrimento e, finalmente, tais soluções alternativas tornam-se o novo normal à medida que os hábitos das pessoas mudam. 

O presidente Putin entende que a Rússia pode efectuar grandes conquistas se jogar o jogo do polícia bom frente ao do polícia mau de Trump. 

A Rússia deixou claro ao secretário de Estado, Mike Pompeo e a Trump, directamente, que não negociará a presença do Irão na Síria por uma pequena concessão na Europa, apesar da nota conciliatória ter sido redigida diplomaticamente. 

Além disso, de qualquer modo Putin sabe que não pode confiar em que Trump mantenha ou implemente a sua palavra. Assim, nenhum acordo é possível sobre a miríade de questões entre eles. Por isso, a Rússia e a China apoiarão o Irão tão bem quanto puderem enquanto seguem seus próprios caminhos para fortalecer o seu relacionamento mútuo. 

Uma aliança chinesa-russa mais forte cria novos caminhos para que o capital se afaste das intromissões e ameaças de Trump. 

Fonte aqui


 

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A vitória moral de Lula da Silva

(Carlos Esperança, 15/06/2019)

Quando um homem é mordido por uma víbora, não há quem apoie o réptil, mas se esse homem caiu num ninho de víboras e ninguém procura salvá-lo, é o género humano que se humilha pela cobardia e o torna indigno.

Lula da Silva até podia ser corrupto, e mereceria o desprezo que a indignidade provoca, mas estar preso por uma associação de malfeitores emboscados nas togas e becas, é um crime que produz o vómito de quem ainda preza a liberdade e a dignidade humanas.

Conspirar contra a democracia e derrubar o homem que os malfeitores escolheram para subverter a legalidade e exercer uma vingança partidária, é a baixeza ética da cáfila que nunca procurou combater a corrupção, apenas queria ter o monopólio dela.

Lula da Silva, cuja inocência é hoje irrelevante face aos estragos que o justiceiro Sérgio Moro causou à Justiça, à democracia e ao Brasil, tem hoje contra o ardiloso conspirador a superioridade ética de quem foi preso por vingança, cálculo eleitoral e ódio de classe.

A vergonha dos convites que juristas portugueses fizeram ao biltre que os envergonhou, com a defesa dos truques tropicais para prender adversários, teve o mérito de permitir à atual ministra da Justiça, a honrada procuradora que afirmou, sem o referir, que Portugal era uma democracia e se regia por normas de um Estado de Direito.

O julgador que negociou um lugar de ministro a troco da vitória eleitoral do mais burro e ignaro PR que o Brasil teve, talvez sonhe ainda com a indigitação para o Supremo Tribunal que o indigno capitão lhe terá prometido, mas a nódoa que lançou sobre o sistema de Justiça brasileiro não encontrará benzina que a remova.

A minha solidariedade com Dilma e Lula da Silva é um grito de revolta contra a ordália que foi urdida contra eles, tal como na Idade média, pelos que se julgaram deuses e não passavam de meros patifes infiltrados na Justiça.


Sérgio Moro ou a caricatura de um juiz

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/06/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 Não é lícito afirmar que a revelação de que Sérgio Moro andou a combinar com a acusação a melhor forma de condenar o ex-Presidente Lula da Silva serve, por si só, para arrasar toda a acusação e pôr em causa a condenação. É preciso não esquecer que esta foi confirmada em recursos por dois tribunais superiores, embora com o ambiente político devidamente montado para tal e com alguns pormenores que dão que pensar (um juiz pronunciou-se a favor da culpabilidade de Lula antes de ter lido o processo, a assistente de outro celebrou previamente nas redes sociais o desfecho do recurso que ainda não fora julgado). Mas também não é possível sustentar que nada de essencial muda depois de conhecidas as indecentes conversas mantidas entre Moro e dois procuradores, as suas tentativas para impedir, com sucesso, que Lula desse uma entrevista que poderia, segundo eles, pôr em causa a vitória eleitoral de Bolsonaro ou os indícios de que Moro terá manobrado de forma a que o processo Lava Jato fosse parar a Curitiba e às suas mãos. Haja ou não matéria legal para exigir uma revisão de todo o processo de Lula — sobretudo, após conhecido o mais que o “Interceptor Brasil” irá revelar — uma coisa tornou-se evidente e não pode ser negada de boa-fé: Sérgio Moro tinha uma motivação política pessoal contra Lula da Silva. Estava pessoalmente empenhado em que Lula fosse afastado das presidenciais, para as quais partia como favorito, e que Bolsonaro fosse eleito Presidente.

O mínimo de decoro teria recomendado que o juiz se remetesse ao seu trabalho em Curitiba, coberto de glória para metade dos brasileiros, após ter conseguido enfiar na prisão por 13 anos o homem que foi o mais popular Presidente do Brasil. Mas a agenda política de Moro não se esgotava aí e ele nem hesitou em dar o passo fatal, com o qual arrancou a máscara: aceitar ser ministro da Justiça no Governo do Presidente que ajudara a eleger a partir da sua posição como juiz. Nem mesmo na equipa de Trump se desceu tão baixo, em termos de confusão entre a Justiça e a política.

Mas só se admirou quem quis: Sérgio Moro já tinha mostrado a sua verdadeira face quando, igualmente por motivação política, resolver “vazar” uma escuta telefónica ilegal entre a Presidente Dilma Rousseff e Lula. Quando um banal juiz de 1ª instância não só ordena ilegalmente uma escuta ao próprio Presidente da República, como depois ainda se permite divulgá-la na imprensa, é óbvio que estamos perante um homem perigoso demais para exercer a magistratura. Moro mostrou que se achava acima da lei, pior ainda: que podia usar os poderes que a lei lhe dava como muito bem entendesse, inclusive para o combate político, em que não devia participar, por estatuto. E muito embora depois se tenha declarado arrependido do seu acto, só realmente uma grande envolvência política de suporte ao “herói” Sérgio Moro justifica que a magistratura brasileira não lhe tivesse imediatamente indicado a porta da rua.

Sérgio Moro, que é vedeta convidada e reconvidada em Portugal, tem escrito na cara aquilo que é: um justiceiro e não um juiz. E pior do que um mau juiz é um juiz-justiceiro, aquele que acredita na sua superioridade moral sobre o comum dos homens e que julga que o direito está ao serviço da sua moral, nem que para isso tenha que fazer tábua-rasa dos direitos alheios. É eloquente que até um dos procuradores escutados a conspirar com ele, Delton Dellagnol, tenha manifestado dúvidas sobre o êxito de uma acusação que não assentava em nenhuma prova directa, mas só nessa figura tropical do “delator premiado”. Moro condenou um homem de setenta anos a 13 de cadeia, condenou um ex-Presidente da República pelo pior dos crimes que lhe poderiam ser imputados — o de corrupção — sem ter contra ele uma só prova directa da acusação feita: uma escuta, uma escritura, um contrato, um papel, um testemunho independente que confirmassem que Lula era, de facto, o dono ou, pelo menos, o usufrutuário do célebre triplex na praia que parece ter recebido como corrupção. Eu, pessoalmente, gostaria muito de perguntar ao ex-juiz Sérgio Moro como é que ele sabe, quando está perante um delator premiado, que este está a dizer a verdade ou apenas a verdade que interessa à acusação e ao próprio delator, que assim será “premiado”. Porque a tal delação premiada — que muitos dos nossos magistrados do Ministério Público bem gostariam de ver introduzida no nosso Código de Processo Penal — não é outra coisa que não um testemunho comprado. E se é crime a defesa comprar testemunhas, por que razão poderá a acusação fazê-lo ao abrigo da lei?

Ciao, Sérgio Moro. Começou como juiz impoluto, idolatrado por muitos; desacreditou-se como juiz independente e imparcial quando saltou para a política nos braços do homem que ajudara a eleger contra aquele que mandara prender; e agora jaz soterrado sob um mar de lama que nenhum Lava Jato poderá limpar. Mesmo na prisão, culpado ou inocente, Lula da Silva é muito mais livre do que ele.

2 Mais três autarcas constituídos arguidos sob suspeita de corrupção — mais os inevitáveis crimes associados de branqueamento de capitais e evasão fiscal. Sem pôr de forma alguma em causa a presunção de inocência, direi, em abstracto, que não me espanta que metade dos casos de corrupção investigados ou julgados diga respeito a autarcas. Porque, ao contrário, do que é politicamente correcto dizer, o governo de proximidade é uma forma de tentação acrescida e não de transparência acrescida. É aquilo a que chamo “o poder fatal” — o lugar onde, longe dos olhos de quase todos, o poder aí existente é o maior empregador, o maior contratador, o maior distribuidor de dinheiros públicos. Contra as malfeitorias de um ministro, temos um Parlamento, um Tribunal de Contas, uma imprensa nacional para nos defender: contra as de um presidente de Câmara de pequena ou média dimensão, temos o silêncio dos dependentes. E todos sabemos que, infelizmente, desde que haja ladrão, a ocasião vai sempre ter com ele. É uma das razões pelas quais a regionalização, tão ansiada por alguns, me deixa logo de cabelos em pé.

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Não obstante, estas mega-operações de justiça mediática deixam-me sempre um sentimento ambíguo. Às vezes até parece que é pela anunciada grandiosidade da operação — dezenas de magistrados, centenas de investigadores, dúzias de buscas, milhares de páginas de documentos apreendidos, tudo devidamente publicitado aos quatro ventos — que se pretende fazer prova prévia da culpabilidade dos suspeitos. Suspeitos que as autoridades logo transformam em arguidos e a opinião pública em corruptos, sem mais. E por vezes sucede que, desencadeada a mega-operação, nada mais acontece durante meses ou anos. Demasiados processos ficam parados ou jamais chegam a julgamento e demasiadas pessoas, que tanto podem ser culpadas como inocentes, carregam sobre os seus ombros uma sentença popular de corrupção inapagável. Que ela existe e é também demasiada, não tenho dúvidas. Que ela precisa de todos os meios para ser investigada, também não. Mas não haverá forma melhor de o fazer mais depressa e com menos danos colaterais?

3 Eis outra coisa que se repete de ano para ano: a falta de parte dos meios aéreos previstos para o combate aos incêndios, porque o desfecho de concursos está suspenso em tribunal, após reclamação dos vencidos. Este ano são 17 os meios aéreos cuja entrada ao serviço está pendente de uma decisão da Justiça sobre o resultado de dois concursos. Mas os incêndios não esperam pela Justiça e por isso pergunto: não será possível que os concursos imponham a obrigatoriedade do vencido prescindir de reclamar o resultado do concurso? Ou, ao menos, prever uma tão grande penalização em caso de indeferimento judicial, que os concorrentes pensem duas vezes antes de reclamarem sistematicamente, de cada vez que perdem o concurso?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia