O sequestro da Conferência sobre Segurança de Munique

(Thierry Meyssan, in Red Voltaire, 21/02/2017)

A História atesta-o : cada vez que um Sistema se afunda, os seus dirigentes só se dão conta quando são arrastados pela tempestade. Assim, os responsáveis políticos da União Europeia, reunidos anualmente como é habitual, em Munique, para a sua conferência sobre Segurança, ficaram chocados por ouvir Sergey Lavrov evocar uma ordem mundial post-Ocidental. Ora, o mundo desmorona-se sob os seus pés : os Povos árabes resistem desesperadamente às guerras e às falsas revoluções, enquanto o Povo norte-americano elegeu um anti-imperialista para a Casa Branca. Mas, os organizadores não têm cura : eles defenderam os interesses do Estado Profundo USA contra a Administração Trump.

Ler Resto do artigo aqui..: O sequestro da Conferência sobre Segurança de Munique, Thierry Meyssan

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O inimigo n.º 1 da economia portuguesa

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 16/02/2017)

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Não é Trump. Não é o Brexit. Não é Centeno. Não é a CGD. Não é um pássaro, não é um avião. E não é a Uber nem a Goldman Sachs, pelo menos para já.

Tendo em linha de conta o que escreveu recentemente Jens Spahn (quem?!) é difícil escapar a uma conclusão: cheira a enxofre na Europa, não é só por cá. O tal cavalheiro Jens Spahn é o vice-Ministro das Finanças alemão (ah, um vice do senhor Wolfgang Schäuble).

Num artigo publicado no Wall Street Journal (9 Fevereiro, 2017) este governante revelou a abordagem alemã à Administração Trump. Essas ideias são actualmente a principal fonte de risco a curto prazo para a economia portuguesa, para a periferia da UE, e para o próprio projecto europeu.

Mas então o que se passa?! O Ministério das Finanças alemão quer à força um euro mais valorizado. O mini-Schäuble Sr. Jens Spahn dá um sinal claro naquele jornal norte-americano: “Ajudaria ter um euro mais forte”.

Percebe-se. Trump precisa de resultados económicos para segurar a sua audiência eleitorado. A tendência de aumento de taxa de juro, que é a política da Reserva Federal perante o cenário de recuperação da economia norte-americana, complica esse objectivo. Como contra-medida nada melhor que uma depreciação do dólar. Para isso outras moedas têm de ficar mais caras.

Esta é a estratégia por trás da acusação de manipulação cambial feita à Alemanha, que é simplesmente vista em Washington como quem manda na Europa. O superavit da balança corrente alemã tem atingido valores inacreditáveis (8,7% do PIB em 2016, contra um défice de 2,7% os EUA). A isso chama-se um desequilíbrio. E um desequilíbrio é um problema, atrai muita atenção.

O nosso Schäuble 2.0 Jens Spahn afirma no entanto que a razão da competitividade alemã é “o ambiente de negócios, a força de trabalho, a protecção dos direitos de propriedade e administração eficaz da justiça”. Dois economistas discordam: o prémio Nobel norte-americano Paul Krugman (aqui) e o editor alemão do Financial Times (aqui) … e são estes que têm razão. A Alemanha goza de uma moeda furtivamente mais depreciada do que teria se tivesse o Marco. É um centro de acumulação que consegue saldos positivos à custa dos necessariamente saldos negativos da periferia.

Mas a Alemanha não admite isso. Faz o jogo de Trump. Quer valorizar o Euro. Quer diluir o seu excessivo e artificial excedente sem tem ter de fazer reformas. Essas seriam reformas pró-sociais no seu próprio território (por exemplo, re-investir em infra-estruturas e inflacionar a remuneração do trabalho). Prefere, pelo contrário, aumentar as taxas de juro para todos. Sendo que se isso acontecer muitos dos países da periferia começarão a fazer “pop” como bolhas de sabão. Vão rebentar crises gémeas de dívida pública e défices comerciais.

O governo alemão não cede. Não se importa em comprometer a viabilidade da periferia, ameaçar a frágil recuperação europeia e de acicatar ainda mais as tensões em que as populações sentem que este colete-de-forças europeu não lhes serve. O que isto implica tem de ser lido muito claramente em Lisboa. Medidas de antecipação, gestão e mitigação destes riscos têm de ser equacionadas. Pode estar uma disrupção à vista, neste ano de todos os perigos.

ENTRETANTO, NO RECTÂNGULO…

  • Carrocel CGD. Já disse várias vezes aqui no Expresso que este país não sabe gerir gestores. E, em particular, os políticos não sabem gerir mega-administradores. Mas agora também se percebe que o país não sabe gerir SMS! Mas pelo menos há um Ministro das Finanças que sabe gerir as contas públicas, algo bem original se compararmos com o anterior executivo.
  • Lobisomem CDS. Então ninguém pergunta como é que um Lobo Xavier Conselheiro de Estado (das bandas do CDS e amigo do inefável Domingues) anda a acicatar o Presidente da República nesta matéria?! O CDS, excitado com um eventual e putativo acesso privilegiado as esses SMS, anda numa berraria de Lua Cheia. Já não mede a ética dessas fugas de informação nem os danos para a CGD?! Quem tem de cair é Lobo Xavier, pois anda em manobras que Belém não deveria tolerar. Tem de cair e já se faz tarde.
  • Tejo turvo. O tejo está realmente poluído e não é só problemas de descargas a montante. É preciso perceber a correlação entre mais cruzeiros e mais poluição no Tejo. A negligência da governança fluvial neste país tem de ter limites.
  • Mochilas tonelada. Há muito tempo que as mochilas dos alunos do primeiro e segundo ciclos estão a passar todos os limites. Dos vários anos que tenho reuniões de escola por deveres parentais nem uma vez isso foi identificado por responsáveis ou professores como sendo um problema de saúde pública. A consciência também deveria pesar neste caso; mas agora o urgente é resolver isto.
  • Mundet mundo. No Seixal, onde antigamente era o saudoso Seixal Jazz, há um novo sítio de bom gosto gastronómico, inteligência de serviço e de respeito pelo património material e imaterial da nossa industrialização tardia e depois decadente. Assim se vai provando a evolução da autenticidade em Portugal. Força, pois.

Uma primavera americana?

(António Gil, in Facebook, 13/02/2017)

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Segundo algumas opiniões que vou lendo, os EUA correm o risco de uma guerra civil.

Segundo outras opiniões, essa guerra civil já começou e mantém-se ainda a níveis de baixa intensidade: carros incendiados, montras partidas, confrontos nas ruas. (nada que chegue aos nossos queridos jornais, mas que são reportados numa base diária, em várias cidades).

A falha tectónica que atravessa os EUA enquanto realidade política é geral. Os dois partidos principais rachados a meio. No PD, entre sanderistas e hillaristas, no PR entre trumpistas e anti trumpistas.

Entre as multinacionais, há também interesses divergentes: o «big oil» quer um entendimento com a Rússia, para poder explorar seus enormes recursos na Sibéria. As guerras não os entusiasmam: imaginem então no Médio Oriente, por onde passam todos os petroleiros. Uma chatice.

Os jornais e TVs querem guerras e portanto a diabolização da Rússia: parece que os cidadãos consomem mais (e logo os anunciantes televisivos pagam mais) quando se mostram imagens como as que CNN mostrou de uma cidade lá longe, submetida a uma chuva de misseis, em directo.

No caso dos jornais idem: o café da manhã deve saber melhor a muitos se lerem as crónicas reportagens dos jornalistas «embedded» nas colunas militares. Um pouco como a nós, cidadãos pacíficos deste lado, nos sabe melhor ficar na cama com o ruído da chuva caindo lá fora. 😦

Mc Donalds, Coca Cola etc, não gostam de países que os correram de seus mercados. Gostam portanto da guerra como medida punitiva contra esses estados (how do they dare?), mas se tal destabilizar toda uma região, incluindo países mais amigáveis, fica mau para o negócio. Guerra sim, portanto, mas só um bocadinho.

O aparelho militar industrial, o mais luxuoso do planeta e um sorvedouro de dinheiros públicos, precisa de guerras, claro. De preferência porém se outros países as assumirem: é melhor vendê-las do que usá-las em proveito próprio. Parece que nesta última situação, até os aliados têm relutância em pagar por «fogo de artifício» que não encomendaram.

O exército está dividido também: guerras sim, até porque elas justificam a existência da «classe guerreira». Mas de preferência atirar «pedras» (das explosivas) de longe. Pôr os «boys» no terreno já não os entusiasma desde o Iraque: é chato, pá, voltam em caixões, os seus camaradas de armas e famílias levam isso a mal.E mesmo os soldados que se safam, depois da merda que viram, ficam traumatizados. E engrossam o nº dos niilistas, sem abrigo ou pior ainda: tornam-se em perigosos pacifistas militantes, o que enfraquece a nação.

Querem saber a minha opinião? os EUA arriscam-se a não viver – unidos, quero dizer – os tais dez anos que Bannon previu para uma inevitável guerra com a China. Porque os sinais de desunião estão aí todos, com todo o seu potencial conflituoso.

Depois das primaveras árabes, talvez tenhamos em breve uma primavera americana que mais parecerá um inverno. Ou um inferno. Quem semeia tempestades no deserto, arrisca-se a colher sismos nas cidades.