A imagem acima circula em vários canais de Telegram. Achei que a devia publicar depois de ter visto e ouvido uma comentadora assídua num canal televisivo nacional afirmar que a Ucrânia está na mó de cima e por isso quer ir para negociações.
Os cartazes dizem que é proibido fotografar as prateleiras vazias de supermercados. “Fotografar prateleiras vazias de supermercados é PROIBIDO. A multa é de 3 mil hryvnias.” O salário mínimo na Ucrânia é 8.647 hryvnias (cerca de $204). Se o problema não for mostrado, ele não existe. A ousadia de fotografar a realidade significa poder perder 35% do salário.
A comentadora em causa, não percebe nada do que está a acontecer. A Ucrânia quer ir para negociações porque está numa situação de extrema dificuldade e quer travar o ímpeto russo para ganhar tempo. Nada do que ela disse faz sentido. Fazendo uma analogia com o basquetebol, o treinador pede desconto de tempo (ou timeout) para parar o jogo quando a sua equipa está em dificuldades e pretende mudar de estratégia.
Só uma cabecinha pensadora pode dizer que a parte que: tem mais de 200 mil abandonos de soldados das fileiras; tem mais de quinhentos mil cidadãos em fuga do serviço militar, não tem capacidade para repor os soldados que perde diariamente em combate (o Chefe de Gabinete de Zelensky fala em 30 mil por mês), tem mais de 10 milhões de cidadãos fora do país, se encontra numa tremenda regressão demográfica, sem acesso ao mar, sem capacidade para exportar os seus produtos, etc., etc. está na mó de cima.
Mais tarde ou mais cedo, essa senhora e outras que regurgitam semelhantes atoardas têm de vir prestar contas com a história. E depois não venham com tretas dizer que fizeram avaliações erradas.
Participam há mais de 4 anos numa despudorada campanha de manipulação da opinião pública sendo coniventes ativas na desinformação a que estamos sujeitos e somos diariamente vítimas.
1 Os meus comentários incidirão sobre a forma como a atual crise do petróleo provocará uma onda de incumprimentos financeiros que causará uma depressão financeira mundial algures neste outono. Esta crise irá perturbar o comércio externo e o investimento financeiro interno, que constituem o tema central desta conferência.
A questão é: como será resolvida esta crise? E como irão os governos da Rússia, da China e os seus vizinhos asiáticos lidar com esta situação? Que tipo de novos acordos comerciais e financeiros terão de ser estabelecidos?
Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre!
Quando desapareci para férias, estava Agosto a entrar e Bordéus e a Estremadura espanhola a lutarem contra incêndios de uma ferocidade nunca vista. Mas aqui, já íamos com três semanas da operação mediática destinada ao linchamento de Luís Neves. Nos jornais, nas televisões, nas rádios, editores, comentadores, humoristas e jornalistas, todos sem desfalecimento, empurravam-se para ver quem chegaria primeiro ao último estertor do acossado. Acusado de crimes tão graves como, enquanto director nacional da PJ, aceitar os serviços de um empreiteiro que tinha contratos com a mesma PJ e de também aceitar a sua oferta para armazenar um furgão apreendido com componentes químicos que a PJ não tinha onde armazenar, Luís Neves era, sobretudo, acusado de dois pecados imperdoáveis: ter construído um tanque de rega que também podia servir de piscina sem autorização e ter “impermeabilizado” uns metros quadrados de terreno no fim do mundo para poder chegar a casa sem pisar na lama. O suficiente para lhe cortarem a cabeça, mesmo que, num país onde tanto se suspeita de corrupção, ninguém se detivesse a pensar que aquele homem que servira durante 30 anos numa posição exposta como raras outras a abordagens de corrupção, tudo o que tinha para apresentar como património era uma casinha herdada de família no deserto alentejano, alvo de “sumptuosas” obras de 15 mil euros e um carro com 15 anos.
Entretanto, o mundo avançou Agosto adentro e tragicamente: aos incêndios apocalípticos seguiram-se imagens dos dois maiores rios da Europa, o Reno e o Danúbio, quase transformados em riachos, as verdes paisagens inglesas parecendo o Magrebe, Londres sob 39 graus de canícula e Bruxelas 37, terramotos em vários lados e, por fim, as neves dos Himalaias derretendo-se e tornando-se súbitos rios diluvianos, destruindo e matando tudo à sua frente. Mas aqui, à falta de catástrofes, de incêndios e de crimes tipo-CMTV, continuava tudo na mesma: Luís Neves, Luís Neves, Luís Neves. E o planeta a explodir à volta.
Agosto aproximava-se do fim quando Trump, desvairado pelo atoleiro do Irão, onde a sua soberba e estupidez o enfiaram, voltava a ameaçar a anexação da Gronelândia e agora também Omã, enquanto prosseguia a sua ofensiva de raiva contra o Canadá, cujo primeiro-ministro tem a rara ousadia de o desafiar. Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a guerra não acabe, Deus nos livre! Mas aqui, eis que afortunadamente surgia novo dado gravemente incriminatório de Luís Neves: afinal, além do Ford Focus com 15 anos, o homem “tinha” outro carro, um Nissan Micra, que o sogro oferecera à sua mulher e que, sendo eles casados em comunhão de adquiridos, pertencia também ao suspeito — e viva a autonomia conjugal!
Hugo Pinto
E assim, a novela prosseguiu ainda até final do mês e continua Setembro adentro, sem que, por um só momento, fossem levantadas as questões políticas que interessa levantar a um ministro da Administração Interna: continua o caos nos aeroportos? Resposta: não. Aumentou o número de mortes nas estradas? Resposta: não, diminuiu em Agosto. Aumentou a criminalidade violenta? Não. Aumentou a área ardida até agora? Não, diminuiu quatro vezes, comparado com igual período de 2025. Mas isso que interessa, quando toda esta operação — obviamente soprada e alimentada de dentro da PJ, e certamente por razões de desforra pessoal — visa, antes de mais, servir o Chega e vingar a ofensa feita por Luís Neves a André Ventura, quando, com números e estatísticas na mão, desmentiu publicamente as suas alegações de que os imigrantes pobres faziam aumentar a criminalidade?
2 No pelotão de fuzilamento de Luís Neves não poderia faltar João Miguel Tavares, o grande pregador moral do regime. Depois de ter esgotado os factos e os argumentos contra Neves, o nosso comissário para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício atirou-se a Luís Montenegro, que, tendo declarado que não tiraria férias este Verão, foi fotografado um dia numa praia, por um desses também zelosos “jornalistas balneares”. Eu conheço este discurso populista e sei bem o que se pretende com ele. O melhor exemplo prático desta espécie de franciscano-fascismo foi-nos dado longamente pelo doutor Oliveira Salazar. Sem mulher nem filhos, “casado com a Pátria”, que lhe sustentava todas as necessidades financeiras até que uma cadeira o derrubou — do poder, mas não das benesses do Estado —, Salazar era um poço de proclamadas virtudes e um deserto de vícios, ou até mesmo de prazeres. Não frequentava restaurantes, nem cinemas, nem livrarias, nem concertos; nunca foi visto num estádio, numa tourada ou sequer numa praia; senhor de um Império que proclamava ir do Minho a Timor, nunca pôs um pé no estrangeiro, excepto numa ida a Sevilha para se encontrar com Franco. Foi o exemplo perfeito do governante que a ditadura exaltava e alguns ainda ensaiam promover. Pelo contrário, o melhor exemplo de um governante em tudo diferente, que a democracia nos deu, foi Mário Soares. Soares amava a vida, a praia, as viagens, os almoços com amigos, os prazeres da vida; gastava dinheiro em livrarias, em galerias de arte, em idas a museus ou concertos de música. Não é apenas o facto de eu preferir gente que aproveita e celebra a vida àqueles que, com inveja e medo de viver, se tornam reclusos de si próprios e castradores da liberdade alheia: é que me sinto mil vezes mais seguro com um primeiro-ministro que se atreve a fugir um dia ao trabalho para ir à praia do que com aqueles que vigiam os dias de praia alheios.
3 Apenas 3% dos alunos mais pobres conseguiram entrar este ano nas universidades. Como disse um reitor, a constatação obrigatória é a de que falhou o elevador social — que a educação pública deveria garantir, depois de milhares de milhões nela investida ao longo dos anos. E falhou onde? No ensino secundário público — aquele onde “os professores a lutar também estão a ensinar”, lembram-se? Eis o resultado de 50 anos de luta da Fenprof, e não só, contra a avaliação séria de desempenho. Ou seja, na protecção dos medíocres, dos absentistas, ou dos grevistas das sextas-feiras. Ou haverá outra leitura possível para este número vergonhoso?
4 Do Expresso: o Colégio de Cirurgia Torácica da Ordem dos Médicos enviou uma carta à ministra da Saúde “recusando as definições e os valores a receber” segundo as novas regras para cirurgia nos hospitais do SNS, estabelecidas após o escândalo no serviço de dermatologia de Santa Maria. Nessa carta, os cirurgiões avisavam a ministra de que já estavam a surgir, em protesto, atrasos nas cirurgias dos doentes com cancro de pulmão — o que, segundo os subscritores, “poderá significar a perda de anos de vida para doentes que poderiam beneficiar de tratamento cirúrgico adequado”. E assim encostada à parede, a ministra cedeu e recuou. Mas vale a pena lembrar que todos os anos a mesma Ordem dos Médicos leva a cabo várias sessões solenes do “Juramento de Hipócrates”, em que os novos médicos juram, entre outras coisas, que “a saúde e bem-estar dos meus doentes serão a minha primeira preocupação”. Pobre Hipócrates, estes são mesmo tempos novos!
5 E a Europa com que tantos sonharam e sonhavam morreu neste mês de Agosto, em Ceuta. O tratamento que tantos líderes europeus deram a Espanha (incluindo países como a Finlândia ou a Dinamarca, que beneficiam do apoio político e militar de Espanha) foi de uma absoluta indecência e, simultaneamente, a consequência da autodestruição do ideal europeu levada a cabo por uma leva de dirigentes sem visão nem vergonha. Aos olhos deles, havia que tirar uma desforra de Pedro Sánchez, um exemplo raro de um líder que pensa pela própria cabeça, que se recusa a aceitar os ultimatos de Trump e da NATO, a alinhar na histeria anti-imigração ou a ser conivente com o branqueamento dos crimes de Israel. E que, ainda para mais e para desespero do PP espanhol, a mais estúpida direita europeia, vive uma situação económica próspera, comparada com a dos países que lhe querem dar lições. Por isso o quiseram matar: mas mataram, sim, a Europa, doravante uma simples associação de pedintes e contabilistas.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia