Há 74 anos – A vitória sobre o nazi/fascismo

(Carlos Esperança, 08/05/2019)

Há 74 anos a Alemanha rendeu-se aos aliados ocidentais, antecipando a rendição à URSS e aos seus aliados do Leste, o que aconteceria no dia seguinte, ainda que a Guerra só terminasse com a posterior rendição do Japão.

Terminou então a 2.ª Guerra Mundial na Europa. Dez dias antes, em Itália, Mussolini fora julgado sumariamente e fuzilado com a amante, Claretta Petacci. Dois dias depois, Hitler suicidou-se com um tiro na cabeça, e a sua mulher, Eva Braun, com a ingestão de uma cápsula de cianeto.

O alto comando alemão ainda tentou assinar a paz com os aliados ocidentais e, assim, a rendição só aconteceu no dia 8 de maio de 1945. Nesse dia começou o fim do pesadelo que o nacionalismo, a xenofobia e o racismo provocaram, desde o dia 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia, perante a conivência de muitos polacos. A Alemanha, ignorando o tratado de Versalhes, começou a guerra de expansão com fortes apoios nos países ocupados. A Espanha, vítima da barbárie de Franco, chorava em silêncio, num ambiente de medo, silêncio e luto, 1 milhão de mortos, desaparecidos e refugiados.

Quando parecem esquecidos os crimes do nazi/fascismo e o maior plano de extermínio em massa de que há memória, regressam fantasmas e surgem velhos demónios, como se o Holocausto não tivesse ocorrido e os fornos crematórios não tivessem assassinado milhões de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes, na orgia cruel de que a loucura nacionalista foi capaz.

O nazi/fascismo levou a guerra à África e Ásia e, na Europa, não foram os europeus que o derrotaram, foram os EUA e a URSS que vieram esmagar a besta nazi contra a qual a coragem e abnegação dos resistentes foram impotentes.

Urge recordar aos que ora se sentem seduzidos pela extrema-direita, aos que profanam os cemitérios dos judeus, aos racistas, xenófobos e homofóbicos que o antissemitismo é um crime imprescritível, como todos os crimes de ódio de que a alegada supremacia rácica é capaz.

A capitulação alemã, em 8 de maio de 1945, foi fundamental para a História mundial. Os historiadores comparam-na à Reforma Protestante e à Revolução Francesa.

É urgente recordar a História porque a repetição da tragédia é uma evidente ameaça.


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Como branquear um nazi na TV(I)

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 05/01/2019)

cancio

Quinta-feira foi um grande dia para Mário Machado. Esteve em dois programas da TVI, um de entretenimento – o de Manuel Luís Goucha – e outro de alegada informação (SOS24), e correu-lhe muito bem. Na página de Facebook do seu movimento, escrevia-se:“Objectivo n.º 1 – Atingido! “Chegar às pessoas!'”.

Porque, como deveria ser óbvio, o simples facto de convidar um nazi condenado a uma infinidade de anos de prisão – em 2012, as penas consecutivas somavam mais de 19, que resultaram num cúmulo jurídico de dez -, na sua maioria por crimes violentos, para o sofá de um programa de entretenimento, entre uma rubrica que ensina a fazer pastéis e outra em que se impinge vendas aos idosos, é uma forma de o embalar como pessoa “normal”, aceitável, até “simpática”. Machado sabe isso, claro. Dá para acreditar que Goucha e a TVI não saibam?

Aliás, como ninguém convida um nazi criminoso para um programa destes para dizer: “Caros telespectadores, aqui temos este grandessíssimo nazi criminoso para ficarem cheios de nojo dele e de nós por o termos trazido”, Machado foi apresentado, no programa como no Facebook de Goucha – que depois apagou o post, supõe-se que pela enxurrada de críticas (a liberdade de expressão é muito boa, mas) -, como um mero “autor de declarações polémicas.” Transformando um criminoso que professa uma ideologia violenta numa pessoa “controversa”, que pode e deve, como aliás defende Goucha, ser “contraditada com argumentos”: “Ele tem os dele e nós temos os nossos.”

Por irresponsabilidade, soberba e ingenuidade, Goucha caiu na armadilha de achar que poderia fazer um brilharete “desmontando” Machado sem sequer saber quem tinha na frente.

 

Essa é a armadilha em que o apresentador, por irresponsabilidade, soberba e ingenuidade, caiu: a de achar que poderia fazer um brilharete “desmontando” Machado sem sequer saber quem tem na frente, e portanto induzindo os seus espectadores no mesmo erro. É certo que o convidado foi questionado sobre os seus crimes. Mas quem o fez, apresentando-se como “repórter”, limitou-se a ouvi-lo afirmar que tinha sido preso preventivamente – e injustamente – em 1995 por suspeitas de envolvimento na morte do português negro Alcindo Monteiro, assassinado à pancada por um grupo de skinheads no 10 de Junho desse ano, e que fora solto em 1997 por ser “absolvido”. Deixou-o queixar-se: “É um fardo que carrego, pesadíssimo para mim e a minha família.”

Pobre Mário Machado. De facto não foi condenado por essa morte; foi condenado em 1997, pelo Supremo – no mesmo processo em que outros membros do grupo foram condenados pelo homicídio qualificado de Alcindo -, a dois anos e seis meses de prisão, em cúmulo jurídico, por fazer parte desse gangue que foi ao centro de Lisboa com o objetivo de agredir negros e pela autoria material de cinco dessas agressões, duas delas resultando em traumatismos cranianos. Estaria a espancar outros negros quando os amigos mataram Alcindo.

“Denota completa ausência de arrependimento”, escreveu o tribunal em 1997. 23 anos depois, Machado apresenta-se como vítima da justiça e repete as mentiras de 1995: que se tratou de “um confronto entre nacionalistas e africanos”, quando se provou que foram, armados de soqueiras, tacos e botas de ponta de aço, à caça de negros para agredir.

 

“Denota completa ausência de arrependimento”, lê-se no acórdãoAusência de arrependimento evidente 23 anos depois ao apresentar-se como vítima do “falhanço da nossa justiça” e repetir a mentira que o grupo apresentou desde o primeiro momento: que se tratou de “um confronto entre nacionalistas e africanos no Bairro Alto”, quando, deu-se como provado, Machado e amigos iam armados com soqueiras, tacos e botas de ponta de aço à caça de negros para agredir, querendo “com essa atuação, integrada nos objetivos do grupo de skins, contribuir para a expulsão de Portugal daquele grupo racial.”

Nada disso Goucha ou o seu “repórter” souberam ou quiseram evidenciar. Como os escritos racistas e nazis muito mais recentes de Machado, as fotos a fazer a saudação nazi, as tatuagens nazis, a informação sobre as suas condenações, a última das quais, a sete anos e dois meses por roubo, sequestro, coação e posse ilegal de arma, é de 2010 – esteve preso até 2017, quando saiu em condicional. É de resto tal a profusão e a gravidade das condenações que talvez nem o próprio se lembre de todas, quanto mais Goucha. Daí que tenha podido dar-se ao desplante de se dizer “a primeira pessoa em Portugal a ser presa dois anos e nove meses por um texto escrito na internet”, coisa que, comentou, “no tempo de Salazar não aconteceu a ninguém” – referindo-se à condenação, em 2016, por uma carta escrita em 2014 a partir da prisão, na qual afiançava a uma mulher, que acusava de o ter “tramado”, que se não lhe pagasse 30 mil euros iria ser morta “à frente dos teus filhos”, e “encomendava” agressões a outras pessoas.

Após tal performance no programa de Goucha, Machado seguiu para o inominável SOS24 , onde debitou a sua cartilha racista e odienta, falando de “africanos”, “portugueses brancos” e “da nossa cultura” (para quem precise de um desenho: portugueses são brancos, os não brancos não são portugueses) e afirmando que “hoje em dia o racismo vem sobretudo dos negros contra os próprios brancos, (…) desses grupos de marginais que espalham o terror nas nossas cidades, que perseguem os nossos miúdos nas escolas, que violam as raparigas sempre que têm uma oportunidade, porque o fazem movidos por ódio racial”. Também aí, ninguém lhe pediu que apresentasse provas do que disse, ninguém o contraditou com o mínimo de eficácia.

A TVI quis dar “respeitabilidade” e “seriedade” a um criminoso cúmplice de assassinos permitindo-lhe intoxicar milhões com as suas mentiras. E tanto que o conseguiu que está tudo, para variar, a falar de “liberdade de expressão”. Parabéns a todos.

 

Não sei se Machado e a TVI violaram alguma lei; não sei se faz sentido “resolver” isto com queixas à ERC, alimentando a sua estratégia de vitimização. Não se trata, para mim, de o impedir de ser o nazi e o racista repelente que é e de defender essas “ideias” – direito que lhe reconheço, desde que sem apelar à violência (se bem que ser nazi sem apelar à violência seja difícil); sequer de querer impedir alguém de o entrevistar. Trata-se de tornar claro o que a TVI fez: branqueou uma carreira de duas décadas de crime (no programa de Goucha) para a seguir dar tempo de antena, no SOS24, ao discurso de ódio que enforma essas duas décadas de crimes. Quis dar “respeitabilidade” e “seriedade” a um criminoso cúmplice de assassinos permitindo-lhe intoxicar milhões com as suas mentiras. E tanto que o conseguiu que está tudo, para variar, a falar de “liberdade de expressão”. Parabéns a todos.

Lei marcial na Ucrânia

(Joseph Praetorius, 27/11/2018)

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Lei marcial na Ucrânia onde Poroshenko prepara o esmagamento de qualquer oposição, a começar, evidentemente, pelas multidões cristãs da Igreja Canónica (com a benção do patriarca da OTAN em Constantinopla) enquanto os neo-nazis (que o nazismo consideraria inevitavelmente sub-homens) lançaram um ataque provocatório contra o consulado russo em Karkov, incendiando-o, perante o silêncio do “ocidente” que assim retoma (sem energia nem dinheiro) o delirante projecto do confronto militar imediato com a Rússia, usando o moribundo Poroshenko e o “estado” já inviável da Ucrânia.

Macron, May, Rutte, Morawiecki, Löfven, o emir do Kwait e Trump mandaram sustentar no conselho de segurança da ONU o cadáver adiado de Poroshenko, cujo destino se consumaria nas eleições da próxima primavera sem esta artifíciosa Lei Marcial que se prefigura homicida, senão genocidária, ao menos no plano dos perigos evidentes.

Mas nada há firme nesta cena internacional, porque no Conselho de Segurança, destes sete se demarcaram oito, seja porque a abstenção não é uma aprovação, seja porque a oposição clara da Bolívia, China, Rússia e Kazaquistão traduz uma evidente e impressionante relevância política (militar e económica) à escala do globo.

O “ocidente” joga estupidamente as últimas cartas (fracas) no jogo da sua irremediável, dolorosa e irreversível decadência e do seu regresso à pobreza, que não lhe é já possível contrariar pela morte e pelo saque impostos aos outros povos da terra.

Em breve as suas oligarquias estarão a discutir não já o preço das vidas alheias, mas o das suas próprias existências.Esse preço não pode ser elevado, por corresponder à improbabilidade do êxito que lhes cabe.