Da ordem internacional à (des)ordem internacional com o Major-General Agostinho Costa

(Agostinho Costa, in canal do YouTube ABC do Mundo, 18/05/2026)


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Uma vaga de novas lideranças políticas nos principais eixos de poder mundiais está a mudar a Ordem Internacional como a conhecemos. As alianças e o equilíbrio de poderes que tomávamos como garantidos mudou e muitas mais alterações estão a caminho. Para tentar descodificar este novo mundo e esta “desordem” internacional, convidámos o comentador e especialista em temas internacionais Major-general Agostinho Costa, uma das vozes mais conhecidas de Portugal nos temas de relações internacionais. O ‘O’ de Ordem Internacional é o mote para a conversa com Bruno Mourão e Alberto Cunha, membros permanentes do nosso painel. Passamos pelos Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia e vários outros pontos do Mundo para ir a fundo neste ‘novo normal’. Sem o nosso comentador Bernardo Valente, interrompemos esta semana o nosso habitual TML – Tema Mais Leve, mas para compensar temos um segmento pensado especialmente para conhecer melhor o nosso convidado, uma espécie de questionário de Proust à moda do ABC do Mundo. Não podem perder!

É ver o vídeo abaixo.


Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão

(In Verdade e Factos, in Facebook, 18/05/2026, Revisão da Estátua)


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A União Europeia tem roubado a Rússia, desde há cinco anos a esta parte, escondendo-se atrás de “sanções” e “congelamento”. Bruxelas pensou que biliões roubados poderiam ser anulados, e que Moscovo iria simplesmente engolir o ataque. Mas há uma coisa que os estrategas europeus não tiveram em conta. A Rússia não perdoa a ladrões. E a hora da vingança finalmente chegou.

Aqueles que invadem a nossa propriedade são ladrões, vigaristas. Estas ações não podem ser interpretadas de outra forma“, disse o presidente da Duma Vyacheslav Volodin numa reunião a 18 de novembro, comentando os planos da UE para apreender os bens russos.

“Quaisquer ações ilegais de apropriação dos nossos fundos serão tratadas como um roubo, o que envolverá uma punição irreversível e muito severa”, disse Maria Zakharova, porta-voz oficial do Ministério das Relações Exteriores russo, salientando que a resposta da Rússia será verificável e destinada a compensar os danos.

300 biliões: crônicas de um assalto

Desde 2022, o Ocidente congelou ativos russos no valor de cerca de 300 biliões de euros. A parte principal – da ordem de 180-200 mil milhões de euros – está no depósito belga Euroclear.

Os europeus criaram um esquema: não para se apoderarem simplesmente daquela quantia (é ilegal), mas para confiscarem os rendimentos da mesma.  Em 2024 a Euroclear recebeu 4,4 biliões de euros de lucro dos ativos russos congelados. Em 2025, este número vai subir para 6,7 biliões. Este dinheiro foi para o orçamento da UE e foi para as armas para as Forças Armadas Ucranianas

Em 12 de dezembro de 2025, o Conselho da UE votou a favor de um congelamento indefinido de ativos russos. O próximo passo, de acordo com a declaração do Presidente do Conselho Europeu António Costa, deverá ser responder às necessidades financeiras de Kiev para 2026-2027.

Nos seus discursos, os líderes ocidentais são defensores do “estado de direito”. Na prática eles são ladrões com brasão disfarçados de focas. Eles chamam-lhe “compensação”. Nós chamamos-lhe roubo.

A nossa resposta: o tribunal exigiu 200 biliões do Euroclear

Como era de esperar, a Rússia não esperou até que os tribunais europeus decidissem com “justiça”. Em 15 de maio de 2026, o Tribunal Arbitral de Moscovo deferiu o pedido do Banco Central da Rússia contra o banco belga Euroclear.

O montante do pedido é de 200 biliões de euros (cerca de 17,3 triliões de rublos). A reivindicação foi plenamente satisfeita.

O Banco da Rússia pediu para recuperar as perdas sofridas devido à atuação do Euroclear: o regulador não pode dispor do dinheiro que não lhe pertence e dos seus valores mobiliários. A dimensão do pedido foi determinada pelo custo dos fundos bloqueados e pela dimensão do lucro perdido.

Representantes da Euroclear no tribunal, Sergey Saveliev e Maxim Kulkov, alegaram que o direito do depositante aos ativos se tinha quebrado. Eles não foram capazes de revelar os detalhes das suas alegações devido, disseram eles, a estarem em segredo de justiça. Mas o tribunal ficou do lado da Rússia.

Choque no espelho: o que seguir

A Rússia já introduziu medidas de retaliação. Os ativos e os seus rendimentos, pertencentes a investidores estrangeiros de países não amigáveis são acumulados em contas especiais, tipo “C”. Eles só podem ser de lá removidos por decisão da comissão editorial especial.

O porta-voz presidencial Dmitry Peskov dissera anteriormente que a possível retirada de ativos congelados da Federação Russa não ficaria sem resposta e prejudicaria significativamente a confiança no sistema financeiro ocidental.

O antigo analista de inteligência português Alexandre Guerreiro avisou que qualquer resposta da Rússia à apreensão dos seus bens será dura, mas justificada, em termos do princípio da reciprocidade. No caso de uma apreensão equivalente de ativos europeus na Rússia, as empresas ocidentais perderão não só a propriedade, mas também o acesso ao mercado russo,

Agora, o Conselho da UE é obrigado a apresentar a sua posição oficial sobre o uso de ativos congelados da Federação Russa até ao final de maio de 2026. O Banco Central da Rússia salientou que está a acompanhar o desenvolvimento da situação e continuará a proteger os interesses do país, informa o Serviço Público de Notícias.

A Europa está em pânico. Mas é tarde para se arrepender

Na elite europeia está a soar o alarme. A Rússia respondeu. E a resposta foi mais dura do que o esperado.

A chefe da diplomacia europeia, Kaya Kallas, exigiu que os países da UE “acelerassem o procedimento de confisco”. Mas, agora em Bruxelas, já se entende: Moscovo não faz bluff. Os tribunais russos já estão a aprovar decisões. Os ativos europeus na Federação Russa estão sob impacto.

A Rússia não vai mais fazer cerimónia com aqueles que lucram com a guerra. A Europa abriu a caixa de Pandora – mostrou que pode apropriar-se dos bens alheios. Então, agora e em resposta, os bens da Europa também podem ser legitimamente apropriados. E este é o pior cenário para os europeus.

Chegou o dia do pagamento

Dentro de algumas semanas, a decisão do Tribunal Arbitral de Moscovo entrará em vigor – a menos que a Euroclear não apresente recurso. É provável que o recurso seja apresentado. Mas isso não impede a continuação do processo. A Rússia prosseguirá a sua decisão – à custa dos bens europeus bloqueados no seu território.

Dentro de alguns meses, poderá ser introduzido um mecanismo de compensação de perdas, suportado pela propriedade das empresas europeias que continuam a operar na Rússia. Estamos a falar de sectores energéticos e financeiros.

Dentro de seis meses, a Rússia e a China podem finalmente concordar com a criação de uma infraestrutura financeira alternativa, independente do SWIFT, e dos bancos ocidentais. Nessa altura,  as sanções ocidentais perderão o seu significado final.

A Europa queria punir a Rússia. Ela acabou por se auto castigar. 300 mil milhões de euros estão congelados, mas este dinheiro já não pode ser utilizado para a economia europeia. Eles foram para a guerra, para a propaganda, para a corrupção. A China e outros países asiáticos apenas fortaleceram as suas posições. E o que é que a Europa recebeu? Uma reputação arruinada, passando a ser tida como um parceiro não confiável.

Quais as implicações de tudo isto?

A Europa cometeu um erro fatal ao decidir roubar os bens russos. 300 mil milhões de euros estão congelados. A Rússia respondeu – o tribunal exigiu 200 mil milhões de euros do Euroclear. Prisões, bloqueios, processos são apenas o começo. Agora nenhum investidor terá a certeza de que o seu dinheiro está seguro. A Europa matou a sua reputação. E ela nunca se irá recuperar.

Chegou a hora da vingança. Qual o montante de bens europeus, acha você que serão confiscados na Rússia em resposta ao roubo dos 300 mil milhões, e quando é que a UE começará a rever a sua política em relação à Rússia?

Dica do dia

Se você é um empresário europeu que aplaudiu “o castigo da Rússia” – prepare-se. Os seus bens na Rússia são um alvo legítimo. Se você é um político europeu que votou a favor do confisco – tenha medo. A Rússia lembra-se de todos. Se você é um residente europeu, que está satisfeito com as “sanções”, pague.

Tudo terá que ser pago. Estão a roubar-nos? Tudo vai ser recuperado. E esta é apenas a primeira etapa.

Hand writing with a quill pen in an old history book titled História da Europa, with words 'Unidade' and 'Progresso' highlighted

O “projeto europeu” nas ruas da amargura

(Por Albarda-mos, in Estátua de Sal, 03/05/2026, revisão da Estátua)

Hand writing with a quill pen in an old history book titled História da Europa, with words 'Unidade' and 'Progresso' highlighted

Alguém marca um livro de história sobre a Europa destacando as palavras unidade e progresso que, entretanto foram abolidas do projeto europeu… Imagem gerada por IA.

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de João Gomes sobre o fim da Segunda Guerra Mundial e a tomada de Berlim pelo exército soviético, (ver aqui). Pela análise que faz às motivações que levarão a UE a tentar reescrever a História, conectando tais motivações à morte do “projeto europeu”, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 03/05/2026)


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A UE é um projeto tecnocrata, tem um programa próprio que se impõe sem grande atenção às necessidades reais das populações dos países e regiões que a compõem, às suas diferentes característica, culturas e necessidades. Em tempos apregoava a coesão, a convergência socioeconómica entre os estados membros, a atenuação das desigualdades sociais, um mercado comum e aberto, a defesa de valores humanistas, democráticos e o progresso civilizacional, etc.

Hoje em dia tudo isso se inverteu, alguns estados põem e dispõem e ditam aos outros as regras orçamentais, a política sectorial, fiscal, empresarial, económica, etc. Há uma canalização absurda de verbas para Estados que não são membros e chegam a condicionar mais as políticas da UE que alguns dos membros. As desigualdades sociais e entre países são cada vez maiores, a convergência é um mito, tudo encarece e a vida dos europeus não abastados – a grande maioria -, é cada vez mais difícil, com menos tempo e recursos, mas muito mais desinformação, ruído, propaganda, controlo mental e pressão – as exigências e deveres aumentam, os direitos diminuem.

Os valores progressistas e igualitários foram substituídos pelo ódio, a xenofobia, a discriminação, a marginalização e a segregação. A verdade é um alvo a abater, e se na guerra ela é a primeira vítima, numa sociedade belicista, armamentista e militarista como se pretende a UE, ela já vem a definhar e é tratada como uma pobre coitada que só alguns iluminados e outros vultos da comunicação social estão em condições de nos dizer qual é: já nem sequer pode ser procurada e conhecida por intermédio de outras fontes que não as dos especialistas de painel, que ora são generais e tenentes-coronéis ora diretores da Cruz Vermelha ou da AMI, manobrados por jornalistas que ora são moderadores, ora comentadores, ora editores, por vezes tudo no mesmo dia e até à mesma hora, consoante o discurso, a narrativa e a mensagem programadas naquele horário.

E perante toda esta demência, há cada vez uma maior deferência aos centros institucionais de poder e aos seus líderes, mesmo apesar dos escândalos cada vez mais frequentes de corrupção, alienação e outros crimes de lesa-pátria, como os emails da Ursula às farmacêuticas, a Mogherini que desapareceu rapidamente das notícias, entre outros casos que pelos vistos não abalam mas reforçam a crença da bondade e da solidariedade europeias, assim como da defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.

Tudo isto numa UE a reboque e na sombra dos EUA, coisa que não acontece em mais nenhuma organização continental relativamente a outra nação de outro continente, não com os mesmos níveis de submissão, aculturação política e sabujice. Até o inglês continua e é cada vez mais a língua oficial dos líderes da UE, mesmo após o Brexit! E não me venham dizer que é por causa da Irlanda ter ficado na UE…

Perante tudo isto, como esperar que o “projeto europeu” tenha qualquer respeito pela “verdade” ou “realidade” históricas, se sucumbiu a fantasias, divagações e a lucubrações corporativas e pessoais de poder?

E sucumbiu em detrimento do bem comum e do progresso social e civilizacional, com o retorno ao volkismo e às correntes racistas e segregacionistas do século passado, antissocialistas e profundamente não igualitárias, tão em voga no “farol do mundo livre” pelo qual a UE se orienta e define atualmente, e onde a separação de poderes é tão ténue e manipulada.