Olhai as vinhas, coitadinhas!

(Por José Gabriel, in Facebook, 25/01/2023)

Naquele tempo, há milhares de anos, o homem, num golpe de génio, inventou o vinho. E achou que era bom. Logo soube também que, como tantas coisas importantes a vida, tinha o vinho uma dupla face: um lado prazeroso e alegre, outro triste e feio. E não temeu, pois sobrava-lhe bom senso e sabedoria para consumir o novo néctar com moderação. Os deuses também gostaram e não o dispensavam nas suas libações. Chegaram mesmo a usá-lo como metáfora do divino sangue. Poderia haver excessos? Sim, como em todas as atividades humanas. Mas isso não dependia da natureza do consumido, mas a insensatez o consumidor. E, assim, o vinho acompanhou os homens na sua jornada e eles acharam que era bom.

Até que os homens inventaram uma coisa chamada União Europeia. E esta, na sua obsessão de proteger os cidadãos da velha Europa de tudo o que lhes desse prazer – em nome a higiene, a saúde, a segurança…- e, considerando que os cidadãos são todos descerebrados, decidiu que todas as garrafas e outros contentores do precioso líquido fossem rotulados com imagens assustadoras e advertências que – à semelhança do que acontece com o tabaco – desencorajassem os sequiosos humanos do seu consumo (ver notícia aqui).

A bondosa organização até já calculou a percentagem de consumidores que abandonariam o vinho desmotivados por essas advertências. Tem ela a certeza de que até o mais inveterado bebedor deixará de o ser por esses rótulos lhe fazerem ver, qual epifania, a verdade. Ignora-se quais os sucedâneos recomendados para a celebração de cerimónias religiosas e outras em que se brinda com o funesto líquido. Talvez só escape a cerimónia do baptismo dos barcos, uma vez que esta consiste, geralmente, no acto de partir uma garrafa de champanhe contra o casco da embarcação, o que constitui uma bela metáfora às intenções benévolas da União Europeia.

Acontece que, ao longo desta história do vinho, os homens inventaram os Italianos, povo dado aos prazeres sólidos e líquidos da mesa. Ora, os Italianos, sabendo as intensões da UE, e assanhadiços que são quando lhes entram no cardápio, já anunciaram que jamais obedeceriam às ordens da Úrsula europeia e recusariam que as suas garrafas de Brunello di Montalcino, Chianti, Barolo e outras maravilhas fossem visualmente poluídas com tão sinistros avisos. E exortam outros povos a fazer o mesmo.

Ora, pergunto eu, ao menos neste assunto conseguiremos fazer frente aos caprichos dos mandantes europeus? Aqui, acho que os meus irmãos latinos – pelo menos – se levantarão. Contra os abusos de poder da UE e, claro, para um brinde à nossa saúde.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A guerra na Ucrânia para manter a União Europeia sob tutela

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 24/01/2023)

Mas porque é que Josep Borrell, Charles Michel e Ursula von der Leyen, que foram condenados por corrupção e provaram a sua incompetência, se tornaram os líderes da União Europeia ? Para subscrever aquilo que lhes dita Jens Stoltenberg.

É difícil admitir, mas os Anglo-Saxões não o escondem. Parafraseando uma citação célebre do primeiro Secretário Geral da Aliança, A OTAN foi concebida para « conservar a Rússia fora, os Americanos dentro e a União Europeia sob tutela ».
Não há nenhuma outra interpretação possível sobre a continuação das inúteis « sanções » contra Moscovo e dos vãos combates mortíferos na Ucrânia.


Faz já quase um ano que o Exército russo entrou na Ucrânia para aplicar a Resolução 2202 do Conselho de Segurança. Rejeitando este motivo, a OTAN considera, pelo contrário, que a Rússia invadiu a Ucrânia para a anexar. Nos quatro “oblasts”, os referendos de adesão à Federação da Rússia parecem confirmar a interpretação da OTAN, salvo que a História da Novorossia confirma a explicação da Rússia. As duas narrativas desenrolam-se em paralelo, sem jamais se tocarem.

Pela minha parte, tendo editado um boletim diário durante a guerra do Kosovo [1], recordo-me que a narrativa da OTAN à época era contestada por todas os agências de imprensa dos Balcãs, sem que eu tivesse meio de saber quem tinha razão. Dois dias após o fim do conflito, jornalistas dos países membros da Aliança Atlântica puderam ir até lá e constatar que haviam sido enganados. As agências de notícias regionais tinham razão. A OTAN não tinha parado de mentir. Mais tarde, quando eu era membro do governo líbio, a OTAN, que tinha um mandato do Conselho de Segurança para proteger a população, alterou-o a fim de derrubar a Jamahiriya Árabe Líbia, matando 120 000 pessoas que ela era suposto proteger. Estas experiências mostram-nos que o Ocidente mente sem vergonha para encobrir as suas acções.

Hoje em dia a OTAN garante-nos que não está em guerra, uma vez que não colocou homens na Ucrânia. Ora, assistimos por um lado a gigantescas transferências de armas para a Ucrânia, para que os nacionalistas integralistas ucranianos [2], treinados pela OTAN, resistam a Moscovo e, por outro lado, a uma guerra económica, também ela sem precedentes, para destruir a economia russa. Tendo em conta a amplitude desta guerra por interpostos ucranianos, o confronto entre a OTAN e a Rússia parece possível a qualquer instante.

Uma nova Guerra Mundial é, no entanto, altamente improvável, pelo menos a curto prazo: no entanto, os actos contradizem já a narrativa da OTAN.

A guerra continua e prossegue sem parar. Não que os dois campos estejam em paridade, mas porque a OTAN não quer enfrentar a Rússia. Vimos isso, há três meses, durante a Cimeira do G20, em Bali. Com o acordo da Rússia, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, interveio nos debates por vídeo, desde Kiev. Ele pediu a exclusão da Rússia do G20, como acontecera com o G8 depois da adesão da Crimeia à Federação da Rússia. Para sua grande surpresa e dos membros da OTAN presentes na Cimeira, os Estados Unidos e o Reino Unido não o apoiaram [3]. Washington e Londres acordaram que havia uma linha a não ultrapassar. E por um bom motivo: as modernas armas russas são muito superiores às da OTAN, cuja tecnologia data dos anos 90. Em caso de confronto, não há qualquer dúvida que a Rússia certamente sofreria bastante, mas que ela iria esmagar os Ocidentais em poucos dias.

É à luz deste acontecimento que devemos reler aquilo que se passa à frente dos nossos olhos.

O afluxo de armas para a Ucrânia não passa de um engodo: a maioria dos materiais enviados não chega ao campo de batalha. Já havíamos anunciado que eles estariam a ser enviados para desencadear uma outra guerra no Sahel [4], o que o Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, publicamente confirmou, atestando que muitas armas destinadas à Ucrânia estavam já em mãos dos jiadistas africanos [5]. Além disso, constituir um arsenal do género manta de retalhos, ao adicionar armas de idades e calibres diferentes, não serve para nada. Ninguém tem logística suficiente para abastecer os combatentes com munições múltiplas. Deve-se concluir, portanto, que estas armas não são dadas à Ucrânia para que ela vença.

New York Times deu o alerta explicando que os fabricantes ocidentais da Defesa não conseguiam produzir armas e munições em quantidade suficiente. Os stocks estão já esgotados e os exércitos ocidentais são forçados a dar o material que é indispensável à sua própria defesa. Isso foi confirmado pelo Secretário da Marinha dos EUA, Carlos Del Toro, que chamou a atenção para o actual despojamento dos exércitos americanos [6]. Ele precisou que se o complexo militar-industrial dos EUA não conseguisse, em seis meses, produzir mais armas do que a Rússia, o exército dos EUA não mais seria capaz de cumprir a sua missão.

Primeira observação : mesmo que os políticos dos EUA queiram desencadear o Armagedom, eles não dispõem dos meios para o fazer nos próximos seis meses e não os terão provavelmente, de qualquer forma, no futuro próximo.

Avaliemos agora a guerra económica. Deixemos de lado a sua camuflagem sob uma linguagem castigadora: as «sanções». Já tratei desta questão e sublinhei que não se tratava de decisões de um tribunal e que elas são ilegais face ao Direito Internacional. Vejamos as moedas. O dólar esmagou o rublo durante dois meses, depois ele voltou a descer para o valor que tinha de 2015 a 2020, sem que a Rússia tenha assumido empréstimos maciços. Por outras palavras, as pretensas «sanções» tiveram apenas um efeito insignificante sobre a Rússia. Elas perturbaram seriamente as suas trocas comerciais durante os dois primeiros meses, mas já não a incomodam hoje. Além disso, elas não custaram nada aos Estados Unidos e em nada os afectaram.

Sabemos que, ao mesmo tempo que proíbem aos seus aliados de importar hidrocarbonetos russos, os Estados Unidos importam-nos via Índia e reconstituem assim os stocks que haviam gasto durante os primeiros meses do conflito [7].

Pelo contrário, observamos um abalo na economia europeia que é forçada a pedir emprestado maciçamente para apoiar o regime de Kiev. Não dispomos nem de estatísticas sobre a extensão desses empréstimos, nem da identificação dos credores. É, no entanto, claro que os governos europeus fazem apelo a Washington no quadro da Lei de empréstimo-arrendamento dos EUA (Ukraine Democracy Defense Lend-Lease Act of 2022). Tudo o que os Europeus dão à Ucrânia tem um custo, mas este só será contabilizado depois da guerra. Só nesse momento a factura será apresentada. E ela será exorbitante. Até lá, tudo corre bem.

A sabotagem dos oleodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2 , em 26 de Setembro de 2022, não foi reivindicada após o golpe, mas antes pelo Presidente norte-americano, Joe Biden, em 7 de Fevereiro de 2022, na Casa Branca, na presença do Chanceler alemão Olaf Scholz. É certo que ele só se comprometeu a destruir o Nord Stream 2 em caso de invasão russa da Ucrânia, mas isso apenas porque a jornalista que o interrogava enquadou o assunto sem ousar imaginar que ele o poderia fazer também ao Nord Stream 1. Por esta declaração e mais ainda por esta sabotagem, Washington mostrou o desprezo que tem pelo seu aliado alemão.

Nada mudou desde que o primeiro Secretário-Geral da OTAN, Lord Ismay, declarava que o verdadeiro propósito da Aliança era o de «manter a União Soviética fora, os Americanos dentro e os Alemães sob tutela» (« keep the Soviet Union out, the Americans in, and the Germans down ») [8]. A União Soviética desapareceu e a Alemanha assumiu a chefia da União Europeia. Se ainda estivesse vivo, Lord Ismay provavelmente ainda diria que o objectivo da OTAN é manter a Rússia fora, os Americanos dentro e a União Europeia sob tutela.

A Alemanha, para quem a sabotagem desses oleodutos foi o golpe mais sério desde o fim da Segunda Guerra Mundial, encaixou-o sem pestanejar. Simultaneamente, ela engoliu o plano de Biden de salvação da economia dos EUA às custas da indústria automobilística alemã. A tudo isso, ela reagiu aproximando-se da China e evitando zangar-se com a Polónia, o novo trunfo dos Estados Unidos na Europa. Agora, ela propõe-se reconstruir a sua indústria desenvolvendo fábricas de munições para a Aliança.

Como consequência, a aceitação pela Alemanha da suserania dos Estados Unidos foi partilhada pela União Europeia que Berlim controla [9]

Segunda observação : os Alemães e os membros da União Europeia no seu conjunto tomaram nota de um declínio no seu nível de vida. Eles são, junto com os Ucranianos, as únicas vítimas da guerra actual e a ela se acomodam.

Em 1992, quando a Federação da Rússia acabava de nascer sobre as ruínas da União Soviética, Dick Cheney, então Secretário da Defesa, encomendou ao straussiano [10] Paul Wolfowitz um relatório que só nos chegou depois de amplamente manipulado. Os extractos do original, que a propósito publicaram o New York Times e o Washington Post, mostraram que Washington já não considerava a Rússia como uma ameaça, mas a União Europeia como uma potencial rival [11][11]. Podia ler-se nele:
«Muito embora os Estados Unidos apoiem o projecto de integração europeia, devemos tomar cuidado para prevenir a emergência de um sistema de segurança puramente europeu que minaria a OTAN e, particularmente, a sua estrutura de comando militar integrada».

Por outras palavras, Washington aprova uma Defesa Europeia subordinada à OTAN, mas está pronta a destruir a União Europeia se esta pensar tornar-se uma potência política capaz de lhe fazer frente.

A actual estratégia dos Estados Unidos, que não enfraquece a Rússia, mas a União Europeia com o pretexto de lutar contra a Rússia, é a segunda aplicação concreta da Doutrina Wolfowitz. A sua primeira aplicação, em 2003, consistia em punir a França de Jacques Chirac e a Alemanha de Gerhard Schröder que se haviam oposto a que a OTAN destruísse o Iraque [12].

Foi exactamente o que disse o Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o General Mark Milley, durante uma conferência de imprensa após a reunião dos Aliados, em 20 de Janeiro, em Ramstein. Enquanto exigia que cada participante doasse armas a Kiev, ele reconheceu que «Este ano será muito, muito difícil expulsar militarmente as Forças Russas de cada centímetro quadrado da Ucrânia ocupada pela Rússia» (« This year, it would be very, very difficult to militarily eject the Russian forces from every inch of Russian-occupied Ukraine »). Por outras palavras, os Aliados devem sangrar-se, mas não há nenhuma esperança de ganhar, seja o que for, em 2023 à Rússia.

Terceira observação : esta guerra não é feita contra Moscovo, mas para enfraquecer a União Europeia.

Fonte aqui


[1] Le Journal de la Guerre en Europe.

[2] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.

[3] “Zelensky armadilhado por Moscovo e Washington”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Novembro de 2022.

[4] “Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 24 de Maio de 2022.

[5] «Muhammadu Buhari met en garde contre le flux d’armes de la guerre russo-ukrainienne en Afrique», Actu Niger, 30 novembre 2022.

[6] «Navy Secretary Warns: If Defense Industry Can’t Boost Production, Arming Both Ukraine and the US May Become ‘Challenging’», Marcus Weisgerber, Defense One, January 11, 2023.

[7] « India’s breaking all records for buying Russian oil, but who is the surprise buyer ? », Paran Balakrishnan, The Telegraph of India, January 16, 2022.

[8] Esta citação adorna orgulhosamente o site oficial da Aliança Atlântica.

[9] « Déclaration conjointe sur la coopération entre l’UE et l’Otan », Réseau Voltaire, 10 janvier 2023.

[10] “A Rússia declara guerra aos Straussianos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2022.

[11] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop », Patrick E. Tyler, and « Excerpts from Pentagon’s Plan : “Prevent the Re-Emergence of a New Rival” », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower » Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

[12] « Instructions et conclusions sur les marchés de reconstruction et d’aide en Irak », par Paul Wolfowitz, Réseau Voltaire, 10 décembre 200


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Davos: Fórum do entretenimento mundial!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 19/01/2023)

É de rebentar a rir até não podermos mais! Já passei a fase do choro, da raiva e da depressão. Desta feita, a estratégia a utilizar só pode ser a da ridicularização.

Não sei o que é mais ridículo, se o tempo de antena que a imprensa corporativa do Atlântico Norte dá ao Fórum Económico Mundial – que de “mundial” tem muito pouco, não passando de uma feira das vaidades da vassalagem mais rica do império -, ou o facto de desfilarem notícias, comentadores da ordem e eloquentes conclusões sobre as “preocupações” e “soluções” manifestadas pela aristocracia bilionária e seus capatazes. Ao mesmo tempo, tentam fazer-nos acreditar que uma gente que vive absolutamente à margem das dificuldades do comum dos mortais e da esmagadora maioria da Humanidade, quer, de facto, salvar o mundo. É de doidos!

Ouvir o milionário John Kerry, do clã Clinton, ex-candidato a presidente dizer “é o que somos”, a propósito de poderem ridicularizar o facto de gente como ele querer um mundo melhor, salvar o planeta, entre outros objectivos nada consonantes com a sua prática política; ouvir Mário Centeno (ex-chefe do Eurogrupo) dizer qualquer coisa como “afinal isto (referindo-se à economia) pode não correr assim tão mal”; ouvir o mentor, Schwab, dizer que Davos tem “um espírito positivo”… ; é melhor do que assistir aos melhores filmes dos Monty Pyton. É uma comédia sem fim, regada com vinhos e whisky – será que podem comer caviar? – que custam mais do que um trabalhador médio ganha num ano.

Uma das questões fundamentais – jamais colocadas pelos mesmos órgãos que nos querem fazer acreditar nos nobres objetivos de Davos -, consiste em perguntar: “Afinal, para que Humanidade se dirigem as reflexões desta gente”? É que, partindo dos temas que ocupam a agenda da edição deste ano e da lista de “convidados” e principais oradores, imediatamente percebemos que a “Humanidade” a que se dirigem, não é a mesma que povoa este imenso planeta, mas apenas uma minúscula parcela.

O conflito no leste europeu dominou a maioria das intervenções. Ora, acreditar que, para a maioria da Humanidade, esse conflito tem importância, é viver numa bolha fechada e absolutamente opaca. Uma rápida busca pelos principais órgãos de comunicação dos países do Sul Global (85% da humanidade) e todos percebemos que, o conflito em causa, não apenas não está nas prioridades do dia, como nem sequer nas do ano. Simplesmente, quase não se fala do assunto e quando se fala, nem sempre o fazem em termos que agradem à elite que domina as nossas vidas e que nos condena, todos os dias, a uma vida pior.

Os “iluminados” que falam em Davos, falam por quem, afinal? Em jactos pessoais ou institucionais, que poluem numa viagem o que um automóvel de um trabalhador polui em anos, a Davos, vão os representantes, capatazes (CEO, CFO, CTO…) daquela percentagem de seres “excepcionais” que se apropriaram de 63% da riqueza produzida desde 2000, em plena pandemia de Covid, enquanto os salários dos trabalhadores europeus estão estagnados há 20 anos e os dos americanos há 50. E é a Oxfam, financiada em parte pela NED (o mesmo é dizer pela CIA), que o vem dizer, no seu último relatório. É também a mesma Oxfam que vem dizer que 50% da riqueza está concentrada nas mãos desse 1% da população. Os tais que adoram Davos.

E o autismo é de tal ordem que temos de ouvir a anglo-germânica Ursula Von der Lata gabar-se de que a UE “aplicou as mais fortes sanções, fazendo o regime de Moscovo enfrentar 10 anos de regressão económica e falta de tecnologias críticas na sua indústria”. Mas, afinal, de que mundo fala ela? Estará a Europa – que ela governa com uma procuração passada por Washington -, em condições de se gabar de tal coisa? Estará a situação económica da Europa melhor do que a do país que ela acusa de ter pela frente “10 anos de retrocesso económico”? Esse país que, apesar das piores sanções da história do imperialismo, teve apenas uma quebra de 2,1% do PIB e uma inflação de 11%, prevendo-se já este ano crescimento e uma inflação de 3 a 4%. Estará a UE em condições de poder regozijar-se com tal realidade? Afinal, como está a economia da UE?

Não estará a indústria da UE, por causa das sanções arquitectadas pelos seus mestres, a enfrentar insolvências e deslocalizações? Não está a Alemanha a colocar empresas em lay-off para poder fazer face à falta de gás e aos elevadíssimos preços que, por causa das suas políticas, triplicaram? Não estará a inflação na UE a galopar, o desemprego a aumentar e a economia a retrair-se? Não estará isto tudo a acontecer quando a UE sanciona, ao invés de ser sancionada? Não representará, esta realidade, um falhanço total das ações da Comissão Europeia na proteção do seu espaço? Sendo o país mais sancionado da História, não poderá o maior país do mundo regozijar-se, por oposição, não apenas pela capacidade de resistir ao maior ataque económico e militar desde a Segunda Guerra Mundial, mas, e apesar disso, por conseguir diversificar mercados, fornecedores e até aumentar a produção em áreas chave? O que diz isto, de uns e outros?

Poderá um europeu médio, nos dias de hoje, dizer que nada mudou na sua vida, nos últimos anos, como nós vimos acontecer com transeuntes entrevistados nas ruas de Moscovo, no programa de Tucker Carlson? Deveria dar que pensar. E o que diz isto de Ursula e das suas gentes? Do seu autismo, arrogância, autocracia e falso triunfalismo?

Diz Úrsula que “existem nações a observar com muita atenção o conflito” e que “não se pode permitir que achem que podem invadir quando quiserem”, e por isso – qual louca a lembrar o papel de Jack Nicholson em “Voando sobre um ninho de cucos” -, “a Rússia tem de ser punida”! Afinal, de que nações fala ela? Não serão nações que, ao contrário das dela, nunca invadiram qualquer país, pelo menos nos últimos séculos? E como se arroga ela de um qualquer direito universal para punir nações inteiras? Afinal, quais são as nações que invadem a seu bel-prazer, senão as que a suportam? Eis o caricato da questão: é que ela parece mesmo acreditar nas suas próprias mentiras! E isso é trágico, porque por muito louca que a achemos, ela, uma corrupta empedernida, contra a qual estão a decorrer investigações conduzidas pelo próprio Tribunal de Contas europeu, manda nas nossas vidas, fazendo-o sem qualquer escrutínio ou avaliação!

Ficasse o discurso por aqui e já não seria mau. Mas quando vamos para o dualismo maniqueísta das “democracias” contra as “autocracias”, está tudo arrumado.  Eu gostaria de saber qual foi o processo de consulta utilizado para que os povos europeus se pronunciassem sobre a necessidade de embarcarmos nesta guerra – sim, porque somos parte desta guerra –, e nos sujeitarmos ao ricochete das sanções, trocando uma dependência de gás barato, por uma de gás três vezes mais caro e de pior qualidade. Alguém colocou esta questão aos povos? Será que os europeus pretendiam pagar mais caras as suas casas, energia, alimentação e outros bens essenciais, como resultado da guerra económica movida? Ou, ao contrário, o que é veiculado na Imprensa corporativa do Atlântico Norte, não será que isto tudo acontece “por causa da guerra”, nunca expondo quais os mecanismos através dos quais a “guerra” nos afecta?

Será democrático, uma elite tomar todas as decisões, para mais uma elite não eleita, baseando-se na manipulação que faz através de órgãos de comunicação totalmente arregimentados, incapazes de uma mensagem dissonante e, mesmo quando a apresentam, logo a enquadram com o necessário comentador que tem a função de “explicar” ao público espectador como a enquadrar na narrativa oficial fornecida?

Como podem admirar-se, os poderes instituídos, da enorme crise que os grupos económicos que exploram a actividade de imprensa atravessam? Em Portugal, desde 2017, os principais grupos tiveram 191 milhões de euros de prejuízos. Porque será?

Imaginem um qualquer trabalhador, ou estudante, abaixo dos 50 anos, com estudos, capacidade de pesquisa de informação, conhecimentos informáticos suficientes para contornar os condicionamentos do Google e outros motores de busca da Califórnia, e com uma rede de amigos, de todo o mundo, com quem se relaciona em plataformas de comunicação. Essa pessoa, habituada a receber e a procurar e pesquisar a informação que pretende, ao contrário do espectador tradicional acima dos 50 que se habituou apenas a receber, seja através da TV, da imprensa escrita ou das sugestões do Google e plataformas sociais da Califórnia – que funcionam num circuito fechado em conexão com as primeiras -, olha para notícias como “Moscovo bombardeia central nuclear de Zaporizhzhia”, isto depois de os mesmos terem noticiado que essas mesmas forças tinham controlado a central logo nos primeiros dias da operação, ou “Moscovo pode ter rebentado o Nord Stream”.

Se formos para outras áreas, somos confrontados com contradições como as que se têm visto aquando das manifestações violentas no Irão, que os porta-vozes atlantistas apoiam sem excepção, mas que, quando as manifestações violentas acontecem na Europa, nos EUA ou em países nos quais perpetram golpes institucionais, como o Peru ou a Bolívia, nesses casos condenam a violência, apelando à “ordem democrática”. Isto já para não falar do apagamento da Palestina, cuja repressão e genocídio acontece há mais de 70 anos, ou nas guerras de agressão contra inúmeras nações, cujas consequências devastadoras para as respectivas populações nunca são apontadas como “crimes de guerra”.

Perante tanto brincar com a nossa inteligência e tão descarada hipocrisia, não admira a crescente desconfiança na imprensa corporativa do Atlântico Norte e a sua identificação como braço armado comunicacional da elite autocrática e neo-feudal da classe rentista que se formou com a financeirização da atividade económica mundial.

Mas o circo de Davos significa muito mais. Quem olhar atentamente, não deixa de identificar a desgraça da vida de muitos que aí desfilam. Fernando Haddad, ministro de Lula, disse em Davos, numa mensagem muito pouco velada, aos seus interlocutores a norte da América, que o Brasil pretende adiar a conferência dos BRICS de 2024 para 2025, pois, segundo as suas palavras, como têm de organizar o G20, não querem fazer coincidir dois eventos desta magnitude num mesmo ano. Esta posição levantou suspeitas, sobretudo entre alguns parceiros BRICS, após o que sucedeu em 8 de Janeiro no Brasil e após o mais que certo envolvimento das agências de segurança imperiais na organização do sucedido e do seu financiamento. Para muitos, o 8 de Janeiro, foi um sério aviso a Lula: “ou te alinhas”; ou “descarrilas de vez”. Pouco dado a comédias como as de Davos, a Casa Branca passa as suas mensagens através de actos sempre caracterizados por enorme contundência: “é só estalar os dedos e já foste”!

Esta acção de Haddad mostra bem o que é Davos, realmente. Um desfile de prestação de juramentos de vassalagem, mesmo que envergonhados e habilidosos, aos poderes de facto, em oposição frontal aos crescentes espaços de verdadeira cooperação internacional, despidos do tradicional dividir para reinar do imperialismo ocidental, como é o caso dos BRICS. Como em qualquer cerimónia de juramento real, há sempre que contar com os tradicionais e imprescindíveis bobos da corte. Afinal, quem, no meio de tanta miséria, nos faria rir, senão as Ursulas deste mundo? Não obstante, esta ação de Haddad, não deixa de nos trazer uma certa sensação de negritude… E não é de humor negro! É que a sujeição de muitos quadros do PT à doutrina identitária neoliberal – que celebra a liberdade individual enquanto oprime a colectiva, o que, por sua vez, impede a primeira -, não tem nada de engraçado. É uma tragédia para a América Latina.

Daí que a grande ironia que Davos nos traz, e que quem o noticia é incapaz de nos contar, é que, em Davos, programa-se, não a “salvação do mundo” e muito menos a sua libertação, mas a sua continuada e renovada submissão aos interesses que até aqui o trouxeram.

Davos é como um qualquer circo… Como em qualquer circo, no meio de todo o espectáculo, é na parte dos palhaços que mais rimos, e é também nessa parte que melhor percebemos o que o circo é! Entretenimento!

O entretenimento esconde as condições nefastas em que o circo opera! E quem melhor do que os palhaços, para o disfarçar perante as crianças?

Eis, pois, Davos no seu esplendor!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.