Centeno no Eurogrupo seria uma péssima notícia 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/11/2017)

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Quando Durão Barroso foi escolhido para presidente da Comissão Europeia, cargo que aceitou sem pestanejar apesar do compromisso que tinha com os portugueses, o provincianismo nacional, sempre sedento de aprovação externa, celebrou. E instalou-se a ideia de que Barroso, num lugar como aqueles, iria ser muito útil ao país. Sabemos que nenhum presidente da Comissão teve um mandato tão prejudicial para os interesses nacionais como ele.

Ainda hoje há quem acredite que a falta de apoio a Portugal se deveu à deslealdade e falta de patriotismo do atual quadro da Goldman Sachs. Enganam-se. Com outro seria igual. Barroso foi escolhido por ser fraco (e por vir de um país fraco) e facilmente manobrável por aqueles a quem devia a sua eleição: as maiores potências europeias. Ele nunca nos poderia ser útil. Tudo isto se passará se Mário Centeno for escolhido como presidente do Eurogrupo. Só que em pior, porque o cargo acumula com o de ministro das Finanças e acabará sempre por determinar a ação interna do ministro.

A escolha de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo seria um presente envenenado que criaria enormes dificuldades ao país. A partir do momento em que Centeno passasse a ser o presidente do Eurogrupo, o seu cargo de ministro das Finanças confundir-se-ia com o seu cargo europeu.

Não poderia ser firme com outros Estados se não cumprisse tudo à risca ou até mais do que à risca. Não poderia dar-se a si mesmo qualquer espaço de manobra. O que quereria dizer que Portugal deixaria de poder negociar com Bruxelas. Pelo contrário, teríamos de ser mais papistas do que o Papa na aplicação de uma ortodoxia orçamental que é nociva para a economia. Qualquer desastre que acontecesse em Portugal, fosse responsabilidade do Governo ou não, teria de contar com tolerância zero daquele que deixaria, na realidade, de ser quem negociaria os interesses de Portugal na Europa para passar a ter de dar provas permanentes de bom comportamento. Não é por acaso que nenhuma grande potência deseja este tipo de cargo. Preferem quem lhes ceda.

Na situação política atual a coisa seria ainda mais complicada. Como se sabe, o Governo depende de uma maioria que inclui dois partidos muito críticos da ortodoxia orçamental de Bruxelas. Acho que a história lhes deu razão, mas isso não interessa agora para o caso. De um dia para o outro estes dois partidos passariam a apoiar o presidente do Eurogrupo. E isto teria três efeitos. O primeiro: o comportamento “exemplar” a que Centeno estaria obrigado tornaria os entendimentos à esquerda ainda mais difíceis. O segundo: o fosso que separa o PS do BE e PCP em matéria europeia ganharia uma nova centralidade perante a relevância europeia do nosso ministro das Finanças. Terceiro: o comportamento do presidente do Eurogrupo com outros Estados (a Grécia, por exemplo) passaria a ser um problema interno. Cada crítica ao Eurogrupo seria uma crítica ao ministro das Finanças do governo que apoiam, cada apoio ao ministro das Finanças seria um apoio ao presidente do Eurogrupo.

Tudo isto, num entendimento já de si tão frágil, corresponderia a uma gestão impossível. Não acredito que a “geringonça” sobrevivesse a tamanha pressão. Por mero cálculo de risco, ninguém faria cair o Governo. Mas ele deixaria de ter a mesma base de apoio. No estado em que Costa está, não podia ser pior para ele. Se compreendo o contentamento de um ministro sem passado nem futuro político, custa-me perceber como não boicota António Costa esta candidatura. É má para ele mas, acima de tudo, é péssima para o país.

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Adeus, Herr Schäuble

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 09/10/2017)

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(Permita-me discordar do último parágrafo, caro Nicolau Santos. É que lembrei-me logo do Evaristo. No filme “O Pátio das Cantigas” quando o Sr. Evaristo (António Silva) vai para “termas” no Cartaxo o Narciso Fino, (Vasco Santana) atira-lhe a seguinte “pérola”:
«Boa viagem. Vai e quando lá chegares manda saudades que é coisa que cá não deixas.»

É o mesmo que eu diria a Schäuble.

Estátua de Sal, 09/10/2017)


O ministro alemão das Finanças participou esta segunda-feira, pela última vez, num encontro do Eurogrupo, de que foi figura tutelar, e o alfa e ómega, durante o período em que ali esteve. E sai a dizer que Portugal é um caso de sucesso das políticas de austeridade que sempre defendeu. Pois lá teremos que discordar.

“Portugal é uma vez mais a prova de que a nossa política de estabilização do euro foi um sucesso, e de que, contra algumas dúvidas, conseguimos, com êxito, manter o euro estável após oito anos de crise”, disse Schäuble no início da reunião.

Bom, para quem disse em 2016 que Portugal estava a ir bem até mudar de Governo e que, não uma mas duas vezes no ano passado e já neste, sugeriu que o país poderia ser obrigado a pedir um novo resgate internacional, é seguramente curioso ouvir agora estas palavras de Schäuble.

É verdade que a partir de maio, com a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, o ministro alemão tem mudado de discurso em relação ao Governo de António Costa e à gestão de Mário Centeno, deixando para trás os duros avisos e as fortes críticas iniciais sobre a política de reversão de medidas de austeridade do atual executivo.

A mudança chegou ao ponto de, com ironia ou sem ela, o homem forte do Eurogrupo ter apelidado o ministro português das Finanças de Ronaldo do Ecofin.

Mas não nos iludamos. Schäuble não mudou de opinião em relação às políticas de austeridade que defendeu para combater a crise. O modo como tratou a Grécia e o ministro helénico das Finanças, Yannis Varoufakis, demonstra bem que Schäuble nunca aceitou que houvesse alternativa às políticas que preconizava.

O seu lema sempre foi There Is No Alternative (TINA). Daí o seu desconforto com a mudança de políticas preconizada por António Costa e Mário Centeno, que apesar da devolução de salários e outros rendimentos, têm permitido reduzir o défice, aumentar o crescimento, o investimento e as exportações e diminuir o desemprego.

Por isso, tem deixado sempre claro que os programas de austeridade e de resgate foram necessários e são também responsáveis pelas histórias de sucesso, passando por cima das mudanças de política económica que existiram em Portugal e que comprovam que existia alternativa.

Uma coisa, contudo, se deve reconhecer: Schäuble foi muito duro em matéria de programas de austeridade, mas apoiou, como contrapartida, a solidariedade financeira dos Estados-membros para com os países sob resgate, quando havia vozes no norte da Europa que se manifestavam contra e mesma parte importante da opinião pública do seu país estava igualmente muito reticente.

Ora no Governo de coligação que a sra. Merkel está a organizar, os liberais já fizeram saber que gostavam de ficar com a pasta das Finanças. O pequeno problema é que, durante a campanha eleitoral, o FDP endureceu o seu discurso contra a política de acolhimento de imigrantes e contra o apoio ao resgate de países do sul da Europa.

Por isso, não é nada seguro que esta troca de partidos e de pessoas no Ministério alemão das Finanças venha a ser favorável a todos os que defendem novas regras económicas e financeiras, mais flexíveis e mais solidárias, na União Europeia, nomeadamente no que toca à titularização da dívida europeia e à conclusão da União Bancária, em particular a criação de um mecanismo comunitário de apoio a bancos em dificuldades.

Ou seja, um dia destes acordamos e descobrimos que temos saudades de Herr Schäuble. Seria irónico mas tudo é possível.


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Alternativa para a Europa

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 28/09/2017)

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Sandro Mendonça

Europa parece quer renormalizar economicamente e anormalizar politicamente. Nem tudo é nítido pois vários ciclos se justapõem. E há um ciclo longo e há um ciclo curto, note-se.


Um ciclo curto, afinal mesmo muito curto. O ano entrou soluçando ansiedade pois as eleições na Holanda e na França podiam desafiar a normalidade política. Depois dos eventos gémeos anglo-americanos (Brexit & Trump) tudo continuaria a ser possível. Na verdade, Le Pen e Geert Wilders tiveram desaires eleitorais. E o establishment suspirou de alívio.

No entanto, o contraste entre o primeiro e o último quarto do ano é quase dramático: a entrada de rompante da direita anti-sistema no parlamento alemão e uma eminente declaração de secessão na Catalunha. Da bonança à tempestade foi, portanto, um ciclo curto.

E os corredores de fundo não abandonaram o tartan, continuam activos como se vê aqui e aqui. A Europa vai entrar em 2018 sendo de novo a sua própria primeira fonte de maior risco.

Foi bonito esse ciclo longo, pá. Nos EUA a actual responsável da Reserva Federal termina já o mandato em Fevereiro de 2018. E o mandato de Draghi terá o seu términus também, sensivelmente daqui a dois anos (31 Outubro 2019). As políticas que se se perfilam para a condução da política são conservadoras: na Europa, inclusivamente, o mais provável é ser um alto quadro da nomenclatura económico-financeira alemã a assumir o poder no BCE (note-se que nenhum alemão ainda comandou esta instituição, e só um a Comissão Europeia já há muitas décadas atrás). A expectativa é assim de um endurecimento da política monetária. Entretanto, os franceses (que não se vêem livres da reputação de terem empurrado a Europa para dentro do projecto da moeda) voltaram à carga: querem agora um reforço da integração em torno da política fiscal. E para azar deles é isso realmente o que poderão vir a ter. É que Wolfgang Schäuble pode agora estar de saída do cargo de ministro das finanças da Alemanha, mas a política das finanças alemã não sairá da Europa assim tão cedo.

Heterodoxia política e ortodoxia económica. Duas massas de ar em formação. Por enquanto é uma brisa, depois será uma corrente de ar. Ventos de mudança no ciclo-político-económico.