A Ucrânia após 90 dias de guerra

(M.K. Bhadrakumar, in Velho General, 26/05/2022)

Militares da Rússia em blindado marcado com a letra “Z” em Armyansk, na Crimeia (Stringer/Reuters).

A queda de Mariupol é um ponto de virada. O bloqueio de água e energia da Crimeia foi encerrado e a rede elétrica no sudeste da Ucrânia agora pode ser conectada à Rússia. Esses são ganhos estratégicos para Moscovo.


A narrativa ocidental de que a Rússia está enfrentando uma derrota nas mãos dos militares ucranianos está desmoronando. A descrição artificial de que a Ucrânia estava “vencendo” tornou Kiev delirante, o que, por sua vez, criou condições para Washington e Londres estenderem a guerra e gradualmente entrarem nela lateralmente e transformá-la em uma guerra de atrito contra a Rússia.

Mas a realidade convincente é que as forças russas estão consistentemente obtendo vantagens na batalha de Donbass. O porta-voz do Ministério da Defesa ucraniano disse na terça-feira que “a fase mais ativa” da operação especial russa começou em Donbass. Em termos militares, as forças russas enfrentam a difícil tarefa de assumir as áreas mais fortificadas da Ucrânia, que se preparam cuidadosamente para esta batalha há sete anos. Mas, por outro lado, depois de sua vitória triunfante em Mariupol, as forças russas têm um impulso a seu favor.

Olhando para os últimos três meses, a principal prioridade da Rússia foi estabelecer um corredor terrestre para a Crimeia e as bases econômicas para o desenvolvimento da região. Esse objetivo está cumprido. É desse ponto de vista que a operação atual no Donbass precisa ser entendida. A Ucrânia e seus aliados ocidentais estão depositando esperanças de que as sanções acabarão por esgotar o potencial militar e econômico da Rússia.

Mas a vida é real. Pelas estimativas do Banco Mundial, a economia da Ucrânia pode encolher 45% até o final de 2022. A conversa sobre uma grande contraofensiva ucraniana no final deste ano, reforçada pelo armamento pesado dos aliados ocidentais, continuará sendo um sonho. Kiev pode nem ter mão de obra suficiente para travar uma guerra até o final do ano. A Rússia é um inimigo formidável e Kiev pode estar arriscando uma rendição abjeta em termos humilhantes quando a maré baixar na Batalha de Donbass.

As forças russas estão agora perto de estabelecer controle total da região de Donbass em Luhansk. O governador ucraniano da região leste admitiu na terça-feira que “os russos estão avançando em todas as direções ao mesmo tempo; eles trouxeram um número insano de combatentes e equipamentos.” A situação parece cada vez mais precária para as forças ucranianas (ouça o podcast The Battlefields of the Donbass and Beyond, no War on the Rocks)

Os principais sinais são Popasnaya e Severodonetsk em Donbass e a cidade de Izyum, ao norte, na região de Kharkiv. Popasnaya e Izyum já estão sob controle russo, enquanto as tropas russas entraram em Severodonetsk anteontem.

As forças russas estão atualmente expandindo sua zona de controle ao redor de Popasnaya ao norte, oeste e sul; eles se aproximaram dos arredores da cidade de Severodonetsk; e retomaram seu avanço para o oeste e sul de Izyum.

Os últimos relatórios são de que grupos de assalto de Popasnaya estão seguindo para o oeste em direção a Bakhmut, que é um centro estratégico para Kiev para reabastecer suas forças na região leste. A estrada entre Bakhmut e Lysychansk está ao alcance das forças russas e suprimentos militares para o agrupamento ucraniano em Severodonetsk e Lysychansk se tornaram problemáticos.

Quanto a Izyum, na área de Liman ao sul (oeste de Severodonetsk), as forças russas cercaram as forças ucranianas. As forças russas entraram na cidade de Severodonetsk ontem e há combates nas ruas.

Severodonetsk é um ativo altamente estratégico para ambos os lados. Estima-se que 15 a 16 mil militares ucranianos estejam implantados lá, e estão sendo reforçados. Se as forças russas conseguirem segurar e destruir as forças ucranianas entre Severodonetsk e Lysychansk, a capacidade de Kiev de contestar a região oriental de Donbass será seriamente enfraquecida.

Na segunda-feira, as forças russas conseguiram destruir todas, exceto uma ponte em Severodonetsk, ameaçando cortar a cidade de suprimentos e reforços. Parece tarde demais para uma retirada e reagrupamento das forças ucranianas. O quadro geral é bastante sombrio. A revista National Interest avaliou a situação em desenvolvimento da seguinte forma:

“A próxima batalha pode ser decisiva para o curso da campanha Donbass do Kremlin. O controle russo sobre a região leste de Donbass cortaria a Ucrânia das áreas que compõem seu coração industrial e cumpriria o objetivo estratégico chave do Kremlin de estabelecer uma ponte terrestre segura para a Crimeia.”

“Se os militares da Rússia prenderem e destruírem com sucesso as forças ucranianas entre Severodonetsk e Lysychansk, eles degradarão significativamente a capacidade da Ucrânia de contestar a região leste de Donbass. Não está claro se as unidades militares ucranianas no saliente de Severodonetsk estão considerando planos de recuar mais para o oeste, a fim de evitar um possível envolvimento russo.”

O próximo grande alvo na mira russa é Slavyansk. Controlá-la permitiria que as forças russas se dirigissem para o oeste e se unissem às forças que avançam a sudeste de Izyum. O objetivo é controlar as linhas de abastecimento por estrada e bloquear o acesso ucraniano às rotas ferroviárias do oeste. Dez brigadas ucranianas foram destacadas no leste quando a guerra começou em fevereiro, que eram consideradas as tropas mais bem equipadas e treinadas de Kiev.

De fato, a queda de Mariupol para os militares russos representa um ponto de virada. A Rússia agora tem um corredor terrestre para a Crimeia e encerrou o bloqueio de água e energia da Crimeia. O canal de água doce que liga o rio Dnieper à árida península da Crimeia está agora nas mãos da Rússia. Assim como uma usina nuclear ao norte da península, para não mencionar a rede elétrica no sudeste da Ucrânia, que agora pode ser conectada à Rússia. Esses são ganhos estratégicos para a Rússia.

Além do Donbass e da Crimeia, a Rússia pode ter outros objetivos também na região sul. Houve demandas – em nível local até agora – para a fusão das regiões do sul de Zaporizhzhya, Kherson e Mykolayiv com a Crimeia (Rússia), que tem uma grande população russa. Algum grau de integração desta região com a Rússia parece ter começado.

Na região de Kherson, o rublo foi introduzido; O russo, junto com o ucraniano, se tornará uma língua oficial e se tornará a principal língua para o trabalho de escritório, comunicação e todas as questões de importância nacional; o ensino nas escolas e universidades será realizado em russo. As autoridades da região de Kherson manifestaram uma demanda pelo estabelecimento de uma base militar russa na região.

O secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev, disse em entrevista publicada na terça-feira que o governo russo “não está perseguindo prazos”. De fato, as estimativas ocidentais também parecem antecipar futuras operações russas nas regiões do sul. Existem indicadores. Em 23 de maio, o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, anunciou que a Dinamarca fornecerá à Ucrânia um moderno lançador antinavio Harpoon e mísseis para proteger suas costas. Em 24 de maio, a Hungria anunciou emergência nacional para tomar medidas imediatas para poder projetar o país contra as ameaças emanadas da guerra na Ucrânia. No último fim de semana, Moscou expressou publicamente sua inquietação a respeito de uma declaração britânica sobre a possibilidade de fornecimento de armas da OTAN para a Moldávia.


Publicado no Indian Punchline.


*O autor, M.K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira por 30 anos no Serviço de Relações Exteriores da Índia. Serviu na embaixada da Índia em Moscou em diversas funções e atuou na Divisão Irã- Paquistão-Afeganistão e na Unidade da Caxemira do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Ocupou cargos nas missões indianas em Bonn, Colombo, Seul, Kuwait e Cabul; foi alto comissário interino adjunto em Islamabad e embaixador na Turquia e no Uzbequistão.


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NATO vs Rússia: o que acontece a seguir

(Pepe Escobar, in Resistir, 26/05/2022)

Três meses após o início da Operação Z da Rússia na Ucrânia, a batalha do Ocidente (12%) contra o Resto (88%) continua em metástase. No entanto, a narrativa – estranhamente – permanece a mesma. Na segunda-feira, em Davos, o presidente executivo do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, apresentou o comediante e presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no seu último tour para solicitação de armas, com uma homenagem ardente. Herr Schwab enfatizou que um ator que se faz passar por um presidente defendendo neonazistas é apoiado por “toda a Europa e a ordem internacional”….


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