A máquina de guerra de Zelensky está a ficar sem combustível

(Por Martin Jay, in A Viagem dos Argonautas, 02/12/2022)

Zelensky acredita que simular um ataque ou criar uma calamidade ambiental irá repetir a história. Mas ele está lamentavelmente mal informado, pois é ignorante.


Artigo completo em: A Viagem dos ArgonautasA Guerra na Ucrânia — A máquina de guerra de Zelensky está a ficar sem combustível. Deve-se esperar mais ataques de pânico em breve. Por Martin Jay


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Zelensky armadilhado por Moscovo e Washington

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 22/11/2022)

O Presidente ucraniano dirigindo-se ao G20

A evolução da relação de forças no campo de batalha ucraniano e o trágico episódio do G20 em Bali marcam uma viragem da situação. Se os Ocidentais continuam a acreditar na vitória próxima sobre Moscovo, os Estados Unidos iniciaram já negociações secretas com a Rússia. Eles aprestam-se a deixar cair a Ucrânia e em deitar as culpas exclusivamente a Volodymyr Zelensky. Tal como no Afeganistão, o despertar será brutal.


Conversando, há cerca de dez dias em Bruxelas, com um chefe de bancada de deputados que diria de mente aberta, escutei-o dizer-me que o conflito ucraniano era decerto complexo, mas que a coisa mais saliente era que a Rússia tinha invadido esse país. Respondi-lhe observando que o Direito internacional obrigava a Alemanha, a França e a Rússia a aplicar a Resolução 2202, o que Moscovo (Moscou-br), sozinho, havia feito. Prossegui lembrando-lhe a responsabilidade de proteger as populações em caso de falha do próprio governo.

Ele cortou-me a palavra e perguntou-me : « Se o meu governo se queixar da sorte dos seus cidadãos na Rússia e atacar esse país, achará isso normal? ». Sim, respondi-lhe, se tiver uma Resolução do Conselho de Segurança. Você tem alguma? Apanhado de surpresa, ele mudou de assunto. Por três vezes, perguntei-lhe se podíamos abordar a questão dos « nacionalistas integralistas » ucranianos. Por três vezes, ele recusou. Despedimo-nos com cortesia.

A questão da responsabilidade de proteger deveria ter sido esbatida. Este princípio não justifica uma guerra, mas sim uma operação de policia, realizada com meios militares. É por isso que o Kremlin cuida em não designar este conflito como uma « guerra », mas como uma « operação militar especial ». As duas maneiras de falar referem os mesmos factos, mas « operação militar especial » limita o conflito. Desde a entrada das suas tropas na Ucrânia, o Presidente russo, Vladimir Putin, precisou que não pretendia anexar este território, mas unicamente libertar as populações perseguidas pelos « nazis » ucranianos. Num longo artigo precedente, indiquei que, embora a expressão «nazis» seja correcta no sentido histórico, ela não corresponde ao modo como esta gente se refere a si própria. Eles utilizam a expressão: « nacionalistas integralistas ». Lembremos que a Ucrânia é o único Estado do mundo a ter uma Constituição explicitamente racialista.

O facto de constatar que o Direito internacional dá razão à Rússia não significa que se lhe dê um cheque em branco. Todos devem criticar a forma como ela aplica o Direito. Os Ocidentais continuam a considerar a Rússia «asiática», «selvagem» e «brutal», embora eles próprios se tenham mostrado muito mais brutais em muitas ocasiões.

VIRAGEM DE SITUAÇÃO

Tendo esclarecido os pontos de vista russos e ocidentais, é forçoso constatar que vários acontecimentos suscitaram uma evolução ocidental. – Estamos a entrar no inverno, uma estação dura na Europa Central. A população russa tem consciência, desde a invasão napoleónica, que não pode defender um país tão vasto. Assim, ela aprendeu a usar justamente a imensidão do seu território e as estações do ano para vencer aqueles que a atacavam. Com o inverno, a frente fica bloqueada durante vários meses. Todos podem ver que, contrariamente à narrativa segundo a qual os Russos estão derrotados, o Exército russo libertou o Donbass e uma parte da Novorussia.
 Antes de o inverno começar, o Kremlin retirou a população libertada que habitava a Norte do Dniepre, depois retirou o seu Exército abandonando a parte de Kherson situada na margem Norte do Dniepre. Pela primeira vez, uma fronteira natural, o rio Dniepre, marca uma fronteira entre os territórios controlados por Kiev e os controlados por Moscovo. Ora, no período entre-as duas-guerras, foi a ausência de fronteiras naturais que fez cair todos os sucessivos poderes na Ucrânia. Agora, a Rússia está em posição de aguentar.
 Desde o início do conflito, a Ucrânia pôde contar com a ajuda ilimitada dos Estados Unidos e seus aliados. No entanto, as eleições intercalares nos Estados Unidos retiraram a maioria à Administração Biden na Câmara dos Representantes. Agora, o apoio de Washington será limitado. De forma idêntica, a União Europeia encontra também os seus limites. As suas populações não compreendem o aumento dos custos da energia, do encerramento de certas fábricas (usinas-br) e a impossibilidade de aquecimento normal.

 Finalmente, em certos círculos de Poder, após terem admirado o talento de comunicação do actor Volodymyr Zelensky, começa-se a questionar os rumores sobre a sua súbita fortuna. Em oito meses de guerra, ele teria ficado bilionário. A imputação não é verificável, mas o escândalo dos Pandora Papers (2021), torna-a credível. É necessário ser completamente cego para não ver as doações que chegam à Ucrânia, mas que desaparecerem nas sociedades offshore ?

Os Anglo-Saxónicos (ou seja, Londres e Washington) desejavam transformar o G20 de Bali numa cimeira (cúpula-br) Anti-Russa. Primeiro, eles fizeram pressão para que Moscovo fosse excluída do Grupo, tal como o haviam conseguido no G8. Mas se a Rússia tivesse estado ausente, a China, de muito longe o primeiro exportador mundial, não teria vindo. Assim, foi o Francês Emmanuel Macron que foi encarregado de convencer os outros convidados a assinar uma declaração tonitruante contra a Rússia. Durante dois dias, as agências de notícias ocidentais garantiram que o caso estava resolvido. Durante dois dias, as agências de notícias ocidentais garantiram que o caso estava arrumado. Mas, em última análise, a declaração final, embora resuma o ponto de vista ocidental, encerra o debate com estas palavras: « Havia outras visões e diferentes avaliações da situação e das sanções. Reconhecendo que o G20 não é o fórum para resolver os problemas de segurança, sabemos que questões de segurança podem ter consequências importantes para a economia mundial ». Por outras palavras, pela primeira vez, os Ocidentais não conseguiram impor a sua visão do mundo ao resto do planeta.

A ARMADILHA

Pior: os Ocidentais impuseram uma intervenção vídeo de Volodymyr Zelensky como tinham feito, em 24 de Agosto e 27 de Setembro, no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ora, enquanto a Rússia tinha em vão tentado opor-se a tal em Setembro em Nova Iorque, aceitou em Novembro em Bali. No Conselho de Segurança, a França, que detinha a presidência, violou o regulamento interno para dar a palavra a um chefe de Estado por vídeo. Pelo contrário, no G20, a Indonésia manteve uma posição absolutamente neutra e não arriscou aceitar dar-lhe a palavra sem autorização russa. Tratava-se obviamente de uma armadilha. O Presidente Zelensky, que não conhecia o funcionamento dessas instâncias, caiu nela.

Depois de ter caricaturado a acção de Moscovo, ele apelou para a sua exclusão do… « G19 ». Ou seja, o pequeno Ucraniano deu, em nome dos Anglo-Saxónicos, uma ordem aos Chefes de Estado, Primeiros-Ministros e Ministros dos Negócios Estrangeiros (Chanceleres-br) das 20 maiores potências mundiais e não foi ouvido. Na realidade, o litígio entre estes dirigentes não tinha a ver com a Ucrânia, mas sobre a sua submissão ou não à ordem mundial americana. Todos os participantes latino-americanos, africanos e os quatro asiáticos disseram que essa dominação acabara ; que agora o mundo é multipolar.

Os Ocidentais devem ter sentido o chão tremer sob os seus pés. Eles não foram os únicos. Volodymyr Zelensky viu, pela primeira vez, que os seus padrinhos, até aqui donos absolutos do mundo, o deixavam cair sem hesitação para manter ainda por mais algum tempo a sua posição.

É provável que Washington estivesse de conluio com Moscovo. Os Estados Unidos constatam que, à escala mundial, as coisas viram-se contra eles. Eles não hesitarão em passar as culpas ao regime ucraniano. William Burns, Director da CIA, já se encontrou com Serguei Naryshkin, o Director do SVR, na Turquia. Essas reuniões seguem-se às de Jake Sullivan, o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, com várias funcionários russos. Ora, Washington nada tem a negociar na Ucrânia. Dois meses antes do conflito na Ucrânia, expliquei que o fundo do problema não tinha nenhuma relação com esse país, muito menos com a NATO. Tem a ver essencialmente com o fim do mundo unipolar.

Portanto, não nos devemos espantar que, alguns dias após a bofetada do G20, Volodymyr Zelensky tenha contradito, pela primeira vez em público, os seus padrinhos norte-americanos.

Ele acusou a Rússia de ter lançado um míssil sobre a Polónia e manteve as suas declarações quando o Pentágono indicou que ele estava errado, tinha sido um contra-míssil ucraniano. Para ele, tratava-se de continuar a agir em linha com o Tratado de Varsóvia, concluído em 22 de Abril de 1920, pelos nacionalistas integralistas de Symon Petliura com o regime de Piłsudski ; de empurrar a Polónia para entrar em guerra contra a Rússia. Foi a segunda vez em que Washington fazia soar uma campainha aos seus ouvidos. Ele não a ouviu.

Provavelmente, estas contradições não irão aparecer em público. As posições ocidentais vão-se suavizar. A Ucrânia está avisada: nos próximos meses, ela vai ter que negociar com a Rússia. O Presidente Zelensky pode preparar desde já a sua fuga porque os seus compatriotas estropiados não lhe perdoarão tê-los enganado.


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“A Alemanha tem tudo sob controlo”

(Por Rainer Rupp, in geopol.pt, 25/11/2022)

No debate geral no Bundestag desta semana, o chanceler Scholz provou a sua qualidade de jogador de póquer. Sem corar, afirmou com confiança que “a Alemanha tem a crise sob controlo”. Contudo, teve o cuidado de não utilizar as palavras “Temos tudo sob controlo” ou “O Governo Federal tem tudo sob controlo”. Pois se ele tivesse a certeza de que a coligação do semáforo poderia realmente dominar a crise, teria dito com orgulho “nós” ou o “governo federal” e assim colocar os louváveis “méritos” da coligação dos semáforos em primeiro plano. De facto, com a sua formulação invulgar, Scholz está a transferir o risco de fracasso para o público em geral, para todos nós.

Scholz sabe que ninguém – nem a coligação do semáforo nem ninguém – pode salvar a UE, mas sobretudo a Alemanha, das múltiplas super-crises que estamos apenas a começar a experimentar. Consiste num conglomerado de graves carências energéticas, altas taxas de inflação e queda dos salários reais, a ruptura das cadeias de abastecimento e a sua prolongada reestruturação, o declínio da competitividade e desindustrialização da Alemanha, guerras comerciais e de sanções, crises monetárias e do euro, e sobreendividamento dos sectores público e privado. Além disso, temos taxas de juro crescentes que, com problemas crescentes de liquidez mesmo em grandes instituições financeiras – como actualmente o Crédit Suisse na Suiça – ameaçam conduzir uma vez mais a uma crise bancária e imobiliária.

Há gerações que não se registam tantas crises económicas e incertezas numa só pilha. São exacerbados por riscos políticos tais como a guerra na Ucrânia ou o ressurgimento ameaçador de conflitos de longa duração, por exemplo no Kosovo entre sérvios e albaneses, na Cisjordânia entre israelitas e palestinianos, no nordeste da Síria entre turcos e curdos, e no Irão por renovadas ameaças de guerra de Israel e dos EUA. E todas estas crises devem ser dominadas pelas tropas caóticas do governo do semáforo, a fim de evitar danos ao povo alemão?

O que significa controlar tudo isto só pode ser vagamente comparado com o malabarista do circo que equilibra uma placa de cada vez numa haste fina implantada no solo, coloca as placas em movimentos de rotação e depois move-se para trás e para a frente entre uma dúzia ou mais de hastes oscilantes, a fim de manter as placas em movimento com empurrões precisamente calibrados e para evitar que caiam se rodarem muito lentamente. Agora imagine como os amadores da coligação do semáforos estariam à altura desta tarefa?

No entanto, o desafio político de conseguir que mesmo algumas das crises listadas anteriormente se transformem e impeçam o seu colapso é de várias dimensões maiores do que o dos malabaristas com as suas placas. É por isso que a Alemanha – ou seja, todos nós – declarámos que estamos no controlo. E se a Alemanha falhar, então todos nós falhámos, não Scholz ou o governo do semáforo.

Isto também corresponde exactamente às ideias do governo do semáforo sobre como dominar a crise energética, por exemplo. Uma vez que todas as tentativas do governo dos semáforos para desenvolver novas fontes de abastecimento suficientes ou para assegurar o seu transporte a preços acessíveis falharam, uma crise energética este Inverno só pode ser evitada se a população e o bom Deus participarem, ou seja, se… se..:

a) A indústria, a administração e as famílias consomem um total de 20 por cento menos energia do que no ano passado.
b) se o Santo Deus não nos enviar um marasmo escuro, ou seja, pouco vento sopra e nuvens escuras reduzem a irradiação da luz e a alimentação da rede de gotas de energia solar e eólica.
c) se o Santo Deus nos der um Inverno quente.

Aqui, o governo do semáforo encontra-se num dilema. Para não lançar achas para a fogueira da agitação social, o governo é forçado a limitar os aumentos de preços deste ano nos mercados de energia a um múltiplo do preço do ano passado com subsídios. Estes totalizarão centenas de milhares de milhões de euros. Por outro lado, os economistas de mercado salientam que esta medida social de limitação dos preços contraria o objectivo de reduzir o consumo de energia em 20 por cento, porque estas poupanças só poderiam ser alcançadas através de preços de energia muito mais elevados.

Mas sem poupança e sem a ajuda de Deus relativamente aos pontos b e c, não é uma questão de “se”, mas apenas de “quando” os armazéns de reserva de segurança estarão vazios e as compras deixarão de ser suficientes para satisfazer a procura. O mais tardar nessa altura, o governo terá de passar ao controlo de quotas, atribuindo apenas certas quantidades de gás ou electricidade aos respectivos consumidores. Dado o caos no aparelho administrativo alemão durante a alegada “pandemia do Corona”, o horror do frio espera-nos então.

Mas a crise energética alemã não terminará com este Inverno. Até os círculos governamentais falam agora dos desafios que se avizinham para o Inverno de 2023 e para os anos seguintes. Excluir-se do abastecimento energético russo seguro, barato e de alta qualidade, no qual repousava uma parte importante da competitividade da indústria alemã e da prosperidade alemã, foi sem dúvida um erro do século para a política alemã. Ao mesmo tempo, foi um grande sucesso para os Verdes e para a seita climática, que nem sequer fizeram um esforço sério para substituir o gás russo por outras fontes.

As últimas notícias do país extremamente rico em gás do Catar são bastante reveladoras a este respeito. O Qatar está actualmente a acolher o Campeonato do Mundo. Mas o governo do Catar está a ser demonizado sem parar pelas suas leis LGBT+* por todo o espectro político verde-esquerda, incluindo o governo dos semáforos, enquanto as mesmas pessoas estão a fornecer gratuitamente armas de guerra aos racistas e nazis na Ucrânia.

Após as sanções alemãs contra a Rússia, o governo alemão também tinha feito diligências junto do Catar e tinha procurado obter fornecimentos de GNL – gás natural liquefeito. Mas o Catar queria contratos vinculativos a longo prazo e a participação alemã nos investimentos para desenvolver novas fontes de gás e construir instalações de liquefacção. Isto era suposto ser uma espécie de garantia de compromisso e compra a longo prazo pela Alemanha. Mas o Ministério Federal Verde da Economia não quis alinhar com isto. Afinal, os Verdes querem sair do gás o mais rapidamente possível para salvar o clima, e é por isso que o país industrializado alemão tem de ser arruinado. Neste contexto, o ministro federal da Economia, Habeck, é tão indiferente ao futuro dos trabalhadores industriais alemães como – de acordo com a sua própria declaração – a Sra. Baerbock é tão indiferente aos desejos do seu próprio eleitorado. Ao mesmo tempo, porém, Baerbock atribui grande importância a não desapontar os seus fãs ucranianos e os belicistas anti-russos.

Agora, nos últimos dias, tem havido notícias de que as tentativas de Habeck para obter gás do Catar falharam finalmente, porque o país anfitrião do Campeonato do Mundo assinou um contrato de longo prazo de GNL com a China. O Catar é um dos cinco mais importantes produtores de gás do mundo e está actualmente a explorar o maior campo de gás natural do mundo, o “Campo Norte”, no Golfo Pérsico. O acordo de fornecimento com a China prevê a exportação de 108 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) ao longo de 27 anos.

É verdade que o ministro da Economia Robert Habeck tinha acordado uma parceria energética com o Catar durante a sua visita a Doha em março. Mas com os incessantes ataques dos políticos e meios de comunicação alemães contra a elite no poder no Catar por “violações dos direitos humanos”, nada mais poderia ser esperado. Mais recentemente, o ministro da Economia Habeck tinha declarado que a ideia de um Campeonato do Mundo no Catar era “demente”.

A conclusão segundo os peritos ocidentais em energia é que não há nenhum substituto para o gás russo no mercado mundial. Aqueles que não querem gás russo devem entrar na competição intensa de aumento de preços do gás natural liquefeito, que também se estendeu às escassas capacidades de transporte com navios especiais de GNL.

O custo do frete por dia para um navio-tanque de GNL de tamanho médio aumentou de $14.000/dia no ano passado para $400.000/dia actualmente. Tudo isto não parece de modo algum que a Alemanha tenha a crise energética sob controlo.

Mas, como mencionado acima, existem muitas outras crises que enfrentamos actualmente. Nem a coligação do semáforo nem a oposição da esquerda e da CDU/CSU têm sequer uma pista de uma solução. A paz com a Rússia e o fim das sanções suicidas anti-russas seria já um primeiro passo para uma solução de pelo menos alguns dos problemas acima mencionados. Mas de todos os partidos alemães com mais de 5% dos votos eleitorais, é apenas a AfD que razoavelmente exige um passo em direcção à Rússia e é imediatamente denunciada por ela e colocada nas proximidades de fascistas.

Sem paz, a situação na Ucrânia está a tornar-se cada vez mais difícil para a população à medida que o Inverno se instala e também confronta a Alemanha com o perigo de uma crise generalizada de refugiados, contra a qual a crise “Wir- schaffen-das” (nós vamos conseguir) de 2015 foi um passeio de Verão.

Nas últimas semanas, a Rússia mudou a sua guerra na Ucrânia e agora presta menos atenção às infra-estruturas do país. A prioridade actual é destruir a rede eléctrica da Ucrânia a fim de aleijar a logística dos militares ucranianos. Quase 90 por cento do tráfego ferroviário ucraniano é gerido por locomotivas eléctricas. Devido aos diferentes calibres de vias da rede ferroviária da Ucrânia, as locomotivas eléctricas não podem ser substituídas por locomotivas diesel do Ocidente.

Por conseguinte, aplica-se agora o seguinte na Ucrânia: sem electricidade, quase não há fornecimentos de armas e munições, incluindo fornecimentos ocidentais, para a frente no Donbass. Entretanto, a rede eléctrica da Ucrânia, que foi integrada há apenas um mês, foi em grande parte destruída. Entre 40 e 50 por cento das famílias já não têm electricidade, ou apenas esporadicamente. Mas sem electricidade, nem as bombas de água potável nem os aquecedores a gás estão a funcionar, e nos muitos edifícios altos das cidades, os elevadores também se encontram parados.

Para a população da Ucrânia ocidental, isto é um choque grave. Em contraste com a população das regiões do Donbass, que têm sido bombardeadas pelo exército ucraniano desde 2014, a população da Ucrânia ocidental tem vindo a sofrer os efeitos da guerra em primeira mão há já várias semanas. Milhões de famílias são afectadas, sem electricidade, gás e água, especialmente nas grandes cidades e lá nos edifícios altos.

A propósito, os ataques russos às infra-estruturas da Ucrânia são uma reacção aos contínuos ataques ucranianos a civis e infra-estruturas civis em áreas russas de Belgorod, mas também nas regiões de Donbass de Luhansk e Donetsk, onde todos os dias há civis mortos, o que, claro, os meios de comunicação ocidentais de qualidade não relatam.

Moscovo tinha avisado repetidamente Kiev de que não toleraria ataques às infra-estruturas da Rússia a longo prazo. Mas Kiev tinha alargado estes ataques de cada vez. A dada altura, a paciência russa acabou e com a nomeação do novo comandante supremo para a frente na Ucrânia, começou a destruição sistemática da rede eléctrica ucraniana, que não é um alvo puramente civil devido à sua utilização militar.

Actualmente, a situação na Ucrânia deteriorou-se a tal ponto que o governo de Kiev pediu aos habitantes das cidades que se mudassem para pequenas aldeias no campo para o Inverno. Isto é uma loucura. Antes de mais, nem todos têm parentes no campo onde possam ficar. Em segundo lugar, só de um ponto de vista logístico, é impossível fornecer alimentos, medicamentos e calor a mais milhões de pessoas nas regiões rurais na situação actual. Os ucranianos também o sabem, e provavelmente compreenderam correctamente o apelo do governo para se dirigirem para oeste.

Só uma vontade rápida e honesta de negociar e chegar a um compromisso entre o governo Zelensky em Kiev e a Rússia poderia ainda evitar a catástrofe para a qual a Ucrânia está a caminhar. Ao mesmo tempo, uma enorme vaga de refugiados de 3 a 5 milhões de pessoas virar-se-á para a UE e especialmente para a Alemanha.

Mas ao contrário do que aconteceu em 2015, a própria Alemanha está agora abalada económica e financeiramente. Além disso, já há perto de um milhão de ucranianos na Alemanha e muitas cidades e regiões já não têm a capacidade de acolher ainda mais pessoas. Mas não se preocupe, Scholz irá certamente dizer-nos que a Alemanha também tem isto sob controlo.


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