O Irão não é o Iraque: Quando Washington descobre os limites do seu próprio poder

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 28/07/2026, Revisão da Estátua)


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Durante décadas, Washington habituou-se a vender cada guerra como um passeio militar: alguns ataques “cirúrgicos”, uma chuva de mísseis de cruzeiro, uma conferência de imprensa triunfante… e fim. Só que desta vez, o argumento de Hollywood está a chocar com uma realidade bem menos fotogénica.

O Irão não é o Iraque de 2003 nem a Líbia de 2011. É um vasto território montanhoso onde as infraestruturas militares são dispersas, subterrâneas e concebidas para resistir a bombardeamentos. Enquanto alguns comentadores ocidentais já declaram a vitória dos seus sofás, os estrategas americanos sabem que alcançar a verdadeira superioridade aérea será muito mais complicado do que exibir uma animação em 3D na CNN.

Sem esta superioridade, as forças armadas dos EUA estão condenadas a gastar mísseis de precisão que custam milhões de dólares cada. Armas produzidas lentamente, em quantidades limitadas, e cujos stocks já foram seriamente reduzidos pela Ucrânia. Na sua busca para ser o bombeiro de todas as guerras, Washington está a descobrir que até o maior arsenal do mundo tem um limite.

Entretanto, Teerão está a seguir uma estratégia completamente diferente. A Guarda Revolucionária segue uma doutrina simples: atacar, desaparecer, repetir. Cada confronto permitiu-lhes refinar as suas redes, preencher as suas lacunas de inteligência e reforçar a sua produção de mísseis e drones. Por outras palavras, cada ataque ocidental transforma gradualmente o adversário numa versão melhorada de si mesmo. Uma estratégia brilhante… se o objetivo fosse precisamente tornar o Irão mais resiliente.

A parte mais interessante, no entanto, é o balanço geopolítico. Quanto mais recursos os Estados Unidos investem no Médio Oriente, mais Pequim observa silenciosamente o seu principal rival a desgastar-se. Moscovo, por seu lado, beneficia de uma NATO fragilizada, da atenção americana desviada e dos preços mais elevados da energia. Uma guerra destinada a enfraquecer os adversários de Washington acaba por lhes valer uma inesperada vantagem estratégica. É preciso reconhecer-lhes a perspicácia.

O erro fundamental reside em acreditar que a tecnologia pode substituir a geografia, a indústria e o tempo. Os Estados Unidos destacam-se em campanhas aéreas de curta duração contra inimigos isolados. Uma guerra de desgaste contra um vasto Estado preparado, capaz de reconstruir as suas capacidades, é um jogo completamente diferente.

O Pentágono não carece nem de aviões nem de generais. O que está a tornar-se escasso são os mísseis, o tempo… e a ilusão de que uma guerra ainda pode ser ganha apenas com diapositivos em PowerPoint.

Enquanto os painéis de TV prometem uma vitória relâmpago, a realidade recorda-nos uma regra tão antiga como a própria guerra: é muito mais fácil começar um conflito do que escrever o seu fim.

Miserere!

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 27/07/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua não resiste em sublinhar o realismo e a assertividade deste texto. A descrição do que está a ser a guerra na Ucrânia destrói as narrativas fantasiosas dos comentadores de serviço na comunicação social.

Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 28/07/2026


Zelensky prometeu 40 dias de ataques ininterruptos de enxames de drones e mísseis NATO dos quais resultaria o colapso industrial, energético e logístico da Rússia, mas hoje, vinte e cinco dias após a bravata, aparece em Londres com a insólita proposta de um entendimento com os russos para a imediata cessação de ataques a infraestruturas energéticas, grandes armazéns e unidades industriais, bem como a interrupção pelos contendores do uso de bombardeamentos aéreos na frente de combate. A leitura das entrelinhas exige a devida explicação factual em seis evidências:

1. Falhou a ofensiva aérea desencadeada contra as vias de abastecimento destinadas à Crimeia. Há mais de duas semanas que nenhum drone ucraniano incomoda o trânsito de pesados russos destinados à península. Os russos encontraram resposta e tornaram ineficazes tais ataques;

2. Os constantes ataques a refinarias russas decresceram 80% desde meados deste mês, pelo que tudo indica que os russos reforçaram significativamente a defesa antiaérea e abatem sistematicamente vagas de drones e mísseis;

3. Os ataques à navegação russa no Mar de Azov e no Mar Negro são agora esporádicos mas, por seu turno, a Rússia demoliu a frota comercial ucraniana, destruiu Odessa, Izmail, Chornomorsk e Pivdenny, fazendo cessar todo o tráfego marítimo ucraniano;

4. Aos incómodos de abastecimento provocados na Rússia europeia a refinarias, responderam os russos com a dizimação de largas centenas de postos de abastecimento existentes ao longo das estradas ucranianas e geraram uma quase penúria de gasolina e fuel que torna doravante impossível manter o abastecimento das viaturas de carga que demandavam a frente. Esta operação articulou-se com a destruição de milhares de camiões estacionados em grandes parques de pesados e com a destruição das maiores superfícies logísticas em Karkhov, Zaporíjia, Dnipropetrovsk, Poltava, Kherson, Cherkasi e Sumy;

5. Os bombardeamentos aéreas russos na linha da frente não param, graças ao uso das FAB planadoras de 1000, 2000 e 5000 libras que arrasam toda a retaguarda ucraniana, sobretudo edifícios que constituíam fortins que atrasavam a progressão russa;

6. Zelensky propõe aos britânicos a criação de uma grande unidade de fabricação e montagem de drones em território britânico. A razão é clara: os russos terão arrasado fábricas, linhas de montagem e armazéns de drones em território ucraniano, não havendo hoje parcela alguma do território que não possa ser atacada e destruída pelos drones e mísseis russos.

Terminou Zelensky com uma declaração dramática: «este inverno vai ser de uma dificuldade fora do nosso entendimento».

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Qual o objetivo da modernização acelerada do PLA?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 28/07/2026)


Não parece que a China se prepare ou tenha a intenção de iniciar um conflito militar em larga escala, mas indica que os dirigentes chineses consideram esse conflito muito provável e talvez inevitável, algures no final da década de 2020/início da década de 2030.


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Por ocasião da celebração dos 99 anos da fundação do Exército Popular de Libertação (PLA) da China (1 de agosto) importa perceber o motivo por detrás da sua acelerada modernização. Não falamos do processo que o fez passar de uma força de guerrilha constituída primordialmente por camponeses para uma das forças militares mais sofisticadas e tecnologicamente mais evoluídas do mundo, mas sim do modo acelerado e do ritmo sem precedentes como isso se desenrolou a partir de meados da última década.

Neste texto dedicado apenas ao PLA – as Forças Armadas chinesas não se resumem ao PLA e aos seus Ramos: Exército, Marinha e Força Aérea, incluem ainda a Polícia Armada Popular (PAP) e as milícias –, procuraremos compreender a sua evolução fundamentalmente com base nos Livros Brancos publicados por Pequim e como ela se insere nos preparativos discretos para um conflito com os EUA, que não se limita às Forças Armadas, mas envolve a sociedade chinesa na sua totalidade, tema que não desenvolveremos neste artigo, mas que se reveste de uma importância capital, e está na origem da modernização acelerada do PLA, acompanhando os desenvolvimentos em curso na China.

A curiosidade sobre o PLA surgiu-me em 2012, durante a primeira visita de uma delegação militar da NATO a Pequim, em que participei e em que estive envolvido na preparação. Essa visita inseria-se nas rondas de conversações entre o Estado-Maior Militar da NATO e o PLA (em março de 2026 teve lugar a 9.ª ronda). O diálogo militar anual (staff-to-staff) entre o Estado-Maior Militar da NATO e a China tem-se mantido de uma forma regular desde 2010, com reuniões anuais, quando uma delegação militar chinesa visitou a sede da NATO, apesar de algumas interrupções, como ocorreu durante a Covid.

Duas notas sobre esse encontro que me despertaram a atenção, entre muitas outras: já nessa altura as carreiras de tiro chinesas estavam equipadas com um LCD em cada posição de tiro para permitir aos atiradores verificarem de imediato a localização dos impactos no alvo; e a forma jocosa como os oficiais chineses se referiam ao embargo da venda de armamento da União Europeia à China, em vigor desde junho de 1989, o qual incluía tecnologia de uso exclusivamente militar. Não deixa de ser desconcertante serem os países europeus a comprarem à China, nos dias de hoje, os componentes dos drones que enviam para a Ucrânia, apesar de o embargo se encontrar ainda em vigor.

As reformas de 2015

Em 16 de abril de 2013, o Governo chinês publicou o primeiro Livro Branco dedicado às Forças Armadas («A Utilização Diversificada das Forças Armadas da China»), cinco meses apenas após Xi Jinping se ter tornado o líder máximo do Partido Comunista da China (PCC), não incorporando ainda o seu pensamento.

As grandes mudanças nas Forças Armadas chinesas, em particular no PLA, iniciaram-se em 2015, com o objetivo de as preparar para os novos desafios que se avizinham. Algo a que não se assistia desde as reestruturações dos anos 1950. Falamos de um esforço de modernização acelerada, do aumento do controlo do PCC sobre as forças armadas, da melhoria das suas capacidades para realizarem operações conjuntas (envolvendo todos os Ramos das Forças Armadas), e da preparação para guerras com recurso intensivo a tecnologias da informação.

Como principais mudanças identificamos a significativa redução de pessoal (300 mil militares, passando os efetivos de 2,3 milhões para 2 milhões) com um maior impacto no Exército de Terra (redução de oficiais e desmantelamento de unidades obsoletas); a reestruturação da liderança central (os antigos 4 grandes Departamentos Gerais (estado-maior, política, logística e armamento) foram dissolvidos e substituídos por 15 departamentos/agências diretamente subordinados à Comissão Militar Central; a criação de novas forças e comandos, em particular o Comando Geral do Exército de Terra, dotado pela primeira vez de um quartel-general próprio (anteriormente era dominado pelos departamentos gerais).

Esta restruturação incluiu ainda a criação da Força de Misseis elevando assim o estatuto e a importância da antiga “Segunda Artilharia” responsável tanto pelos mísseis nucleares como pelos convencionais; da Força de Apoio Estratégico, uma nova força dedicada à guerra espacial, cibernética, eletromagnética e apoio informacional; uma mudança dos comandos regionais (as antigas 7 Regiões Militares foram substituídas por 5 Comandos de Teatro (Leste, Sul, Oeste, Norte e Centro) orientados para operações conjuntas e ameaças específicas (por exemplo, o Comando Leste para Taiwan).

Um dos aspetos particularmente importante desta reforma foi a melhoria na integração entre os diferentes Ramos do PLA (Exército, Marinha e Força Aérea). Isto significou a transição de uma força iminentemente terrestre para uma força conjunta moderna, capaz de projetar poder e realizar operações longe das suas fronteiras, e de combater em cenários de alta intensidade (Taiwan, Mar do Sul da China, etc.). Em vez de Divisões, a estrutura de forças passou a centrar-se em brigadas (mais flexíveis e modulares). A maioria destas reformas estruturais foi implementada entre 2016 e 2018, com ajustes até 2020.

O Livro Branco de 2019

Em julho de 2019, Pequim publicou um novo Livro Branco com um título bastante sugestivo: «A Defesa Nacional da China na Nova Era», que atualizava e aprofundava os desenvolvimentos de 2013 e de 2015. O documento baseava-se no enfoque do Livro Branco de 2013 no emprego diversificado das forças armadas em tempo de paz, integrando-o em objetivos mais amplos de «forças armadas fortes» sob a liderança do PCC: defesa tradicional, outras operações militares sem serem guerra (ajuda em caso de catástrofes nacionais, estabilidade, etc.), proteção dos interesses nacionais no estrangeiro (por exemplo, missões de escolta, evacuação de não combatentes, etc.) e os designados bens públicos globais (missões de manutenção da paz da ONU, ajuda humanitária e resposta a catástrofes, combate ao terrorismo).

O documento apresentava as reformas já efetuadas como um dos pilares da modernização na “Nova Era”, mas expunha-as segundo um racional defensivo, pacífico e benéfico para a segurança global, sem deixar de ter sempre como pano de fundo o aumento das tensões com os EUA, as disputas no Mar do Sul da China, e as preocupações com Taiwan.

A linguagem utilizada era mais assertiva no que respeitava aos interesses fundamentais (especialmente Taiwan) do que a utilizada no documento de 2013, «A China deve ser e será reunificada», sem Pequim prometer renunciar ao uso da força; «O Exército Popular de Libertação derrotará resolutamente quem tente separar Taiwan da China e salvaguardará a unidade nacional a todo o custo.» E adota o conceito de “defesa ativa” («não atacaremos a menos que sejamos atacados, mas contra-atacaremos certamente se formos atacados») e estabelece uma estratégia baseada no equilíbrio entre a defesa e a ofensiva operacional/tática.

O documento identificava como objetivos principais das forças armadas chinesas: dissuadir a agressão e salvaguardar a soberania da China (incluindo Taiwan, o Mar da China Meridional e as Ilhas Diaoyu), opor-se ao separatismo (independência de Taiwan, do Tibete e do Uiguristão), proteger os interesses nacionais no estrangeiro e apoiar o desenvolvimento sustentável nacional.

O documento rejeitava a hegemonia, a expansão ou as esferas de influência: «A China nunca seguirá o caminho já trilhado pelas grandes potências que procuram a hegemonia.» Define também prazos para a modernização no que respeita à mecanização e aos desenvolvimento no domínio da informatização das forças até cerca de 2020, criando condições para a modernização da defesa nacional e das forças armadas até 2035, dando uma atenção particular à fusão civil-militar, cabendo aqui estabelecer uma diferença que adiante esclareceremos, à «inteligentização» e às reformas na estrutura, no pessoal e no equipamento, tornando a transformação num processo permanente.

Os EUA estimam que as Forças Armadas chinesas venham a dispor até 2030 de mais de 1000 ogivas nucleares operacionais, e constituam uma sólida tríade nuclear (mísseis terrestres, submarinos, bombardeiros). A marinha do PLA já é a maior marinha do mundo em número de navios.

Possui 3 porta-aviões operacionais, submarinos nucleares e mísseis antinavio. A Força Aérea possui aviões de 5.ª geração (J-20 e a família de caças J-35/J-35A) e tem projetos avançados de aviões de 6.ª geração (J-36), drones e uma significativa capacidade de projeção. A Força de misseis teve uma expansão enorme no campo dos mísseis balísticos e de cruzeiro convencionais (mais de mil mísseis capazes de atingir Taiwan e bases americanas na região), tendo efetuado avanços significativos nos chamados “Novos Domínios” (cyber, espaço e guerra eletrónica), ao que se acrescenta a liderança na criação de unidades constituídas por robôs humanoides com inteligência artificial.

Esta modernização sem precedentes do PLA em tempo de paz tem como pano de fundo a competição com os EUA e visa desenvolver capacidades que permitam dissuadir ou mesmo derrotar os EUA numa eventual guerra regional no Indo-Pacífico. A China dispõe de capacidades para derrotar uma possível intervenção militar americana em Taiwan, embora uma invasão anfíbia da ilha possa constituir ainda um desafio complexo.

O aumento de capacidades não indica necessariamente vontade para entrar efetivamente em combate. Não parece que a China se prepare ou tenha a intenção de iniciar um conflito militar em larga escala, mas indica que os dirigentes chineses consideram esse conflito muito provável e talvez inevitável, algures no final da década de 2020/início da década de 2030, nas proximidades dos seu território, preparando-se ativa e discretamente para a eventualidade de um conflito com os EUA.

A modernização rápida do PLA insere-se na construção acelerada de um sistema de resiliência nacional abrangente nos mais diversos setores da sociedade capaz de resistir a sanções, bloqueios, colapso da cadeia de abastecimento, catástrofes naturais e, potencialmente, a uma guerra de grande envergadura. O qual vai desde a relocalização da indústria estratégica para o interior do país, a grandes projetos de defesa civil e de resiliência das infraestruturas urbanas, bem como medidas para reforçar a resiliência do sistema energético nacional. Trata-se, portanto, de uma preparação para enfrentar os piores cenários. Por isso, faz todo o sentido que os decisores em Washington e em Bruxelas considerem estes desenvolvimentos nos seus cálculos estratégicos e os ponderem antes de embarcarem em aventuras militares no Indo-Pacífico.