A OTAN como religião

(Alfred de Zayas, in Carta Maior, 25/01/2022)

A controvérsia EUA/OTAN/Ucrânia/Rússia não é inteiramente nova. Já vimos o potencial de sérios problemas em 2014, quando os Estados Unidos e os Estados europeus interferiram nos assuntos internos da Ucrânia e secretamente/abertamente conspiraram para o golpe de estado contra o presidente democraticamente eleito da Ucrânia, Viktor Yanukovych, porque ele não estava jogando o jogo que lhe foi determinado pelo Ocidente. Claro, nossa mídia saudou o putsch como uma “revolução colorida” com todos os sinais exteriores de democracia.

A crise de 2021/22 é uma continuação lógica das políticas expansionistas que a OTAN tem perseguido desde o fim da União Soviética, como vários professores de direito internacional e relações internacionais têm indicado há muito tempo – incluindo Richard Falk, John Mearsheimer, Stephen Kinzer e Francis Boyle. A abordagem da OTAN concretiza a pretensão estadunidense de ter a “missão” de exportar seu modelo socioeconômico para outros países, não obstante as preferências dos estados soberanos e a autodeterminação dos povos.

Embora as narrativas dos EUA e da OTAN tenham se mostrado imprecisas e às vezes deliberadamente mentirosas em várias ocasiões, o fato é que a maioria dos cidadãos do mundo ocidental acredita acriticamente no que lhes é dito. A “imprensa de qualidade”, incluindo o New York Times, Washington Post, The Times, Le Monde, El Pais, NZZ e FAZ são efetivas câmaras de eco do consenso de Washington e apoiam entusiasticamente a ofensiva nas relações públicas e na propaganda geopolítica.

Acho que se pode dizer, sem medo de contradição, que a única guerra que a OTAN já ganhou foi a guerra da informação. Uma mídia corporativa complacente e cúmplice conseguiu persuadir milhões de norte-americanos e europeus de que as narrativas tóxicas dos Ministérios das Relações Exteriores são realmente verdadeiras. Acreditamos no mito da “Primavera Árabe” e da “EuroMaidan”, mas nunca ouvimos falar do direito de autodeterminação dos povos, incluindo os russos de Donetsk e Lugansk, e o que poderia facilmente ser chamado de “Primavera da Crimeia”.

Muitas vezes me pergunto como isso é possível quando sabemos que os EUA mentiram deliberadamente em conflitos anteriores para fazer a agressão ter a aparência de “defesa”. Mentiram para nós em relação ao incidente do “Golfo de Tonkin”, as supostas armas de destruição em massa no Iraque. Há evidências abundantes de que a CIA e o M15 organizaram eventos de “falsa bandeira” no Oriente Médio e em outros lugares. Por que as massas de pessoas educadas não conseguem se distanciar e questionar mais? Atrevo-me a postular a hipótese de que a melhor maneira de entender o fenômeno da OTAN é vê-la como uma religião secular. Assim nos é permitido acreditar em suas narrativas implausíveis, porque podemos aceitá-las com fé.

Claro, a OTAN dificilmente pode ser vista como uma religião de bem-aventuranças e do sermão da montanha (Mateus V, 3-10), exceto por uma bem-aventurança tipicamente ocidental – Beati Possidetis – bem-aventurados aqueles que possuem e ocupam. O que é meu é meu, o que é seu é negociável. O que eu ocupo, eu roubei honestamente e conforme as regras. Quando olhamos para a OTAN como religião, podemos entender melhor certos desenvolvimentos políticos na Europa e no Oriente Médio, Ucrânia, Iugoslávia, Líbia, Síria, Iraque.

O credo da OTAN é um pouco calvinista – um credo para e pelos “eleitos”. E, por definição, nós no Ocidente somos os “eleitos”, que significa “os mocinhos”. Somente nós teremos a salvação. Tudo isso pode ser tomado pela fé. Como toda religião, a religião da OTAN tem seu próprio dogma e léxico. No léxico da OTAN, uma “revolução colorida” é um golpe de estado, democracia coincide com capitalismo, a intervenção humanitária implica “mudança de regime”, “estado de direito” significa NOSSAS regras, o Satã número 1 é Putin e o Satã número 2 é Xi Jinping.

Podemos acreditar na religião da OTAN? Claro. Como o filósofo romano / cartaginês Tertuliano escreveu no século III DC – credo quia absurdum. Acredito porque é um absurdo. Pior do que os absurdos ordinários – exigem mentiras constantes para o povo norte-americano, para o mundo, para a ONU.

Exemplos? A propaganda enganosa de armas de destruição em massa em 2003 não foi apenas uma simples “pia fraus” – ou mentira leve. Foi bem orquestrada e havia muitos jogadores. A parte triste é que um milhão de iraquianos pagou com a vida e seu país foi devastado. Como norte-americano, eu e muitos outros gritamos “não em nosso nome”. Mas quem ouviu? O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, repetidamente classificou a invasão como contrária à Carta da ONU e, quando encurralado por jornalistas para esclarecimentos, afirmou que a invasão era “uma guerra ilegal”.

Pior do que meramente uma guerra ilegal, foi a mais grave violação dos Princípios de Nuremberg desde os Julgamentos de Nuremberg – uma verdadeira rebelião contra o direito internacional. Não apenas os EUA, mas a chamada “coalizão dos dispostos”, 43 Estados ostensivamente comprometidos com a Carta da ONU e com o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, atacaram deliberadamente o estado de direito internacional.

Alguém poderia pensar que, depois de ter sido enganado em questões de vida ou morte, um ceticismo saudável, algum grau de cautela se estabeleceria, que pessoas racionais pensariam “já não ouvimos esse tipo de propaganda antes?” Mas não, se a OTAN é de fato uma religião, a priori tomamos seus pronunciamentos com base na fé. Não questionamos Jens Stoltenberg [Secretário-geral da Otan]. Parece haver um acordo tácito de que mentir em questões de Estado é “honroso” e que questioná-las é “antipatriótico” – novamente o princípio maquiavélico de que o suposto fim bom justifica os meios maus.

A apostasia é um dos problemas de qualquer religião. Isso acontece frequentemente quando os líderes de uma religião mentem descaradamente para os fiéis. Quando as pessoas perdem a fé na liderança atual, elas procuram outra coisa em que acreditar, por exemplo, história, herança, tradição. Atrevo-me a me considerar um patriota dos EUA – e um apóstata da religião da OTAN – porque rejeito a ideia de que estou com “meu país esteja ele certo ou errado”. Quero que meu país esteja certo e faça justiça – e quando o país estiver no caminho errado, quero que ele retorne aos ideais da Constituição, de nossa Declaração de Independência, do discurso de Gettysburg – algo em que ainda posso acreditar.

A OTAN emergiu como a religião perfeita para valentões e belicistas, não muito diferente de outras ideologias expansionistas do passado. No fundo, os romanos eram orgulhosos de suas legiões, os granadeiros franceses morreram alegremente pelas glórias de Napoleão, soldados aos milhares aplaudiram as campanhas de bombardeio sobre o Vietnã, Laos e Camboja.

Pessoalmente, vejo a OTAN na tradição do valentão da aldeia. Mas a maioria dos norte-americanos não pode saltar sobre suas próprias sombras. Emocionalmente, a maioria deles não tem a audácia de rejeitar nossa liderança. Talvez porque a OTAN se autoproclame uma força positiva para a democracia e os direitos humanos. Eu perguntaria às vítimas de drones e de urânio empobrecido no Afeganistão, Iraque, Síria, Iugoslávia o que eles pensam sobre a linhagem da OTAN.

Muitas religiões são solipsistas, exageram sua própria importância, baseadas na premissa de que ela e somente ela possui a verdade – e que o diabo ameaça essa verdade. A OTAN é uma religião solipsista clássica, autossuficiente, egoísta, baseada na premissa de que a OTAN é, por definição, a Força boa. Um solipsista é incapaz de autorreflexão, autocrítica, incapaz de ver os outros como ele mesmo – com pontos fortes e fracos, e possivelmente com algumas verdades também.

A OTAN se baseia no dogma “excepcionalista” praticado pelos Estados Unidos há mais de dois séculos. De acordo com a doutrina do “excepcionalismo”, os EUA e a OTAN estão ambos acima do direito internacional – até acima do direito natural. “Excepcionalismo” é outra expressão para o slogan romano “quod licet Jovi, non licet bovi” – o que Júpiter pode fazer, certamente não é permitido para mortais comuns como nós. Nós somos os “bovi”, os bovinos.

Além disso, nós, no Ocidente, nos acostumamos tanto com nossa “cultura da trapaça” – que reagimos surpresos quando outro país não aceita simplesmente quando o enganamos. Essa cultura da trapaça se tornou tão natural para nós, que nem percebemos quando enganamos outra pessoa. É uma forma de comportamento predador que a civilização ainda não conseguiu erradicar.

Mas, honestamente, a OTAN também não é um reflexo do imperialismo do século XXI, semelhante ao neocolonialismo? A OTAN não apenas provoca e ameaça rivais geopolíticos, mas na verdade saqueia e explora seus próprios Estados membros – não para sua própria segurança – mas para benefício do complexo militar-industrial. Isso deveria ser óbvio para todos – mas não é nada óbvio – que a segurança da Europa está no diálogo e no compromisso, na compreensão das opiniões de todos os seres humanos que vivem no continente. A segurança nunca foi idêntica à corrida armamentista e demonstração de força.

De acordo com a narrativa predominante, os crimes cometidos pela OTAN nos últimos 73 anos não são crimes, mas erros lamentáveis. Como historiador – não apenas como jurista – reconheço que podemos estar perdendo a batalha pela verdade. É bastante provável que em trinta, cinquenta, oitenta anos, a propaganda da OTAN emerja como a verdade histórica aceita – solidamente cimentada e repetida nos livros de história. Isso ocorre em parte porque a maioria dos historiadores, assim como os advogados, são canetas de aluguel.

Esqueça a ilusão de que com o passar do tempo a objetividade histórica aumenta. Pelo contrário, todas as mentiras que as testemunhas oculares podem desmascarar hoje acabam se tornando a narrativa histórica aceita, uma vez que os especialistas estão todos mortos e não podem mais desafiar a narrativa. Esqueça os documentos desclassificados que contradizem a narrativa, porque a experiência mostra que só muito raramente eles podem derrubar uma mentira política bem arraigada. Na verdade, a mentira política não morrerá até que deixe de ser politicamente útil.

Infelizmente, muitos norte-americanos e europeus continuam a comprar a narrativa da OTAN –talvez porque seja fácil e reconfortante pensar que somos os “mocinhos” e que os graves perigos “lá fora” tornam a OTAN necessária para nossa sobrevivência. Como Júlio César escreveu em seu “De bello civile” – quae volumus, ea credimus libenter. Acreditamos no que queremos acreditar – em outras palavras, mundus vult decepi – o mundo realmente quer ser enganado

Vista objetivamente, a expansão da OTAN e a provocação ininterrupta à Rússia foi e é um perigoso erro geopolítico, uma traição à confiança que devemos ao povo russo – pior ainda – uma traição à esperança de paz compartilhada pela grande maioria da humanidade . Em 1989/91 tivemos a oportunidade e a responsabilidade de garantir a paz global. A arrogância e a megalomania mataram essa esperança.

O complexo militar-industrial-financeiro conta com a guerra perpétua para continuar gerando bilhões de dólares em lucros. 1989 poderia ter inaugurado uma era de implementação da Carta da ONU, de respeito ao direito internacional, uma conversão de economias militares em economias de segurança humana e serviços humanos, o corte de orçamentos militares inúteis e o direcionamento dos fundos liberados para erradicar a pobreza, a malária, as pandemias, dedicando mais fundos à pesquisa e desenvolvimento no setor da saúde, melhorando hospitais e infraestrutura, abordando as mudanças climáticas, conservando estradas e pontes…

Quem tem a responsabilidade por esta enorme traição do mundo? O falecido presidente George H. W. Bush e a falecida primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, juntamente com seus sucessores e todos os seus conselheiros neoconservadores e proponentes do “excepcionalismo”, juntamente com os think tanks e especialistas que os aplaudiram.

Como essa traição foi possível? Somente através de desinformação e propaganda. Só com a cumplicidade da mídia corporativa, que aplaudiu a ideia de Fukuyama de “o fim da história” e “o vencedor leva tudo”. Por um tempo, a OTAN se deleitou com a ilusão de ser o Hegemon. Quanto tempo durou essa quimera do mundo unipolar? E quantas atrocidades foram cometidas pela OTAN para impor sua hegemonia no mundo – quantos crimes contra a humanidade foram cometidos em nome da “democracia” e dos “valores europeus”?

A mídia corporativa obedientemente jogou o jogo ao declarar que a Rússia e a China são nossos inimigos jurados. Qualquer discussão razoável com russos e chineses foi e é denunciada como “apaziguamento”. Mas não deveríamos nos olhar no espelho e reconhecer que os únicos que deveriam se “apaziguar” somos nós? Na verdade, precisamos nos acalmar e parar de agredir todo mundo – parar as ofensivas militares e de informação.

Se há um país que pouquíssimo se importa com o estado de direito internacional – também conhecido como “ordem internacional baseada em regras” de Blinken – é, infelizmente, meu país, os Estados Unidos da América.

Entre os tratados que os EUA não ratificaram estão a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, o Estatuto do TPI, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Tratado de Céus Abertos, o Protocolo Facultativo à Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, o Protocolo Facultativo à Convenção de Viena sobre Relações Consulares, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, a Convenção sobre Trabalhadores Migrantes, a Convenção sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais…

No final das contas, entendemos que nem Huntington nem Fukuyama captaram corretamente o século 21 – Orwell sim.

Alfred de Zayas é professor da Escola de Diplomacia de Genebra e atuou como Especialista Independente da ONU na Promoção de uma Ordem Internacional Democrática e Equitativa 2012-2018.


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Não vás à Ucrânia, Zé

(José Gabriel, 25/01/2022)

O governo ucraniano declarou que vai perseguir e desmantelar todos os grupos políticos – e seus membros – ou outros que considere pró-russos. Não sei como se determina que um fulano é pró-russo. Deve ser como os nazis determinavam pela medição de traços fisionómicos quem era judeu, que a Inquisição decidia quem era herege, quem os fascistas portugueses definiam quem era comunista, quem os puritanos identificavam como bruxa.

É que não se trata de ver das práticas e opções políticas dos cidadãos no caso de não serem do agrado do poder, o que já seria muito mau. Trata-se de perseguir implacavelmente quem o poder decide, de um modo totalmente arbitrário, quem entende não lhe agradar. Assim, arranjaram um carimbo: pró-russo.

Lembra-se a gente da minha idade, certamente, que os manuais do salazarismo explicavam que Portugal era uma democracia orgânica e corporativa. Então como se podia prender todo e qualquer democrata, fosse qual fosse a sua concepção de democracia? Dizia-se que era comunista. Como se decidia na Alemanha nazi se que alguém era judeu? Pelo feitio do nariz e pela medição de outros traços fisionómicos. Em ambos os casos e todos os semelhantes a verdadeira razão era…porque sim. Porque o poder assim entendia. O que se passa na Ucrânia é semelhante. És da oposição? Não concordas com o governo? Queres formar um partido? És pró-russo. Vais preso.

Que desde o derrube do único presidente democraticamente eleito, operação levada a cabo a partir de manifestações apoiadas pela NATO e seus capangas, a Ucrânia é uma autocracia corrupta, todos sabem. E também sabemos que o tal presidente derrubado não era flor que se cheirasse, mas foi eleito em eleições creditadas pela comunidade internacional. Aguentassem, que a gente também aguentou dois mandatos do Cavaco.

Depois desses eventos, o governo provisório incluiu nazis assumidos, o Leste da Ucrânia – que odeia, saudavelmente e por boas razões, nazis – levantou-se em armas. A Crimeia fez um referendo e pirou-se rapidamente – a versão de cá é que foi anexada pela Rússia.

E chegamos a isto. Um governo ucraniano cheio de tiques fascistas, corrupto, pago como uma prostituta por dinheiros europeus e norte-americanos e empenhado em fazer uma “limpeza” étnica, ideológica e política no seu povo. É para este lixo de governo que vão mais estes milhões que a União Europeia acaba de aprovar, é com esta gentalha que a NATO alimenta este terrorismo informativo de uma guerra ficcional que, como as guerras reais, dá chorudos lucros – e tem menos custos.

O nosso ministro dos negócios estrangeiros insiste em que os portugueses não devem viajar para a Ucrânia. Desta vez concordo com ele, mas por muito diferentes razões: é que, ó compatriotas, podeis ser confundidos com pró-russos e engaiolados – pelo menos.


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A Europa e a guerra da Ucrânia

(Boaventura Sousa Santos, in Diário de Notícias, 21/01/2022)

Os exigentes desafios que o mundo enfrenta neste momento – da crise climática à pandemia, do agravamento da Guerra Fria ao perigo de uma confrontação nuclear, do aumento das violações dos direitos humanos ao crescimento exponencial do número de refugiados e de pessoas com fome – exigem mais do que nunca uma intervenção ativa do ONU, cujo mandato inclui a manutenção da paz e da segurança coletivas e a defesa e promoção dos direitos humanos. Entre muitas áreas de intervenção em que a ONU pode intervir, uma das mais importantes é a da paz e segurança, e respeita concretamente ao agravamento da Guerra Fria. Iniciada por Donald Trump e prosseguida com entusiasmo por Joe Biden, está em curso uma nova Guerra Fria que tem aparentemente dois alvos, a China e a Rússia, e duas frentes, Taiwan e Ucrânia. À partida, parece insensato que uma potência em declínio, como são os EUA, se envolva numa confrontação em duas frentes simultaneamente. Para mais, ao contrário do que se passou com a Guerra Fria anterior, visando a União Soviética, a China é uma potência de grande poder económico e um importante credor da dívida pública dos EUA. Está a ponto de ultrapassar os EUA como a maior economia mundial e, segundo a National Science Foundation dos EUA, teve pela primeira vez em 2018 uma produção científica superior à dos EUA. Acresce que a lógica aconselharia os EUA a ter a Rússia como aliada e não como inimiga, não só para a separar da China, como para acautelar as necessidades energéticas e geoestratégicas da sua aliada histórica, a Europa. A mesma lógica aconselharia a UE a ter presente as relações históricas e económicas da Europa central com a Rússia (até à Ostpolitik de Willy Brandt).

É particularmente preocupante que os neocons (os políticos e estrategas ultraconservadores que desde o ataque às Torres Gémeas em 2001 dominam a política externa dos EUA) acirrem simultaneamente as hostilidades com a Rússia e apelem para que os EUA se preparem para uma guerra com a China no final da década, uma guerra quente de tipo novo (a guerra com os meios da inteligência artificial).

O poder mediático internacional dos neocons é impressionante. Tal como aconteceu em 2003 com os preparativos da invasão do Iraque, assistimos a um unanimismo alarmante dos comentadores de política externa no mundo ocidental. De repente, a China, que até agora era um parceiro comercial importante e fiável, passa a ser uma ditadura que viola massivamente os direitos humanos e uma potência malévola que quer controlar o mundo, desígnios que têm de ser neutralizados a todo o custo.

Por sua vez, a Rússia, até agora um parceiro estratégico (caso do acordo nuclear com o Irão), é agora um país governado por um presidente autoritário e agressivo, Vladimir Putin, que quer invadir a democrática Ucrânia. Para a defender, os EUA ajudarão militarmente e, para isso, a Ucrânia deve juntar-se à Nato. Esta narrativa, apesar de ser falsa, é reproduzida sem contraditório no The Washington Post e no The New York Times, é depois ampliada pela Reuters e a Associated Press e secundada pelos briefings das embaixadas dos EUA. Os comentadores ocidentais apenas a regurgitam acriticamente. Perante isto, é urgente que se faça ouvir e sentir a intervenção da ONU para travar a deriva de uma terceira guerra mundial.

A ONU tem informação abundante que lhe permite contrariar esta narrativa e intervir ativamente para neutralizar o seu potencial destrutivo. A Ucrânia é um país etnolinguisticamente dividido entre um ocidente predominantemente ucraniano e um oriente predominantemente russo. Ao longo da década de 2000, as eleições e os inquéritos de opinião revelaram a oposição entre um ocidente pró-União Europeia e pró-NATO, por um lado, e um oriente pró-Rússia, por outro. Em termos de recursos energéticos, a Ucrânia depende em 72% do gás natural da Rússia, tal como acontece com outros países europeus (a Alemanha depende em 39%), o que dá uma ideia do poder de negociação da Rússia neste domínio. Desde o fim da União Soviética, os EUA têm vindo a tentar retirar a Ucrânia da órbita da Rússia e integrá-la na do mundo ocidental e, de facto, transformá-la num bastião pró-norte-americano na fronteira da Rússia. Esta estratégia tem tido pilares: integrar a Ucrânia militarmente na NATO (aprovada na Cimeira de Bucareste de 2008, tal como a Geórgia, outro país com fronteira com a Rússia) e economicamente na União Europeia. A revolução laranja, ou melhor, o golpe de 22 de fevereiro de 2014, fortemente apoiado pelos EUA, foi o pretexto para acelerar a estratégia ocidental. Teve a sua causa imediata na recusa do presidente Yanukóvytch em assinar um acordo de integração económica com a UE que deixava de fora a Rússia. Seguiram-se protestos, muita agitação social e uma repressão governamental brutal que se saldaram em mais de 60 mortes (sabe-se hoje que havia grupos fascistas fortemente armados entre os manifestantes). Em 22 de fevereiro, o presidente foi obrigado a sair do país. A “promoção da democracia” conduzida pelos EUA tinha dado resultado: a “revolução laranja” iniciava a sua política antirrussa. A Rússia tinha avisado que a integração na NATO e a integração exclusiva na UE constituía uma “ameaça direta” à Rússia. Nos meses seguintes, a Rússia ocupou a Crimeia onde já tinha uma importante base militar.

Em 2014 e 2015 celebraram-se os protocolos de Minsk com a intermediação de Rússia, França e Alemanha. Reconhecia-se a especificidade etnolinguística da região do rio Don (Donbas) (maioritariamente de língua russa) e previa-se o estabelecimento, a cargo da Ucrânia e segundo a lei ucraniana, de um sistema de autogoverno para a região (que abrange áreas dos distritos de Donetsk e Luhansk). Estes protocolos nunca foram cumpridos pela Ucrânia. A tensão voltou agora a aumentar com a suposta intenção da Rússia de invadir a Ucrânia. E é mesmo provável que o faça (certamente limitada à Ucrânia oriental etnicamente russa) se a NATO, os EUA e a UE continuarem a sua política de hostilização.

Perante tudo isto, é de perguntar se quem tem vindo a criar perturbação nesta região do mundo é a Rússia ou os EUA. Todos nos recordamos da crise dos mísseis de 1962, quando a União Soviética se propôs instalar mísseis em Cuba. A reação norte-americana foi terminante; tratava-se de uma ameaça direta à soberania dos EUA e em nenhum caso se aceitariam tais armas na sua fronteira. Chegou a soar o alarme de uma guerra nuclear. Foi esta reação muito diferente da reação atual da Rússia perante a perspetiva de a Ucrânia vir a integrar a NATO?

Em 2017 foi tornado público o relato da reunião entre o secretário de Estado norte-americano James Baker e Mikhail Gorbachev realizada em 9 de fevereiro de 1990. Nessa reunião foi acordado que se a Rússia facilitasse a reunificação da Alemanha, a NATO “não se expandiria um centímetro para leste” (http://nsarchive.gwu.edu). Apesar disso e de extinto o pacto de Varsóvia, nove anos depois Polónia, Hungria e República Checa juntavam-se à NATO.

E nenhum comentador se lembra de que em 2000, quando chegou ao poder, Vladimir Putin manifestou publicamente o desejo de a Rússia vir a integrar a NATO e também a UE para a Rússia “não ficar isolada na Europa”. Ambos os pedidos foram recusados.

Em face disto, a ONU sabe que a Rússia não é a única potência agressiva no conflito atual, e que bastaria que os acordos de Minsk fossem cumpridos pela Ucrânia para a hostilidade cessar. Porque é que a Ucrânia não pode permanecer um país neutro como a Finlândia, a Áustria ou a Suécia?

Se houver guerra nesta região, o teatro de guerra será a Europa, e não os EUA. A mesma Europa que há pouco mais de setenta anos se ergueu de um inferno de duas guerras mundiais que se saldaram em cerca de 100 milhões de mortes. Se a ONU quer ser a voz da paz e da segurança que consta do seu mandato, tem de assumir uma posição muito mais ativa e mais independente da dos países envolvidos.

Tem de averiguar in situ o que se passa nos territórios onde as grandes potências se digladiam e se preparam para guerras de hegemonia em que provavelmente serão os aliados menores a sofrer as consequências e a pagar com vidas (Taiwan ou Ucrânia) – as chamadas proxy wars – mesmo se a política agressiva do regime change visa a Rússia e a China, eventualmente com resultados semelhantes aos que teve no Iraque, na Líbia ou no Afeganistão. O mundo precisa de ouvir vozes autorizadas que não repitam o script imposto pelos rivais. A mais autorizada de todas é a da ONU.


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