Lei marcial na Ucrânia

(Joseph Praetorius, 27/11/2018)

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Lei marcial na Ucrânia onde Poroshenko prepara o esmagamento de qualquer oposição, a começar, evidentemente, pelas multidões cristãs da Igreja Canónica (com a benção do patriarca da OTAN em Constantinopla) enquanto os neo-nazis (que o nazismo consideraria inevitavelmente sub-homens) lançaram um ataque provocatório contra o consulado russo em Karkov, incendiando-o, perante o silêncio do “ocidente” que assim retoma (sem energia nem dinheiro) o delirante projecto do confronto militar imediato com a Rússia, usando o moribundo Poroshenko e o “estado” já inviável da Ucrânia.

Macron, May, Rutte, Morawiecki, Löfven, o emir do Kwait e Trump mandaram sustentar no conselho de segurança da ONU o cadáver adiado de Poroshenko, cujo destino se consumaria nas eleições da próxima primavera sem esta artifíciosa Lei Marcial que se prefigura homicida, senão genocidária, ao menos no plano dos perigos evidentes.

Mas nada há firme nesta cena internacional, porque no Conselho de Segurança, destes sete se demarcaram oito, seja porque a abstenção não é uma aprovação, seja porque a oposição clara da Bolívia, China, Rússia e Kazaquistão traduz uma evidente e impressionante relevância política (militar e económica) à escala do globo.

O “ocidente” joga estupidamente as últimas cartas (fracas) no jogo da sua irremediável, dolorosa e irreversível decadência e do seu regresso à pobreza, que não lhe é já possível contrariar pela morte e pelo saque impostos aos outros povos da terra.

Em breve as suas oligarquias estarão a discutir não já o preço das vidas alheias, mas o das suas próprias existências.Esse preço não pode ser elevado, por corresponder à improbabilidade do êxito que lhes cabe.

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Ó JESUS, MAKE IT STOP!

(Abílio Hernandez, 11/11/2018)

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Neste dia em que se comemora a assinatura do Armistício destinado a pôr fim à Guerra Mundial de 1914-1918, evoco, no excerto de um texto bastante mais longo que publiquei há 36 (!) anos, aquela que foi, talvez, a mais brutal de todas as batalhas então travadas: a batalha do Somme:

Às primeiras horas de 1 de junho de 1916, 110 mil soldados da infantaria inglesa lançaram-se ao assalto das posições alemãs, nas margens cobertas de papoilas do Somme. 60 mil morreram ou ficaram feridos antes que o sol atingisse o poente e empalidecesse o brilho das baionetas.

Durante muitos dias, o vermelho do sangue derramado cobriu o vermelho das papoilas na Terra de Ninguém. E os gemidos, que no silêncio das noites se ouviam, não eram do vento nem das aves noturnas, que não as havia já, mas dos feridos à espera de um auxílio que não chegaria ou chegaria demasiado tarde.

18 anos depois, Edmund Blunden, poeta e soldado desta guerra, escreve:

“By the end of the day both sides had seen, in a sad scrawl of broken earth and murdered men, the answer to the question. No road. No thoroughfare. Neither race had won, nor could win, the War. The War had won, and would go on winning.”

Quando as lamas de novembro cobriram os campos do Somme, as baixas dos dois lados tinham ultrapassado um milhão e duzentos mil homens. Alguns meses mais tarde, G. Bernard Shaw visitou as frentes de combate na Flandres e na Picardia, e descreveu o que viu no Somme:

“The Somme front in the snow and brilliant sunshine was magnificent. The irony of the signposts was immense. ‘To Maurepas’; and there was no Maurepas. ‘To Contalmaison’; and there was no Contalmaison. ‘To Pozières’; and there was no Pozières…”

Nas margens do Somme não morreram apenas homens. Também ali ficaram enterradas a inocência, as ilusões e o fervor patriótico que tinham acompanhado quase 3 milhões de ingleses a caminho da guerra. Depois da batalha, não era já possível cantar a beleza e os ideais da Pátria e pensar a guerra como uma cruzada heróica em que os jovens se lançavam ‘as swimmers into cleanness leaping’, como num poema de Rupert Brooke.

Era agora o tempo das trincheiras e do arame farpado, do gás que queimava os pulmões e das feridas incuráveis. O poeta-soldado descobre (e descobre-se em) um grito urgente, de indignação e raiva, eco das vozes dos homens imolados (como sempre) pelos interesses de Estados em guerra.

É o caso do poema “Attack”, de Siegfried Sassoon, cujo crescendo de tom até ao grito final exterioriza uma angústia longamente sufocada e sublinha a premência instante do tema:

At dawn the ridge emerges massed and dun
In the wild purple of the glow’ring sun,
Smouldering through spouts of drifting smoke that shroud
The menacing scarred slope; and, one by one,
Tanks creep and topple forward to the wire.
The barrage roars and lifts. Then, clumsily bowed
With bombs and guns and shovels and battle-gear,
Men jostle and climb to, meet the bristling fire.
Lines of grey, muttering faces, masked with fear,
They leave their trenches, going over the top,
While time ticks blank and busy on their wrists,
And hope, with furtive eyes and grappling fists,
Flounders in mud. O Jesus, make it stop!

 

UM ASSALTO À PORTUGUESA

(In Blog O Jumento, 26/10/2018)

solnADO

Um pilha galinhas encostou a pick-up ao buraco na rede da base de Tancos, entrou tranquilamente, abriu o portão do paiol e foi carregando a carrinha com o material que havia à mão, balas avulso, explosivos, bobinas de fios, disparadores, granadas de mão ofensivas, granadas anti-tanque, granadas foguete, cargas de corte, granadas de gás lacrimogéneo. Enfim, só não trouxe um tanque porque não conseguia passar no buraco da rede ou o ladrão não tinha carta de pesados e podia cruzar-se com alguma patrulha de trânsito.

Ainda bem que o pobre ladrão não tem bicos de papagaio, porque carregar todo aquele material entre o paiol e o carro sem poder bufar, com medo de que o ruído atraísse algum sentinela mais atento, se tivesse estaria agora ainda mais empenado do que o material que roubou. Mas depois de todo este trabalho o desgraçado deve ter pensado em ir a Tancos pedir o livro de reclamações, o material roubado que ia trazer uma vaga de atentados estava fora do prazo, estava tão estragado que em vez de explosões a Europa iria sofrer de caganeira.

E quando esperava que o pessoal acertasse as contas e esquecesse o assunto ficou em pânico quando percebeu que o seu roubo tinha merecido mais do que uma nota no meio do Correio da Manhã. O homem  entrou em pânico, mas ladrão que é ladrão tem um amigo da GNR com quem assentou praça na tropa e esse amigo é amigo do chefe da PJ militar, que por sua vez estava danadnho por ser ele a tramar a PJ civil. O assalto ficou mesmo a calhar, o ladrão devolveu o material impróprio para consumo e assim a tropa tramava a concorrência.

Mas, não fosse o diabo tecê-las, o melhor era arranjar uma boa desculpa para evitar as consequências, se algo corresse mal tramava-se os políticos, se alguém fosse preso havia que ter um memorando bem guardadinho, a prova de que o homem de cima sabia. Isto é, se nos tramarem também estão tramados.

E até parecia que a Cristas é bruxa, há meses que anda a dizer que a culpa era do ministro e do primeiro-ministro. Então não acontece que, com o tal memorando de que ninguém sabia, até parece que o CDS tem um dedo que adivinha?

O problema agora é saber como é que o ilustre advogado Sá Fernandes consegue transformar os truques em argumentos que transformem o seu arguido em honrado e inocente; porventura será condecorados porque tudo fez pensando estar a servir a Nação. Tudo isto faz lembrar a ida do Raúl Solnado à guerra de 1908!

Ver a excelente peça humorística do saudoso Raúl Solnado no vídeo abaixo.

 

 


Fonte aqui