Por que este é o momento mais perigoso para a humanidade?

(Leonardo Boff, in Blog LeonardoBoff, 09/11/2017)

guerra_nuclear

É um dever ético dos cidadãos conscientes, especialmente dos intelectuais, manter a humanidade informada sobre os riscos que pesam sobre ela. A insensatez da razão instrumental-analítica, criou o princípio de auto-destruição. Ela pode por fim a si mesma por muitas formas diferentes com armas químicas, biológicas e termo-nucleares. Elas não constituem uma possibilidade linginqua. São realidades já montadas e prontas para serem atividas pela arrogância e o espírito belicoso e suicidário dos portadores de poder das nações. O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman alertou várias vezes que o atual presidente norte-americano é um perigo não somente para os EUA mas para toda a Humanidade. Ele é alguém que possui um ego tão inflado que perdeu o sentido dos limites. Ameaça pulverizar com armas nucleares toda aa Coreia do Norte. Tal intento, se ainda for respondido por aquele pais, poderá significar não apenas o fim de nossa civilização mas também o fim trágico da espécie humana e de grande parte da carga biótica do planeta Terra. Vivemos tempos de Noé. Com uma diferença. Desta vez não há uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos poderemos ter o mesmo fim sinistro, frustrando o plano divino da criação. É pela consciência deste risco que publico neste blog o resmo do livro de Michael Rampino, The Global Catasthrofic Risks pelo IHU, um instrumento de grande atualização a nível mundial . O texto apareceu no dia 07 Novembro 2017  no Instituto Humanístic de Unisinos (IHU). Chegou  o momento de pensar, de mudar de comportamento e de rezar ao Deus da vida para que não sejamos surpreendidos por semelhança desgraça. Se um dia assassinamos o Filho de Deus quando se encarnou entre nós (o crime maior da história) não é impossível que o ser humano, inadvertidamente ponha fim à sua existência sobre esse pequeno e belo planeta, nossa Casa Comum: LBoff


 A humanidade já esteve a ponto de desaparecer. Foi depois da terrível erupção vulcânica de Toba, na Indonésia, há 75.000 anos. Esta enorme erupção lançou tal quantidade de materiais na atmosfera que causou “efeitos comparáveis aos cenários de inverno nuclear”. “A população humana parece ter passado pelo gargalo da garrafa neste momento; de acordo com algumas estimativas, caiu para cerca de quinhentas fêmeas reprodutoras em uma população mundial de aproximadamente 4.000 indivíduos”, explica Michael Rampino no livro Global Catastrophic Risks (Riscos Catastróficos Globais). “Talvez este tenha sido o pior desastre que já recaiu sobre a espécie humana, pelo menos se a gravidade for medida por quão próximo o resultado esteve do terminal”, destaca.

A reportagem é de Javier Salas, publicada por El País, 06-11-2017.

É mais provável que morramos no fim do mundo que em um ataque terrorista ou em um acidente de avião

Segundo a teoria da catástrofe de Toba, a cinza da erupção bloqueou a entrada de luz solar e as temperaturas caíram rapidamente, tornando as condições de vida extremamente difíceis, o que levou os seres humanos à beira da extinção. Uma espécie hoje decisiva na história da Terra, capaz de deixar marca na escala geológica, e que agora corre o risco de passar pelo gargalo da garrafa de maneira semelhante, já que estamos a apenas dois minutos e meio do apocalipse.

De acordo com o relógio simbólico do fim do mundo, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, chegar à meia-noite significa o abismo, e as condições atuais da humanidade nos levaram às 23h57 e 30 segundos. É o ponto mais próximo do cataclismo final, desde que a ex-URSS e os EUAexibiram seu poderio termonuclear em 1953. A instável e atrevida gestão do poder atômico mostrada por Donald Trump, juntamente com as mudanças climáticas, levou este painel de cientistas, que conta com 15 prêmios Nobel, a adiantar o relógio — que em 1991 estava a 17 minutos do juízo final. Antes do relógio ser criado, há 70 anos, ninguém poderia imaginar a humanidade se autodestruindo, e a ideia de que a raça humana poderia desaparecer era tão remota quanto um supervulcão ou um gigantesco meteorito.

Mas vivemos em tempos voláteis, embora não vejamos isso. É mais provável que morramos no fim do mundo, durante o hipotético evento que acaba com a humanidade, do que em um ataque terrorista ou em um acidente de avião. Estamos bem perto, segundo alguns dos acadêmicos dedicados a estudar os riscos existenciais, aqueles que comprometem nossa viabilidade como espécie. Como chegaremos em 2050?

Poucos se dão conta de que a ameaça de um holocausto nuclear é muito maior hoje do que foi durante a maior parte da Guerra Fria

“A maioria das pessoas não está ciente do perigo”, afirma Phil Torres, autor do recém-publicado Moral Bioenhancement and Agential Risks: Good and Bad Outcomes, da Pitchstone (numa tradução livre, Moralidade, Previsão e Prosperidade Humana: Riscos Existenciais). “Poucos se dão conta de que a ameaça de um holocausto nuclear é muito maior hoje do que foi durante a maior parte da Guerra Fria. E o negacionismo climático continua sendo inaceitavelmente generalizado, em especial entre os republicanos nos Estados Unidos”, acrescenta Torres. Para este especialista, um dos maiores desafios é encontrar a maneira de não paralisar a população ao difundir o que disse recentemente Stephen Hawking: que este é o momento mais perigoso da história da humanidade.

De conscientizar sobre os riscos Teresa Ribera entende bastante. É considerada uma das artífices do Acordo de Paris, especialista nas mudanças climáticas, sem dúvida um dos maiores perigos que teremos de combater em 2050. “É particularmente delicada a situação de populações vulneráveis em países em desenvolvimento nos quais a falta de solidariedade internacional e as dificuldades intrínsecas para fazer frente a cenários de mudanças climáticas severas causam deslocamentos e sofrimento e, com isso, instabilidade local e mundial”, observa Ribera, diretora do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e as Relações Internacionais.

Deter as mudanças globais do clima

Ribera projeta dois cenários bem diferentes para 2050. Por um lado, um de mudanças climáticas intensas, sem mais redução de emissões que a da inércia, com mudanças de uso de solo aceleradas e sem estratégias de adaptação: “Estaríamos nos aproximando de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam populismos e reações violentas. Um mundo no qual a fragilidade dos ecossistemas e a virulência dos impactos das mudanças climáticas dificultariam a segurança alimentar, inundariam zonas baixas densamente povoadas, deixariam fora de serviço a infraestrutura básica de mobilidade, energética ou de fornecimento de água, além de provocar verões de cinco meses, muito mais dias acima de 40ºC e com mínimas não inferiores a 25ºC e incêndios cada vez maiores e virulentos em climas mediterrâneos como o espanhol”.

Stephen Hawking acredita que este é o momento mais perigoso da história da humanidade

Por outro lado, um cenário no qual adotaríamos todas as medidas para conseguir uma economia baixa em carbono: “Não poderíamos escapar de muitos dos efeitos que a inércia do sistema climático nos impõe, mas, sim, evitar os mais graves, as enormes consequências da falta de preparo e uma normalização progressiva para o futuro de nossos netos”. Ribera acredita que nos movemos peto desse segundo cenário, se bem que “é provável que não obtenhamos o melhor em redução de emissões nem com a aplicação das medidas que nos ajudem a estar preparados para os impactos”.

As mudanças climáticas são a maior ameaça para a saúde do século XXI, segundo um relatório da The Lancet e Nações Unidas. Nas grandes cidades do planeta, as inundações severas se duplicarão em 2050 enquanto 4 bilhões de pessoas sofrerão com problemas de acesso a água. Nessa data, dobrará o número de mortes decorrentes do ar poluído em boa parte dos países em desenvolvimento. As populações urbanas expostas aos furacões chegarão a 680 milhões de pessoas. Mais de 1 bilhão de pessoas padecerá com as ondas de calor (em 2015 foram 175 milhões), sendo particularmente letais para crianças pequenas e idosos, que constituirão grande parte da população em alguns países.

Se as tendências atuais persistirem, em 2050 haverá mais quilos de plástico que de peixes no mar. Nesse ano, milhões de pessoas em todo o mundo não poderão ter acesso aos peixes como fonte básica de proteínas; pode ser que em 2048 já não contemos com outros alimentos de origem marinha selvagem, segundo um estudo publicado na Science. No entanto, será preciso aumentar em 70% a disponibilidade de alimentos para satisfazer as demandas dos mais de 9 bilhões de humanos povoando o planeta. A África terá que triplicar sua produção agrícola para poder atender às necessidades de uma população que terá duplicado, enquanto os rendimentos agrícolas cairão 20% em razão dos efeitos do aquecimento. “Nos próximos 50 anos será necessário produzir mais alimentos no planeta que os produzidos nos últimos 400 anos, com a restrição adicional de garantir que os limites planetários cruciais para o meio ambiente não sejam sobrepujados no processo”, resumia The Lancet.

Se não houver intervenção contra as mudanças climáticas nos aproximaríamos de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam reações violentas

Embora Torres considere que hoje os riscos mais preocupantes sejam decorrentes das mudanças climáticas e um conflito nuclear, acredita que há “uma série de perigos ainda mais sinistros no horizonte”, associados com tecnologias emergentes que poderiam permitir aos terroristas criar novos tipos de patógenos ou construir grandes arsenais de armas, inclusive os derivados de uma superinteligência artificial. Para 2050, este especialista fala do risco de uma pandemia, do aumento de conflitos pelas mudanças climáticas, da perda de biodiversidade mundial –“estamos nas primeiras etapas do sexto evento de extinção maciça em 3,8 bilhões de anos, e a causa é a atividade humana”. “Mas o risco existencial mais preocupante antes de 2050 envolve um ator maligno que usa biologia sintética ou nanotecnologia avançada para infligir dano global à humanidade”, afirma. E acrescenta: “É bastante inquietante imaginar pessoas como Ted Kaczynski [o Unabomber] ou algum combatente apocalíptico do Estado islâmico tendo acesso às tecnologias de amanhã”.

Os teóricos dos riscos existenciais da humanidade falam dos perigos que representam atores decisivos: desde o líder carismático de uma potência atômica a um terrorista global, passando por um erro humano que provoque um desastre inesperado. Sabendo que as decisões dos próximos 50 anos marcarão os próximos 10.000, há um ator que aparece como determinante; Donald Trump. “As políticas climáticas imprudentes de Trump, sua retórica incendiária sobre a Coreia do Norte e o terrorismo islâmicoestão contribuindo para uma situação de segurança global mais precária”, afirma Torres, diretor do Projeto para a Futura Prosperidade Humana. “Nunca estivemos em uma situação como esta. Agora mais que nunca necessitamos de sabedoria e visão de futuro. No entanto, temos Trump no Salão Oval, respaldado por um poderoso partido político que continua ignorando as terríveis advertências dos cientistas”, lamenta.

Fonte aqui

Anúncios

Mais reflexões sobre a Declaração de Guerra de Trump ao Irão e à Coreia do Norte

(Paul Craig Roberts, 19/09/2017, Tradução Estátua de Sal)

trump_tiro

O discurso de Trump na ONU deixou claro que a agenda que prometeu na sua campanha eleitoral – retirar Washington do papel do “policial do mundo”, sair do Médio Oriente e reparar as relações danificadas com a Rússia -, acabou. A CIA e o complexo militar/securitário tem o controlo total do governo dos EUA. Trump aceitou ser um cativo na presidência, tendo-lhe sido atribuído o papel de executor da hegemonia de Washington sobre todos os outros países. Washington uber alles é a única política externa que Washington persegue.

Na ONU, Trump realmente ameaçou eliminar a Coreia do Norte da face da terra. Alargou as suas ameaças contra a Venezuela e o Irão (ver aqui) os “estados desonestos”, mas é Washington que está desempenhando esse papel. Washington destruiu ao todo ou em parte oito países no jovem século 21 e tem mais 3 a 5 na mira.

Uma pergunta surge: porquê o auditório da ONU não gritou abaixo Trump, um homem de pé diante deles contando mentiras óbvias? A resposta, claro, é o dinheiro. Os contribuintes dos EUA pagam cerca de um quarto do orçamento anual da ONU, deixando os outros 130 países com uma carga mais leve. Washington está a conseguir levar o mundo para o Armagedão, porque os líderes mundiais preferem o dinheiro à verdade, à justiça, e à sobrevivência. Os diplomatas da ONU veem na sua cooperação com Washington a oportunidade de ganhar dinheiro partilhando a exploração que Ocidente exerce sobre os seus próprios países.

Washington, absorvida pelo seu esforço de destruir a Síria, deixou que o seu fantoche da Arábia Saudita destruísse o Iémen. A autocracia saudita, principal patrocinadora do terrorismo ao lado dos EUA, fez lá um bom trabalho, graças aos EUA que lhe fornecem as armas e lhe reabastecem os aviões de ataque. Esta guerra totalmente gratuita ajudou a maximizar os lucros do complexo militar/securitário norte-americano, uma colecção de personagens demoníacos nunca antes vistos à face da Terra. A UNICEF informa que um milhão de crianças iemenitas serão vítimas da “compaixão americana”, da qual Trump se gabou no seu discurso made in CIA na ONU.

Pergunta-se se os dirigentes russos e chineses estarão tão absorvidos em enriquecer, para chegarem ao nível dos “um por cento americanos, que não saibam que estão na lista dos países a ser eliminados por não aceitarem a hegemonia de Washington. Realmente, onde estava o governo russo quando Washington derrubou o governo ucraniano? Estava concentrado num evento desportivo. Os americanos são por norma indiferentes e distraídos. Mas onde estava o governo russo? Como poderia não saber?

Para ser franco. O ponto é este. A menos que a Rússia e a China possam levar os EUA ao tapete, os EUA levarão a Rússia e a China ao tapete. A única pergunta é quem ataca primeiro. A única maneira de evitar isso é que a Rússia e a China se rendam e aceitem a hegemonia de Washington. Este é o caminho firme, e do qual não se querem desviar, que os neoconservadores, a CIA e o complexo militar/securitário estabeleceram para os Estados Unidos. O verdadeiro objetivo dos ataques à Coreia do Norte é colocar mísseis nucleares americanos na fronteira com a China. O verdadeiro objetivo dos ataques ao Irão é colocar mísseis nucleares americanos na fronteira com a Rússia.

Tanto quanto eu posso constatar, quase ninguém está ciente de que o Armagedão está ao virar da esquina. Não há protesto dos presstitutos ocidentais, uma cambada de putas. Nos Estados Unidos, os únicos protestos são contra as antigas estátuas da “guerra civil”, que a gente ignorante diz serem símbolos da escravidão negra. Não há movimentos pela paz nem marchas pela paz. Em Londres, as feministas transsexuais e as feministas radicais estão a digladiar-se, e envolvem-se em lutas no Hyde Park (ver aqui). Ninguém parece ter qualquer consciência dos perigos da situação.

Nos sites de propaganda on-line dos EUA, como no dos Americanos para o Governo Limitado, financiados por quem? servindo a quem? – aprova-se o discurso desestabilizador de Trump na ONU, declarando-o como uma não ameaça à paz mundial:

“O presidente Trump fez uma defesa convincente e inspiradora da América e do sistema constitucional americano de governação para o mundo, não como uma imposição, mas como um exemplo a seguir, ao mesmo tempo que respeita a soberania de outras nações. No entanto, o Presidente também deixou claro para as nações que ameaçam a humanidade com a destruição nuclear (o que Washington está fazer relativamente à Coreia do Norte e ao Irão) que os Estados Unidos não serão refém, e que se continuarem o seu percurso atual, tal irá conduzir à sua aniquilação. Enquanto muitos darão enfâse à ameaça de Trump à Coreia e ao Irão, o foco real de seu discurso é um apelo a todas as nações para abraçarem a sua própria soberania sem ameaçarem a paz mundial “.

Nunca na minha longa vida li uma tão falsa análise de um discurso. Os Estados Unidos tornaram-se o Estado da propaganda. Nenhuma verdade jamais emerge.

Só o governo dos EUA, que não é um governo do povo, é que ameaçou outro país com a destruição total, como Trump fez com a Coreia do Norte no seu discurso made in CIA na ONU. Este é primeiro. Está ao nível de Adolf Hitler. Os EUA tornaram-se o 4º Reich. É duvidoso que o mundo sobreviva à política externa dos Estados Unidos da América.


Fonte aqui

A perigosa competição sino-americana pela hegemonia na Ásia-Pacífico

(José Pedro Teixeira Fernandes, in Púbico, 05/09/2017)

 

trump_kim

A China espera um passo errado de Donald Trump na crise coreana para tirar vantagem. Um erro de cálculo poderá ser o princípio do fim da hegemonia dos EUA na Ásia-Pacífico. E trágico para o mundo.


1. Só é possível perceber a crise da Coreia do Norte no quadro mais vasto da política mundial, marcado pela competição entre a China e os EUA, e da natureza complexa das alianças. Há uma tendência de olhar para esta crise perdendo de vista o quadro da política mundial e esquecendo o que dá consistência às alianças militares: a permanência de interesses estratégicos no longo prazo. Sobrevalorizar o que são conflitos pontuais, ou desentendimentos conjunturais, entre aliados — neste caso, a China e a Coreia do Norte —, não ajuda a perceber a dimensão do problema. Subestimar a especificidade e sofisticação da cultura estratégica chinesa também não. É uma cultura estratégica não obcecada pelo sucesso de curto prazo, como os ocidentais. Contém objectivos nacionais de longo prazo, prosseguidos com determinação e habilidade, por múltiplos meios. No caso da aliança entre a China e a Coreia do Norte, é inadequado vê-la como obsoleta e apenas uma fonte de problemas para o governo chinês. É uma visão superficial do problema: focaliza nos riscos e negligência as oportunidades estratégicas. Uma comparação com outras alianças pode ser um bom ponto de partida para compreender a relação complexa entre a China e a Coreia do Norte. Olhando, por exemplo, para as alianças dos EUA com Israel, ou, talvez melhor, dos EUA com a Arábia Saudita, podemos ver o que está em causa.

3. Importa compreender a China. Não é União Soviética, que já faz parte da história. Os protestos na praça de Tiananmen, em Pequim, em 1989, foram esmagados. A China não se rendeu à democracia liberal, nem se desagregou com o final da Guerra-Fria. Pelo contrário, tornou-se o grande vencedor da actual globalização, com a sua própria forma de capitalismo autoritário. A Coreia também não é a Alemanha dividida da Guerra-Fria, reunificada em 1990 e integrada na NATO. Não está destinada a ser reunificada sob a esfera de influência dos EUA, tal como aconteceu com a antiga República Democrática Alemã. Isso só foi possível dada a enorme quebra de poder da União Soviética, que acabou por levar à sua desagregação. A China conseguiu evitar uma reunificação da Coreia, quando os EUA estavam no pico do seu poder, durante os anos 1990. Certamente que agora também não deixará de o fazer, se isso implicar esta ficar sob influência norte-americana. Mais: o objectivo último da China é afastar a presença militar e influência política dos EUA da Península da Coreia e na Ásia-Pacífico. É um objectivo estratégico permanente, prosseguido com paciência, determinação e sentido de oportunidade e do qual a China não abdicará nunca.

4. Olhemos agora a questão do ponto de vista da Coreia do Norte. Na sua óptica de manutenção no poder, Kim Jong-un tem todas as razões para não querer abdicar do armamento nuclear. Os exemplos do Iraque e da Líbia são amostras óbvias do que lhe poderia suceder. A confiança que lhe merecem os EUA e Ocidente é nula. O Iraque de Saddam Hussein, que foi acusado de estar a preparar armas nucleares, mas não as tinha, foi invadido em 2003 pelos EUA, com Saddam Hussein detido e posteriormente executado. Quanto à Líbia, Muammar Kadhafi, depois de ter negociado o término do seu problema nuclear com o Ocidente, viu, em 2011, uma coligação entre os EUA, Reino Unido e França, actuar como força aérea dos rebeldes, pondo fim ao seu regime e levando à sua própria morte. Esta total falta de confiança leva a que uma hipotética negociação bilateral sobre o seu programa nuclear esteja destinada ao fracasso. Para os EUA, esse seria o único objectivo aceitável para entrar em negociações. Mas esse é totalmente inaceitável para a Coreia do Norte. Kim Jong-un procura mostrar a credibilidade da sua dissuasão nuclear e obter um reconhecimento internacional do seu status como potência nuclear. Pelo menos, de algo parecido com outras potências nucleares “não oficiais” — Paquistão, Índia e Israel.

5. Para a China, a crise provocada pelo programa nuclear e balístico da Coreia do Norte oferece o potencial de uma “guerra por procuração”. Claro que tem riscos para esta, como todas as estratégias desse tipo. Basta recordar o que aconteceu aos EUA, que fizeram guerra por procuração contra a União Soviética no Afeganistão, durante os anos 1980, através dos talibãs, via Paquistão e Arábia Saudita. Mais tarde sofreram os efeitos da estratégia que alimentaram contra a União Soviética, em si próprios. Mas, na altura, a perspectiva de abalar o poder soviético, o objectivo fundamental da sua estratégia na Guerra-Fria, prevaleceu. No caso da China, a perspectiva de ganhos — e o ganho supremo é afastar os EUA da Península da Coreia e da Ásia-Pacífico — justifica não deixar cair a Coreia do Norte. Mais: leva a ultrapassar os problemas que, por vezes, também coloca aos próprios chineses, com o objectivo de tirar proveito do desgaste que provoca aos EUA e seus aliados. Tem sido apontado que seria mau para a China uma nova guerra na Coreia, entre outras coisas, pela massa de refugiados que fugiriam para o seu território. Claro que seria mau. No entanto, também aqui temos de aferir o problema à escala da China. Vinte e cinco milhões, a totalidade da população da Coreia do Norte, seria muito, noutras partes do mundo. No caso chinês, com quase 1,4 mil milhões de habitantes, e um território comparável ao dos EUA, não é um número particularmente significativo. Além do mais, o exército chinês, o maior do mundo, com mais de 2,2 milhões de efectivos, teria capacidade e meios para gerir uma crise na fronteira.

6. Como resolver este impasse? Há, fundamentalmente, três cenários possíveis. O primeiro é deixar continuar a situação, intensificando as sanções económicas e reforçando o dispositivo de segurança, no pressuposto de que a Coreia do Norte não tomará a iniciativa de um ataque militar nuclear, pela represália devastadora que sofreria dos EUA. Mas este é um cenário de continuidade do impasse e de insegurança. Nada indica que leve à queda de Kim Jong-un. Levanta ainda um problema para Donald Trump. Ao entrar no jogo de bluffs e ameaças de Kim Jong-un colocou a sua credibilidade — e a do poder dos EUA — em jogo. Este primeiro cenário poderia ser visto como alguma naturalidade com Barack Obama, ou Hillary Clinton. Donald Trump, com a sua retórica de acusações à fraqueza de Obama e Clinton — e respostas belicosas às ameaças de Kim Jong-un, ameaçando-o com “fogo e fúria como o mundo nunca viu” —, colocou-se numa posição de ter de actuar. Mas como? Ficam, assim, dois possíveis cenários de ruptura. Um é pela via de um ataque armado dos EUA e seus aliados, respondendo a uma qualquer provocação futura da Coreia do Norte, tentando eliminar a sua capacidade nuclear. Para além da sua eficácia ser muito duvidosa, arrisca-se a provocar uma guerra de consequências totais imprevisíveis, mas certamente devastadora. Na pior hipótese, a Península da Coreia seria o que os Balcãs foram para a Europa e o mundo em 1914 — o rastilho de uma confrontação militar generalizada que ninguém queria, mas que acabaria por atingir proporções apocalípticas. Resta um terceiro cenário de ruptura do impasse, através de uma abrangente negociação de paz. Vejamos como poderia funcionar.

7. O cenário seria o de uma negociação diplomática, para além de uma mera negociação bilateral entre os EUA e Coreia do Norte, ou trilateral, entre os EUA, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Poderia trazer uma paz negociada para a crise da Coreia do Norte. Provavelmente sim. Mas, para além das duas Coreias e dos EUA, teria de envolver e China e também outros interessados influentes, como a Rússia, talvez ainda também o Japão. Exceptuado o já referido cenário de guerra, de consequências imprevisíveis, só a China poderá ter, em quaisquer negociações diplomáticas abrangentes, o papel de desbloqueador do actual impasse. Mas, na óptica da China, só com a satisfação do seu interesse nacional se justificará pressionar, até à exaustão, o regime da Coreia do Norte para um acordo, tomando, se necessário, medidas que de outra forma nunca tomará. Essas, sem dúvida, asfixiariam o regime norte-coreano, como fechar a fronteira, bloquear o fluxo de remessas dos trabalhadores, ou cortar o fornecimento de petróleo. Mas essa paz teria um preço para os EUA. A China iria exigir a total retirada militar dos EUA da Coreia do Sul, em troca de uma pressão decisiva para a desnuclearização da Coreia do Norte. Seria um duro golpe no “Make America Great Again” de Donald Trump, e, pior ainda, na influência norte-americana na Ásia-Pacífico. Colocaria em causa a confiança dos seus aliados quanto ao empenhamento na sua defesa. Ficava a pairar no ar que, sentido os EUA o seu território directamente ameaçado pelo poder nuclear da Coreia do Norte, os abandonavam à China em troco da sua própria segurança.

8. Para parte da opinião pública internacional, Donald Trump parece hoje quase tão perigoso para a paz e segurança como Kim Jong-un da Coreia do Norte. Instalando-se esta percepção, Xi-Jinping e a China já estão a ganhar no objectivo de afastar os EUA da liderança global. O jogo de bluffs e ameaças de Kim Jong-un, replicado por Donald Trump, colocou a sua credibilidade e o poder dos EUA em causa, enquanto garantes de uma pax americana na Ásia-Pacífico. Pela sua retórica, necessita agora de agir, mas só tem más opções. Para além disso, a obsessão em rasgar acordos comerciais — já se retirou do TTP, a Parceria Transpacífico / Trans-Pacific Partnership e agora pretende retirar-se acordo de livre comércio com o seu aliado, a Coreia do Sul (KORUS FTA na sigla inglesa) — criou um desnecessário mal-estar adicional. Logo na pior altura, quando ambos deviam enfrentar, de forma coesa, a grave crise da Coreia do Norte. Também não ajudam as críticas públicas que fez a Moon Jae-in, o Presidente da Coreia do Sul — que é filho de refugiados norte-coreanos da guerra dos anos 1950, e sabe o que são os horrores da guerra — acusando-o de uma resposta demasiado apaziguadora ao teste nuclear da Coreia do Norte. A situação contém grandes riscos para todos os envolvidos, mas a China espera um passo errado de Donald Trump para tirar vantagem. A esperança chinesa tem fundamento e sentido estratégico. Um erro de cálculo poderá ser o princípio do fim da hegemonia dos EUA na Ásia-Pacífico. E trágico para o mundo.