Líbano: no coração da resistência

(Bruno Amaral de Carvalho, in TSF, 06/05/2026, Revisão da Estátua)


É uma viagem a um dos bastiões do Hezbollah, no sul do Líbano, onde a resistência não dá tréguas às forças israelitas, com a imprensa de Telavive a questionar cada vez mais a capacidade militar para aguentar a invasão num cessar-fogo inexistente.


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Welcome to paradise, diz um anúncio publicitário perto do Mediterrâneo. Ao longo de vários quilómetros, jazem beach clubs e resorts fantasma corroídos pelo salitre e pelo abandono. O mar ruge ali bem perto debaixo de uma forte tempestade. Quando passamos o primeiro posto de controlo do exército libanês, sabemos que estamos a viajar em direção ao sul. Ali ao lado, abastecemos num posto de abastecimento de combustível com um retrato enorme de Hassan Nasrallah. O rosto do histórico líder do Hezbollah está presente em cada uma das centenas de bandeiras amarelas que ladeiam durante quilómetros a autoestrada que nos leva a Sídon.

Há menos de um mês, pressionado pelos Estados Unidos, Israel foi obrigado a aceitar um cessar-fogo que teima em violar sem grande pudor. Telavive impôs uma zona tampão, sobretudo a sul do rio Litani, numa faixa de território onde se encontram mais de 50 vilas e aldeias libanesas com uma ordem de evacuação obrigatória e arrasou, até ao momento, duas dezenas de localidades repetindo a estratégia usada na Faixa de Gaza.

A chuva cai a cântaros e poderia dizer-se que é um mau dia até para a guerra. Mas não. Para a resistência libanesa, a nebulosidade e o vento são uma vantagem tanto para atacar as posições israelitas como para evitar a vigilância dos drones e conseguir substituir combatentes na linha da frente. A resistência libanesa tem dado muitas dores de cabeça, dizem vários meios de comunicação social de Israel. Por exemplo, o Yedioth Ahronoth garante que os soldados israelitas são pouco visíveis porque se refugiam em bunkers para evitarem os drones do Hezbollah. Já o libanês L”Orient Today garante que a resistência libanesa conseguiu adaptar-se às novas circunstâncias, recorrendo a drones produzidos no seu próprio território, guiados por cabos de fibra ótica para evitar a interferência eletrónica dos seus inimigos. A imprensa israelita e vários observadores, assim como especialistas militares, têm criticado a falta de preparação do exército para fazer frente a esta ameaça.

Israel destruiu centro comunitário e cemitério

A caminho da região de Nabatiye, onde os combates entre o Hezbollah e as forças israelitas se têm agudizado nos últimos dias, é possível ver vários blocos de prédios inteiramente destruídos ainda em Sídon. Já fora da autoestrada, o carro serpenteia entre vales e a destruição vai aumentando a olhos vistos. A presença de habitantes é cada vez menor. O ouvido vai habituando-se ao ruído ainda longínquo das explosões. Perante o olhar curioso dos clientes de um pequeno café local, chegou o momento de vestir o colete à prova de bala e o capacete. Tanto a viatura como o equipamento de proteção levam a inscrição “PRESS”. À pergunta sobre o que fazer em caso de ataque, o condutor responde laconicamente “nada”. Como assim, nada? “Se formos atacados, não há nada a fazer. É aceitar e pronto”, acrescenta. Nos últimos dois meses, Israel matou uma dezena de jornalistas e mais de cem profissionais de saúde, o que levou o próprio governo libanês a lembrar o artigo 19 da Convenção de Genebra sobre a necessidade de proteger instalações médicas e viaturas de emergência de qualquer ataque militar.

A partir daqui, a viagem faz-se a grande velocidade, sem praticamente vivalma. De vez em quando, alguém espreita de uma janela. Apesar da destruição generalizada, há quem tenha decidido ficar. A vida resiste, apesar das evidências. De vez em quando, ouvimos aquilo que parece ser a artilharia do Hezbollah. De aldeia em aldeia, vemos cartazes, faixas e bandeiras da organização xiita. Até que chegamos ao nosso destino: Doueir. Estamos a pouco mais de seis quilómetros de Nabatiye e a 18 da fronteira libanesa. A pouca distância, ouvimos a aviação israelita nos céus e rajadas de metralhadora em terra. Há carcaças de automóveis transformadas em pedaços. Ali perto, uma família de refugiados sírios foi morta pelas forças israelitas. O centro comunitário de Doueir está completamente destruído, o cemitério foi arrasado. Nem os mortos parecem poder descansar em paz no Líbano.

A propaganda da moralidade

(Tiago Franco, in Facebook, 05/05/2026, Revisão da Estátua)


Não gosto de dias seguidos bons e, portanto, salto da alegria de um dia bom para a entrada numa oficina na madrugada seguinte.

A propósito, muitíssimo obrigado pela vossa simpatia nas mensagens que me enviaram. Como se costuma dizer, aqueceram o coração de um pré-velho.

Tudo me irrita em oficinas da marca. Tudo. Mas quando vejo uma máquina de check-in e pequeno-almoço “grátis”, começo logo a fazer contas ao estrago que me vão infligir. É a fatura de fazer por estrada o que devia fazer pelo ar. Vou acabar de discutir com a senhora da receção (sim, há receção) o preço do “update do software“, como se ela pudesse mudar alguma coisa, sacar mais uma sandocha e a irritação logo passará, mais perto do almoço.

Li por aqui umas declarações, do Montenegro, dizendo que estaria na altura de se trocar dois dedos de conversa com a Rússia do Vladimir. Aparentemente esta opinião gerou desconforto nos parceiros europeus. Ora, eu ainda sou do tempo em que pedir conversa, em vez de mais dinheiro para a guerra, era ser putinista.

Era também o tempo em que mais uma bateria de “Patriots” seria o “Game changer” (Isidro, táz aonde?) e o décimo sétimo pacote de sanções ia colapsar a economia russa. Que estava a 6 meses de rebentar. Em 2023, 2024, 2025 e agora é que é mesmo a sério.

Entretanto passámos por uma escalada nos juros que nos foram rebentando a vida e, como explica ali aquele gráfico, não mais voltámos ao ponto de partida. A energia, que a Europa não tem, passou a custar mais, mesmo quando vinha da Rússia via outro entreposto qualquer.

Montenegro foi pragmático e chegou a uma conclusão brilhante. Não dá para dobrar os russos e já chega de empobrecer a população com esta merda. De modo que é preciso fazer qualquer coisa diferente. Outros líderes europeus já assumiram que a Ucrânia vai ter que ceder território.

E aqui, repito o que já escrevo desde 2023… não se trata de justiça mas sim de encontrar a melhor entre várias soluções más. Da mesma maneira que ninguém se atreve a atacar os americanos pelo caos em que estão a colocar a economia mundial, não haverá quem tenha coragem de enfrentar, no campo de batalha, os russos.

É esse o efeito dos Impérios sobre os países mais fracos. Lá está…é uma merda mas, a não ser que tenham filhos para mandar para lá, não há grande moral em estar no sofá, a pagar e a aliviar a consciência, enquanto os filhos dos outros morrem.

Ao contrário do que o PSD de Montenegro disse, quando o PCP defendeu esta mesma solução, há quatro anos atrás, eu não acredito que o Luís seja putinista (embora faça alianças com os amigos do Putin em Portugal). Acho é que, provavelmente, já alguém lhe explicou que a UE precisa de energia que vem de fora, que Portugal é afetado por qualquer constipação da UE e que ele, com um governo que vive essencialmente de propaganda, cedo ou tarde vai no arrasto do aumento do custo de vida que tanto a invasão russa, como agora a americana no Irão, vão provocando.

Há duas coisas a reter aqui.

A primeira é que, para a elite dirigente, não se diferencia o bem do mal nas invasões. Não há moral ou justiça. Há interesses, negócios e narrativas variantes consoante a necessidade de cada momento. Não há vergonha. Há dinheiro.

A segunda é a constatação da regularidade com que o PCP apresenta, mais cedo, as soluções onde todos acabam por chegar. E isso não acontece por acaso. Acontece porque, por lá, passa-se mais tempo a ler livros de história do que a absorver segundos do TikTok.

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Agora já é tarde demais para voltar atrás

(Por Will Schryver in Twitter/X, 04/05/2026, Trad. da Estátua)


Eles, os EUA, vão gastar tudo numa última tentativa de reverter a situação.


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Creio que há uma fação a consolidar-se em Washington que está a pressionar para sair desta guerra sem mais delongas.

Militarmente, é uma causa perdida. Sim, compreendo que muitas pessoas pensem que sou louco por dizer isto, mas esta realidade está a tornar-se mais evidente para mais pessoas, dia após dia.

Mesmo assim, estou inclinado a concluir que o Império já se envolveu demasiado nesta manobra para voltar atrás agora. Negociar um acordo a partir da sua posição atual é impensável. O Irão está a ditar as regras.

O bloqueio dos EUA tem sido uma farsa até agora. Intercetaram alguns navios para inglês ver. Muitos outros seguiram o seu caminho tranquilamente.

O facto é que a Marinha dos EUA não pode executar um bloqueio taticamente significativo. Têm, no máximo, 17 contratorpedeiros da classe Arleigh Burke no Mar Arábico. Certamente sentir-se-ão compelidos a manter pelo menos uma dúzia deles para fornecer proteção aos dois porta-aviões. Restam cinco contratorpedeiros para impor um bloqueio que abrange mais de 4.800 quilómetros de águas predominantemente soberanas (Paquistão e Índia), desde a costa iraniana do Golfo de Omã até ao Estreito de Malaca. Boa sorte com isso — sobretudo se os chineses decidirem começar a escoltar frotas com navios de guerra.

E assim, voltamos ao dilema do Império: mesmo que saibam que não podem sustentar mais do que, talvez, mais duas semanas de ataques aéreos de alta intensidade, quase de certeza que utilizarão essa carta na esperança de melhorar a sua posição negocial.

É claro que muitas pessoas veem as manchetes sobre “três grupos de ataque de porta-aviões” prontos para semear a morte e a destruição sobre os presunçosos iranianos e, compreensivelmente, presumem que é verdade.

Não compreendem que o USS Poopy Gerry (CVN-78) é um navio que precisa urgentemente de dois anos em doca seca; Um navio que está escondido nas regiões mais a norte do Mar Vermelho, com três contratorpedeiros destacados para o proteger até que possa regressar sorrateiramente pelo Canal do Suez a meio da noite e regressar a Norfolk.

Não compreendem que a Marinha dos EUA já tem tido dificuldades em manter o USS Fraidy Abe (CVN-72) enquanto este faz manobras em forma de oito nas águas seguras e profundas do Mar Arábico — sem bases para descansar, recuperar mantimentos e reabastecer. Nada além das despensas, frigoríficos e congeladores cada vez mais escassos de um navio que precisa de alimentar 5.000 pessoas com três refeições por dia.

E agora, uma marinha que já lutava para manter um único grupo de ataque no Mar Arábico terá de manter DOIS deles. O USS Bush League (CVN-77) chegou à sua posição, presumivelmente a não menos de 800 km da costa iraniana.

Esta é uma frota cuja capacidade de combate tem uma vida útil extremamente curta. A componente de ataque aéreo na região não foi reforçada de forma significativa durante este recente “cessar-fogo”. Na verdade, foi consideravelmente enfraquecida desde o seu auge, no final de Fevereiro.

Mas um fluxo constante de C-17 tem entregado diversos tipos de mantimentos ao teatro de operações, presumivelmente mais sistemas de defesa aérea, intercetores, mísseis de cruzeiro e bombas.

A componente terrestre permanece totalmente insuficiente para fazer qualquer coisa de significativo. Uma única Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais no USS Tripoli, uma Brigada de Combate da 82ª Divisão Aerotransportada e várias unidades de forças especiais. Talvez totalize 5.000 combatentes efetivos, mas duvido.

Além disso, não acredito que conseguissem introduzir sequer 3.000 combatentes efetivos sem que acontecesse algum tipo de desastre.

Peço desculpa pela minha certeza neste ponto, mas, na minha opinião, qualquer pessoa que acredite que os EUA podem introduzir uma força terrestre no Irão — seja ela de 1.000, 10.000 ou 100.000 soldados — está completamente louca. Simplesmente não será possível.

Isto deixa-os com uma tentativa de repetir as primeiras semanas desta guerra: ataques aéreos e navais com mísseis à distância. Vão gastá-los todos numa última tentativa de reverter o rumo da situação.

Mas não vão desarmar o Irão. E o Irão, então, contra-atacará com salvas de mísseis sem precedentes, dos seus consideráveis ​​stocks.

E a situação do Império irá de mal a pior, com consequências ainda imprevisíveis.

Fonte aqui