O “caso Mortágua” e o estado da Universidade e do Parlamento

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 24/02/2026, Revisão da Estátua)


É conhecida a metáfora do sábio que aponta para o céu e o ignorante olha para o dedo. Perante o ataque a Mortágua, uma onda de solidariedade da área política de Geringonça veio defendê-la dizendo o óbvio – o seu mérito científico é comprovado. Estou totalmente de acordo.

O que não posso concordar é que, perante este ataque, dirigentes políticos respondam apontando os méritos de Mortágua, indiscutíveis. Mas ignorem o céu, neste caso o inferno, que é a degradação, quer do sistema Universitário, quer da esquerda na sua relação com o Parlamento. Por cada Mortágua que acede aos concursos 70% fica para trás, no mínimo, com o mesmo currículo. E sim, o Parlamento é uma porta giratória de acesso a lugares escassos, por ausência de um sistema público científico nacional, que acaba por ter como função exportar quadros, precários, e distribuir cá lugares de gestão entre a esquerda e a direita, abraçadas no projecto neoliberal.

Sou professora, como é público, na FCSH/UNL de educação e história e delegada sindical do ensino superior, historiadora marxista, docente concursada com um projecto teórico-metodológico marxista e cidadã socialista. Não há qualquer neutralidade na minha vida. A minha teoria, docência, tempo sindical ou militância são uma só na mesma pessoa; procuro fazer tudo com o mesmo com rigor, objectividade e verdade, não isenta de erros, porque pensar e trabalhar é errar. O que aqui escrevo não é sobre uma Universidade em particular, nem sobre um caso, o de Mariana M., e só a mim me responsabilizam estas palavras; trata-se de opinião, livre, não há outra na Universidade. Sem liberdade não há pensamento.

A Universidade está a passar pela sua maior crise, há quem diga que a Universidade de Humboldt morreu – o projecto neoliberal, hoje aplicado por gestores de esquerda e de direita, é isolar os catedráticos, que se vão reformando, e substitui-los pelo poder dos professores-gestores, uns tiranetes que fazem a Universidade medieval parecer um paraíso.

E que recrutam os FCT tenures, bolseiros, e convidados, que fazem o trabalho docente, sem liberdade de cátedra, obedecendo às agências de financiamento determinadas pelo Estado e pela UE, sem autonomia. Temos assim parcerias! com a NATO, a SONAE, as farmacêuticas, fundações privadas como a Francisco Manuel dos Santos, do Pingo Doce. Há anos estive num projecto sobre os trabalhadores onde um director de uma das Universidades mandou retirar o seu logo porque não tinha sido ouvida a direcção da empresa dos referidos trabalhadores! Sequer ele compreendeu quando um colega lhe respondeu que ter directores de empresa num projecto nos impedia de fazer ciência…Fizemos o projecto, gratuitamente, no Observatório para as Condições de Vida.

A docência com liberdade de cátedra/carreira (as duas são indissociáveis) devia ser o mais nobre da Universidade, feita com investigação e divulgação, e os cargos de gestão nunca deviam contar para a carreira (a gestão devia ser democrática e feita por todos). O que há agora é degradação do acto docente, da aula, que aliás pouco ou nada conta na avaliação face à métrica dos artigos, para a alimentar a IA.

E carreiras, por este andar, só vai haver para os que acumulam cargos de gestão. E para algumas dezenas dos milhares de lambe botas que assistem a tudo isto em silêncio à espera de uma “progressão interna” – progressões inventadas pela Nova Gestão Pública para garantir a paz social. É a cumplicidade e servidão de que falava La Boétie e Primo Levi. Por isso é possível hoje trabalhos em IA serem avaliados com ajuda de IA…Um teatro brechtiano.

E não se enganem. Não é só dinheiro, é poder. Algumas destas pessoas ganham já 2800 ou 3500 euros líquidos, estão sentados a ouvir directores e reitores, e ficam em silêncio…

E o Parlamento? Oh meu Deus! É uma porta giratória entre cargos não só nas empresas mas no aparelho de Estado. A burguesia sempre governou com um corpo executivo de burocratas – políticos profissionais, traficantes de influências. A esquerda, contra isto, defendia, no século XIX, que não devia haver políticos profissionais pagos pelo Parlamento, porque iam passar a obedecer ao Estado, em vez de organizar as classes trabalhadoras e o mundo da cultura. Política é o que todos devemos fazer, em part time, e não deve haver um euro publico para remunerar partidos. Que são partes, representam interesses na sociedade e devem lutar pelas suas ideias, mas não com dinheiros públicos.

O que vemos, desde a vitória do nacionalismo há 120 anos, é que os políticos de esquerda também se tornaram profissionais. E que o seu acesso ao aparelho de Estado garante um capital simbólico, redes de contactos, que lhes dão emprego pela vida fora. Se os corruptos, em geral de direita, ganham milhões em empresas, os genuinamente incorruptíveis, em geral de esquerda, ficam com um emprego bem pago e uma boa reforma garantida. Algo que mais de 70% da população não tem.

Mortágua tem um emprego de professora porque o merece, mas há milhares que o merecem e não têm. Porque não debatemos este inferno?

O inferno é este. Não há um ataque neoliberal a Mortágua, porque esse ataque, neoliberal, já foi feito há muito e ele é hoje o dia a dia da Universidade. Os professores convidados e leitores estão sobrecarregados de aulas e piores horários, ali, ao nosso lado, sem emprego seguro; os cargos de gestão são o trampolim para subir a catedrático, ao mesmo tempo que se acusam os catedráticos de ser a peste. AUniversidade corporativa, com carreiras, é um paraíso ao pé desta, onde se trabalha para plataformas de dados e certificações como lembrou o catedrático marxista que se dedicou a estudar a Universidade neoliberal, Carlos Fernandez Liria ou o ex reitor e educador, também marxista, Roberto Leher.

Há muito que defendo quatro medidas e acções:

Que os concursos em Portugal deviam ser como no Brasil. Quem concorre tem que dar uma aula pública, escrever um exame que é afixado no corredor ao público, defender o seu currículo em público, preparar e defender de portas abertas uma disciplina. Como na agregação em Portugal, mas no Brasil é regra para todos os concursos. Ou como na França, um concurso nacional.

Que quem ocupa lugares de gestão e de poder não eleitos pelos pares em sufrágio universal não deve ser sindicalizado (façam um sindicato de gestores). Quem serve as agências de financiamento, o Estado, a colecta de dados, é patrão, não é colega. Quem impõe regras demenciais, como avaliação anónima de alunos ou o preenchimento de plataformas, medidas pedagógicas que colidem com a liberdade de cátedra, está a “cumprir ordens” de cima, não está a defender os “colegas”.

Que ser político é uma obrigação, cidadã. Não um emprego. Que ser socialista é lutar por organizar as pessoas, para a sua auto emancipação, não é pedir-lhes o voto e ficar a discursar no Parlamento, aprovando leis irrelevantes ou, quando relevantes, não cumpridas sequer.

Que deviamos fazer greve, por tempo indeterminado, nós os fixos pelos precários, e exigir contratos públicos para todos e carreiras com financiamento público. Como nas lutas de Cordoba de 1919. E nessa greve íamos todos os dias à Universidade fazer plenários, onde todos podemos falar e ser ouvidos, debater que carreiras queremos, que avaliação queremos, o que é Universidade.

Espero, ter ficado claro que não estou preocupada com os ataques dos neoliberais de esquerda e de direita à Universidade mas com aqueles que – à esquerda ou à direita – defendem por palavras a autonomia e o esclarecimento iluminista e crítico, mas são cúmplices, de facto, deste modelo devastador. Vamos fazer greve?

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Na Universidade, também parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo…

(André Carmo, In AbrilAbril, 17/02/2026)


…do que o fim do capitalismo. A já velha máxima de origem incerta parece fazer hoje especial sentido. E não pode deixar de causar perplexidade quando é também assim no lugar onde a noção de que tudo deve ser questionado até à raiz – a Universidade – devia ser inegociável.


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O exemplo máximo é o modo como se tem desenrolado a recepção dos mais recentes avanços na IA generativa que, por ignorância e comodidade analítica, irei circunscrever apenas e só aos chatbots e grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, o Gemini, o Claude, o Grok, outros que tais. Aqueles que permitem deixar de ler e escrever, como se estas atividades humanas não fossem elementos fundacionais da construção de sujeitos pensantes, críticos e lúcidos, num tempo em que quase todos são prisioneiros da «tirania da aceleração» e do produtivismo exacerbado.

Quando se trata de problematizar, questionar ou contestar o modo como estas tecnologias têm entrado na arquitetura das Universidades, e o verdadeiro alcance deste processo está ainda por compreender, parece haver uma suspensão do juízo crítico ou, na melhor das hipóteses, uma resignada aceitação dos termos do debate tal qual eles são definidos por quem tem maiores interesses na sua difusão por entre todos os interstícios da nossa existência coletiva: as grandes tecnológicas. Quem se deve estar agora a rir é Margaret Thatcher que nunca poderia imaginar que o «argumento» TINA (There is no alternative) viria a ser tão poderoso, mesmo junto de comunidades pagas para não deixar pedra sobre pedra quando se trata de interpelar o real tal qual ele se dá a conhecer.

Então agora a sustentabilidade ambiental, que não há muito tempo era um objetivo primordial da civilização humana, e que até fez de Greta Thunberg uma espécie de Ícaro que só caiu em desgraça quando passou a fazer da luta pela Palestina uma sua bandeira, agora é secundarizada porque se tem de perguntar ao chatbot quantos gramas de farinha leva um panado?

Então esquece-se agora o facto de que os 12 indomáveis patifes que se atropelam no topo da lista e possuem mais riqueza que os mais de 4 mil milhões de pessoas mais pobres, alguns deles destacados líderes das grandes tecnológicas, não passam da expressão absoluta de uma desigualdade obscena que a todos deve indignar e mobilizar?

Ou que quando o ideologicamente enviesado Grok, propriedade de Elon Musk – o sociopata tecnofascista mais rico do planeta –, serve de base para as respostas do ChatGPT isso não as torna nem credíveis nem neutras? Ou que quando se diz que o ChatGPT é como um martelo, uma calculadora ou qualquer outra ferramenta que será sempre aquilo que dela se fizer, se aceita a noção falaciosa de que a tecnologia paira acima e fora de uma realidade social profundamente marcada pela luta de classes? E que foi Warren Buffett quem alertou para o facto de ser a dele – a dos ultra-ricos – que está a ganhar?

Então agora aceita-se de ânimo leve que um elemento de soberania fundamental para qualquer Estado que se preze – o domínio digital – não passe de um serviço prestado por grandes conglomerados privados, mais ricos e poderosos que muitos países? (Até a desnorteada União Europeia parece preocupar-se com a negligente alienação da capacidade de intervenção em sectores estratégicos vitais). Ou que a exigência de transparência e condições para que o povo possa exercer escrutínio democrático sobre os mecanismos algorítmicos é condição sine qua non para que se possa dizer que ainda existem regimes democráticos?

Então agora aceita-se que poderosos interesses económicos entrem de rompante nas salas de aula, colonizando cérebros, mentes e corpos de todos os seres que as habitam? Será que as Big Tech têm interesse na qualidade do ensino e das aprendizagens, inclusive daqueles que podem produzir cidadãos críticos e esclarecidos capazes de pôr em causa a legitimidade da sua existência e rejeitarem a redução da sua condição existencial à de meros consumidores ou carne para canhão no mercado de trabalho?

Então agora espera-se que, a reboque de uma chantagem social-darwinista, se tenha de aceitar que o uso de novas ferramentas digitais é o futuro e que com meia dúzia de horas de formação, seguramente preparadas com todo o empenho e boa intenção de colegas, é possível passar a ser especialista encartado?

E que quem contesta este modus operandi está necessariamente a desvalorizar a inovação pedagógica e o ensino (que, de resto, nas universidades, foi sempre o parente pobre do trabalho académico, atividade muito menos prestigiada que a investigação)?

Ou que a instalação de um clima de grande imodéstia e bazófia – tudo muito macho-tech-bro-style – liderado por tão magníficos quanto incautos reitores, impede que se possa reconhecer e admitir, com humildade intelectual, que se é ignorante e apenas se é levado no fluxo torrencial do dilúvio digital? E que isso não é um problema, antes o primeiro passo para a construção de conhecimento verdadeiramente significativo e transformador do real?

Então agora, quando se corre o risco de ver filhos e netos serem enviados para uma guerra que é socialmente fabricada pelos crapulosos poderes que tudo desgovernam, aceita-se que, sem mais, existam 5% do PIB que passam a ser desviados de funções sociais como a educação e a saúde para a defesa? E que a extinta FCT desvie uma parte do seu já parco financiamento-lotaria para esta área? E que se diga sempre que não há dinheiro quando ele parece sempre aparecer quando há vontade política?

E que fazer questões, mais do que cuspir papers e patentes ou angariar financiamento competitivo, é o motivo pelo qual existem Universidades? E que estas só perduraram porque mesmo habitando um tempo que, naturalmente, sempre foi o seu, nunca deixaram de se atrever a pensar o impensado e a contestar aquilo que, a cada momento, era dado como natural, inevitável ou demasiado poderoso para ser travado? E que ceder ao argumento das inevitabilidades é a maior demonstração de empobrecimento e indigência intelectual que pode haver, uma enorme traição à liberdade académica? E que é isso que converte as Universidades em fábricas de encher chouriços onde a adopção do inglês como língua franca é vista como marcador de distinção e cosmopolitismo?

E que apesar de mais de um século de impressionantes desenvolvimentos tecnológicos – da descodificação do genoma humano, ao pisar da lua, da impressão 3D ao computador portátil, da world wide web ao GPS, da pílula contraceptiva aos motores a jacto, dos telefones sem fios às camisolas térmicas, etc. – continuam a existir jornadas de trabalho de oito ou mais horas diárias, com ritmos de trabalho que são indissociáveis da doença mental e física que se vai generalizando? E que de cada vez que alguém declara, com fé inabalável, que os avanços tecnológicos vão substituir todo o trabalho rotineiro, burocrático e mecânico subjacente ao exercício das funções académicas, só se pode esboçar um sorriso irónico porque, na realidade, se tem caminhado no sentido inverso, isto é, no da esgotante saturação do dia-a-dia com tarefas de micro-gestão permanente? E que isto se encontra intimamente ligado ao desinvestimento público que vai erodindo as Universidades até ao osso, tornando-as esquálidas manifestações do que já foram e do que podem voltar a ser?

E que nem sequer é preciso estar atento aos vários estudos que demonstram que a formação bruta de capital fixo é há décadas inferior às amortizações, fazendo do desinvestimento público a regra de ouro do funcionamento do sistema, para ter consciência de que, um dia, ao chegar aos locais de trabalho, os académicos vão ter o balde com a esfregona à porta, porque se passará a assumir que essa função, por se tratar de um custo desnecessário para as instituições, deve por eles ser assumida?

Por tudo isto, não será demais lembrar que o cepticismo e a dúvida são o alfa e o ómega do pensamento, não a credulidade, o consentimento ou o deslumbramento acrítico e que disso não se devia esquecer a Universidade se quer ter algum futuro enquanto tal. Caso contrário, e até porque parece ser mais fácil, pode já começar a construir o melhor itinerário para o fim do mundo.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

Mal Cheiro no Reino

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 18/12/2025, Revisão da Estátua)


Não me surpreende o Ministro da ADEGA (AD-Chega) – o acrónimo é do Tiago Franco – dizer que as residências universitárias devem entrar no mercado livre e quem pagar mais fica com o quarto. Faz parte do bebedeira de lucros cuja gestão está neste Governo agora. Mas há duas coisas mais interessantes.

A primeira é a ideia de que os ricos cheiram bem. Nascida eu em Cascais, e residindo sempre na Linha, de vez em quando passaram pela minha existência os ricos. Poucas vezes, porque os meus pais de esquerda, os meus avós do campo, e a escola pública pós 25 de Abril – que me deixou fazer amigos em que no mesmo dia, sem exageros, eu ia brincar na casa do bairro de barracas da AP e à tarde na piscina da C. – me livraram do ambiente estranho dos ricos da Linha, que passei a achar brutalmente aborrecido. Reconheço-os em segundos – quando alguém começa uma frase a dizer de que linhagem vem, quem conheceu, é amiga de tal, digo logo que tenho que ir à casa de banho. Onde não há trabalho real não há cultura e eu acho fascinante um padeiro, um médico, um operário, e morro de tédio ao lado de alguém que gere trabalho ou investimentos. Ou espera, fazendo compotas e compras, a herança dos pais, que Deus os leve o mais cedo possível para começar a divisão de bens.

Mesmo assim, ainda assisti a alguns filhos de ricos, a pilharem a casa dos pais, roubarem cartões de crédito, e, no único ano em que estudei em Lisboa, no Maria Amália, circulavam pelas casas de 12 assoalhadas da Artilharia 1, drogas e roubo de jóias feitas pelos filhos aos pais, em festas da qual saí discretamente depois de vomitada metade da casa e partida a outra metade. Recordo também uns que tinham roubado um carro da polícia, se fossem pretos tinham talvez sido executados, assim ficaram na porta da esquadra à espera do advogado do papá, que largou a correr a amante e culpa a mãe que protege o Chiquinho demais. Recentemente fiquei a conhecer de perto um caso em que a malta de Cascais bem cheirosa arrendou uma casa por 4 mil euros nos arrabaldes de Setúbal e nem à piscina foram porque acabou tudo em doses de cetamina e cocaína, e portas partidas; ou do filho católico expulso do colégio da Opus Dei depois de ter partido, com amigos, um hotel, tudo pago pelo pai, e claro, terminado na Universidade privada, onde se reza a Deus e aos pobrezinhos. Nada disto acabou em Tribunal, foi resolvido antes com um cheque. Esta gente estuda três tipos de cursos: Direito, vai para o Parlamento ou fazer leis de contratação pública que garantem os negócios privados; Comunicação, acabam em assessores ou comentadores; ou Gestão, onde se tornam psicopatas. Bem cheirosos. Não me interpretem mal. Há muitas acções erradas em todas as classes, e raramente algo se resolve numa esquadra ou tribunal, não sou moralista, mas o facto é que a sociologia dos ricos está envolvida num manto de glamour. Aprenderam, depois da revolução russa, a esconder-se.

A segunda, mais importante, é que o Ministro falou de…? Professores convidados precários que alimentam o sistema científico, sempre ameaçados de despedimento? A tristeza das aulas pós Bolonha, vazias de paixão e saber, e a meu ver uma das grandes causa da desistência dos alunos? O dinheiro que vai das Universidades para as Big Tech em plataformas e “modernização digital”? O assédio dos directores e afins, tudo regado com denúncias e bufos, e a ameaça de facto à liberdade de cátedra? A aldrabice do ChatGPT e afins que normalizou o plágio e a mentira? O super poder de reitores e directores não eleitos? Os concursos públicos todos marcados e humilhantes? A progressão gestionária – para criar um lastro de lambe-botas que espera ficar sob as graças do director e passar no concurso “interno”? O aluno-cliente sem vida cultural e universitária e amizades? A guerra, o que andamos a ensinar em física, matemática, sociologia que alimenta o aparelho produtivo da guerra? Os centros de investigação financiados por empresas, ou pela NATO?

Não, o Ministro falou da necessidade de colocar as residências universitárias no mercado de arrendamento e até disse – como se aprende nos cursos de comunicação – que era tudo em nome da igualdade. O tipo parecia o Olof Palme depois do Maio de 68.

Nem toda a gente percebeu que o filme “Feios, Porcos e Maus” não era sobre os pobres que viviam nas barracas, era sobre os ricos. Era sobre os que foram andar de foguetão na pandemia, os que no telejornal, de fatos de 4 mil euros, e banho tomado, aspergem sorrisos a defender a morte de jovens na guerra como “segurança da Europa”, as que, como a aristocrata Von Der Leyen ou a chefe charmosa do Banco Central, de lenço de seda Hermès, e sapatos italianos, 1 ano de salário mínimo só nos sapatos, anunciam o fim da Universidade – sim, o capitalismo está a acabar com a Universidade com a digitalização – e lhe chamam “modernidade”.
Esta gente, parafraseando o meu amigo Toino Caranguejo, o bêbado da Zambujeira, que cheirava muito mal e por isso eu conversava com ele a uns metros, os ricos “não cheiram a leite, cheiram a sangue”.