(Por Brian McDonald, in Substack.com, 01/06/2026, Trad. Estátua)

O Ocidente venceu a Guerra Fria oferecendo uma vida melhor, não policiando o pensamento. Os colunistas e membros dos think tanks parecem determinados a esquecer essa lição.
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Na semana passada, O Guardian deu-nos um curioso vislumbre do declínio acelerado do pensamento político na Europa Ocidental. O ensaio de Timothy Garton Ash, “Como Derrotar Putin”, apresentado três dias depois como uma “Visão do Conselho” pelo grupo de lobby financiado pela UE, ECFR, começa, como costuma acontecer, com a premissa sensata de que o bloco precisa de uma estratégia séria para a Rússia, mas termina num ponto muito mais sombrio, com uma receita para salvar a democracia tornando-a menos democrática.
Tudo isso faz parte da doença contemporânea recorrente em que o autor deseja que a UE se torne mais autoritária para derrotar os autoritários. Podemos chamar a isso “Von der Leyenismo”, enraizado naquela peculiar corrente de pensamento da Europa Ocidental que acredita que nem tudo associado à Alemanha da década de 1930 era ruim, e que havia mais do que alguns aspetos positivos. Um velho truque, disfarçado de bom senso, que insiste que devemos policiar a liberdade de expressão para a defender, algo muito semelhante a copular para manter a virgindade. Tudo construído sobre a crença de que a dissidência deve ser tratada como traição, desde que o dissidente use o vocabulário errado e venha do lado errado do espectro político.
A frase “eliminar os nossos próprios nacionalistas” é a grande pista aqui, e expõe a verdadeira agenda. Se significasse derrotá-los nas eleições, atendendo às preocupações dos eleitores, seria justo, porque é assim que a política deveria funcionar. Mas todos sabemos que o novo arsenal envolve guerra jurídica, censura, vigilância, exclusão de plataformas digitais, pressão financeira, interferência de serviços de inteligência, campanhas nos média e a incessante insinuação de que qualquer partido fora do centro aprovado por Bruxelas está, de alguma forma, carregando uma boneca matrioska recheada de dinheiro do Kremlin.
Para que o plano tenha sucesso, a democracia liberal terá que ser substituída por uma nova forma de “democracia administrada”, desta vez com a marca ocidental. Basicamente, o Surkovismo russo dos anos 2000 remodelado, com alfaiataria melhor, cotas de género, menos cigarros, menos rap, mais diversidade, bandeiras do arco-íris, pronomes e uma vida noturna bem mais sem graça.
A tragédia é que o autor quase se lembra da verdadeira lição da Guerra Fria do século XX, mas depois passa por ela a toda velocidade, como se fosse um potro de viseiras correndo nas 14h40 em Sandown. O Ocidente sobreviveu à União Soviética porque oferecia uma vida melhor, e não porque conseguia policiar o pensamento com mais eficiência. Até mesmo os filhos de Khrushchev e Estaline emigraram para os Estados Unidos, mas o clã Kennedy e os Roosevelt não fugiram para o leste, nostálgicos da vida comunitária de Leningrado.
O Ocidente ostentava instituições mais livres, padrões de vida mais elevados, debates mais abertos, mais espaço para o indivíduo e uma sensação mais profunda de que o amanhã poderia ser moldado por ti, em vez de algo imposto por um comitê de homens grisalhos que se tratavam por “camaradas” e tinham o estranho hábito de se beijarem na boca.
A juventude aprisionada do bloco oriental não olhava para o outro lado da Cortina de Ferro com inveja dos comunicados da NATO; o que eles invejavam eram supermercados, liberdade de viajar, universidades, discos de jazz, calças jeans, carros melhores, livros sem censura, Michael Jackson e a possibilidade de viver sem um pequeno censor alojado permanentemente no crânio.
Foi isso que tornou o Ocidente atraente, mas agora observe o programa oferecido pela classe liberal de articulistas. Envolve uma UE permanentemente securizada, isolada da energia e das matérias-primas russas baratas e comprometida com o rearmamento, com sanções, tensão industrial, queda do padrão de vida e doutrinação moral interminável. Será que Ash realmente acredita que isso se tornará o grande polo de atração do século XXI? E com base em quê? Será com base em eletricidade cara, desindustrialização, alto desemprego juvenil, desigualdade crescente, crises migratórias e uma classe política que chama os eleitores de perigosos quando reclamam?
A Alemanha é o exemplo mais óbvio de alerta porque, durante décadas, o seu modelo de sucesso baseou-se em energia barata, manufatura avançada, infraestruturas sólidas, uma sociedade coesa e acesso tanto a mercados desenvolvidos quanto a mercados em desenvolvimento.
Desde 2021, esse modelo tem sido abalado, com fábricas sob pressão, custos de energia em alta, o país absorvendo cada vez mais migrantes (muitas vezes de utilidade questionável para a sociedade em geral) e a antiga segurança industrial a tornar-se cada vez mais frágil, ao mesmo tempo que até a rede ferroviária se está a deteriorar. No entanto, em vez de questionar se os membros da UE podem realmente prosperar, permanentemente separados do maior país da Europa, os estrategas do continente buscam mais uma lição.
O que eles não conseguem entender é que a UE não pode censurar e moralizar para se tornar atraente, nem pode construir unidade fingindo desonestamente que o populismo é uma infeção exclusivamente estrangeira. Os figurões da UE preferem a mentira de que os eleitores foram hipnotizados por Moscovo porque não conseguem processar a verdade, que é a de que cada vez mais pessoas não acreditam que a classe política atual (ou seja, eles próprios) seja capaz de governar. E embora chamar aos seus oponentes agentes, enganados, racistas, “pró-russos” ou extremistas seja mais fácil do que lhes responder, também é suicídio político.
Agora, nada disso significa que a Europa Ocidental deva ser fraca e que os seus diversos países não devam, obviamente, defender-se. Eles devem ter exércitos funcionais, fronteiras que tenham significado, indústrias substanciais, identidades claras e líderes capazes de dialogar com Washington, Moscovo, Pequim e Kiev sem parecerem estagiários num painel de um think tank.
Mas uma União Europeia séria também entenderia geografia e aceitaria que a Rússia não é um fenómeno climático passageiro, mas sim o maior país da Europa, uma potência nuclear, uma importante fonte de recursos naturais e um facto permanente no continente.
Tentar excluir a Rússia do projeto europeu enquanto se inclui todos os outros ex-estados soviéticos sempre foi uma forma absurda de pensamento ilusório, e isso também teve implicações estruturais para a própria Rússia.
Se a UE tivesse agido de forma diferente, poderia ter esperado que a geração Putin passasse – geração essa que está compreensivelmente ressentida com o colapso soviético e a humilhação da década de 1990. Então, poderia ter lidado com uma liderança mais internacional e liberal, que nem sequer se lembrasse da URSS, e que certamente viria a seguir.
Nunca devemos esquecer que, apenas um mês antes dos primeiros protestos do Maidan em Kiev, Alexei Navalny ficou em segundo lugar nas eleições para prefeito de Moscovo, mas depois que a UE e os EUA apoiaram incondicionalmente o derrube do governo eleito da Ucrânia, as elites russas concluíram, quer queiramos quer não, que o compromisso do Ocidente com a democracia e as regras não passava de uma farsa.
Isto não é um apelo para que a UE se renda a Moscovo, mas sim uma sugestão para que construa uma arquitetura de segurança europeia que inclua tanto a Rússia como a Ucrânia, porque não se pode construir uma ordem estável fingindo que uma delas pode simplesmente desaparecer.
Se a UE continuar a empobrecer, a tornar-se mais censória, menos livre e mais receosa dos seus próprios eleitores, continuará a trilhar o caminho para a ruína.
Fonte aqui
O Ocidente não venceu a guerra fria oferecendo uma vida melhor. Venceu vendendo ilusões como vendedores de banha da cobra que sempre foram.
Porque não podiam oferecer o que não tinham. Essa vida melhor não existia. Como sabiam, por exemplo, os que adoeciam gravemente nos Estados Unidos sem terem um bom seguro de saúde. As crianças de rua brasileiras ou colombianas, os habitantes das favelas, os camponeses escravizados.
Mesmo por cá, quase todos os filmes de Hollywood nos vendiam uma imagem de famílias felizes que começavam o dia com um lauto pequeno almoço, tinham lindas casas com jardim, dois carros na garagem, três filhos e dois ou três cães.
Não havia doença, não havia problemas de dinheiro, não havia trabalho exaustivo, era tudo um paraíso. Se havia problemas eram resolvidos com facilidade devido a liberdade e a uma solidariedade que existia sem que se falasse em socialismo.
Foi essa ideia que foi vendida aos países de Leste.
E era mentira.
Em boa parte do Ocidente sobrava muito mês no fim do ordenado.
Haviam uns cinco ou seis países europeus para onde fugiam os do Sul.
França, Alemanha e os nórdicos.
Todos com os seus próprios problemas mas que pareciam paraisos aos olhos de muita gente.
Isto faz lembrar aquela anedota do Bill Gates quando morre.
S. Pedro diz lhe que fez algumas coisas boas e outras más, por isso vai lhe dar uma hipótese.
Pode visitar o céu e o Inferno e escolher.
Começa pelo céu e vê uma calma enorme e gente com togas brancas a passear, outros a tocar harpa.
Acha aquilo uma pasmaceira.
Visita o Inferno e vê um ambiente quente mas onde há mulheres e whiskey a discrição, música alegre e gente a beber e a dançar como se não houvesse amanhã.
Escolhe o Inferno.
Uma semana depois o S. Pedro vai lá abaixo e está o Bill num caldeirão a ser picado com tridentes.
E pergunta”Então afinal o Inferno era isto?”.
“Um gênio da informática como tu e não viste que aquilo era o scrensaver?”.
Foi este efeito que venceu a guerra fria.
Para o Ocidente mostrar logo a sua verdadeira natureza.
Uma natureza de rapina onde os países democráticos conviviam muito bem com as mais brutais ditaduras muitas vezes impondo as.
Países onde a vida não era nada fácil embora o parecesse.
Países afundados na miséria de ditaduras impostas pelos países mais fortes do Ocidente como as ditaduras Made in USA na América Latina.
Em resumo, acabaram por trocar o que tinham por calças de ganga.
Não ganharam com a troca nem eles nem nos.
Porque também rapidamente começaram a mandar a democracia as malvas, mesmo nos seus próprios países, como começam a perceber por exemplo os críticos de Israel.
Afinal de contas, sem medo de ninguém, as máscaras caíram.
E a natureza de rapina criou esta guerra interminável contra a Rússia. Porque não era uma vida melhor que queriam oferecer a Rússia mas sim pilhar o que lá havia. E para isso vale tudo, mas mesmo tudo.
Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.