As mulheres do PS, a testosterona do Chega e os pobres que sobram ao CDS

(Rafael Barbosa, In Diário de Notícias, 17/01/2021)

Além das projeções de resultados, abunda nos barómetros regulares informação que ajuda a medir a temperatura política. Juntámos as amostras dos barómetros feitas pela Aximage para o DN, o JN e a TSF ao longo dos últimos quatro meses de 2020 e esboçamos um retrato de cada um dos partidos com representação parlamentar.


PS

Socialismo vale quase metade do país grisalho

Não há por agora pontas soltas no apoio aos socialistas. A liderança é total em todos os segmentos da população, sempre com uma vantagem superior a cinco pontos percentuais sobre os rivais sociais-democratas. Mas há franjas do eleitorado em que a vantagem de António Costa é avassaladora.

É o caso dos mais pobres, em que a média dos últimos quatro meses do ano foi superior a 50%. Aliás, quanto maior o rendimento do eleitor, menor a vontade de votar no PS: entre o fundo e o topo da escala social, os socialistas perdem mais de 17 pontos percentuais (nos dois escalões intermédios rondam os 37%, em linha com a média de setembro a dezembro).

Salta também à vista a força socialista entre as mulheres (e a relativa fraqueza entre os homens): em média, o eleitorado feminino valia mais oito pontos do que o masculino. Sendo certo que o fosso entre os dois géneros se acentuou nos dois últimos barómetros do ano, para chegar aos 14 pontos em dezembro.

Mais estável e esmagador é o apoio dos eleitores mais velhos: os que têm 65 ou mais anos valem 46,5%, ou seja quase dez pontos acima da média. Ao contrário, nos outros três escalões etários em que se dividem as amostras, o apoio está alguns pontos abaixo da média.

Quando a análise se centra na geografia, o ponto mais forte é a Área Metropolitana do Porto (42,6%), ainda que se notem grandes oscilações ao longo dos quatro barómetros do final do ano. As regiões menos fiáveis para os socialistas são, por razões diferentes, como veremos a seguir, a Área Metropolitana de Lisboa (34,8%) e a região norte (35,6%).


PSD

Região norte é o pequeno cavaquistão de Rui Rio

A designação ficou dos tempos em que Cavaco Silva conquistou duas maiorias absolutas para o PSD (1987 e 1991): os distritos do interior norte e centro deram-lhe percentagens superiores a 60% e ficaram no léxico político como “o cavaquistão”. Rui Rio não pode aspirar a nada de semelhante. O melhor que se pode dizer é que tem na região norte o seu pequeno cavaquistão. Porque é aí que melhor resiste ao sufoco socialista (30,3%). Uma tendência que se acentuou em dezembro.

Ao contrário, o território mais hostil, nos últimos quatro meses do ano, foi Lisboa (20,6%). Uma fraqueza que partilha com os socialistas e que tem uma explicação: a região da capital (que inclui o distrito de Setúbal) é a mais competitiva para o ecossistema partidário e, por isso, a menos generosa para o chamado bloco central, que aqui vale apenas 55% (no resto do país, PS e PSD somam sempre 60 ou mais pontos, com destaque para o Porto).

Quando se avaliam as forças e as fraquezas dos sociais-democratas nos restantes segmentos em que se pode dividir a amostra (género, classes sociais ou faixas etárias), o que mais se destaca é que… nada se destaca. O equilíbrio tem sido a marca de água do partido, seja no género (ainda que com ligeiro pendor feminino), nas classes sociais (mesmo que melhorando a intenção de voto à medida que os rendimentos crescem, o inverso do que acontece aos socialistas) e nas faixas etárias (com um pouco mais de tração nos eleitores mais velhos).

Recorde-se que o PSD está em perda relativamente às eleições de 2019. Não porque a direita valha menos votos, mas porque há uma recomposição desse lado do espectro político, com vantagem para os novos partidos. Quando se faz a média dos mapas de transferência de voto dos últimos quatros barómetros, a fuga é evidente: o maior beneficiário é o Chega, mas também a Iniciativa Liberal está a provocar uma erosão social-democrata.

BE

No centro (e em Lisboa) está a virtude bloquista

O Bloco de Esquerda está em perda face às últimas legislativas e vê aproximar-se o Chega. Mas a verdade é que, no final de 2020, permanecia incontestado no terceiro lugar. A principal praça-forte bloquista, em termos percentuais, é a região centro (12,2% na média dos últimos quatro barómetros), ainda que a dimensão de Lisboa garanta mais deputados e votos (10%). O ponto fraco de Catarina Martins é a região norte, o único caso em que perde o terceiro lugar, ultrapassada pelo PAN (8%) e pelo Chega (5,9%).

Com uma notável igualdade de género (ainda que as mulheres estivessem a ganhar preponderância no final do ano), os bloquistas são um partido tendencialmente mais jovem, conseguindo resultados acima da média nos três grupos etários até aos 64 anos, para caírem bastante entre os mais velhos (65 anos ou mais). Foram estes aliás os que mais contribuíram para o castigo sentido no barómetro de novembro, no rescaldo do chumbo ao Orçamento do Estado e do divórcio com o PS.

Igualmente notória, na média geral, como nos resultados de cada um dos quatro barómetros, entre setembro e dezembro, é a predominância dos dois escalões sociais mais altos, face aos dois mais baixos (com uma diferença que ronda os três pontos percentuais, o que é significativo num partido com a dimensão do BE).


Chega

Radicais de classe média-baixa e na meia-idade

O Chega é o partido que mais cresce, quando comparamos os resultados das legislativas de 2019 com a média de resultados dos últimos quatro barómetros de 2020 – são quase seis pontos percentuais a mais nas intenções de voto. Apoios conquistados à direita tradicional (PSD e CDS) e que se concentram sobretudo em três segmentos: homens, de classe média-baixa, entre 50 e 64 anos.

O domínio da testosterona entre a direita radical é particularmente saliente: se votassem apenas homens, André Ventura seria o líder do terceiro maior partido nacional (são quase cinco vezes mais homens do que mulheres). Uma tendência que se acentuou nos últimos dois meses, coincidindo com o crescimento do final do ano.

Noutros tipos de segmentação, o Chega também se destaca em escalões específicos: a classe média-baixa (12,5%) é um desses casos (em todos os restantes está abaixo da média geral), com a tendência a acentuar-se no barómetro mais recente (um em cada cinco portugueses de classe média-baixa daria o seu voto aos radicais em dezembro).

O mesmo acontece nos grupos etários, com o destaque para os que têm 50 a 64 anos (10,4%), mas grande dificuldade em atrair os eleitores mais velhos (cada vez mais relutantes nos últimos dois meses, em clara oposição à subida média das intenções de voto no mesmo período).

Em proporção, foi ao CDS que o Chega roubou mais eleitores ao longo dos últimos quatro meses (quase metade dos centristas em dezembro), mas, em números absolutos, foi ao PSD. Contributos que fazem do partido de direita radical uma força a ter em conta no sul e ilhas, no centro, mas também em Lisboa (ronda os oito pontos percentuais nas três regiões). O território mais agreste para Ventura é a Área Metropolitana do Porto.

CDU

Comunistas envelhecidos em Lisboa e no Alentejo

A CDU pode não viver os seus melhores dias, mas há coisas que não mudam e que os barómetros dos últimos quatro meses confirmam: seja o envelhecimento da sua base de apoio seja um relativo acantonamento em Lisboa e no sul do país (com o peso do Alentejo). É na região da capital (que inclui Setúbal) que os comunistas têm o seu melhor resultado médio (7,8%), verificando-se uma tendência para ganhar peso relativamente ao resto do país nos dois últimos barómetros do ano. Os territórios mais hostis são a região norte e a Área Metropolitana do Porto.

Com tendência para ter uma representação mais masculina do que feminina (uma diferença de quase três pontos que, tendo em conta os resultados globais, é significativa), a CDU vê o apoio crescer, de forma substancial, à medida que o eleitor envelhece. Feitas as médias às amostras de quatro meses, os apoiantes com 65 ou mais anos valem mais sete pontos percentuais do que os mais jovens (18 a 34 anos), ainda que no final do ano esse cisma geracional desse mostras de estar a atenuar-se.

Os comunistas revelam uma influência relativamente transversal ao posicionamento social, mas com tendência para ter maior aceitação entre os dois escalões do topo, face aos dois do fundo (e com uma fragilidade evidente nos mais pobres). Através do mapa de transferência de votos, percebe-se que é para o PS que a CDU perde alguns dos seus eleitores de 2019 (um em cada dez) e que a capacidade de atrair gente de outros segmentos partidários é reduzida.

PAN

A causa animal (e ambiental) é feminina e jovem

O PAN nasceu como partido animalista (ainda que tenha progressivamente aprofundado a mensagem ecologista) e pode dizer-se que esse é um campo jovem e feminino. O movimento de André Silva é o que tem um maior peso do eleitorado feminino: são mais do que o dobro dos homens (uma diferença de quatro pontos percentuais) e seria o quarto maior partido nacional se votassem apenas as mulheres.

Outra marca de água que se tem mantido ao longo do tempo é a identificação do eleitorado jovem com o PAN: é o partido que mais depende dos escalões mais novos (18 a 49 anos), mantendo alguma dificuldade em convencer os dois escalões mais velhos (50 em diante), sendo mensurável uma diferença média de cerca de seis pontos percentuais entre estas duas metades do eleitorado.

O norte tem-se revelado o bastião mais importante e estável (o PAN consegue o terceiro lugar com uma média de 8%), mas Lisboa (6,7%) vem logo a seguir, ainda que com muitas oscilações ao longo dos quatro meses em análise. O ponto fraco é a Área Metropolitana do Porto.

Quando se observa o posicionamento social dos eleitores, fica claro que é na classe média que o PAN consegue maior suporte, em particular no terceiro dos quatro escalões em que se divide a amostra, ou seja, algures entre a classe média e média-alta. Embora também tenha um razoável cartaz entre o segmento dos mais pobres.

Iniciativa Liberal

Homens portuenses, abastados e liberais

À medida que a percentagem de eleitores de cada partido vai reduzindo, mais escorregadia se torna a leitura dos segmentos, sujeitos a margens de erro mais elevadas. A junção dos quatro barómetros ajuda a atenuar esse problema, mas, no caso da Iniciativa Liberal, talvez nem fosse necessário, uma vez que mantém uma série de características de barómetro para barómetro.

Desde logo, é um novo fenómeno político marcadamente urbano e metropolitano. O seu único deputado foi eleito em Lisboa mas foi no Porto que conseguiu os melhores resultados no final do ano (4,8% na média dos quatro meses), ainda que se revele um território mais instável. Lisboa é um pouco menos generosa (3,4%) mas parece terreno mais sólido.

Os liberais são sobretudo homens (mais do dobro do que as mulheres), com maior preponderância nos escalões até aos 49 anos (em particular nos 18/34 anos) e revelam uma tendência linear no que diz respeito ao posicionamento social: quanto mais alto está o elevador, maior o número de apoiantes (estão completamente ausentes do escalão mais pobre). São eleitores, finalmente, que saíram sobretudo do CDS (em proporção) e do PSD (em número). Mas também há algumas fugas para o Chega

CDS

Quase todos em fuga para concorrentes na direita

O resultado das legislativas de 2019 já tinha sido fraco. Os barómetros que se seguiram foram piores. E o final deste ano foi catastrófico, com os centristas a baterem no fundo, em dezembro, com uma projeção de 0,3%. Mesmo considerando a média de 0,9% ao longo dos últimos quatro meses, a amostra é diminuta e deve ser lida com cautela adicional.

Uma das leituras possíveis é que o CDS só está no limiar da sobrevivência no que diz respeito ao escalão dos mais pobres (2,9% em média) – e foi assim em três dos últimos quatro meses. Nos mais ricos, pouco passa agora do ponto percentual. No que diz respeito aos grupos etários, se ainda vale alguma coisa é à custa dos que têm memória de outros tempos, ou seja, os que têm 50 ou mais anos, numa tendência que se aprofundou em dezembro, com a deserção total dos dois escalões mais jovens.

Relativamente à geografia é só em Lisboa e no Porto que o partido de Francisco Rodrigues dos Santos ultrapassa um ponto percentual. Insuficiente, em eleições, para conseguir deputados. Os eleitores fugiram, pelo menos por agora, para o Chega, o PSD e a Iniciativa Liberal, por esta ordem (os radicais de direita, em concreto, ficam com três em cada dez antigos eleitores dos centristas).

Jornalistas vigiados? Só não se sabia quando iria acontecer

(João Garcia, in Expresso Diário, 16/01/2021)

João Garcia

Estava escrito nas estrelas. Mais cedo ou mais tarde, rebentaria um caso em que jornalistas e as suas fontes fossem vasculhados, em que o sigilo profissional – uma obrigação a que os jornalistas se sujeitam para garantirem a liberdade de informação – acabasse quebrado.

A espionagem policial a que foram sujeitos dois jornalistas gerou logo um coro de indignações, dentro e fora da profissão. Valha-nos isso. Mas é pouco.

Estão acusados de um crime que, no entender que o Ministério Público faz da lei, justifica uma devassa das suas vidas e contactos. Para as procuradoras do processo, eles quebraram o segredo de Justiça e, portanto, vá de fotografar encontros, no afã de saber quem fala com quem. Percebo a lógica policial: se são presumíveis criminosos, é preciso investigar. Em frente e a toda a força, que já foram inúmeras as investigações destruídas em julgamento.

Próximo passo, ouvir quem diz o quê a quem. Já há, por aí, quem defenda a necessidade de autorizações dadas por juiz.

O problema, porém não é de forma. Não é processual. A questão é que não se pode proibir o que não pode ser proibido: informar.

Impedir que os jornalistas publiquem o que apuram com interesse público – e que conseguiram respeitando a ética – é mais ou menos o mesmo que meter a raposa no galinheiro e proibi-la de comer as galinhas. Com uma diferença relevante: a raposa ataca por instinto, os jornalistas publicam por contrato com a sociedade. Se alguém não guarda o galinheiro, não culpem a matreira.

O verdadeiramente preocupante neste caso – para lá dos eventuais abusos de poder que as investigadoras tenham cometido – é, fundamentalmente, a legislação sobre o segredo de Justiça. Foi invocando-a que o Ministério Público avançou.

Com força inédita.

Afinal, um jornalista que o viola, é, de acordo com a lei, um criminoso que até pode ser condenado a prisão. Se aceitamos este postulado – que nenhum partido quer rever, que nenhuma corporação da Justiça quer alterar, que nenhum Governo ousa modificar – não se pode estranhar que, ao investigá-lo, possam ser decididos inquéritos que ponham em causa um bem essencial à livre informação: o sigilo das fontes. Entenda-se, de vez, que o sigilo profissional não é um direito dos jornalistas, mas um preceito fundamental à democracia que os jornalistas têm de preservar a todo o custo. Como o dos médicos ou o dos advogados. É assim tão difícil entender?

Como já alguém disse, para quem só tem martelo, tudo são pregos. Para quem só tem normas legais para seguir, que importa tudo o mais? Mais dia menos dia, cumprindo todos os requisitos, algum magistrado acabará mesmo por conseguir quebrar o sigilo das fontes. E pode acontecer por uma coisa tão irrelevante como um qualquer E-toupeira.

A verdadeira hipocrisia é haver segredo de Justiça para tudo quanto interessa à sociedade. Um secretismo que não é chamado nos casos irrelevantes.

Tudo escondidinho, confundindo-se crítica política, ética ou social com julgamentos populares, como convém a quem quer ter a vida facilitada nas investigações, quem quer acautelar interesses pessoais ou de amigos, quem quer manipular a informação com fugas cirúrgicas de peças processuais. É ver como cada partido se abespinha a denunciar violações que afetam os seus e assobia para o lado quando estão causa os interesses da concorrência.

Além do mais, o segredo de Justiça impede que os jornalistas respeitem a obrigação de ouvir todas as partes, o que mais facilita a vida àqueles que não se importam de publicar, sem mais, os recados que recebem.

Adivinho que tudo vá acabar numa cruzada contra as magistradas em causa. Mas bem mais útil seria se a indignação se virasse contra a indignidade de uma lei que tenta impor silêncio a informação relevante. Como diria Tino de Rans, é preferível abrir caminhos a erguer muros.

A bala mata, mas o assassino é quem puxa o gatilho.


Marcelo infecto

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 14/01/2021)

«Confrontado com uma foto consigo no Bairro da Jamaica e várias pessoas negras, incluindo uma criança, sendo acusado de ter ali ido confraternizar com a “bandidagem”, e ao não reagir à calúnia racista, assim como ao dizer que a sua direita não é a mesma do contendor sem no entanto definir essa direita como deve ser definida, Marcelo falhou na defesa dos valores essenciais da democracia e do Estado de direito. Falhou no que não podia falhar – e menos ainda quando do outro lado do Atlântico, naquele mesmo dia e àquela mesma hora, se tentava, em nome de um dos modelos daquele homem ali à sua frente, derrubar uma das democracias mais antigas do mundo.»

(Fernanda Câncio in Quando lutas com um porco)


Qualquer um pode fazer a experiência, calhando estar esquecido do que viu ou não o tendo visto. A experiência de rever o debate entre Marcelo e Ventura para constatar como o segundo esteve sempre ao ataque e o primeiro nunca conseguiu sequer perturbar a empáfia da escolha de Deus para fundador da Quarta República Portuguesa. Na verdade, o contrário aconteceu, tendo Ventura tido sucesso no arrastar de Marcelo para o bate-boca feirante em que o ilustre Professor se deixou nivelar por baixo e acabou a perder o controlo da pose e das suas responsabilidades institucionais. Num dos casos, chegando ao ponto de violar o sigilo das audiências em Belém. Num outro caso, de uma gravidade distinta mas tão ou mais grave, ao ter concedido ao presidente do partido Chega o estatuto de líder da oposição. Fê-lo quando concordou com Ventura que a ministra da Justiça devia pedir a exoneração ou ser demitida. Repare-se na cena: o solitário deputado de um partido que congrega salazaristas, nazis, racistas, xenófobos e “portugueses de bem” consegue levar o Presidente da República, em cima do início da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, a fazer uma declaração pública de apoio à campanha do PSD para explorar o caso do Procurador Europeu até ao limite possível da chicana. Não foi Rio que obteve esse trunfo, foi Ventura.

No dia seguinte, António Costa acusou três passarões do PSD de estarem em campanha para conseguir chutar a inútil polémica para um palco europeu – portanto, acusou esse trio de pretender denegrir a imagem de Portugal, posto ser esse o único objectivo tangível das suas declarações e acções. Podemos ver nas palavras de Costa um erro político, ou um excesso retórico que devia ter evitado. Porém, prefiro vê-las como a resposta do primeiro-ministro à posição assumida na noite anterior pelo Presidente da República, o qual tinha optado por voltar a quebrar a lealdade institucional e emporcalhar a responsabilidade constitucional apoiando ataques políticos contra o Governo e interferindo com a autoridade do primeiro-ministro. Tudo isto numa questão simultaneamente escabrosa e pífia que apenas serviu para Rui Rio acabar com os seus “tweets” sobre sondagens e o aeroporto Humberto “Força nisso!” Delgado. Costa defendeu o prestígio de Portugal, sabendo que iria agitar o vespeiro, enquanto o inteligentíssimo e experienciadíssimo Marcelo se deixava manipular por um perigoso tachista que alimenta ódios e arregimenta ignorâncias e desesperos.

Saltemos para a visão pan-óptica, sem a qual a política é uma narrativa incoerente contada por um louco. A posição de força de Costa, e as reacções que tal provocou na direita, começam a compreender-se com o que Ângela Silva, uma jornalista do Expresso que não ambiciona ser mais do que um pé de microfone de Belém, escreveu um dia antes quando mergulhou de cabeça na infâmia de Marcelo com este estouvado título: O baile de Marcelo a Ventura: “Você nunca me disse em Belém que eu era manipulado pelo Governo”. Trago este exemplo para dar conta do maremoto de dissonâncias cognitivas que o império do militante nº 1 do PSD serviu ao público para salvar a imagem de Marcelo e fazer-lhe a papinha e a propaganda. As avaliações ao debate – O melhor Marcelo deixou Ventura KO. Eis as notas dos comentadores do Expresso e SIC – inevitavelmente provocam espasmos de riso logo no relance sobre a tabela da pontuação e ainda antes de lermos a primeira justificação. Tendo em conta que no júri se encontra o admirável Pedro Adão e Silva, vou admitir que não foi só o sectarismo, a hipocrisia e o cinismo a explicarem as avaliações, o asco também foi um factor a influenciar a cognição. O que pretendo realçar, contudo, é que o registo ditirâmbico é a prova mesma do fracasso de Marcelo frente a Ventura.

Espanto? Nenhum. Marcelo foi para o debate com Ventura na intenção de ficar no fundo do corte, devolvendo as bolas sem se mexer muito, sem se aproximar da rede, esperando que fosse o adversário a falhar as jogadas – precisamente ao contrário do que fez no debate com Ana Gomes, para o qual levou munição poderosa e com a qual foi implacável depois da cartada Salgado ter sido usada, não fazendo prisioneiros. Marcelo não queria desvitalizar Ventura e denunciá-lo como o oportunista abjecto que é porque Marcelo quer o mesmo que Rio, Passos e Cavaco: que o próximo Governo seja de direita. Para tal ser possível, o Chega vai ter necessariamente de entrar na equação, restando só saber com que peso. Ventura aparece nas presidenciais para isso mesmo, fazer crescer a sua fatia de mercado e depois negociar nas melhores condições possíveis os tachos à disposição. A actual direita decadente não tem medo nenhum do Ventura porque um aldrabão é um aldrabão, e nada mais, têm disso aos montes à sua volta (como lembrou Salgado, por exemplo). Ou seja, dali não vem qualquer surpresa, pelo que o deixam andar a criar o seu exército de lumpendireitolas na certeza de que o conseguem controlar, e mesmo destruir se ameaçar algum dos seus interesses. A isto esta direita chama “fazer política” e isso não passa da aplicação da ancestral cultura do poder pelo poder que se bebe desde o berço na oligarquia.

A Marcelo bastou dizer que a sua direita é diferente da do coiso para que a claque declarasse KO. Acontece que quem ficou KO foi a cultura democrática e o património republicano ao vermos o Presidente da República a recorrer à sua batina de católico para conseguir verbalizar uma oposição argumentativa contra a prisão perpétua. O mesmo nível indigente no plano intelectual e moral para responder à agenda subversiva e incendiária de quem se declara inimigo do regime nascido do 25 de Abril. Nem sequer, como regista acima a Fernanda Câncio, o momento histórico da invasão do Capitólio inspirou Marcelo para o serviço público de mostrar que Ventura, assumido epígono de Trump, ofende a causa do Estado de direito democrático e o ideal da liberdade.

Os tempos de antena do candidato Marcelo Rebelo de Sousa estão vazios. Ele alega que é para ser justo com os outros candidatos, por causa da sua intensa exposição mediática de 5 anos como Presidente da República e demais actos públicos até às eleições. Não temos de perder uma caloria a tentar encontrar qual seja o mérito ou a bondade do raciocínio porque não existe. Em vez de aproveitar essas ocasiões de comunicação para nos ajudar a lidar com os medos, os apelos ao ódio, as distorções e deturpações sociais, a iliteracia política, a confusão e a depressão que crescem imparavelmente, Marcelo caça no mesmo território do desprezo pelos políticos e pela política. Temos até de reconhecer, vencidos e banzos, que os seus tempos de antena são espectacularmente virais. É que uma pandemia nunca vem só, e Marcelo e Ventura partilham o mesmo vírus populista.