(Rui Pereira, in Facebook, 21/10/2026, Revisão da Estátua)

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Recebo de uma jovem participante nas manifestações portuenses pela habitação um pedido de ajuda para pensar o processo reivindicativo e de contestação, uma solicitação dirigida igualmente a outros “veteranos” de lutas pela democracia, pelos direitos das pessoas, pela liberdade, de lutas contra a refascização soft ou mais ou menos hardcore que começou há 50 anos neste país, ainda durante o processo revolucionário e, sobretudo, depois da sua violenta clausura. A esta, chamaram-lhe “normalização democrática”, assim a consagraram nos manuais de História e assim a aplicaram com os resultados que as praças das nossas cidades registam hoje, como em tantas outras ocasiões ao longo deste meio século (1976-2026).
Nada tenho para vos dizer, caros jovens, a não ser enaltecer o espírito com que vêm intervindo, numa luta que parte da casa e alastra a toda a vossa/nossa existência. No sentido do termo grego, oikos, que significa não só a casa onde se habita, mas o modo como se habita a vida.
O modo firme com que tendes estado; os dados concretos com que vindes fundamentando as vossas intervenções mais importantes; o modo sereno com que vários dos vossos “líderes” (que palavra parva) se têm expressado perante as câmaras de televisão e os microfones dos jornalistas (parte deles também a viver ainda em casa dos pais, como vós); a maneira como vocês não se têm isolado do resto da sociedade com afirmações incendiárias que se esgotam na sua própria esterilidade, confundindo radicalidade com verborreia pseudorrevolucionária; o modo como têm resistido a provocações que vos têm sido dirigidas por agentes da polícia (que no limite batem em jovens iguais aos seus próprios filhos) e por agentes político-mediáticos de interesses particulares (do imobiliário a tantos outros segmentos do gangsterismo político-financeiro dominante), tem-me ajudado a pensar as gerações que nos sucederão, vocês.
Creio, inclusivamente, que apesar de alguns de vós terem já afirmado que esta luta “não é de esquerda, nem de direita”, isso será uma forma de estabelecerdes pontes com a sociedade. Porque não me parece que confundais o lado direito das causas da situação a que chegámos, com o lado genuína e necessariamente esquerdo dos caminhos para a sua solução.
Os dados que têm sido divulgados sobre as propriedades imobiliárias dos ministros e outros pregadores telegénicos sobre as questões que levantais, descobrem apenas a ponta do iceberg. Estes homens e mulheres são representantes dos grandes interesses especiais, privados, nacionais e supranacionais que efetuaram no mundo, à escala global, a mistura tóxica entre alta finança e baixa política de que são meros subprodutos descartáveis. Aproveitam o dia, e pouco mais.
A conexão entre capitalismo e necropolítica tanto pode manifestar-se na habitação, como na corrida aos armamentos, como no preço dos alimentos, nos financiamentos da cleptocracia de Kiev ou na sociopatia política dos exterminadores em Telavive, no apoio cúmplice ao estrangulamento maciço e com silenciador do povo cubano.
O mundo está feio de morte. Está cheio de entulho que a humanidade precisa de remover para garantir que tem futuro. Mas também é possível sentir a corrente subterrânea da transformação que vai irrompendo aqui e ali. Agora por uma casa, amanhã por um posto de trabalho efetivamente digno, depois de amanhã pela possibilidade de ter um filho e criá-lo, deixando um mundo a vir melhor do que aquele a que se veio.
Só tenho, por isso, a repetir-vos as palavras que um mais velho me ensinou quando tinha a vossa idade, palavras do grande filósofo português, Alberto Ferreira, hoje tão generalizadas, quanto ele injustamente desconhecido: “Corram os mais jovens da tribo aos rochedos de Adamastor”. E, por mim, nada mais tendo, contem com o meu farnel para vos ajudar.

