O injector castigado

(José Gameiro, in Expresso, 27/11/2020)

Cito uma mensagem do diretor do Sector Golden Sping, Campo de Kudinov, para o diretor-geral das Minas.“De acordo com o seu pedido de explicações para a paragem de seis horas da quarta brigada de prisioneiros, no sector das minas de ouro, passo a reportar. A temperatura do ar, de manhã, era de 60° negativos. O nosso termómetro foi quebrado pelo supervisor, no entanto, foi possível medir a temperatura, porque uma cuspidela gela, antes de cair no chão. A brigada chegou a horas ao trabalho, mas não conseguiu trabalhar, porque o injetor de água quente, que aquece o solo, recusou-se a funcionar. Avisei diversas vezes o engenheiro da manutenção que o injetor já estava a operar mal, mas não foram tomadas medidas. O engenheiro recusa substituí-lo por um novo. Os trabalhadores ficaram parados muitas horas, sempre ao frio, porque não foram autorizados a fazer fogo de chão, nem a regressar às barracas. Escrevi a todas as autoridades, desde há cinco anos, esclarecendo que não podia continuar a trabalhar com um injetor destes. O engenheiro chefe não liga nenhuma e exige que a produção se mantenha.”

Resposta do diretor de Minas.“Por se recusar a trabalhar mais de cinco dias e causar uma quebra da produção do sector, o prisioneiro Injetor deve ser detido durante 72 horas e não deve ser autorizado a ir trabalhar. Será colocado num pelotão com tarefas, em condições intensivas. O caso deve ser investigado. Irei notificar o engenheiro chefe de que há uma ausência de disciplina na produção. Recomendo a substituição do prisioneiro Injetor, por outro trabalhador.”

Estas mensagens são da obra “Contos de Kolimá”. O autor foi o escritor russo Varlám Chalámov, que cumpriu pena, por duas vezes, no total de 20 anos, a trabalhar 16 horas por dia, em minas de carvão e de ouro. Foi detido uma primeira vez por imprimir panfletos contra Estaline e uma segunda, mais longa, por atividades trotskistas, contrarrevolucionárias, sendo então enviado para a região de Kolimá, na Sibéria. Quando regressou a Moscovo começou a escrever os “Contos”, num total de duas mil páginas, publicados em seis volumes.

O absurdo do injetor que é detido não é, obviamente, suficiente para mostrar a violência da vida no Gulag. Muito menos para revelar a violência institucional que a raça humana, quando tem poder discricionário, é capaz de exercer sobre os seus. Mas serve para exibir a subserviência e a cobardia de quem, provavelmente, para salvar a pele e ter algumas benesses, é capaz de mandar prender uma peça mecânica, tão habituado a deter tudo e todos.

Muito se investigou sobre os limites de um grupo de pessoas, dirigentes e não dirigentes, nas suas capacidades de prender, torturar, matar e mandar matar. A Alemanha nazi, a União Soviética e os Balcãs, mais recentemente, foram os “laboratórios”, onde se tentou compreender até onde, em determinados contextos políticos, a raça humana é capaz de ir, na sua agressividade. Quando se pretendem justificar os Gulags, com as melhorias do nível de vida de um povo, usando a velha frase ‘os fins justificam os meios’, estão a tentar branquear-se os assassínios em massa, em zonas de oposição ao regime, assim como as execuções seletivas de possíveis concorrentes de Estaline.

Com o declínio da importância das humanidades e a instauração do capitalismo desregulado, iniciado por Reagan e Thatcher, o fosso entre ricos e pobres aumentou. E também se cometeram muitas atrocidades, em nome da democracia. Mas apesar desta evolução, nunca, nos países ocidentais, o essencial dos direitos fundamentais foi posto em causa. Não matamos e não prendemos injetores… De vez em quando, convém relembrar.


O que pode o mundo aprender com a pandemia do Covid-19

(Martin Wolf, in A Viagem dos Argonautas, 27/11/2020)

A coisa mais importante que aprendemos com o Covid-19 é quanto dano pode ser causado por uma pandemia relativamente suave se tivermos em conta padrões históricos de longo prazo. Chamar-lhe suave não é depreciar o sofrimento que tem causado, e continuará a causar, antes que um programa de vacinação eficaz seja lançado e sustentado globalmente. Mas o Covid-19 tem demonstrado uma vulnerabilidade social e económica muito maior do que os especialistas imaginavam. É importante compreender por que razão é assim e aprender a gerir melhor o impacto de tais doenças no futuro.

Num artigo recente, David Cutler and Lawrence Summers de Harvard estimam o custo total do Covid-19 só para os EUA em $16 milhões de milhões. Isto equivale a 75% do produto interno bruto anual dos EUA. Quase metade disto é o valor cumulativo do PIB perdido estimado pelo Gabinete do Orçamento do Congresso. O resto é o custo da morte prematura e da deterioração da saúde física e mental, de acordo com os valores habitualmente utilizados para as grandes economias mais ricas do mundo. O custo total é, segundo eles, quatro vezes superior ao da recessão após a crise financeira de 2008. Se o custo para o mundo fosse também de 75% do PIB anual, seria de cerca de $96 milhões de milhões, a taxas de câmbio de paridade do poder de compra. Isto é quase de certeza uma sobrestimação. Não obstante, o custo é enorme.

Até agora, o número global de mortos do Covid-19 está estimado em 1,4 milhões de pessoas. As mortes estão agora a um pouco menos de 10.000 por dia ou cerca de 3,5 milhões por ano. Se isto se mantivesse, as mortes acumuladas durante os dois primeiros anos poderiam atingir perto de 5 milhões, ou pouco mais de 0,06 por cento da população global. Para colocar isto em contexto, a gripe espanhola, que surgiu em 1918, durou 26 meses e custou entre 17 e 100 milhões de vidas, ou entre 1 e 6% da população global de então. Um número de mortes comparável para o Covid-19 seria hoje entre 80 milhões e mais de 400 milhões. Algumas pandemias, nomeadamente a Peste Negra no século XIV, foram muito mais letais mesmo do que a gripe espanhola.

Um relatório de 2006 do Gabinete de Orçamento do Congresso (GOC) defendeu que “uma pandemia envolvendo uma estirpe de gripe altamente virulenta (como a que causou a pandemia em 1918) poderia produzir um impacto a curto prazo na economia mundial semelhante em profundidade e duração à de uma recessão média do pós-guerra nos EUA”. Mas a gripe espanhola matou cerca de 675.000 americanos de uma população de apenas 103 milhões na altura. Isto equivale a mais de 2 milhões de habitantes hoje em dia. Se o GOC tivesse razão, o impacto económico desta pandemia deveria ter sido muito menor do que tem sido.

Um estudo semelhante para a Comissão Europeia, também publicado em 2006, concluiu que “embora uma pandemia tivesse um enorme impacto no sofrimento humano, muito provavelmente não constituiria uma ameaça grave para a macroeconomia europeia”. Esta conclusão estava bastante errada.

Por que razão, então, os prejuízos económicos de uma pandemia tão ligeira em termos comparativos têm sido tão grandes? A resposta é: porque poderia ser. As pessoas prósperas podem facilmente dispensar uma grande proporção das suas despesas diárias normais, enquanto os seus governos podem apoiar as pessoas e empresas afetadas em grande escala. Isto é também o que as pessoas esperam dos governos. A resposta à pandemia é um reflexo das possibilidades económicas e dos valores sociais atuais, pelo menos nos países ricos. Estamos preparados para pagar um vasto preço para conter as pandemias. E podemos fazer muito melhor do que antes.

Alguns defendem que os métodos escolhidos, nomeadamente os confinamentos não discriminatórios, têm sido largamente responsáveis por estes enormes custos económicos. Em vez disso, sugerem que a doença (e, portanto, os doentes) deveria ter sido deixada a vaguear livremente, procurando ao mesmo tempo proteger apenas os vulneráveis.

Isto é muito questionável. Uma razão é que quanto maior for a incidência da doença, mais pessoas estarão determinadas a protegerem-se a si próprias, um aspeto referido nas últimas Perspectivas Económicas Mundiais do FMI.

A experiência atual, em oposição às análises de custo-benefício de alternativas teóricas, reforça ainda mais a necessidade de suprimir totalmente a doença, sempre que possível. Um artigo recente do Institute for New Economic Thinking, To Save the Economy, Save the People First, sugere porquê. Um gráfico (reproduzido aqui) mostra que os países seguiram duas estratégias: a supressão, ou a arbitragem entre mortes e a economia. De um modo geral, o primeiro grupo tem feito melhor em ambos os aspetos. Entretanto, os países que sacrificaram vidas tenderam a acabar com uma elevada mortalidade e elevados custos económicos.

Agora, no meio de uma segunda vaga de infeções e confinamentos na Europa, a incapacidade de persistir até que terem alcançado o controlo total sobre o vírus na primeira vaga parece um grande erro. Evidentemente, testes eficazes, rastreio e quarentena seriam todavia melhores. Mas isso é impossível se as taxas de infeção estiverem próximas dos níveis recentes.

Ainda temos muito a aprender com o Covid-19, e devemos fazê-lo, porque a próxima pandemia pode ser muito mais letal do que esta. Entretanto, temos de procurar escapar à atual catástrofe tão bem e o mais rapidamente que for possível. Isto exigirá um elevado nível de cooperação global.

Embora os custos da pandemia tenham sido bastante extraordinários, assim, felizmente, tem sido a resposta científica. Agora as vacinas devem ser produzidas e distribuídas em todo o mundo. Um passo importante é que todos os países, incluindo os EUA, se juntem à Covax, a iniciativa de fornecer vacinas em todo o mundo. Os desafios globais precisam de soluções globais.

O Covid-19 tem sido um choque económico muito mais devastador do que os economistas esperavam. Esta é uma enorme lição. Uma doença ainda mais virulenta é perfeitamente concebível. Da próxima vez, temos de suprimir a nova doença muito mais rapidamente. Muitos agora tagarelam sobre a liberdade. Mas a segurança do povo deve continuar a ser a lei suprema da política, agora e para sempre.

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Publicado por 

em 24/11/2020 (ver aqui), tradução de Francisco Tavares.

O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

Menos dramatização e mais soluções

(José Soeiro, in Expresso Diário, 27/11/2020)

José Soeiro

Foi António Costa quem afirmou no parlamento, em maio, que não entraria mais dinheiro no Novo Banco sem uma auditoria que permitisse conhecermos as contas e os prováveis abusos da Lone Star, o fundo abutre que detém a maioria do banco. Essa declaração foi, contudo, atropelada pelo ex-ministro Mário Centeno que, tendo a transferência orçamentada, passou o cheque sem esperar pela auditoria e sem dar cavaco ao Primeiro-Ministro. Na altura, o Presidente da República criticou o gesto.

É, pois, uma questão de bom senso e responsabilidade impedir que mais 478 milhões caiam no Novo Banco sem se apurar os eventuais abusos da Lone Star. O Novo Banco ainda não fechou contas, ainda não apurou prejuízos, nem sequer fez o pedido de capital e até é previsível que venha a pedir mais que os 478 milhões. Quem defendeu que não podia haver novas transferências sem auditoria, pretendia agora dispensar a análise do Tribunal de Contas antes de garantir uma nova injeção? Em nome de quê?

O Governo sempre soube que quer o Bloco quer o PCP estavam contra o contrato de venda à Lone Star, mas sempre recusou negociar com a Esquerda sobre o sistema financeiro. Mas o ponto já é outro: a Lone Star não tem obrigações para cumprir? Pode desfalcar o banco, vender património a preço de saldo (provavelmente a entidades ligadas a si própria) e tapar os seus buracos com as injeções do Fundo de Resolução? Em que planeta é que isto é defender o interesse público e a posição do Estado?

A dramatização ensaiada por dirigentes do Partido Socialista e do Governo – uma decisão “pela calada da noite”, disse um deputado de uma reunião do Parlamento em que ele próprio participou, “uma bomba atómica”, – é artificial, mas não deixa de colocar os socialistas no papel de porta-vozes dos interesses do fundo abutre. Até responsáveis da banca privada manifestam a sua “simpatia pela decisão do Parlamento de pedir maior exigência e transparência nas decisões do Novo Banco com impacto no Fundo de Resolução”, sublinhando que ela “pode ser vista como uma oportunidade para as autoridades subirem a fasquia em termos de exigências futuras ao Novo Banco.”

O que está em causa com a decisão tomada ontem não é o contrato com a Lone Star (por demais ruinoso!), nem sequer o mau acordo com a Comissão Europeia. A garantia do Estado está dada e mantém-se. Só que é no momento de fechar as contas que se decide a injeção e, até lá, o Novo Banco tem que provar que não está a abusar do contrato. Se o Estado comprometesse desde já recursos públicos, sem conhecer a auditoria e sem ter a certeza de que não há abuso, então as auditorias e os inquéritos seriam mera cortina de fumo inconsequente, manobra de diversão destinada a entreter o pagode enquanto os cheques continuariam a ser passados sem contrapartidas.

Quando, em 2019, o PS recusou fazer um acordo com a Esquerda, tomou a decisão de navegar à vista, como se tivesse uma maioria absoluta. A estratégia anunciada era negociar ora com a Direita (como ocorreu com a descentralização, os grandes investimentos, o fim dos debates quinzenais ou a dificultação do direito de petição e de iniciativa legislativa popular), ora com a Esquerda (discutindo essencialmente medidas sociais transitórias), sem qualquer acordo consistente que evitasse a roleta russa orçamental.

Ora, sem maioria absoluta à vista e perante a reorientação do PSD (em viragem para a aliança com a extrema-direita), o PS, se quiser construir uma solução sólida de maioria, necessita de negociar a sério com a Esquerda. Para tanto, não pode limitar-se a algumas “aspirinas sociais” temporárias debatidas em clima de chantagem, mas tem de construir uma resposta a sério à crise instalada e acordar um projeto para o país, capaz de reequilibrar as relações de trabalho, transformar a proteção social, reconstruir os serviços públicos, apostar num investimento que reoriente a nossa economia e substitua o seu padrão de precariedade. Esse é o debate que conta e que vale a pena fazer.