Assim, o Brasil não vai dar certo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/01/2023)

Miguel Sousa Tavares

Sai o general Tapioca, entra o general Alcazar; sai o general Alcazar, entra o general Tapioca: por estes dias, ainda nem um mês se completou sobre a posse de Lula da Silva, o Brasil remete-nos para a descrição que Hergé fez de um qualquer país da América do Sul há mais de 50 anos. Poucas semanas depois de ter sido nomeado, o Comandante-Chefe do Exército, general Arruda, foi demitido para dar o lugar ao general Paiva. A separá-los, duas frases que fizeram toda a diferença: enquanto o primeiro classificou como “manifestantes em democracia” os bolsonaristas acampados em frente ao quartel-general de Brasília, de onde partiram para o assalto à Praça dos Três Poderes, em 8 de Janeiro, o segundo declarou simplesmente uma coisa pacífica em qualquer democracia, que havia que respeitar o resultado das urnas. Porém, as coisas estão longe de ser tão pacíficas assim: comentando a troca de comandos, um tenente-coronel comentou nas redes sociais: “Saiu um patriota, entrou um prostituto do ladrão. Agora venham-me punir, mas muitos outros pensam o mesmo que eu.” O “ladrão”, bem entendido, é como os bolsonaristas — metade dos brasileiros — se referem a Lula, e, de facto, calcula-se que pelo menos 70% dos oficiais, em especial os de média patente, pensem o mesmo que aquele oficial, a quem nada aconteceu até à data.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>

O Brasil tem as segundas maiores Forças Armadas das Américas, só atrás dos Estados Unidos. São 360 mil efectivos profissionais, mais 1,6 milhões do SMO e cinco mil generais na reserva. Todos os profissionais gozam de um catálogo imenso de privilégios de toda a ordem, a que, no tempo de Bolsonaro, juntaram uns milhares de cargos públicos em acumulação e de que eles agora estão a ser dispensados. Esta imensa força militar não tem, para além da patrulha da imensa fronteira norte contra o tráfico de droga, objectivos que a justifiquem: o Brasil não tem nem inimigos externos nem alianças militares de que faça parte. Mas tem, em contrapartida, uma tradição, ainda recente e traumática, de intervenção militar no Governo do país. Para os militares, toda a esquerda representa uma ameaça comunista e para a maioria dos brasileiros as Forças Armadas são a instituição mais fiável do país: por isso os bolsonaristas acampavam em frente aos quartéis, pedindo aos militares que interviessem para reverter pelas armas a vitória de Lula nas urnas. Este é parte do ambiente político em que Lula é chamado a começar a governar.

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Na semana passada, ele reuniu no Palácio do Planalto um curioso grupo de trabalho: dois ministros, três dirigentes empresariais de peso e os chefes dos três ramos das Forças Armadas. O objectivo era demonstrar que os empresários estavam com a normalização democrática e exigir o mesmo aos militares, designadamente a punição disciplinar dos envolvidos nos acontecimentos de 8 de Janeiro. A resposta dos militares foi um “sim, mas”, que na prática não vai significar coisa alguma. Em contrapartida, levavam no bolso a factura a pagar: um submarino nuclear para a Marinha, novos caças para a Força Aérea e tanques para o Exército. Uns biliões a mais para um Governo que diz ter herdado uma tesouraria arruinada. Cautelosa ou esperançosa, a imprensa brasileira finge que ficou tudo bem. Mas não ficou: basta falar com as pessoas no Brasil para perceber que esta normalidade está colada com cuspo. As divisões permanecem irredutíveis e insanáveis, o benefício da dúvida dado ao novo Governo pelos seus adversários é zero e este parece apostado em dar-lhes razão, cavando ainda mais as divisões e repetindo erros passados.

Longe de começar a tentar serenar os ânimos e reaproximar um país dividido ao meio, Lula usou o discurso de posse e o discurso em cima dos acontecimentos de 8 de Janeiro — ambos escritos — para, em tom revanchista e ainda de campanha, atacar quem já fora vencido nas urnas. Na própria campanha, em que precisava de atrair eleitores do centro, não se poupou a excessos de linguagem, como o de chamar aos herdeiros de uma herança “bando de parasitas que sacam dinheiro enquanto o povo está passando fome”. E esta semana, na sua primeira visita ao estrangeiro, na Argentina, prometeu solidariedade, ajuda financeira e “carinho” a Cuba e Venezuela (enquanto o povo brasileiro está passando fome…). Para garantir a necessária maioria no Congresso recorreu ao inevitável ‘centrão’, formando um Governo com 37 ministros, alguns dos quais com processos pendentes por corrupção e alguns outros que fatalmente acabarão a conspirar contra ele dentro do próprio Governo. Mas também tem aliados, e alguns que não se recomendam. Um deles é o presidente do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, um incendiário à solta. Ultrapassando sem freio os seus poderes constitucionais e qualquer disfarce de isenção, o presidente do STF manda investigar, prender, derrubar bloqueios em estradas e tudo o mais que lhe vem à cabeça, usurpando os poderes do Ministério Público e do próprio Governo e tratando antecipadamente por “terroristas” e “criminosos” aqueles que talvez um dia lhe caiba julgar — afinal, a única função que lhe compete. O outro aliado de Lula que não se recomenda (e esta é uma intuição puramente pessoal) é a sua nova mulher, Rosângela, dita Janja, que ele conheceu quando estava preso em Curitiba. Janja tem quase 40 anos a menos que Lula e, mesmo que tentasse, não conseguiria disfarçar a sua ambição, que vai muito para além de ser a primeira-dama do Brasil. Ela não é a mulher por detrás dele, é já a mulher ao lado dele e palpita-me que logo será a mulher à frente dele. Mas há um ditado popular brasileiro que diz que “o que mata velho é queda, vento frio pelas costas ou mulher quente pela frente”. Agora, na sua segunda visita ao estrangeiro, Lula irá aos Estados Unidos, e aí, sim, está o seu grande seguro de vida contra um golpe militar e talvez alguns conselhos de bom senso que Joe Biden lhe possa dar.

2 Pede Augusto Santos Silva que julguemos os governantes pelos resultados e não pela “roupa suja”. É um pedido compreensível, mas é também insustentável. Se nos rendêssemos a essa lógica, acabaría­mos sem pinga de vergonha própria a votar em quem também não teria pinga de vergonha sua. A razão pela qual não nos devem bastar os resultados, mas também que quem nos governa seja gente de carácter e princípios, é porque, no limite, não podemos aceitar a doutrina do “roubo, mas faço”, imortalizada pelo político brasileiro Ademar de Barros. Se bem que não seja bom exemplo, por via dos resultados, custa a acreditar que Pedro Nuno Santos tenha precisado de um mês para se lembrar de que, afinal, tinha autorizado o pagamento de 500 mil euros a Alexandra Reis: sendo mentira, é grave; sendo verdade, é sintomático de uma forma de governar que revela um desprezo profundo pelos contribuintes — e nada disso tem que ver com “roupa suja”. O mesmo se diga dos sucessivos contorcionismos de João Gomes Cravinho para evitar dizer aquilo que era a única coisa exigível que dissesse: “Sim, eu tomei conhecimento da derrapagem do custo das obras do Hospital Militar e nada fiz para as evitar. E depois ainda fui nomear o seu responsável para presidir a uma empresa pública.” Em vez disso, ditou para a acta esta pérola de malabarismo político: “Em nenhuma circunstância se pode imaginar que, não dizendo nada, estava tacitamente aprovado.” Governar assim é fácil, dar-se ao respeito é que é difícil.

3 Quando não são os políticos a enterrarem-se a si próprios, é a frutuosa associação entre a PJ e o “Correio da Manhã” a fazê-lo. Quando são inocentes ou culpados, apenas suspeitos ou nem isso, é a incontinência populista do Ministério Público a crucificá-los todos por antecipação na praça pública. Depois, as investigações, abertas por vezes sem qualquer razão de ser e anunciadas aos quatro ventos, arrastam-se sem destino útil durante anos, liquidando a honra e a vida profissional dos inocentes e dissolvendo no nevoeiro o nome dos culpados, e, na abertura do ano judicial, a PGR queixa-se protocolarmente da falta de meios para concluir todos os inquéritos que os seus serviços gostam de anunciar para os títulos da imprensa. Ou avançam-se outras desculpas, como a que deu o presidente da Associação Sindical dos Juízes, Manuel Ramos Soares: os processos envolvendo políticos arrastam-se longamente porque eles recorrem a advogados “mais competentes”. Ou seja, tivessem eles advogados incompetentes ou defensores oficiosos nomeados pelo tribunal, e que os defendessem mal, e o Ministério Público, vejam lá, trabalharia melhor e mais depressa.

PS: No meu último texto, referindo as câmaras municipais para as quais Luís Montenegro trabalhou, referi Espinho e Ovar, quando foram, sim, Espinho e Vagos. Pelo erro, peço desculpa à edilidade de Ovar e em especial ao seu presidente, Salvador Malheiro.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Só a pluralidade de informação pode prevenir a guerra

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 29/11/2022)

A percepção dos factos varia segundo os indivíduos. Aqui o mesmo símbolo é lido como « 6 » por um e como « 9 » pelo outro.

No mundo inteiro, observamos uma miríade de médias, mas sem nenhum pluralismo entre elas. Todos bebem das mesmas fontes que veiculam a mesma visão dos factos. Ora, todos sabemos que se os factos se passam de uma única forma, a maneira como os apreendemos é variada. Já na década de 80, a UNESCO havia posto em evidência o « imperialismo de informação »; essa maneira de impor uma única percepção e de negar todas as outras. Hoje, esta dominação manifesta-se com os News Checkers. O único meio de nos libertarmos deste sistema é, não o de criar novos média, mas novas agências de notícias.


Após a Segunda Guerra mundial, o Direito Internacional moderno foi estabelecido com a ideia de combater a « propaganda de guerra » (Resolução 110 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 3 de Novembro de 1947 [1] e Resolução 381 de 17 de Novembro de 1950 [2]). Rapidamente, os legisladores internacionais, quer dizer os Estados soberanos, acordaram que não se podia lutar contra a guerra senão velando pela « livre circulação das ideias » (Resolução 819 de 11 de Dezembro de 1954 [3]).

Ora, no decurso dos últimos anos, assistimos a um recuo extraordinário que nos priva do pensamento dos outros, nos expõe à propaganda de guerra e, por fim, nos precipita para um conflito mundial.

Este fenómeno começou com a censura privada nas redes sociais do Presidente em exercício dos Estados Unidos, depois continuou com a censura pública dos média (mídia-br) russos no Ocidente. Agora, o pensamento alheio já não é entendido como um instrumento de prevenção das guerras, mas como um veneno que nos ameaça.

Estados ocidentais dotam-se de instâncias encarregadas de « rectificar » as informações que eles dizem falsificadas (Fake News) [4]. A OTAN pensa na criação de uma unidade, baptizada Information Ramstein, encarregue de censurar já não mais as fontes de informação russas, mas as ideias russas no meio dos 30 Estados membros da Aliança Atlântica [5].

Trata-se de uma completa reviravolta de valores da Aliança Atlântica que foi baseada na continuação da Carta do Atlântico, a qual incorporava as « quatro liberdades » do Presidente Franklin Roosevelt. Sendo a liberdade de expressão a primeira delas.

Ora, antes da invenção da Internet, enquanto os Estados-Unidos e a União Soviética acabavam de garantir a « livre circulação de ideias » com os Acordos de Helsínquia, as Nações Unidas e sobretudo a sua agência na matéria, a UNESCO, inquietavam-se com um « imperialismo de informação ». A superioridade técnica dos Ocidentais permitia-lhes impor a sua visão dos factos nos países em vias de desenvolvimento.

Em 1976, durante a conferência de Nairóbi, a ONU levantou a questão do funcionamento dos média a respeito do « reforço da paz e da compreensão internacional, da promoção dos direitos do homem e da luta contra o racismo, o apartheid e a incitação à guerra ».

O antigo Ministro (Chanceler-br) dos Negócios Estrangeiros irlandês e vencedor do Prémio Nobel da Paz, Seán MacBride, criara uma comissão de 16 personalidades no seio da UNESCO. Ela incluía o Francês Hubert Beuve-Mery (fundador do Le Monde), o Colombiano Gabriel García Márquez (Prémio Nobel da Literatura) e o Canadiano Marshall McLuhan (teórico da comunicação). Os Estados Unidos estavam representados por Elie Abel, então reitor da escola de jornalismo da Universidade de Colúmbia, e a Rússia pelo director da agência Tass, Serguei Losev. Apenas a quinta e última parte do relatório (A comunicação do futuro) foi objecto de um debate geral. A comissão MacBride debateu o rascunho das outras partes, mas não pôde por em questão a sua redacção final. Fosse como fosse, o seu Relatório tornado público em 1978 parecia estabelecer um consenso.

Na realidade, ao sublinhar que os mesmos factos podem ser entendidos de forma diferente e ao elaborar sobre os meios dos média do Norte e os do Sul, ele abriu a caixa de Pandora. Concomitantemente, a UNESCO foi confrontada com a propaganda do regime sul-africano de apartheid e a de Israel, negacionista das culturas muçulmana e cristã. Por fim, os Estados Unidos e o Reino Unido encerraram o debate retirando-se da UNESCO. Sabemos hoje que o Império Britânico havia assegurado o seu domínio intelectual ao criar agências de notícias. O Information Research Department (IRD) foi encerrado por Whitehall (o Ministério dos Estrangeiros-ndT) precisamente antes da publicação do relatório MacBride [6]. Mas a guerra contra a Síria veio mostrar que tal dispositivo foi inteiramente reconstituído sob uma outra forma [7]. Os Ocidentais continuam a falsificar a informação logo na sua própria fonte.

Ao fim de quarenta anos, o panorama mediático transformou-se : apareceram televisões internacionais de informação contínua, sítios internet e redes sociais. Simultaneamente, assistimos a uma gigantesca concentração dos média nas mãos de um punhado de proprietários. No entanto, nenhum dos problemas listados em 1978 mudou. Pelo contrário, com o mundo unipolar eles pioraram.

A profissão jornalística consiste hoje em dia em redigir despachos de agências ou em contextualizar essas notícias para os média. As agências de notícias não têm fontes, são factuais, enquanto os média propõem comentários e análises referindo-se às agências de notícias. A contextualização requer muitos conhecimentos históricos, económicos, etc.. dos quais os actuais jornalistas são em grande parte desprovidos. O imediatismo nas rádios e nas televisões não lhes confere tempo para a leitura de livros e muito menos para a consulta de arquivos, salvo durante investigações de fundo. Assim, os comentários e as análises foram ficando consideravelmente empobrecidos.

A ideologia dominante no Ocidente, que tende a ser « global », tornou-se uma religião sem Deus. Só há dois campos: o do “Bem” e o dos “apóstatas”. A verdade é determinada por um consenso no seio das elites enquanto a população a rejeita. Toda a crítica é considerada blasfema. Já não há mais espaço para o debate e, portanto, para a democracia.

A imprensa alternativa tornou-se tanto mais pobre quanto ela se baseia nos mesmos dados que os média internacionais : os despachos das agências de notícias. Basta, com efeito, controlar a AFP, a AP e a Reuters para nos imporem uma visão dos factos. Pode-se condimentá-la segundo esta ou aquela tendência, republicana ou democrata, conservadora ou progressista, etc., mas acabará por dar sempre o mesmo prato.

Desde os atentados do 11-de-Setembro, os que contestam a versão oficial dos acontecimentos são qualificados de « conspiracionistas ». Desde a eleição de Donald Trump, os que contestam os dados das agências de notícias são acusados de deformar a realidade e de imaginar Fake News (notícias falsas-ndT). Os jornalistas, após se terem interdito de veicular o pensamento dos «conspiracionistas», quer dizer, dos dissidentes, tentam agora “corrigir” as Fake News com Check News.

Ora, no mesmo período, a crença nas versões dos grandes médias afundou. Nos Estados Unidos, o Instituto Gallup avalia a confiança na imprensa escrita desde 1973 e na imprensa audiovisual desde 1993. Assim, a dos jornais passou de 51% para 16% e a das rádios e das televisões passou de 46% para 11%. .

A única solução suporá que se multiplique as agências de notícias, quer dizer, as fontes de informação. Não que as tornemos inúmeras, mas antes diversas. Só então perceberemos que a forma como se relata um acontecimento determina a maneira como acabamos a pensar sobre ele.

Por exemplo, hoje em dia as três agências de notícias citadas acima apresentam o conflito na Ucrânia como uma « invasão russa ». Elas garantem que Moscovo não foi capaz de tomar Kiev e derrubar o Presidente Zelenky, mas que comete crimes de guerra todos os dias. É uma maneira de ver. Não temos os meios necessários para publicar despachos a todo o instante, no entanto editamos um boletim semanal idêntico [8]. O nosso critério é diferente. Baseamo-nos no «Direito Internacional» e não nas « regras » ocidentais. Descrevemos, pois, o mesmo conflito como a aplicação da Resolução 2202 do Conselho de Segurança e da « responsabilidade de proteger » as populações oprimidas desde 2014. Os acontecimentos são os mesmos, mas para alguns a forma como os relatam leva a pensar que os Russos estão errados, enquanto a nossa leva a pensar que a posição russa é legal. Verdadeiramente falando, há uma outra diferença : interpretamos os factos a longo prazo. Para nós e para o Conselho de Segurança, há uma guerra civil na Ucrânia desde há oito anos, a qual provocou 20. 000 mortos, e as três grandes agências fingem ignorá-la. Para nós os « nacionalistas integralistas » têm um longo historial criminoso, que custou a vida a 4 milhões dos seus concidadãos, e que as agências ocidentais também fingem ignorar [9].

Esta diferença pode ser aplicada a todos os assuntos. Por exemplo, as grandes agências de notícias explicam-nos que os Ocidentais lançaram sanções a fim de punir a Rússia por ter invadido a Ucrânia. Nós não lemos os acontecimentos dessa maneira. Mais uma vez, baseando-nos no « Direito Internacional » e não nas «regras» ocidentais, salientamos que as decisões dos Anglo-Saxónicos e da União Europeia violam a Carta das Nações Unidas. Não se trata de « sanções » uma vez que não houve julgamento, mas de armas de teor económico para fazer a guerra contra a Rússia, tal como no passado se sitiava castelos para matar à fome os que aí se tinham refugiado.

Cada diferença na interpretação dos acontecimentos provoca outra a propósito. Por exemplo, como tínhamos salientado que as pseudo-sanções ocidentais não tinham sido avalizadas pelo Conselho de Segurança, respondem-nos que isso é natural, uma vez que a Rússia dispõe de direito de veto no Conselho. O que é fingir esquecer por que é que a ONU foi organizada dessa maneira. O seu objectivo não é o de expressar o Bem, mas, sim evitar guerras. Foi precisamente o que permitiu ao Conselho adoptar a Resolução 2202 para resolver a guerra civil na Ucrânia. Ora, os Ocidentais, apesar do compromisso da Alemanha e da França (Acordos de Minsk-ndT), não a aplicaram, forçando a Rússia a intervir.

Poderíamos continuar esta dupla leitura até ao infinito. O importante é reter que a apresentação dos factos muda radicalmente a maneira como os entendemos. Para finalizar, convido-vos a fundar agências de notícias que descrevam os factos à sua maneira e não mais à dos nossos dirigentes. É desta forma e não glosando informações tendenciosas que recuperaremos a nossa lucidez.

Fonte aqui


[1] « Résolution 110 (II) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 3 novembre 1947.

[2] « Résolution 381 (V) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 17 novembre 1950.

[3] « Résolution 819 (IX) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 14 décembre 1954.

[4] “O Ocidente renuncia à liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2022.

[5] «La OTAN prepara la creación de un “Ministerio de la Verdad”», Voltaire, Actualidad Internacional – N°16 – 25 de noviembre de 2022

[6] Britain’s secret propaganda war, Paul Lashmar e James Oliver, Sutton Publishing, 1998. documentos sobre as origem do IRD foram desclassificados : IRD. Origins and Establishment of the Foreign Office Information Research Department, 1946-48, Historians IRD, History Notes #9, August 1995.

[7] “A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Fevereiro de 2020.

[8Voltaire, actualité internationale é um boletim semanal publicado em seis línguas : alemão, inglês, espanhol, francês, italiano e neerlandês.

[9] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.


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Reduzidos ao código binário do “0” e do “1”

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 15/11/2022)

Enquanto mostravam triunfantes entradas em Kherson  – de mercenários americanos, polacos, ingleses e poucos ucranianos -,  assistidas pela meia dúzia de transeuntes e familiares de militares, oportunamente reunidos para a fotografia, 6 jornalistas da CNN e da Sky News “enganaram-se” e, na ânsia de mostrar os acontecimentos antes de outros, mostraram também o que não deviam: a repressão bárbara aos habitantes russófonos que ficaram para trás. Os 6 apressados “jornalistas” viram retiradas as suas credenciais e foram obrigados a abandonar o país. A situação não estava “estabilizada” disse Zelensky. É assim o país de Zelensky, que se tornou uma versão “estabilizada” para Hollywood filmar.

As imagens de punições sumaríssimas, perpetradas por militares, multiplicaram-se nas redes sociais e, pasme-se, na imprensa empresarial ocidental. Contudo, enquanto nas redes sociais encontrámos as ditas imagens acompanhadas de veementes denúncias contra a barbaridade dos atos em causa, já na imprensa empresarial de Wall Street, o tom era triunfante: os “colaboradores” russos estão a “pagá-las”, isto enquanto mostravam imagens de seres humanos atados a postes, como os esclavagistas faziam aos escravos fugitivos para os castigar (alguém os ensinou, não é?) ou com a cabeça totalmente tapada com fita-cola.

A par do que tem sucedido desde 2014, a imagem de seres humanos ucranianos russófonos suscita tanta rejeição junto dos modelos falantes, funcionários da imprensa de Wall Street, como as imagens de palestinianos mortos a tiro e a sangue frio pelas forças do apartheid sionista. Nem um “ai”. Toda a sua consternação se fica pelos – também desgraçados – escolhidos pelas cartilhas mais ou menos ocultas que recebem. Uns merecem, outros serão sub-humanos, segundo as suas classificações. Quem, como eu e muitos outros, se atravessa e diz: todos merecem a nossa fraternidade por igual, é logo catalogado com um inoportuno: “deves estar na folha de pagamentos de Putin”.

Se dizemos: “esta guerra tem uma história”, “não começou em fevereiro – que é até onde a vossa moleirinha consegue ir, do ponto de vista histórico” -, somos logo reduzidos a “fantoches de Putin” e a propagadores de “desinformação de Putin”. Contar a história toda, desde o início, ato por ato, acontecimento por acontecimento, como deve ser feito, para que quem interpreta possa ter uma visão geral e histórica dos fenómenos, passou a ser “propaganda” e “desinformação”. A “verdade” passou a ser contada como um conjunto de factos isolados, desligados e desagregados da sua sucessão histórica. Assim contados, os factos isolados permitem uma manipulação fácil, mantendo escondidos os reais atores em confronto, ou mostrando apenas os atores que se pretendem estigmatizar, concentrando o foco nos factos que apenas estes iluminam.

E é esta lógica que justifica que se transmitam notícias como as que mostram a Itália de “Benita” Meloni desavinda com a França de Macron “Mackinsey”, por causa dos barcos de refugiados vindos do Mediterrâneo, sem nunca, mas mesmo nunca, colocarem o dedo na ferida. É que, a par do gangue democrata de Obama nos EUA e da França de Sarkozy e da Itália de Berlusconi, não encontramos no mundo maiores responsáveis pela destruição da Líbia, que constituía um verdadeiro muro “à prova de migrantes” para a Europa. A par da Síria, da Jordânia, Tunísia ou Argélia, a Líbia era um dos maiores recetores de migrantes subsarianos. Hoje, nem ficam com eles, como é da própria Líbia e, agora já não tanto, da Síria, que tanta gente vem. Estes três enormes “democratas” e líderes do mundo “livre” destruíram a vida de dezenas de milhões de pessoas, sendo que, se a Síria com a ajuda dos “ditadores” do costume lá vai recuperando a sua dignidade, na Líbia vendem-se escravos e armas (vindas, quiçá, da Ucrânia) a céu aberto.

E assim se dividem os bons e os maus, o ditador e o democrata, o livre e o oprimido, partindo daí para o cancelamento de tudo o que é contrário ao que se diz, ou identifica o que se cala. Quem está do outro lado do ecrã e vê apenas a imprensa de Wall Street (que é a que aparece nas TV’s, jornais e nas primeiras 50 ou 60 páginas do Google sobre o assunto, nas notícias sugeridas e nos clippings recebidos ), passa a construir a sua opinião por reação e não por dedução, indução, integração… A mente da maioria dos passivos transeuntes digitais funciona como o sistema binário do computador – ou é “1” ou é “0”. Qualquer posição intermédia tem de ser, necessária e forçosamente, arrastada para o 0 ou para o 1.

Enquanto mostram os pouquíssimos residentes restantes – nunca contando que de uma cidade de 280.000 habitantes, só já restavam 115.000 -, a esmagadora maioria dos quais pobres, que não puderam sair para este ou para oeste, e que, só com a ajuda russa, a quase totalidade pôde sair dos alvo da artilharia de Zelensky, normalmente apontada aos civis e não aos militares, como método de punição coletiva, bem conhecida da história, a imprensa de Wall Street nunca diz que, mesmo assim, restaram alguns pobres ucranianos ucranianófonos, vivos e alimentados, o que já não acontecerá aos russófonos que também por lá ficaram. Mais uns dias e também aparecerão as célebres “câmaras de tortura”, “camiões crematórios” e “valas comuns” ou “corpos nas ruas”, todas “culpa” dos mesmos de sempre. Há que fazer alguma coisa com os corpos destes desgraçados, que como os outros, nada têm a ver com esta guerra, mas que a pagam bem caro. No final da estória da carochinha e do João ratão, Zelensky  é “democrata”, Putin um “ditador”. O “0” e o “1”, para que as cabeças – pouco – pensadoras do ouvinte, compreendam bem e depressa a mensagem a passar.

E a mensagem é bem trabalhada. Ora veja-se só a “Integrity Initiative” (Iniciativa pela Integridade – esta da Iniciativa, diz muito, muito). Esta iniciativa visa, segundo o documento explicativo “defender a democracia contra a desinformação (tradução do inglês) ”.

Nascida do “Disinformation Governance Board”, o órgão governamental criado pelo gangue Biden para combater a desinformação na Internet e que se tem comportado como um verdadeiro “Ministério da verdade”, mandando censurar o que não cabe na sua definição de “verdade” e propagar o que classifica como tal, esta “Integrity Initiative” é gerida por Nina Jankowicz (vão sempre aos russófobos do leste europeu), e trata-se de uma ONG americana, financiada de forma obscura pelo governo Inglês e Americano, recorrendo a outra ONG sediada na escócia – o “Institute for Statecraft” (Instituto para o “Estadismo”).

E o que faz esta Integrity Initiative? Dedica-se a operações encobertas nos países ocidentais sob a capa do combate à “desinformação”. Esta organização é a responsável pela estereotipada e nada dissonante informação internacional que recebemos de todos – TODOS – os órgãos de imprensa empresarial nos países ocidentais e demais colónias no Pacifico. E como o faz?

Esta ONG organiza clusters (núcleos) de influenciadores por cada país, identificando académicos, jornalistas, burocratas da segurança nacional, lobistas, membros de grupos de reflexão e outros profissionais que influenciam toda uma rede informativa a partir daí construída. Estes “líderes” nacionais, passam a estar ligados a pessoas de contacto da ONG (que podem ser do Departamento de Estado, da CIA, da NSA; do MI6…) que fornecem a informação a passar.

Estes influenciadores, regra geral pouco conhecidos do público, como convém, têm de ser gente inteligente e capaz de dar solidez teórica à informação recebida, bem como ter capacidade de liderança para agregar os destinatários (jornalistas, comentadores, diretores de imprensa…) à sua volta. Mas estes influenciadores não se limitam a receber, mastigar e transmitir. Não. Também identificam linhas de “desinformação”, para que sejam “trabalhadas” por quem tem capacidade de decisão, normalmente gente que está para lá das pessoas de contacto da ONG. Trata-se de uma organização com comunicação bidirecional.

O resultado é uma cartilha. Esta cartilha estabelece as regras informativas – literalmente o que dizer em cada situação – relativamente a “fact-checking”, “interpretação de imagens”, “versões relativas a acontecimentos diversos” e “metodologia de análise”.

Mas a cartilha também tem regras sobre recrutamento, que perguntas fazer para se identificarem “pessoas de confiança” e tudo o mais. É o que podemos chamar de Psyop, ou seja, um bom exemplo de operação de guerra psicológica.

Já antes havia falado do esquema de funcionamento da operação informativa sobre o conflito. Esta Integrity Initiative trata de alimentar essa operação com informação e atores. Eis porque ouvimos as mesmas coisas, vindas de pessoas e órgãos que se dizem diferentes. Tudo estaria bem se fosse transparente, se as pessoas fossem avisadas de que o que estão a ouvir vem de onde vem. Mas não, o objetivo é precisamente o contrário, pois é essa opacidade que baixa as guardas mentais de quem está do outro lado da informação. Podem ver mais detalhes aqui (países, listas de pessoas, financiamento.

Esta operação demonstra que não existe “informação livre” e que, ou vemos para além desta barreira de imprensa empresarial, um mero negócio lucrativo e um poder, não democrático, de manipulação de massas, ou seremos reduzidos a um mero processador que calcula entre “0” e “1”. Mas esta operação mostra, também, que a guerra era preparada e pensada há muito – como sabe quem segue a história – como parte de uma estratégia de domínio muito importante.

Este trabalho “encoberto” em matéria de informação não constitui, propriamente, uma novidade, pois é o próprio Frank Snepp, ex-agente da CIA (reformado) que vem confessar que, ele próprio, usando esquemas como as da Integrity Initiative, fez passar na comunicação social ocidental todo um rol de notícias falsas. Ele disse “falsas”. Do tipo daquela que deu a Associated Press sobre Lavrov, dizendo que ele tinha sido hospitalizado. Afinal era mentira e a AP não tem qualquer fonte para mostrar.

Não sei o que teve a ver, mas a verdade é que o grupo de selvagens composto pelos “líderes do mundo livre”, como não conseguiu que o G20 aprovasse uma resolução a condenar a Rússia (falha o tal isolamento internacional), decidiram boicotar a célebre foto de grupo. Uma vez mais, é a lógica binária, a do “0” e do “1”.

Seja como for, estes conflitos têm uma importância reverencial para o Partido Democrata americano. Uma investigação jornalística descobriu que parte dos fundos multimilionários que são, por ordem de “Toy” Biden, transferidos para a Ucrânia, retorna aos EUA sob a forma de cripto moeda, envolvendo uma empresa chamada FTX. É o próprio Banco Central da Ucrânia que, através de um “protocolo” com a FTX, transforma a moeda local (que nada vale nos EUA) em algo que possa financiar o partido. Nada que admire, tal o nível de corrupção daquele regime.

E enquanto passam o mundo a preto e branco, eis que, o resultado da volta turística de Scholz à China já se faz sentir: a BASF vai deslocalizar-se. Mais uma empresa europeia que vai embora. Se bem que, convém assinalar, não é para os EUA que vai, como esperaria “Toy” Biden, que com a estratégia de inflacionamento dos custos energéticos na EU, esperaria ver uma digressão em massa de grandes corporações para a Califórnia. Não… Vão para onde mais cresce a economia. Como seria de esperar. Mas cumpre um dos objetivos: afastar a Europa do seu papel de competidor dos EUA: e com ajuda da própria.

Uma vez rebentado o Nord Stream, desvalorizado o euro e adquiridos biliões de dólares em imobiliário nas nossas cidades, já dá para encetar negociações (já não tão) secretas em Ankara com a Rússia e tentar aliciar a China de Xi. Não me parece que Xi vá na conversa do “democrata” Biden… É assim com os “ditadores” modernos: raramente se vendem. E depois, lá vem de novo o “0” e o “1”.


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