Não foi por acaso

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 19/05/2022)

Ao contrário da Administração anterior, Biden vê a eliminação de Moscovo como um passo determinante e necessário antes da confrontação militar com a China, e assim dominar a Eurásia, o seu o último objetivo.


A expressão pertence a John Kirby, porta-voz do Pentágono, quando se referia à excelência do desempenho das forças armadas ucranianas no campo de batalha, resultante da preparação a que foram submetidas durante oito anos, pelos EUA e seus aliados (Canadá e Reino Unido). Uma série de declarações semelhantes proferidas por altos dirigentes norte-americanos ajudam-nos a compreender o que está verdadeiramente em jogo no conflito na Ucrânia.

Sem recorrer ao mais do que citado Brzezinski e às suas teorias do pivô estratégico, relembro os discursos de Joe Biden em que afirmava ser a expansão da NATO para os Estados Bálticos a única coisa que poderia provocar uma resposta hostil e vigorosa da Rússia, ou as suas mais recentes afirmações, em Varsóvia, apelando a uma operação de mudança de regime em Moscovo, o que na prática se traduz na intenção dos EUA substituírem Putin e o poder presentemente instalado no Kremlin por um regime subsidiário de Washington.

O confronto dos EUA com a Rússia é apenas um dos capítulos do projeto da afirmação hegemónica global de Washington, que visa, entre outros aspetos, afetar as relações da Rússia com Europa, e as veleidades europeias de autonomia estratégica, nomeadamente quebrar o comércio e o investimento bilateral com a Rússia e a China.

Isso passa, entre outros aspetos, por impedir a entrada em funcionamento do Nord Stream 2, tornar a Europa dependente do gás americano, viabilizar uma indústria com elevado break even, assim como os bancos que a financiam, bloquear a implementação dos acordos celebrados entre a Europa e a China, e inviabilizar economicamente os corredores euroasiáticos da “Uma Faixa, Uma Rota”, com passagem pela Rússia e fim na Europa, impedindo o aprofundamento das relações comerciais e investimentos mútuos europeus com a China e a Rússia.

A guerra na Ucrânia serve estes propósitos, e por aquilo que já conseguiu representa, pelo menos no curto prazo, uma vitória dos EUA. Permite guerrear um dos seus arqui-inimigos, fora do território norte-americano, sem necessitar de empenhar soldados norte-americanos. Ao contrário da Administração anterior, Biden vê a eliminação de Moscovo como um passo determinante e necessário antes da confrontação militar com a China, e assim dominar a Eurásia, o seu o último objetivo.

A Ucrânia está a ser utilizada pelos EUA como um instrumento para provocar uma reformulação drástica da geopolítica global. Importa, pois, perceber como é que o problema ucraniano se insere na manobra geoestratégica norte-americana para debilitar a Rússia, torná-la um Estado pária e instalar no Kremlin um regime fantoche que dê a Washington acesso aos seus recursos naturais. Se possível, impor a Putin o mesmo destino de Sadam Hussein. Como afirmou o Secretário da Defesa Lloyd Austin, “temos de enfraquecer a Rússia”. Ou, se quisermos, ecoando as palavras do ex-comandante do Exército dos EUA, na Europa, Ben Hodges, temos de “quebrar as costas da Rússia”.

Por isso, não há pressa em procurar uma solução política para o conflito, mas sim prolongá-lo até exaurir o oponente. A solução política só ocorrerá quando a Rússia não puder mais e soçobrar, não tendo outra alternativa que não seja aceitar as condições que lhe forem impostas por quem estiver na mó de cima. Por isso, o Secretário-Geral da ONU António Guterres veio dizer que não se encontram reunidas neste momento condições para uma solução pacífica do conflito.

Os objetivos dos EUA ficaram claros quando foi dito publicamente, para quem ainda tivesse dúvidas, que esta guerra visava destruir a Rússia como uma potência militar. Enquanto isso não acontecer será impossível obter um acordo de paz. É necessário que Rússia esteja suficientemente desgastada e o admita, e que preferencialmente uma revolta popular possa instalar um novo governo em Moscovo. Esta estratégia foi recentemente confirmada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros português João Cravinho.

Será difícil aceitar que os 53 mil milhões de dólares que Washington se prepara para atribuir, em menos de três meses, à Ucrânia – um valor que supera o orçamento de defesa conjunto da Polónia e de Israel, e se aproxima muito do orçamento de defesa russo, para além dos cinco mil milhões de dólares que a Secretária de Estado Adjunta Victoria Nuland se gabou de ter investido nos partidos neonazis da Ucrânia, que participaram no golpe de Estado em Maiden, em 2014 –, se enquadrem no combate titânico e sem quartel das democracias contra as autocracias, quando Biden procura convencer os líderes do ASEAN a juntar-se às sanções contra a Rússia, um fórum composto maioritariamente por autocracias.

Se a invasão da Ucrânia é, sem qualquer margem de dúvida, uma violação do direito internacional – como foram as operações dos EUA em muitos outros locais, nomeadamente no Iraque, sem provocarem o clamor nas opiniões públicas ocidentais que esta está a provocar – faz sentido do ponto de vista geoestratégico. A Rússia comportou-se do mesmo modo que os EUA e a China se comportaram em situações semelhantes, quando uma potência hostil se intrometeu e atuou no seu “quintal geoestratégico”. De um modo bastante inteligente, Washington consegue combater a Rússia, fazer Moscovo sangrar, sem morrerem soldados norte-americanos, utilizando os descartáveis ucranianos, procedimento que os afegãos têm ainda bem presente.

Em frontal desrespeito pela Resolução do Conselho de Segurança da ONU (2202/2015), que certificava os acordos de Minsk, as Forças Armadas ucranianas preparavam-se para resolver a questão russa na Ucrânia com o recurso à força, e na continuação recuperar a Crimeia. Já em março de 2021, Zelensky tinha sido muito claro sobre as suas intenções relativamente ao Donbass. Washington estava plenamente ciente de que este caminho tinha riscos e ia provocar a reação militar russa, não fazendo nada para o evitar, pelo contrário. Isso não impediu que instigasse a ação belicista ucraniana contra o Donbass, um ataque relâmpago organizado por conselheiros norte-americanos e britânicos, a ter lugar em março de 2022. Moscovo antecipou-se, e invadiu preemptivamente a Ucrânia.

Neste Great Game, surge uma União Europeia (UE) desorientada, sem que se perceba qual será o espaço que pretende ocupar na ordem internacional que começa a emergir. Preferiu abdicar de uma relação de par inter pares com a Rússia, para abraçar uma relação de subalternidade – política, económica e geoestratégica – com Washington. No primeiro caso, teria condições para se projetar como um ator político global de primeira grandeza, no segundo, não passará de um apêndice geoestratégico.

Sem recursos energéticos e matérias-primas (o colonialismo não vai voltar), a Europa está condenada a ser sempre dependente de alguém. A dependência da energia russa era recíproca (os euros davam muito jeito ao Tesouro russo) e vantajosa para ambas as partes, e o baixo preço do gás russo permitia uma economia europeia competitiva, modelo de desenvolvimento económico agora colocado em causa.

A UE terá agora de identificar novas dependências e cadeias de abastecimento, que não lhe serão tão favoráveis como aquelas que tem utilizado. Em vez de comprar gás, petróleo, minérios e cereais à Rússia, irá comprá-los mais caros noutros locais, nomeadamente aos EUA. Vítima do retrocesso da globalização e dos obstáculos ao comércio livre que se avizinham, a Europa terá as suas capacidades competitivas irremediavelmente afetadas, ficando à mercê das iniciativas protecionistas de outras economias. O Euro já está a ser uma das vítimas desse processo.

Perante a abundante evidência de ingerência política externa na Ucrânia, interrogamo-nos sobre o que será ainda necessário trazer à colação para os europeus perceberem que estão confrontados com uma proxy war no seu território, com potencial para se transformar numa confrontação militar mundial, e deixarem ingenuamente de acreditar em argumentos com pouco valor explicativo, como sejam uma invasão não provocada, áreas de influência, o direito de estabelecer alianças com quem se quiser, sobretudo quando isso apenas se aplica aos outros.

Só uma acrisolada fé os pode fazer acreditar que a guerra na Ucrânia se trata de um confronto entre as democracias e as autocracias.


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A batalha para conquistar as mentes na guerra da Ucrânia 

(Diana Valido Cernuda, in https://espanol.almayadeen.net/, 11/05/2022)

Para além do que acontece no terreno, a partir das redes sociais e dos meios de comunicação social começa o ponto de partida para outra luta. A chamada guerra cognitiva contra a Rússia. 

A operação militar russa na Ucrânia, como o Presidente Vladimir Putin lhe chamou, ou “a invasão russa”, como os meios de comunicação ocidentais a descrevem, teve início em Fevereiro de 2022. Contudo, muito antes disso, as principais plataformas de comunicação social estavam a preparar o cenário para a guerra, a batalha para conquistar as emoções das pessoas a fim de definir o rumo que o conflito tomaria a partir do próprio ambiente digital….


Continuar a ler no link abaixo:

A batalha conquistar as mentes na guerra da Ucrânia – Cuba Soberana


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Operações psicológicas e a Ucrânia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/05/2022)

A Ucrânia é um Estado onde prevalecem oligarcas poderosos e interferências externas constantes, com um sistema político eleitoral precário, acossado por milícias extremistas armadas de cunho racial-nacionalista.


O desconhecimento é frequentemente a base das grandes certezas. A concordância de ocasião com o facto de a verdade ser a primeira vítima da guerra não nos defende. A moldagem de atitudes e comportamentos das audiências, levada a cabo pelos especialistas em operações psicológicas utilizados pelos litigantes, é mesmo algo real.

Isso aplica-se à guerra e ao modo como as partes envolvidas num conflito se esforçam por captar aderentes. Não há grupo social que lhes escape, independentemente do nível de literacia e da classe social. Não é por acaso que os litigantes contratam empresas de relações públicas para propagarem argumentos, premissas e perspetivas que lhes sejam favoráveis.

Os muçulmanos e croatas bósnios recorreram intensamente a empresas de relações públicas, atores incontornáveis e centrais no planeamento e execução de operações psicológicas. Certamente é o que sucede agora na Ucrânia. Mais de 150 empresas de relações públicas, milhares de especialistas, dezenas de agências noticiosas, meios de comunicação de prestígio, canais Telegram, contas no Twitter, bem como os meios de comunicação social participam na formatação das opiniões públicas.

Quando James Harff, diretor da Ruder Finn, uma empresa de relações públicas norte-americana contratada pelos governos da Croácia (agosto 1991) e da Bósnia-Herzegovina (junho 1992) e, mais tarde, pelos separatistas albaneses da província sérvia do Kosovo (outubro 1992), foi questionado sobre qual o feito de que mais se orgulhava, respondeu: “Colocar a opinião pública judaica do nosso lado [croata e muçulmano]… havia todas as razões para que intelectuais e organizações judaicas fossem hostis aos croatas e muçulmanos.

O nosso desafio era reverter esta atitude. E nós fizemos isso magistralmente. Foi um tremendo golpe…”. Sem dúvida. Organizações judaicas chegaram a organizar uma manifestação em Nova Iorque contra os “nazis sérvios”, por acaso o único grupo étnico da região que, durante a Segunda Guerra Mundial, combateu as forças do Eixo, enquanto croatas e muçulmanos foram muito para além do colaboracionismo, perpetrando massacres e assassinatos dos outros grupos étnicos, com os sérvios à cabeça.

As operações psicológicas produziram efeitos. Nos anos 90 colocaram largos setores da opinião pública europeia, nomeadamente intelectuais de esquerda, ou seja, quem tinha, em princípio, mais razões ideológicas para fazer oposição, ao lado e a defender quem no terreno saudava com o braço direito esticado ou mantinha relações promíscuas com a Al Qaeda. Ingenuamente, as questões geopolíticas associadas e causadoras do conflito foram menosprezadas, com o contributo ativo dos “temas e mensagens” criadas e desenvolvidas por spin doctors.

Esta prática repete-se hoje. No conflito da Ucrânia a manobra psicológica existe, e é intensa e capaz. Os operadores de operações psicológicas têm feito prevalecer “explicações” para o conflito, que apesar de apelativas, pouco ou nada explicam, escamoteiam as suas causas e marginalizam o discurso racional e analítico. Como sejam, por exemplo, apresentar um confronto (de great power politics) que recorre a uma proxy war (na Ucrânia), como uma guerra entre democracias e autocracias, ou como um ato tresloucado de um líder russo que sonha com a reconstituição do antigo império soviético.

Equações em que se tem de estar do lado dos “bons” para não se ser empurrado para o lado dos torpes e torcionários. Uma postura kafkiana que reduz o debate a níveis extremamente perigosos, envolvendo insultos e acusações provocatórias.

Nenhuma daquelas categorias explica seja o que for. A Ucrânia é um Estado onde prevalecem oligarcas poderosos e interferências externas constantes, com um sistema político eleitoral precário, acossado por milícias extremistas armadas de cunho racial-nacionalista, onde prospera a corrupção, a perseguição, o medo, o assassinato político, a ilegalização de partidos, o controlo da comunicação social e a reabilitação histórica de líderes nazis.

Em 2021, o presidente da república ucraniana promulgou a “Lei dos Povos Autóctones”, que divide a população ucraniana em duas categorias, algo muito contrastante com os “valores ocidentais”. Ou seja, em matéria de regime político dir-se-ia que a Ucrânia se assemelha muito à Rússia, mas para pior.

Seguindo o princípio de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, como no passado, em que Washington se aliou às forças mais obscurantistas da América Central e do Sul para derrubar governos democraticamente eleitos que não lhe eram politicamente favoráveis, também na Ucrânia, Washington não teve pudor em se aliar aos seguidores de Stepan Bandera, cujos dirigentes apelam ao bombardeamento nuclear de Moscovo.

Entretanto, na região mais ocidental da Eurásia, a intransigente defesa da “democracia” ucraniana justifica a libertação da dependência do gás russo, em troca pela dependência do gás americano mais caro do que o russo, viabilizando uma indústria, que não fosse esta guerra dificilmente atingiria o break even, de modo a salvar os bancos que a financiaram.

Assim se perderão vantagens competitivas relativamente às economias asiáticas, correndo-se o risco de um mix fatal: armamentismo, hiperinflação, depressão económica e classes médias desesperadas. Para não falar da impossibilidade de aceder a matérias-primas fundamentais para o seu desenvolvimento, de que a Rússia é um importante produtor mundial, e que escasseiam na região mais ocidental da eurásia. Tudo por causa da adesão da Ucrânia à NATO e da sua neutralidade estratégica, algo para o qual Kissinger, entre outros, já tinha avisado há algumas décadas.

Como no conflito da Bósnia, em que a Europa desconsiderou, e de certo modo legitimou, a promiscuidade muçulmana bósnia com o fundamentalismo terrorista muçulmano, também se verifica agora na Ucrânia o branqueamento e a vulgarização de forças neonazis, que florescem não só na Ucrânia, mas por toda a Europa, não escapando Portugal a essa rede. Mais uma vez, largos setores sociais estão a ser levados na torrente informacional ao ponto de alguns legitimarem e validarem a associação e aliança com as forças mais obscurantistas da sociedade ucraniana.

Alguma imprensa nacional já se atreveu a apresentar os militantes Azov como heróis libertários. A mesma lógica justificou a libertação de um neonazi português das suas responsabilidades judiciais, para ir em “ação humanitária” combater na Ucrânia. Isto ocorre em Portugal, 48 anos depois do 25 de Abril. Está a acontecer, e à vista de todos. Não poderão ser evocadas desculpas se vier a ser tarde demais.


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