Da amiga Olga ao Pipi da Malveira, uma história de degradação

(Luís Rocha, in Facebook, 11/10/2026, Revisão da Estátua)


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A TVI sempre foi uma merda. Não é uma conclusão científica, reconheço, mas há coisas que a experiência, o sofrimento e umas quantas horas de televisão ao longo da vida ajudam a estabelecer com uma segurança quase laboratorial. Desde os tempos em que nasceu a cuspir hóstias e a aborrecer a população com a amiga Olga, passando pelos Big Brothers e chegando à fragrância televisiva do Pipi da Malveira, debitada em decibéis capazes de fazer uma pessoa reconsiderar a sua relação com a espécie humana, a TVI tem sido uma espécie de penitência nacional com intervalos para publicidade.

Aquilo não é propriamente uma estação de televisão. É uma ETAR audiovisual onde se faz a reciclagem de indignações, a compostagem de neurónios e o tratamento de resíduos culturais que, noutros países, provavelmente exigiriam intervenção da Protecção Civil.

Mas a coisa torna-se mais interessante quando a estação decide brincar aos alquimistas da informação. Desta vez, a propósito da presença de Barack Obama em Lisboa, a TVI foi buscar uma fotografia antiga do antigo presidente norte-americano com José Sócrates. Uma imagem de arquivo, de outros tempos, utilizada para acompanhar uma notícia actual.

 E a pergunta impõe-se. Não havia uma fotografia mais recente de Obama ou a ideia era aproveitar a ocasião para fazer uma pequena transfusão de desgraça entre as duas figuras públicas?

Não sou propriamente um admirador incondicional de Obama. Não lhe rezo o terço, não tenho um retrato dele na mesa de cabeceira e nunca senti necessidade de tatuar “Yes We Can” numa nádega. Por isso, estou perfeitamente à vontade para dizer que uma coisa é criticar Obama pelo seu percurso político, pelas suas decisões e pelas contradições entre o discurso e a prática. Outra, bastante diferente, é utilizar uma fotografia antiga com José Sócrates para deixar no ar uma associação que dispensa palavras, mas não dispensa intenções interpretativas.

É um truque velho, embora continue a funcionar junto de quem confunde jornalismo com a arte de pôr imagens a conversar com as alminhas mais vulneráveis. Junta-se uma figura cujo nome provoca urticária em metade do país, a outra que ainda conserva algum prestígio internacional, e deixa-se a foto fazer o trabalho sujo. Não é preciso escrever nada. O cérebro do espectador, devidamente treinado por anos de televisão de digestão difícil, trata do resto. Dois homens na mesma fotografia, logo duas biografias moralmente equivalentes. A lógica é de uma subtileza estonteante, ao nível de concluir que dois indivíduos fotografados à porta de uma farmácia partilham a mesma doença.

Será que não havia uma imagem actual de Obama? Claro que havia. A visita estava a acontecer, as câmaras estavam a trabalhar e a Internet não tinha entrado em falência técnica. Mas uma imagem recente talvez não servisse tão bem a coreografia da associação. E, se a fotografia não estava identificada como arquivo, a questão do rigor jornalístico torna-se ainda mais pertinente. Não basta que uma imagem seja verdadeira. Também importa saber se a maneira como é apresentada transmite uma ideia verdadeira.

É aqui que eu acho que a conversa da manipulação geral das cabecinhas deixa de ser apenas sobre a TVI e passa a ser sobre a nossa indústria da comunicação, esse admirável ecossistema onde a informação, o entretenimento e a propaganda partilham instalações sanitárias e, por vezes, nem sequer puxam o autoclismo.

Em Portugal, os projectos mediáticos parecem ter descoberto uma fórmula genial de negócio particularmente rentável. Alimentar ressentimentos, transformar suspeitas em certezas e tratar o público como um rebanho que só precisa de receber a dose diária de indignação para continuar a pastar. A política é reduzida a fotografias, os problemas sociais a confrontos de estúdio e a realidade a uma luta entre bons e maus, com a sofisticação intelectual de um desses campeonatos de bofetadas.

 Passamos horas a despejar lixo mediático para dentro das casas das pessoas e, quando o pensamento crítico começa a cheirar a cadáver, culpamos a escola, os imigrantes, os professores ou a falta de autoridade dos pais. Nunca o produto.

As televisões rascas não são a única causa do que está errado neste país, mas fazem parte do problema quando trocam o rigor pela insinuação e a responsabilidade editorial pela manipulação emocional. E fazem-no perante um público que nem sempre dispõe das ferramentas culturais para distinguir uma notícia de uma operação de condicionamento.

É um negócio perfeito. Uns fabricam a indignação, outros consomem-na e ficam convencidos de que estão muito bem informados.

No fim, a fotografia de Obama com Sócrates talvez seja apenas uma fotografia antiga. O que interessa é perceber o que a televisão pretende que vejamos nela. Porque, neste país, até uma imagem de arquivo pode ser promovida a argumento político, desde que haja uma câmara, um preconceito disponível e espectadores suficientemente habituados a engolir tudo sem ler o rótulo.

A TVI pode continuar a servir o seu cozinhado. O problema é que, quando uma estação confunde jornalismo com sugestão maliciosa, já não está apenas a vender televisão. Está a testar a capacidade digestiva de uma democracia.

E com tanta merda servida à mesa, a questão não é haver gente a pensar mal.

É o milagre de existir quem ainda consiga ser capaz de pensar…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.rtp.pt/…/obama-em-lisboa-desafio-da-ia…

https://www.rtp.pt/…/seguro-recebeu-obama-em-belem-para…

https://www.presidencia.pt/…/presidente-da-republica…

https://rr.pt/…/seguro-recebeu-obama-no-palacio…/488698

https://observador.pt/…/obama-vem-a-lisboa-em-outubro…

Proibir, punir e fazer dinheiro

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 23/09/2026, Revisão da Estátua)


A respeito da repressão da palavra, importa ter presente que as chamadas redes sociais ocupam o lugar que outrora coube aos cafés e, antes destes, à praça pública. Nas sociedades antigas ou, se preferirmos, pré-modernas (e pré-industriais), a palavra era, apenas ou quase apenas, a palavra falada; daí a importância que o género político discursivo ocupou na literatura clássica (i.e. na Grécia e em Roma) e a parenética (semões) na literatura sagrada medieval, proferida dos púlpitos ou nas pregações públicas. A opinião pública era não mais que o burburinho que ocorria na praça (ágora ou no forum e, depois, na feira), nos recintos sagrados e nas disputas que se produziam nas assembleias comunais e municipais, ou no adro e recintos fronteiros dos templos.

Como o Estado quase mal intervinha na educação, nem perseguia qualquer esforço pedagógico, a liberdade da palavra era um risco ou uma arriscada liberdade pessoal, como a seu tempo demonstrou com brilhantismo Moses Finley no seu Política no Mundo Antigo. Contudo, para o poder, era difícil controlar a espontaneidade da palavra, da conversa pintalgada de desabafos, intrigas e anedotas maliciosas. A repressão era individualizada e caía sob a forma de prisão e exílio sobre o indesejado propalador de ideias subversivas, chegando mesmo à morte em situações extremas, tal como a imputada «corrupção moral da juventude» que causou a perdição de Sócrates. No que à esfera religiosa respeita, recorria-se a penas espirituais que a Igreja aplicava, as quais, por vezes, acabavam em excomunhão e entrega e condenação ao braço secular da justiça.

Depois, a «opinião pública» passou em crescendo a dominar a leitura e a escrita, pelo que o centro de gravidade das relações entre o Estado e os cidadãos, ou entre os cidadãos entre si, transitou para os jornais-gazetas e os livros. Por mais que o poder quisesse exercer vigilância e aplicar punições, as censuras viam-se a braços com grandes dificuldades, pois o exame prévio ou o nihil obstat eram mil vezes violados pela edição clandestina que não parava de crescer e corria de mão em mão. A censura e as penas aplicadas eram, assim, quase ineficazes.

Hoje, com a transição das galáxias de Gutenberg e de Marconi para a presente galáxia do algoritmo, a opinião pública não é mais a «opinião que se publica» nos jornais, nas rádios e nas TV’s, mas um direito ao alcance de todos. Cada um é um jornal, uma rádio ou uma TV.

Os jornalistas, agentes do poder ou dos poderes em conflito pelo poder, têm sido os mais encarniçados inimigos das redes sociais. Perderam o monopólio da palavra, deixaram de exercer o domínio do discurso, pelo que se compreende a raiva repressora e censória que sistematicamente exibem.

Ora, como a comunicação dita social não é o tão gabado 4º poder, mas a emanação do principal poder que se entranhou e confundiu com o Estado, ou seja, o 4º poder (o poder da Finança), não é de estranhar que esta, detentora da Big Tech, arrepie caminho e queira estrangular a verdadeira opinião pública que lhe fugiu ao controlo.

Estou certo que na actual deriva autoritária, censória e estranguladora da palavra que tomou o liberalismo, as redes sociais serão eliminadas ou postas a render por pagamento de perfil, por forma a que a máquina de fazer dinheiro do capitalismo não só domine, mas ganhe com o negócio da palavra algemada.

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Ireneu Teixeira – a Padeira da Geopolítica

(Luís Rocha, in Facebook, 10/09/2026, Revisão da Estátua)

Gente Boa. Passarei a estar convosco apenas aos domingos, em hora a anunciar em breve. Avisarei sempre que houver alguma alteração na programação. Obrigado por existirem na minha vida.

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Há uns tempos que tenho Ireneu Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos, lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW, deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue encolher em tempo real.

Ireneu é apresentado como comentador de política internacional, o que é uma classificação extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser a de um turista com um mapa de pernas para o ar.  Olha para ele, acha tudo muito interessante e depois vai parar a outro país.

 Em 2024, apresentou no NOW um vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro, explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para confirmar a informação.

É uma metodologia extremamente interessante.

 Antigamente verificava-se a notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se na televisão e logo se descobre o que era.

A ERC acabou por considerar que o NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de WhatsApp em política internacional.

Depois veio o episódio do suposto dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa, porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário internacional.

 E finalmente chegámos a Ceuta, ou melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões.

Toulouse em Ceuta, França em Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.

 É difícil errar tanto sem começar a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.

 Depois veio a fabulosa história da Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou como falsa.

 Mas nada disto se compara à monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a Restauração da Independência, em 1640.

São apenas 255 anos de diferença, uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois de inventarem a internet.

 O problema é que Ireneu não comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações, terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas sugestões.

 E talvez seja essa a verdadeira inovação.

Já não precisamos de correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente flexível com a verdade.

 Ireneu conseguiu transformar a política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na Restauração.

Há pessoas que explicam o mundo.

 Ireneu prefere inventá-lo.

 E fá-lo com aquele ar solene de quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a realidade se sinta intimidada e vá embora.

Só que a realidade tem este defeito terrível.

Insiste em existir.

E parece que finalmente alguém percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira, numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar a cara apenas ao domingo.

 É uma solução sensata e, sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.

 Ao domingo, portanto, lá teremos a sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos. A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir Toulouse com Ceuta.

 E tudo isto acontece na Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados, outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi entrevistada.

 É que, sendo accionista, Ronaldo adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.

No fundo, é uma espécie de reforma dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter de levar com ele todos os dias.

E talvez seja mesmo essa a grande conquista.

 Durante a semana, a Terra gira normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha, Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.

Depois chega domingo, abre-se a televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.

A História pode mudar de século, a geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente em Conselho de Segurança da ONU.

 Há pessoas que estudam o mundo para o compreender.

 Ireneu prefere recebê-lo por mensagem.

Felizmente, agora só ao domingo.

Valha-nos isso…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://theblindspot.pt/desinformacao-no-canal-now…

https://theblindspot.pt/comentador-do-now-justifica…

https://theblindspot.pt/queixa-the-blind-spot-a-erc…

https://theblindspot.pt/depois-de-condenacao-da-erc-por…

https://www.rtve.es/…/falso-jovenes…/17178491.shtml

https://poligrafo.sapo.pt/…/mercadona-contactou-a…

https://www.jf-aljubarrota.pt/pt_pt/history/padeira