A guerra que a Rússia perdeu em … março de 2022

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 20/01/2023)

1 – A guerra psicológica

Em março de 2022, os “comentadores” de serviço explicavam que a Rússia havia perdido a guerra – iniciada um mês antes, além disso tinha ficado sem munições, os soldados sem vontade de lutar, até de falta de alimentos os militares russos padeciam. Estas afirmações foram repetidas mês após mês.

Na revista Visão, de 20/junho o sr. Luís Delgado (eminente administrador e dono da sociedade Trust in News, 12 revistas compradas por 10,2 milhões de euros em 2018) assegurava que com as novas armas americanas – “a vitória da Ucrânia é inquestionável, unidades russas correm o risco real de ficarem isoladas, cercadas e rendidas”. Tratava-se então dos HIMAR que mudariam o curso da guerra. Afinal a Rússia ainda não tinha sido derrotada… Deviam ter tomado atenção às palavras dos responsáveis russos: a resposta seria proporcional às iniciativas da NATO e os ataques ganhariam profundidade.

Porém havia outras “visões”: o Der Spiegel de 17/agosto, explicava porque uma grande ofensiva de Kiev no sul da Ucrânia dificilmente era possível. Uma guerra subversiva e ataques terroristas da Ucrânia são prováveis. Às Forças Armadas da Ucrânia “faltam experiência ofensiva e preparação para manobras maiores”. A Ucrânia carece de unidades bem treinadas e de armas.

As contradições da cobertura jornalística da guerra da NATO contra a Rússia na Ucrânia, assemelham-se – tal como a estratégia militar no terreno – às práticas nazis na fase em que a derrota se evidenciava, mas mostram também o baixo nível que a NATO atingiu, celebrando triunfante o assassinato de uma jornalista, Daria Dugina, de 29 anos – sujeita a sanções – cujo delito foi ter opiniões favoráveis ao seu país.

As centrais de desinformação alimentam os noticiários com narrativas, cujo objetivo é condicionar a capacidade de discernimento e interpretação dos factos, criando uma ambiente virtual, em que os desejos são tomados como realidades. Em “Lutando contra a Psyopcracy” é afirmado:   “O constante reforço dessas mentiras entrincheira-se na mente pública e, com o tempo, passa a ser aceite como verdade inquestionável”. “É difícil de combater porque não é um inimigo físico, mas sim mensagens que se alojam na mente das pessoas”. “Propositadamente não são informadas de que a guerra realmente começou em 2014, depois do golpe apoiado pelos EUA, que levou os falantes de russo no Donbass a declararem independência, após o que o governo golpista os atacou militarmente. Outros fatos são removidos da história, como os tratados propostos pela Rússia aos EUA e à NATO em dezembro de 2021, que teriam impedido a intervenção da Rússia na guerra civil ucraniana”.

As reportagens sobre a Ucrânia têm sido uma mistura de ilusões e propaganda, organizada por agências de notícias e serviços secretos ocidentais, omitindo a verdade, a lógica e a realidade. Reportagens essencialmente destinadas a manter os povos ocidentais sob controlo nas dificuldades que enfrentam em resultado das decisões suicidas das suas elites políticas controladas pelos EUA.

No entanto, não é difícil distinguir entre a propaganda e a realidade. Basta comparar o que foi sendo dito ao longo do tempo, as contradições, as inconsistências. Claro que é necessário ter memória, sem memória não há associação de ideias nem, portanto, raciocínio consistente.

2 – Da propaganda à realidade

Como é que o que está a acontecer na Ucrânia se compatibiliza com o que os media andaram a dizer antes? Um dos aspetos é que as perdas ucranianas nunca são mencionadas. Só recentemente se foi por vezes apresentando “pesadas perdas de ambos os lados”, contra toda a lógica dos combates, em que o exército da Ucrânia/NATO era antes dos avanços russos massacrado com intensas ações de artilharia e mísseis.

A retirada da Rússia de algumas zonas foi festejada como uma eminente derrota e a garantia que Kiev tomaria conta do território como existia antes de 2014, numa intensa campanha psicológica. Na verdade a NATO, que é quem na realidade comanda as operações, fornece homens e armas, caía numa armadilha. As unidades ucranianas e mercenários da NATO, ocupantes daquelas zonas – conquistadas com pesadas perdas – foram sujeitas a constantes bombardeamentos com perdas de vidas e material.

O comandante do batalhão neonazi Svoboda, cuja unidade tenta manter Bakhmut, disse aos media ocidentais no início de dezembro que os campos e florestas ao redor estão repletos de cadáveres de soldados ucranianos”. Segundo fontes ocidentais as perdas diárias ucranianas perto de Bakhmut/Artyomovsk chegam a um batalhão (500-800 pessoas), os hospitais estão superlotados e escolas estão sendo convertidas em hospitais.

Um surpreendente relato colhido no terreno por um jornal ucraniano, o Kiev Independent, é ignorado pelos media. “Para os soldados ucranianos com a tarefa de suportar as primeiras linhas há pouca esperança de uma trincheira ou abrigo não ser atingido diretamente. Algumas unidades estão simplesmente a ficar sem pessoal. Nestas condições a crença acerca da pobre eficácia das forças de combate russas pode ser rapidamente posta de parte. Fala-se das enormes perdas sofridas pelas russos, mas pelo que pude ver em Bakhmut as coisas estão mais ou menos bem para eles. Em termos de coordenação geral no terreno entre as suas brigadas e artilharia, pode dizer-se que o fazem muito bem e como é difícil lutar contra eles”.

O fundador e chefe da PMC Mozart, o coronel aposentado dos Fuzileiros Navais dos EUA Andrew Milburn, em entrevista à American Newsweek, afirmava que as Forças Armadas da Ucrânia estão sofrendo “perdas incrivelmente altas” em Bakhmut/Artemovsk, recrutas não treinados são enviados como reforço. Os números de mortes e desaparecidos em combate estão na casa das centenas de milhares.

Afinal os tais mísseis que já não existiam continuam a cair sobre a Ucrânia. Depósitos de equipamentos, munições, combustíveis, lubrificantes são destruídos. Centros ferroviários essenciais para a movimentação de tropas e material, deixam de existir. Por exemplo, em resultado de um ataque em Drumzhkovka, à plataforma para descarregar comboios militares, 120 militares ucranianos morreram sendo destruídos lançadores HIMARS, veículos de combate, rockets, veículos, etc. São também atacadas concentrações de tropas da Ucrânia na retaguarda operacional de Bakmut/Artyomovsk.

As infraestruturas energéticas estão destruídas em 70%, o resto funciona precariamente com ligações provisórias e geradores móveis fornecidos pela UE/NATO. Vastas regiões estão sem a energia necessária e de modo fiável. Há também interrupções no fornecimento de água, Internet móvel e comunicações por telemóvel. Afirma Vitali Klitschko, autarca de Kiev: “Está muito frio na Ucrânia agora, viver sem eletricidade e aquecimento é quase impossível. A situação é crítica. Estamos a lutar para sobreviver”.

Escrevia Die WeIt, segundo um diplomata: “Estamos muito preocupados que, devido a ataques à infraestrutura energética, muitas pessoas sejam forçadas a deixar a Ucrânia em condições de frio congelante” ( t.me/s/intelslava 04/12). De facto, ao mesmo tempo que os bem instalados elogiam a capacidade de sofrimento da população ucraniana, incentivam-nos a viver e morrer em condições terríveis.

Os ataques à Rússia, propalados como importantes vitórias, saldam-se por represálias muito dolorosas. Em resposta ao ataque a uma concentração temporária de militares russos em Makeyevka, em que morreram 120 soldados, em 24 horas, foram atacados pontos de concentração de militares ucranianos em Kramatorsk, tendo morrido mais de 600 soldados.

Na realidade, no campo militar a guerra na Ucrânia foi vencida pela Rússia que decide o ritmo das operações. Os soldados ucranianos mais qualificados e experientes foram mortos ou capturados, os recrutas idosos e jovens não farão a diferença, tal como mais armas da NATO, cujo destino será o das anteriores. É triste que um país seja forçado por potências estrangeiras a lutar até o último homem sem esperança no futuro, apenas com a perspetiva de maior destruição. É o que é dado perceber da realidade.

Stoltenberg, que antes proclamava que a Rússia tinha de ser derrotada, diz agora: “a Rússia não pode ganhar a guerra”. É uma significativa nuance. Mas há duas questões que os jornalistas nunca colocaram aos prolixos “comentadores”: Em que condições a UE vai existir na base de sanções à Rússia – e a outros países? Como vai a “Ucrânia” (leia-se NATO) vencer a Rússia nesta guerra que os EUA iniciaram em 2014? Também gostaríamos de saber.

3 – A NATO na guerra da Ucrânia

A posição da NATO nesta guerra tem qualquer coisa de hipócrita e cobarde. Por um lado, é uma guerra que existe porque os dois acordos de Minsk foram um logro para dar tempo à NATO armar e treinar a Ucrânia para atacar as regiões russófonas que recusavam o golpe anticonstitucional de 2014 que iria permitir que a NATO se instalasse em Sebastopol (Crimeia). Por outro, chorando as vítimas civis (de facto mínimas comparadas com as das guerras dos EUA/NATO) fomentam o prosseguimento da guerra que só continua com o fornecimento de dinheiro, material e homens vindos dos países da NATO. Além disto. as negociações entre a Ucrânia e a Rússia foram interrompidas pelos EUA em abril, dizendo contudo que as negociações serão como e quando a Ucrânia desejar. Tudo isto é triste…

Há algo de cobarde da parte da NATO, ao acusar a Rússia de crimes de guerra e apoiar o terrorismo, mas não ter a coragem de frontalmente fazer-lhe um ultimato e/ou chamá-la para a mesa de negociações. Continuam insistindo em sanções, que só prejudicam outras nações europeias e se tornaram ridículas aos olhos da grande maioria dos países que não as seguem.

Stoltenberg, normalmente sem noção real do que diz, acabou por desmascarar este jogo de interesses imperialistas: “a derrota da Ucrânia significa uma derrota para a NATO”. Na verdade a Ucrânia foi derrotada há muito tempo, o que se trata aqui é a derrota da NATO na Ucrânia.

Uma importante derrota da NATO deu-se ao perder o controle de todo o território de Soledar e com isso também, a maior produção de sal da Europa que agora pertence à Rússia. Soledar mostrou que nenhuma participação da NATO pode ajudar onde a velocidade e a pressão são a principal regra da batalha. Foram lançadas as melhores forças na defesa de Soledar, forças especiais de vários tipos, mercenários, nazistas selecionados, um monte de equipamentos, artilharia e aviação. No final, a batalha foi perdida. Soledar, (como Mariupol) teve defesas tornadas ainda mais fortes por oito anos de preparativos. Além de mais de 200 km de túneis e minas, Soledar tem uma zona industrial muito grande que tornou os avanços muito difíceis e perigosos.

Algumas fontes afirmam que foram perdidos 14 batalhões numa tentativa desesperada de evitar a derrota. Lavrov afirmou que o “ocidente” perdeu na Batalha de Soledar 25 mil soldados entre ucranianos e mercenários ocidentais. Agora Bakhmut/Artemovsk está prestes a cair com todas as suas fortificações.

Bakhmut/Artemovsk é considerado o ponto central da Frente Oriental e um centro logístico sério, com capacidades únicas de defesa, que incluem a divisão da cidade por barreiras de água e um complexo de povoações num sistema de defesa unificado. Além disto existe um sistema de túneis, na verdade uma rede de cidades subterrâneas, onde não apenas pessoas, mas também tanques e veículos de combate de infantaria se movem. “(Intel Slava Z – Telegram 07/01)

As tropas da NATO contratadas por empresas privadas (PMC) são consideráveis, são principalmente polacos, britânicos e também dos EUA. Contudo, a sua situação é extremamente difícil devido aos incessantes ataques da artilharia. A Rússia nesta fase procura destruir o exército da Ucrânia/NATO, sendo destruídas posições de defesa antiaérea e antitanque. A Rússia tem assim preparado um cenário de batalha favorável, para garantir sucesso com mínimo de perdas, enfraquecendo oponentes e infraestruturas.

Os contra ataques da Ucrânia são lançados apenas por razões de propaganda política, saldando-se por pesadas perdas. A NATO tentou atacar em Kherson, mas falhou sucessivamente, reduzindo-se agora a principalmente voos de reconhecimento de UAV e artilharia. Idem para Kharkov onde os ataques dos ucranianos foram praticamente interrompidos. A Rússia tem também avançado noutros locais e destruindo posições ucranianas e equipamentos com artilharia de alta precisão.

A guerra na Ucrânia mostrou a falta de preparação do ocidente para conduzir hostilidades de longo prazo, afirmou o jornal espanhol El País. Os países ocidentais enfrentam problemas devido ao esgotamento dos arsenais e à má preparação da indústria militar para resolver sérios problemas militares.

É bastante claro que (além de alguns enraivecidos) poucos europeus têm estômago para uma guerra continental em grande escala na Europa que deixaria os seus países em ruínas. No entanto, eles obedecem aos neocons dos EUA, sendo arrastados para o precipício.

4 – Ucrânia, Estado fantasma

A NATO mostra ser o contrário do rei Midas que transformava em ouro tudo em que tocava, a “aliança defensiva” transforma em caos e miséria tudo em que interfere. A Ucrânia é mais um exemplo, transformada em Estado fantasma. São de uma insensibilidade criminosa as bazófias de apoio vindos de dirigentes da UE/NATO.

O que define um Estado? Território, população, economia, grau de independência política. O território é definido pelas suas fronteiras e nada mais equivoco que as fronteiras da Ucrânia. A oeste a Polónia tem em vista ocupar uma parte das terras ricas, alegando direitos históricos. A Leste, para a Rússia são umas, para o Ocidente são outras.

Como Republica Soviética a Ucrânia tinha cerca de 50 milhões de habitantes. Em 2000, 48 milhões, em 2020, 41,7 milhões (sem Crimeia). A guerra causou a fuga de mais de 14 milhões de pessoas – 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 7,8 milhões para países europeus. O número de refugiados na Rússia ultrapassa 5 milhões de pessoas, a população no Donbass conta 6 milhões. Assim, a Ucrânia teoricamente controlada por Kiev contará no máximo 25 milhões de pessoas. Tenha-se ainda em conta que a taxa de natalidade cai catastroficamente.

Cerca de 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento. A UE/NATO tem de alimentar, vestir, alojar todas estas pessoas e financiar o Estado. A maioria dos refugiados não irá nem poderá retornar à Ucrânia.

Em termos económicos o pais afunda-se. O desemprego é estimado em 30% da população ativa, em algumas regiões pode atingir 80%. Os salários são baixíssimos: a maioria da população empregada recebe cerca de 381 dólares por mês. No entanto, o preço dos bens aumentou de 40 a 80%, de modo que as pessoas existem à beira da sobrevivência.

Segundo o BM o PIB caiu 35% em 2022, porém se os ataques continuarem, o PIB afundará 50%. No quarto trimestre a produção industrial caiu entre 50 a 90%, dependendo da região. De facto, um país sem energia elétrica em condições normais, não pode ter uma economia funcional. Apenas pequenas empresas e lojas que trabalham com geradores podem ir funcionando; as instituições bancárias e municipais operam de forma limitada. Não há na atual situação soluções para esta crise energética.

A dívida governamental é de mais de 100 mil milhões de dólares. Para o Wall Street Journal a Ucrânia está à beira do colapso financeiro. Kiev luta para encontrar fundos, pondo em risco a estabilidade do sistema financeiro. Os impostos cobrem apenas cerca de 40% do orçamento, mais de 60% do qual são gastos militares. O Express dos EUA revela que o défice mensal da Ucrânia é de 5 mil milhões de dólares. O governo de Kiev apenas sobrevive com as ajudas de Washington e Bruxelas.

A Ucrânia, o país mais corrupto da Europa, é um buraco negro para o dinheiro e equipamentos militares ocidentais. Para a manutenção da guerra com a Rússia e a sobrevivência do regime nazifascista da Ucrânia os EUA já comprometeram mais de 10 mil milhões por mês desde fevereiro, a que acrescem as verbas da UE, que chegam a milhares de milhões por mês. Há ainda que sustentar 14 milhões de refugiados internos e na UE e a administração pública. Para o ano fiscal de 2023 os EUA consignaram 44,9 mil milhões de dólares para a Ucrânia.

Sem tais subsídios, Zelenski não teria durado mais de dois meses na guerra. A questão é quanto tempo vai durar esse fluxo? A congressista Marjorie Taylor Green exigiu uma auditoria à utilização dos fundos que os EUA entregam à Ucrânia, A proposta foi chumbada na comissão respetiva: 22 parlamentares votaram a favor do documento, 26 contra.

A propaganda e os políticos da NATO/UE repetem que “a Ucrânia defende o mundo livre”, que “defende o Ocidente”, que “defende os Estados Unidos”. É um absurdo. Como pode um país fraco, dos mais pobres da Europa, defender os EUA, dito o país mais poderoso do mundo? Os ucranianos têm que sofrer e derramar seu sangue na “defesa” de um país que dista mais de 10 mil km?

À medida que a guerra progride, o fluxo de dólares cresce, e numa Ucrânia devastada por bombardeamentos russos e ucranianos, sem vida económica real, que vive do dinheiro da UE/NATO para funcionários públicos, importações de alimentos, equipamentos, soldados, mercenários, é toda uma população submetida à guerra e que vai morrendo ou fugindo.

É neste panorama que Zelensky exige que todo o território da Ucrânia pré-2014, incluindo a Crimeia, deve ser colocado sob o poder instalado em Kiev. Bem, se o clã de Kiev quisesse assim tanto aos seus cidadãos, não teria assassinado 14 mil deles nos últimos oito anos e retomado os bombardeamentos no início de fevereiro de 2022, antes da invasão russa.

A Ucrânia está a perder tudo o que foi criado no seu território nas décadas passadas. É impossível imaginar quanto custará repor centrais, redes elétricas e ferroviárias, zonas habitacionais, infraestruturas. Como diz Alyona Zadorozhnaya, Zelenski alcançou resultados únicos e trágicos na destruição da Ucrânia. Ele conseguiu reduzir a população da Ucrânia ao nível de um século atrás, colocar o país em escravidão ao ocidente e privar os concidadãos dos benefícios mais elementares da civilização.

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Artistas e Populistas — Deuses e Vigaristas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/01/2023)

A propósito de um cartaz e das atitudes de duas estrelas da sociedade. Passei por um cartaz onde a fotografia de um figurão que há uns tempos defendia nas Tvs os negócios sujos da bola e as sujas “vivências” dos agentes da bola, tudo gente séria, como se sabe. Clamava o dito no cartaz o grito de guerra da sua claque (agora reunida sob a respeitável denominação de partido político): Vergonha! O dito Ventura, em primeiro plano, anunciava com cara séria que ele, à frente da sua milícia, ia fazer uma limpeza no regime político! Bastava entregar-lhe o voto, ele fornecia as vassouras (e os jagunços, presume-se).

Ventura, o antigo comentador da bola e dos negócios do ramo, um negócio em que devem ser poucos os empresários e comissionistas que não sejam arguidos em processos que vão da prostituição à lavagem de dinheiro, da participação em negócio à falsificação de documentos, de pagamentos por debaixo das mesas à extorsão e à agressão física, em que um dos empreendedores de maior sucesso é conhecido no meio pelo «Macaco», o futuro almeida Ventura, saído do impoluto mundo da bola, apresentava-se à sociedade como candidato a “almeida da Pátria”! A sociedade, ao que parece, toma com complacência esta atitude gozo e desfaçatez. Os mais críticos, olhando para o cartaz pensarão que se trata do anúncio de um Motel, ou a um filme da Mafia, agora que um dos principais capos foi preso na Sicília.

Não é o dito Ventura e o seu desplante que me chocam, mas sim a complacência da sociedade para com um vendedor de banha da cobra, um dos muitos viciosos, falsos defensores da virtude para os outros que andam por aí à babugem (dos dicionários: espuma produzida pela água que se agita ou que está poluída). A mesma sociedade que se tem encarniçado contra o futebolista Ronaldo e a comunicadora Cristina Ferreira porque um decidiu ir terminar a sua milionária carreira na Arábia Saudita e se fez fotografar ao lado de um RollsRoyce oferecido pela sua companheira, a outra porque realizou um espetáculo de conversa num grande auditório e contou um episódio tomado como premonitório do seu êxito ao encontrar uma imagem da Senhora de Fátima dentro de uns sapatos de alta gama admite um Ventura como um santo franciscano e não como uma tainha, o peixe que se alimenta dos dejetos saídos dos esgotos.

Numa sociedade limpa (aproveitando o slogan dos Chegas) a proposta do tal Ventura que se propõe limpar Portugal e as atitudes das duas estrelas do espetáculo deviam motivar reações contrárias às que de facto provocaram, porque elas são radicalmente distintas. A do chefe do Chega é do mais básico populismo, demagogia em bruto: Vão por mim que não vos engano! Ele é o que vende o que não tem. O que me impressiona não são os tipos que vendem cabritos sem terem cabras, mas que haja tanta gente que compre os tais cabritos que não existem!

Quanto ao futebolista Ronaldo e à vedeta da TV Cristina Ferreira, criticados, um por ter ido para a Arábia Saudita terminar a carreira com um carregamento de petrodólares (o que Calouste Gulbenkian fez com muito maior proveito) e a outra pela invocação de uma ocorrência de contornos miraculosos com o aparecimento de uma imagem da Senhora de Fátima dentro de um sapato (o que originou a construção de uma cidade e a credenciação de eminentes figuras do pensamento, incluindo a do atual presidente da República). Ambos, Ronaldo e Cristina Ferreira, pertencem ao mundo dos que se apresentam à sociedade como são, a vender o melhor que têm: os seus talentos. Nada prometem, mas ambos transmitem a mensagem de que é possível escapar ao destino marcado pela origem. Compreendo e respeito as atitudes de ambos. Todas as sociedades cultivam figuras simbólicas de êxito, que por sua vez exibem perante as massas os objetos que representam as suas vitórias, sejam báculos, coroas, peles, sejam agora automóveis (os RollsRoyce de Ronaldo) ou sapatos com solas vermelhas (o que as perdizes também usam). Os gregos divinizavam estas personagens que enfrentavam as leis e os costumes, que violavam interditos e saíam como vencedores dessa luta: atribuíam-lhes a categoria de semideuses.

O que Ronaldo e Cristina Ferreira estão a dizer aos comuns é que podem aspirar ao estatuto de semideuses, se os candidatos correrem os riscos inerentes, se esforçarem como eles e se tiverem a sua sorte. Eles correram os riscos e venceram. Tenho um sincero respeito pelos que à custa do seu talento conseguem ter sucesso. Cristina Ferreira apresenta uma particularidade reveladora da sua perspicácia. Ela limitou-se (o que não é pouco) a recuperar o episódio da medalha da santa no sapato a parábola da moeda perdida, relatada no Novo Testamento da Bíblia: “Qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma, não acende a candeia, não varre a casa e não a procura diligentemente até achá-la? Quando a tiver achado, reúne as suas amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido.” (Lucas)

Em «Apocalíticos e Integrados», Umberto Eco escreveu uma frase que se aplica a Ronaldo, ele “é o herói dotado de poderes superiores aos do homem comum é uma constante da imaginação popular de Hércules e Siegfried, de Roldão a Pantagruel e até Peter Pan”. Nos livros mais antigos de várias civilizações, da Odisseia de Homero à epopeia de Gilgamés e às modernas obras de Ficção Cientifica, nas palavras de um critico que li algures: os astros (eles são estrelas) representam apenas um dos fins do percurso; eles são, antes de mais, um símbolo da insatisfação eterna do homem. A raça humana mal tinha nascido já pensava em evadir-se da Terra. Em todos os tempos as estrelas foram objeto de ambição dos homens; e acabaram por as atingir. […] Falta qual­ quer coisa aos homens que eles esperam encontrar nas estrelas. É este qualquer coisa que figuras como Ronaldo e Cristina Ferreira materializam num estádio ou num pavilhão. Eles demonstram uma superação visível e leal entre as limitações que lhes seriam impostas pelo nascimento e uma carreira abençoada pelos deuses.

A lealdade entre estes seres eleitos e os seres comuns distingue-os de forma irredutível dos populistas que utilizam os truques mais iníquos da demagogia para arrastar os seres comuns, ludibriando-os com promessas de salvação, regeneração e de limpeza, segundo a mais recente promoção nos cartazes, sejam de bispos da IURD, de Trump, Bolsonaro, Salvini ou do indígena Ventura. Os pastores religiosos de várias empresas de embalar almas com dízimos e os pastores políticos de diversas coletividades obtêm sucesso com a mais velha falácia da História: convencer os outros de que existe uma Justiça a posteriori reparadora das infelicidades e sofrimentos dos homens comuns no presente. Que existe um Além (muito além) de Justiça, de acerto de contas! Aceitai as dores do presente que na Eternidade receberão unguentos reparadores!

Mesmo antes do surgimento dos “deuses morais”, 2800 anos antes da nossa era, no Egito, com a figura do deus Rá e da sua filha Maat, que serviram de modelo aos deuses das grandes religiões monoteístas, existiram os “deuses justiceiros”, que castigavam os humanos mais por faltas quanto às obrigações com as divindades que lhes garantiam justiça do que por ofender outros humanos. Os “deuses justiceiros” foram as primeiros divindades a quem os homens prestaram culto; deuses que exigiram obediência antes da prática do Bem. É ao regresso a esses deuses primordiais, vingadores, que estamos a assistir e é para irmos aclamá-los e servi-los que os populistas nos estão a convocar.

Os modernos populistas políticos e religiosos voltaram a utilizar a prática de exigir sacrifícios por faltas cometidas contra a divindade, punindo os hereges que negam o divino, que não pagam o dízimo, que respeitam estrangeiros, que não acreditam em milagres. Julian Assange, preso à ordem dos interesses dos Estados Unidos por ter desvendado segredos do regime, ou a jovem Masha Amini presa e morta pelo regime dos ayatolas do Irão por não vestir de acordo com a moda imposta pelo profeta Maomé aí pelos idos do século sete são vítimas desta visão do “deus justiceiro” contra os que ofendem o seu poder totalitário. O populista político e religioso promete justiça, condenação, razia dos descrentes. Os cartazes dos populistas afirmam querer limpeza, mas eles querem a limpeza dos que os desmascaram e não acreditam nas suas promessas!

Nunca vi Ronaldo jogar, nem vi qualquer programa de Cristina Ferreira, mas é uma questão de gosto, de interesses pessoais, no entanto reconheço que não pertencem à categoria de figuras esbracejantes que clamam pela obediência dos seus crentes! Ronaldo e Cristina Ferreira vendem-se (sem qualquer desprimor) a si, não vendem um produto virtual, um pechisbeque ideológico de domínio e obediência embrulhado sob a forma de uma divindade justiceira de que os demagogos e os promotores de limpezas são os representantes e de que recebem os lucros devidos pelas comissões.

Entre quem se esforça todos os dias e se apresenta como é, independentemente dos méritos, e o vendedor (ou pregador) que faz sermões sobre a virtude, a salvação e se apresenta em cartazes a fornecer serviços de limpeza, vai a distância entre o trapezista que corre os riscos das acrobacias nas alturas e o candongueiro manhoso que, rente ao chão, vende bilhetes para um circo que não existe.


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2022 à la minute — On my own

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/12/2022)

(Mais um texto excelente do Coronel Matos Gomes. 2022 em minuciosa e acertada revista. Alguns dos “prémios” e factos do ano revisitados são um verdadeiro achado, de uma ironia de fino recorte. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que ainda consegue pensar no meio da alucinação coletiva destes tempos negros, uma espécie de Matrix de largo espectro.

Estátua de Sal, 31/12/2022)


Gosto mais da frase em inglês — on my own — do que em português: só comigo.

A minha intenção ao escrever este texto sobre o ano de 2022 é a mesma dos solitários que fazem desenhos na areia: entreterem-se enquanto falam consigo próprios. Depois, quem passa olha, se lhe apetecer acrescenta, apaga, ou distorce. E segue o seu caminho. A nova maré levará a obra. O desenhador irá olhar o vazio para lá do horizonte.

Bom ano de 2023.

Personalidades portuguesas:

– Marta Temido, a sua equipa e o SNS. A frágil ministra, juntamente com o seu sereno secretário de Estado, enfrentaram o mais poderoso e desapiedado gangue do planeta: o dos industriais e comerciantes da saúde. Os Serviços Nacionais de Saúde são uma ofensa inadmissível para os mercadores dos medicamentos, dos hospitais e clinicas, dos laboratórios e fábricas de equipamentos. Marta Temido e o seu secretário, mais da Diretora Geral da Saúde enfrentaram-nos. Se tivessem a mais pequena sombra no seu currículo, nas suas vidas privadas estariam entregues aos bichos, aos liberais! E nós, os cidadãos, com eles.

– Os “uberistas”, sejam os condutores de automóveis sejam os distribuidores de comida às costas que respondem às app e aos Tm. São os novos escravos, sem esquecer os importados para os trabalhos agrícolas. Eles antecipam o futuro das sociedades ditas desenvolvidas, e neoliberais, a par dos “colaboradores” em teletrabalho e dos robôs.

Personalidades Internacionais:

– Mohamedou Ould Slahi, prisioneiro dos Estados Unidos no campo de concentração de Guantanamo, que faz 20 anos. Passou 14 anos atrás das grades. Foi torturado durante 70 dias e interrogado 18 horas por dia durante três anos. Morava na Alemanha antes de ser preso, era suspeito de ser membro da rede Al Qaeda e de ter um papel central nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, apesar de não haver nenhuma prova contra ele. Jamais foi indiciado ou condenado durante os 14 anos que passou em Guantánamo. O mauritano, agora com 50 anos, acabou sendo libertado, mas jamais foi compensado após sua parte de sua vida ter sido roubada.

– Mulheres do Irão, do Afeganistão, da Arábia. A indignação com a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que morreu após ser detida pela política de moralidade do Irão, supostamente por usar seu hijab de forma inadequada, desencadeou protestos em todo o país que já duram semanas. Mas também as mulheres que têm de vender os seus filhos no Afeganistão, para sobreviver, as crianças forçadas ao casamento, as mulheres que têm de ser inexistentes porque os homens inventaram um Deus que odeia mulheres e vivem num mundo em que os homens odeiam as mães e as irmãs.

Acontecimentos Internacionais do Ano:

– A invasão russa da Ucrânia que materializou a rutura entre a Europa ocidental e a Rússia e, por arrastamento, de boa parte do mundo que não aceita um mundo sujeito aos Estados Unidos. Entrámos numa nova era e a Europa passou para a categoria dos serventes.

– A saga da família Windsor — A aristocrática família Windsor, com estabelecimento principal em Londres, proporcionou uma fotonovela permanente e expressão mundial com mortes, funerais, boatos, traições, assédios, amuos, racismo que competiu com os vários Big Brother plebeus. Reis e rainhas, príncipes e princesas, duquesas e marquesas deram o corpo ao manifesto para que nunca ao povo faltasse um motivo de espanto. As televisões agradeceram este maná, assim como os vendedores de quinquilharia e souvenirs. Artistas de primeira. Uns reinadios. Mas vendem e vendem-se bem, vivos ou mortos!

– A pedofilia religiosa: O assunto da pedofilia é sério sob todos os em pontos de vista. As igrejas e as religiões (e a pedofilia não será certamente exclusiva da Igreja Católica) não têm tabus na exploração dos crentes e dos que lhes possam servir de matéria a dominar, a violentar. As religiões são um crime continuado há milénios. Os deuses são feitos à imagem dos piores dos homens. A Igreja Católica do século XXI tem a seu favor relativamente às outras o facto de se expor. No Islão a pedofilia é oficial e abençoada pelas leis do profeta, com o casamento de crianças.

– O fanatismo islâmico: Mata à vista dos cabelos das mulheres, do seu pescoço, do tornozelo, da inteligência. Mata para impedir a humanidade e dignidade da mulher, mata pela cobardia dos homens perante as mulheres. Seitas de assassinos no Irão e nas Arábias são os nossos melhores aliados porque vendem petróleo em troca de mulheres.

Acontecimento Nacional do Ano:

– A placidez nacional perante o mundo. Resistimos com disciplina à pandemia, votámos uma maioria para não termos surpresas, fazemos julgamentos na praça pública para não incomodarmos juízes e procuradores, acreditamos que vai ficar tudo bem, apesar das breaknews das televisões e das suas campanhas de bombardeamento a propósito de desgraças cíclicas previsíveis, incêndios e cheias, gripes e entupimentos nas urgências. O Zé Povinho, totem nacional criado por Bordalo Pinheiro, tudo aguenta e quando bufa fá-lo sem grande alarido nem convicção. O Presidente da Republica representa o pensamento nacional melhor do que os condutores de táxi e os barbeiros.

Acontecimentos inculturais do ano:

Nacional:

A saga do Big Brother, um verdadeiro teletrabalho de Filosofia de Alcova representado por uns rufias e umas gajas despachadas.

Os concertos sem dó dos programas das TV nas tardes de Domingo, com domingos e dominguinhas e acompanhamento de modelos atualizados das netas das pin-up do Vilhena, ao vivo e a cores. Espetáculos multimédia, alguns de autocarro (uma reativação das excursões da FNAT!). E têm audiências!

As Claques, a grande alteração do ano foi a passagem das claques do futebol para as claques das televisões. A mesma violência do “Só os nossos são bons!” Quem não acredita em nós é do inimigo. Onde havia superdragões, no name boys, lagartos e torcida leonina, há agora CNN de Queluz, SIC de Paço de Arcos, RTP de Olivais. Onde havia coiratos e cervejas há água de marca branca, mas mantem-se a gritaria e a injúria ao pensar.

Internacional: O campeonato do mundo de futebol no Qatar

Perguntas internacionais do ano:

– Cristina Lagarde percebe alguma coisa de finanças?

– Os aiatolas do Irão, os xerifes do islamismo, os chefes da Alqaeda, os talibans têm mãe e irmãs? Nasceram paridos por quem? São casados com quem? São tarados?

– Onde espera o Zelenski gozar a reforma? Miami? Mónaco?

– De quem foi a ideia de criar um tribunal para julgar o governo russo, o que implica mandar um oficial de justiça a Moscovo trazer o Putin, os seus ministros e generais para serem julgado por crimes de guerra no tribunal internacional dos estados que bombardearam a Sérvia e invadiram o Iraque?

– Existe algum espaço que o Elon Musk não explore?

– O sucessor do Trump será menos grotesco que o original?

– Quem é o chanceler da Alemanha, dado que a antiga germania está no estado sede vacante, sem papa, bispo, cura, sacristão?

– Os Verdes e Pacifistas alemães já estão maduros para aderirem ao nuclear e para negociar armamento?

– A descoberta da produção rentável de energia através da fusão nuclear é verdadeira, ou apenas uma mentira piedosa do governo americano para mascarar a falta de alternativas ao petróleo e ao gás da Rússia?

– O Batalhão do Mónaco, dos milionários patriotas ucranianos aliados de Zelenski e na frente de batalha do principado, deixou de comer caviar russo?

– Os satélites espiões e as armadas da NATO ainda não descobriram onde os petroleiros indianos passam o petróleo russo para os petroleiros com bandeira do Panamá? E também não descobriram nenhuma atividade estranha junto aos gasodutos Nordstream que explodiram nas águas territoriais suecas?

– O Iémen ainda existe? E a Líbia?

– Há algum correspondente de guerra das televisões na Palestina?

– Em que número vai o pacote de sanções à Rússia? Quando sairá um novo?

– Dado que o empresário é o mesmo, a guerra no Kosovo está a aguardar que a da Ucrânia arrefeça para acender as fornalhas, ou pode começar desde já?

Perguntas nacionais do ano:

– Onde será o novo aeroporto?

– Haverá novo aeroporto?

– Que acordo ortográfico vigora nas legendas das televisões?

Pergunta eterna:

Até quando aguentará o Muro das Lamentações as cabeçadas que lhe dão?

Vencedores do ano:

– O Qatar (dos emires de camisa de dormir e dos camelos que lá foram ver a bola), que conseguiu organizar um campeonato do mundo de futebol num deserto, num país onde não se joga futebol e onde não cresce relva. Prova de que não existem impossíveis: desde que se pague.

– Os Estados Unidos, que conseguiram separar a Europa Ocidental da Rússia e integrá-la como estado vassalo.

– As indústrias da saúde, dos armamentos e do petróleo — que tiveram um ano de belos lucros e que, com a derrota da Europa na guerra na Ucrânia, e o consequente fim do estado social, terão ainda melhores perspetivas com a total liberalização dos serviços médicos e sanitários.

– Elon Musk: que ganhou milhões do governo dos Estados Unidos (ele é um liberal — abaixo o Estado) a colocar satélites (até aos 12.500) para transmissão de dados e condução de operações militares por conta dos Estados Unidos; comprou o Twiter para transmitir a sua visão do mundo da selva, do cada um por si e ele a receber de todos, despediu os colaboradores e ainda levou um português a dar uma voltinha de foguetão num parque de diversões para adultos que querem ser famosos.

– A igreja IURD e o seu bispo milionário, que batizaram Bolsonaro e transfiguraram um ser cavernícola numa espécie de humanoide, conseguindo a proeza de o fazer eleger sem ele falar e de o manter disfarçado de Presidente do Brasil durante toda uma legislatura! Não admira, pois, que nas ditas igrejas evangélicas os paralíticos andem, os cegos vejam e os mudos cantem!

– O Presidente da Coreia do Norte, que escapou mais um ano ao destino de Saddam Hussein e de Khadafi lançando uns foguetes para o Mar do Japão, avisando que podem transportar as armas de destruição maciça que os EUA não descobriram no Iraque e que, ao contrário da Líbia, não tem petróleo no território, mas que para umas doses de urânio ainda se arranjam alguns trocos.

– Recep Erdogan, presidente da Turquia, que se marimbou para as sanções americanas à Rússia, manteve o diálogo com todos os atores da região, recebeu os curdos atados de pés e mãos dos países nórdicos a troco de os deixar entrar na NATO, que ele utiliza para fazer negócios, arbitrou o trânsito de navios de cereais no Mar Negro e parece ser o único interlocutor sensato e com acesso a todas as partes neste conflito. Chapeau!

O Grande Vencedor do Ano:

– Xi Jiping! Quase sem se mexer, sorrindo, o presidente da China, Xi Jiping, tornou-se o homem mais poderoso do planeta. Ele é o chefe do novo polo mundial que se confronta com os Estados Unidos. O polo encabeçado pela China inclui a Rússia e a Índia, os restantes Brics, caso do Brasil e de alguns dos principais países africanos. Um polo com um mínimo de 3 potências nucleares, que será determinante no Pacífico e no Índico, que criará uma nova moeda de troca mundial, que integra a nação com maior superfície territorial no planeta, a Rússia, e as duas mais populosas nações, a Índia e a China. Uma China que determinará a ação política de potências como o Japão e a Coreia.

Fantasma do ano:

– Liz Truss — a speedy Gonzalez do governo inglês (40 dias no 10 de Downing Stree!). O Reino Unido na decadência até da imagem de respeitabilidade, dirigido por aventureiros como ela, como Farage e Boris Johnson.

Ideia luminosa

– Criptomoeda — Bitcoin e correlativos. Na área da banca, finança e outros mistérios, o vencedor será Luiz Capuci, americano de 44 anos, residente na Florida, acusado dos crimes de “conspiração para cometer fraude eletrónica, fraude de valores mobiliários e lavagem de dinheiro a nível internacional”. Capuci enganou os investidores sobre o programa de criação e investimento de criptomoeda da sua empresa, que oferecia investimentos através da compra de “pacotes de mineração”. Há quem acredite e invista em pacotes de mineração!

Música do Ano:

– Tempestade perfeita e Sinfonia imperfeita pelo trio Ursula Van Der Leyen, Borrel e Mitchel, acompanhados à metralhadora por Jens Stoltenberg com orquestra da NATO. Destroçaram a Europa a toques de finados.

Vergonha Internacional do ano:

– A continuação da prisão de Julian Assange!

Zômbis internacionais do ano:

Trump e Bolsonaro — ainda não sabem que deixaram de existir.

Zômbis nacionais do ano:

– Maria João Avilez e Marques Mendes — também não existem, mas gralham.

Palavras do ano:

– Drone! Pacote! Bazuca! AZOV! Dívida! Gás e eletricidade! (E porque não: à rasca!)

Perplexidades do ano (vindas do anterior):

– As inadiáveis consequências das alterações climáticas afinal podem esperar em pousio até ao final da guerra na Ucrânia?

– Os carros elétricos poluem mais do que os de motores convencionais? O que fazer com as baterias usadas? Para quando aviões elétricos, paquetes de cruzeiro elétricos? Para quando uma guerra ecológica com foguetões intercontinentais elétricos?

– Israel tem bombas atómicas no Médio Oriente, mas o perigo são as que o Irão não tem?

– Os palestinianos são seres humanos, ou alvos para os israelitas treinarem?

– Moscovo e São Petersburgo são cidades asiáticas? Sidney é europeia?

– O COVID foi inventado por um chinês, mas porque vão os lucros das vacinas para as multinacionais americanas e europeias?!

– Qual a diferença entre um oligarca russo e um multimilionário americano?

– Como foram substituídos os trabalhadores pelos colaboradores na civilização do Ocidente neoliberal e porque ficaram os emigrantes de fora da conversão?

– Quantas voltas dará Marcelo Rebelo de Sousa ao mundo até ao final do mandato?

– Onde estava C Costa, o governador do Banco de Portugal, enquanto o BES foi o Dono Disto Tudo?

– Além do grito: Vergonha! Qual é o programa político dos seguidores do esbracejante Ventura, depois de, segundo o DN de 27 de Agosto (na distração das férias) de ter “eclipsado” a destruição da escola pública e do SNS das suas bases programáticas?

– O que é a clarificação inversa que o chefe do Chega invoca para propor a lei da selva?

– Além de receberem mensagens do exterior e fazerem de porta-vozes, de irem a reuniões no estrangeiro, qual é a atividade dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros?

– A ASAE já sabe quantos gramas têm os novos quilos dos produtos que mantiveram os preços nas embalagens?

– Quando saberemos se somos visitados por extraterrestres?

Frustrado do ano (nacional):

– O bastonário da Ordem dos Médicos, que ainda não conseguiu extinguir o Serviço Nacional de Saúde!

Frustrados do ano (internacional):

– Os acionistas da Nord Stream, a empresa de transporte de gás cujos pipelines foram sabotados por sapadores amigos. A Nord Stream é uma rede de gasodutos subaquáticos através do Mar Báltico que deviam fornecer gás natural diretamente para o sistema europeu de transporte a partir das vastas reservas de gás da Rússia. Esta infraestrutura de energia de última geração financiada pelo setor privado teria uma vida útil de pelo menos 50 anos, forneceria gás aos seus parceiros europeus, contribuindo assim para a segurança energética da Europa nas próximas décadas. O consórcio de gasodutos Nord Stream AG tinha sede em Zug, na Suíça, era uma joint venture internacional para o projeto, construção e operação dos novos gasodutos offshore. A russa Gazprom detinha uma participação de 51% na joint venture; as empresas alemãs BASF e PEG Infrastruktur AG detinham 15,5 por cento cada; a empresa de gás holandesa Gasunie e a francesa Engie 9% cada. Os 5 acionistas principais detinham 30% do capital de 7,4 mil milhões de euros e 70% tinha sido colocados no mercado de capitais. Um investimento a longo prazo com dividendos assegurados. De repente tudo explodiu. A 27 de Setembro de 2022 várias explosões subaquáticas danificaram o gasoduto de forma dificilmente reparável. Nenhum autor desta sofisticada sabotagem no mar territorial da Suécia se assumiu. Os dois gasodutos de NordStream tinham capacidade para fornecer 27,5 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano, isto é 12% das importações de gás da União Europeia. Foi tudo por água abaixo (ou acima), mas os desiludidos que esperavam ganhar uns milhões de lucros em dividendos mantêm-se em silêncio cobarde.

Moda 2022

– Elas: Jaquetas de libelinha azul sobre T-shirt amarela à Úrsula Van Der Leyen.

– Eles: Camuflado diplomático à Borrel, ou T-shirt verde azeitona à Zelenski.

– Cartões de crédito platina (em alternativa, conta no Dubai, no Qatar, nas Ilhas Caimão, ou no Estado de Delaware

Destino turístico do ano

– Kiev — que substituiu Kabul, que tinha substituído Belgrado, que sucedera a Bagdad, ou ao contrário.

Desaparecidos do ano

– Guaidó, o presidente virtual da Venezuela (Washington não paga a inúteis).

– Carles Puigdemont o libertador da Catalunha, em parte incerta pela Europa.

– Nigel Farage — o patrocinador do Brexit. Desaparecido depois do êxito da campanha.

Ressuscitado do ano:

– Sílvio Berlusconi! Apareceu, recauchutado, na segunda fila de um governo italiano liderado por uma espampanante fascista. Regressam as festas bunga-bunga. Que tipo de Viagra tomará?

Imortal do ano:

– Pinto da Costa

Funerais e velórios:

– Da rainha Isabel de Inglaterra e de Eduardo dos Santos de Angola — um grande espetáculo de sofreguidão com abutres e hienas sobre dois cadáveres!

Produtos do ano (segundo o sales manager Rogeiro):

– Gás liquefeito americano (para evitar a dependência energética da Europa!); HMRS (um género de lançadores de fogo à distância).

– Canhão Caeser — 40 quilómetros de viagem sem reclamações.

– Míssil Patriot

– Javelins

– Fakenews

Objeto nacional do ano:

– Pilaretes, radares, ecopistas

Livros do Ano:

– Nacional: «O Governador» — como sacudir a porcaria do capote e espalhá-la pelos inimigos, de C. Costa, gerente de banco.

– Internacional: «Não Te F* das», de Gary John Bishop, que também escreveu «Sai da Tua Cabeça e Faz-te à Vida» — O livro vale pelo título, Não Te F*das é o manual de instruções para os que se resignaram à sua vidinha, ou para aqueles que querem (muito) mais do que têm. É, segundo a editora, “um verdadeiro manifesto para uma mudança real e significativa”. Traduzido já em 24 países, incluindo, segundo a promoção, o Vietname, passando pela Mongólia. É, julgo, livro de cabeceira dos autores nacionais de bestsellers.

Grande questão do ano e do próximo futuro:

– Os WC! Os arquitetos e os fabricantes de louça sanitária estão em apuros para definirem o lay out (desenho de colocação e distribuição de equipamentos parecia pouco moderno) das novas casas de banho para o mais recente género da humanidade ocidental, o LGBT. No resto do planeta o assunto tem sido resolvido sem disputas com a natureza.

Há ativistas de causas que propõem uma consulta ao livro do Génesis para descobrir como se aliviam o Adão e a Eva! Para se descobrir se as calças devem ter braguilha e se as saias devem ter presilhas de sustentação.

Aflição do Ano:

– Onde se aliviam os LGBT? (Prevejo que será o grande tema mobilizador das hostes educadas do Ocidente em 2023, em substituição do atirar tinta às obras de arte clássicas!)

Atores Dramáticos do Ano:

– Cristiano Ronaldo e Vladomir Zelenski, Ursula Van Der Leyen e Madame Zelenska.

Pastores Bíblicos do Ano:

Nacionais:

– Rogeiro&Milhazes — Meninos de Deus

Internacionais:

– Jens Stoltenberg — Secretário-geral da Nato e profeta principal do Senhor Deus dos Exércitos.

Pastores ecuménicos nacionais:

– Marques Mendes e Paulo Portas

Pastor ecuménico internacional:

– Mark Sargent, o terraplanista americano que anda pelo mundo a garantir que a Terra é plana. “A ciência diz que estamos numa pequena rocha coberta com um pouco de água e fumo, voando pelo espaço em diversas direções e velocidades. Mas não, tudo o que vemos é parecido com o cenário de filme . “Tudo o que se vê em cima de nós, como as estrelas, os planetas, o Sol e a Lua, são apenas imagens no teto”.

Pessoas como estas guiam automóveis, compram armas e podem viajar de avião a nosso lado. Apanhei um que vinha do Utah, num voo de Nova Iorque, ver o ponto de aterragem da senhora de Fátima em Portugal. Dizia-me que se a Terra fosse uma esfera ela não teria pousado em cima de uma azinheira, seguia em tangente para os confins do universo. E porque não se esborrachou na Serra d’Aire? Atrevi-me a questionar. É o segredo de Fátima, respondeu-me.

Cómicos Internacionais do Ano:

– Os porta-vozes do Kremlin. Um fardado e o outro em efígie.

Episódio pícaro:

– Sofagate. Charles Michel e Ursula Van Der Leyen na dança das cadeiras diante do presidente turco. Michel senta-se ao lado do presidente turco Edorgan, e a senhora de pé, até se decidir pelo sofá. Um casal de frangos em apuros. A União Europeia em contradanças.

Mulher liberal do ano:

Nacional:

– Alexandra Reis — gestora. Que arrecadou 500 mil euros de indemnização por atravessar a rua e ir da TAP à sede da NAV!

Internacional

– Elizabeth Holmes, americana, de 37 anos, fundadora de uma empresa de biotecnologia que prometia revolucionar os exames de sangue com ferramentas mais rápidas e baratas do que as utilizadas por laboratórios tradicionais. Foi acusada, não de charlatanismo, mas de um crime verdadeiramente grave: enganar investidores que colocaram dinheiro na sua startup (ou unicórnio), com sede na Califórnia.

Êxtase do Ano:

– A reportagem do Casal Zelenski e Zelenska, em Kiev, para a Vogue, entre escombros e cetins. Amor em tempo de cólera, do mais refinado. Lágrimas até encher as barragens.

Ingénua do ano:

– Ana Lúcia Matos — apresentadora ou ex-apresentadora de televisão. Uma famosa cujo marido, namorado ou companheiro foi detido e acusado de uma fraude internacional de cerca de 2,2 mil milhões de euros, e que, apesar da vida luxuosa que ele lhe proporcionava, acreditou que tudo era fruto de honesto trabalho!

O nome mais insólito de um território nacional:

– Oeiras Valley — com um xerife chamado Isaltino

A mais estranha operação policial:

– A captura de uma caixa de garrafas de vinho ao ex-bancário e ministro Manuel Pinho!

O milagre do Ano:

O aparecimento de um saco com milhares de euros na casa de uma eurodeputada grega, que louvava o regime do Qatar! A miraculada chama-se Eva. (Eva Kaili) O milagre produziu-se num espaço de paz ecuménica entre o islamismo petrolífero e o cristianismo ortodoxo grego. A dita miraculada é também missionária das criptomoedas.

O Bezerro de ouro:

– O bezerro de ouro do ano chama-se Infantino e é presidente do consórcio mundial de futebol, a FIFA. Organizou um campeonato do mundo a meio dos campeonatos nacionais e no Natal cristão, sobre campos de gás natural e à custa de trabalho de seres humanos bestializados. Os números do espetáculo lá se foram sucedendo até à apoteose final em que os artistas de calções conviveram com dignitários bem ajaezados de fato ou camisa de noite com touca. Poucas mulheres à vista e nada de álcool, nem o champanhinho do costume a esguichar sobre a multidão se viu. Os camelos locais e os do estrangeiro podem agora descansar que o Infantino deve estar a preparar mais um espetáculo com bezerros de ouro e anões de calções.


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