Entre a «esquerda» que se espanta e a esquerda que luta

(João Gomes, in Facebook, 27/08/2026)


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Há uma esquerda que ainda luta. E há uma outra que, perante as grandes convulsões do mundo, parece ter trocado a luta pela indignação, a análise pela etiqueta e o internacionalismo pela escolha de um campo.

É uma distinção que me parece cada vez mais necessária.

A questão não está em saber quem, entre a esquerda portuguesa ou europeia, merece ou não o título de esquerda. Não tenho essa pretensão. A política não se resolve com certificados de pureza ideológica. O que me interessa é outra coisa: perceber se os princípios que historicamente deram sentido à esquerda continuam a ser aplicados com a mesma exigência quando mudam os protagonistas, as geografias e os interesses em jogo.

Foi precisamente essa questão que esteve na origem de uma publicação sobre a aparente contradição entre a forma como determinados sectores da esquerda analisam a Palestina e a Ucrânia. E essa contradição merece ser discutida.

Não porque a Palestina e a Ucrânia sejam situações idênticas – não são. Não porque Israel e Rússia possam ser colocados simplesmente no mesmo plano histórico ou jurídico – não podem. E muito menos porque se possa justificar uma guerra ou uma invasão com a existência de erros cometidos anteriormente.

Mas porque os princípios não podem ser geograficamente seletivos.

. Se a ocupação é condenável, é condenável.

. Se o ataque contra civis é condenável, é condenável.

. Se a punição coletiva é condenável, é condenável.

. Se a autodeterminação dos povos é um princípio, deve sê-lo independentemente de o povo em causa ser palestiniano, pró-russo ou qualquer outro.

E é precisamente aqui que começo a sentir algum desconforto perante aquilo que considero ser uma parte significativa de certa esquerda ocidental.

Uma esquerda que se indignou com Gaza, que denunciou a cumplicidade de governos ocidentais com Israel e que reivindicou o respeito pelo Direito Internacional, parece aceitar, no caso ucraniano, uma leitura do conflito construída quase exclusivamente a partir da perspetiva política e estratégica de Washington, Bruxelas e Kiev. Ora, isto não é internacionalismo. É alinhamento.

E uma esquerda que se pretende internacionalista deveria ser capaz de fazer algo muito mais difícil: criticar todos os poderes quando necessário, inclusive aqueles que considera mais próximos. Não existe verdadeira independência política quando se substitui a análise pela identificação automática do “nosso lado”.

A Rússia que alguns continuam a ver já não existe

Há ainda um segundo problema. Uma parte desta “dita esquerda” parece olhar para a Rússia contemporânea através de uma espécie de espelho retrovisor da História. Olha Putin e vê Estaline. Olha Moscovo e vê a União Soviética. Vê o nacionalismo russo e interpreta-o como se fosse simplesmente comunismo soviético disfarçado. Essa é uma leitura, no mínimo, insuficiente.

A Rússia contemporânea não é a União Soviética. Não possui a economia planificada soviética, não assenta na ideologia marxista-leninista, não é governada por um partido comunista único e não pretende reconstruir a URSS nos termos em que ela existiu. É, portanto, outra coisa.

É uma potência capitalista, nacionalista, conservadora em muitos dos seus valores sociais, militarmente poderosa e profundamente empenhada em preservar aquilo que entende serem os seus interesses estratégicos e a sua autonomia perante o Ocidente.

Podemos discordar dessa Rússia. Podemos não estar satisfeitos com decisões de Putin. Podemos falar dos erros da guerra na Ucrânia. Podemos criticar o sistema democrático e político russo. Mas não precisamos de transformar a Rússia numa caricatura histórica para podermos discordar dela.

Aliás, fazer isso impede-nos de compreender uma das grandes mudanças do nosso tempo: a emergência de um mundo que já não aceita pacificamente a arquitetura internacional construída depois da Guerra Fria. Moscovo pretende recuperar uma posição de potência soberana. Pequim pretende afirmar-se como centro económico e tecnológico mundial. A Índia recusa cada vez mais a lógica de alinhamento automático. Países do chamado Sul Global procuram maior margem de manobra.

Isto não significa que estejam todos unidos, nem que partilhem os mesmos valores ou interesses. Significa apenas que o mundo está a deixar de ser unipolar. E essa transformação não pode ser explicada apenas como uma conspiração de autocracias contra as democracias ocidentais.

A Democracia não é propriedade de um bloco

Há uma outra confusão que me parece perigosa. Defender a democracia, os direitos humanos, a liberdade de expressão e o pluralismo não significa aceitar que exista apenas um modelo político, económico e geoestratégico legítimo.

As democracias ocidentais conquistaram direitos fundamentais que devemos preservar. Mas também possuem interesses económicos, grupos de pressão, grandes concentrações de capital, complexos industriais-militares e estruturas de poder que influenciam decisões políticas. Reconhecer isso não é ser contra a democracia. É precisamente exercer o pensamento crítico dentro dela.

O problema começa quando alguém transforma a democracia ocidental numa espécie de certificado moral que permite classificar o mundo entre os “bons” e os “maus”. A partir daí, qualquer país que questione a ordem existente passa a ser suspeito.

Qualquer potência que reivindique autonomia passa a ser expansionista. Qualquer sociedade que não reproduza exatamente os “nossos valores” passa a ser “atrasada”. E qualquer argumento que contrarie a narrativa dominante pode ser imediatamente catalogado como propaganda. Uma esquerda verdadeiramente crítica não pode aceitar esta simplificação.

Não precisamos de escolher Washington ou Moscovo

É aqui que a minha posição pessoal se afasta de qualquer lógica de blocos. Não sou obrigado a escolher entre Washington e Moscovo. Nem entre Washington e Pequim. Nem entre NATO e Rússia. Posso considerar que a invasão russa da Ucrânia foi um erro e, simultaneamente, reconhecer que a expansão da NATO e a política de segurança europeia contribuíram para criar um ambiente de confronto.

– Posso defender a soberania da Ucrânia e, simultaneamente, perguntar se o Ocidente esteve sempre disposto a reconhecer as preocupações de segurança russas.

– Posso “condenar Putin” sem transformar Zelensky num herói acima de qualquer crítica.

– Posso defender o direito de Israel à existência sem aceitar a ocupação dos territórios palestinianos.

– Posso defender a Palestina sem aceitar que todos os actos praticados em seu nome sejam automaticamente legítimos.

A coerência começa precisamente aqui. Quando somos capazes de manter o mesmo princípio, mesmo quando ele incomoda os nossos amigos.

Entre a indignação e a luta

Talvez seja esta a diferença entre a esquerda que se espanta e a esquerda que luta. A primeira espanta-se. Espanta-se com Gaza. Espanta-se com a Rússia. Espanta-se com Trump. Espanta-se com a extrema-direita. Espanta-se com o crescimento das desigualdades. Espanta-se com as guerras. E depois regressa ao conforto das explicações que o seu próprio campo político lhe oferece.

A segunda não se limita a espantar-se. Questiona. Questiona quem tem o poder. Questiona quem beneficia. Questiona quem financia. Questiona quem fabrica as narrativas. Questiona os próprios aliados. Questiona até aquilo em que acredita.

Porque lutar não é repetir aquilo que queremos ouvir. Lutar é conservar a capacidade de pensar quando todos à nossa volta já escolheram o lado que consideram obrigatório.

E talvez seja isso que falta a alguma esquerda contemporânea: menos preocupação com a etiqueta ideológica do adversário e mais preocupação com a substância das políticas que defende.

Uma esquerda que realmente queira ser internacionalista não pode aceitar que o mundo seja dividido entre impérios bons e impérios maus. Deve olhar para os povos. Para os trabalhadores. Para os pobres. Para os que são bombardeados. Para os que perdem a casa. Para os que são obrigados a fugir. Para os que morrem numa guerra decidida por outros. E deve perguntar sempre a mesma coisa: quem está a pagar o preço das decisões dos poderosos?

Um mundo multipolar será necessariamente um mundo melhor?

Também aqui convém não alimentar ilusões. Um mundo multipolar não é automaticamente um mundo justo. A Rússia não é perfeita. A China não é perfeita. Os Estados Unidos não são perfeitos. A Europa não é perfeita. Nenhum Estado, nenhum bloco e nenhuma potência deve receber um cheque em branco.

Mas existe uma diferença fundamental entre defender uma ordem multipolar e defender qualquer potência que se apresente como alternativa ao Ocidente.

Eu não defendo isso. Defendo a possibilidade de existirem vários centros de poder capazes de se equilibrar mutuamente, numa ordem internacional onde nenhuma potência tenha o direito de determinar unilateralmente o destino das restantes.

Talvez essa transição seja turbulenta. Talvez produza novos conflitos. Talvez alguns dos novos poderes sejam tão imperfeitos como aqueles que hoje dominam o sistema. Mas o caminho para uma ordem internacional mais equilibrada não pode passar pela substituição de uma hegemonia por outra. Tem de passar por algo mais difícil: o respeito pela soberania, pela diversidade política e cultural e pelo direito de cada povo construir o seu próprio caminho.

É precisamente por isso que não consigo aceitar uma esquerda que substitua o internacionalismo pela geopolítica dos blocos.

A esquerda nasceu, historicamente, para desconfiar do poder. Não para escolher qual dos poderosos merece a sua confiança. Nasceu para defender os que não têm poder. E essa talvez seja a pergunta que devemos continuar a fazer, perante a Palestina, a Ucrânia, a Rússia, Israel, os Estados Unidos ou qualquer outro lugar do mundo: de que lado estamos quando não estamos obrigados a escolher um lado?

Eu escolheria o lado da paz. O lado dos povos. O lado da soberania. O lado do Direito Internacional aplicado sem dois pesos e duas medidas. E, sobretudo, o lado de uma esquerda que não tenha medo de pensar contra a sua própria trincheira. Porque uma esquerda que apenas se espanta pode produzir indignação.

Mas uma esquerda que verdadeiramente luta tem de conservar aquilo que sempre foi a sua maior força: a capacidade de questionar o poder – sobretudo quando o poder está do seu lado.

Rui Tavares e o seu amigo nazi, corrupto, toxicómano e proxeneta

(João Carlos Pereira, in Facebook, 25/08/2026, Revisão da Estátua)


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Rui Tavares (RT, daqui em diante) diz que é de esquerda. E do Livre. Mas foi ao grotesco cortejo de beija-mão ao Zelensky. Começarei por justificar o título deste artigo.

1 – O nazi? Sim, o homem é mesmo nazi

Talvez por se sentir livre, RT tomou a liberdade de ser amigo de um nazi, que  outra coisa não é alguém que recupera os ícones gráficos dos nazis, erige memoriais a nazis famosos por terem massacrado milhares de ucranianos e judeus às ordens de Hitler, e que – todos o sabem – vive desde que foi eleito, em comunhão de bens com organizações civis e militares confessamente nazis, que operam pela Ucrânia a tentar imitar as SS e a Gestapo.                  

E que – veja lá, RT! – até se deu ao luxo de transladar os restos mortais de dois reconhecidos e adorados nazis, desde o Luxemburgo e dos Países Baixos, onde jaziam, para serem inumados, em solo ucraniano, com honras de Estado – e com a sua (dele, de Zelensky) comovente e comovida presença.

2 – A corrupção

Zelensky também é corrupto – e basta ouvir aqueles que já abandonaram o barco de Kiev  e exigem agora o seu julgamento por isso mesmo.               

Aliás, o próprio Ocidente, com o descaramento que lhe é peculiar, é balcão de muitas vozes onde essa realidade é tema de conversa. Sem quaisquer cuidados. Como dizia o outro: «O homem é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta!».

E uma das coisas que consta é que metade do dinheiro que se diz que a Europa manda para a Ucrânia, nem à Ucrânia chega e, da metade que chega, sai metade dessa metade para se comprar mais uns meses de Zelensky à mesa do orçamento.       

Sabe-se, de resto, que a «folha de pagamentos» do antigo palhaço é enorme. E rechonchuda. E, Madame Zelensky – é público e tem sido publicado em conhecidas revistas ocidentais – também tem gostos pessoais que não saem nada baratos.          

Para além de que é fundamental ter preparada a Operação «Espera aí que eu já venho», isto no caso de os naziz, perdida de vez a esperança de conquistar a Rússia, não decidam calar o Zé, uns dias antes desse «Volto já».

3 – O pó

A toxicomania, enfim, é como os chapéus do Vasco Santana. Há muitos a tê-la. Um mal menor, face ao resto. E ajuda muito a combater o stress. O pior – dizem alguns – são as ressacas. Mas se o material for do bom… e o dinheiro não faltar, está-se bem. E a coisa vai…

4 – Proxenetismo

Vem de proxeneta. Vulgo, chulo. Então, o que se haverá de chamar a quem vive de sacar dinheiro a outrem? Mas será a Europa uma prostituta? Claro que sim.

 Direi que é mesmo, nos tempos que correm, a chamada «puta velha». De corpo, que não de ratice. É puta velha e estúpida. Tão estúpida que até um ex-palhaço estúpido lhe come as «papas na cabeça».

Compreende-se. Esta prostituta teve tempos áureos quando viajava pelo mundo fora e era forte, bela, e de sangue na guelra e pelo na venta. Teve a Índia aos pés dos seus amantes, também as Américas, as Áfricas, quase tudo. O Mundo pertencia-lhe, especialmente a partir da meia-idade!. Encheram-na de ouro, joias, especiarias, sedas, iguarias sem igual.                  

Mas tudo tem – lá está! – um fim. Já no século passado (meados dos anos 40) o amante das Américas desencantou-se e, em vez de a mimar, passou a explorá-la.   Agora, porém, também ele já sente o peso dos anos e pressente que o Outono já está a dar lugar ao Inverno («do seu descontentamento»). Não há bem que sempre dure e, para mal dos seus muitos pecados, em breve o mundo será outro. Os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos já não são os séculos que foram – e os milénios que alguns sonharam. É a vida.

Voltando ao RT

Você foi a Kiev, integrando um repugnante coletivo de opacas criaturas em significativo estado de decomposição mental, moral e física, para lamber o trágico ex-palhaço ucraniano que, aqui há meio século, seria general e chamar-se-ia Pinochet.        

Até dou de barato que você, RT, não tivesse percebido o que se passou na Ucrânia entre 2014 e 2022, por estar obviamente ausente do planeta Terra nesse lapso de tempo. Mas olhe que esse tempo até meteu golpes de Estado made in EUA e UE, e 15 mil pessoas mortas à bomba no Donbass, pelo novo regime de Kiev, mais o seu batalhão Azov, de nazis prontos a dar início a uma renovada Operação Barbarossa.

Por isso, não me venha dizer que ao fim de quatro anos de guerra da NATO contra a Rússia, via Ucrânia – esta a servir de porta-aviões e os ucranianos de carne para canhão -, desconhece que interesses se moviam – e que se movem – no Ocidente em relação à Rússia e à China – e agora contra o Irão.

Meu caro RT: Quem, ao fim de quatro anos de guerra não percebeu nada do que se passou, então digo-lhe que você não deveria estar na política.

Olhe que, até o Papa Francisco disse, em 2022, que «a NATO não deveria ter ido ladrar para as portas da Rússia», coisa que você, criaturazinha de esquerda, aparenta ignorar! Quero eu dizer que até um Papa percebe – e diz sem papas na língua – aquilo que você, pelo que vejo, não consegue ver.  

A menos – é claro – que o RT também faça parte do gangue e o que gosta é de se armar em parvo, assim como quem está ali por acaso, mas é um gajo de esquerda, embora da esquerdo caviar, já gasta e regasta, mas que ainda dá algum jeito, servindo, pelo menos, como objeto decorativo.

Se assim é, ao juntar-se ao bando de Trump, Netanyahu, Ursula von der Leyen, Metz, Macron, Kallas, Costa, Andy Burnham, Montenegro e quejandos, que são todos excrementos do mesmo esgoto, você – o homem do Livre – manifesta ter aderido, de alma e coração, àquilo que de pior a nossa sociedade pratica.

A desumanização do outro em seu próprio proveito

Ou seja: o Ocidente precisa – sempre precisou – de explorar o resto do Mundo, não só para viver no «bem-bom», mas até para encher a barriga. Paciência, RT. O resto do mundo abriu os olhos. Queres batatas? Deixa de roubá-las. Aprende a prepará-las, a semeá-las, a tratá-las, a colhê-las, a cozê-las, a comê-las e, se sobrarem algumas, até podes começar a vendê-las. Com – ou sem – as sanções do Trump.                

Conclusão: Morreste (como Homem Livre) em Kiev! Assume-te como um vegetal.

Vegeta!

A guerra na Ucrânia: até ao último contribuinte europeu

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 25/08/2026, Revisão da Estátua)


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A Ucrânia pode ter acabado de inventar uma nova doutrina militar: a guerra contra o pagamento diferido. Não se ganha mais terreno, ganha-se tempo. E quando chega o prazo final, liga-se para Bruxelas.

A dívida pública da Ucrânia terá ultrapassado os 105% do PIB, atingindo os 212,4 mil milhões de dólares. Mas não se preocupem: na linguagem euro-atlântica, isto não é provavelmente dívida. É um “mecanismo financeiro de resiliência estratégica”. A 150%, estaremos sem dúvida a falar de “soberania fiscal reforçada”.

O detalhe mais revelador está noutro lugar: Kiev já gastou parte do dinheiro destinado ao segundo semestre do ano durante o primeiro semestre. Agora, são necessários mais 8 a 10 mil milhões para se preparar para janeiro de 2027, além de quase 20 mil milhões para a folha de pagamentos, indemnizações e outras despesas.

Estamos em agosto, e 2027 já está no vermelho. Uma solução revolucionária: pedir à União Europeia que liberte os fundos do próximo ano antecipadamente. Assim, uma vez gastos estes fundos, podemos solicitar os fundos de 2028 para equilibrar as contas de 2027. A este ritmo, Bruxelas estará em breve a financiar 2032 antes mesmo de finalizar o seu orçamento de 2026.

É um ciclo vicioso aplicado às finanças públicas: contrair empréstimos amanhã para pagar hoje o que já financiámos ontem.

Entretanto, a economia ucraniana está em estado crítico. Com a sua infraestrutura energética debilitada, a capacidade industrial severamente reduzida, as exportações interrompidas e os gastos militares astronómicos, o Estado depende fortemente das injeções financeiras ocidentais.

Mas, acima de tudo, não utilizem a palavra “dependência”. A Ucrânia é soberana. Tão soberana, aliás, que precisa de pedir aos seus parceiros o dinheiro necessário para pagar aos seus soldados, comprar as suas armas e preparar o seu próximo orçamento.

Esta é, provavelmente, a definição moderna de independência: ter a liberdade de escolher a que credor pedir o próximo pagamento.

E a Europa? Vale a pena. Com aquele entusiasmo peculiar de um banqueiro que gradualmente se apercebe que o seu cliente provavelmente nunca pagará o empréstimo, mas continua a emprestar porque parar agora o obrigaria a analisar o balanço.

Pois o problema já não é apenas quanto custará a guerra. Devemos começar por perguntar quem ainda se pode dar ao luxo de a deixar continuar.

Os governos ocidentais repetem incessantemente: “o tempo que for necessário”.

Uma frase magnífica. Ela evita cuidadosamente as três perguntas vulgares: quanto, até quando e com que dinheiro?

Assim, Kiev ganha tempo com dívidas. Bruxelas compra otimismo com dinheiros públicos. E todos rezam para que a realidade aceite mais alguns pagamentos mensais.

A contagem decrescente na Ucrânia já não é apenas militar. É financeira.

E a derrota mais brutal pode não vir de uma vitória nas linhas da frente, mas de um ecrã a exibir friamente: Transferência recusada — fundos insuficientes.