Da Ucrânia à Gronelândia: a redescoberta de Putin

(Armando Rosa, in MaisRibatejo.pt, 20/01/2026)

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No início da guerra na Ucrânia, arrisquei uma posição impopular. Em artigos e redes sociais, argumentei que, independentemente da condenação legal da invasão, era necessário analisar os interesses geopolíticos russos por trás do conflito e negociar a paz o mais rapidamente possível. A reação de superficiais e russofóbicos primários foi rápida: fui taxado de “putinista”, perdi contactos, até amigos e vi-me enquadrado no rol dos apologistas de ditadores.

Chavões morais e ideológicos frequentemente servem apenas para condimentar discursos e enviar os filhos dos outros para a guerra. Deixei claro que não subscrevia os métodos de Putin, mas que era ingénuo ignorar a perspetiva russa: a expansão da NATO, os massacres no Donbass e a perceção de uma ameaça existencial na sua fronteira.

Afirmei então que a Rússia, com o seu peso estratégico e económico, era um ator impossível de isolar e que era um erro crasso pensar que, sendo a maior potência nuclear, poderia perder esta guerra que considerava existencial. A Europa, tendo como mantra o apoio à guerra pelo tempo necessário até à derrota da Rússia, estava a ser irresponsável e condenava os seus povos à insignificância estratégica e ao inevitável empobrecimento.

O tempo deu-me razão de forma estrondosa. A cena que simboliza esta reviravolta foi a receção de Vladimir Putin nos Estados Unidos, com honras de Estado. De um dia para o outro, o demónio personificado tornou-se um interlocutor necessário. Os comentadores afiliados ao discurso oficial, que quase povoam em cem por cento as cenas televisivas e as páginas dos jornais do regime e da Europa, tiveram o seu primeiro choque de realpolitik e trataram de estudar a melhor maneira de se adaptarem aos novos paradigmas:  a Rússia ganha; a Rússia é um dos três vértices da multipolaridade geopolítica; as negociações para a paz são inevitáveis e as premissas dessa paz serão ditadas pelo vencedor.

Visitando alguns comentários e posts meus antigos e análises de comentadores encartados do regime, constatei um padrão: uma certa elite intelectual e mediática que nos vendia a “verdade” inquestionável do momento, ridicularizava e insultava os dissensos e impunha uma pauta de pensamento único. Até que o vento muda. Então, sem alarde, o discurso é reformulado, os comentários de então são escondidos ou apagados e a narrativa oficial dá uma guinada de 180 graus. Da derrota mais que certa e do colapso russo (lembrar que Zelensky disse que iria passar o Natal de 2022 à Crimeia…), passámos a implorar o cessar fogo e a paz, mas nas condições infantis e completamente fora do contexto bélico.

Questionar a histeria coletiva não era ser mais inteligente. Era apenas lembrar episódios recentes, como as falsas “armas de destruição massiva” no Iraque, ou a alteração das fronteiras da Sérvia/Kosovo pela força da NATO. Era desconfiar do vinho sempre envenenado que as elites e a imprensa nos servem.

Enquanto isso, os “comentadores” preferiam o consenso confortável. Factos históricos eram irrelevantes; a lógica, substituída pelo carimbo mediático do argumentador. Quem ousasse discordar era silenciado – o meu perfil no Facebook foi um dos bloqueados por várias vezes.

Agora, a realidade desferiu a sua lição final. As declarações duras de Trump sobre a NATO e Gronelândia, bem como a ação sobre Venezuela abalaram o Ocidente. De repente, a Rússia “isolada” e o “Estado terrorista” que “iria colapsar” está a tornar-se, qual fénix, o possível salvador de uma Europa receosa do seu aliado americano que ameaça invadir um país aliado.

O chanceler alemão, Merz, agora declara: «A Rússia é um Estado europeu. É de capital importância abrir canais de comunicação». O mesmo aconteceu com Macron e Melloni. Mais de 30 diplomatas ocidentais apresentaram recentemente credenciais em Moscovo. (A embaixadora de Portugal foi a única que, com a coragem dos imbecis, não cumprimentou Putin no ato da apresentação). O Kremlin, outrora o “palácio do diabo”, é redescoberto como um Vaticano da *realpolitik*.

Os analistas do regime e da voz do dono começam a escrever novos artigos, a retocar o discurso com a mesma engenharia retórica, mas agora a defender o diálogo e a reaproximação. Todos podem mudar de opinião, mas fazê-lo diariamente ao sabor dos ventos do poder revela uma falta gritante de integridade intelectual.

Raciocinar com independência custa caro – bloqueios, insultos, isolamento. No entanto, poupa-nos à vergonha de ter de apagar comentários passados e livra-nos da dependência de carimbos institucionais para validar um argumento.

Este texto não pede validação. É um retrato de um sistema que transforma o consenso mediano em dogma e trata o pensamento independente e fundamentado como heresia. Até que a realidade força uma mudança silenciosa e hipócrita.

Pensar com assertividade e autonomia é uma indústria rara. Raridades sem selo oficial geram desconforto. Como disse alguém: «a nossa elite intelectual raramente erra em público. Prefere mudar de opinião em silêncio».

A internet, ao dar voz a “idiotas” como eu, também expôs a debilidade e a incoerência de muitos doutos. Felizmente, a realidade objetiva está aí, pronta para ser analisada por qualquer um com um pingo de sentido crítico e a coragem de remar contra a maré.

A geopolítica é um filme de suspense com reviravoltas impróprias para cardíacos e fatal para certezas absolutas. No seu jogo sujo, a única constante é a ganância, a falta de responsabilidade coletiva e a cara de pau dos fortes. Se tivermos a ousadia de chamar as coisas pelo nome, acertar nos prognósticos será uma consequência natural, não uma ciência oculta.

Um amigo meu dizia que é desconfiar do espírito do vento quando se veem todas as árvores a inclinarem-se sempre para o mesmo lado. Eu subscrevo.

Fonte aqui

A revolta dos “escravos infelizes”

(Viriato Soromenho Marques, in Blog Azorean Torpor, 25/01/2026)


Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”.


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Nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, durante a Conferência de Davos – onde se reúne o verdadeiro governo mundial (esse monstro híbrido que combina a voracidade da política e do capital) -, o efeito daquilo que tenho vindo a designar como o “brutalismo” de Trump, produziu duas intervenções dignas de nota entre governantes ocidentais.

A primeira foi protagonizada pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever. Este líder já tinha surpreendido pela sua firme recusa da intenção, maioritária nas instituições em Bruxelas, de confiscar os ativos financeiros russos “congelados” na UE, e em especial depositados no Euroclear Bank, na Bélgica. O PM belga explicou que esse gesto constituía um roubo, que tornaria a zona euro numa terra inóspita para os depósitos e o investimento estrangeiro, ameaçando aumentar os juros da dívida dos Estados europeus. Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”. Num só golpe, ficava exposta a servidão voluntária da Europa, dita dos “valores”, sempre pronta a submeter-se às incursões imperiais dos EUA, desde que alguma coisa sobrasse das suas pilhagens. O tão aclamado projeto de integração europeia resumia-se, no fundo, a partilhar algumas das vitualhas resultantes da Pax Americana, nomeadamente, aquelas resultantes dos despojos trazidos pelos EUA das suas incursões para “mudanças de regime”, do Iraque à Líbia, da Síria à Venezuela. Agora, com a intenção expressa por Trump de ocupar a Gronelândia, seria um país europeu, a Dinamarca, a tornar-se o alvo da pilhagem. Os vassalos já não comeriam as migalhas que tombavam da mesa para o chão. Eles passariam a estar na mesa, como parte do menu, para serem trinchados pelo senhor feudal de Washington…

Primeiro-ministro da Bélgica Bart De Wever

A segunda intervenção, mais longa e sistemática, pertenceu ao PM canadiano, Mark Carney. Tratou-se de uma autocrítica ao comportamento dos aliados dos EUA, a começar pelo seu próprio país, por terem aceitado “viver dentro da mentira”. Essa era uma expressão retirada de uma estória de Vaclav Havel, na qual um comerciante, no tempo do regime comunista na Checoslováquia, todos os dias colocava na porta da sua loja um cartaz afirmando o credo marxista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”…apesar de nem ele nem ninguém acreditarem nisso. Mark Carney, por analogia, recordou que, no Ocidente, os aliados dos EUA colocaram, durante décadas a fio, o seu próprio cartaz, que exaltava a “ordem internacional baseada em regras”. E acrescenta Carney: “Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.” Durante décadas a “ficção” funcionou para os aliados mais próximos dos EUA. Por isso calaram-se, como “vassalos satisfeitos”. Contudo, agora, tudo mudou: “Não se pode viver dentro da mentira de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação”. A hegemonia dos EUA, como sistema, entrou em rutura. Esse sistema não pode regressar à casa de partida, nem ser reformado. Por isso, afirma, imperativamente, o PM do Canadá: “Parem de invocar a ordem internacional baseada em regras como se ainda funcionasse conforme anunciado”.

Primeiro-ministro do Canadá Mark Carney

São duas intervenções que revelam coragem e, sobretudo, recusam-se a confundir as fantasias úteis com a realidade. Contudo, não creio que o exemplo destas intervenções, com algum grau de dissidência, faça escola entre os dirigentes europeus dos últimos trinta anos. Eles teriam muito para contar pela sua colaboração ativa com as aventuras do império norte-americano, desde o bombardeamento de Belgrado (1999) até ao apoio ao genocídio do povo palestiniano, ainda em curso. Por enquanto, ainda são os Costas, os Macron e os Merz, ou as von der Leyen e as Kallas a assobiar o pífaro partido da “ordem internacional baseada em regras”. E em Portugal, os atores políticos estão viciados numa mistura tóxica entre subserviência com Bruxelas e pequenez perante Washington. As provações de Portugal e dos portugueses ainda mal começaram. O país mergulhou há quase quatro anos num pesado caldo de russofobia, importado de Washington, Londres e Berlim.

Por todo o lado na UE tocam os tambores que nos incitam a fazer guerra ao urso russo… Foi preciso o brutalismo de Trump para vislumbramos, lá no alto, o voo incisivo da águia norte-americana… Afinal é ela que parece pronta a cobiçar-nos os olhos e o fígado…

Fonte aqui

A grande descoberta de Merz

(António Gil, in Substack.com, 16/01/2026)

Imagem: ‘Caminhante acima do mar de nevoeiro’, óleo sobre tela por Caspar David Friedrich

(Isto é ironia, claro).


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Aventureiros de todo o Mundo, alegrem-se, ainda há algo para desvendar na geografia do nosso planeta. Merz, o chanceler alemão acaba de fazer uma descoberta espantosa: a Rússia é um país europeu.

Provavelmente Hitler julgou estar a invadir a África sub-sahariana quando da Operação Barbarossa em busca de um vasto Lebensraum ou espaço vital. Ou então ele já sabia coisas que o pau de virar tripas entretanto esqueceu.

Claro que o conceito de Europa é mais cultural que territorial e também por isso os iluministas dos séculos XVII e XVIII não se lembrariam de questionar a Rússia enquanto membro de pleno direito da ‘grande família europeia’. Ninguém estranhava então que cazrina russa (de origem alemã) Catarina II , dita a Grande), trocasse correspondência regular com Diderot, Voltaire e Montesquieu.

E por falar nisso, as famílias reais europeias casavam seus príncipes e princesas com suas congéneres russas. Isso incluíu a Rainha (imperatriz, na verdade) Vitória. Será que o fariam com nobres da Ásia ou África? Ou dar-se-ia o caso de estarem equivocadas nessa convicção da Rússia ser uma nação europeia?

Também no capítulo cultural, a Europa desde há séculos consagrava escritores, músicos, bailarinos e pintores nascidos no vasto Império russo. Nem vou citar todos esses nomes porque correria o risco de me esquecer de alguns de suma importâncias porque, como dizia o nosso (português) Fernando Pessoa, enumerar é esquecer.

Na verdade muitos deles tinham mais leitores e público na Europa que no seu país natal. Então de onde veio essa súbita amnésia – agora corrigida por Merz, como se ele tivesse acabado de descobrir a pólvora – da Rússia como nação europeia?

Nós sabemos quem durante estes últimos anos, mais de uma década, baniu escritores russos, renomeou o Lago dos Cisnes como ballet ucraniano e retitulou pinturas russas de modo a sugerir outras origens de seus autores e temas. E também sabemos por quê.

Infelizmente essas manobras de pura manipulação encontraram muita compreensão em praticamente todos os países da Europa, sobretudo por parte de jornalistas francamente ignorantes. E outros que sendo melhor informados, recearam por seus empregos.

Mas bom, pode ser que a loucura tenha começado a reverter e esperemos que não seja tarde demais para que as evidências sejam restabelecidas. Desejavelmente teríamos então uma Europa de Lisboa a Vladivostock, como Putin chegou a propor.

Os anões políticos da Europa devem ter ficado estarrecidos com essa vastidão porque nada assusta mais a gente limitada do que saber que há mundo para lá do que sua obstruída visão abarca. Porque, como também Fernando Pessoa escreveu: ‘somos do tamanho de tudo aquilo que vemos’ e curiosamente, neste caso, ele considera que os citadinos são mais limitados do que os aldeãos. É uma boa forma de terminar esta peça, citar esse seu poema:

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”. Heterónimo de Fernando Pessoa.

Fonte aqui