A vacina russa contra a COVID 19, sobre os ombros da URSS

(Angeles Maestro (*), in Resistir, 21/08/2020)

Se escrevo este artigo é porque creio que ninguém está a dizer o óbvio:   as equipas científicas russas foram capazes de criar a vacina porque ainda existe uma poderosa estrutura estatal de laboratórios de investigação que foi desenvolvida pela União Soviética.


O anúncio de que a Rússia já dispunha de uma vacina contra a Covid-19 deu lugar a massivas desqualificações prenhes de carga política e económica. O alinhamento com os EUA por parte dos grandes meios de comunicação, correias de transmissão da servil subordinação política ao imperialismo norte-americano – que por outro lado se assemelha cada vez mais àquele que tenta salvar-se agarrando-se a quem se afoga –, leva a desqualificar tudo o que vem da Rússia com a irracionalidade e sistematicidade de uma mola.


No caso da vacina russa, a rejeição mediática generalizada está também untada pelos poderosíssimos interesses das multinacionais farmacêuticas. Os impérios do medicamento já esfregavam as mãos e preparavam os seus cofres para recolher os lucros da venda mundial de centenas de milhões de vacinas.

Ainda está fresca a memória dos milhares de milhões de dólares obtidos pela Gilead [1] com o Sovaldi ou pela Roche com o Tamiflu [2] , fármaco criado contra uma epidemia, a da Gripe A, que nunca existiu.

Muito se ironizou sobre os dois lapsos de Fernando Simón ao atribuir a vacina à URSS. Desconheço qual é a opinião de Simon sobre a URSS, mas efectivamente, os avanços soviéticos em saúde pública e medicina preventiva – alguns dos quais sobreviveram à Perestroika de Gorbachev, que considerava suspeito de ineficácia tudo o que era público – tornaram possível uma vacina à qual, significativamente, chamaram Sputnik V.

A URSS e a saúde pública

A Revolução de Outubro de 1917 deu origem ao primeiro sistema público de saúde, universal, baseado na promoção da saúde e na prevenção da doença e que exigia no seu funcionamento a participação da população na tomada de decisões [3] .

Num Estado que apresentava no início do século XX taxas de mortalidade infantil elevadíssimas – de cada 1.000 mortos, dois terços eram crianças com menos de 5 anos – e de mortalidade por doenças infecciosas (a mortalidade por tuberculose era de 400/100.000), a implementação de serviços de saúde em todos os recantos do imenso território foi acompanhada pela implementação de medidas de prevenção generalizadas [4] .

A vacinação de toda a população foi mais uma medida, entre outras também decisivas. O acesso a água potável e ao tratamento de resíduos, à electricidade (“O comunismo é o poder dos sovietes mais a electrificação de todo o país” V.I. Lénine [5] ), a habitação higiénica com aquecimento, a boa alimentação, a condições de trabalho decentes, a educação, … e ao poder político – conditio sine qua non –, são muito mais importantes do que os medicamentos para melhorar a saúde das populações [6] .

A Rússia czarista já havia desenvolvido uma importante trajectória científica em microbiologia, e especificamente em vacinas, que não chegavam ao seu povo. Antes da descoberta da vacina contra a varíola por Edward Jenner em 1796 e uma vez que a doença devastava desde há séculos a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, aplicava-se um procedimento arriscado: a variolização. Provocava-se o contágio para induzir imunidade, embora o risco de morte fosse elevado.

Após a morte por varíola do czar Pedro I em 1730, a imperatriz Catarina II, juntamente com o seu séquito, submeteu-se publicamente a tal procedimento – que teve êxito – e utilizou-o como arma propagandística a favor da ciência e contra a superstição. Efectivamente, com apoio estatal foram desenvolvidas instituições científicas relacionadas com a imunologia.

O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia, responsável pela descoberta da vacina contra a Covid 19, tem o nome do cientista Fiodor Gamaleya . Gamaleya desenvolveu nos finais do século XIX importantes investigações sobre a raiva com Luis Pasteur e com o seu apoio fundou o primeiro Instituto Bacteriológico da Rússia, o segundo do mundo. Seguiram-se descobertas de Gamaleya e outros cientistas russos sobre vacinas e mecanismos de transmissão da cólera, peste, tifo, etc.

O triunfo da Revolução em 1917 criou as condições para a aplicação desses avanços, que tinham permanecido encerrados em laboratórios, ao conjunto da população. Realizou-se a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade:   em 18 de Setembro de 1918, o Comissário do Povo para a Saúde Pública N.A. Semashko adoptou o “Regulamento de vacinação contra a varíola” baseado no relatório científico de Gamaleya e em Abril de 1919 o Presidente do Conselho de Comissários do Povo V.I. Lénine assinou o decreto correspondente. Foi a primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade [7] .

No início dos anos 1930, a URSS foi o primeiro território do mundo a anunciar a erradicação da varíola. À escala mundial esse facto ocorreu 50 anos depois.

Os anos em que a OMS gozou de prestígio e autoridade mundiais – antes de ser engolida pelas multinacionais farmacêuticas – foram tempos de grande influência da URSS. Em 1958, Viktor Zhdanov, vice-ministro da Saúde soviético, propôs à Assembleia da OMS um plano para erradicar a varíola à escala global, que foi aprovado e posto em marcha. Algo mais de vinte anos depois, ao declarar a erradicação da varíola no planeta, o director da OMS lembrou a contribuição extraordinária da URSS para os países carentes de recursos: 400 milhões de doses da vacina [8] .

A vacina contra a poliomielite na URSS e a da Covid 19

Em meados do século XX uma nova epidemia causava grande mortandade e incapacitações: a poliomielite. Nos EUA, em 1955, foi desenvolvida a primeira vacina, baptizada Salk com o nome do seu descobridor. Pouco depois, o virologista Albert Sabin descobriu outro tipo de vacina mais eficaz, mais barata e mais segura (a vacina de Salk tinha apenas 60% de eficácia). Dado o sucesso da primeira não foi possível testá-la nos EUA.

Os cientistas soviéticos, Mikhail Chumakov e Anatoly Smorodintsev, foram enviados aos Estados Unidos. Sabin e Chumakov acordaram continuar a desenvolver a vacina em Moscovo. Vários milhares de doses da vacina foram trazidos dos Estados Unidos numa mala vulgar e as primeiras vacinações começaram.

Chumakov e a sua companheira, a virologista Marina Voroshilova, iniciaram a experiência em Moscovo com os seus próprios filhos. A vacina consistia num vírus debilitado, utilizava-se a via oral e era administrada por meio de um torrão de açúcar, de forma que não necessitava de pessoal qualificado.

Em ano e meio acabou a epidemia na URSS. Em 1960, 77,5 milhões de pessoas foram vacinadas. Albert Sabin foi chamado a depor acusado de actividades anti-americanas.

Uma anedota da época acaba por ser de grande actualidade. No Japão, a poliomielite assolava a população infantil e apenas a vacina Salk, de eficácia limitada e além disso em quantidade insuficiente, estava disponível. A vacina produzida na URSS não conseguia, por óbvias razões políticas e económicas, as licenças para ser importada. Depois de diversas peripécias, milhares de mulheres japonesas saíram à rua para exigir a vacina e alcançaram o seu objectivo. O filme soviético-japonês “Step” do realizador Alexander Mitta conta a história [9] .

Deve sublinhar-se que os avanços russos em matéria de vacinas continuaram após a queda da URSS. O Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia descobriu recentemente uma vacina contra o Ébola e trabalha actualmente em várias linhas de investigação, uma das mais avançadas a que tenta encontrar a vacina contra outro Coronavírus, o MERS-Cov. Desta forma, como reiteraram proeminentes investigadores russos, a rapidez do processo com a vacina contra a Covid-19 deve-se ao facto de se ter trabalhado sobre plataformas criadas há anos que avançavam em direcções semelhantes. De momento, a Rússia anunciou a fabricação de 1.000 milhões de doses para 20 países solicitantes.

A experiência continuará a escrever história. O que não se pode ignorar é que a campanha para desacreditar a vacina russa é orquestrada por gente que nada tem a ver com procedimentos científicos e tem, sim, muita relação com poderosíssimos interesses económicos, entre outros, da indústria farmacêutica.

Por outro lado, apesar dos lapsos de Fernando Simón, nem Putin é Lénine, nem a Rússia é a URSS. Mas nós, trabalhadores de todo o mundo, não deveríamos esquecer que a gigantesca gesta operária de Outubro de 1917 e a derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial, ainda continua a permitir alcançar, como neste caso, avanços científicos desenvolvidos sobre décadas de trabalho não sujeito aos interesses do capital e produzidos em instituições públicas.

Não é de todo provável que, apesar do sofrimento causado pela pandemia e do evidente desastre do sistema de saúde no Estado espanhol, o governo “progressista” se atreva a dar prioridade à saúde do seu povo e enfrentar, mesmo que apenas uma vez, o poder de um dos baluartes do imperialismo:   a indústria farmacêutica.

A conquista da independência, da verdade, terá que vir de outras mãos, da construção de outro poder capaz de derrotar a barbárie.


(A autora é médica e dirigente da Red Roja em Espanha)

[1] A multinacional norte-americana Gilead quadruplicou os seus lucros ao comprar a patente do medicamento Sofosbuvir para Hepatite C. O medicamento, descoberto em laboratórios públicos dos Estados Unidos, era vendido em função da negociação com o Estado comprador. Um tratamento na Índia custava entre 100 e 200 dólares e em Espanha, 25.000. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[2] O Tamiflu da farmacêutica Roche, a maior vigarice da história. Governos de todo o mundo gastaram milhares de milhões de dólares num medicamento contra uma epidemia que não existiu. A multinacional ocultou resultados de investigações que demonstraram que não encurtava os internamentos, nem reduzia as complicações e que, pelo contrário, tinha importantes efeitos secundários. O governo de Zapatero gastou 333 milhões de euros em Tamiflú em 2009, em plena crise, quando a despesa pública era maciçamente cortada na saúde e outros serviços públicos. www.nogracias.eu/2014/04/10/tamiflu-la-mayor-estafa-de-la-historia/
[3] Uma ampla referência à obra seminal sobre os princípios fundamentais e o desenvolvimento do sistema de saúde soviético e o ensino das profissões da saúde “Social Hygiene and Public Health Organization” por A.F. Serenko e V.V. Ermakor, acessível em espanhol, pode ser consultada em https: www.scielosp.org/article/rcsp/2017.v43n4/645-660/
[4] Um resumo das origens do Sistema de Saúde da URSS e da figura de Nikolai Semasko, primeiro Comissário do Povo para a Saúde, pode ser encontrado em russo, com tradução automática, aqui: regnum.ru/news/polit/ 2318307.html
[5] “Lâmpada de Ilyich” A primeira lâmpada foi inventada por um engenheiro russo em 1874 e sua chegada às aldeias mais remotas da Rússia tornou-se o símbolo da Revolução. Aqui pode ver pormenores do GOELRO, o plano de electrificação de toda a Rússia. https://es.wikipedia.org/wiki/GOELRO
[6] Sobre o médico prussiano Rudolf Virchov, patologista de destaque e considerado o fundador da Saúde Pública. http://webs.ucm.es/centros/cont/descargas/documento28401.pdf
[7] A história da primeira campanha de vacinação universal da história da humanidade e da erradicação da varíola na URSS pode ser consultada aqui:   books.google.es/…
[8] https://www.who.int/mediacentre/news/notes/2010/smallpox_20100517/es/
[9] Com base nesta história, o realizador Alexander Mitta filmou em 1988 a coprodução sovieto-japonesa “Step”, com Leonid Filatov e Komaki Kurihara nos papéis principais. Oleg Tabakov, Elena Yakovleva, Vladimir Ilyin, Garik Sukachev actuaram com eles. A sua canção “My Little Babe” é reproduzida no filme www.academia.edu/39610881/CINE_RUSO_Historia_y_literatura_rusa_y_española

As cidadelas das elites da América: fracturadas e em conflitos entre si

(Alastair Crooke, in Resistir, 05/08/2019)

John Bolton

Algo está a acontecer. Quando dois colunistas do Financial Times – pilares do establishment ocidental – levantam uma bandeira de advertência, devemos prestar atenção. Martin Wolf foi o primeiro, com um artigo dramaticamente intitulado: Os 100 anos que se deparam, conflito EUA-China ( The looming 100-year, US-China Conflict ). Não uma “mera” guerra comercial, ele deu a entender, mas uma luta total (full-spectrum struggle). A seguir o seu colega do FT, Edward Luce, destacou que o argumento de Wolf contém mais nuances do que o título. Tendo passado parte desta semana entre importantes decisores e pensadores políticos no Fórum anual de Segurança Aspen, no Colorado, Luceescreve : “Inclino-me a pensar que Martin não exagerava. A velocidade com a qual líderes políticos estado-unidenses de todas as faixas se uniram por trás da ideia de uma “nova guerra fria” é algo que me tira o fôlego. Dezoito meses atrás a frase era afastada como alarmismo periférico. Hoje é consenso”. 

Uma mudança significativa está em curso em círculos políticos dos EUA, aparentemente. A última observação de Luce é que “é muito difícil ver o que, ou quem, vai impedir que esta grande rivalidade de poder domine o século XXI”. É claro que há de facto um claro consenso bipartidário nos EUA sobre a China. Luce certamente está certo. Mas isso está longe de ser o fim do assunto. Uma psicologia colectiva da beligerância parece estar a formar-se e, como observou um comentarista, tornou-se não apenas uma rivalidade de grande potência, mas uma rivalidade entre gabarolas políticos da “Beltway” para mostrar “quem tem o maior pénis”. 

E James Jeffrey, enviado especial dos EUA para a Síria (e vice Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA), presente em Aspen , passou rapidamente a demonstrar o seu (depois de outros terem desvelado sua masculinidade quanto à China e ao Irão). Uma política estado-unidense, diz ele, reduz-se a um componente prioritário: “martelar a Rússia”. O “martelar a Rússia” (insistiu repetidamente) continuará até o presidente Putin entender que não há solução militar na Síria (ele disse isso com elevada ênfase verbal). A Rússia assume falsamente que Assad “venceu” a guerra: “Ele não conseguiu”, disse Jeffrey. E os EUA estão comprometidos a demonstrar esta “verdade” fundamental. 

Portanto, os planos dos EUA para “elevar a pressão” escalarão o custo para a Rússia, até que uma transição política se verifique, com uma nova Síria a emergir como “nação normal”. Os EUA “alavancarão” os custos sobre a Rússia de cabo a rabo. Através da pressão militar – assegurando uma falta de progresso militar em Idlib; através de israelenses a operarem livremente por todo o espaço aéreo da Síria; através de “parceiros dos EUA” (isto é, os curdos) a consolidarem no nordeste da Síria; através de custos económicos (“nosso êxito” em travar a ajuda para a reconstrução da Síria); através de extensas sanções dos EUA à Síria (integradas com aquelas ao Irão) – “estas sanções estão a ter êxito”, afirma, e em terceiro lugar pela pressão diplomática: isto é, “martelar a Rússia” na ONU. 

Bem a mudança dos EUA sobre a Síria também nos apanha de surpresa. Recorde-se que pouco tempo atrás a conversa era de parceria, de os EUA a trabalhar com a Rússia a fim de encontrarem uma solução na Síria. Agora a conversa do Enviado dos EUA é de Guerra fria com a Rússia na mesma medida dos seus colegas de Aspen – embora a respeito da China. Tal “machismo” evidencia-se que também vem do Presidente dos EUA. “Eu podia – se quisesse – acabar a guerra dos EUA no Afeganistão em uma semana” (mas isto implicaria a morte de 10 milhões de afegãos), exclamou Trump. E, do mesmo modo, Trump agora sugere que para o Irão é fácil: guerra ou não – qualquer dos caminhos é bom, para ele. 

Toda esta jactância recorda o final de 2003 quando a guerra no Iraque estava a entrar na sua etapa insurgente: Foi dito então que simples “rapazes vão para Bagdad, mas que homens de verdade optam por ir para Teerão “. Isto ganhou ampla difusão em Washington naquele tempo. Este tipo de conversa deu origem, como bem me lembro, a algo que se aproxima de uma euforia histérica. Responsáveis pareciam estar a andar quinze centímetros acima do solo, a anteciparem todos os dominós que esperavam tombar em sucessão. 

A questão aqui é que a união tácita da Rússia – agora denominada como um grande “inimigo” da América por responsáveis do Departamento da Defesa – e da China inevitavelmente está a ser reflectida de volta para os EUA, em termos de uma crescente parceria estratégica russo-chinesa, pronta a desafiar os EUA e seus aliados. 

Na quinta-feira passada um avião russo, a voar numa patrulha conjunta com um correspondente chinês, entrou deliberadamente no espaço aéreo sul-coreano. E, pouco antes, dois bombardeiros russos Tu-95 e dois aviões de guerra chineses H-6 – ambos com capacidade nuclear – confirmadamente entraram na zona de identificação aérea da Coreia do Sul. 

“Esta foi a primeira vez , que eu saiba, que aviões de combate chineses e russos voaram em conjunto através da zona de identificação de defesa aérea de um importante aliado dos EUA – neste caso, de dois aliados dos EUA. Claramente trata-se de um assinalar geopolítico bem como uma colecta de inteligência”, disse Michael Carpenter, um antigo especialista em Rússia do Departamento da Defesa dos EUA. Foi uma mensagem para os EUA, Japão e Coreia do Sul. Se fortalecer a aliança militar EUA-Japão, a Rússia e a China não tem opção excepto reagir militarmente também. 

Assim, quando olhamos em torno, o quadro parece ser de que a belicosidade dos EUA está de certo modo a consolidar-se como um consenso da elite (mas com uns pouco indivíduos corajosamente a fazerem contra-pressão a esta tendência). Então, o que está a acontecer? 

Os dois correspondentes do FT estavam efectivamente a assinalar – nos seus artigos separados – que os EUA estão a entrar numa transformação monumental e arriscada. Mais ainda, aparentemente a elite da América está a ser fracturada em enclaves balcanizados que não se estão a comunicar entre si – nem querem comunicar-se entre si. Trata-se antes de mais um conflito entre rivais mortais. 

Uma orientação insiste sobre uma renovação da Guerra fria para sustentar e renovar o super-dimensionado complexo militar-segurança, o qual representa mais da metade do PIB da América. Outros da elite exigem que a hegemonia global do US dólar seja preservada. Outra orientação do Estado Profundo está desgostosa com o contágio de decadência sexual e corrupção que penetrou na governação americana – e espera realmente que Trump “drenará o pântano”. E outra ainda, que encara a amoralidade agora explícita de DC como pondo em risco a posição global e a liderança da América – quer ver um retorno aos costumes tradicionais americanos – um “rearmamento moral”, por assim dizer. (E depois há os deploráveis, que simplesmente querem que a América cuide de sua própria renovação interna.) 

Mas todas estas divididas facções do Estado Profundo acreditam que a beligerância pode funcionar. 

No entanto, quanto mais essas fraccionadas facções rivais da elite dos EUA, com seus estilos de vida endinheirados e confortáveis, enclausuraram-se nos seus enclaves, alguns nas suas visões separadas sobre como a América pode reter sua supremacia global, menos provável é que entendam o impacto muito real da de sua beligerância colectiva sobre o mundo exterior. Como qualquer elite mimada, eles têm um sentido exagerado do seus direitos – e da sua impunidade. 

Estas facções de elite – apesar de todas as suas rivalidades internas – parecem ter-se fundido em torno de uma singularidade de fala e de pensamento que permite às classes dominantes substituírem a realidade de uma América sujeita a stress e tensão severos – a fábula de um hegemonista que ainda pode escolher quais governos e povos não complacentes intimidar e remover do mapa global. Sua retórica solitária está a azedar as atmosferas no não-ocidente. 

Mas uma outra implicação da incoerência dentro das elites é aplicável a Trump. Assume-se amplamente, por causa do que ele diz, que não quer mais guerras – e porque ele é presidente dos EUA – não acontecerão guerras. Mas não é assim que o mundo funciona. 

O líder de qualquer nação nunca é soberano. Ele ou ela senta-se no topo de uma pirâmide de principezinhos brigões (principezinhos do Estado Profundo, neste caso), os quais têm os seus próprios interesses e agenda. Trump não está imune às suas maquinações. Um exemplo óbvio sendo a artimanha do sr. Bolton, com êxito, ao persuadir os britânicos a apresarem o petroleiro Grace I ao largo de Gibraltar. De uma penada, Bolton escalou o conflito com o Irão (“aumentou a pressão” sobre o Irão, como provavelmente diria Bolton); colocou o Reino Unido na linha de frente da “guerra” da América com o Irão; dividiu os signatários do JCPOA e embaraçou a UE. Ele é um “operador” sagaz – não há dúvida acerca disso. 

E aqui está a questão: estes principezinhos podem iniciar acções (incluindo de falsas bandeiras) que conduzem os acontecimentos para a sua agenda; que podem encurralar um Presidente. E isto é presumir que o Presidente está de algum modo imune a uma grande “mudança de estado de espírito” entre os seus próprios lugares-tenentes (ainda que este consenso não seja mais do que uma fábula que se segue à beligerância). 

Mas será seguro assumir que Trump é imune ao “humor” geral entre as variadas elites? Seus recentes comentários improvisados sobre o Afeganistão e o Irão não sugerem que ele possa se inclinar para a nova beligerância? Martin Wolf concluiu seu artigo no FT sugerindo que a mudança nos EUA indica que podemos estar a testemunhar um tombo rumo a um século de conflito. Mas no caso do Irão, qualquer movimento equivocado poderia resultar em algo mais imediato – e não controlado. 

[*] Antigo diplomata britânico, fundador e director do Conflicts Forum, com sede em Beirute. 


Fonte aqui

A comunidade de inteligência dos EUA como propulsora do colapso

(Por Dmitry Orlov, In Blog Resistir, 24/07/2018)

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Nos Estados Unidos de hoje, o termo “espionagem” não é muito utilizado a não ser em alguns contextos específicos. Ainda há conversas esporádicas sobre espionagem industrial, mas quanto aos esforços dos americanos para entender o mundo além das suas fronteiras, eles preferem usar o termo “inteligência”. Isso pode ser uma escolha inteligente ou não, dependendo de como se olham as coisas.

Em primeiro lugar, a “inteligência” dos EUA está vagamente relacionada com o jogo da espionagem, como tem sido tradicionalmente praticado, e ainda é, por países como a Rússia e a China. A espionagem envolve colectar e validar informação estratégica vital e transmiti-la apenas aos tomadores de decisão pertinentes do seu lado, mantendo-se de facto a colectá-la e validá-la às ocultas de toda a gente.

Em eras passadas, um espião, se descoberto, tentaria ingerir uma cápsula de cianeto; Nos dias de hoje, a tortura é considerada não-cavalheiresca e os espiões que são apanhados esperam pacientemente serem permutados numa troca. Uma regra não escrita e de bom senso sobre trocas de espiões é que são feitas silenciosamente e que os libertados nunca se intrometem outra vez porque isso complicaria a negociação de futuras trocas de espiões. Nos últimos anos, as agências de inteligência dos EUA decidiram que torturar prisioneiros é uma boa ideia, mas elas têm torturado sobretudo pessoas inocentes, não espiões profissionais, forçando-os por vezes a inventar coisas tais como a “Al Qaeda”. Não existia tal coisa antes de a inteligência dos EUA popularizá-la como marca entre os terroristas islâmicos.

Mais recentemente, os “serviços especiais” britânicos, que estão como uma espécie de Mini-Me para o Dr. Evil, que é o aparelho de inteligência dos EUA, consideraram adequado interferir com um de seus próprios espiões, Sergei Skripal, um agente duplo que eles retiraram de uma prisão russa numa troca de espiões. Eles o envenenaram utilizando um produto químico exótico e tentaram atribuir a culpa à Rússia com base em nenhuma evidência. É improvável que haja mais trocas de espiões britânicos com a Rússia e os espiões britânicos que trabalham na Rússia provavelmente receberão boas cápsulas de cianeto à moda antiga (uma vez que o supostamente super-poderoso Novichok que os britânicos mantêm no seu laboratório “secreto” em Porton Down não funciona bem e só é fatal em 20% dos casos).

Há uma outra regra não escrita, de senso comum, acerca da espionagem em geral: seja o que for que aconteça, ela precisa ser mantida fora dos tribunais, porque um processo de descoberta em qualquer julgamento forçaria a acusação a divulgar fontes e métodos, tornando-os parte do dominio público. Uma alternativa seria manter tribunais secretos, mas como estes não podem ser verificados independentemente quanto ao seguimento do processo devido e das regras de evidência, eles não são de muito valor.

Um padrão diferente aplica-se a traidores. Nestes casos, enviá-los aos tribunais é aceitável e serve a um alto propósito moral, uma vez que aqui a fonte é a própria pessoa em julgamento e o método – traição – pode ser divulgado sem danos. Mas esta lógica não se aplica a espiões profissionais decentes que estão simplesmente a fazer o seu trabalho, mesmo que se tornem agentes duplos. De facto, quando a contra-inteligência descobre um espião, a coisa profissional a fazer é tentar recrutá-lo como um agente duplo ou, se isso não der certo, tentar utilizar o espião como um canal para injectar desinformação.

Os americanos têm feito o melhor que podem para quebrar esta regra. Recentemente, o advogado especial Robert Mueller acusou uma dúzia de operacionais russos a trabalharem na Rússia de hackearem o servidor de correio do Comité Nacional Democrata (DNC) e enviar os emails para a Wikileaks. Enquanto isso, dizem que o referido servidor não está em parte alguma (foi extraviado), se bem que as marcações de hora (time stamps) nos ficheiros publicados na Wikileaks mostrem que foram obtidos copiando-os para uma pen drive ao invés de enviá-los pela Internet. Assim, isto foi uma fuga, não um hack, e não poderia ter sido feito por ninguém a trabalhar remotamente a partir da Rússia.

Além disso, é um exercício de futilidade para um responsável dos EUA indiciar cidadãos russos na Rússia. Eles nunca serão julgados num tribunal dos EUA devido à seguinte cláusula na Constituição Russa: “Art. 61.1 Um cidadão da Federação Russa não pode ser deportado para fora da Rússia ou extraditado para outro Estado”. Mueller pode reunir um painel de académicos constitucionalista para interpretar esta frase, ou pode apenas lê-la e chorar. Sim, os americanos estão a fazer o melhor que podem para quebrar a regra não escrita contra o arrastamento de espiões a tribunais, mas o seu melhor está muito longe de ser suficiente.

Dito isto, não há qualquer razão para acreditar que os espiões russos pudessem ser impedidos de hackear o servidor de correio do DNC. Provavelmente funcionava com Microsoft Windows e esse sistema operacional tem mais buracos do que um edifício no centro de Raqqa, na Síria, depois de os americanos terem bombardeado aquela cidade reduzindo-a a escombros, com muitos de civis de permeio. Quando questionado sobre esse alegado hacking pela Fox News, Putin (que trabalhara como espião na sua carreira anterior) teve dificuldade em manter a cara séria e claramente desfrutou do momento. Ele destacou que os emails hackeados ou extraídos numa fuga mostravam um padrão claro de irregularidades: funcionários da DNC conspiraram na Primária Democrática para roubar a vitória eleitoral a Bernie Sanders, e depois de essa informação ter vazado eles foram forçados a demitir-se. Se o hack russo aconteceu, então foram os russos que trabalharam para salvar a democracia americana de si própria. Então, onde está a gratidão? Onde está o amor? Ah, e por que os perpetradores do DNC não estão presos?

Uma vez que existe um acordo entre os EUA e a Rússia para cooperar em investigações criminais, Putin sugeriu interrogar os espiões acusados por Mueller. Ele até sugeriu que Mueller participasse do processo. Mas em contrapartida ele queria interrogar os responsáveis americanos que podem ter ajudado e incitado um criminoso condenado com o nome de William Browder, o qual deve cumprir uma sentença de nove anos na Rússia a partir de agora e que, a propósito, doou copiosas quantias de seu dinheiro mal ganho para a campanha eleitoral de Hillary Clinton. Em resposta, o Senado dos EUA aprovou uma resolução a proibir russos de interrogarem responsáveis dos EUA. E ao invés de emitir um requerimento válido para que os doze espiões russos fossem entrevistados, pelo menos um responsável dos EUA fez o pedido absurdamente fútil de que ao invés eles fossem remetidos para os EUA. Mais uma vez, qual a parte do artigo 61.1 que eles não entendem?

A lógica dos funcionários dos EUA pode ser difícil de acompanhar, mas só se aderirmos às definições tradicionais de espionagem e contra-espionagem – “inteligência” no linguajar dos EUA – que é providenciar informações validadas com o objectivo de adoptar decisões informadas sobre os melhores meios de defender o país. Mas tudo isso faz perfeito sentido se abdicarmos de tais noções estranhas e aceitarmos a realidade que podemos realmente observar: o propósito da “inteligência” dos EUA não é produzir ou trabalhar com factos, mas simplesmente “fazer merda”.

A “inteligência” que as agências de inteligência dos EUA fornecem pode ser tudo excepto inteligente. De facto, quanto mais estúpido melhor, porque seu objectivo é permitir que pessoas pouco inteligentes tomem decisões pouco inteligentes. Na verdade, eles consideram os factos como prejudiciais – sejam eles acerca de armas químicas sírias; ou conspirações para roubar as eleições primárias de Bernie Sanders; ou armas iraquianas de destruição em massa; ou o paradeiro de Osama Bin Laden – porque os factos exigem precisão e rigor ao passo que eles preferem habitar no reino da pura fantasia e do capricho. Nisto, seu objectivo real é facilmente discernível.

O objectivo da inteligência estado-unidense é sugar toda a riqueza que resta para fora dos EUA e dos seus aliados e embolsar tanto quanto possível. Enquanto finge defendê-la de agressores fantasmas, esbanja recursos financeiros inexistentes (tomados emprestados) em ineficazes operações militares e sistemas de armas super-facturados. Onde os agressores não são fantasmas, eles são especialmente organizados para o objectivo de conseguirem alguém que os substitua a combater: terroristas “moderados” e assim por diante. Um grande avanço nesta arte tem sido a mudança de operações de falsa bandeira reais, à la 11/Set, para operações de falsa bandeira falsas, à la ataque químico de Gouta Leste na Síria (já totalmente desacreditado). A história de interferência eleitoral russa talvez seja o passo final nessa evolução: nenhum arranha-céu de Nova York ou criança síria foi prejudicado no processo de cozinhar essa falsa narrativa. E ela pode ser mantida vivo aparentemente para sempre apenas através do esforço furioso de numerosas bocas a palrarem. Trata-se agora de um esquema de pura confiança na fraude. Se diante disso ficar pouco impressionado com as suas narrativas inventadas, então você é um teórico da conspiração ou, na reavaliação mais recente, um traidor.

Trump foi recentemente questionado sobre se confiava na inteligência dos EUA. Ele tartamudeou. Uma resposta jovial teria sido:

“Que tipo de idiota é você para me fazer uma pergunta tão estúpida? Claro que eles estão mentindo! Eles foram apanhados a mentir mais de uma vez e, portanto, já não se pode mais confiar neles. A fim de afirmar que eles actualmente não estão mentindo, é preciso determinar quando é que deixaram de mentir e que não mentiram desde então. E isso, na base da informação disponível, é uma tarefa impossível”.

Uma resposta mais séria, atendo-se à matéria de facto, teria sido:

“As agências de inteligência dos EUA fizeram uma alegação ultrajante: de que entrei em conivência com a Rússia para falsificar o resultado da eleição presidencial de 2016. O ónus da prova cabe a eles. Eles ainda têm de provar seu caso num tribunal de justiça, o qual é o único lugar onde o assunto pode legitimamente ser resolvido, se é que pode ser resolvido de todo. Até que isso aconteça, devemos tratar sua afirmação como teoria da conspiração, não como um facto”.

E uma resposta dura e impassível teria sido:

“Os serviços de inteligência dos EUA fizeram um juramento de defender a Constituição dos EUA, segundo a qual sou o seu Comandante-em-chefe. Eles reportam-se a mim, não eu a eles. Eles devem ser leais a mim, não eu a eles. Se eles são desleais a mim, então isso é razão suficiente para a sua demissão”.

Mas nenhum diálogo prático com base na realidade parece possível. Tudo o que ouvimos são respostas falsas a perguntas falsas e o resultado é uma série de decisões falhas. Com base em inteligência falsa, os EUA passaram quase todo este século envolvidos em conflitos muito caros e, em última instância, fúteis. Graças aos seus esforços, o Irão, o Iraque e a Síria formaram um crescente contínuo de estados alinhados religiosa e geopoliticamente, amistosos em relação à Rússia, ao passo que no Afeganistão os Taliban estão a ressurgir e a combater o Estado Islâmico – uma organização que se constituiu graças aos esforços americanos no Iraque e na Síria.

O custo total das guerras até agora neste século para os EUA é de US$4.575.610.429.593. Dividido pelos 138.313.155 americanos que preenchem declarações fiscais (se eles realmente pagam algum imposto é uma questão demasiado subtil), isso equivale a pouco mais de US$33 mil por contribuinte. Se pagar impostos nos EUA, essa é a sua conta até agora para os vários “acidentes” da inteligência dos EUA.

As 16 agências de inteligência dos EUA têm um orçamento combinado de US$66,8 mil milhões e isso parece muito até que se perceba quão supremamente eficientes são elas: seus “erros” custaram ao país cerca de 70 vezes seu orçamento. Com um nível de pessoal de mais de 200 mil empregados, cada um deles custou ao contribuinte dos EUA perto de US$23 milhões, em média. Esse número é totalmente aproximativo! O sector de energia tem os mais altos ganhos por empregado, em torno de US$1,8 milhão per capita. A Valero Energy destaca-se com US$7,6 milhões per capita. Com US$23 milhões, a comunidade de inteligência dos EUA tem ganho três vezes melhor que a Valero. Tiremos o chapéu! Isso torna a comunidade de inteligência dos EUA, de longe, o melhor e mais eficiente condutor imaginável rumo ao colapso.

Há duas hipóteses possíveis para explicar porque assim é.

Primeiro, podemos nos aventurar a imaginar que essas 200 mil pessoas são grosseiramente incompetentes e que os fiascos que elas desencadeiam são acidentais. Mas é difícil imaginar uma situação em que pessoas grosseiramente incompetentes consigam ainda assim canalizar US$23 milhões, em média, para uma variedade de empreendimentos fúteis de sua escolha. E é ainda mais difícil imaginar que seria permitido a tais incompetentes poderem cometer erros crassos década após década sem serem chamadas à pedra pelos seus erros.

Uma outra hipótese, muito mais plausível, é que a comunidade de inteligência dos EUA tem feito um trabalho maravilhoso para levar o país à bancarrota e conduzi-lo ao colapso financeiro, económico e político ao forçá-lo a participar de uma série interminável de conflitos caros e fúteis – o maior acto contínuo de grande furto já experimentado no mundo. Como é que isso pode ser uma coisa inteligente a fazer para o seu próprio país, em qualquer definição concebível de “inteligência”, deixarei para si o cuidado de elaborar. Enquanto estiver nisto, também pode querer chegar a uma melhor definição de “traição”: algo melhor do que “uma atitude céptica em relação a alegações ridículas e não comprovadas feitas por aqueles que são conhecidos como mentirosos perpétuos”.