Você devia ter visto a expressão no rosto de Zelensky. Após quatro anos a desempenhar o papel de herói da democracia ocidental, o seu principal patrocinador negoceia agora diretamente com o inimigo declarado. E não é para garantir uma rendição russa. È para comprar gasóleo! A geopolítica acaba de redescobrir o seu combustível favorito: o interesse nacional.
Segundo o Axios, Trump fechou um acordo com Putin permitindo a venda de milhões de toneladas métricas de gasóleo russo, acompanhado por um alívio temporário das sanções dos EUA. Zelensky engasga-se com as palavras: é “injusto e desonesto”. Que revelação chocante! Estaria Washington a dar prioridade aos seus próprios interesses em detrimento dos de Kiev? Só se pode imaginar o trauma.
O detalhe mais revelador é o momento escolhido. Enquanto os negociadores ucranianos e europeus aguardam os representantes dos EUA em Miami, Trump liga diretamente a Putin. Os atores secundários discutem o guião enquanto os produtores negoceiam o lucro.
Pois, por detrás dos grandes discursos sobre a liberdade, esconde-se uma realidade muito menos romântica: os Estados Unidos precisam de gasóleo, os preços estão a disparar e as eleições intercalares aproximam-se.
A guerra contra o Irão contribuiu para a perturbação dos mercados energéticos. Como resultado, a administração norte-americana está a descobrir, de repente, as virtudes comerciais da mesma Rússia que afirmava estar a estrangular economicamente.
Ontem, a compra de produtos russos financiava a guerra. Hoje, comprar produtos russos pode salvar os preços nas bombas de combustível. A moral ocidental possui, certamente, uma notável flexibilidade mecânica.
E Zelensky? Ele protesta, condena e dá lições. Explica que este acordo permitirá a Moscovo continuar a guerra. O argumento merece consideração. Mas, sobretudo, revela uma contradição que se tornou grotesca: Kiev exige que Washington sacrifique os seus interesses económicos em prol de uma estratégia cujos resultados militares e diplomáticos permanecem desesperadamente incertos.
Quanto aos europeus, resta-lhes assistir ao espetáculo com a sua habitual mistura de servilismo e espanto. Depois de abdicar de parte dos seus fornecimentos russos em nome da solidariedade atlântica, estão a descobrir que o seu grande protector pode reabrir a torneira assim que os seus eleitores começarem a sofrer.
Bruxelas chama-lhe “coerência estratégica”. Nessa altura, já não é cegueira; é uma vocação.
Trump, no entanto, não inventou nada. Está a aplicar de forma brutal uma regra básica: as alianças são úteis enquanto servem os interesses de quem as financia. Zelensky achava que tinha um compromisso eterno. Está a descobrir um contrato comercial que pode ser rescindido a cada eleição.
A tragédia ucraniana continua. Mas, nos bastidores, as prioridades estão a mudar. Washington quer gasóleo, Moscovo quer vender, Bruxelas quer obedecer e Zelensky ainda quer acreditar que é ele quem dá cartas. O pano está a cair sobre os grandes princípios. Na bomba de combustível, já são aceites rublos.
Friedrich Merz chega a Kiev com mais mil milhões de euros de ajuda militar e 350 milhões para o setor energético. Entretanto, a sua popularidade cai a pique na Alemanha, e o seu partido sofre derrotas eleitorais históricas.
Mas quem se importa? O povo vota; os governos seguem em frente.
Esta tornou-se a grande especialidade da Europa: perder eleições, ver a popularidade cair a pique nas sondagens, assistir à ascensão de partidos que desafiam a política vigente… e, depois, explicar que a única resposta sensata é acelerar exactamente no mesmo sentido.
Merz assemelha-se, assim, ao líder zombie perfeito: politicamente esgotado, mas ainda em movimento. Marcha mecanicamente em direção a Kiev, com o livro de cheques na mão, como se cada bilião adicional pudesse ressuscitar, simultaneamente, a Ucrânia, a sua maioria parlamentar e a sua popularidade.
O problema, na verdade, vai muito além de Merz. Alguns líderes europeus parecem ter desenvolvido uma conceção fascinante de democracia: os cidadãos são soberanos, desde que queiram aquilo que já foi decidido por eles.
Estão a protestar contra o custo de vida? Fala-se de segurança europeia. Estão a punir os governos nas urnas? Fala-se em desinformação. Estão a exigir mais atenção às questões internas? Explica-se-lhes que a emergência está em Kiev. E, quando os partidos que desafiam esta linha ganham terreno, ninguém questiona a política — questionam-se os eleitores.
É mais conveniente assim.
A Europa continua, por isso, a alargar o seu apoio. O jornal *Die Zeit* voltou a noticiar, este Verão, que a ajuda europeia à Ucrânia tinha aumentado drasticamente, enquanto a Alemanha batia recordes de licenças para exportação de armas.
Aí reside o paradoxo: quanto mais se desafia o sistema político tradicional, mais se endurece. Quanto mais os eleitores manifestam a sua indignação, mais os seus dirigentes apresentam a sua própria linha de ação como inegociável.
Depois, mostram-se surpreendidos quando os eleitores procuram outras opções.
Merz não vai a Kiev apenas para defender a Ucrânia. Exemplifica uma enfermidade política europeia muito mais profunda: a incapacidade dos líderes enfraquecidos imaginarem que as suas próprias políticas podem ser uma das causas da sua fragilidade.
Assim, os zombies continuam a marchar.
Perdem votos, mas mantêm o rumo. Perdem a confiança, mas dão lições aos outros.
Perdem eleições, mas dizem aos eleitores que estes não perceberam nada.
E, quando finalmente tiverem perdido tudo, provavelmente organizarão uma cimeira europeia para descobrir o motivo.
Sem nunca ponderar pedir a opinião daqueles que, afinal, os tinham alertado nas urnas.
Nesta foto divulgada pelo Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia em 10 de fevereiro de 2022, o navio de assalto anfíbio da Marinha Russa, Kaliningrad, entra no porto de Sebastopol, na Crimeia. [Foto AP/Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia]
O mundo está à beira de uma guerra nuclear? A questão surge diretamente dos eventos dos últimos dias, à medida que a guerra entre os EUA e a NATO contra a Rússia na Ucrânia se intensifica, transformando-se num confronto aberto entre potências nucleares.
A Rússia declarou esta semana estar pronta para usar armas nucleares caso a NATO bloqueie Kaliningrado, território russo no Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia. O alerta foi emitido pelas embaixadas russas na Bélgica, Grã-Bretanha e Irlanda, nos dias 28 e 29 de setembro, e também em nota diplomática à NATO.
Afirmando que a NATO estava preparando um “bloqueio aéreo e naval” de Kaliningrado, a embaixada russa na Irlanda declarou: “Não deve haver dúvidas — a Rússia estaria pronta para usar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, para defender o seu território caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado do resto do país.”
A porta-voz da NATO, Allison Hart, respondeu na terça-feira, afirmando: “A NATO é uma aliança defensiva e nenhuma das nossas atividades ou exercícios representa um risco para qualquer parte da Rússia”. Ela denunciou “a ameaça do uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável”.
Essa afirmação é totalmente falsa, visto que a aliança da NATO está armando e orientando ataques ucranianos em território russo. A NBC News noticiou em outubro de 2025 que o governo Trump forneceria informações de inteligência a Kiev para ajudá-la a “atacar instalações de petróleo e gás dentro da Rússia”. Em 30 de julho, a Comissão Europeia pagou a Kiev € 3,47 biliões, incluindo financiamento para “drones a jato de longo alcance”. Na noite de 19 para 20 de setembro, a Ucrânia lançou o maior ataque da guerra, com drones, contra Moscovo e região circundante. Em 28 de agosto, as forças ucranianas atacaram um bombardeiro estratégico Tu-95, parte das forças nucleares da Rússia, na base aérea de Engels.
Além disso, as “atividades e exercícios” da NATO são direcionados para a própria Kaliningrado. Em meados de agosto, segundo uma fonte militar ocidental citada pela Reuters, dezenas de aeronaves da NATO realizaram uma operação não anunciada ao redor do enclave. A operação demonstrou que eles poderiam cortar as ligações de rádio e radar, bem como as defesas aéreas. Desde janeiro, 14 países europeus consideram os petroleiros ligados à Rússia que mudam de bandeira ou desligam seus transponders como “embarcações apátridas” sujeitas a abordagem, e a Suécia apreendeu uma, em março.
Em 11 de setembro, o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, disse sobre Kaliningrado: “Quase não há tropas lá”. Ele propôs que a NATO “realizasse exercícios tão agressivos no nosso lado a ponto de deixar [Putin] incerto sobre o que iremos fazer”. Ele acrescentou: “Não devemos pensar no nosso confronto com a Rússia apenas como algo restrito à Ucrânia”.
As potências europeias estão partindo do pressuposto de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: “Não levo isso a sério. … Todos sabem que [Putin] jamais poderá vencer a NATO.”
A lógica é a de uma escalada implacável. As potências europeias condicionaram a sua política a uma vitória ucraniana. “Putin precisa sentir que a guerra está chegando à própria Rússia”, declarou na quarta-feira o Comissário Europeu da Defesa, Andrius Kubilius.
Entretanto, a situação militar da Ucrânia está a deteriorar-se. Em julho, intercetou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos russos e entra no inverno sem as defesas aéreas necessárias para proteger a sua rede elétrica. Cada novo revés será respondido com uma escalada ainda maior: o envio de tropas terrestres ou a abertura de novas frentes, incluindo Kaliningrado.
Para Moscovo, os riscos não poderiam ser maiores. Kaliningrado é para o Mar Báltico o que a Crimeia é para o Mar Negro. É a sede da Frota do Báltico e a base dos mísseis Iskander, com capacidade nuclear, da Rússia. Desde que a Finlândia e a Suécia aderiram à NATO, a cidade está cercada pela Aliança por terra e mar.
Em certo sentido, o enclave é mais sensível que a Crimeia. O seu estatuto é reconhecido internacionalmente desde a Conferência de Potsdam de 1945, que o transferiu para a União Soviética. Uma ação contra Kaliningrado seria um ataque a um território que nenhum governo contesta ser russo. A doutrina nuclear da Rússia permite uma resposta nuclear a uma agressão convencional que represente uma “ameaça crítica” à sua integridade territorial.
Nikolai Sokov, ex-diplomata russo e analista nuclear radicado em Viena, disse à Reuters em entrevista publicada na quarta-feira: “Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico — um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus, mas para eles isso será uma guerra aberta. Vejo, assim, um risco de erro de cálculo mútuo.”
Um bloqueio à Rússia pode estar “um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus”, mas, segundo o direito internacional, é um ato de guerra. A definição de agressão adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974 inclui “o bloqueio dos portos ou costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado”.
Considerando os riscos, é espantoso que não haja apelos à negociação nem se fale num acordo. O único debate nas capitais europeias gira em torno de até que ponto e com que rapidez intensificar o conflito.
Esta é a imprudência das potências imperialistas assoladas por uma crise social, económica e política cada vez mais profunda, que impulsionam a guerra sem se importarem com as suas consequências. O regime de Putin, que representa uma oligarquia capitalista e é incapaz de fazer qualquer apelo genuíno à classe trabalhadora internacional, responde com ameaças nucleares.
O contraste com 1962 é gritante. Quando os Estados Unidos e a União Soviética chegaram à beira do conflito por causa dos mísseis soviéticos em Cuba, o perigo foi abertamente reconhecido. O presidente John F. Kennedy anunciou a crise na rede nacional de televisão em 22 de outubro, e durante a semana seguinte o mundo acompanhou cada desenvolvimento. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev trocaram cartas, e os dois governos, temendo as consequências, negociaram por canais informais até encontrarem uma maneira de recuar. Hoje não há reconhecimento nem negociação.
Existe um abismo imenso entre a dimensão do perigo e a consciência pública sobre ele. Milhões sentem que algo está profundamente errado, mas não conseguem acreditar que os seus governos arriscariam uma guerra nuclear. Na medida em que o perigo é apresentado na mídia, ele aparece como a ameaça inexplicável dos russos, a “retórica nuclear” de Putin e a “guerra híbrida”. Nunca é apresentado como uma resposta às ações das potências da NATO.
Até a noite de quarta-feira, o New York Times e a CNN não haviam noticiado o alerta de Moscovo. Os veículos de comunicação que se manifestaram pressionam por uma escalada ainda maior. O Washington Post escreveu na segunda-feira: “Uma mensagem melhor de Trump seria que os EUA permitirão que a Ucrânia aja com mais intensidade se a Rússia não aliviar a pressão.”
Os democratas criticaram o presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua postura insuficientemente agressiva contra a Rússia. Em 24 de setembro, 21 senadores democratas declararam que os “apelos por desescalada” na cimeira de Trump com o presidente chinês Xi Jinping “não fazem nada para interromper o fluxo de bens chineses de dupla utilização que mantém a máquina de guerra de Vladimir Putin em funcionamento”. Entre os signatários estavam o líder democrata Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Adam Schiff.
A guerra na Ucrânia, provocada por três décadas de expansão da NATO até as fronteiras da Rússia, faz parte de uma luta pela hegemonia global travada em todos os continentes. Mais de quatro anos após o início do conflito, uma nova e catastrófica etapa está sendo preparada às escondidas da população. A classe trabalhadora, que pagará o preço, precisa ser alertada. Os governos que cortam empregos e programas sociais para financiar o rearmamento são os mesmos que estão conduzindo a uma guerra que pode se tornar nuclear.
A luta contra a guerra deve estar ligada à luta de classes que já está em curso. A mesma crise que impulsiona a classe dominante para a guerra está a impulsionar os trabalhadores para a luta contra as demissões, contra a destruição dos programas sociais e contra os ataques aos direitos democráticos.
A classe trabalhadora é a única força social capaz de deter a guerra, mas só poderá fazê-lo se compreender o que está a ser preparado e lutar conscientemente contra ela e contra o sistema capitalista que a produz. A primeira tarefa é romper o silêncio sobre o perigo. Exortamos os nossos leitores a divulgarem esta declaração o mais amplamente possível.