Rússia e China na Nova Ordem Mundial: Examinando as Teorias de Aleksandr Dugin e Jiang Shigong

(Por Markku Siira, in Reseau Internationale, 14/01/2023, Trad. Estátua de Sal)

À medida que a nova ordem mundial toma forma, como resultado do Grande Jogo geopolítico e da “tempestade perfeita” da economia global, os conservadores do Ocidente questionam-se sobre o que irá acontecerá a seguir. Nesse contexto, Jonathan Culbreath aventurou-se nas teorias russas e chinesas de uma ordem mundial multipolar em The European Conservative.

Revisitando a história recente ele reconhece que, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, ávidos pela vitória, começaram a remodelar o mundo à sua própria imagem. O triunfo da democracia liberal sobre as potências do Eixo marcou uma nova fase na História. Após a queda da União Soviética, a ideologia e o formato da política americana, bem como o sistema económico herdado de seu antecessor britânico, tenderam a mundializar-se. Foi a era monopolar da hegemonia americana.

O desenvolvimento económico em todo o mundo ocorreu nos termos definidos pelas instituições criadas pelo novo poder hegemónico. Mesmo grandes países como a Rússia e a China tiveram que se sujeitar às regras do Ocidente. Para muitos, esse capitalismo global era visto como o “colonialismo americano”, admite Culbreath.

Desde então, a China tornou-se a segunda superpotência e a maior economia do mundo. Ao contrário das expectativas ocidentais, as trocas comerciais e a abertura da China ao mundo não levaram a uma liberalização ideológica da China, mas permitiram que Pequim se tornasse o principal desafiador da hegemonia ocidental.

Embora a recuperação económica da Rússia após o colapso da União Soviética não tenha sido tão impressionante, para Culbreath, quanto a da China, a Rússia tornou-se uma fonte de energia crítica para grande parte do Ocidente e do resto do mundo. Como os eventos recentes demonstraram claramente, a Rússia também tem influência geopolítica. Como a China, é, portanto, um grande concorrente do poder anglo-americano.

Após o colapso da União Soviética, a Rússia mergulhou no caos no mandato de Boris Yeltsin. A transição de uma economia planificada socialista para uma economia de mercado capitalista e para a democracia liberal levou à inflação e à austeridade, causadas pela aplicação acelerada da terapia de choque económico neoliberal ocidental na grande potência do Leste.

Desde então, já na administração do presidente Vladimir Putin, a Rússia reentrou no mercado mundial de forma impressionante, principalmente graças à grande quantidade dos seus importantes recursos naturais. Tal conduziu a uma forte recuperação económica. O desprezo demonstrado pelo Ocidente também deu origem a novas tendências ideológicas na Rússia.

Culbreath acredita que o objetivo da Rússia é voltar a ser – sem a ajuda do Ocidente – “uma grande civilização independente, enraizada numa nova consciência da singularidade política, económica e cultural da Rússia”. 

Embora a Rússia e a China partilhem pontos de vista semelhantes na sua oposição à autocracia ocidental, as duas superpotências veem o mundo multipolar emergente de maneira diferente. As diferentes circunstâncias também influenciaram as ideologias que surgiram em solo russo e chinês.

Culbreath cita Aleksandr Dugin e Jiang Shigong como exemplos cujas teorias podem ser usadas para entender as diferentes formações ideológicas da Rússia e da China contemporâneas.

A ideologia eurasiana de Aleksandr Dugin

O cientista político Aleksandr Dugin formulou uma nova ideologia russa no quadro da “multipolaridade”. O seu pensamento, que se enquadra no quadro geral da “quarta teoria política”, procura visualizar o futuro mundial de um ponto de vista russo – ou mais amplamente eurasiano – num mundo pós-ocidental centrado e pós-unipolar.

Depois do sistema anglo-americano, o globo, na visão de Dugin, é dividido em vários “grandes espaços”, cada um com os seus sistemas políticos, económicos e culturais únicos. Aqui, Dugin segue explicitamente a teoria do Großraum, o grande espaço, do alemão Carl Schmitt, que também fundamenta as teorias “realistas” das relações internacionais preconizadas por John Mearsheimer e outros estudiosos. 

Na construção da sua teoria de um mundo multipolar, Dougin considera-se em devedor do cientista político americano, Samuel P. Huntington, autor da polémica obra The Clash of Civilizations and the Reshaping of the World Order, em protesto contra a tese triunfalista de Francis Fukuyama sobre o “fim da história”.

Dugin, concorda com o argumento de Huntington de que o fim da Guerra Fria não significou a vitória do modelo democrático liberal de governo, e suas formas económicas e culturais associadas, sobre o resto do mundo. Pelo contrário, o colapso do sistema bipolar americano-soviético apenas abriu caminho para a emergência de um mundo multipolar, no qual civilizações independentes se tornarão novos atores na história mundial e fontes potenciais de novos conflitos.

O mundo da civilização-mundo está emergindo na era pós-monopólio, como consequência inevitável da rejeição da hegemonia americana e da desintegração do mundo monopolar, dando origem a um conjunto de estados civilizados que buscam a soberania dentro das suas próprias estruturas políticas, económicas e culturais.

No pensamento idealista de Dugin, a multipolaridade russa busca não apenas afirmar a sua própria autonomia geopolítica, mas também libertar as florescentes civilizações mundiais na África, Índia, China, América do Sul e de outros lugares do ataque violento do globalismo americano, possibilitando-lhes também a emergência da sua própria soberania.

Por outro lado, os detratores de Dugin ainda acreditam que ele defende a liderança russa nessa nova ordem mundial. Alguns dos seus escritos mais antigos podem ter influenciado a forma como alguns veem o seu eurasianismo: como uma versão reacionária do neoconservadorismo americano.

Jiang Shigong e o globalismo chinês

A ascensão da China no comércio mundial na década de 1980, um período de modernização e abertura, implicaram uma trajetória muito diferente da China em relação à Rússia, argumenta Culbreath. A economia da Rússia foi submetida a uma “terapia de choque” ultraliberal, da qual ainda não se recuperou totalmente, mas o comunismo de mercado da China permitiu-lhe uma forte aceleração no crescimento da sua produtividade económica, tornando-a em algumas décadas um dos países mais ricos do mundo.

Embora os relatos típicos ocidentais, da reforma e abertura da China sob Deng Xiaoping, a descrevam como um afastamento da anterior visão maoísta do socialismo chinês, há outra visão que vê este período da história chinesa como um regresso à abordagem científica marxista-leninista defendida pelo próprio Mao Tse Tung.

De acordo com esta interpretação, o próprio capitalismo cumpre um propósito específico na progressão histórica para o socialismo e o comunismo. De facto, os escritos de Vladimir Lenin estão repletos de repetições desta formulação básica: o próprio socialismo depende do capitalismo para o desenvolvimento dos meios de produção, de acordo com as leis do desenvolvimento capitalista expostas por Karl Marx.

A política de reformas da China foi diferente da “terapia de choque” que paralisou a Rússia. Em vez de liberalizar todos os preços ao mesmo tempo, a liderança comunista decidiu liberalizar gradualmente os preços dentro do seu próprio sistema. Esta abordagem mais cautelosa do papel dos preços no trajeto para uma economia de mercado permitiu ao aparelho central controlar as reformas e até encorajar a criação de novos mercados e áreas de produção – com o efeito notável de que a prosperidade da China começou a crescer.

O capital também começou a fluir do Ocidente para a China, tendo o seu fluxo sempre aumentado nas três décadas seguintes, diz Culbreath. A China tornou-se um destino privilegiado para a externalização/offshoring ocidental, transformando-a numa “fábrica do mundo” superindustrializado. A China tornou-se não só um membro plenamente integrado na comunidade global, mas também o principal produtor mundial de bens de consumo baratos e de produtos “mais pesados” como o aço. Em certo sentido, o mundo inteiro tornou-se dependente da China.

O processo de transformação da China deu origem a uma compreensão ideológica particular do seu papel na história mundial. O Presidente Xi Jinping encarna essa ideologia na sua filosofia de governo. A explicação e defesa mais autorizada do pensamento de Xi, segundo a Culbreath, vem de Jiang Shigong, um importante estudioso de direito constitucional da Universidade de Pequim.

Alguns dos escritos de Jiang foram publicados em inglês no site Reading the China Dream, juntamente com ensaios e discursos de outros proeminentes estudiosos do desenvolvimento moderno da China. Jiang Shigong explica as ideias de Xi Jinping – ou, mais amplamente, a ideologia do socialismo chinês – e descreve-as, em termos marxistas, como uma “superestrutura ideológica natural que completa a base material do socialismo chinês”.

Jiang desafia a interpretação comum que tenta ver uma contradição entre as eras de Mao Tse Tung e Deng Xiaoping. Em vez disso, descreve o desenvolvimento histórico de Mao para Deng e Xi Jinping como uma evolução contínua e coerente em três fases: sob Mao, a China “subiu”; sob Deng, “enriqueceu”; e sob Xi, a República Popular, que está a expandir-se espacialmente, “tornou-se forte”.

Tal como Alexander Dugin na sua teoria da multipolaridade, Jiang apresenta a ideologia do socialismo chinês como uma alternativa radical à teorização de Fukuyama do fim da história dominada pelos americanos. Jiang partilha a visão de Dugin e de outros teóricos da multipolaridade do fim do domínio do mundo ocidental e do capitalismo.

No entanto, a abordagem à globalização de Jiang difere da de Dugin porque o globalismo é realmente central para o seu relato do desenvolvimento da China. Jiang acredita que a posição única da China no sistema internacional lhe confere uma responsabilidade especial para com toda a Humanidade, e que não se limita, pois, às fronteiras da China.

Sendo a segunda maior economia do mundo, a China está agora no centro da cena mundial e, segundo Jiang, não pode ignorar as suas responsabilidades para com o resto do mundo, concentrando-se apenas no seu próprio destino. Ou seja, a China deve “equilibrar as suas relações com o mundo e ligar a construção do socialismo com o desenvolvimento do mundo inteiro à maneira chinesa, e participar ativamente na governação global”.

Jiang Shigong vê a progressão da história mundial a partir de unidades políticas menores para conglomerados maiores, ou impérios, culminando na fase final do “império mundial”, atualmente liderado pelos Estados Unidos.

Nessa narrativa, a direção irreversível da história é em direção a uma “ordem universal das coisas”. O tom de Jiang é quase fatalista: todos os países, incluindo a China, inevitavelmente terão um papel a desempenhar na construção desse império global.

Assim, a interpretação de Jiang de um mundo multipolar não é um retorno à era dos impérios civilizacionais regionais, mas uma luta pela liderança económica e política após a realização de um império global.

É uma variação do esquema marxista clássico da luta de classes, com a própria China desempenhando o papel implícito do proletariado lutando contra a burguesia que, por sua vez, os EUA personificam. Retirar o poder aos capitalistas do Ocidente é, na realidade, o estabelecimento de uma “ditadura do proletariado” à escala mundial.

Jiang é rápido em sugerir que as próprias aspirações da China apontam precisamente nessa direção, especialmente porque parece que “vivemos numa era de caos maciço, conflito e mudança, com o império global 1.0 (ou seja, o império mundial americano) em declínio e colapso”.

Os escritos de Jiang podem ser interpretados como significando que ele acredita que a China tem a responsabilidade de desempenhar um papel de liderança no “Império Global 2.0”, para facilitar o desenvolvimento de todas as nações fora do modelo de desenvolvimento capitalista unilateral, que dominou o sistema centrado no Ocidente.

A multipolaridade continua a desempenhar um papel nesta fase, com a China incentivando todos os países em desenvolvimento a abrir as suas próprias vias para a modernização. Como afirmou Xi Jinping, a China oferece “uma nova alternativa a outros países e nações que desejem acelerar o seu desenvolvimento, mantendo a sua independência”.

Jiang reitera e desenvolve essa ideia ao afirmar que o objetivo da China não é forçar outros países a seguirem um modelo único de desenvolvimento económico, como o Ocidente tem feito, mas justamente facilitar o seu desenvolvimento segundo as suas próprias vias regionais, determinadas pelas suas próprias políticas locais e restrições culturais.

A preocupação com o desenvolvimento das economias regionais também reflete a “confiança comunista”, característica da China, no potencial de desenvolvimento da Humanidade como um todo, e suas aspirações são, portanto, claramente universais e cosmopolitas, não meramente nacionalistas.

O globalismo, ou universalidade, continua a ser a chave para a conceção da China, sobre si mesma e sobre o seu destino histórico, o que é consistente não apenas com sua atual ideologia comunista, mas também com o clássico conceito cosmológico confuciano de tianxia (天下), ou “tudo debaixo do céu”.

As conclusões de Culbreath

Aleksandr Dugin antevê uma ordem mundial definida por várias civilizações independentes. Essa visão é incompatível com uma ordem mundial universal (a menos que Dugin realmente queira que o Russky mir, o “mundo russo”, acabe governando o planeta de uma forma ou de outra).

De acordo com Jiang Shigong, a ordem correspondente é chefiada por “um governante universal, mas benevolente, cujo objetivo é permitir que os vários povos sob a sua providência busquem a prosperidade de acordo com seus próprios caminhos distintos de desenvolvimento”.

Enquanto a visão de Dugin de um mundo multipolar, com uma entidade política governando cada civilização tenta, de maneira quase hegeliana, fundir as diferentes características dos estados pré-modernos, a visão de Jiang da próxima ordem mundial consegue até fundir o globalismo com um comunismo confucionista abrangente.

A Rússia e a China têm o seu importante papel a desempenhar na definição dos parâmetros ideológicos ou teóricos dentro dos quais todos os países devem considerar a problemática do seu futuro, no âmbito das tendências mais amplas da história mundial. Este pensamento vai para além dos limites das ideologias políticas tradicionais.

A questão de como será o mundo pós “fim da história” é uma questão que diz respeito a todos. É por isso que as teorias político-filosóficas da multipolaridade formuladas em países que se opõem à autocracia americana, como a Rússia e a China, devem ser levadas a sério.

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Ataques a bases aéreas no interior da Rússia apontam para operações encobertas da CIA

(Por Finian Cunningham, in A Viagem dos Argonautas, 06/01/2022)

A Ucrânia foi posta em estado de prontidão, preparada para servir de cobertura à agressão americana contra a Rússia.


Uma base aérea bem no interior do território russo foi atacada duas vezes com drones em menos de um mês. Também não se trata de uma instalação remota. A base aérea perto da cidade de Saratov aloja aviões bombardeiros estratégicos russos com capacidade nuclear.

O último ataque foi a 26 de Dezembro, no qual três militares russos foram mortos devido à queda de destroços de drones depois de a arma ter sido alegadamente abatida. Saratov fica a 730 quilómetros a sudeste de Moscovo e a centenas de quilómetros da fronteira ucraniana.

A 5 de Dezembro, a base aérea foi também alvo de ataques, mais uma vez aparentemente por drones. No mesmo dia, uma base aérea em Rayazan a menos de 200 quilómetros de Moscovo foi também atacada. No dia seguinte, a 6 de Dezembro, uma instalação militar em Kursk foi alvo de um ataque.

As forças ucranianas não reivindicaram abertamente a responsabilidade pelos ataques, mas houve relatos nos meios de comunicação social dos EUA que insinuaram isso. Tanto a Casa Branca como o Departamento de Estado negaram qualquer envolvimento americano, alegando que os EUA exortaram a Ucrânia a não atacar território russo. “Não estamos a encorajar a Ucrânia a atacar para além das suas fronteiras”, disse Ned Price, o porta-voz do Departamento de Estado.

No entanto, há a questão de como é que os drones se estão a dirigir para o interior do território russo para lançar ataques aéreos sobre alvos estratégicos.

Não parece plausível que veículos aéreos ofensivos não tripulados possam viajar sem serem detectados durante centenas de quilómetros sobre o espaço aéreo russo, e depois montar ataques a locais militares altamente sensíveis. Mais provavelmente, as armas foram activadas perto dos seus alvos pretendidos.

Um recente relatório separado do repórter de investigação Jack Murphy pode lançar alguma luz. Ele não se refere à vaga de ataques com drones a bases aéreas russas. Mas ele cita antigos agentes dos serviços secretos dos EUA que afirmam que a Agência Central de Inteligência está a dirigir equipas de sabotagem clandestinas dentro da Rússia.

De acordo com o relatório, a CIA está a trabalhar com um aliado europeu da NATO para activar células adormecidas que se infiltraram na Rússia com esconderijos de armas. Não há americanos no terreno e a suposta ligação com os agentes do aliado da OTAN dá uma camada extra de negação plausível para Washington.

O repórter afirma que a negação plausível suplementar é um factor importante que permitiria ao Presidente dos EUA, Joe Biden, aprovar tais operações encobertas provocadoras em solo russo.

A credibilidade de um esquema deste tipo é confirmada por numerosos relatos de explosões misteriosas em toda a Rússia desde que este país lançou a sua operação militar especial na Ucrânia, em Fevereiro. Várias instalações militares foram destruídas por incêndios que os meios de comunicação social russos têm tido tendência a relatar como devidos a acidentes inexplicáveis.

Um instituto russo de investigação aeroespacial na cidade de Tver foi incendiado a 21 de Abril, no qual várias pessoas foram alegadamente mortas. Vários outros depósitos de munições também foram atingidos com incêndios acidentais aparentemente estranhos.

Na semana passada, a 23 de Dezembro, um centro militar na zona leste de Moscovo foi gravemente danificado por um grande incêndio que ardeu durante mais de quatro horas. No dia anterior, o único porta-aviões da Rússia, o Almirante Kuznetsov, foi envolvido em chamas enquanto estava a ser reparado, atracado em Murmansk.

O que supomos aqui é que é inteiramente plausível que uma série de incidentes mortais em instalações militares em toda a Rússia durante o ano passado não seja uma coincidência acidental, mas sim tenha sido instigada como operações de sabotagem destinadas a semear confusão e problemas logísticos para a campanha da Rússia na Ucrânia.

Este padrão está relacionado com o relatório acima referido, que afirma que a CIA tem estado ocupada a infiltrar-se em território russo juntamente com um aliado europeu da NATO para este mesmo fim.

Em particular, os ataques levados a cabo em bases aéreas de alta segurança bem dentro da Rússia sugerem fortemente que as armas utilizadas para tais ataques já tinham sido colocadas na Rússia pelas alegadas células adormecidas da CIA. Parece improvável que os drones pudessem ter atravessado distâncias tão longas desde o território ucraniano até ao interior da Rússia sem serem detectados.

A utilização de equipas de sabotagem atrás das linhas inimigas não é novidade para a CIA no que diz respeito à Rússia. Após a Segunda Guerra Mundial, a recém-formada Agência Central de Inteligência recrutou agentes secretos e operacionais dos serviços secretos nazis para levar a cabo ataques terroristas em territórios soviéticos. O alto espião de Hitler, Tenente-General Reinhard Gehlen, e a Organização Gehlen tornaram-se bens valiosos da CIA após a guerra.

Mas é significativo que a CIA tenha alegadamente assumido um papel activo renovado na infiltração na Rússia após o golpe de Estado de 2014 que ajudou a orquestrar na Ucrânia.

De acordo com o relatório de Jack Murphy: “A primeira destas células adormecidas sob o controlo combinado da CIA e do serviço de espionagem aliado infiltrou-se na Rússia em 2016, de acordo com um antigo oficial militar dos EUA e uma pessoa americana que foi informada sobre a campanha… Após as infiltrações de 2016, mais equipas entraram na Rússia nos anos seguintes. Algumas contrabandearam munições novas, enquanto outras confiaram nos esconderijos originais, de acordo com dois antigos oficiais militares e uma pessoa que foi informada sobre a campanha de sabotagem”.

O que isto significa é que os planificadores de guerra dos EUA estavam a antecipar completamente a actual guerra por procuração na Ucrânia contra a Rússia.

Isto corrobora aquilo que os chefes da NATO e a ex-Chanceler alemã Angela Merkel admitiram de que o regime de Kiev posterior ao golpe [de 2014] estava preparado para a guerra contra a Rússia pelo menos oito anos antes da erupção das hostilidades em Fevereiro de 2022.

Se de facto a CIA está por detrás dos ataques profundamente penetrantes contra a Rússia e o Presidente Biden os assinou, então isso tem graves implicações na forma como este conflito pode ser resolvido. Sugere que os Estados Unidos têm vindo a planear sistematicamente uma guerra contra a Rússia e não estão simplesmente a reagir à operação da Rússia na Ucrânia, fornecendo armas defensivas.

Por outras palavras, a Ucrânia foi posta em estado de prontidão, preparada para servir de cobertura à agressão americana contra a Rússia.

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O autor: Finian Cunningham é um antigo editor e escritor para as principais organizações noticiosas. Tem escrito extensivamente sobre assuntos internacionais, com artigos publicados em várias línguas. É licenciado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico para a Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir uma carreira no jornalismo. É também músico e compositor. Durante quase 20 anos, trabalhou como editor e escritor nas principais organizações de comunicação social, incluindo The Mirror, Irish Times e Independent. Vencedor do Prémio Serena Shim para a Integridade Incomprometida no Jornalismo (2019).

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Acabar com a NATO e corrigir o erro de Estaline

(Por Batiushka, in Réseau International, 24/12/2022, Trad. Estátua de Sal)

Para o inferno com Washington” ( Coronel Douglas Macgregor)


Introdução: O Atlântico e a Europa

A julgar pelo seu nome, NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte só envolveu os Estados Unidos e o Reino Unido, um acordo entre os americanos e o meio-americano Churchill. Afinal, quão importante é o “Atlântico Norte” para a Alemanha báltica ou para a Itália mediterrânea, quanto mais para a Grécia egeia e para a Turquia no mar Negro? Até a Espanha e Portugal olham para as Caraíbas e para o Atlântico Sul, não para o Atlântico Norte. A NATO é claramente uma organização que descende diretamente da Carta do Atlântico, elaborada por Roosevelt e Churchill numa baía da Terra Nova em 1941 (nem mesmo no Atlântico), e depois imposta a todos.

O fim da NATO

Então, o que é que o Atlântico Norte estava a fazer no sopé dos Himalaias, no Afeganistão? Além de ser a sua maior derrota (até agora), o que é que ele lá estava a fazer? E o que é que o Atlântico Norte, ou pelo menos partes dele, está a fazer no Mar da China Meridional? Certamente há uma pista no nome – China? Este mar pertence à China. O que é que a marinha dos EUA e outros estão a fazer nessa região?

É certo que mesmo Liz Truss, que queria que o mundo inteiro fosse governado pela NATO, com os seus fracos conhecimentos de geografia, deve ter pensado que era hora de renomear a NATO? Talvez para Organização Nazi-Americana da Tirania? Dessa forma, poderíamos manter as mesmas iniciais. Como salientou Saker, o primeiro secretário-geral da NATO, o coronel-general Hastings Ismay, nascido na Índia, admitiu sem rodeios que o objetivo da NATO era “manter a União Soviética fora, os americanos dentro e os alemães em baixo”.

E como Saker explicou : “Manter os alemães em baixo” significa esmagar quaisquer europeus que possam ser rivais no controle da Europa Ocidental pela anglosfera, que agora controla toda a Europa, exceto as terras russas livres. “Manter os americanos dentro” significa esmagar todos os movimentos de libertação europeus, os de De Gaulle ou outros. “Manter a União Soviética fora significa destruir a Rússia, para que não liberte a Europa da tirania da anglosfera. Este último objetivo é simbolizado pelas bandeiras americana e britânica, que estão onipresentes, mesmo em itens de moda, camisetas e jeans, desde os anos 1960. É por isso que os verdadeiros europeus se recusam a usar esses itens.

Na realidade, é óbvio que a NATO deveria ter desaparecido em 1 de julho de 1991, dia em que desapareceu o Pacto de Varsóvia. Se tal tivesse ocorrido em 1991, a derrota da NATO teria sido evitada, trinta anos depois no Afeganistão. Na verdade, o facto de não ter sido extinta naquela época é uma tragédia que custou milhões de vidas, principalmente no trágico Médio Oriente, e hoje em toda a trágica Ucrânia.

Curiosamente, a resposta à agressão e intimidação da NATO (a elite americana ainda intimida), o Pacto de Varsóvia, recebeu o nome da capital da Polónia. Ironicamente – e não há nada mais irónico do que a história – é hoje na Varsóvia da “nova Europa”, longe do Atlântico Norte, que encontramos o mais fanático dos seguidores da NATO. Então, afinal, qual é o significado da NATO?

A República americana da Polónia

O nome “Polónia” está relacionado com a palavra inglesa “plain”, de modo que “Polónia” significa literalmente “campos”. Dito de outro modo, não há barreira geográfica entre as terras alemãs e as russas, que começam com a atual Bielorrússia, e a Ucrânia. Ou seja, não há barreiras geográficas entre Berlim e Moscovo. Existe apenas uma barreira política puramente artificial. Os dois povos, polacos e russos, são irmãos genéticos. O seu confronto, como aquele que existe entre outros irmãos genéticos, os croatas e os sérvios, é puramente artificial.

Faz parte do gigantesco complexo de inferioridade dos polacos – suponha que você vive no meio dos imensos campos entre a Alemanha e a Rússia -, imaginar que a Rússia está interessada em conquistar a Polónia. A Rússia realmente não está interessada na Polónia. Mas então, ouço-vos eu perguntar, porquê a Rússia Imperial participou nas três partições prussianas e austríacas da Polónia no final do século XVIII? Porque é que Molotov e Ribbentrop a partilharam? Porque é que Estaline a ocupou?

A resposta é sempre a mesma. Quem foi invadido tanta vez pela Europa Ocidental, como foi a Rússia, deve criar uma zona tampão para se proteger. Como a geografia não muda, os czares e os bolcheviques foram compelidos, por idêntico receio de agressão e inveja ocidentais, a fazer o mesmo  para se protegerem, e isso significava controlar o leste ou toda a Polónia. Nisso, o czar Nicolau II teve muito mais sucesso do que os bolcheviques. Assim, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães e os austríacos nunca entraram na Rússia, permanecendo presos principalmente no leste da Polónia e na Lituânia e causando menos de 670.000 baixas russas em dois anos e meio de guerra. Foi diferente durante a Segunda Guerra Mundial, quando os alemães chegaram ao Volga e causaram quarenta vezes mais vítimas, ou seja, 27 milhões.

É uma explicação, não uma justificação. Alguns dos meus melhores amigos são polacos: pertencem à pequena minoria de polacos que conhecem tudo isso e sabem que a Polónia de hoje é apenas um vassalo dos americanos. Acho que, provavelmente, eles também sabem que se um polaco recebesse o Prémio Nobel da Paz, seria para quem liderasse a Polónia e a levasse a estar em paz com a Rússia, em vez de ir para a guerra. Seria um polaco que rompesse com os americanos, os expulsaria da Polónia e declarasse a independência. E faria o mesmo com a UE, os Estados Unidos da Europa, liderados pelos Estados Unidos. Este é o tipo de patriotismo polaco (totalmente diferente do nacionalismo polaco) que aprovo, porque se trata de afirmar a identidade nacional polaca e não de destruí-la.

Infelizmente, alguns membros da elite política e militar polaca de hoje sonham varrer a Rússia do mapa, como os cruzados católicos da Idade Média. O seu delírio está ao nível do daqueles cruzados. Os polacos não percebem que os americanos (e os britânicos) os deixarão cair (e aos ucranianos) como tijolos quentes, na hora de os esmagar. Como fizeram em 1945, embora os britânicos afirmassem que entraram na guerra em 1939 com o único propósito de defender a Polónia. Isso, afinal, era mentira. Quando é que os polacos descobrirão quem são os seus verdadeiros amigos? Como o Saker disse: 

Os Estados Unidos e a NATO precisam de mão-de-obra e de poder de fogo para enfrentar a Rússia numa guerra convencional combinada. Qualquer uso de armas nucleares resultará em retaliação imediata 

Hoje, na Polônia, pelo menos 1 em cada 33 pessoas é um “refugiado” ucraniano. Muitos polacos estão fartos dessa invasão. Isso sujeita o país a uma rude prova.

O futuro

Neste momento, a NATO está a desmilitarizar a Ucrânia. Ironicamente, a Ucrânia é oficialmente um país não pertencente à NATO, o país onde residem algumas das pessoas que no mundo mais odeiam os polacos. Os ucranianos que vivem na fronteira polaca (os galegos) até inventaram uma nova religião para não serem católicos como os polacos (ou ortodoxos como os russos). É o chamado “catolicismo grego”. Não se encontra uma mistura mais estranha e artificial do que essa. Como dizem os russos: “Nem carne nem peixe“. Então, o que acontecerá quando a NATO entrar em colapso? Voltaremos à história do século passado, muita da qual diz respeito à Polónia, da Varsóvia devastada pelos nazis, à Auschwitz libertada pelos soviéticos, de Wroclaw (Breslau) a Gdansk (Danzig).

No início de 1917, a Primeira Guerra Mundial durava há dois anos e meio e a Rússia estava apenas a alguns meses da vitória total e da libertação de Viena, Berlim e Istambul. No entanto, a Revolução de Fevereiro organizada pelos britânicos (o embaixador britânico na época, Sir George Buchanan, foi a Victoria Nuland desse tempo) pôs fim a isso. E os aristocratas totalmente incompetentes, mas anglófilos, que os britânicos tinham escolhido para governar a Rússia, abriram as comportas para eclosão da Revolução de Outubro. Sem a interferência britânica, não teria havido a Polónia, que entre 1919 e 1920 ocupou a maior parte da Bielorrússia e do oeste da Ucrânia, lá permanecendo até 1939. E se as tropas russas tivessem entrado em Viena, Berlim e Istambul, não teria havido um cabo austríaco que, em 1939, lançou a segunda parte da Primeira Guerra Mundial, e por isso também não teria havido nenhuma invasão americana da Europa Ocidental em 1944. Logo, também nenhuma tropa soviética teria entrado violentamente em Viena e Berlim em 1945 e, portanto, hoje nenhuma guerra pela libertação da Ucrânia estaria a acontecer.

As intrigas austríacas que contribuíram para a Primeira Guerra Mundial fizeram o jogo dos franceses e britânicos e destruíram o eixo São Petersburgo-Berlim. Foi trágico porque Berlim é o verdadeiro centro da Europa Ocidental e Central e tudo o mais é secundário, incluindo Paris. (Tudo o que os alemães precisam de fazer para garantir a sua liderança, de facto, é agradar à vaidade da elite francesa e dizer-lhes que são muito importantes, isso é o suficiente). Porque a harmonia entre Berlim e São Petersburgo significa a existência de harmonia em toda a Europa Ocidental, Europa Central e na parte norte da Europa Oriental. Pondo de lado a Europa Ocidental, também há partes inteiras da Europa Central e Oriental que não interessam à Rússia, por albergarem culturas que são estranhas à mentalidade russa e mais próximas da história e cultura alemãs. Referimo-nos à antiga Alemanha Oriental protestante, bem como à antiga Polónia católica (incluindo parte do que é hoje o extremo oeste da Ucrânia), a Eslováquia, Áustria, Hungria, Eslovênia, Croácia, o norte da Bósnia e Herzegovina, bem como a ateísta Chéquia.

Tirando esses territórios da equação, chegamos às partes da Europa Oriental nas quais a Rússia está interessada e próxima. São elas: Bielorrússia, Ucrânia (russa), países bálticos, Moldávia, Roménia, Bulgária, Sérvia, sul da Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Macedónia do Norte, Albânia, Grécia, e Chipre. Entender-se-á porque pertencem esses territórios ao mundo cultural russo consultando o mapa de Samuel Huntington intitulado “The Eastern Boundary of Western Civilization” (sic). Como ele disse, de acordo com a sua visão etnocêntrica: “A Europa termina onde termina o cristianismo ocidental“. Aqui, a Rússia não precisará de construir um muro, instalar armadilhas de tanques, arame farpado e cimento. Ela tem amigos do outro lado da fronteira.

Este foi o erro de Estaline – criou uma zona tampão que incluía países cuja cultura maioritária era estranha aos russos, em vez de se limitar a países ao sul e ao leste, como se elencou acima. Como ateu, Estaline não tinha mais tempo ou mais compreensão do que os americanos modernos, para as nuances religiosas e culturais dos povos. Foi pena. A Europa do sudeste, a lista de países acima referida, entrará mais uma vez na esfera de influência russa, mas os do norte e oeste pertencem a outra esfera, à esfera alemã e, portanto, à Europa Ocidental.

Conclusão: Depois da NATO

À medida que a NATO continua o seu colapso, que começou em Cabul em agosto de 2021, ficará claro que os Estados Unidos não podem apegar-se à Europa, assim como não podem apegar-se à Ásia. As guerras da NATO logo terminarão. A NATO está a ser desmilitarizada e desnazificada. Na verdade, está em vias de colapsar. Uma vez restaurado o eixo Berlim-Moscovo, o resto da Europa seguirá em frente, não sob uma esfera de influência russa, mas como uma área que deseja estabelecer boas relações com a Rússia, até mesmo com as ex-repúblicas americanas da Polónia, Lituânia, Letónia, Estônia e a Grã-Bretanha americana. 

De facto, atrás de Moscovo, há Pequim e toda a Eurásia. E toda a Europa precisa de Pequim e de Moscovo, Pequim para os produtos manufaturados, Moscovo para a energia. A Europa deve voltar às suas raízes, virando as costas à insignificância e à ingerência transatlântica. Em breve tal será passado. Como disse o bom coronel MacGregor: “Para o inferno com Washington”.

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