Sobre a próxima queda da Venezuela

(Júlio Marques Mota, 22/02/2019)

julio-marques-mota

A Venezuela irá cair, disso não tenhamos dúvidas. Irá cair , abalada pelos fortes ventos de um enorme furacão que tem como ponto de formação Washington.

Quando se acena com a bandeira da fome, ou melhor de alimentos e onde a sua necessidade impera, está tudo dito quanto ao que se vai seguir.

Num outro continente, lembremo-nos do que a União Europeia e Mario Draghi fizeram à Grécia no início de Julho de 2015. E o Syriza que se conhecia até aí, esse simplesmente morreu, com o referendo da sua revolta. E um dia destes, quando começarmos a editar uma série de textos dedicados à Europa em ano de eleições sob o título A União Europeia um espaço económico em decomposição, voltaremos a falar da Grécia, uma vez que o que agora e aqui nos importa é a Venezuela.

A pergunta-chave que aqui nos interessa é saber que caminhos sinuosos tomaram os políticos neoliberais, seja Trump, sejam os dirigentes europeus, ou as instituições que direta ou indiretamente estão sob a sua alçada, para que a degradação a que se assiste na Venezuela tenha desembocado na situação em que este país se encontra agora.

Aqui somos levados a relembrar um texto de Harold James que nos diz que “Quando se trata de falhas de caráter e de incompetência dos líderes, 2019 é um ano tão preocupante quanto o foi 1919.” Sabemos as consequências a prazo do que aconteceu em 1919, sabemos o que tem sido a pratica política destes últimos anos, e estamos em 2019, um século depois e o ano em que o Euro comemora o seu vigésimo aniversário.

Quanto às incompetências e à falta de caráter dos dirigentes políticos e financeiros em 2019, relembro aqui um texto que o meu amigo Francisco Tavares editou no blog A Viagem dos Argonautas, sobre a Venezuela (ver texto aqui). Com a sua leitura, tudo se torna claro. Vejamo-lo então:

“O extrato que a seguir se apresenta consta do relatório As consequências económicas do boicote à Venezuela, de 08/02/2019, do – Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, e é uma demonstração, que mais clara não pode ser, sobre os inescrutáveis caminhos dos “paladinos” da democracia e dos direitos humanos, comandados pelos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia e da América Latina, quando falam sobre a necessidade e a urgência de ajuda humanitária à Venezuela. Será possível ser-se mais hipócrita?”

_____________________________________________________

” (…) Segue-se uma lista cronológica de obstáculos específicos enfrentados pela Venezuela:

* Abril de 2016: Instituições financeiras começam a deixar de receber pagamentos em dólares de instituições venezuelanas.

* Maio de 2016: Commerzbank Bank (Alemanha) fecha contas bancárias venezuelanas e da PDVSA.

* Julho de 2016: o Citibank fecha contas correspondentes de instituições e bancos venezuelanos, incluindo o Banco Central da Venezuela. O fecho das contas correspondentes reduz a capacidade de efetuar pagamentos em dólares, impondo custos adicionais para realizar transações em outras moedas.

* Agosto 2016: o Novo Banco de Portugal proíbe transações com bancos e instituições venezuelanas.

* Julho de 2017: a empresa Delaware, agente de pagamento da PDVSA, recusa-se a receber fundos da companhia petrolífera venezuelana.

* Julho 2017: o Citibank recusa-se a receber fundos venezuelanos para importar 300.000 doses de insulina.

* Maio de 2017: empresas de origem russa, empreiteiras encarregadas de elaborar a cadeia de blocos Petro utilizando o código NEM, desistem de continuar com o contrato argumentando razões de força maior após terem sido pressionadas pela Security Exchange Commission dos Estados Unidos.

* Agosto 2017: Os bancos chineses informam que não podem realizar operações em moeda estrangeira em favor da Venezuela devido à pressão do Departamento do Tesouro dos EUA, e a Rússia relata a impossibilidade de realizar transações com bancos venezuelanos devido à restrição dos bancos correspondentes dos EUA.

* Agosto de 2017: o banco correspondente do banco chinês BDC Shandong paralisa durante três semanas uma transação de 200 milhões de dólares sacados pela China.

* Agosto de 2017: devido à pressão da OFAC, a empresa Euroclear retém 1.200 milhões de dólares sem possibilidade de mobilização.

* Outubro 2017: o Deutsche Bank fecha as contas correspondentes do Citic Bank chinês para processar pagamentos da PDVSA, o que demonstra a pressão sobre a banca internacional.

* Outubro 2017: A entrada de vacinas no país é adiada por quatro meses porque o bloqueio dos EUA torna impossível fazer pagamentos ao banco suíço UBS.

* Novembro 2017: a Venezuela faz pagamento para comprar primaquina e cloroquina (para tratamento antimalárico), solicitado ao laboratório médico da BSN na Colômbia. O governo colombiano bloqueia a entrega de medicamentos.

* Novembro 2017: o Deutsche Bank, principal correspondente do BCV, encerra definitivamente as contas correspondentes desta instituição.

* Dezembro de 2017: foram devolvidos 29,7 milhões de dólares de bancos na Europa para pagamento a fornecedores de alimentos através do programa alimentar CLAP. Também nesse mês, as autoridades colombianas impediram a transferência para a Venezuela de mais de 1.700 toneladas de perna de porco.

* Maio de 2018: o pagamento de 9 milhões de dólares para a compra de material de diálise foi bloqueado.

* Novembro 2018: A partir deste mês, o Banco da Inglaterra reteve 1,2 bilhão de dólares que o governo venezuelano havia depositado nessa entidade.”

Anúncios

Esfaimar a Venezuela para levá-la à submissão

(Por Israel Shamir, In Resistir, 13/02/2019)

apoio_popular

Vocês são tão bondosos! Derramei uma lágrima ao pensar na generosidade americana.

“Tantas iguarias deliciosas: sacos de arroz, atum em lata e biscoitos ricos em proteínas, flocos de milho, lentilha e macarrão, chegaram à fronteira da conturbada Venezuela – o suficiente para uma refeição leve para cada cinco mil pessoas”, – relatavam os noticiários numa sublime referência a cinco mil pessoas alimentadas pelos peixes e pães de Cristo.

É verdade que Cristo não apresou as contas bancárias e não apreendeu o ouro daqueles que ele alimentava. Mas a Venezuela do século XXI é bem mais próspera que a Galileia do século I. Nos dias de hoje, é preciso organizar um bloqueio se quiser que as pessoas fiquem gratas pela sua ajuda humanitária.

Isso não é um problema. A dupla EUA-Reino Unido fez isso no Iraque, como escreveu a maravilhosa Arundhati Royem Abril de 2003 (no Guardian de antigamente, antes de se tornar uma ferramenta imperial): Depois de o Iraque ter sido posto de joelhos, seu povo morreu de fome, meio milhão dos seus filhos foram mortos, sua infra-estrutura seriamente danificada… o bloqueio e a guerra foram seguidos por… adivinhou! Ajuda humanitária. A princípio, eles bloquearam o fornecimento de alimentos no valor de milhares de milhões de dólares, e a seguir entregaram 450 toneladas de ajuda humanitária e celebraram sua generosidade com alguns dias de transmissões de TV ao vivo. O Iraque tinha dinheiro suficiente para comprar toda a comida de que precisava, mas estava bloqueado e o seu povo recebia apenas alguns amendoins.

E isso era bastante humano pelos padrões americanos. No século XVIII, os colonos britânicos na América do Norte usaram métodos mais drásticos enquanto distribuíam ajuda a nativos desobedientes. Os índios peles vermelhas foram expulsos de seus lugares de origem e então receberam ajuda humanitária: whiskey e cobertores. Os cobertores haviam sido anteriormente usados por pacientes com varíola . A população nativa da América do Norte foi dizimada pelas epidemias decorrentes desta medida e de semelhantes. Provavelmente você não ouviu falar deste capítulo da sua história: os EUA têm muitos museus do Holocausto, mas nenhum memorial ao genocídio feito em casa. É muito mais divertido discutir as faltas de alemães e turcos do que dos seus próprios antepassados.

Primeiro, você passa esfaima o povo; a seguir traz-lhe ajuda humanitária. Isso foi proposto por John McNaughton no Pentágono: o bombardeamento de diques e barragens, ao inundar campos de arroz, provoca fome generalizada (mais de um milhão de mortos?) “E então entregaremos ajuda humanitária aos famintos vietnamitas”. Ou antes, “poderíamos oferecer-lhes isso na mesa de conferência”. Planear um milhão de mortes por inanição, por escrito: se um escrito assim fosse encontrado nas ruínas do Terceiro Reich isso selaria a história de genocídio, seria citado diariamente. Mas a história do genocídio dos vietnamitas raramente é mencionada hoje em dia.

Eles também fizeram isso na Síria. No início, entregaram armas para todo extremista muçulmano, a seguir bloquearam Damasco e então enviaram alguma ajuda humanitária, mas só para as áreas sob o controle rebelde.

Esse método cruel, mas eficiente, de quebrar o espírito das nações foi desenvolvido por domadores de leão durante anos, talvez durante séculos. Você tem de esfaimar a fera até que ela venha tomar a comida das suas mãos e lamber seus dedos. ‘Desnutrição-domesticação’, chamam a isto. Os israelitas praticam o mesmo método em Gaza. Eles bloqueiam toda a exportação ou importação da Faixa, proíbem a pesca no Mediterrâneo e alimentam a conta-gotas os palestinos em cativeiro através de “ajuda humanitária”.

Judeus, sendo judeus, fazem isto melhor: fizeram com que a UE pagasse a ajuda humanitária para Gaza E comprasse a ajuda a Israel. Isso fez de Gaza uma importante fonte de lucro para o Estado judeu.

Assim, na Venezuela, eles seguem um roteiro antigo. Os EUA e seu caniche londrino apreenderam mais de 20 mil milhões de dólares da Venezuela e de empresas nacionais venezuelanas. Eles roubaram mais de mil milhões de lingotes de ouro que de modo confiante a Venezuela depositou nos cofres do Banco da Inglaterra.

Bem, eles disseram que darão esse dinheiro para um venezuelano qualquer, de preferência. Para o sujeito que já prometeu dar a riqueza da Venezuela para as empresas americanas. E após este roubo à luz do dia, eles trouxeram alguns contentores de ajuda humanitária até à fronteira e esperam pela correria por comida de venezuelanos destituídos.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, twittou :

“O povo venezuelano precisa desesperadamente de ajuda humanitária. Os EUA e outros países estão a tentar ajudar, mas os militares da Venezuela sob as ordens de Maduro estão bloqueiam a ajuda com camiões e navios-tanque. O regime de Maduro deve PERMITIR QUE A AJUDA ALCANCE O POVO FAMÉLICO”.

Os venezuelanos não estão a morrer de fome, apesar de atravessarem dificuldades. O maior barulho é feito pelos ricos, como sempre. Se Pompeo quiser ajudar os venezuelanos, ele pode suspender as sanções, devolver os fundos e levantar o bloqueio. Os biscoitos que ele quer fornecer são de pouca valia.

O presidente Maduro está certo quando se recusa a deixar essa hipocrisia subornar os estômagos e os corações de seu povo. Não é só ele que se lembra de seu Virgílio e sabe, Timeo danaos e dona ferentes , “cuidado com gregos que dão presentes”. Há demasiados soldados americanos e colombianos em torno do local da entrega pendente, e este lugar é suspeitamente próximo a um aeroporto com uma pista extra-longa adequada para uma ponte aérea.

Os EUA são conhecidos pela sua propensão para invadir seus vizinhos: o Panamá foi invadido em 1989 a fim de manter o Canal do Panamá em mãos americanas e reverter o acordo assinado pelo bem-intencionado presidente Jimmy Carter. O presidente George W. Bush enviou suas tropas aerotransportadas depois de chamar o presidente do Panamá de “ditador e contrabandista de cocaína”. É exactamente o mesmo que diz o presidente Trump acerca do presidente da Venezuela.

Eles provavelmente usarão essa ajuda para invadir e subornar a Venezuela. Sabiamente, Maduro começou grandes exercícios militares a fim de preparar as forças armadas para o caso de invasão. A situação da Venezuela é bastante terrível o suficiente, mesmo sem invasão. Seu dinheiro foi apresado, sua principal companhia de petróleo é torna-se inútil quando confiscada; e há uma forte quinta coluna à espera dos ianques em Caracas.

Esta quinta coluna é composta principalmente por compradores, jovens ricos com conhecimento e educação ocidental, que vêem seu futuro no âmbito do Império Americano. Eles estão prontos para trair as massas destituídas e para convidar as tropas dos EUA a entrarem. Eles são apoiados pelos super-ricos, por representantes de empresas estrangeiras, pelos serviços secretos ocidentais. Essas pessoas existem por toda parte; elas tentaram organizar a Revolução Gucci no Líbano, a Revolução Verde no Irão, o Maidan na Ucrânia. Na Rússia, eles tiveram sua oportunidade no Inverno de 2011/2012, quando a sua Revolução da Capa de Vison foi jogada no Bolotnaya Heath, em Moscovo.

Em Moscovo, eles perderam quando seus oponentes, o partidários do Russia First, efectuaram uma manifestaçãomuito maior em Poklonnaya Hill. As agências de notícias ocidentais tentaram encobrir a derrota divulgando fotos da manifestação dos apoiantes de Putin e dizendo que ela favorável ao Ocidente. Outras agências ocidentais publicaram fotos de comícios de 1991 dizendo que haviam sido tiradas em 2012. Em Moscovo, ninguém se deixou enganar: a multidão do vison sabia que estavam derrotados.

Na Ucrânia, eles venceram, pois o presidente Yanukovich, um homem hesitante, pusilânime e dividido, não conseguiu reunir apoio maciço. É uma grande questão se Maduro será capaz de mobilizar as massas. Se o fizer, irá também vencer a confrontação com os EUA.

Maduro é um tanto reservado; ele não disciplinou os oligarcas indisciplinados; ele não controla os media; ele tenta jogar um jogo social-democrata num país que está longe de ser a Suécia. Seus subsídios permitiram que as pessoas comuns escapassem da extrema pobreza, mas agora são usados pelos aproveitadores do mercado negro para sugar a riqueza da nação. Longe de ser uma zona de desastre, a Venezuela é uma verdadeira Bonança, um verdadeiro Klondike: você pode encher um camião-cisterna com gasolina por centavos, contrabandeá-la para a vizinha Colômbia e vendê-la a preço de mercado. Muitos adeptos dos sujeitinhos fizeram pequenas fortunas dessa maneira, e esperam fazer grandes se e quando os americanos vierem.

Um problema maior é que a Venezuela se tornou uma economia de monocultura: exporta petróleo e importa todo o resto. Nem sequer produz comida para alimentar seus 35 milhões de habitantes. A Venezuela é uma vítima da doutrina neoliberal, a qual afirma que se pode comprar o que não puder produzir. Agora eles não podem comprar e não produzem. Imagine uma Arábia Saudita democrática atingida pelo bloqueio.

A fim de salvar a economia, Maduro deveria drenar o pântano, acabar com o mercado negro e especulativo, incentivar a agricultura, tributar os ricos, desenvolver alguma indústria para o consumo local. Isto pode ser feito. A Venezuela não é um estado socialista como Cuba bem ordenada, nem uma social-democracia como a Suécia e a Inglaterra nos anos 70, mas mesmo seu muito modesto modelo para permitir que as massas se levantem da miséria, pobreza e ignorância parecem demasiado para o Ocidente.

Diz-se muitas que existem dois antagonistas no Ocidente, os populistas e os globalistas, e que o presidente Trump é o líder populista. A crise na Venezuela provou que estas duas forças estão unidas se houver uma oportunidade de atacar e roubar um país estrangeiro. Trump é condenado internamente quando chama suas tropas de volta do Afeganistão ou da Síria, mas ganha apoio quando ameaça a Venezuela ou a Coreia do Norte. Ele pode estar certo de que será aplaudido por Macron e Merkel e até mesmo pelo The Washington Post e pelo The New York Times. 

Ele tem as armas de destruição em massa reais, as armas de engano em massa, para atacar a Venezuela, e essas armas de destruição em massa foram activadas com o arranque do golpe arrepiante. Quando um jovem político desconhecido, o líder de uma pequena fracção neoliberal raivosamente pró-americana no Parlamento, Random Dude, reivindicou o título de presidente, ele foi imediatamente reconhecido por Trump e os media ocidentais informaram que o povo da Venezuela saiu em manifestações em massa para saudar o novo presidente e exigir a remoção de Maduro.

Eles transmitiram vídeos de enormes manifestações a ocorrerem outra vez em Caracas. Não muitos espectadores no exterior perceberam que o vídeo era antigo, filmado em manifestações de 2016, mas os venezuelanos viram isso imediatamente. Eles não foram enganados. Eles sabiam que não há possibilidade de uma grande manifestação de protesto naquele dia, o dia de um jogo de beisebol particularmente importante na liga profissional entre os Leones de Caracas e os Cardenales de Lara de Barquisimeto.

Mas as armas de destruição em massa continuavam a mentir. Aqui está uma notícia do Moon of Alabama : os relatos de grandes comícios contra o governo são notícias falsas ou profecias com a pretensão de se tornarem auto-realizáveis:

Isso foi às 7h10, hora local, em Caracas, várias horas antes da manifestação. Tal “reportagem previsional” é agora supostamente passa a ser “notícia”. Um pouco mais tarde, a Agência France Presse postou um vídeo:

Agência de notícias AFP @AFP – 15:50 utc – 2 fev 2019 ?>

VÍDEO: Milhares de manifestantes da oposição afluem às ruas de Caracas para apoiar o líder da oposição na Venezuela, Juan #Guaido, o qual está a apelar a eleições antecipadas, à medida que aumenta a pressão internacional sobre o presidente Nicolas Maduro para se demitir.

Isso foi às 11h50, hora local. O vídeo em anexo não mostra “milhares”, mas cerca de 200 pessoas a circularem.

Eles mentem quando dizem que há desertores do exército à procura de um combate com as forças armadas. Os jovens que a CNN apresentou não eram desertores e não moravam na Venezuela. Até mesmo suas insígnias militares eram de i, tipo descartado anos atrás, como notou nosso amigo The Saker.

No entanto, essas mentiras não vão ajudar – meus correspondentes em Caracas informam que há manifestações a favor e contra o governo (para Maduro multidões um pouco maiores), mas os sentimentos não são fortes. A crise é fabricada em Washington e os venezuelanos não querem ser envolvidos.

É por isso que podemos esperar uma tentativa americana de usar a força, precedida por alguma provocação. Provavelmente não será uma guerra total: os EUA nunca combateram um inimigo que não estivesse exausto antes do confronto. Se o governo Maduro sobreviver ao golpe, a crise será discreta, até que as sanções façam seu trabalho e minem ainda mais a economia.

Nesta luta, o presidente Trump é o seu próprio grande inimigo. Ele busca a aprovação do Partido da Guerra e a sua própria base ficará decepcionada com suas acções. Suas sanções enviarão mais refugiados para os EUA, com muro ou sem muro. Ele debilita o status único do dólar americano ao utilizá-lo como arma. Em 2020 colherá o que semeou.


Fonte aqui

O que o Pentágono oculta sobre uma possível intervenção militar na Venezuela

(Por José Negrón Valera, in Resistir, 18/02/2019)

su_30mk2_aadpr

A visceralidade com que Donald Trump maneja a sua política externa levou-o a um beco sem saída na Venezuela. Arrastado pelos seus operacionais político-militares no eixo Miami-Bogotá-Madrid, encontra-se às portas de uma nova derrota diplomática que afundará ainda mais a sua precária liderança internacional.

Uma guerra, travada através dos seus aliados na América do Sul, parece ser a única opção, mas uma coisa é omarketing mediático e outra, muito diferente, é a realidade operacional.

O que não querem que se saiba 

Gina Haspel.As Forças Armadas Bolivarianas mantêm-se unidas em volta da Constituição do país e da liderança do seu supremo comandante Nicolás Maduro. Para além de individualidades sem qualquer peso real dentro do aparelho militar, não existe nada que nos indique que o bastião que define a estabilidade do sistema político na Venezuela vá desmoronar.

Gina Haspel, especialista em operações secretas, foi a grande artífice da campanha para tentar quebrar a vontade das Forças Armadas Bolivarianas. O seu objetivo é organizar e alimentar o exército paralelo que se está a preparar na Colômbia e que foi denunciado pelo governo venezuelano. Para isso, conta com amplos perfis dos oficiais que foram afastados por atos ilegais ou pouco éticos, para além de informações sobre aqueles que possuem dinheiro, familiares e propriedades fora da Venezuela. Qualquer elemento é usado como ponto de pressão.

Haspel precisa de uma vanguarda mediática, pois não pode mostrar às câmaras de televisão o grosso do exército paralelo, formado maioritariamente por paramilitares e elementos de bandos criminosos, ligados fundamentalmente ao tráfico de drogas.

No entanto, apesar da crua guerra de intimidação, nada se conseguiu a não ser declarações pontuais e tímidas que desconhecem Nicolás Maduro. Se pensarmos que a Forças Armadas Bolivarianas contam com mais de 500 mil efetivos e, neste momento, está perto de incorporar mais de dois milhões de milicianos na defesa do território, o que Haspel conseguiu é totalmente insignificante.

Outro aspeto corresponde à realidade interna de cada um dos países que serão usados como ponta de lança para a agressão bélica.

A Colômbia vive em guerra há mais de 50 anos. Neste momento, goradas as conversações com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e com o incumprimento dos acordos de paz firmados com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o exército colombiano reconhece que deixaria grande vulnerabilidade no seu próprio território se se comprometesse num conflito fora das suas fronteiras.

A isso somamos a impossibilidade de a Colômbia fazer frente aos deslocados, o que seria provocado por um conflito militar com a Venezuela.

O Brasil não está melhor. Neste momento, especula-se muito sobre o verdadeiro estado de saúde do presidente Jair Bolsonaro. A narrativa oficial atribui a operação a que ele foi submetido há mais de uma semana ao acontecimento, ainda não esclarecido de todo, em que foi apunhalado, enquanto era candidato presidencial. Uma luta pela sucessão do poder parece estar a começar no Planalto. Se acrescentarmos a esta tensão os indícios de corrupção que Flávio Bolsonaro recebeu e a rejeição do exército brasileiro de aceitar uma base militar norte-americana no seu território, podemos concluir que as condições políticas no Brasil não são nada propícias para quem deseja envolvê-lo numa guerra.

O que temem os Estados Unidos? 

A 3 de outubro de 1993, rebeldes somalis derrubaram dois helicópteros Black Hawk, matando mais de 18 soldados das forças especiais e ferindo outros 37. As imagens transmitidas por cadeias de notícias como a CNN, em que se podia apreciar como os rebeldes desfilaram pelas ruas de Mogadíscio com os corpos dos soldados, geraram tais protestos da opinião pública nos Estados Unidos, que a administração de Clinton se viu forçada a retirar as suas tropas da Somália uns meses depois.

Numa época de intensa interligação digital, os Estados Unidos não podem dar-se ao luxo de se submeterem a mais derrotas que se tornarão virais instantaneamente. Por isso, optaram por subsidiar a guerra através de mercenários, como aconteceu na Síria e na Líbia, mas também por levar outros países a travar a guerra em seu lugar. Não obstante, o problema continua latente: estará a população brasileira e colombiana disposta a ver os seus soldados mortos por um conflito cujos únicos beneficiados, tal como referiu expressamente John Bolton, serão as empresas petrolíferas norte-americanas?

Através da propaganda mediática, quis-se vender a ideia de que uma guerra contra o país sul-americano seria uma espécie de “operação cirúrgica”, ao melhor estilo dos filmes de Hollywood. Sem vítimas, para além dos combatentes militares e civis que se oponham a que Nicolás Maduro seja afastado do poder, e com os partidários da oposição escondidos comodamente em casa, seguindo tudo em tempo real através das redes sociais.

O Pentágono fez uma análise exaustiva das capacidades de armamento venezuelanas e sabe que está a mentir quando afirma que a intervenção será curta e que, além disso, não encontrará resistência.

Yuri Liamin, especialista militar, considera que a prioridade dos Estados Unidos é fraturar as Forças Armadas Bolivarianas, para não ter de enfrentar o armamento russo que inclui sistemas de defesa aérea de grande alcance S-300VM Antey-2500, Buk-M2E e o Pechora-2M de médio alcance, assim como um grande número de tanques T-72B1V, BMP-3, BTR-80A, SAU Msta-S, e armas autopropulsadas Noah-SVK, MLRS Grad y Smerch.

Liamin aponta especialmente para o poder aéreo do estado venezuelano que conta com aviões de combate Su-30MK2 , o que o coloca como um dos primeiros da América do Sul.

Outra complexidade para os Estados Unidos são as forças terrestres venezuelanas, equipadas com sistemas Igla-S MANPADS e ZU-23 / 30m1-4, assim como os comandos de operações especiais, especialmente os grupos de franco-atiradores altamente treinados e apetrechados com espingardas Dragunov SVD, capazes de deter, só por si, todo um contingente de soldados inimigos.

Mas talvez o maior dos obstáculos para os que reclamam um desenlace militar na Venezuela é precisamente a própria doutrina militar de defesa integral do país, que contempla “a guerra de todo o povo”, assim como um sistema ágil e poderoso de treino, conhecido por Método Tático de Resistência Revolucionária.

Se se cumprirem as expetativas do governo venezuelano para fortalecer a Milícia Bolivariana com dois milhões de membros, antes de abril, e para organizá-las em cerca de 50 mil unidades de defesa ao longo de todo o território nacional, é possível gerar um poderoso elemento de dissuasão (e mesmo de consciência) para quem não quiser um desastre militar à escala continental.

O assédio psíquico como último recurso 

Manifestação na Itália a favor do governo legítimo da Venezuela.Percebendo a realidade operacional, os Estados Unidos optaram, durante as últimas horas, por manter saturadas as redes sociais com notícias falsas e rumores sobre a entrada da ‘ajuda humanitária’ na Venezuela. A intenção é tentar quebrar a unidade das Forças Armadas Bolivarianas e do próprio povo venezuelano que apoia o projeto bolivariano.

Enquanto os partidários da oposição se encontram aterrorizados em casa, presos aos últimos áudios ou mensagens que proclamam o fim do mundo, quem deseja a paz do país deve comprometer-se numa opção que liberte a ‘mente coletiva’ do assédio que se quer impor.

Isto não implica escolher um caminho passivo nem ignorar as ameaças, mas dotá-las de novos significados: politizar de novo a população em volta da necessidade do projeto político, organizá-la e formá-la para a defesa do território, conseguir o maior consenso e diálogo entre todos os setores que se opõem à guerra e à intervenção militar; e, por último, vencer a agressão económica a que se submeteu o povo venezuelano.

Neste momento, o inimigo chama-se a falta de esperança e a sua arma mais potente é a que tenta fazer crer que a Venezuela é um país isolado, sem apoio, sem possibilidade de resposta perante uma agressão e que espera resignadamente o apocalipse que lhe oferecem. Nada mais longe da verdade.

Recordemos que, há 200 anos, este mesmo país venceu o que, nessa época, era o império mais poderoso da terra. Oxalá não seja preciso demonstrar de novo do que é capaz e se lhe permita, tal como pedem os versos da poetisa palestina, Suheir Hammad, uma vida afastada da tragédia bélica.

Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não entregarei a minha alma e os meus ossos ao tambor da guerra.
Não dançarei ao seu ritmo.
Conheço esse ritmo, é um ritmo sem vida.

Conheço muito bem essa pele que vocês golpeiam.
Ainda fiquei viva depois de perseguida, roubada, expandida.
Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não vou odiar por vossa conta, nem sequer vos vou odiar.

Não vou matar por vossa conta. E não vou morrer por vocês.
Não vou chorar a morte com assassínios nem suicídio.
Não dançarei com bombas só porque os outros estão a dançar.
Podem estar todos enganados.

A vida é um direito, não um dano colateral ou casual.
Não me esquecerei de onde venho, tocarei o meu tambor.
Reunirei os meus amados e o nosso canto será dança.
O nosso zumbido será o ritmo. Não serei enganada.

Não emprestarei o meu nome nem o meu ritmo ao vosso som
Dançarei e resistirei, dançarei e continuarei e dançarei
Este bater do meu coração soa mais forte do que a morte
O vosso tambor de guerra não soará mais forte do que o meu alento.


Fonte aqui