PASSAR BEM

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 08/12/2018)

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Clara Ferreira Alves

Muita gente devia estar grata a Trump. O homem é tão mau que faz todos os outros parecerem bons. Parecerem ótimos. Quando a medida é Donald Trump família e amigos, a família Bush renasce das cinzas da guerra do Iraque, e de outras cinzas, como a família mais perfeita à face da terra.

A vocação hagiográfica do jornalismo americano soltou-se, e o falecido Presidente Bush, Bush Sénior, foi creditado, bem sei que pelo saco de vento que dá pelo nome de Paul Ryan, que foi o mais servil e trumpista porta-voz do Congresso, como o Presidente americano mais importante do século XX. Exit Roosevelt. E exit Truman, Reagan, Clinton, para não falar dos outros. As televisões, com destaque para a belicosa CNN, entraram no panegírico acrítico temperado pelas lágrimas da melancolia de um tempo em que a América ganhava guerras e os jornalistas eram respeitados. Bush Júnior saiu do Air Force One com o passo vencedor de César, perdoadas as guerras perdidas dele e o ocaso da democracia americana depois do 11 de Setembro.

Os Bush, a realeza americana que substituiu os Kennedy, caminharam sobre a terra como quem é dono dela. Bush Sénior era bem melhor estadista do que o filho, e parece que excelente e afável pessoa, e foi o último Presidente americano a ganhar uma guerra no Médio Oriente e arredores, a primeira guerra do Golfo. Se o Júnior tivesse deixado estar o Iraque em paz, como o pai prudentemente deixou depois da guerra ganha, incitando os xiitas a revoltarem-se e abandonando-os ao massacre, fingindo que Saddam estava sossegado em Bagdade em vez de ordenar às tropas que matassem e torturassem tudo quanto era xiita, talvez o Médio Oriente fosse diferente. Esta primeira guerra do Golfo nunca foi analisada, porque os vencedores escrevem a História, mas muitos erros foram cometidos na cauda da Desert Storm. O currículo de Bush Sénior no que respeita à América Latina, enquanto foi diretor da CIA, é, no mínimo, suspeito, mas nenhum dos hagiógrafos de serviço tinha idade para se lembrar dessa época, limitando-se a ‘googlar’ o nome e a recolher os mínimos, prática jornalística apreciada. Assim sendo, quem se iria lembrar dos crimes das ditaduras sul-americanas a que a CIA emprestou um punho armado e um olho fechado? Ninguém. Kissinger passa por estadista.

Não fosse o escritor chileno Ariel Dorfman a escrever um texto no “Guardian” que repunha a verdade, com a malícia e a memória dos bons escritores, e Bush Sénior passaria como um anjo para o reino dos anjos.

Dito isto, o homem era simpático, inteligente, patriótico, leal aos seus e não foi o pior dos Presidentes. Tinha uma elegância patrícia e nenhum talento para untar os jornalistas ou fazer spinning, o que hoje lhe traria não apenas uma derrota eleitoral mas a inimizade das massas e das redes. Quando um Bill Clinton a coxear por causa das histórias dos casos com senhoras o enfrentou e derrotou, impedindo um segundo mandato ao Presidente vencedor da guerra, Bush reagiu desajeitadamente. Escolhera um vice ignorante, o idiota da aldeia que dava pelo nome de Dan Quayle, e andou pela campanha como quem anda à beira do abismo. Clinton, com o seu bando de génios políticos, engoliu-o vivo, quando o mundo ainda não sabia quem era Bill Clinton ou se possuía mais neurónios do que o homem que tinha atrás de si uma carreira gloriosa nas Forças Armadas, um herói, e nas altas instituições americanas. A derrota não o impediu de ser um adversário impecável, acabando por tornar-se grande amigo dos Clinton e apreciando a inteligência política do casal. Era um cavalheiro e um aristocrata. Ou seja, tinha tudo para fazer de Trump um provinciano mal-educado que insultou gravemente o filho Jeb, o outro político da família, que por coincidência era governador da Florida quando Bush Júnior ganhou as eleições por um triz e houve que recontar os votos no estado. Dizem os mentirosos que Jeb teve uma mãozinha nessa reeleição.

E não são só os Bush que passam bem ao lado de Trump. Os Obama estão positivamente numa fase de glória, em que são elevados ao estatuto de salvadores da pátria e canonizados. O Vaticano não faria melhor. E até os Clinton, feridos da jornada, são avaliados com menos vitríolo do que o costume. Estão numa fase má, género casal Macbeth, em que tudo o que fazem é considerado uma transgressão de ambiciosos.

Resumindo: os Trump são dois pacóvios que não sabem usar o talher nem sabem comportar-se num salão. E, claro, quanto mais Trump se porta mal e se comporta como um pacóvio, mais a base dele o idolatra e se prepara, com a cumplicidade dos media, que analisam cada tweetcomo quem analisa um tratado, para o eleger para um segundo mandato. Só se Mueller o apanhar na curva. Se o fizer, a América conhecerá uma violência que já não conhece desde os anos 60. As massas odeiam as elites é o novo credo. E o elitista ideal é o elitista morto, como vimos pelas pompas fúnebres de George Herbert Walker Bush.

 

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A PASSAGEM DA CARAVANA

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 10/11/2018)

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Clara Ferreira Alves

(Nas madrugadas de sábado tomo o peso ao Expresso, mal a edição online fica disponível. Hoje os colunistas estavam mesmo pouco inspirados. Salvou-se a Dona Clara com este texto magnifico. Ela, quando escreve sobre Trump, cresce dez centímetros e a pluma, mais que caprichosa, fica contundente quanto baste.

Comentário da Estátua, 10/11/2018)


Vamos desviar a atenção dos resultados das intercalares na América, que põem um travão a Trump mas não o impedirão de ser reeleito. Se ao fim de dois anos esta vitória é tudo o que os democratas conseguiram, devida ao voto e à militância das mulheres, está provado que o Presidente está habilitado, como ele disse bem alto, a dar um tiro em alguém na Quinta Avenida e escapar ileso. Repare-se na imagem: alguém na Quinta Avenida.

Donald Trump tem dificuldade em imaginar a vida num mundo diferente dos rococós da Trump Tower e de Mar-a-Lago, os castelos de Versalhes. E tem dificuldade em imaginar a vida fora dos forros dos aviões, helicópteros, polícias e guarda-costas e das centenas de servos que o rodeiam dentro e fora da Casa Branca. Nada, na vida deste homem, tem a ver com a realidade da pobreza, da privação, da violência e do crime. O criminoso de colarinho branco nunca é tratado como um bandido e sim como um explorador que hasteia a bandeira no Evereste do poder.

Isolado, rodeado de televisões que são o espelho do mundo que lhe interessa, ignorante da História e desconfiado da humanidade que não se parece com ele ou não o idolatra, comunicando por epigramas temperados de vitríolo, Trump é imune ao sofrimento. Tal como o casaco de Melania, que apregoava que não se interessa por coisa nenhuma. Melania é a primeira serva do marido, apesar dos tolos que viam nela a libertadora da tirania.

Os Trumps do privilégio, incluindo o resto do clã, não sabem nem podem saber o que é nascer, viver e morrer nas Honduras, onde as estatísticas de homicídio batem o recorde mundial. Os Trumps fazem como a rainha Vitória: põem as joias para visitar os pobres. É o que se espera deles. Olhem para o meu belo helicóptero Sikorski, perorava o candidato na campanha, antes de ser eleito, a uma base em adoração. Um multimilionário que olha para eles, ou por eles, é uma bênção.

Prestemos atenção à caravana, aquela caravana que começou nas Honduras com mil seres humanos que resolveram escapar da morte, da violência e da miséria e caminhar em direção à fronteira do eldorado, a do México com os Estados Unidos. Os mil do êxodo inicial, um êxodo bíblico e correspondente a um ritual de fuga da opressão tão antigo como a fuga dos judeus do Egito, são hoje dezenas de milhares, ninguém sabe o número certo.

Pelo caminho das pedras e dos espinhos, a caravana foi engrossando, procurando a segurança da multidão. Estão agora no México e, miraculosamente — daí a segurança dos números —, ninguém lhes impediu a marcha e a passagem, apesar das tentativas da polícia mexicana e das ameaças barafustadas de Trump.

Olhem bem para esta caravana, porque ela constitui o primeiro grande teste da presidência Trump, das leis anti-imigração, do racismo latente na sociedade americana, do liberalismo em crise, do novo Senado reforçado dos republicanos e da Casa dos Representantes dos democratas. E da alma do povo americano, que julgamos generosa. Esta caravana constitui o primeiro grande teste do futuro, das políticas do futuro, quando as grandes migrações climáticas, engrossando as migrações do desemprego, da pobreza e da violência, fizerem de certas estradas do planeta um cenário de “Mad Max”. No Mediterrâneo e no Sara morre-se anonimamente, silenciosamente, longe dos olhares do mundo, porque o deserto é um túmulo e o mar engole as vítimas a coberto da noite.

Nos caminhos perigosos da África e da Ásia para a Europa foge-se da guerra usando os serviços de traficantes humanos. A caravana originada nas Honduras é diferente. A caravana ruma ao futuro, esquecendo que o futuro é um lugar onde vamos todos morrer. É um movimento humano, uma grossa serpente que nada consegue travar em nome de um raciocínio que preside a todas as razões.

Vão matá-los todos? Prendê-los todos? Deportá-los todos? O número gigantesco garante a impossibilidade da solução ótima em democracia, e os Estados Unidos são uma democracia. É um movimento imparável, porque aquelas pessoas preferem sofrer em terra norte-americana do que regressar às Honduras e aos países ingratos. Nada as fará parar e preferem morrer na berma da estrada.

Este foi o grande tema da campanha de Trump e não a economia, ao contrário dos conselhos soprados pelos politólogos. Mais uma vez, instintivamente, Trump percebeu que na caravana se joga o seu futuro político e, arrisquemos, histórico. O que ele fizer com a gente da caravana marcará a América para sempre. E o mundo. Formará, ou negará, um padrão de comportamento e ataque aos problemas que vamos ter, as sociedades de bem-estar e abundância. Que já estamos a ter, secretamente, envergonhadamente, e tentamos ignorar. As migrações serão como a caravana: tenderão a aumentar, os deserdados assaltando as muralhas da fortaleza. Por alguma razão, os de Silicon Valley andaram a comprar casas na Nova Zelândia, o futuro distópico faz-se anunciar.

Trump prometeu colocar 20 mil soldados na fronteira. Uma operação militar de grande escala contra migrantes e refugiados. Quem lançar pedras será abatido, prometeu. Aquilo é uma invasão. É uma guerra. É terrorismo. Diz ele. A caravana ou será parada ou arrastará tudo à sua passagem, incluindo a nossa humanidade.

A fronteira não fica na Quinta Avenida.

A vitória morna dos democratas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/11/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Ontem, esperava-se pela confirmação de que os democratas conseguiam conquistar a maioria do Congresso, já que o Senado era praticamente impossível. Conseguiram. Isto onde permitir garantir que o debate sobre os cuidados de saúde fica onde está, impedir cortes nos apoios sociais, bloquear mais benefícios fiscais para as grandes empresas e impedir muitas das medidas que o presidente tem planeado para a imigração.

No limite, até permite um processo de impeachment, que seria um erro sem que os democratas estivessem em condições de se apresentar como alternativa. E não faria descansar ninguém quando o ultraconservador Mike Pence é o homem que se segue. Os democratas podem, de certeza, fazer a vida dos republicanos num inferno. E terão a oportunidade de o investigar, que é sempre o seu maior problema. O anúncio de “sucesso tremendo”, no twitter do Presidente, foi por isso francamente exagerado. Os próximos dois anos serão bem mais difíceis para ele do que os anteriores.

Mas os democratas ficaram bem longe da onda azul com que sonhavam. Apesar de terem crescido e vencido no voto popular, acabaram por perder senadores e as grandes esperanças em eleições de governadores não se realizaram. A maior aposta de Donald Trump estava no Senado e correu bem. Quem julgue que a perda de congresso é um cartão vermelho a Trump não olhou para os resultados com atenção. A oposição costuma vencer as intercalares. E a onda azul não aconteceu porque Trump se envolveu na campanha e tentou fazer dela um referendo a si mesmo.

Os democratas sabiam disso e não fizeram desta campanha um confronto sobre Trump. Conseguiram, por uma vez, unificar o discurso em vez de se dispersar em dezenas de temas mais ou menos identitários. E não deixaram que fosse Trump a definir a agenda. Falaram de Medicare. Segundo um inquérito do “Washington Post” nos 69 distritos fundamentais destas eleições, o único assunto tão importante como “Donald Trump” para os eleitores eram os “cuidados de saúde”. Curiosamente, Trump não escolheu o seu maior trunfo, que é a situação económica. O tema é demasiado complicado, demasiado simpático e pouco mobilizador. Preferiu dedicar a campanha a uma caravana de imigrantes que centro-americanos que se dirige para a fronteira. A verdade é que a exploração do medo vale, para Donald Trump, mais do que o seu sucesso económico. E, se os democratas não tiverem um candidato que mobilize, as duas coisas juntas irão garantir-lhe a reeleição.

MULHERES E MINORIAS

Para além de saber que espaço de manobra teria Donald Trump a partir daqui, estas eleições estavam cheias de novidades. Que se anunciaram logo nas primárias, com 474 mulheres a concorrerem para o congresso e 47 mulheres a concorrem para governadoras. Um aumento de 60% em relação ao recorde anterior que se deveu sobretudo ao Partido Democrata, responsável por 75% das mulheres que se apresentaram nas primarias para o congresso e 70% das concorrem às assembleias estaduais. O Congresso terá pelo menos 100 mulheres, coisa nunca vista. Mikie Sherrill, de New Jersey, Lauren Underwood, do Illinois, Abigail Spanberger, da Virginia, ou Scharice Davids, do Kansas (nativo-americana e gay) são algumas das estrelas do dia.

A outra novidade foi o crescimento de candidatos de minorias étnicas. Dois ganharam especial relevância. Os dois negros, os dois democratas, os dois com progressistas (ala esquerda), os dois ficaram a muito pouco da eleição: Andrew Gillum e Stacey Abrams. Gillum bateu-se por uma vitória na Florida, Abrams foi a primeira mulher negra candidata a governadora. Chegou até às urnas através de uma longa campanha de recenseamento dos negros da Geórgia. Fica, como nota, a chegada de duas muçulmanas e de duas nativo-americanas pela primeira vez ao congresso.

A vitória dos democratas foi morna. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao Congresso dão alguma esperança

Não desprezo nenhuma destas tentativas de romper com bloqueios raciais e de género. E ficou aquém do que poderia ter sido: a eleição de Stacey Abrams na Georgia, a primeira candidata negra a governadora, seria de tal forma importante que Obama, Hillary e Sanders se empenharam nela. Mas todos nos lembramos do momento histórico em que Barack Obama foi eleito. E só alguém muito distraído não percebe o que significou para uma história de descriminação racial nos Estados Unidos. Mas foi depois de Obama que Donald Trump venceu. Porque as marcas deixadas por uma brutal crise financeira mudaram os EUA. Também a vitória de Hillary Clinton teria sido um momento histórico para as mulheres. Mas não mudaria mais do que Obama mudou. A escolha de uma candidata marcada pela sua relação íntima com Wall Street e com todos os interesses de que Washington é refém para enfrentar Trump foi fundamental para a sua vitória. Era tudo o que Trump precisava para ser ele a representar a revolta americana contra o sistema. Como explicou Alexandria Ocasio-Cortez, uma socialista eleita ontem para o Congresso por Nova Iorque com quase 80%, não chega ser mulher ou de uma minoria étnica. Apesar de ser mulher e porto-riquenha, quando o seu oponente democrata nas primárias puxou dos pergaminhos cosmopolitas, ela respondeu: “o que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe”.

MAIS À ESQUERDA?

É uma vitória democrata que não pode ser contestada ter uma Câmara dos Representantes que trave a agenda fiscal e xenófoba de Trump. E é um passo em frente ter uma representação política que reflita cada vez mais a diversidade dos Estados Unidos. Mas a questão fundamental era saber se estas eleições preparavam o caminho para travar a reeleição de Trump daqui a dois anos. E isso dependeria, do meu ponto de vista, de alterações internas no Partido Democrata. Que passavam por uma renovação política, dando mais força a uma agenda progressista e motivadora, e uma renovação de pessoal político (concorreram 158 estreantes, um recorde absoluto), com a chegada de gente capaz de representar o cansaço dos norte-americanos. Por isso estive atento ao candidatos que tiveram a audácia política de desafiar um consenso moralmente derrotado dentro do Partido Democrata.

Ficou o amargo de boca de ver Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embaraço para os republicanos. Foi um trunfo

Casos como Andrew Gillum e Stacey Abrams, candidatos democratas mais à esquerda em estados que não são liberais, ou da candidatura de Beto O’Rourke, um liberal com uma agenda descaradamente progressista para a imigração e em defesa das minorias no Texas (apesar de, ao contrário de Gillum e Abrams , não ser consensual que esteja no campo progressista), jogavam um papel importante. Os três perderam por muito pouco em Estado difíceis, conseguiram resultados que há uns meses seriam inesperados e, com eleitorados tidos por conservadores, não caminharam para o centro para conquistar os votos. A primeira candidata negra a governador, na sulista Geórgia e nos EUA, ficou a 2% de Brian Kemp e conseguiu o melhor resultado dos democratas para governador desde 1998, o negro progressistas Andrew Gillum ficou a 1% de Ren DeSantis e o liberal pró-imigração Beto O’Rourke ficou a 3% de Ted Cruz no vermelhíssimo Texas. Os três morreram na praia e as suas derrotas fizeram a diferença entre a festa e a desilusão. Não faltará quem, entre os democratas, responsabilize a esquerda por estas derrotas. Mas a verdade é que três candidatos improváveis, com discursos improváveis, morderam vitórias quase impossíveis e abriram um caminho. E os três são novas estrelas políticas no campo democrático.

Foi Ocasio-Cortez, uma empregada de mesa de 29 anos, que deu o pontapé de saída às surpresas que começaram a virar os democratas à esquerda. Com um décimo do dinheiro do seu opositor, um democrata com duas décadas de Congresso que deveria vir a ser o líder da bancada democrata, Ocasio esmagou-o com 60% dos votos no distrito eleitoral que inclui parte de Queens e do Bronx. Depois dela, muitos outros surpreenderam. Sobretudo muitas outras. Inspirados por Bernie Sanders, vários candidatos progressistas fizeram cair a velha oligarquia democrata com uma agenda descarada. Mas a coisa não se fica pela agenda ideológica. Houve candidatos centristas que também representaram uma revolução no Partido Democrata. Vêm da base e conquistaram a pulso um lugar nestas eleições. É o caso Abby Finkenauer, foi eleita para o congresso, pelo Iowa, com apenas 29 anos. Não tem dinheiro para ter um carro novo ou casa própria. A chegada deste tipo de pessoas à alta política é um sinal de que alguma coisa está a mudar.

A esperança para uma mudança no Partido Democrata está mesmo nos eleitores. Entre os maiores apoiantes das candidaturas rebeldes estiveram sempre os jovens. Aqueles que começaram a pensar em política depois da crise financeira. Uma crise que deixou marcas politicas profundas que as cúpulas dos dois principais partidos norte-americanas desprezaram. Que se traduzem em números expressivos: hoje, 37% dos norte-americanos têm uma imagem favorável do socialismo. Entre os eleitores com menos de 29 anos esse número salta para os 51%, mais 12 pontos percentuais do que há oito anos. Quando Sanders concorreu às primárias democratas os seus opositores no partido diziam que o septuagenário apenas conseguiria os votos da sua faixa etária. Acabou com mais de 70% do voto jovem.

Muito mais do que a divisão do congresso entre democratas e republicanos e do que o número de afro-americanos ou de mulheres eleitas, é da capacidade dos democratas representarem em esperança o que Trump representou em ódio que depende o futuro. Perderam essa oportunidade em 2016 e o mundo está a pagar por isso. Esperamos que não as voltem a perder daqui a dois anos.

Ontem, a vitória foi morna. Mas, por uma vez, tiveram uma mensagem clara sobre um tema – cuidados de saúde –, não sendo nem reativos, nem dispersos. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao congresso dão alguma esperança. Ficou o amargo de boca de ver, por três unhas negras, Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embraço para os republicanos. Foi um trunfo.