As veias (re)abertas da América Latina

(Manuel Loff, in Público, 22/09/2026)


O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.


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Ainda sem sabermos se Lula consegue voltar a travar o assalto do neofascismo bolsonarista, reflitamos sobre a natureza da nova vaga ultradireitista que está a tomar conta da América Latina.

A reação às experiências progressistas que começaram na viragem do século não começou agora, com os Bolsonaro, Milei, Kast, o salvadorenho Bukele, o equatoriano Noboa, o colombiano Espriella. Se há 20/30 anos foi a vez dos neoliberais (Fernando Henrique Cardoso, Fox, Piñera, Macri), esta nova geração de ultrarreacionários encena essa mistura perversa de sinais exteriores de fortuna, religiosidade estridente e desfaçatez moral, narcisismo trumpista, militares nas ruas e prisões concentracionárias como as de Bukele. Não hesita, como se viu com Bolsonaro, em montar golpes de Estado para conter o “comunismo”, que é aquilo que eles acham já ter sido, com Lula, os Kirchner, Morales, Correa, López Obrador, mais recentemente Boric ou Petro, as políticas redistributivas tipicamente social-democratas, que reforçaram a intervenção social do Estado mas não tocaram na estrutura da propriedade. A desigualdade classista e étnica, que é intrínseca a toda a ordem social das Américas (de facto, de todo o mundo capitalista, colonial e pós-colonial), manteve-se.

Do protetorado imposto (e aceite) à Venezuela pós-chavista até ao desabrido apoio ao Bolsonaro pai e aos filhos Flávio (o agora candidato) e Eduardo (o conspirador exilado nos EUA), o neoimperalismo trumpista tem tudo a ver com isto. Mas há mais do que isso. E é bem visível no caso de Abelardo de la Espriella, o novo Presidente colombiano, advogado de clientes poderosos acusados de ligações a grupos paramilitares, narcotráfico e corrupção. O que prometeu quando tomou posse, a 7 de agosto, diz tudo desta nova vaga fascizante que percorre as Américas: cortar impostos sobre os mais ricos, retomar a guerra civil, reatar relações diplomáticas e comerciais com Israel (rompidas pelo Presidente Petro em protesto por Gaza) e deixar de apoiar a denúncia de genocídio no Tribunal Internacional de Justiça.

Três dias depois, um terramoto matou mais de 400 pessoas no seu país, mas Espriella bloqueou imediatamente a ajuda de centenas de socorristas oferecida pelo México, Brasil e China, para, com toda a pompa, receber 82 membros do Exército de Israel. Um deles, oficial do mesmo exército que matou e deixou soterradas 80 mil pessoas em Gaza, “utilizou como cenário as ruínas do Hospital Universitario del Valle, em Cali, onde havia dezenas de mortos sob os escombros, para gravar a peça de propaganda mais cínica e insultuosa” (Iván Olano, CTXT.ES, 4.9.2026).

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O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e, ao mesmo tempo, encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.

Pergunta Iván Olano: “Por que razão as elites colombianas — e as de muitos outros países — demonstram tanto entusiasmo perante o genocídio perpetrado por Israel em Gaza? Não é apenas por vocação colonial ou por simples obediência aos EUA: é porque isso concretiza as suas fantasias.”

Israel transformou-se, para as direitas dos nossos dias, dos liberais aos neofascistas, naquilo que representou a Alemanha imperial de 1914-18 e a nazi de 1939-45, para as direitas da primeira metade do século XX: um modelo superior de tecnologia da guerra, um supremacismo étnico associado a um discurso religioso obsessivo, que não hesita em recorrer à violência genocida para concretizar um projeto político.

Um nacionalismo religioso sustentado numa “revolução tecnológica” que abre caminho ao que se tem chamado “tecnofascismo”. É isso o que constitui a “israelização” das nossas sociedades. E o que não falta são prosélitos deste modelo, como há dias Henrique Raposo, para quem “a Europa (…) está a aprender com os melhores: Israel”, e se mostra chocado com o “irracionalismo anti-israelita ou mesmo antijudeu que torna impossível as pessoas repararem que Israel é um aliado natural (…) das democracias e que todos nós vamos beneficiar da tecnologia militar israelita?” (Expresso, 18.9.2026)

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Retrato a preto e branco da “terra da liberdade”

(In Facebook de Manuel Barreira, 14/07/2026, Revisão da Estátua)


A resposta de um cidadão australiano às baboseiras de Trump sobre a “NATO não estar ao lado da América” ​​é perfeita, letal e uma descrição do modo de vida cruel de milhões de americanos. Mas claro, como diz o Albarda-mos: “eles estarem a defenderem os nossos valores“… 🙂

Estátua de Sal, 15/07/2026


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Ó meu, tu governas um país com 600.000 pessoas sem-abrigo que estão a dormir nas ruas esta noite. Um país onde 40% dos adultos não conseguem pagar uma emergência de 400 dólares, sem pedir dinheiro emprestado.

Um país onde a insulina custa mais do que a prestação de um carro e por isso as pessoas têm que a racionar para sobreviver.

Um país onde as dívidas médicas são a principal causa do número elevado de falências pessoais.

Um país onde muitas mulheres morrem, nos parques de estacionamento dos hospitais, porque os médicos têm muito medo das leis sobre o aborto, evitando tratar um aborto espontâneo.

Tu prendes mais cidadãos do teu próprio país do que qualquer nação da Terra. Mais do que a China. Mais do que a Rússia. Mais do que a Coreia do Norte. A ‘terra da liberdade‘ tem 2 milhões de pessoas atrás das grades sendo que, um quarto das mesmas, nem sequer foi condenado por nada. São simplesmente demasiado pobres para pagar a fiança que lhes é exigida.

A vossa esperança de vida está a regredir. Vocês são a única nação desenvolvida onde isso está a acontecer. A taxa de mortalidade infantil também está a diminuir e é pior do que a de Cuba. As vossas crianças fazem simulações de ataques a tiro, entre as aulas de matemática e de inglês, enquanto tu vendes ações de fabricantes de armas aos teus amigalhaços.

O vosso salário mínimo não varia há 15 anos. Há professores a trabalhar em dois empregos e veteranos a dormir debaixo das pontes, mas acabaste de gastar um trilião de dólares para arrasar um país que não te atacou.

Um país onde um insurrecionista condenado pela justiça, declarado culpado de violação, protetor de pedófilos e que se envolve com estrelas porno, lidera a campanha de guerra mais caótica e desastrosa desde que os talibãs te agradeceram muito por perderes de novo.

E és tu que ainda dizes que a Gronelândia é mal administrada?!

A Gronelândia tem saúde pública universal. Educação gratuita. Uma das taxas de encarceramento mais baixas do mundo. E ninguém vai à falência na Gronelândia por ficar doente.

Ninguém morre numa sala de espera porque o plano de saúde lhe negou o atendimento.

‘A NATO não estava lá quando precisávamos deles’ – dizes tu. Mas quando é que exatamente aconteceu isso, campeão? No 11 de setembro? Sim, porque aí a NATO invocou o Artigo 5º pela primeira e única vez na história, POR Vós. Soldados de dezenas de países foram mobilizados, lutaram, sangraram e morreram no Afeganistão POR Vós. A Austrália nem fazia parte da NATO e nós comparecemos mesmo assim.

E tu, desta vez, recolheste às duas da manhã sem dizer nada a ninguém e deixaste-os a lidar com a asneirada.

Por isso, talvez antes de começares a dizer que os outros países são mal geridos, devesses olhar para o teu próprio quintal, seu vendedor de revestimentos de alumínio com bronzeado de spray. A única coisa mal gerida nesta imagem é a puta da tua boca.

Como o último ato de Khamenei está a derrotar o NATOstão

(Pepe Escobar in Resistir, 10/07/2026)


Interrompemos este programa para anunciar que o “gato” do Memorando de Entendimento saiu do coma – e está praticamente sem sinais vitais.


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Era totalmente previsível.

O Babuíno da Bárbaria e os seus lacaios quebraram a promessa de suspender as sanções petrolíferas contra o Irão. O compromisso foi revogado pelo Departamento do Tesouro.

Quebraram o frágil cessar-fogo – com ataques aos postos litoraneos do sul do Irão; o Irão respondeu; os EUA intensificaram a resposta; e a escalada voltou a ganhar força.

Quebraram o acordo sobre a navegação no Estreito de Ormuz com provocações sucessivas contra petroleiros:   a Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) respondeu na mesma moeda.

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