Nesta rua escura, o sol é negro A vida invernal está de regresso Nesta rua escura, faz frio lá dentro Não há como fugir do tempo que morreu Cream, Deserted Cities of the Heart
Uma das minhas colunas recentes sobre Como o Irão engendrou o seu avanço multipolar provocou uma reação séria por parte de altos agentes de inteligência da velha guarda do “Estado profundo” dos EUA, agora envolvidos em negócios globais. Recebi uma informação consistente e pormenorizada acerca do que eles consideram ser a principal razão para o presidente Trump assinar o Memorando de Entendimento (MoU) com o Irão, o qual ele está freneticamente a apresentar como sendo o seu (itálico meu) acordo.
Agora, resta a Trump tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”.
Sempre me pareceu inverosímil que o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, por um anarquista sérvio, em Sarajevo, tivesse sido motivo suficiente para o desencadear de uma guerra generalizada na Europa, que durou quatro anos e deixou caídas dez milhões de vítimas. E também me pareceu difícil de acreditar que durante a maior parte desses quatro anos, de 1914 a 1918, a estratégia militar de ambos os lados em confronto tenha consistido quase exclusivamente numa guerra de trincheiras contra trincheiras, esporadicamente interrompida com cargas de infantaria dizimadas pelos canhões do inimigo: a “carne para canhão”, que passou à história como a mais estúpida estratégia militar de todos os tempos, ao serviço da mais estúpida guerra de sempre.
Com sorte, e com a capacidade de conter as provocações israelitas, a guerra que Donald Trump levou ao Irão e ao Médio Oriente terá durado apenas quatro meses. Mas quatro meses em que a estupidez de quem manda no mundo atingiu um grau de perfeição que ultrapassa os dirigentes políticos da I Guerra Mundial. Todos os objectivos que o ignorante Presidente dos Estados Unidos visava com a guerra que o parceiro israelita o convenceu a desencadear, sem mandato internacional e até sem conhecimento prévio dos aliados, a quem depois acusou de não o ajudarem (com a “honrosa” excepção portuguesa), saíram frustrados e as suas razões agravadas. Claro que todos preferíamos ter visto derrubado um dos regimes mais repressivos do planeta e ver os seus ayatollahs despojados de uma arma nuclear que dizem iminente. Mas há mais regimes religiosamente fanáticos, como o de Israel, e já quase o dos próprios Estados Unidos — e há mais países que já dispõem da bomba e inspiram tudo menos confiança, como a Coreia do Norte, o Paquistão ou o próprio Israel — hoje, mas já de há uns tempos, a maior ameaça à paz no mundo. Trump falhou rotundamente qualquer desses dois objectivos e, de caminho, ao não ter inacreditavelmente previsto que o Irão responderia à agressão israelo-americana com o fecho do estreito de Ormuz à navegação, viu o fornecimento de petróleo às economias diminuir 20% da noite para o dia, mergulhando o mundo inteiro numa crise sem pára-quedas — ele, o grande defensor da economia baseada no petróleo. É preciso ser um lambe-botas consagrado, como o secretário-geral da NATO, o infeliz Mark Rutte, para louvar Trump pelo desfecho da desventura iraniana. Quatro meses de humilhação militar, de desprestígio político e de uma lição de geopolítica aprendida à custa de nós todos desembocaram naquela patética declaração de que, firmado um memorando de entendimento com o Irão para posteriores e incertas negociações de paz, tinha “ordenado a reabertura ao tráfego do estreito de Ormuz”, como se houvesse por aí alguma alma penada que ignorasse que o estreito só abriu quando o Irão o consentiu. Agora resta-lhe tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama, a Europa, a China e a Rússia, e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”. Se conseguir fazer regredir a situação ao ponto em que estava antes da guerra, reclamará vitória — depois de ter gasto na aventura 120 mil milhões de dólares dos contribuintes americanos e uns triliões de danos incalculáveis causados às economias de todos. Mas, se o conseguir, terá ainda de segurar a fúria destruidora de Israel e os seus planos para erguer a toda a sua volta o “Grande Israel” — que, não vale a pena iludirmo-nos, não é só o sonho do Governo criminoso de Netanyahu e do seu bando, ou a satisfação dos interesses pessoais do PM israelita, mas também, e desgraçadamente, a vontade largamente maioritária da população de um país que já foi governado por gente com a estatura de uma Golda Meir ou de um Shimon Peres e que hoje é defensor do genocídio de Gaza, do terrorismo dos colonos judeus na Cisjordânia, da ocupação do Líbano, da Síria e, se possível ou julgado necessário, da Jordânia e do Irão.
Ilustração Hugo Pinto
2 A verdade, porém, é que, para já, todos suspiramos de alívio com a “pax trumpiana”. Frágil, incerta, tardia, é pelo menos uma esperança. Já na Ucrânia, cuja guerra já ultrapassou em tempo a I Guerra Mundial, tal como esta, nada de novo na frente de batalha. Exaustos, massacrados, sem vitória militar à vista, ambos os lados gritam por alguém que os vá ajudar a pôr fim àquilo. Com Donald Trump desinteressado do assunto, concentrado noutras frentes e tendo deixado para os europeus os custos do apoio militar à Ucrânia, esta seria então a hora de a Europa tentar mediar um esforço de paz, depois de se ter queixado que a falhada mediação de Trump a deixou de fora, há uns meses. Mas qual quê? Como se não houvesse nem urgência nem novidades, a Europa prossegue na sua política de sempre: armas e dinheiro para a Ucrânia ganhar a guerra (!) e sanções para a Rússia. Todos contentes, acabam de aprovar o 21º pacote de sanções a Moscovo, cujo principal efeito é o de impedir os europeus de comprar petróleo a 50 dólares a Putin e fazê-lo a 90 dólares a Trump — fora o gás, que preventivamente se tratou de impedir que chegasse à Europa dinamitando os gasodutos russos. Simultaneamente, e tomando como pretexto o sobrevoo de dois drones supostamente russos sobre a Roménia e a Letónia, até já o chefe da Luftwaffe se oferece para dizimar os russos em combate aéreo. Que recordações felizes, que regresso à história! Que estratégia vencedora e oportuna!
3 Não tenho nenhuma posição de princípio relativamente a privatizações. Sou a favor quando o Estado não responde às necessidades das pessoas, como seria de esperar e aparentemente a privatização de um serviço ou de uma empresa pública ou a abertura à concorrência entre público e privado aparece como melhor solução. Sou contra quando estão em causa funções de soberania ou bens e serviços alienáveis pelo Estado, como a água, as praias, etc. Mas sou contra também quando se torna evidente que a principal razão de uma privatização é a satisfação de interesses particulares, e não a melhor prestação do serviço público. Entre todas as privatizações a que já assistimos nos últimos 50 anos, nenhuma me pareceu mais desnecessária e mais prejudicial ao interesse público do que a da ANA — Aeroportos de Portugal. Tratava-se de uma empresa pública que tinha o monopólio da exploração de um serviço essencial: a exploração do espaço aéreo e da entrada por via aérea em território nacional de um número de estrangeiros que é o dobro da população residente. Era um grande negócio, e com ele o Estado ganhava dinheiro tranquilamente. Mas, a troco de um preço que ao fim de oito anos já estava amortizado pelos lucros, esse grande negócio foi oferecido à francesa Vinci, com experiência incipiente no sector. E a Vinci revelou aquilo que era de prever: uma absoluta incapacidade ou desinteresse em prestar um serviço aceitável para os passageiros, a par de uma insaciável voracidade pelo lucro, bem patente nas 24 actualizações de taxas que já levou a cabo no aeroporto de Lisboa e que, nos Açores, levou mesmo ao abandono da Easyjet, indisponível para pagar os preços exigidos pelos franceses. A própria IATA veio recentemente dizer que a Vinci estava apenas centrada nos lucros, sem realizar investimentos correspondentes. E a AirHelp, uma organização votada aos direitos dos passageiros, deu à Vinci a honrosa medalha de ter visto o aeroporto de Lisboa classificado em 274º lugar entre 277 aeroportos analisados no mundo inteiro — uma classificação perfeitamente adequada àquilo que cada passageiro do Aeroporto Humberto Delgado pode constatar quando o frequenta. E é esta empresa, a que um Governo do PSD deu a concessão da exploração de dez aeroportos em Portugal, que outro Governo do PSD confia agora para que ela leve a cabo a construção do futuro aeroporto de Lisboa sem custos para os contribuintes. Esperem sentados ou não percam mais tempo a alimentar ilusões.
4 E agora vamos para umas semanas de genuíno “patriotismo”: bandeirinhas nacionais nas janelas das casas ou dos carros, camisola da Selecção vestida, mão no peito a escutar o hino e inevitáveis vénias, que nunca serão de mais, a Cristiano Ronaldo. Com isto nos consolamos.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Porque raio é que o Bibi teve de lançar um ataque? Fiquei tão irritado… Ele não tem o mínimo bom senso.
Este é o desabafo de Donald Trump como marido traído perante o Axios, fingindo surpresa ao descobrir que Benjamin Netanyahu agiu sem aviso prévio. Nesta altura, só faltam os violinos e uma lágrima no canto do olho.
O problema é que esta indignação soa tão credível como um piromaníaco a explicar que está chocado com o cheiro a fumo. Poucas horas antes, o Axios tinha revelado que Trump tinha dado luz verde a um ataque israelita ao Líbano. Mas, de repente, quando se trata do Irão, devemos acreditar que Washington está a descobrir as iniciativas do seu aliado mais próximo através da leitura dos jornais. Que ingenuidade comovente. Durante meses, os Estados Unidos têm fingido querer uma solução diplomática, ao mesmo tempo que permitem que Israel mantenha uma pressão militar constante. É a velha tática do “polícia bom, polícia mau”: um aperta a mão enquanto o outro estrangula. Depois, o primeiro volta atrás para explicar que está na altura de negociar com calma. Diplomacia digna de extorsão de rua: “Seria uma pena se vos acontecesse alguma coisa no caso de rejeitarem a nossa oferta de paz.”
O verdadeiro objectivo não é, provavelmente, acabar com as hostilidades, mas sim garantir os interesses estratégicos americanos, especialmente a livre passagem pelo Estreito de Ormuz, a artéria vital para a economia global em termos energéticos. A paz torna-se apenas um slogan de marketing; a prioridade continua a ser manter o fluxo de petroleiros.
Por outro lado, o Irão nunca deixou de repetir que Gaza e o Líbano são partes integrantes da equação regional e que nenhum acordo duradouro pode ignorar estas questões. Pode-se concordar ou discordar desta posição, mas ela é pública e consistente. Imaginar que Teerão irá abandonar estas linhas vermelhas só porque Washington levanta a voz é mais ilusão do que estratégia.
Portanto, o ataque israelita durante uma fase de negociação não é apenas um “acidente diplomático”. Parece mais um teste: até onde aguentará o Irão antes de retaliar? Enquanto isso, Trump interpreta o presidente exasperado, como se Netanyahu fosse um adolescente rebelde que fugiu com as chaves do carro sem permissão.
A parte mais fascinante é esta encenação incessante, onde todos afirmam querer a paz enquanto, na verdade, deitam mais achas para a fogueira. Bombardeamos para negociar, ameaçamos para tranquilizar, provocamos para apaziguar.
A diplomacia ao estilo Washington-Tel Aviv transformou-se num espetáculo onde o guião é sempre o mesmo: o polícia bom repreende o polícia mau e, de seguida, ambos fogem no mesmo carro.
Depois de tratarem o mundo como uma plateia crédula durante tanto tempo, esquecem-se de uma regra básica: quando a cortina se abre todos os dias para a mesma peça, o público acaba por reparar nos fios do teatro de marionetas.