Sim, houve colaboração com os russos. Sim, houve obstrução à Justiça

(Pacheco Pereira, in Público, 20/04/2019)

Pacheco Pereira

Já me queixei disto e vou-me queixar outra vez: eu sou vítima do Trump. Sou vítima do Trump, porque a política americana desde 2016 é a mais interessante do mundo, a mais importante de seguir, a mais perigosa do mundo. Aquela em que melhor se pode perceber o que é o carisma, o que é a política pós-pós-moderna, a criatividade perversa, a degeneração interior da democracia, os mecanismos científicos de manipulação das massas na época das “redes sociais”, a autodestruição de um grande partido nacional pelo medo e pela gula, a tentativa de governar em autocracia, sem respeito pela separação de poderes, sem limites do “executivo”, a hipocrisia religiosa dos zelotas face ao poder, o ódio e o ridículo como instrumentos para rebaixar o adversário, o papel da violência sugerida e incentivada para destruir os laços sociais de vida em comum, a arregimentação dos “nossos” contra os “deles”, a relativização absoluta da verdade, a mentira e o abandono dos factos numa linguagem ficcional de slogans e propaganda. George Orwell deveria conhecer Trump para escrever um segundo 1984.

Eis o catálogo. Como é que se pode esperar que eu encontre qualquer forma de interesse nas vicissitudes políticas caseiras, feitas de palha e nada, este disse, aquele não disse, este fez um inuendo, aquele fez um contra-inuendo, esta fez um ataque a coisa nenhuma, aquele defendeu-se com uma mão-cheia de nada e por aí adiante? Não devia, mas não consigo. Chega Trump e o seu reino do mal e, com a diferença de horas, lá se vai a noite e a madrugada.

Agora, é esse documento fabuloso que é o relatório Mueller, pelo menos na parte que foi divulgada, com páginas cheias de linhas grossas a negro. Por detrás dessas linhas podem ter a certeza que há muito mais e mais importantes coisas que virão a ser conhecidas. Estamos mais no princípio do que no fim. Mas vale a pena ler tudo, é mesmo daqueles documentos que prendem a atenção e a leitura sem parar, muito melhor do que qualquer ficção política.

Com a mesma pressa e ligeireza analítica com que nos primeiros dias se desvalorizou a vitória democrática no Congresso, antes de se perceber que tudo mudara, agora ficamos umas semanas com a síntese mentirosa do procurador Barr a desvalorizar o relatório e as salvas de vitória com o mantra de Trump do “no collusion, no obstruction”, nenhuma das coisas confirmadas pelo relatório nestes termos propagandísticos. Pelo contrário, houve extensa colaboração com os russos, aquilo a que hoje se chama “sinergias”, mas não houve provas suficientes para a acusação de um crime. No entanto, vários colaboradores próximos de Trump vão para a cadeia exactamente por terem mentido sobre os seus contactos com os russos. Coincidências. É só esperar que um dia se abra o arquivo do GRU e do FSB, para então as partes encaixarem entre si. E se Trump lhes escapar, os russos são meninos para fazer “fugas” selectivamente. Nós sabemos e Trump também sabe.

E houve obstrução, que Mueller atira para cima do Congresso, sabendo muito bem que já será o novo Congresso democrático a decidir. O elo fraco da resistência a Trump é o Partido Democrático, e não é certo o que vai acontecer. Mas basta ler o relatório para se perceber a continuada tentativa de Trump de impedir as investigações, e Mueller escreve, preto no branco, que não pode exonerar o Presidente dessa acusação.

Depois, há os detalhes, imensos detalhes. Os detalhes são onde habita o Diabo, e aqui é uma confraria de diabos inteira que fica à solta. O relatório Mueller será sempre, por isso, um documento singular para um tratado que precisa de ser escrito nos nossos dias intitulado “Como Se Destrói Uma Democracia por Dentro”. Claro que há muito precedentes, havia inconsistências legais, definições do poder executivo ambíguas, contradições, patologias da democracia americana, que são todas anteriores a Trump. Mas Trump usou-as todas em seu proveito para instituir uma presidência autocrática, acolitada por uma espécie de grand guignol, uma administração de gnomos maldosos, dirigida, moldada, dominada, por uma personagem carismática completamente amoral, capaz de fazer tudo o que acha que pode fazer sem pensar duas vezes.

É um erro considerar que Trump é um epifenómeno que passará depressa, uma anomalia que o “sistema” engolirá nas próximas eleições. A palavra carisma é muito mal usada por cá, mas é mesmo isso que Trump é, carismático, um tipo intuitivo, criador, poiético, que revelou mais do que ninguém as fragilidades da democracia no século XXI.

Mas o relatório Mueller faz-lhe muita mossa. Não era preciso ser um génio da análise para se perceber que vinha aí uma gigantesca pedra feita de detalhes e contexto que caía em cima de Trump, de Barr, de Pence, de Jared, de Ivanka, dos “trumpinhos”, de Sarah Sanders, de Kellyanne, e dos propagandistas da Fox News, Hannity, Tucker, e do partido da vergonha, os republicanos. Eles vivem na lama, e se calhar gostam dos salpicos, mas a pedra vem a caminho e é grande.

E a pedra vai-se dissolver aos poucos, com cada detalhe fazendo o seu caminho “revelador”, viral, moldando a cabeça das pessoas, umas (talvez poucas) mudando-lhes a opinião, outras mobilizando-as para a necessidade da “resistência”, e outras, talvez a maioria, dando-lhes consciência do perigo por que o país está a passar com este homem à frente. Por isso mesmo, Trump tinha razão quando disse sobre esta investigação: “I’m fucked.


Advertisements

MONEY TALKS

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 30/03/2019)

Clara Ferreira Alves

(A Dona Clara adora as elites e escrever sobre elas e – reconheça-se -, que o faz bem. Que a América é como um perdigueiro a farejar os odores do dinheiro do qual a Europa se envergonha e tem pudor de ostentar.

Bem, mas assim sendo, a Dona Clara sempre me pareceu mais americana que europeia. Quem não tem os dólares de Trump para ostentar pode ficar-se sempre por parodiar quem os detém.

Estátua de Sal, 30/03/2019)

Alguém acreditou que a investigação de Mueller sobre possível conspiração entre a campanha de Trump, com Trump à cabeça, e a Rússia de Putin pudesse ser provada e punida, a existir? Só os democratas, que parecem ter esquecido em que país vivem. Na América, e não é a América de Trump, apenas os Estados Unidos da América, perseguir o poder absoluto é impossível. O que é o poder absoluto? A união do poder político e do mais alto cargo público jamais inventado, com o poder económico e social. Donald Trump é um multimilionário. Pode sê-lo apenas no papel, ou com créditos, corrupções e falências, mas continua a ser um multimilionário, parte de uma casta que é reverenciada, elogiada e copiada no país da oportunidade e do individualismo. Os americanos não respeitam especialmente os direitos humanos ou a perseguição da felicidade, ao contrário do que se pensa por aí, os americanos respeitam o dinheiro e a liberdade de o ganhar e acumular de todas as maneiras. Em nenhum outro lugar uma pessoa é abordada por estranhos que perguntam, o que faz?, e a seguir, quanto fatura por ano? Para um europeu, este é um crime de lesa-majestade. Na Europa, o dinheiro é um segredo envergonhado, por causa das doutrinas marxistas que geraram as nossas democracias e a proteção do trabalhador. Na América, terra do capitalismo triunfante, o capital é o valor supremo e o acumulador de capital não é um bandido, é um herói.

Trump, com o seu “belo Sikorsky”, o helicóptero em que chegava aos comícios, as mulheres compradas e importadas que ele diz que lhe custaram uma fortuna, o avião dourado, a marca gravada nos arranha-céus, a ostentação de riqueza que lhe valeu a capa da “Vanity Fair” e a adulação dos liberais e dos media antes de se zangarem com ele, é um moderno herói americano. Antes de manipular o Twitter com destreza, Trump manipulava os media e usava-os como garantia pessoal e bancária. Na televisão, que ainda comanda o mundo, Trump foi um vencedor, e gerou milhões de dólares. Quando o momento chegou, na ressaca dos movimentos politicamente corretos e da negação dos efeitos perversos da globalização e do dumping chinês nos trabalhadores brancos do Ocidente, Trump avançou e ganhou. Os democratas continuaram a discutir temas de sociedade e utopias, enquanto Trump lhes roubava a classe operária e rural, mais os pobres. De caminho, Trump levou ainda, na sua acumulação de capital político, os ideólogos da supremacia, os racistas misturados, os iletrados, os frustrados e os reacionários, essa América redneck que impera no sul e no meio do continente e que não quer saber de finuras. Não ganhou o voto popular mas por essa altura já o colégio eleitoral estava garantido pelos republicanos que viram nele a galinha dos ovos de ouro. Ali, as eleições ganham-se com o voto branco, masculino e feminino, não com o voto dos imigrantes, das minorias, dos negros que ou não votam ou não podem votar, das mulheres e dos homossexuais. Ou das elites. Pode ser que a demografia esteja a mudar, mas este voto ainda é o voto principal. E na Europa também, caso estejamos esquecidos. Não se ganham votos em França ou na Holanda, na Suécia ou na Dinamarca, com os africanos e os muçulmanos. Convém perceber como ganha a extrema-direita nos países onde a imigração aumentou brutalmente.

Trump já era um vencedor antes de ocupar a Casa Branca. A junção dos poderes deu-lhe o maior poder que alguém jamais teve. O do Twitter, da televisão, do dinheiro, do voto e do cargo. O cargo de Presidente foi concebido como tendo proteção total. É inverosímil destronar um Presidente eleito, e não existe arbitragem. O ‘Watergate’ deu ao jornalismo a ilusão de um poder fictício e pontual, mas o ‘Watergate’ foi também uma junção única de poderes. O do dinheiro da Katharine Graham, uma grande senhora de Washington e do establishment, o da coragem dos denunciantes e dos jornalistas e editor do “The Washington Post”, o da fraqueza intrínseca de um Nixon paranoico e assustado com o Vietname, o das marchas dos direitos civis, o da ideologia da revolução na política americana. O Vietname deu cabo de Nixon, mais do que o assalto ao ‘Watergate’, mas quando o ‘Watergate’ aconteceu, ele só poderia cair. Hoje, o poder presidencial não cairia assim. O ‘Watergate’ seria, na era das redes e da internet, na época pós-subprime e pós-9/11, impossível. Os mercados ensandeceriam e dariam cabo do mundo que conhecemos.

Pensar que os Estados Unidos estariam preparados para acusar o seu Presidente de conspiração e de traição, de ser um agente dos russos, uma toupeira de Le Carré, é ficção que ninguém ousaria escrever. O sistema americano, de Wall Street a Silicon Valley, do Pentágono ao Capitólio, poderia admitir que estava nas mãos rapaces de Putin sem dar por isso?

Foi para isto que a América ganhou a Guerra Fria? Para ser vencida pelos trolls russos e kompromat? Seria o fim do poder americano, a machadada final no império, e nem Gore Vidal aprovaria tal coisa. Mesmo que existissem provas de collusion, Mueller seria desaconselhado a apresentá-las. O deep state existe e, neste caso, beneficiaria Trump para salvar a América da vergonha e da humilhação. Esta investigação estava condenada, tão condenada como a estupidez de exaltar uma atriz pornográfica e o venal advogado, Michael Avenatti, como arautos da limpeza moral do Presidente. Avenatti foi preso esta semana, claro, com outra acusação pendente. Tão condenada como a de considerar Michael Cohen, outro venal criado, um arrependido que viu a luz da verdade e do bem.

Dito isto, não acredito que Putin tenha recrutado Trump. Seria demasiado inteligente para o fazer. Não precisou. As táticas do KGB dão fruto sem necessidade de enfiar toupeiras na Casa Branca, e já não estamos no século XX. Basta usar a tecnologia e oferecer uma suíte de hotel com serviços incluídos e uma torre Trump na capital. Para relembrar com amizade o passado em Moscovo. Money talks, bullshit walks.


Take two: o bolsotrumpismo ensaia-se uma outra vez

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 26/03/2019)

Francisco Louçã


Diz Bolsonaro para Trump, lado a lado no jardim da Casa Branca, há uma semana: “o que nos une é sermos contra a ideologia de género, o politicamente correto e as fake news.” Desconte o servilismo da tentativa de seduzir o chefe com a repetição do seu mantra, ou de reduzir a política a três mistérios. E perguntemo-nos como é que as direitas portuguesas mostram ter reagido a este episódio.

Terão reagido com um frémito de vergonha, com um envergonhado “logo eu”, ou, eu que ando a invetivar a “ideologia de género”, e agora revela-se que sou instigado por aqueles dois, que são vagamente infrequentáveis, ou pelo menos que tenho que dizer que me provocam alguma repulsa ou que, dos quais, definitivamente, nada me aproxima? Nada disso, note bem como em poucos meses se fizeram anos luz de caminho. Esta velocidade é que revela o novo mundo que se está a formar na radicalização das direitas que, sem vergonha e antes com garbo, se vai transformando em lumpendireita, como sugeria há semanas uma das suas inspiradoras. Assim, a tomar em consideração a cerimónia oficiada por Miguel Morgado na fundação de um pomposo M5.7, que se pretende apropriar da memória da AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Telles, dos quais aliás tudo os separa, foi mesmo com orgulho que se sentiram representados no resumo lapidar de Bolsonaro.

A este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios

De facto, foi assim que Morgado, ao lado de uma deputada do CDS e de um representante de um partido estreante, apresentou o seu guião, não passa um par de meses depois de ter exaltado o país com um tremendo “estou a ponderar muito a sério a possibilidade de ser candidato” contra Rui Rio. Foi a repetição, tintim por tintim, da jura dos jardins da Casa Branca. Estamos agora aqui por causa da “ideologia de género”, lembrou desta vez, sem grandes delongas sobre essa torpe conspiração das mulheres que querem tomar conta do mundo condenando a violência doméstica, portanto humilhando os coitados dos homens. Acrescentou, numa leve evocação dos neoconservadores da geração anterior, que precisa dos democratas-cristãos para trazer a moral para a política (com Bolsonaro vai-se mais diretamente ao “voto de Deus”, mas isto para já serve). E tudo contra o “politicamente correto” e os social-democratas que são socialistas, os malandrins infiltrados ao serviço do Dr. Costa, porque há um “inverno” socialista em que as empresas são desmerecidas e certamente lhe falta o carinho dos subsídios públicos, acusação aliás injusta para Centeno. Embrulha-se tudo isso com uma conclusão, há uma nuvem de corrupção que, como não se sabe onde começa e onde acaba, está em todo o lado, de Belém a S. Bento.

Dir-me-ão que este take two, depois desse episódio exuberante que foi o coming-out do deputado Bruno Vitorino na semana anterior, vem depressa demais, é demasiado Neto de Moura, é esotérico demais, cheira demais a CDS à caça no PSD, e que não faz um Tea Party quem quer mas quem consegue. Será certo. Mas, a este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios.

Em Portugal, como só lhes pode correr mal, ou para já só Ventura poderia tentar traduzir em votos esta demanda, o que não lhe é fácil, resta reduzir todo o movimento glorioso do contra-a-ideologia-de-género-e-contra-o-politicamente-correto a uma disputa dentro do PSD, acolitada pela malta do Observador e para já unicamente subordinada ao grande objetivo patriótico de fazer o Morgado figurar nas listas do partido para deputados. É poucochinho, mas um pequeno passo para a humanidade é um grande passo para quem “pondera muito a sério” anunciar-se como o prometido.