A ternura dos 71

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 16/06/2017)

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Donald Trump celebrou, na passada quarta-feira (14 de Junho), o seu aniversário. Trump fez 71 anos. Também na quarta-feira Trump foi acusado de obstrução à justiça. Se fosse Presidente dos EUA, seria grave.

O procurador especial Robert Mueller, que está a investigar Donald Trump, acusa o Presidente dos EUA de obstruir a justiça, segundo o Washington Post. Cheira a “impeachment”, o que acaba por ser um presente de anos original para o Trump, porque é tramado dar uma prenda a quem já tem tudo.

Trump pode alegar, como Clinton, que não chegou a obstruir a justiça. Se Trump pressionou e apertou com o director do FBI, então, desta vez, em lugar do vestido vermelho manchado da Monica Lewinsky, queremos ver as calças molhadas de chichi do James Comey. Se Trump se limitou a dar-lhe uns berros para ele parar com a investigação, mas não lhe chegou a roupa ao pelo, no fundo, não houve consumação, acabou por ser apenas uma cena oral. Não sei onde isto vai parar, mas ainda pode acabar com o Presidente dos Estados Unidos a pedir asilo político na Embaixada da Rússia.

O Trump, para 71 anos, até está bastante bem. Não tem a energia do nosso Presidente,mas o professor Marcelo também não tem uma primeira-dama. Mas o Trump é muitopostiço, se mergulhasse no mar do Estoril, perdia metade da cor e dois terços do cabelo. Acho que o nosso Presidente ganha. Com aquela idade, tem uma energia tal que estou convencido que o professor Marcelo é o único português que poderia pertencer aos Rolling Stones.

Tenho de dizer uma coisa que me está aqui atravessada. No meio das trapalhadas todas do Trump, aquela cena da filha ter uma marca de roupa é o que mais me faz confusão. Porque eu não consigo imaginar a filha do Trump com roupa. É uma coisa minha. Por mais que tente, não dá.

Voltando ao “impeachment”. Se Trump fosse afastado da presidência dos EUA, eu fazia uma festa com foguetes “made in” Correia do Norte. Confesso que o Trump assusta-me. Tenho um bocado de medo que venha para aí uma terceira guerra mundial que acabe com o mundo e, pior que tudo, que impeça o SCP de vencer o campeonato para o ano. Por outro lado, estive a pensar, e se é para o mundo acabar, é capaz de ser a melhor altura. O mundo acabava com Guterres na ONU, Portugal campeão da Europa de futebol e vencedor do festival Eurovisão da canção. O mundo acabava, mas nós saíamos por cima. Só faltava o Centeno ir para presidente do Eurogrupo e acabaríamos ao nível dos Descobrimentos.

Por acaso, o António Costa é que dava um bom Presidente do Estados Unidos. Se ele conseguir convencer o Mário Nogueira a desistir de uma greve dos professores, também consegue convencer o Kim Jong-Un a desistir dos mísseis.


TOP 5

Festas de anos

1. Presidente da TAP diz que Lacerda Machado conhece a empresa melhor do que ele – mas pagam-lhe, há 17 anos, como se ele percebesse mais que todos.

2. Presidente executivo da Uber tira licença sem vencimento – vai para a Rádio Táxis.

3. Cristiano Ronaldo pode pagar mais de 28 milhões de euros e ter prisão efectiva por fuga ao fisco – com 3 filhos de aluguer nos EUA e o Cristiano Ronaldo ainda não foi acusado de fuga de esperma.

4. Isaltino Morais ter-se-á candidatado à Câmara de Oeiras quando ainda devia ao Estado e com bens penhorados – também devem ser bens que, em tempos, pertenciam a Câmara.

5. O melhor amigo do primeiro-ministro, nas palavras do próprio António Costa, Lacerda Machado, vai ser administrador da TAP – se for de novo à borla, acho fixe.

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Confronto no Bilderberg 2017

(Thierry Meyssan, in RedeVoltaire, 06/06/2017)


Na altura em que o Presidente Trump parece ter, mais ou menos, regulado os seus problemas de autoridade interna o conflito desloca-se para o seio da OTAN: Washington advoga contra o uso manipulador do terrorismo, enquanto Londres não pensa abandonar uma ferramenta tão eficaz aos seus interesses. O Grupo de Bilderberg, inicialmente organizado como uma caixa de ressonância da Aliança, acaba de se tornar no palco de um difícil debate entre partidários e adversários do imperialismo no Médio Oriente (…)


Continuar a ler aqui: Confronto no Bilderberg 2017, Thierry Meyssan

Alterações climáticas: Trump não é um OVNI

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/06/2017)

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Não sei nada sobre clima. Acontece exatamente o mesmo com a esmagadora maioria das pessoas. Por isso, relaciono-me com o tema como com todos os temas que podemos considerar científicos, pelo menos os das chamadas ciências exatas: confio nos especialistas e é a partir dos consensos que vão construindo que eu desenvolvo os meus pontos de vista. Não é uma confiança cega, é uma confiança baseada no facto das regras em que se baseia a comunidade científica garantirem mais formas de controlo do que as polémicas no Facebook ou os debates mediáticos. É isso que me leva a acreditar na generalidade da comunidade científica que tem alguma coisa a dizer sobre as alterações climáticas. Foi isso que levou a generalidade dos países do mundo a chegar a um acordo em Paris. Por isso, não pergunto a políticos que não são cientistas se acreditam nas alterações climáticas e no contributo da ação humana para que elas estejam a acontecer. Pergunto se compreendem.

Muita gente está chocada com a decisão tomada por Donald Trump. E com toda a razão. No ponto em que estamos e sendo os EUA o segundo país mais poluidor do mundo é uma tragédia incomparável a qualquer outra. Porque ela põe o futuro da humanidade em perigo. Mas a decisão de Trump tem um caldo cultural anterior. Não pode ser vista como um gesto de um homem louco. Se fosse, o povo norte-americano estaria revoltado. E não está.

Durante as últimas décadas foram-se sucedendo provas científicas sobre o papel do homem nas alterações climáticas. No entanto, um poderoso grupo de pessoas começou por negar que as alterações climáticas fossem sequer uma realidade. Ainda me lembro das frequentes piadas ignorantes sempre que fazia um pouco mais de frio: então isto não estava a aquecer? Quando os efeitos das alterações climáticas se tornaram visíveis a olho nu e impossíveis de desmentir passou a contestar-se apenas o papel do ser humano neste fenómeno. E nem o impressionante consenso entre os cientistas desarma, até hoje, o discurso que o nega ou que tenta desacreditar a forte probabilidade que as provas apresentam. Contando com um ambiente geral de desconfiança em relação a tudo, que dá a uma fonte legítima e a uma qualquer aldrabice a mesma credibilidade, os interesses económicos afetados pela mudança de modo de vida imposta pelos poderes públicos tudo fizeram para instalar a dúvida. Uma tarefa especialmente fácil quando a recusa do óbvio permite à sociedade deixar tudo como está e não perder qualquer tipo de conforto.

A estes interesses veio juntar-se um discurso ideológico. Que quer o pior para o planeta? Claro que não, até porque os seus promotores também vivem neste planeta e nele terão filhos, netos e bisnetos. O enviesamento ideológico que recusa a evidência científica do papel humano nas alterações climáticas resulta de um vício de raciocínio: aquele que acredita que a busca individual de enriquecimento é o principal ou mesmo único motor do desenvolvimento humano, força imparável que permitiu ao capitalismo fazer prosperar povos e sociedades. A ideia de que os nossos recursos são finitos e que o equilíbrio não acontece naturalmente sem pôr em risco a nossa existência, exigindo regulação política e contenção da ganância, desafia um determinado modo de ver a história, a economia e o papel dos Estados. Ainda mais quando essa limitação, por pôr em causa a nossa sobrevivência, se sobrepõe a qualquer outro valor.

Pode haver quem não se lembre, mas recordo-me bem de muitas vozes, vindas de espaços de poder público e mediático e bem plantadas no “mainstream”, a denunciarem a fraude das alterações climáticas, começando por negar a sua existência e acabando, perante o indesmentível, a negar o papel dos homens. Nos EUA, a ponto de conseguirem influenciar uma grande parte da população, mas também na Europa.

E é por isso que, por mais imbecil e perigoso que Donald Trump seja, ele não pode ser tratado, nesta matéria, como um OVNI. Como em muita outras coisas, as suas posições são consequência de anos de intoxicação política. E mesmo que, por medo do ridículo, muitos escondam as suas armas, elas ainda estão a fumegar.


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