O espectro da juventude assola a Europa

(Raquel Varela, in jornalmaio.org, 07/10/2026)


Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.


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Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.” 

Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados. 

Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade. 

Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.

A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França. 

A reação não foi, talvez, a esperada.

Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais. 

Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta. 

No dia seguinte, chegaram os sindicatos. 

Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.

Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”

Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores. 

Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas! 

Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais  — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas. 

Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.

Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros. 

A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.

A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores. 

Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa. 

A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações. 

Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard. 

É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.

Fonte aqui

Fecha as janelas, tranca o portão, esconde o ouro, Maria…

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 02/08/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

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Acabaram de aparecer na televisão e no TikTok imagens de milhares de pobres a correr em Ceuta — que, convém recordar, continua a ficar no continente africano.

Segundo a doutrina Chegana, é apenas uma questão de horas até atravessarem Espanha, passarem Badajoz, tomarem Elvas e chegarem a Santarém para se apoderarem dos nossos trabalhos sazonais a apanhar hortaliças, dos quartos sem contrato e dos salários abaixo do mínimo.

É uma logística admirável para pessoas que, segundo a mesma narrativa, são tão selvagens que nem GPS devem saber utilizar.

Entretanto, Marrocos continua “neutro”: compra armas a Israel, coopera com os seus serviços de informações, agradece a Trump o reconhecimento do Saara Ocidental e quase só falta inaugurar uma rotunda com o nome da Mossad.

Espanha, pelo contrário, reaproxima-se da Argélia, denuncia o que acontece em Gaza e consegue irritar, ao mesmo tempo, Rabat, Telavive e o trumpismo.

Isso é inadmissível…

Por uma coincidência com pontualidade suíça, dezenas de milhares de pessoas interpretam da mesma maneira uma decisão judicial espanhola, escolhem o mesmo destino, partem na mesma janela temporal e convergem de várias cidades marroquinas em carros, táxis e transportes coletivos.

Tudo espontâneo, evidentemente…

A polícia marroquina, presente no local com veículos, barreiras e meios antimotim, descobriu nesse dia os benefícios do mindfulness… respirou fundo, contemplou e, segundo alguns relatos, até indicou o caminho mais rápido para Ceuta.

Curiosamente, quando Rabat decidiu que o espetáculo já tinha duração suficiente, reapareceram os controlos, os reforços e a capacidade policial.

A fronteira que parecia impossível controlar voltou rapidamente a ser controlável… Já tinham produzido conteúdo suficiente para os tik toks.

Se isto fosse uma operação híbrida, provavelmente seria exatamente assim — com a CIA a jurar que estava apenas a apanhar praia em Rabat, a Mossad a garantir que tinha ido passar o fim de semana a Casablanca e toda a gente muito surpreendida por o caos ter beneficiado precisamente quem tinha interesse em o provocar.

Produzido o filme, entram os figurantes habituais. Porque o circo não se faz só de malabaristas; também precisa de palhaços.

Trump grita “invasão”. A extrema-direita europeia carrega no TikTok.O gabinete do Ventura fica desarrumado. O Ventura berra. Os algoritmos repetem as imagens.

E governos assustados reforçam fronteiras contra pessoas que nem sequer saíram de África. Portugal, naturalmente, também reforça a fronteira com Espanha. Nunca se sabe quando uma pessoa retida em Ceuta, sem passagem livre para a Península, decide atravessar espontaneamente 800 quilómetros e aparecer em Vilar Formoso.

Multidões, corpos na água, militares, confrontos e a palavra INVASÃO escrita em letras suficientemente grandes para dispensar qualquer explicação.

Rabat pressiona Espanha. Israel castiga politicamente quem denuncia Gaza. Trump alimenta os seus populistas.

A extrema-direita recebe imagens novas. Meloni, no país por onde entram mais imigrantes clandestinos do que por Espanha, quer fechar as fronteiras. E os algoritmos fazem o resto.

Entretanto, dezenas de milhares regressam rapidamente a Marrocos. O perigo desaparece quase tão depressa como apareceu, mas o filme já está montado, legendado e distribuído.

No fim, uns são enganados para avançar. Outros são enganados para terem medo de quem avançou. E os verdadeiros beneficiários ficam confortavelmente sentados, a transformar desespero em imagens, imagens em medo e medo em votos.

Fecha bem a porta, Maria…

Quando os valores passam a medir-se em sangue

(Adriano Pires, in Facebook, 15/07/2026)


As palavras de Emmanuel Macron, proferidas em França no Dia da Bastilha, merecem ser refletidas com serenidade, precisamente por terem sido pronunciadas por um Presidente da República, Comandante Supremo das Forças Armadas de uma potência nuclear e um dos protagonistas principais da política europeia, partindo do pressuposto de que estava plenamente consciente do alcance das suas declarações.

Afirmar que a Europa está preparada para defender a liberdade, o Estado de Direito e os seus valores «mesmo que seja necessário derramar sangue» levanta uma questão de natureza ética e política: até que ponto a defesa dos valores democráticos pode assentar numa retórica que normaliza a guerra e o derramamento de sangue como instrumentos privilegiados da ação política?

A História da Europa deveria aconselhar maior prudência. O continente conheceu duas guerras mundiais, dezenas de milhões de mortos e uma devastação sem precedentes. Dificilmente se poderá acreditar que os franceses guardem saudades da humilhação sofrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Aliás, foi precisamente desse trauma que nasceu o projeto europeu, concebido para substituir a lógica da força pela força do direito, da diplomacia e da cooperação entre os povos.

É, por isso, paradoxal que a Europa, criada como um projeto de paz, passe hoje a construir uma parte significativa da sua identidade política em torno do rearmamento, do aumento contínuo das despesas militares e da preparação psicológica das populações para a eventualidade de novos conflitos.

Não se trata de negar o direito dos Estados à legítima defesa, nem de ignorar as ameaças existentes. Trata-se, isso sim, de questionar se uma liderança política deve privilegiar uma linguagem que parece colocar a guerra no centro da estratégia europeia, alimentando o receio entre os cidadãos, em vez de insistir na negociação, na diplomacia e na prevenção dos conflitos.

Ao apresentar a Ucrânia como uma «lição espetacular» para a Europa, Macron parece esquecer que essa «lição» representa igualmente centenas de milhares de mortos e feridos, milhões de refugiados, cidades destruídas e uma geração inteira marcada pela violência. Uma guerra nunca deveria constituir um modelo inspirador, mas antes um fracasso coletivo da política internacional.

Também merece reflexão a insistência no aumento dos orçamentos militares. A segurança de uma nação não depende exclusivamente do número de tanques, mísseis ou aviões de combate. Depende igualmente da sua coesão social, da solidez das suas instituições, da qualidade da educação, da estabilidade económica e da sua capacidade diplomática. Uma Europa verdadeiramente forte não se mede apenas pelo poder das armas, mas também pela autoridade moral das suas decisões.

Existe ainda uma evidente contradição. Enquanto os líderes europeus afirmam defender a paz, o discurso público vai sendo progressivamente dominado por conceitos de confronto, preparação militar e inevitabilidade da guerra. Não será, porventura, alheia a este tipo de discurso a reduzida popularidade de Emmanuel Macron em França e a deterioração da imagem da França em muitas das antigas colónias francesas em África.

A paz e a cooperação deixam de surgir como prioridades políticas para passarem a ser apresentadas como consequência da força armada.

Ora, quando a paz passa a depender apenas da capacidade de fazer a guerra, corre-se o risco de transformar o conflito numa profecia autorrealizável.

As democracias distinguem-se precisamente por atribuírem à vida humana um valor absoluto. Por isso, qualquer referência ao derramamento de sangue deveria ser acompanhada da mesma determinação em evitar que esse sangue venha a ser derramado.

 Quando um líder político recorre com aparente naturalidade a este tipo de linguagem, é legítimo questionar o sentido, a prudência e a responsabilidade política das suas palavras.

A verdadeira grandeza da Europa nunca residirá na sua capacidade para mobilizar exércitos, mas na sua capacidade para evitar guerras.

Defender os valores europeus significa, antes de mais, defender uma civilização que aprendeu, à custa de um sofrimento incomensurável, que nenhuma vitória militar compensa plenamente a derrota da paz.

Tenho dito.

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