E que tal desconstruirmos um bocadinho o mito de que Israel é uma democracia?

( Ana Kandsmar, in Facebook, 13/04/2026, Revisão da Estátua)


Muitos de vocês acreditam nisso, certo? Nos canais de televisão não faltam comentadores a falar da democracia de Israel. Diana Soller, Helena Ferro Gouveia, Marco Serronha, Daniela Melo, e por aí fora. Esta gente, basicamente, entende por democrático um país onde se fazem eleições. Ora, sendo assim, porque é que estas mesmas criaturas afirmam que a Rússia é uma ditadura? Os russos também votam, os partidos da oposição têm assento parlamentar, o direito à manifestação, desde que com aviso prévio, está garantido (não é assim aqui também?). Além disso, na Rússia reside uma diversidade de povos, etnias e religiões que não fica a dever nada a nenhum país ocidental.

Se querem mesmo critérios tão básicos quanto estes para definir o que é ou não uma democracia, aí têm! A Rússia é, então, um país muitíssimo democrático. Agora falemos de Israel.

Onde está a democracia de Israel?

Segundo a última prestação perolada da Diana Soller na CNN, “Israel, enquanto o único país democrático na região, tem todo o direito de se defender dos seus inimigos que prometem há muito a sua extinção”.

Esta mulher mata-me de riso! É uma cómica! Portanto, segundo a sua pesporrente burrice, Israel que é um estado artificial com 80 anos, tem o direito de invadir, ocupar, bombardear e matar vizinhos que já estavam naqueles territórios muito antes do Estado de Israel ser criado!

Ora, todos nós sabemos, ou temos a obrigação de saber, que o Estado de Israel foi criado, precisamente,  para receber os judeus europeus que sobreviveram ao Holocausto. Não apenas os sobreviventes, claro. Mais uns quantos que se encontravam noutras partes do mundo, mas que viram ali uma oportunidade imperdível de voltar ao lar ancestral dos judeus. Laços de sangue? Nem sequer existiam. Estes novos judeus não tinham e não têm qualquer ligação sanguínea aos antigos judeus que habitavam há dois milénios entre as fronteiras de Israel. Fronteiras que não iam muito mais longe que as velhas muralhas de Jerusalém, ou seja, a Judeia.

Ainda assim, estes novos judeus ávidos por criar um espaço onde pudessem viver em segurança, tiveram mais olhos que barriga. Diria mesmo, ao modo de Trump, grandes olhos, olhos gordos! Olhos que olharam para as escrituras da Velha Aliança e lacrimejaram pela grande Israel. A restituição das 12 tribos de outrora e a expansão, do Tigre ao Eufrates, que é como quem diz, da Turquia ao Iraque. Isto é tudo deles. Só porque ali foram plantados em 1940 e troca o passo uns quantos judeus novinhos em folha, que nunca antes tinham estado uma só vez em Israel. E eis que nasce a democracia tão gabada por Diana Soller e outros nabos.

Ora, acontece que nesta democracia exemplar só vota quem tem nacionalidade israelita. Até aqui até parece normal. Só que, depois, há aquele pormenor de que a gente se esquece com facilidade, ou ignora completamente: Israel só dá nacionalidade a judeus europeus. Os novos convertidos e os que por terem mãe judia, são considerados, imediatamente, judeus de origem.

Em suma, aos palestinianos que residem há séculos, milénios, naquele território, de geração em geração, a esses nunca foi dada a nacionalidade israelita. Eles não podem votar e, obviamente, não têm representação parlamentar. O mesmo aconteceu com os povos autóctones do Negev que se viram ocupados, mas não integrados.

Israel mata árabes cristãos, palestinianos cristãos com a mesma satisfação com que mata um palestiniano muçulmano ou qualquer outro árabe, ou qualquer persa. Arrasam com tudo e todos à sua volta e quando levam na pá, porque a paciência para putos mimados tem limites, choram muito e dizem-se perseguidos, coitadinhos!

Quanto aos cristãos ocidentais, sim, sim, diz a Soller que o que faz a maior prova da santa democracia israelita é isto: “Os cristãos ocidentais são muito bem recebidos em Israel“! Por, favor, vocês digam-me que se esbardalharam a rir quando a ouviram dizer isto! Por favor!

Mas a gaja é parva? É anormal? Retardada mental? Claro que os cristãos ocidentais são bem recebidos em Israel! Claro! Claro! São turistas, foda-se! Metem lá muito dinheiro! Carradas! Pazadas! Paletes de dinheiro! Qual é coisa de que um judeu gosta mais do que de dinheiro? Morangos, amendoins, a mãe? Não! Tudo aquilo de que um judeu gosta mesmo, mesmo muito, está numa lista que nunca deixa de ter o dinheiro no primeiro, segundo e terceiro lugar! Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro. Logo a seguir vem “Território”. Obviamente!

Soller… Mata-te pá!

Até ao pessoal, cujo único sinal de inteligência, é juntar três palavras na mesma frase sem dar cinco erros ortográficos, tu envergonhas!

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No rescaldo das eleições na Hungria

(António Gil, in Facebook, 12/04/2026, Revisão Estátua)


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Entendo que muita gente esteja desesperada com a vitória da Van de Leyen e do seu gang nas eleições húngaras. Eu não estou e tentarei explicar porquê.

1- Acabou-se o bode expiatório da Hungria, para se prometer mundos e fundos à Ucrânia que depois ficavam congelados. Órban levava a culpa disso tudo, mas eu sei – acho que todos sabemos ou pelo menos suspeitamos – que as promessas da Europa eram mais bluff que outra coisa.

A Europa há muito que não pode com um gato pelo rabo e agora abriu-se outra frente, ainda mais crítica e quase todos os líderes europeus estão subordinados – e subornados – pelos sionistas. Israel tornou-se a sua prioridade.

Será que eu acho até que Órban dava jeito à máfia de Bruxelas para justificar o desinvestimento no projeto Ucrânia? Sim, acho por essa razão, mas também porque ele conseguia petróleo e gás mais barato que enviava para – entre outros países . a própria Ucrânia. Isso vai acabar.

2- Zelensky correu todo ufano para oferecer aos Estados Árabes do Golfo a assistência ucraniana em drones. Já foi corrido de lá; aquilo correu mal, não só não protegeu nada como os destroços da sua tecnologia falharam os mísseis e destruíram prédios civis. Isso significa que o dinheiro que ele esperava fazer lá ‘ardeu’. Vai-se tornar portanto mais pedinchão a este lado e isso vai irritar muita gente, porque naturalmente estamos diante de uma crise inaudita. E se já era mau antes, imaginem agora.

3- Trump obviamente luta para sobreviver e perde um aliado na Europa (Orban) . Nem isso lhe correu bem. Magyar, o novo Primeiro-ministro húngaro tem razões para estar ressentido com Trump e – vem no mesmo pacote –  estar grato à Úrsula. Numa conjuntura em que a brecha EUA-Europa se acentua, isso não pode ser mau.

Só reconheço um bom motivo para essas preocupações com a vitória da Van Der Leyen: é um pequeno tubo de oxigénio que ela recebe. Mas isso num contexto em que outros se erguem: Pedro Sanchéz, os escandinavos que ousam cada vez mais levantar a voz contra Israel – sim, ela é profundamente sionista – e mesmo a recente reativação do mandato de captura de Bibi, emitida por Haia.

Não me parece, em suma, que o balanço se tenha alterado assim tanto e quanto mais tempo a guerra com o Irão durar mais brechas veremos surgir. Uma vitória de ‘espirro‘, em suma, para os eurocratas.

A guerra que já estava perdida antes de começar

(Luís Rocha, in Facebook, 18/03/2026, Revisão da Estátua)

This is what the “America first” looks like 🙂

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Há guerras que começam com mísseis, outras com discursos patrióticos ou nacionalistas, e depois há aquelas que começam com um homem a olhar para o espelho e a ver um génio estratégico onde, na realidade, está apenas um vendedor de carros usados com acesso a um botão perigosamente nuclear. Esta pertence, sem margem para dúvida, à última categoria.

Durante anos, andaram a provocar o Irão como quem atira amendoins a um tigre enjaulado, convencidos de que a jaula era eterna, inquebrável e, sobretudo, americana. Sanções aqui, assassinatos ali, ameaças embrulhadas em conferências de imprensa com bandeirinhas atrás. Tudo muito civilizado, muito democrático, muito “ordem internacional baseada em regras”, regras essas que curiosamente mudam sempre que Washington muda de humor. Ou de parvo na Casa Branca.

E depois há o outro artista desta opereta. Benjamin Netanyahu, ou, para os amigos, Bibi, o homem que olha para o Médio Oriente e vê um tabuleiro de Risco onde todas as peças lhe pertencem por direito divino, histórico, bíblico e, já agora, também imobiliário. A sua visão é tão simples, que é quase básica. Expandir, esmagar, controlar, e chamar a isso segurança.

Uma espécie de colonização com drones, muito moderna, muito higiénica, muito televisionável.

E como qualquer bom espectáculo de variedades precisa de um ajudante, entra em cena Donald Trump, o equivalente geopolítico de um caniche obediente com acesso a um arsenal industrial militar. Um tipo que confunde diplomacia com chantagem de casino mafioso e estratégia com birra de reunião de condomínio.

E a relação entre ambos verifica-se apaixonante. Bibi aponta, Trump ladra. Bibi pressiona, Trump assina. Bibi acena com a ameaça iraniana, e Trump, de coleira bem ajustada, decide que a melhor forma de mostrar força é fazer exactamente o que lhe pedem. Uma demonstração impressionante de soberania de bordel. Alugada.

E assim se constrói uma guerra idiota.

Mas o mais fascinante, verdadeiramente fascinante, é a surpresa. Aquela expressão quase infantil de espanto quando o Irão responde. Como se fosse impensável que um país com décadas de resistência, com uma estrutura militar assimétrica sofisticada e com uma paciência quase civilizacional decidisse, finalmente, devolver o golpe.

“Mas como?!” perguntam eles.

Como? Talvez porque passaram anos a tratá-lo como um alvo e nunca como um actor de cultura milenar e com uma taxa de literacia de 94%. Mau regime, mas muita cultura e inteligência. Coisa pouca.

Entretanto, o Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa grande parte do sangue energético do planeta, transforma-se num aperto de garganta global. E aí, subitamente, a guerra deixa de ser um vídeo de propaganda e passa a ser um problema sério. Daqueles que fazem tremer bolsas, governos e certezas.

Mas há um detalhe ainda mais triste nesta tragédia. O império que se julgava omnisciente começa a revelar não fraqueza material, mas algo mais perigoso, uma espécie de alucinação patriótica.

Enquanto se entretém a bombardear desertos e a distribuir democracia com mísseis, os Estados Unidos MAGA vivem mergulhados numa narrativa quase mística onde continuam a ser o centro do mundo, o árbitro da história, o adulto na sala, mesmo quando ninguém lhes pediu para organizar a festa.

Uma nação ideológica convencida de que manda no mundo por decreto divino, enquanto o resto do planeta começa, discretamente, a ignorar as ordens.

Não por rebeldia ideológica, mas por simples e clara exaustão.

E aqui está o verdadeiro ponto que vai doer. Esta guerra não está a ser perdida no campo de batalha.

Está a ser perdida na incapacidade de compreender o adversário. Na arrogância de achar que superioridade tecnológica resolve tudo. Na ilusão de que poder militar substitui inteligência estratégica.

Donald Trump, no meio disto tudo, continua obviamente fiel a si próprio. Burro que nem uma maçaneta. A tomar decisões como quem escolhe ingredientes numa pizza, a reagir em vez de pensar, a confundir ruído com força. Um homem que transformou a política externa numa extensão do seu ego e que agora descobre, tarde demais, que o mundo real não assina acordos de guerras parvas.

Já o Bibi segue firme, consistente na sua visão colonizadora que avança, envolta na narrativa da segurança. Obstinado mas desaparecido das conferências de imprensa.

Fazendo prova de vida através de clipes gerados por IA.

Fazendo supor que possa realmente ter sido “escolhido” para estar junto do criador.

No fim, quando o pó assentar, se assentar tão cedo ou se alguma vez assentar, não será a vitória que ficará na memória.

Será a estupidez.

Aquela estupidez persistente, arrogante, quase artística, de acreditar que se pode incendiar uma região inteira e sair de lá com as mãos limpas e a reputação intacta.

E talvez, só talvez, alguém pergunte, com um ligeiro atraso histórico, se o verdadeiro problema seria realmente o Irão.

Ou se seria a convicção delirante de que o mundo inteiro existe para ser gerido por um homem superlativamente patético ao serviço de outro com inclinações genocidas e delírios de superioridade religiosa.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-24316661

https://www.reuters.com/world/middle-east

https://www.theguardian.com/world/iran

https://www.aljazeera.com/middle-east

https://www.cfr.org/backgrounder/what-strait-hormuz

https://www.brookings.edu/topic/middle-east

https://www.csis.org/regions/middle-east