A OTAN como religião

(Alfred de Zayas, in Carta Maior, 25/01/2022)

A controvérsia EUA/OTAN/Ucrânia/Rússia não é inteiramente nova. Já vimos o potencial de sérios problemas em 2014, quando os Estados Unidos e os Estados europeus interferiram nos assuntos internos da Ucrânia e secretamente/abertamente conspiraram para o golpe de estado contra o presidente democraticamente eleito da Ucrânia, Viktor Yanukovych, porque ele não estava jogando o jogo que lhe foi determinado pelo Ocidente. Claro, nossa mídia saudou o putsch como uma “revolução colorida” com todos os sinais exteriores de democracia.

A crise de 2021/22 é uma continuação lógica das políticas expansionistas que a OTAN tem perseguido desde o fim da União Soviética, como vários professores de direito internacional e relações internacionais têm indicado há muito tempo – incluindo Richard Falk, John Mearsheimer, Stephen Kinzer e Francis Boyle. A abordagem da OTAN concretiza a pretensão estadunidense de ter a “missão” de exportar seu modelo socioeconômico para outros países, não obstante as preferências dos estados soberanos e a autodeterminação dos povos.

Embora as narrativas dos EUA e da OTAN tenham se mostrado imprecisas e às vezes deliberadamente mentirosas em várias ocasiões, o fato é que a maioria dos cidadãos do mundo ocidental acredita acriticamente no que lhes é dito. A “imprensa de qualidade”, incluindo o New York Times, Washington Post, The Times, Le Monde, El Pais, NZZ e FAZ são efetivas câmaras de eco do consenso de Washington e apoiam entusiasticamente a ofensiva nas relações públicas e na propaganda geopolítica.

Acho que se pode dizer, sem medo de contradição, que a única guerra que a OTAN já ganhou foi a guerra da informação. Uma mídia corporativa complacente e cúmplice conseguiu persuadir milhões de norte-americanos e europeus de que as narrativas tóxicas dos Ministérios das Relações Exteriores são realmente verdadeiras. Acreditamos no mito da “Primavera Árabe” e da “EuroMaidan”, mas nunca ouvimos falar do direito de autodeterminação dos povos, incluindo os russos de Donetsk e Lugansk, e o que poderia facilmente ser chamado de “Primavera da Crimeia”.

Muitas vezes me pergunto como isso é possível quando sabemos que os EUA mentiram deliberadamente em conflitos anteriores para fazer a agressão ter a aparência de “defesa”. Mentiram para nós em relação ao incidente do “Golfo de Tonkin”, as supostas armas de destruição em massa no Iraque. Há evidências abundantes de que a CIA e o M15 organizaram eventos de “falsa bandeira” no Oriente Médio e em outros lugares. Por que as massas de pessoas educadas não conseguem se distanciar e questionar mais? Atrevo-me a postular a hipótese de que a melhor maneira de entender o fenômeno da OTAN é vê-la como uma religião secular. Assim nos é permitido acreditar em suas narrativas implausíveis, porque podemos aceitá-las com fé.

Claro, a OTAN dificilmente pode ser vista como uma religião de bem-aventuranças e do sermão da montanha (Mateus V, 3-10), exceto por uma bem-aventurança tipicamente ocidental – Beati Possidetis – bem-aventurados aqueles que possuem e ocupam. O que é meu é meu, o que é seu é negociável. O que eu ocupo, eu roubei honestamente e conforme as regras. Quando olhamos para a OTAN como religião, podemos entender melhor certos desenvolvimentos políticos na Europa e no Oriente Médio, Ucrânia, Iugoslávia, Líbia, Síria, Iraque.

O credo da OTAN é um pouco calvinista – um credo para e pelos “eleitos”. E, por definição, nós no Ocidente somos os “eleitos”, que significa “os mocinhos”. Somente nós teremos a salvação. Tudo isso pode ser tomado pela fé. Como toda religião, a religião da OTAN tem seu próprio dogma e léxico. No léxico da OTAN, uma “revolução colorida” é um golpe de estado, democracia coincide com capitalismo, a intervenção humanitária implica “mudança de regime”, “estado de direito” significa NOSSAS regras, o Satã número 1 é Putin e o Satã número 2 é Xi Jinping.

Podemos acreditar na religião da OTAN? Claro. Como o filósofo romano / cartaginês Tertuliano escreveu no século III DC – credo quia absurdum. Acredito porque é um absurdo. Pior do que os absurdos ordinários – exigem mentiras constantes para o povo norte-americano, para o mundo, para a ONU.

Exemplos? A propaganda enganosa de armas de destruição em massa em 2003 não foi apenas uma simples “pia fraus” – ou mentira leve. Foi bem orquestrada e havia muitos jogadores. A parte triste é que um milhão de iraquianos pagou com a vida e seu país foi devastado. Como norte-americano, eu e muitos outros gritamos “não em nosso nome”. Mas quem ouviu? O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, repetidamente classificou a invasão como contrária à Carta da ONU e, quando encurralado por jornalistas para esclarecimentos, afirmou que a invasão era “uma guerra ilegal”.

Pior do que meramente uma guerra ilegal, foi a mais grave violação dos Princípios de Nuremberg desde os Julgamentos de Nuremberg – uma verdadeira rebelião contra o direito internacional. Não apenas os EUA, mas a chamada “coalizão dos dispostos”, 43 Estados ostensivamente comprometidos com a Carta da ONU e com o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, atacaram deliberadamente o estado de direito internacional.

Alguém poderia pensar que, depois de ter sido enganado em questões de vida ou morte, um ceticismo saudável, algum grau de cautela se estabeleceria, que pessoas racionais pensariam “já não ouvimos esse tipo de propaganda antes?” Mas não, se a OTAN é de fato uma religião, a priori tomamos seus pronunciamentos com base na fé. Não questionamos Jens Stoltenberg [Secretário-geral da Otan]. Parece haver um acordo tácito de que mentir em questões de Estado é “honroso” e que questioná-las é “antipatriótico” – novamente o princípio maquiavélico de que o suposto fim bom justifica os meios maus.

A apostasia é um dos problemas de qualquer religião. Isso acontece frequentemente quando os líderes de uma religião mentem descaradamente para os fiéis. Quando as pessoas perdem a fé na liderança atual, elas procuram outra coisa em que acreditar, por exemplo, história, herança, tradição. Atrevo-me a me considerar um patriota dos EUA – e um apóstata da religião da OTAN – porque rejeito a ideia de que estou com “meu país esteja ele certo ou errado”. Quero que meu país esteja certo e faça justiça – e quando o país estiver no caminho errado, quero que ele retorne aos ideais da Constituição, de nossa Declaração de Independência, do discurso de Gettysburg – algo em que ainda posso acreditar.

A OTAN emergiu como a religião perfeita para valentões e belicistas, não muito diferente de outras ideologias expansionistas do passado. No fundo, os romanos eram orgulhosos de suas legiões, os granadeiros franceses morreram alegremente pelas glórias de Napoleão, soldados aos milhares aplaudiram as campanhas de bombardeio sobre o Vietnã, Laos e Camboja.

Pessoalmente, vejo a OTAN na tradição do valentão da aldeia. Mas a maioria dos norte-americanos não pode saltar sobre suas próprias sombras. Emocionalmente, a maioria deles não tem a audácia de rejeitar nossa liderança. Talvez porque a OTAN se autoproclame uma força positiva para a democracia e os direitos humanos. Eu perguntaria às vítimas de drones e de urânio empobrecido no Afeganistão, Iraque, Síria, Iugoslávia o que eles pensam sobre a linhagem da OTAN.

Muitas religiões são solipsistas, exageram sua própria importância, baseadas na premissa de que ela e somente ela possui a verdade – e que o diabo ameaça essa verdade. A OTAN é uma religião solipsista clássica, autossuficiente, egoísta, baseada na premissa de que a OTAN é, por definição, a Força boa. Um solipsista é incapaz de autorreflexão, autocrítica, incapaz de ver os outros como ele mesmo – com pontos fortes e fracos, e possivelmente com algumas verdades também.

A OTAN se baseia no dogma “excepcionalista” praticado pelos Estados Unidos há mais de dois séculos. De acordo com a doutrina do “excepcionalismo”, os EUA e a OTAN estão ambos acima do direito internacional – até acima do direito natural. “Excepcionalismo” é outra expressão para o slogan romano “quod licet Jovi, non licet bovi” – o que Júpiter pode fazer, certamente não é permitido para mortais comuns como nós. Nós somos os “bovi”, os bovinos.

Além disso, nós, no Ocidente, nos acostumamos tanto com nossa “cultura da trapaça” – que reagimos surpresos quando outro país não aceita simplesmente quando o enganamos. Essa cultura da trapaça se tornou tão natural para nós, que nem percebemos quando enganamos outra pessoa. É uma forma de comportamento predador que a civilização ainda não conseguiu erradicar.

Mas, honestamente, a OTAN também não é um reflexo do imperialismo do século XXI, semelhante ao neocolonialismo? A OTAN não apenas provoca e ameaça rivais geopolíticos, mas na verdade saqueia e explora seus próprios Estados membros – não para sua própria segurança – mas para benefício do complexo militar-industrial. Isso deveria ser óbvio para todos – mas não é nada óbvio – que a segurança da Europa está no diálogo e no compromisso, na compreensão das opiniões de todos os seres humanos que vivem no continente. A segurança nunca foi idêntica à corrida armamentista e demonstração de força.

De acordo com a narrativa predominante, os crimes cometidos pela OTAN nos últimos 73 anos não são crimes, mas erros lamentáveis. Como historiador – não apenas como jurista – reconheço que podemos estar perdendo a batalha pela verdade. É bastante provável que em trinta, cinquenta, oitenta anos, a propaganda da OTAN emerja como a verdade histórica aceita – solidamente cimentada e repetida nos livros de história. Isso ocorre em parte porque a maioria dos historiadores, assim como os advogados, são canetas de aluguel.

Esqueça a ilusão de que com o passar do tempo a objetividade histórica aumenta. Pelo contrário, todas as mentiras que as testemunhas oculares podem desmascarar hoje acabam se tornando a narrativa histórica aceita, uma vez que os especialistas estão todos mortos e não podem mais desafiar a narrativa. Esqueça os documentos desclassificados que contradizem a narrativa, porque a experiência mostra que só muito raramente eles podem derrubar uma mentira política bem arraigada. Na verdade, a mentira política não morrerá até que deixe de ser politicamente útil.

Infelizmente, muitos norte-americanos e europeus continuam a comprar a narrativa da OTAN –talvez porque seja fácil e reconfortante pensar que somos os “mocinhos” e que os graves perigos “lá fora” tornam a OTAN necessária para nossa sobrevivência. Como Júlio César escreveu em seu “De bello civile” – quae volumus, ea credimus libenter. Acreditamos no que queremos acreditar – em outras palavras, mundus vult decepi – o mundo realmente quer ser enganado

Vista objetivamente, a expansão da OTAN e a provocação ininterrupta à Rússia foi e é um perigoso erro geopolítico, uma traição à confiança que devemos ao povo russo – pior ainda – uma traição à esperança de paz compartilhada pela grande maioria da humanidade . Em 1989/91 tivemos a oportunidade e a responsabilidade de garantir a paz global. A arrogância e a megalomania mataram essa esperança.

O complexo militar-industrial-financeiro conta com a guerra perpétua para continuar gerando bilhões de dólares em lucros. 1989 poderia ter inaugurado uma era de implementação da Carta da ONU, de respeito ao direito internacional, uma conversão de economias militares em economias de segurança humana e serviços humanos, o corte de orçamentos militares inúteis e o direcionamento dos fundos liberados para erradicar a pobreza, a malária, as pandemias, dedicando mais fundos à pesquisa e desenvolvimento no setor da saúde, melhorando hospitais e infraestrutura, abordando as mudanças climáticas, conservando estradas e pontes…

Quem tem a responsabilidade por esta enorme traição do mundo? O falecido presidente George H. W. Bush e a falecida primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, juntamente com seus sucessores e todos os seus conselheiros neoconservadores e proponentes do “excepcionalismo”, juntamente com os think tanks e especialistas que os aplaudiram.

Como essa traição foi possível? Somente através de desinformação e propaganda. Só com a cumplicidade da mídia corporativa, que aplaudiu a ideia de Fukuyama de “o fim da história” e “o vencedor leva tudo”. Por um tempo, a OTAN se deleitou com a ilusão de ser o Hegemon. Quanto tempo durou essa quimera do mundo unipolar? E quantas atrocidades foram cometidas pela OTAN para impor sua hegemonia no mundo – quantos crimes contra a humanidade foram cometidos em nome da “democracia” e dos “valores europeus”?

A mídia corporativa obedientemente jogou o jogo ao declarar que a Rússia e a China são nossos inimigos jurados. Qualquer discussão razoável com russos e chineses foi e é denunciada como “apaziguamento”. Mas não deveríamos nos olhar no espelho e reconhecer que os únicos que deveriam se “apaziguar” somos nós? Na verdade, precisamos nos acalmar e parar de agredir todo mundo – parar as ofensivas militares e de informação.

Se há um país que pouquíssimo se importa com o estado de direito internacional – também conhecido como “ordem internacional baseada em regras” de Blinken – é, infelizmente, meu país, os Estados Unidos da América.

Entre os tratados que os EUA não ratificaram estão a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, o Estatuto do TPI, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Tratado de Céus Abertos, o Protocolo Facultativo à Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, o Protocolo Facultativo à Convenção de Viena sobre Relações Consulares, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, a Convenção sobre Trabalhadores Migrantes, a Convenção sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais…

No final das contas, entendemos que nem Huntington nem Fukuyama captaram corretamente o século 21 – Orwell sim.

Alfred de Zayas é professor da Escola de Diplomacia de Genebra e atuou como Especialista Independente da ONU na Promoção de uma Ordem Internacional Democrática e Equitativa 2012-2018.


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Não vás à Ucrânia, Zé

(José Gabriel, 25/01/2022)

O governo ucraniano declarou que vai perseguir e desmantelar todos os grupos políticos – e seus membros – ou outros que considere pró-russos. Não sei como se determina que um fulano é pró-russo. Deve ser como os nazis determinavam pela medição de traços fisionómicos quem era judeu, que a Inquisição decidia quem era herege, quem os fascistas portugueses definiam quem era comunista, quem os puritanos identificavam como bruxa.

É que não se trata de ver das práticas e opções políticas dos cidadãos no caso de não serem do agrado do poder, o que já seria muito mau. Trata-se de perseguir implacavelmente quem o poder decide, de um modo totalmente arbitrário, quem entende não lhe agradar. Assim, arranjaram um carimbo: pró-russo.

Lembra-se a gente da minha idade, certamente, que os manuais do salazarismo explicavam que Portugal era uma democracia orgânica e corporativa. Então como se podia prender todo e qualquer democrata, fosse qual fosse a sua concepção de democracia? Dizia-se que era comunista. Como se decidia na Alemanha nazi se que alguém era judeu? Pelo feitio do nariz e pela medição de outros traços fisionómicos. Em ambos os casos e todos os semelhantes a verdadeira razão era…porque sim. Porque o poder assim entendia. O que se passa na Ucrânia é semelhante. És da oposição? Não concordas com o governo? Queres formar um partido? És pró-russo. Vais preso.

Que desde o derrube do único presidente democraticamente eleito, operação levada a cabo a partir de manifestações apoiadas pela NATO e seus capangas, a Ucrânia é uma autocracia corrupta, todos sabem. E também sabemos que o tal presidente derrubado não era flor que se cheirasse, mas foi eleito em eleições creditadas pela comunidade internacional. Aguentassem, que a gente também aguentou dois mandatos do Cavaco.

Depois desses eventos, o governo provisório incluiu nazis assumidos, o Leste da Ucrânia – que odeia, saudavelmente e por boas razões, nazis – levantou-se em armas. A Crimeia fez um referendo e pirou-se rapidamente – a versão de cá é que foi anexada pela Rússia.

E chegamos a isto. Um governo ucraniano cheio de tiques fascistas, corrupto, pago como uma prostituta por dinheiros europeus e norte-americanos e empenhado em fazer uma “limpeza” étnica, ideológica e política no seu povo. É para este lixo de governo que vão mais estes milhões que a União Europeia acaba de aprovar, é com esta gentalha que a NATO alimenta este terrorismo informativo de uma guerra ficcional que, como as guerras reais, dá chorudos lucros – e tem menos custos.

O nosso ministro dos negócios estrangeiros insiste em que os portugueses não devem viajar para a Ucrânia. Desta vez concordo com ele, mas por muito diferentes razões: é que, ó compatriotas, podeis ser confundidos com pró-russos e engaiolados – pelo menos.


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Coisas que tenho como evidentes

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/01/2022)

Miguel Sousa Tavares

1 Os debates tiveram uma grande virtude, que foi a de, por uma vez, termos assistido a uma discussão sobre política, sobre ideias e ideologias diversas e, consequentemente, sobre diferentes opções económicas e sociais. Coisas determinantes ficaram, todavia, de fora, com destaque para o ambiente e a política externa — num momento crucial de crise na fronteira leste da Europa, envolvendo a NATO, à qual pertencemos. Mas, isso perdoado, os eleitores não se podem queixar de não terem sido esclarecidos e de não terem percebido as diferentes opções em cima da mesa. E, finalmente, o tema dos impostos — do excesso de impostos sobre quem trabalha e produz riqueza — ocupou o primeiro plano das discussões e, tirando o PCP, como seria de esperar, nem a esquerda escapou à discussão, ouvindo-se até Catarina Martins a defender uma suave descida dos escalões intermédios do IRS, do imposto sobre os combustíveis e do IVA sobre a electricidade. Num país em que o Estado cobra 43.000 milhões de euros entre impostos directos e indirectos, sugando a riqueza do país e asfixiando o crescimento, e em que o palco é permanentemente ocupado por economistas das Universidades públicas defensores de mais e mais impostos e despesa, creio que este primeiro passo agora dado na discussão se vai tornar irreversível.

Só por isso vale a pena ir às urnas.

2 Voltar a Córdova é regressar à essência do que é o mundo mediterrânico de onde nós vimos, onde crescemos e aprendemos e que nos cabe defender contra modas e presunções. É certo que ali estamos longe do nosso mar, apenas contemplando um Guadalquivir por estes dias também escasso de água, anunciando uma iminente tragédia ibérica que só loucos e irresponsáveis persistem em não querer ver. Mas longe do azul líquido do mar, esquecemo-nos disso nas ruelas e becos do Barrio Judio, na deslumbrante mesquita, depois feita catedral, nos sucessivos tanques de água que escorre entre laranjais nos jardins do Paço Real, ou nos pátios, depois de pátios e após pátios, do Palácio Viana. Porque esta é a nossa herança romana e árabe: pátios, jardins, terraços, sombras e água que corre, como no Alhambra. E aqui viveram em harmonia durante séculos judeus, muçulmanos e cristãos, até que a Reconquista dos Reis Católicos e a Santa Inquisição reduzisse tudo a um só povo, uma só raça, uma só fé.

Em Córdova também, reúne-se tudo o que faz da Andaluzia uma terra única, de gente única, de tradições e personalidade únicas: ciganos e flamenco, presunto e “embutidos” do porco ibérico morto com todos os requintes necessários a esse milagre gustativo, caça e touradas. Ou seja, tudo aquilo que faz a nossa Inês Surreal e o seu virtuoso PAN, agora putativo parceiro preferencial de António Costa, desatar aos gritos de “barbárie!” e “retrocesso civilizacional”. Há, em Córdova, um museu sobre esse retrocesso civilizacional, que, mesmo os não entendidos como eu, não conseguem visitar sem um estremecimento de emoção e de respeito: o Museu da Tauromaquia. Ali se guardam alguns “trajes de luces” e outra memorabilia, além de fotografias de touros e toureiros que se tornaram imortais na praça de Córdova.

Lá estão as histórias e as fotografias dos “califas de Córdova” — Guerrita, “Lagartijo”, El Galo, Juan Belmonte (considerado o fundador do toureio moderno e o mais elegante de sempre, o homem que nunca se mexia diante do touro), ou Joselito El Galo III, morto pelo “Balader”, um touro vesgo, que investiu ao corpo e não ao capote.

Ou aquele que ainda hoje é venerado em toda a Espanha como o maior toureiro de sempre: Manuel Rodriguéz Sanchéz, vulgo Manolete, nascido em Santa Marina, o bairro dos toureiros de Córdoba, de sangue cigano, feio como uma noite de trovoada, mas adorado por toda a Espanha, dentro e fora da arena. Dizia-se que toureava tão próximo do touro que quando este investia sobre a sua muleta a multidão sustinha a respiração e nem um sopro se ouvia na praça inteira. Toureando ao lado de Luis Miguel Dominguin, outra lenda do toureio espanhol, morreu aos 30 anos de idade na Praça de Linares, confundindo o seu sangue na arena com o do touro “Islero”, que acabara de matar — sim, porque os toureiros também morrem. Morreu “a las cinco en punto de la tarde”, como escreveria no seu imortal poema Federico García Lorca. Morreu aquele sobre quem o então cônsul brasileiro em Sevilha, João Cabral de Melo Neto, talvez o maior poeta brasileiro de sempre, escreveu: “Eu vi Manolo González e Pepe Luíz, de Sevilha/ precisão doce de flor, porém precisa…/ Mas eu vi Manuel Rodriguéz, Manolete, o mais deserto/ o toureiro mais agudo, mais mineral e mais desperto”.

Sim, Manolete, Belmonte, João Cabral, Garcia Lorca, Vale-Inclán, que escreveu que nada é mais profundamente espanhol do que as touradas, Órtega y Gasset, Picasso ou Dalí, que as pintaram, todos sabemos e saberemos quem foram porque fazem parte da nossa cultura. Mas a Inês Surreal e a sua luta pela “civilização”, quem se lembrará dela a não ser António Costa em caso de necessidade? Civilização? Sim, a minha, aquela onde estão as minhas raízes e o meu caminho de casa.

3 Às vezes, há pessoas cuja palavra parece vir de tão fundo do coração — ou da alma, se é que isso existe — que tornam luminoso e imediatamente evidente aquilo que a outros custa tantas palavras a explicar. Pensei nisso ao ler no último número da Revista do Expresso a entrevista da escritora moçambicana Paulina Chiziane, Prémio Camões 2021. Esta mulher, que gosta de passar longas horas diante de uma fogueira e que afirma ter com a língua portuguesa “uma relação de amor, com conflitos, como em todas as histórias de amor”, fez mais, em quatro páginas de entrevista, pelo anti-racismo, pelo pan-africanismo, pelos direitos das mulheres e pela ecologia, do que todas as comissões, feministas encartadas ou movimentos organizados que se ocupam disso. E fê-lo de uma forma tão espontânea e simultaneamente tão meditada, tão bonita e tão desarmante, que todos esses temas aparecem integrados, como se cada um decorresse do outro. Ao ouvi-la, ao pensar bem no que ela diz, não me quedam dúvidas, por exemplo, de que “a construção de África é feminina”. E creio que jamais alguém desarmará de forma tão simples o racismo: Que beleza teria o mundo se apenas houvesse uma raça?”

4 Depois de um encontro infrutífero EUA-Rússia a nível de ministros dos Estrangeiros, depois do encontro NATO-Rússia em Bruxelas e Europa-Rússia em Viena, ambos com idênticos nulos resultados, os “especialistas” — os do lado de cá — continuam a afirmar que a Rússia não cedeu um milímetro e mantém 100.000 soldados na fronteira leste da Ucrânia. Na verdade, até já retirou 10.000 num gesto prévio de boa-vontade não correspondido pelo lado de cá, que continua a enviar armamento para a Ucrânia e a manter planos de exercícios militares conjuntos. Mas se a Rússia não cedeu um milímetro, devíamos perguntar que milímetro cedeu a NATO? E a resposta é zero.

Excitada pelo seu secretário-geral, Jens Tillerman, um Doctor Strangelove ansioso por guerra e por alargar cada vez mais a NATO em direcção à Rússia, até a cercar por todos os lados — agora até sonhando com a inclusão da Suécia e da Finlândia —, o discurso do lado de cá é falar de guerra como se de uma banalidade se tratasse. Antes de nos perguntarmos se a Rússia quer uma guerra no Donbass, devíamos perguntarmo-nos para que quer a NATO expandir-se continuamente em direcção à Rússia? Será isto, como juram, uma estratégia defensiva, face a um inimigo cuja capacidade militar e investimento em defesa é umas 15 vezes inferior ao das forças da NATO? Lembrem-se da mal chamada “Guerra dos Balcãs”, que outra coisa não foi do que o bombardeamento cego de Belgrado para escoar o armamento americano que se estava a tornar obsoleto e que a indústria militar precisava de renovar. Estamos a falar de guerra na Europa: é um assunto demasiado sério para que nos continuem a atirar poeira para os olhos, com a cumplicidade de uma imprensa estranhamente acrítica.

Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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