(Por Estátua de Sal, 25/04/2024 – Republicação de texto de 25/04/2015)

A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
(MARX, K., in “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, 1852.)
Passaram 50 anos desde 25 de Abril de 1974. O País mudou, entre lágrimas, risos, promessas e esperanças.
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Éramos menos, muito menos. Éramos pobres, e ainda somos, mas mais pobres. Não havia estradas, quanto menos auto, e os comboios ronceavam por montes e vales. Água, que não dos poços e das fontes, e saneamento para lá da latrina, ainda era um luxo para muitos. Uma côdea de pão e uma sardinha enganava a fome de inúmeros. Partíamos com uma mala de cartão e demandávamos franças e brasis. O campo lavrava-se de suor e o bafo do gado dormia com as almas e aquecia as casas. Os novos saiam da idade das fisgas para a idade da jorna, ou para o óleo das fábricas, os mais hábeis de mãos.
A polícia política tomava conta das heresias. A Igreja abençoava-nos o desencanto e aplacava-nos o caminho para as bem-aventuranças. O ditador não saía do sítio, nem saía à rua para tomar café, só andava de comboio e nunca passou da fronteira espanhola para lá de Hendaia. Consta que tinha medo de se afastar, indo para longe, receando que o País mudasse, no entretanto.
Os mancebos iam para a tropa, aprender a ser homens. E depois da recruta embarcavam no paquete Vera Cruz a caminho das Áfricas, de onde mandavam aerogramas às namoradas e às madrinhas de guerra. Pelo Natal, até tinham direito a aparecer na televisão, prometendo regressar intactos e escorreitos. Muitos iriam regar com sangue o verde da savana mas naquela altura ainda não sabiam. Nunca se deve saber da morte, porque saber da morte é antecipá-la, e as guerras não se fazem com zombies.
E havia os ricos, que eram poucos. E havia os pobres que eram muitos. Os filhos dos ricos iam para o liceu para serem doutores. Os filhos dos pobres que mais se distinguiam iam para as escolas técnicas para serem serralheiros, electricistas ou guarda-livros. Os liceus eram só nas cidades grandes: a Lisboa do Terreiro do Paço onde estavam as excelências, o Porto do vinho e do comércio ensinado pelos ingleses, e as capitais de distrito. As universidades eram uma espécie de Santíssima Trindade, Lisboa, Porto e Coimbra, com esta à cabeça da vetustez e da tradição. Direito era uma espécie de alfobre de ungidos que segregava ministros, autoridades e reverências.
E havia os analfabetos, que eram muitos. E havia a quarta classe que era quase uma licenciatura, e havia o sétimo ano do liceu que era mais que um mestrado. Letras a mais só traziam desgraça e só tornavam as pessoas infelizes. Orgulhosamente sós, disse ele, o ditador, orgulhosamente incultos, pensou ele, o ditador.
Os jornais escreviam por metáforas e havia leitores especializados em palavras cruzadas que usavam a técnica para descodificar as mensagens censuradas. De vez em quando havia eleições, mas o resultado era conhecido à partida. Era como um jogo de bola sem adversários, onze contra zero, ganhava o guarda-redes.
Alguns resistiam em segredo, mas o segredo era perigoso, mesmo o segredo. A denúncia era um desporto nacional e tomava café com os subversivos. Quando davam por ela estavam em Caxias depois de terem ido tomar chá à António Maria Cardoso, a sede da Polícia dos Bons Costumes, mais conhecida por PIDE. Ainda eram julgados e tudo, porque o ditador não gostava que dissessem que ele não tinha apego às leis e ao Direito, já que Coimbra é uma lição mesmo para os ditadores. Mas de nada lhes valiam as togas e os códigos. Eram sempre condenados, qualquer que fosse a acusação, quaisquer que fossem os advogados. Acresce que, advogado amigo de subversivo, subversivo era, pelo que os riscos que corria de passar do banco da defesa para o banco dos réus eram certezas.
E a África lá tão longe. Mas a guerra aqui tão perto. Havia os que vinham, sonâmbulos entre dois tiros de espingarda. Outros mutilados, a medalha da Pátria a luzir, a revolta no peito no lugar do coração. E também os que fugiam. A desertar. A desafiar a noite pelos trilhos antigos dos contrabandistas. É Paris. É a Suécia. É a Europa já no horizonte mítico da juventude que não quer morrer. A fugir da asfixia. Da censura. Do ditador. Do Portugal pequeno. Das quatro paredes caiadas no jardim plantado à beira-mar. Da guerra.
Mas eram muito poucos a fugir, muitos mais que eram a morrer. E maior a recusa. E morriam os pobres. E já morriam os ricos e os cultos. Os que tinham lido. E há livros perigosos que são o software das revoluções. E assim se abriu Abril e se gizou a Revolução dos capitães. E assim se terminou a ditadura.
E já foi há cinquenta anos. As liberdades cívicas conquistadas sobre o som dos cravos na ponta das espingardas. As utopias a sussurrar na pele dos desesperados de décadas de mudez. A esperança misturada em malgas de canções servidas pelas madrugadas. O povo unido jamais será vencido. Uma crença e uma fé no coração das flores, as mãos dadas entre abraços. “Acordai, acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis”.
Depois o novo organizar. A política. Os políticos. Os partidos. As eleições. A Constituinte. A Constituição. Os militares com um País nas mãos e os sonhos de tantos pendurados nas promessas de Abril. As trincheiras entre a utopia ao longe e o presente ao lado da realidade de um País dividido. A revolução a meio do caminho entre Abril e Novembro. Em Abril, águas mil. Em Novembro põe tudo a secar, pode o Sol não tornar. A prudência da sabedoria ancestral, agrícola e campesina. E ganhou a prudência.
Depois a Europa foi-nos entrando pela porta adentro. Eram mais ricos e confiámos na cartilha que nos deram. Mandaram-nos dinheiro. Plantámos betão pelas lezírias fora. Estradas e estradinhas. Casas, hospitais, escolas e alguma decência mínima para quem nunca tinha visto o mar. Não há mal que sempre dure nem fome que não dê em fartura. Uma ilusão. Desaprendemos a pesca, traímos o mar e esquecemos o cheiro das laranjas e da terra húmida. A política. Os partidos. Os dinheiros da Europa. Quem dá e reparte fica com a melhor parte. As clientelas. A democracia refém da governabilidade. Da governação em arco, arco sem flecha.
O Euro. Governo sem moeda, não é governo é capataz. Manda quem paga, obedece quem deve. E nós devemos, devemos muito e mais e mais. A dívida. É como as doenças larvares, silenciosas e sem remissão.
Porque é preciso pagar, dizem eles, os capatazes. Vendem-se os anéis, e dizem que não custa nada porque ficam os dedos. Vendem-se os novos, e dizem que não custa nada porque ficam os velhos. Vendem-se as praias e dizem que não custa nada porque ficam as marés. Mas não chega. Teremos que vender as almas, e dirão que não custa nada, porque ficarão as algemas em torno das memórias dos obstinados, os subversivos do novo milénio.
E de novo os subversivos. Os tais que a ditadura, antes de Abril de 1974, amordaçava, prendia e matava mesmo. Eles também existem hoje, os subversivos, outros rostos, outra batalha, outros combates, a mesma guerra. São os que recusam o País no cimo da falésia a deslizar para o vácuo das profundezas abissais. Recusam que não haja alternativas ao discurso da austeridade, do empobrecimento e do retorno ao passado do miserabilismo, da caridadezinha e da fome envergonhada.
A história repete-se. Durante 48 anos de ditadura também se disse e se bradou que não havia alternativas. Até 25 de Abril de 1974.
Os homens fazem sua própria história, e não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias da sua escolha mas sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado.
O passado não se reescreve, lega-se. E a fazer fé no legado de Abril, há sempre alternativas. Assim estejamos dispostos a lutar por elas.
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25 de Abril? Qual deles?
Muitos legados houve.
https://paginaum.pt/2024/04/25/25-de-abril-roubos-mil/
Excelente texto, cuja mensagem principal — «O passado não se reescreve, lega-se. E a fazer fé no legado de Abril, há sempre alternativas. Assim estejamos dispostos a lutar por elas» — compartilho.
O 25 de avril com a globalização capitalista em que vivemos, com a corrupção generalizada que a acompanha, tornou-se pior do que o comunismo soviético.
Quanto mais se retira a responsabilidade, menos liberdade se deixa e mais se entra na submissão voluntária.
Eles sabem o que estão a fazer, não são loucos.
Querer controlar tudo, taxar tudo, bloquear a máquina, o desejo, a emancipação e a remuneração justa… Em suma, priva-nos da liberdade de sermos livres.
Mas, entretanto, nós, que somos os felizes beneficiários da União Europeia, estamos simplesmente atolados em restrições cada vez mais estúpidas e suicidas.
Saiamos o mais rapidamente possível desta Europa assassina de nações.
Há países da Europa de Leste que estão a crescer,
e a Irlanda também, por outras razões!
A corrida desenfreada para construir a Europa tem apenas um objetivo! Abrir novos mercados ao grande capital, transferir dinheiro público e riqueza para esses países e colher os benefícios para alguns!
Porque, atualmente, a vida está a tornar-se muito cara e os salários ridículos.
Gosto do que Ronald Reagan disse sobre este assunto, referindo-se à incompetência dos líderes em matéria económica: “Se as coisas se movem, tributamo-las; se continuam a mover-se, fazemos leis; quando param de se mover, subsidiamo-las.
(Penso que K. Marx disse algo semelhante).
É caso para perguntar se a história serve para alguma coisa!
O debate deve ser novo:
– Já não se trata do 25 de avril mas sim de “Liberalismo versus Socialismo” (Ocidente versus Oriente)
– Capitalismo financeiro ocidental contra uma economia liberal gerida.
Os modelos económicos (não políticos!!) da Rússia e da China estão a mostrar a sua eficácia. O Ocidente só tem de resistir às sanções, aos boicotes, à censura, aos truques sujos, à ultra-dívida e à guerra em resposta….
Infelizmente, o sistema educativo actual (e já há muito tempo) não produz mais do que balbúrdia desconstruída, fragmentos de ignorância, etc., com os resultados abomináveis que vemos todos os anos e que, infelizmente, não podem ser melhorados.
É cansativo ver que todos os aspectos da vida (a justiça que resistia também cede) são afectados por gente que se considera “sabedora” e guia um “povo” que considera ser um mero rebanho. Quando a liberdade de imprensa recua, é um símbolo tardio de que outros domínios da vida pública recuaram.
O neoliberalismo é a liberdade de explorar e oprimir,
direitos iguais na competição entre a lebre e a tartaruga e
fraternidade entre os “merecedores”.
Esta ilusão nascida com o desenvolvimento da burguesia, faz supor a liberdade de ação e de pensamento. É perpetuada contra a antropologia e as ciências sociais no seu conjunto desde o início do século XX. Esta ilusão é necessária para perpetuar o sistema, ou seja, para ocultar as relações de produção capitalistas: É através dos seus patrões que os trabalhadores aprendem que são donos da sua própria vida e, em particular, da possibilidade de votar para decidir o mundo em que pretendem viver. Esta ilusão subjectiva é um dos pilares da alienação: o trabalhador “esquece” que está desapossado do seu trabalho e do produto do seu trabalho, que a força social que representa é propriedade do capital, ao qual se vende. O trabalhador vende o seu capital (a sua força de trabalho) a capitalistas suficientemente desprezíveis para o obrigarem a destruir a sua própria vida, a sua liberdade e a possibilidade de pensar fora do paradigma. O sistema de acumulação e de concentração capitalista mundial é feroz e não se detém perante nada para conservar o poder.
Estará a opinião pública consciente do avanço progressivo de uma sociedade disciplinar, do controlo digital total, do fim das liberdades, da intimidade, da soberania sobre o próprio corpo, com a OMS a poder decretar qualquer injeção, por exemplo, graças ao tratado global sobre a pandemia que foi assinado? Porque é que a imprensa já não desempenha o seu papel de informação e de debate? Porque é que a esquerda e o centro estão ausentes destas questões de liberdades fundamentais? É tão terrível como assustador!
Claramente, sem exagero, que não temos uma democracia. Mas não suporto ouvir dizer que as “democracias estão a em perigo”.
Claro que não vivemos em democracias, com a exceção parcial da Islândia. A palavra “democracia” tem a mesma função religiosa (ou seja, com um poder “mágico”) que a palavra “inferno” na Idade Média, onde o poder legitimador do peso pseudo-moral era a vertical teológico-política da vida cá em baixo em função da vida “lá em cima”, com o clero a servir de correia de transmissão.
Os poderes instituídos utilizam-na como um instrumento para hipnotizar as pessoas de bem.
Assim, a utilização do discurso oficial contra as três pessoas descascadas e duas tosquiadas, rotuladas de “esstreme-dirreita”, serve para traçar uma linha na areia, para desviar a atenção das pessoas de bem. Até que aqueles que foram demonizados num determinado momento sejam recuperados gradualmente e se encontrem novos adversários úteis para manter o mecanismo em funcionamento.
Se a democracia é ou não factual, isso pode ser visto a partir de factos simples: as guerras travadas pelas democracias contra as “ditaduras” (apesar de a guerra matar pessoas).
Que raio é a “democracia”? Será que ela existe?
Infelizmente, nunca é demais dizê-lo: “Assim que usamos a palavra ‘democracia’ para descrever a nossa forma de governo, seja ela americana, alemã ou francesa, estamos a mentir. A democracia só pode ser uma ideia reguladora, uma bela ideia que rapidamente baptizamos com uma grande variedade de práticas. Estamos longe disso, mas temos de o saber e de o dizer” (A.E)
“Somos vítimas de uma má utilização das palavras. O nosso sistema (as ‘democracias’ ocidentais) não pode ser chamado ‘democrático’ e descrevê-lo desta forma é grave, porque impede a realização da verdadeira democracia, roubando-lhe o seu nome”. (S-C.K)
“A democracia é o nome roubado de uma ideia que é violada todos os dias” (J-P.M).
Etc ….
E isto é tanto mais verdade quanto esta pseudo-democracia é duplamente enfraquecida pela godilotcracia e pela maioritairocracia, como se um erro se tornasse benéfico quando é aprovado por mais de 45% de nem sequer a totalidade dos recenseados mais ou menos alfabetizados económica, política e culturalmente.
Penso que, se os diktats se multiplicam na UE, Portugal tornou-se verdadeiramente uma ditadura graças ao atual regime, que não fez mais do que acentuar o que os anos anteriores nos impuseram, porque, pouco a pouco, estão a impor regras que restringem as nossas liberdades.
O caminho para a liberdade e a democracia passa tanto pelo sentido crítico dos nossos governos como pelo reconhecimento da pequena democracia que temos, para a evoluir e sobretudo proteger o pouco que temos.
Nunca estivemos numa democracia!
A democracia representativa é um oxímoro.
Representação (regimes parlamentares) são as organizações aristocráticas (merecedoras de realização executiva que se tornam as melhores estruturas de tomada de decisão em vez de Cidadãos, para acabar com os dominantes sociais da arrogância das decisões comunitárias ou da exploração individualista dos outros …)
Agora estamos a cair numa deriva liberal de representação, da burguesia do capitalismo financeiro (banco de investimento dos proprietários do dinheiro da dívida, meios de tesouraria e seguros com os meios de produção), e isso é o equivalente à monarquia monarquista dos dominantes militares e capitalistas ricos que possuem terras e imóveis para alugar (banco de investimento de terras e imóveis para alugar) .
O regime actual é a cleptocracia, uma peculiaridade dos regimes plutocráticos (os próprios regimes são casos de aristocracia).
No entanto, a resposta é muito simples: o que é uma democracia? Não basta dizer que estamos numa democracia para lá estarmos! O pensamento mágico é tolo para acreditar nele, é apenas para ser manipulado… E se, finalmente, voltássemos a fazer um pouco de etimologia, filosofia, história e Sociologia? O que é uma democracia? Alguma vez uma república foi uma democracia? Nem Roma, nem Veneza, nem Lucca, nem Batávia… Como seria a nossa democracia? As eleições? Uma piada! É típico de uma oligarquia, os nossos 3 grandes políticos, muitos dos quais se orgulham dela, dizem-no claramente, mas 2 estão ligados à nobreza e à burguesia de perto ou de longe e desejam manter o poder. Apenas um se aproxima da democracia. Depois, há Tocqueville, Lippman e Bernays que quase completam a piada (Huxley e Orwell são um pináculo Literário). Marques Mendes (vejam onde ele fala, e outros) que diz que a democracia é irreversível, mas acima de tudo que a classe dominante deve aproveitá-la e controlá-la. Lippman, que, depois de Seiy, enfatiza o absurdo das pessoas pequenas que é apropriado manipular. Bernays que coloca tudo em ação…. sim, de facto, quer na América quer Portugal, nenhum dos pais da república se autodenominava Democrata no início.
Lindo texto a arrancar de ca de dentro o que eu gostaria de ser capaz de dizer.
Mas na geração actual não vejo terra onde o legado germine.