(Por Vanessa Martina-Silva, in Diálogos do Sul, 10/06/2026)

Anúncios feitos em São Petersburgo reforçam a aproximação entre Havana e Moscou e apontam para uma ampliação da cooperação em setores estratégicos da economia cubana.
A Rússia anunciou uma nova etapa de sua cooperação econômica com Cuba. Durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), realizado entre 3 e 6 de junho, o vice-primeiro-ministro russo Dmitri Chernyshenko afirmou que empresas russas estão prontas para investir em projetos de longo prazo na ilha, ampliando sua presença em setores considerados estratégicos para a economia cubana.
A declaração foi feita durante o painel “Rússia-Cuba: cooperação em condições turbulentas. Investimentos, turismo e tecnologias”, título que, por si só, revela o contexto em que a aproximação ocorre: de um lado, Cuba enfrenta uma das fases mais difíceis de sua crise econômica; de outro, Moscou busca aprofundar relações com parceiros do Sul Global em meio ao prolongado confronto geopolítico com o Ocidente.
Diferentemente de anúncios genéricos frequentemente feitos em encontros diplomáticos, as declarações apresentadas em São Petersburgo vieram acompanhadas de setores prioritários, projetos em andamento e interesses empresariais já identificados. Energia, alimentos, transporte, mineração, turismo, saúde, biofarmacêutica, infraestrutura e tecnologia aparecem no centro da estratégia russo-cubana.
A questão central não é se houve um anúncio. Houve. A pergunta relevante é outra: até que ponto essa nova ofensiva econômica russa pode ajudar Cuba a enfrentar o bloqueio econômico dos Estados Unidos e aliviar gargalos históricos da economia da ilha?
O que a Rússia anunciou concretamente
A afirmação mais importante partiu do próprio Chernyshenko. Segundo a agência estatal russa RIA Novosti, o vice-primeiro-ministro declarou que empresas russas continuam ampliando sua presença em Cuba e estão dispostas a investir recursos em projetos de longo prazo, apesar do que chamou de “pressão externa”. A informação foi reproduzida por veículos econômicos russos e posteriormente repercutida pela imprensa cubana.
O anúncio não veio acompanhado de um valor agregado de investimentos nem de uma lista completa de contratos assinados. Ainda assim, as declarações foram além da retórica diplomática.
As autoridades russas identificaram áreas específicas para expansão dos negócios:
- energia e combustíveis;
- agroindústria;
- mineração;
- infraestrutura;
- turismo;
- transporte;
- saúde;
- indústria biofarmacêutica;
- tecnologia da informação;
- cibersegurança;
- telemedicina;
- automação empresarial.
O governo cubano, por sua vez, respondeu oferecendo oportunidades de investimento e incentivos para empresas russas interessadas em atuar nesses setores.
Alimentos: 90 empresas russas querem entrar no mercado cubano
O setor mais avançado das negociações parece ser justamente o mais sensível para Havana: o abastecimento alimentar. Segundo informações divulgadas por veículos russos especializados e reproduzidas pela imprensa cubana, cerca de 90 empresas russas manifestaram interesse em exportar alimentos para Cuba. A lista inclui:
- carnes;
- produtos lácteos;
- pescado;
- trigo;
- derivados agrícolas.
Também existem discussões envolvendo processamento de trigo, produção de farinha e fabricação de rações para animais. O tema não é secundário. Cuba importa uma parcela significativa dos alimentos consumidos pela população e sofre há anos com dificuldades para obter as divisas necessárias ao financiamento de compras internacionais. O bloqueio econômico dos Estados Unidos agrava o problema ao restringir operações bancárias, elevar custos de transporte e dificultar transações financeiras.
Nesse contexto, garantir fornecedores estáveis tornou-se uma questão de segurança nacional. Mais importante ainda é que a proposta russa não se limita à venda de mercadorias. Parte das discussões envolve a instalação de capacidades produtivas e de processamento local, algo que poderia reduzir a dependência cubana das importações no médio prazo.
Energia: o setor capaz de produzir impacto imediato
Se a questão alimentar é estratégica, a energética talvez seja a mais urgente. Nos últimos anos, Cuba enfrentou sucessivas crises elétricas, com apagões prolongados afetando residências, hospitais, escolas e indústrias. Por isso, a energia aparece como prioridade absoluta nas conversas entre Havana e Moscou.
Oscar Pérez-Oliva Fraga, vice-primeiro-ministro cubano e ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro, afirmou durante o encontro que Cuba está aberta a investimentos russos em geração elétrica, distribuição de energia, eficiência energética e fontes renováveis. O dirigente cubano também mencionou oportunidades relacionadas a refinarias e à comercialização de combustíveis.
A cooperação energética não começou agora. Em abril deste ano, durante reunião da Comissão Intergovernamental Rússia-Cuba, os dois países já haviam discutido iniciativas voltadas à recuperação da produção petrolífera em Boca de Jaruco, um dos principais campos de petróleo do país. Na mesma ocasião, autoridades cubanas destacaram a chegada de embarcações russas transportando petróleo para a ilha, em um momento de forte escassez energética. Caso os projetos anunciados avancem, esse poderá ser o setor com maior capacidade de produzir resultados concretos no curto prazo. Menos apagões significam maior produtividade industrial, funcionamento mais estável dos serviços públicos e redução de um dos principais focos de insatisfação social da população cubana.
Transporte: Moskvich, KamAZ e o retorno da indústria automotiva russa
Outro anúncio concreto envolve o setor de transportes. Fontes russas informaram que Moscou transferirá 50 automóveis Moskvich para a frota de táxis de Havana. Além disso, autoridades russas citaram o fornecimento de veículos das marcas GAZ, UAZ, KamAZ e Lada. Embora 50 veículos estejam longe de resolver os problemas estruturais da mobilidade cubana, o significado político e econômico da medida vai além dos números. A presença crescente de fabricantes russos indica a reabertura de canais comerciais que haviam sido reduzidos após o colapso da União Soviética. Mais relevante ainda é a possibilidade de retomada da montagem local de veículos e equipamentos, tema já discutido anteriormente pelas autoridades dos dois países.
Tecnologia, cibersegurança e soberania digital
Um dos aspectos menos comentados dos anúncios feitos em São Petersburgo envolve tecnologia. Empresas russas demonstraram interesse em fornecer soluções para:
- tecnologia da informação;
- cibersegurança;
- telemedicina;
- automação empresarial;
- digitalização de processos.
Embora esses temas recebam menos atenção do que energia ou alimentos, eles têm importância crescente para países submetidos a sanções econômicas. Nos últimos anos, Washington transformou instrumentos financeiros, sistemas de pagamento e plataformas tecnológicas em mecanismos de pressão geopolítica. Para países como Cuba, reduzir a dependência dessas estruturas passou a ser uma questão de soberania. Nesse sentido, a cooperação tecnológica com a Rússia busca criar alternativas ao ecossistema dominado por empresas ocidentais.
Mariel e a disputa pelas rotas comerciais
Outro elemento relevante da aproximação envolve logística e comércio internacional.

Autoridades ligadas à União Econômica Eurasiática confirmaram discussões sobre o uso da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel como plataforma para integração entre países do bloco eurasiático, a América Latina e o Caribe. Mariel ocupa posição estratégica na costa norte de Cuba e há anos é visto pelo governo cubano como peça-chave para atrair investimentos externos.
A ideia é transformar o porto em um centro logístico capaz de conectar novos fluxos comerciais fora da órbita tradicional dos Estados Unidos. Embora o projeto ainda enfrente obstáculos financeiros e operacionais, sua inclusão nas negociações revela que Moscou não está pensando apenas em exportar produtos para Cuba. O objetivo parece envolver a construção de corredores econômicos mais amplos.
Por que isso acontece agora
Os anúncios russos não ocorreram em um vácuo político. No início de junho, o governo dos Estados Unidos ampliou sanções contra entidades ligadas ao Estado cubano, incluindo organizações associadas aos setores militar e de segurança. Paralelamente, instituições financeiras internacionais passaram a reduzir operações na ilha. Empresas estrangeiras dos setores de hotelaria, transporte e serviços financeiros também vêm diminuindo sua exposição ao mercado cubano por receio de punições estadunidenses.
É nesse espaço que a Rússia busca avançar. Durante o próprio fórum em São Petersburgo, representantes cubanos argumentaram que a retirada de empresas ocidentais cria oportunidades para investidores russos ocuparem setores anteriormente dominados por concorrentes europeus e estadunidenses. Em outras palavras, aquilo que Washington apresenta como isolamento de Cuba está sendo interpretado por Moscou como abertura de mercado.
Entre o anúncio e a realidade
A narrativa mais entusiasmada sobre o encontro fala em um “giro definitivo” para a economia cubana. Os documentos e declarações disponíveis, contudo, não permitem chegar tão longe. O que está comprovado é a existência de um esforço coordenado para ampliar a presença econômica russa em Cuba. Estão confirmados os interesses empresariais, as negociações setoriais e alguns projetos concretos em áreas como energia, transporte e alimentos.
A geopolítica energética da Rússia e seus impactos na América Latina
O que ainda não existe é um pacote fechado de investimentos com valores globais definidos, cronogramas públicos detalhados e contratos amplamente divulgados. A diferença é importante. A história econômica latino-americana está repleta de anúncios grandiosos que nunca saíram do papel. Também está cheia de projetos inicialmente modestos que acabaram produzindo transformações profundas.
No caso cubano, o impacto dependerá menos das declarações feitas em São Petersburgo e mais da capacidade de converter intenções políticas em infraestrutura, produção, abastecimento e geração de energia. Ainda assim, o significado geopolítico do movimento já é evidente.
Em um momento em que Washington amplia sua pressão econômica sobre Havana, Moscou anuncia justamente o contrário: mais investimentos, mais comércio e maior presença estratégica na ilha.
O que está em disputa não é apenas a recuperação de setores da economia cubana. O avanço russo na ilha faz parte de uma disputa geopolítica mais ampla sobre quem ocupará os espaços abertos pelo enfraquecimento da ordem internacional unipolar. Nesse tabuleiro, Cuba volta a assumir um papel estratégico muito além de seu tamanho econômico.
* Com informações de RIA Novosti, Fishnews, Comissão Econômica Eurasiática, Granma, Juventud Rebelde, Reuters e OFAC/Tesouro dos Estados Unidos.
(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui
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