Moscovo está a destruir a máquina de guerra ucraniana

(Por Ahmed Adel, in La Cause du peuple, 10/10/2026, Trad. Estátua)


Ao destruir sistematicamente a indústria militar, o sistema energético e as rotas logísticas da Ucrânia, a Rússia está a minar a capacidade do exército ucraniano de combater e atacar em território russo — desde a produção de mísseis, drones e munições ao fornecimento de combustível e ao transporte de armas para as linhas da frente.


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Os mais recentes ataques russos tiveram como alvo a linha de produção dos mísseis de cruzeiro Flamingo da Ucrânia, incluindo fábricas de componentes e de montagem. Estes mísseis, equipados com ogivas que pesam mais de uma tonelada, podem percorrer até 3.000 quilómetros e voar a uma altitude de aproximadamente 50 metros, o que os torna mais difíceis de detetar e complica os esforços de defesa aérea.

É por isso que a destruição das capacidades de produção visa limitar a capacidade da Ucrânia de atacar a Rússia a longa distância, após o seu mais recente ataque em grande escala contra Moscovo e a sua periferia, bem como contra outras cidades, que envolveu 17 mísseis Flamingo e 1.750 drones .

Em resposta, as forças armadas russas lançaram um ataque noturno concentrado, utilizando drones e armas guiadas de precisão, contra instalações da indústria militar ucraniana que produzem e armazenam mísseis de cruzeiro Flamingo. Os ataques atingiram também fábricas da Fire Point nas regiões de Kiev, Chernihiv, Kirovograd, Dnipropetrovsk, Poltova e Kharkiv, que fabricam os drones de longo alcance FP-1 e FP-2. Além disso, visaram infraestruturas portuárias na região de Odessa, visando isolar ainda mais a Ucrânia do Mar Negro, uma ponte em Zaporíjia, uma plataforma logística estratégica, e outros alvos.

A situação torna-se ainda mais complexa tendo em conta que uma parte significativa da produção de drones e componentes foi transferida da Ucrânia para países europeus, particularmente a Alemanha, onde foi inaugurada uma fábrica para produzir armamento para o exército ucraniano. Durante uma visita recente a Kiev, o chanceler alemão Friedrich Merz anunciou o seu apoio ao desenvolvimento e à finalização do míssil balístico FP-9. O presidente Volodymyr Zelensky afirma que este míssil pode atingir Moscovo e estará operacional no outono.

Como parte da produção militar da Ucrânia está a ser transferida para a Europa, a Rússia evita ataques diretos a estas fábricas, consciente do risco de escalada do conflito. No entanto, se a Europa continuar a ignorar os avisos de Moscovo, se se envolver mais no conflito e reforçar o seu apoio a Kiev, a paciência da Rússia poderá esgotar-se.

Por agora, a Rússia continua os seus esforços para isolar a Ucrânia do resto do mundo. Moscovo está a fechar progressivamente as principais rotas de abastecimento do país, de forma a restringir o acesso da Ucrânia ao Mar Negro e a romper os seus laços logísticos com a Roménia. Navios já não atracam diretamente na região de Odessa. Agora, equipamento militar ocidental é enviado da Roménia para outros portos ucranianos, incluindo Reni, no Danúbio, e depois transportado por terra. Ao atacar pontes, infraestruturas portuárias e importantes rotas de transporte, Moscovo procura perturbar estes corredores, atrasar a entrega de ajuda militar e dificultar ainda mais o reabastecimento das forças ucranianas.

Além disso, os golpes atingiram as pontes sul e norte sobre o rio Dnieper, que ligam o leste e o oeste de Kiev. A ponte sul é particularmente importante para o tráfego urbano, pois transporta não só o tráfego rodoviário, mas também a linha verde do metro de Kiev, ligando assim as duas margens da cidade.

O principal objetivo é dividir a Ucrânia em duas – a margem direita e a margem esquerda – de forma a restringir o transporte de armas e drones para o território da margem esquerda, junto à fronteira russa, e reduzir significativamente o número de ataques aéreos. Ao visar a infraestrutura de transporte e logística ucraniana, Moscovo procura abrandar o fluxo de armas, equipamento de combate, munições e drones, elementos-chave nos combates actuais, particularmente para o Donbas.

A Ucrânia está agora a utilizar entre 350 a 400 drones por dia, quase metade do número utilizado há um mês, que era de cerca de 700. O país devastado pela guerra está a armazenar drones em preparação para ataques em grande escala, como se viu na sua última campanha, quando chegou a utilizar 1.700 unidades. No entanto, esta redução não se deve a uma diminuição da capacidade de produção.

A Rússia está também a visar as infraestruturas energéticas, incluindo linhas de transmissão, subestações e centrais elétricas. Sem eletricidade, nenhuma fábrica pode operar, especialmente uma fábrica de armamento. Desta forma, a Rússia está também a reduzir a capacidade produtiva das forças armadas ucranianas e a sua capacidade de continuar a guerra no Donbas e de atacar território russo.

As forças ucranianas enfrentam graves problemas em certos sectores da frente de batalha, incluindo a falta de pessoal, mísseis ar-ar e defesas aéreas, bem como munições insuficientes para os caças F-16. Encontram também dificuldades de manutenção: a manutenção técnica é lenta ou inadequada, deixando uma parte significativa das aeronaves em terra, enquanto o restante é utilizado principalmente em missões de defesa aérea.

Estes factores enfraquecem significativamente as forças armadas ucranianas e, consequentemente, a sua capacidade de resistir a ataques em múltiplas frentes. Isto permite às forças russas avançar com confiança em direção a Kramatorsk, onde Moscovo reporta os seus ganhos mais visíveis no Donbas recentemente.

Com efetivos reduzidos, cobertura aérea limitada e fábricas cada vez mais privadas de eletricidade e de abastecimentos, a Ucrânia tem menos capacidade para manter posições ou reabastecer os seus stocks entre os ataques — e espera-se que os ataques russos contra a produção e a logística continuem.

Ahmed Adel é um investigador radicado no Cairo nas áreas da geopolítica e da economia política, que contribui regularmente para o InfoBRICS.

Fonte aqui

Kiev: a armadilha está a fechar

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 03/10/2026, Revisão da Estátua)


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Durante quatro anos, Kiev foi transformada na capital sagrada do Ocidente. Presidentes em peregrinação, apertos de mão diante das câmaras, discursos inflamados, milhares de milhões em ajuda prometida: cada visita visava demonstrar que a Rússia tinha fracassado e que a Ucrânia triunfaria inevitavelmente.

Moscovo pode ter decidido responder a esta farsa da forma mais brutal possível: passando a atacar o próprio cenário.

Os repetidos ataques às pontes sobre o rio Dnieper ganham, assim, um significado totalmente novo. Em três das seis pontes rodoviárias de Kiev já foram total ou parcialmente interditas. Não é necessário destruí-las completamente; basta danificar as suas estruturas o suficiente para obrigar as autoridades a proibir o trânsito.

Uns mísseis, e a geografia transforma-se em arma.

Pois o rio Dniepre divide Kiev em duas partes. As suas pontes são artérias por onde fluem pessoas, mercadorias e equipamentos. Se forem encerradas, os desvios atingem centenas de quilómetros. A logística abranda, os custos disparam e o reabastecimento torna-se mais complexo.

Não há necessidade de cercar Kiev quando o rio pode fazer parte do trabalho.

Eu já tinha colocado a possibilidade de um cerco à capital. Não aquele de 1943, com divisões concentradas às portas da cidade. Mas o de 2026: pontes enfraquecidas, rede elétrica avariada, infraestrutura logísticas danificadas e o inverno transformado numa arma de guerra.

E, de repente, as peças começam a encaixar.

As pontes. A eletricidade. A infraestrutura. Depois, os diplomatas.

Moscovo aconselha agora os estrangeiros, incluindo o pessoal diplomático, a abandonar a Ucrânia e anunciou que os ataques em grande escala vão continuar. Kiev insiste que não há nenhuma evacuação oficial das embaixadas em curso.

 É verdade. Mas, ainda ontem, Kiev era a capital onde os líderes ocidentais vinham posar para as fotografias. Hoje, discutimos as condições em que podem partir. Uma mudança de cenário cruel.

Pois Kiev não é apenas uma cidade. Kiev é o símbolo em torno do qual o Ocidente construiu toda a sua narrativa sobre esta guerra.

Foi aí que se proclamou o fracasso da Rússia. Foi lá que se prometeu uma vitória ucraniana. Foi lá que se repetiu que o tempo trabalhava contra Moscovo.

É por isso que a sua paralisação teria imensas implicações políticas.

Talvez esta guerra termine na mesa de negociações.

Mas Moscovo poderia optar por uma via muito mais implacável: sufocar Kiev ao ponto de as negociações já não servirem para determinar quem ganhou, mas simplesmente para estabelecer quem já não consegue continuar.

Pontes fechadas. Fornecimento de energia cortado. Logística estrangulada. Embaixadas em alerta máximo.

Durante quatro anos, o Ocidente fez de Kiev o símbolo da sua resistência a Moscovo. Pode descobrir, tarde demais, que, ao transformá-la num símbolo, fez dela também a lápide perfeita para toda a sua estratégia.

António Costa tornou-se um populista!

(João Gomes, in Facebook, 25/08/2026)


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Há frases políticas que são apenas frases. Há outras que, pela responsabilidade de quem as pronuncia, obrigam a perguntar o que existe por detrás delas.

Quando António Costa, presidente do Conselho Europeu, afirma que “a paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia”, não está SÓ a manifestar solidariedade com a Ucrânia. Está a formular a sua tese política e estratégica: a paz, segundo ele, dependeria necessariamente da derrota de uma potência nuclear.

É precisamente aí que começa a minha perplexidade. Porque uma coisa é “defender a Ucrânia”. Outra, completamente diferente, é acreditar que a paz só poderá nascer da derrota da Rússia.

E a pergunta que eu faria a António Costa é muito simples: E depois da derrota da Rússia, António Costa? O que acontece no dia seguinte? Por que é esta pergunta que parece desaparecer do discurso político europeu.

Nenhuma paz começa no dia de uma vitória e há uma tendência perigosa na política contemporânea para imaginar a guerra como uma equação simples: há um agressor, há uma vítima, derrota-se o agressor e aparece a paz. Ora a História não funciona assim. Uma guerra pode terminar militarmente e continuar politicamente durante décadas. Uma potência pode perder uma batalha e tornar-se mais perigosa depois dela. Um regime pode cair e ser substituído por outro ainda mais radical. E uma derrota pode criar condições para uma nova guerra, em vez de impedir uma nova guerra.

No caso da Rússia, esta questão não é académica. Estamos a falar de uma potência nuclear, com um enorme território, vastos recursos naturais, capacidade militar, indústria de defesa, uma população de dezenas de milhões de pessoas e uma posição geográfica que liga Europa e Ásia. Ora a Rússia não desapareceria depois de perder a guerra. Continuaria ali. E seria precisamente nesse momento que começaria uma nova incógnita: que Rússia resultaria da derrota?

Uma Rússia derrotada seria necessariamente uma Rússia pacificada? É esta a primeira grande fragilidade da frase de António Costa. Partir do princípio de que uma derrota militar russa produziria automaticamente uma Rússia disposta à paz é uma hipótese, não uma certeza. Poderia acontecer. Mas também poderia acontecer o contrário. Uma derrota poderia provocar uma luta pelo poder em Moscovo. Poderia desencadear uma disputa entre diferentes sectores políticos, militares e nacionalistas. Poderia produzir uma reação de humilhação perante aquilo que uma parte da sociedade russa interpretasse como uma derrota imposta pelo Ocidente.

E nesse cenário surgiria uma pergunta ainda mais inquietante: quem sucederia ao poder russo? Um dirigente mais moderado? Talvez. Mas também poderia surgir alguém que considerasse Putin excessivamente conciliador e entendesse que a Rússia tinha sido derrotada precisamente porque não tinha ido suficientemente longe.

A História está cheia de exemplos em que a humilhação de uma potência não produziu necessariamente moderação. Por isso, a afirmação de que a derrota da Rússia é condição necessária para a paz contém uma contradição elementar: para obter a paz, poderíamos estar a criar as condições para uma Rússia politicamente mais instável e potencialmente mais radical.

Mas, para que essa afirmação seja uma análise política e não apenas uma convicção, falta responder à pergunta decisiva: como se garante que a derrota da Rússia não seja precisamente o acontecimento que desencadeia os conflitos que hoje ainda conseguimos evitar? É aqui que, do meu ponto de vista, a personalidade política de António Costa desaparece por detrás do slogan.

António Costa tornou-se um populista! Não temos pena, por que já tínhamos desconfiado.