Carta aberta ao Chanceler Friedrich Merz

(Jeffrey Sachs, In Jeffrey Sachs.org, 27/05/2026, Tradução da Estátua)

Jeffrey Sachs

O economista e diplomata Jeffrey Sachs apela ao ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Merz, para que inicie imediatamente conversações com o presidente russo, Vladimir Putin, sobre a paz na Europa.


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Chanceler Merz,

Quando lhe escrevi uma carta aberta há seis meses, instei a Alemanha a procurar a diplomacia com a Rússia em vez da normalização da guerra. Seis meses depois, a situação na Europa agravou-se drasticamente. A Europa e a Rússia caminham para uma guerra aberta. E nesta deriva, Chanceler, a sua responsabilidade é singular. Nenhum líder europeu — nem em Paris, nem em Varsóvia, nem em Roma — ocupa a posição que a Alemanha ocupa, nem tem o poder que o senhor detém, para travar esta catástrofe. O senhor tentará a paz?

O senhor, juntamente com a Primeira-ministra Meloni e o presidente Macron, defenderam em janeiro de 2026 o reatamento das relações entre a Europa e a Rússia, descrevendo-a como “um país europeu”. No entanto, o senhor não procurou a diplomacia. Com o futuro da Europa em jogo, esta é uma extraordinária abdicação de liderança. Durante os seus meses como chanceler, tentou pelo menos um diálogo substancial com o presidente Putin? O seu ministro dos Negócios Estrangeiros tentou pelo menos um diálogo substancial com o ministro dos Negócios Estrangeiros Lavrov? Conversas reais, do tipo da que pôs fim à Guerra Fria. A resposta, ao que se sabe publicamente, é não. Nem uma vez. E não foi por falta de reconhecimento da urgência.

Os últimos dias trouxeram uma aceleração perigosa que deveria concentrar a atenção de todos os europeus. Ambas as capitais estão agora sob ataque contínuo: drones ucranianos de longo alcance atingiram áreas profundas de Moscovo, incluindo locais civis; os ataques russos com mísseis e drones contra Kiev intensificaram-se consideravelmente. Os drones ucranianos atravessaram o espaço aéreo dos Estados Bálticos, aumentando a possibilidade iminente de um incidente que poderá arrastar a Europa diretamente para a guerra. Um brutal ataque ucraniano contra uma escola para rapazes em Lugansk corroeu ainda mais a pouca contenção que restava. E no dia 25 de Maio, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, agindo sob instruções do Presidente Putin, notificou formalmente o Secretário de Estado dos Estados Unidos de que as Forças Armadas Russas estão a lançar “ataques sistemáticos e contínuos” contra instalações e centros de decisão em Kiev, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo aconselhou que os Estados Unidos e outros países “garantam a evacuação do seu pessoal diplomático e outros cidadãos da capital da Ucrânia”. Esta mensagem é o prólogo de uma escalada significativa. A diplomacia é mais urgente do que nunca.

A forma de defender a Ucrânia não é através de massacres contínuos, mas sim da paz em termos aceitáveis para todas as partes. Em vez disso, enfrentamos uma escalada, com mais mortes, mais destruição e a perspectiva real de uma guerra que se expanda para além da Ucrânia. Ao exigirem cada vez mais armamento, uma capacidade de combate cada vez maior e demonstrações cada vez mais ruidosas de “resolução”, e ao sinalizarem que a Alemanha se está a preparar para a guerra em vez de trabalhar para lhe pôr fim, permitiram que Berlim se tornasse um acelerador, em vez de um travão, de uma guerra em toda a Europa.

Responsabilidade da Alemanha: Seis Detalhes

A Alemanha tem uma profunda responsabilidade pela situação que actualmente enfrenta. Antes que a política alemã possa ser reorientada para a paz, o historial da Alemanha precisa de ser analisado com honestidade. Apresento, de seguida, seis graves fracassos da política externa alemã em relação à Rússia desde a reunificação alemã em 1990.

Primeiro — o Tratado 2+4 e a expansão da NATO para leste.  A 12 de setembro de 1990, em Moscovo, a Alemanha assinou o Tratado sobre a Solução Final em Relação à Alemanha — o “Tratado 2+4” — que completou a reunificação alemã. Este tratado foi garantido porque Mikhail Gorbachev recebeu garantias solenes de Hans-Dietrich Genscher, Helmut Kohl, James Baker e outros líderes ocidentais de que a NATO não se expandiria para leste. Os documentos desclassificados — incluindo os memorandos agora públicos reunidos pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington — são inequívocos: estas garantias foram dadas e, na altura, tinham a clara intenção de se aplicarem para além do território da antiga RDA, abrangendo também a Europa de Leste. Estas garantias foram reafirmadas ao longo de 1990 e 1991.

O Tratado 2+4 restringe a presença de tropas da NATO no território da antiga RDA e relembra os princípios da Acta Final de Helsínquia, que sublinha que a segurança de qualquer nação não deve ser obtida à custa da segurança de outra. Alguém no seu perfeito juízo acredita que a União Soviética se preocupava com as tropas ocidentais no território da antiga RDA, mas era indiferente aos exércitos da NATO em Varsóvia, Vilnius ou Kiev? Claro que não.

A questão da expansão da NATO foi discutida em detalhe e a Alemanha deu garantias explícitas de não expansão para Leste aos dirigentes soviéticos — garantias essas que foram posteriormente quebradas. A Alemanha foi a principal beneficiária destas garantias, que constituíam a contrapartida para a reunificação alemã. Contudo, já em 1993, os líderes alemães começaram a promover a violação dessas garantias. 

Segundo — o próprio testemunho da Chanceler Merkel.  Nas suas memórias, Angela Merkel escreve com notável franqueza que, na altura da Cimeira de Bucareste de 2008, compreendia que convidar a Ucrânia e a Geórgia para a NATO equivaleria a uma declaração de guerra contra a Rússia. Ela conhecia a linha vermelha da Rússia. Ainda assim, cedeu à pressão americana, aceitando o comunicado de compromisso de que a Ucrânia e a Geórgia “se tornariam” membros da NATO. Esta única frase desencadeou as catástrofes de 2014 e 2022. A franqueza posterior de Merkel é um presente para os seus sucessores: ela disse-lhes, de forma clara e com as suas próprias palavras, o que era compreendido na altura. A Alemanha não deve agora pretender o contrário.

Terceiro — a traição do acordo de 21 de Fevereiro de 2014.  A 21 de Fevereiro de 2014, em Kiev, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, juntamente com os seus homólogos polaco e francês, intermediaram um acordo entre o Presidente Yanukovych e a oposição. O acordo previa o regresso à Constituição de 2004, a formação de um governo de unidade nacional e eleições presidenciais antecipadas. O Presidente Putin foi consultado; o acordo foi confirmado. Foi uma conquista diplomática importante num contexto de intensa violência. No entanto, em menos de 24 horas, Yanukovych foi deposto à força por um violento golpe. A Alemanha não insistiu no acordo que acabara de garantir. Em vez disso, seguindo o exemplo dos EUA, a Alemanha apoiou o novo governo, como se não houvesse acordo nenhum. Esta decisão convenceu Moscovo de que as assinaturas ocidentais não eram fiáveis.

Quarto — Minsk II.  Em fevereiro de 2015, a Chanceler Merkel negociou pessoalmente o Minsk II no Formato Normandy e prometeu o apoio político da Alemanha através da Declaração de Apoio adotada em Minsk a 12 de fevereiro de 2015. Durante sete anos, a principal disposição política — a autonomia para as regiões do Donbass dentro de uma Ucrânia soberana — nunca foi implementada por Kiev. A Alemanha não pressionou Kiev para implementar a disposição de autonomia que tinha defendido — e Merkel reconheceu mais tarde que o acordo tinha sido utilizado como uma manobra para permitir à Ucrânia rearmar-se. O Presidente Hollande afirmou o mesmo. A garantia, por outras palavras, não era garantia nenhuma. Era uma estratégia — mais uma vez a mando de Washington. Mais uma vez, a mensagem para Moscovo era que as assinaturas ocidentais não eram fiáveis.

Quinto — Nord Stream.  A 7 de fevereiro de 2022, no Salão Leste da Casa Branca, o Presidente Biden anunciou — com o então Chanceler Olaf Scholz ao seu lado — que “se a Rússia invadir… então não haverá mais um Nord Stream 2. Acabaremos com ele”. Questionado sobre como, respondeu: “Prometo, seremos capazes de o fazer”. Os gasodutos foram destruídos sete meses depois, num acto de sabotagem no Mar Báltico. As provas disponíveis — reportagens de investigação nos Estados Unidos e na Alemanha, o rasto seguido pelo procurador federal alemão e as declarações públicas de antigos funcionários — apontam, de forma esmagadora, para uma operação conjunta ucraniano-americana. O governo alemão sabe disso há muito tempo. Ainda assim, a Alemanha permitiu que a culpa pública recaísse sobre a Rússia, contrariando as provas directas, enquanto um acto de sabotagem industrial contra a economia alemã permanece impune e sem resposta.

Sexto — o acordo de Istambul de abril de 2022, que estava ao alcance.  Poucas semanas após a invasão russa em Fevereiro de 2022, negociadores russos e ucranianos reuniram-se em Istambul para definir os termos de um acordo de paz: neutralidade da Ucrânia fora da NATO, garantias multilaterais de segurança, limites de tropas acordados e a resolução política das questões do Donbass e da Crimeia ao longo do tempo. O acordo estava a poucos dias da assinatura. O ex-primeiro-ministro israelita Naftali Bennett, um dos mediadores, confirmou publicamente que o acordo estava próximo e que o Ocidente — em particular os Estados Unidos e o Reino Unido — agiu para o bloquear. A missão do primeiro-ministro Boris Johnson a Kiev, em abril de 2022, para instruir a Ucrânia a não assinar o acordo, é do conhecimento público. Centenas de milhares de vidas ucranianas e russas, e a ordem europeia em geral, pagaram o preço desta intervenção EUA-Reino Unido. A Alemanha não se pronunciou sobre isso — embora a Alemanha, mais do que qualquer outro Estado europeu, tenha suportado as consequências económicas.

A Segunda Catástrofe: A Autodestruição Económica da Alemanha

A sua primeira preocupação deve ser a paz. A mensagem de ontem de Moscovo mostra-nos o quão tarde estamos. Mas há uma segunda catástrofe a desenrolar-se paralelamente à primeira: a destruição deliberada da economia alemã, com Berlim como autora e vítima.

A economia industrial da Alemanha foi construída com base no comércio com a Rússia. A destruição do Nord Stream e a consequente rutura das relações comerciais da Alemanha com a Rússia fizeram com que o país começasse a comprar gás natural aos Estados Unidos a preços várias vezes superiores aos do gás russo que era fornecido pelos gasodutos. Isto é um suicídio industrial. O sector químico alemão, o sector siderúrgico, a indústria vidreira, as indústrias de grande consumo energético — os próprios alicerces do Mittelstand (pequenas e médias empresas) — estão a perder competitividade internacional de dia para dia. Os empregos qualificados estão a desaparecer da economia alemã. E o contribuinte e o consumidor alemães estão a transferir riqueza nacional da Alemanha para os produtores de gás americanos numa escala sem precedentes na Europa do pós-guerra.

Além disso, o governo alemão está agora a prometer um enorme aumento das despesas com a defesa — centenas de milhares de milhões de euros na próxima década — para se armar para uma guerra que a diplomacia pode facilmente evitar. Trata-se de uma profunda má alocação de recursos nacionais. O desafio fundamental que a Alemanha enfrenta nesta década é a competitividade na era digital. Cada euro gasto em tanques, mísseis e projécteis de artilharia é menos um euro investido na capacidade da Alemanha em inteligência artificial, na sua capacidade de concepção e fabrico de chips, na sua infra-estrutura energética e nas redes digitais de alta velocidade de que a Alemanha necessita para se manter como uma das principais economias globais.

A dura realidade, Sr. Chanceler, é que não há segurança que se possa comprar com estas armas que a diplomacia não possa comprar por uma ínfima fracção do custo, e não há prosperidade a alcançar sem os investimentos em tecnologia digital e energia que esta acumulação de armamento irá sufocar.

O meu apelo

Chanceler Merz, mais do que de qualquer outro líder europeu, a questão de saber se a Europa mergulhará numa guerra generalizada ou se regressará à negociação e à sanidade económica depende de si. A hora é muito tardia. A mensagem formal de ontem de Moscovo para Washington afirma-o explicitamente. Por favor, inicie um diálogo com o Presidente Putin. Por favor, envie o seu ministro dos Negócios Estrangeiros a Moscovo ou convide o ministro dos Negócios Estrangeiros russo a ir a Berlim. Por favor, reabra os canais da OSCE que a Alemanha deixou atrofiar. Por favor, diga a Kiev para cessar os seus ataques contra alvos civis.

Mais importante ainda, por favor, digam a verdade ao público alemão: que uma paz negociada baseada na neutralidade da Ucrânia é o caminho realista para sair da catástrofe, e que restaurar uma relação económica normal com a Rússia é o caminho realista para superar o declínio industrial da Alemanha.

Os termos de um acordo aceitável que a Alemanha poderia propor são claros. Os combates cessariam na linha de armistício. Todas as partes renunciariam a qualquer recurso futuro à violência em matéria de fronteira. A Ucrânia restauraria a sua neutralidade e a NATO renunciaria definitivamente a qualquer expansão para leste.

A Europa e a Rússia restabeleceriam as relações económicas e cessariam os belicismos. A OSCE voltaria a ser o fórum central para a segurança europeia, com o princípio fundamental de que a segurança europeia é indivisível, não assente em blocos militares que dividem a Europa. Paralelamente a esta paz, a Alemanha redireccionaria os seus recursos nacionais para investimentos em áreas como o digital, a inteligência artificial, os semicondutores e a energia, que o futuro económico alemão exige.

A história registará o que o senhor fizer nas próximas semanas, e o que deixar de fazer. O mesmo acontecerá com o público alemão. O mesmo acontecerá com os povos da Rússia, da Ucrânia e da Europa em geral. É tempo de diplomacia, Sr. Chanceler. A escolha é sua.

Respeitosamente,

Jeffrey D. Sachs

Fonte aqui

O princípio do fim da União Europeia?

(Fórum da Escolha, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)


Merz lança uma bomba sobre a regulação de Bruxelas – o discurso que começa a preparar a saída da Alemanha – a Europa como instrumento, sim. A Europa como travão, não.


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Quando Friedrich Merz explica ao Bundestag que a Europa “bloqueou a sua própria força económica”, ficamos entre o riso e o espanto. O diagnóstico está correto, mas o médico está longe de ser inocente.

Há mais de uma década que a União Europeia fica para trás em relação aos Estados Unidos e à China. Neste ponto, Merz está apenas a parafrasear a própria Comissão, que reconheceu em 2023 que “a produtividade europeia está a crescer significativamente mais lentamente do que a dos seus principais concorrentes” (relatório anual sobre a competitividade).

Mas o momento torna-se verdadeiramente delicioso quando Berlim finge descobrir a existência de um monstro regulador que tem alimentado com uma seringa há trinta anos.

Falemos a sério por um momento. Os padrões industriais, as regras da concorrência, a ortodoxia orçamental, a santificação das exportações, a compressão dos salários e o fetichismo da estabilidade monetária não surgiram do nada em Bruxelas. Foram concebidos, impulsionados e consolidados pela Alemanha com um zelo quase missionário. A famosa “disciplina europeia” não representou qualquer obstáculo quando transformou o sul da Europa numa zona de ajustamento estrutural permanente.

O Banco Central Europeu afirmou categoricamente em 2012: “As reformas estruturais são essenciais para restaurar a competitividade”. Tradução: adapte-se ao modelo alemão ou desapareça.

Hoje, a piada azedou. Esta mesma camisa-de-forças regulatória impede Berlim de fornecer subsídios maciços, de proteger as suas indústrias ou de responder à Lei de Redução da Inflação dos EUA ou ao capitalismo de Estado chinês. E, de repente, a regra torna-se “um obstáculo”. Um milagre dialético.

Merz promete, portanto, “livrar-se dela”. Mas como? Renovar um edifício tecnocrático que exige a unanimidade de 27 estados, anos de negociação e compromissos mornos? Até a Comissão admite que “a simplificação da regulamentação europeia é um processo longo e politicamente complexo”.

É aqui que o que não é dito se torna ensurdecedor. Se o poder global depende da força económica, como Merz afirma corretamente, então a actual UE é estruturalmente incapaz de responder à velocidade necessária. Demasiado lenta, demasiado fragmentada, demasiado presa a amarras legais.

Como resultado, uma hipótese há muito tabu está a tornar-se racional: a Alemanha não vai esperar que o dinossauro tecnocrático aprenda a correr. O Conselho Alemão de Peritos Económicos já reconheceu que “a flexibilidade fiscal e industrial tornou-se uma condição para a sobrevivência económica”. E quando as regras comuns impedem a sobrevivência nacional, a história europeia mostra que as regras são quebradas.

Merz ainda não fala em sair. Ele fala em “libertação”. Mas todos compreendem o que ele quer dizer: quando a União Europeia deixa de ser um multiplicador de poder para a Alemanha, passa a ser um custo estratégico.

A ironia suprema: depois de moldar a Europa à sua própria imagem, Berlim pode ser a primeira a concluir que o fato se tornou demasiado apertado. A Europa como instrumento, sim. A Europa como travão, não.

Bem-vindos ao ponto de rutura. Onde a retórica pró-europeia colide brutalmente com a realidade económica. E onde os sermões sobre a solidariedade terminam exatamente onde começa o interesse nacional.

(@BPartisans)

Jeffrey Sachs – Carta aberta ao chanceler Friedrich Merz

(Jeffrey Sachs in Braveneweurope.com, 20/12/2025, Tradução da Estátua)


(Para os ignorantes e para os propagandistas que resumem a sua análise da guerra na Ucrânia ao chavão “há um invasor e um invadido” – ignorando todos os antecentes históricos que levaram ao conflito -, este texto é uma lição magistral. Isto, se ainda conseguirem ler com dois neurónios desenferrojados, depois de tanta homilia de embotamento mental, que uns ouviram e outros oficiaram.

Estátua de Sal, 22/12/2025)


Chanceler Merz,

O senhor tem falado repetidamente sobre a responsabilidade da Alemanha pela segurança europeia. Essa responsabilidade não pode ser cumprida por meio de slogans, memória seletiva ou a normalização constante de discursos belicistas. As garantias de segurança não são instrumentos unilaterais. Elas funcionam em ambas as direções. Este não é um argumento russo, nem americano; é um princípio fundamental da segurança europeia, explicitamente incorporado na Acta Final de Helsinque, na estrutura da OSCE e em décadas de diplomacia do pós-guerra.

A Alemanha tem o dever de abordar este momento com seriedade e honestidade histórica. Nesse aspecto, a retórica e as escolhas políticas recentes deixam muito a desejar.

Desde 1990, as principais preocupações de segurança da Rússia têm sido repetidamente ignoradas, diluídas ou diretamente violadas — frequentemente com a participação ativa ou aquiescência da Alemanha. Esse histórico não pode ser apagado se quisermos que a guerra na Ucrânia termine, e não pode ser ignorado se a Europa quiser evitar um estado permanente de confronto.

No final da Guerra Fria, a Alemanha deu aos líderes soviéticos e, posteriormente, aos russos, repetidas e explícitas garantias de que a NATO não se expandiria para o leste. Essas garantias foram dadas no contexto da reunificação alemã. A Alemanha beneficiou enormemente delas. A rápida unificação do seu país — dentro da NATO — não teria ocorrido sem o consentimento soviético, fundamentado nesses compromissos. Fingir posteriormente que essas garantias nunca importaram, ou que foram meras observações casuais, não é realismo. É revisionismo histórico.

Em 1999, a Alemanha participou do bombardeamento da Sérvia pela NATO, a primeira grande guerra conduzida pela NATO sem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Essa não foi uma ação defensiva. Foi uma intervenção sem precedentes que alterou fundamentalmente a ordem de segurança pós-Guerra Fria. Para a Rússia, a Sérvia não era uma abstração. A mensagem era inequívoca: a NATO usaria a força para lá do seu território, sem a aprovação da ONU e sem levar em consideração as objeções russas.

Em 2002, os Estados Unidos retiraram-se unilateralmente do Tratado de Mísseis Antibalísticos, um pilar da estabilidade estratégica durante três décadas. A Alemanha não apresentou objeções sérias. Contudo, a erosão da arquitetura de controlo de armamentos não ocorreu isoladamente. Os sistemas de defesa antimísseis implantados mais perto das fronteiras da Rússia foram corretamente percebidos pela Rússia como desestabilizadores. Rejeitar essas percepções como paranoia foi propaganda política, não diplomacia sensata.

Em 2008, a Alemanha reconheceu a independência do Kosovo, apesar dos alertas explícitos de que isso minaria o princípio da integridade territorial e criaria um precedente com repercussões noutros lugares. Mais uma vez, as objeções da Rússia foram descartadas como má-fé, em vez de serem consideradas como preocupações estratégicas sérias.

A pressão constante para expandir a NATO à Ucrânia e à Geórgia — declarada formalmente na Cimeira de Bucareste de 2008 — ultrapassou os limites mais óbvios, apesar das objeções veementes, claras, consistentes e repetidas levantadas por Moscovo durante anos. Quando uma grande potência identifica um interesse fundamental de segurança e o reitera por décadas, ignorá-lo não é diplomacia. É escalada deliberada.

O papel da Alemanha na Ucrânia desde 2014 é particularmente preocupante. Berlim, juntamente com Paris e Varsóvia, intermediou o acordo de 21 de fevereiro de 2014 entre o presidente Yanukovych e a oposição — um acordo que visava cessar a violência e preservar a ordem constitucional. Poucas horas depois, esse acordo ruiu. Seguiu-se um golpe violento. Um novo governo emergiu por meios extra-constitucionais. A Alemanha reconheceu e apoiou o novo regime imediatamente. O acordo que a Alemanha havia garantido foi abandonado sem consequências.

O acordo Minsk II de 2015 deveria ser a solução corretiva — uma estrutura negociada para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia. A Alemanha, mais uma vez, atuou como garante. No entanto, durante sete anos, Minsk II não foi implementado pela Ucrânia. Kiev rejeitou abertamente as suas disposições políticas. A Alemanha não as fez cumprir. Ex-líderes alemães, e de outros países europeus, reconheceram posteriormente que Minsk foi tratado menos como um plano de paz do que como uma medida paliativa. Essa admissão, por si só, deveria forçar uma reflexão.

Nesse contexto, os apelos por mais armas, uma retórica cada vez mais agressiva e uma “determinação” cada vez maior soam vazios. Eles pedem que a Europa esqueça o passado recente para justificar um futuro de confronto permanente.

Basta de propaganda. Basta de infantilização moral do público. Os europeus são perfeitamente capazes de compreender que os dilemas de segurança são reais, que as ações da NATO têm consequências e que a paz não se conquista fingindo que as preocupações de segurança da Rússia não existem.

A segurança europeia é indivisível. Esse princípio significa que nenhum país pode fortalecer a sua segurança à custa da segurança de outro sem provocar instabilidade. Significa também que diplomacia não é apaziguamento e que honestidade histórica não é traição.

A Alemanha outrora compreendeu isso. A Ostpolitik não era sinal de fraqueza, mas sim de maturidade estratégica. Reconhecia que a estabilidade da Europa dependia do engajamento, do controle de armamentos, dos laços económicos e do respeito pelos legítimos interesses de segurança da Rússia.

Hoje, a Alemanha precisa dessa maturidade novamente. Pare de falar como se a guerra fosse inevitável ou virtuosa. Pare de terceirizar o pensamento estratégico para meros discursos de alianças. Comece a empenhar-se seriamente na diplomacia — não como um exercício de relações públicas, mas como um esforço genuíno para reconstruir uma arquitetura de segurança europeia que inclua, em vez de excluir, a Rússia.

Uma arquitetura de segurança europeia renovada deve começar com clareza e moderação. Em primeiro lugar, exige o fim inequívoco à expansão da NATO para leste — para a Ucrânia, para a Geórgia e para qualquer outro Estado ao longo das fronteiras da Rússia.

A expansão da NATO não era uma característica inevitável da ordem pós-Guerra Fria; foi uma escolha política, tomada em violação das promessas solenes feitas em 1990 e levada adiante apesar dos repetidos alertas de que desestabilizaria a Europa.

A segurança na Ucrânia não virá do envio de tropas alemãs, francesas ou de outros países europeus para a frente de batalha, o que apenas aprofundaria a divisão e prolongaria a guerra. Ela virá da neutralidade, respaldada por garantias internacionais credíveis. O registro histórico é inequívoco: nem a União Soviética nem a Federação Russa violaram a soberania de Estados neutros na ordem pós-guerra — nem a Finlândia, a Áustria, a Suécia, a Suíça ou outros. A neutralidade funcionou porque atendia às legítimas preocupações de segurança de todos os lados. Não há razão séria para fingir que ela não possa funcionar novamente.

Em segundo lugar, a estabilidade exige desmilitarização e reciprocidade. As forças russas devem ser mantidas bem afastadas das fronteiras da NATO, e as forças da NATO — incluindo os sistemas de mísseis — devem ser mantidas bem afastadas das fronteiras da Rússia. A segurança é indivisível, não unilateral. As regiões fronteiriças devem ser desmilitarizadas por meio de acordos verificáveis, e não saturadas com mais e mais armas.

As sanções devem ser suspensas como parte de um acordo negociado; elas não conseguiram trazer a paz e causaram graves danos à própria economia europeia.

A Alemanha, em particular, deve rejeitar o confisco irresponsável de ativos estatais russos — uma violação flagrante do direito internacional que mina a confiança no sistema financeiro global. Revitalizar a indústria alemã por meio de um comércio lícito e negociado com a Rússia não é capitulação. É realismo económico. A Europa não deve destruir sua própria base produtiva em nome de uma postura moral.

Por fim, a Europa deve retornar aos fundamentos institucionais de sua própria segurança. A OSCE — e não a NATO — deve voltar a servir como fórum central para a segurança europeia, a construção da confiança mútua e o controlo de armamentos. Autonomia estratégica para a Europa significa precisamente isso: uma ordem de segurança europeia moldada pelos interesses europeus, e não uma subordinação permanente ao expansionismo da NATO.

A França poderia, com razão, estender a sua dissuasão nuclear como um guarda-chuva de segurança europeu, mas apenas em uma postura estritamente defensiva, sem sistemas implantados na vanguarda que representem uma ameaça para a Rússia.

A Europa deve pressionar urgentemente pelo retorno ao Tratado INF e por negociações abrangentes sobre o controlo de armas nucleares estratégicas envolvendo os Estados Unidos e a Rússia — e, com o tempo, a China.

Acima de tudo, Chanceler Merz, aprenda com a história — e seja honesto a respeito dela. Sem honestidade, não pode haver confiança. Sem confiança, não pode haver segurança. E sem diplomacia, a Europa corre o risco de repetir as catástrofes com as quais afirma ter aprendido.

A história julgará o que a Alemanha escolherá lembrar — e o que escolherá esquecer. Desta vez, que a Alemanha escolha a diplomacia e a paz, e cumpra sua palavra.

Respeitosamente.

Jeffrey D. Sachs, Professor Universitário da Universidade de Columbia

Fonte aqui