(António Lacerda Sales, in Facebook, 14/03/2026, Revisão da Estátua)

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O Parlamento rejeitou esta sexta-feira projetos de lei de partidos da oposição que pretendiam garantir o pagamento do subsídio de doença a 100% para os doentes com cancro e reforçar os seus direitos laborais.
Quem recebe um diagnóstico de cancro já vê a vida abalada no corpo, na alma, na família e no trabalho. O que não pode ver abalado também é o rendimento com que paga a casa, a comida, os medicamentos e a dignidade.
Por isso, não compreendo e digo-o com frontalidade, o voto contra de PSD e CDS, nem a abstenção do PS, perante uma proposta que pretendia garantir a doentes oncológicos um subsídio de doença a 100%.
Estamos a falar de pessoas que enfrentam tratamentos agressivos, incerteza, medo, fadiga extrema e uma quebra profunda na sua capacidade de trabalhar. Não estamos a falar de uma questão lateral. Estamos a falar de humanidade, de decência e de sentido de Estado.
É precisamente nestes momentos que se vê a verdade de cada um sobre o Estado social. E o que se viu no Parlamento foi profundamente dececionante. Sobretudo em partidos que tantas vezes invocam a sensibilidade social e a defesa do Estado social, mas que, quando chega a hora da decisão concreta, falham no essencial.
Um Estado digno desse nome não pode pedir a um doente com cancro que trave ao mesmo tempo a batalha pela vida e a batalha pela sobrevivência económica.
Mais ainda, quando vivemos num tempo em que se anunciam, com aparente normalidade, milhares de milhões para a guerra, para o armamento e para a escalada militar. Se há margem para gastar 6000 milhões nesse contexto, como é possível dizer que não há margem para proteger plenamente quem enfrenta uma das fases mais duras da sua existência?
Isto não é apenas uma opção orçamental. É uma escolha moral. É uma escolha política. E é uma escolha civilizacional.
Eu sei de que lado estou. Estou do lado de quem, perante o sofrimento, não hesita. Do lado de quem entende que o cancro não pode significar, além de dor e medo, uma penalização salarial. Do lado de um Estado social que protege a sério, quando a vida mais vacila.
Porque há matérias em que não basta ter discurso. É preciso ter coragem. E hoje, infelizmente, faltou coragem a demasiados.


