A aversão aos “malandros do rendimento mínimo”

(Ana Sá Lopes, in Público, 07/06/2026)


Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.


A criação do Rendimento Mínimo Garantido (hoje Rendimento Social de Inserção) pelo Governo Guterres em 1996 não aconteceu sem um grande combate da direita, nomeadamente do CDS de Portas.

Nas campanhas eleitorais, Paulo Portas atirava-se furiosamente aos “malandros do rendimento mínimo” que “não queriam trabalhar” contra o bom povo trabalhador a quem pedia o voto, com algum sucesso. Em 2008, Portas dizia que o rendimento social de inserção era “um financiamento à preguiça” mas o combate contra a prestação para os cidadãos em situação de pobreza tinha começado muito lá atrás.

O discurso sobre “os malandros do rendimento mínimo” foi sempre um mantra de Paulo Portas que não era partilhado da mesma forma pelo PSD que, quando chegou ao Governo – mesmo em coligação com o CDS –, não pôs fim à prestação que, com outro nome, dura até aos nossos dias.

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Com a viragem do país à direita (o PSD mais à direita do que algum dia foi), é o primeiro-ministro social-democrata quem se apropria do discurso sobre os “malandros do rendimento mínimo”, criando o canal de denúncias em que os “bons trabalhadores” podem denunciar quem acham que está a receber o mísero subsídio erradamente (estimulando a alegria da delação) e obrigando os “preguiçosos” a trabalhar.

Não há narrativa com mais sucesso neste país do que a de pôr pobres contra pobres. Talvez devido à extrema influência da inveja sobre o vizinho do lado, a de pôr pobres contra ricos não tem o mesmo sucesso. O rico habitualmente não é vizinho do lado.

Veja-se como tem corrido bem em toda a Europa, e também em Portugal, o discurso contra o imigrante pobre que contribui para a Segurança Social – isto perante o total alheamento e praticamente nenhuma contestação social face aos imigrantes ricos que inflacionaram o preço das casas (o Chega culpa os imigrantes pobres pela inflação imobiliária) ou aos ricos que fogem aos impostos. As falhas dos cidadãos afluentes têm perdão social. Perante as falhas dos cidadãos na pobreza só falta chamar alguém para atirar o alcatrão e penas.

Numa destas noites, pediram-me uma fortuna para ir num Bolt da Baixa de Lisboa até à minha casa, mais ou menos nove quilómetros. O Bolt é igual ao Uber, funciona segundo as leis do mercado e os preços sobem quanto maior é a procura e menor o contingente de trabalhadores disponíveis. Optei pelo velho táxi. O desaparecimento dos imigrantes pobres a conduzir Ubers não prejudica muito a minha vida, mas vai ter provavelmente reflexos no PIB do turismo e na construção.

Talvez as “massas populares” até se regozijem com o desaparecimento de imigrantes, mas certamente que os empresários vão sofrer as consequências. Aqui está uma improvável guerra do Governo aos “ricos”. Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.

A social-democracia foi um sucesso enquanto serviu de tampão à emergência do comunismo na Europa. Com a queda dos regimes comunistas, a social-democracia entrou em crise – uma crise que persiste e contra a qual ainda ninguém descobriu o antídoto. As excepções que aqui e ali aparecem não chegam para inverter a tendência. É neste caldo cultural do século XXI que é fácil impor medidas de direita pura e dura, apenas contestadas por uma minoria.

Pouco se sabe ainda sobre a prestação social única, além do “trabalho social” que pode “ir até oito horas por dia”, da diminuição dos valores, da retirada de apoios a quem tem carro e do canal de delação.

Na próxima sexta-feira, o Governo prometeu dar mais explicações. O PS não vota a lei tal e qual está. O Chega depende – se for ainda mais dura para os imigrantes aceita. Tudo indica que o Governo vai mais uma vez “coligar-se” com o parceiro preferencial que efectivamente elegeu, embora diga que não. É o zeitgeist.

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3 pensamentos sobre “A aversão aos “malandros do rendimento mínimo”

  1. Muitos empresários, alguns dos quais acharam o Chega uma boa ideia, já começam a ver que o êxodo dos imigrantes é ma ideia.
    Pode ser que a teta do financiamento dessa gente comece a secar.
    Pode ser mais fácil começar a acordar se deixarmos de ver um cartaz do Quarto Pastorinho a cada esquina.
    Muitos empresários agrícolas já se começam a queixar de falta de mão de obra.
    O que esta gente que achou normal um partido que promovesse a escravização e o terrorismo contra imigrantes não pensou e que a mobilidade das pessoas e hoje muito maior que há décadas atrás.
    E que e fácil para um imigrante largar se para outro país da Europa ou até de volta para onde veio até uma oportunidade de procurar um país onde não tenha medo de ser agredido ou morto a tiro na própria casa que habita.
    Em Portugal há um ditado “mal por mal em Portugal”, sendo que alguns regressavam justamente ir isso.
    Se se viam na França ou Alemanha em habitações sobre lotadas ou precárias, com ordenados que também não davam para grande coisa e trabalhinhos de corno voltavam. Quanto mais poderem ser barbaramente agredidos até por forças ditas de segurança ou mortos a tiro.
    Ora não acharam os patrões que acharam boa ideia andar a aterrorizar imigrantes para que trabalhassem por uma pele de batata e calassem a boca que muitos poderiam achar “mal por mal, no Bangladesh”?.
    Claro que os cheganos, perdidos no seu discurso delirante dizem que vão apoiar a tortura dos pobres via PSU se esta praticamente excluir os imigrantes destes apoios.
    Ainda haverá grunhos que achem que vale a pena vir do Bangladesh, Brasil ou Paquistão para ganhar 150 euros e ter de trabalhar de graça em troca dessa miséria?
    Se houver e porque andam mesmo a dormir ou a snifar o que snifa Herr Zelensky.
    Vão ver se o mar da choco que pode ser que a água fria ajude a acordar.

  2. A social democracia foi uma criação destinada a dar ao capitalismo um rosto humano que ele nunca teve.
    Era uma questão de dar aos trabalhadores uma fatia mais grossa do bolo, garantir lhes condições de educação, habitação e saúde.
    Mas se não tivesse aparecido o socialismo e o comunismo era provável que os trabalhadores tivessem sempre continuado a trabalhar 16 horas por dia, a ter saúde e educação só se a pudessem pagar e a habitar em casas exíguas e insalubres.
    A evolução tecnológica talvez permitisse melhorar algumas condições generalizando por exemplo sistemas de esgotos, agua e luz eléctrica.
    Talvez fosse necessário dar alguma educação para que os trabalhadores soubessem operar com novos sistemas de produção mas continuariam a ter o tal ordenado de subsistência, o suficiente para poderem continuar a trabalhar.
    E sistemas de proteção na velhice provavelmente nunca teriam acontecido.
    A verdade e que boa parte dos países capitalistas não seguiram este caminho. A America Latina, por exemplo, continuou a viver como viveriamos todos se não houvesse necessidade de mostrar um capitalismo de rosto humano.
    A fome, a miseria, a doença e a repressao foram a herança dessas populações.
    Mas quando os países que procuraram alternativas ao capitalismo acreditaram neste rosto humano do capitalismo e se converteram a sua forma mais selvagem logo a social democracia foi mandada para o caixote do lixo da história.
    Em todo o lado cresceram os deveres e diminuíram os direitos.
    E em todo o lado os trabalhadores cada vez mais despojados de direitos escolheram o caminho mais fácil.
    Culpar os mais pobres que eles pelos seus males.
    Aqueles que não teem voz.
    Se disserem que o patrão paga pouco e ganha de mais podem ser despedidos.
    Mas nada acontece se insultarem um pobre que recebe apoios sociais ou mandarem um imigrante ir para a sua terra.
    Por isso a aversão aos apoios sociais da votos.
    Em Portugal teria de dar votos desde a primeira hora pois que este foi um povo que nunca fez o tal caminho de dar uma fatia decente aos trabalhadores e a ideia de apoio sociais sempre foi o assistencialismo da caridadezinha.
    Como e que se dá a volta a isto?
    Falar com os grunhos não resulta.
    Valha lhes um tubarão branco faminto.

  3. O que é lamentável, é que a falta de sentido crítico que alastra como vírus – que os órgãos de comunicação social de referência se empenham em promover – vá até a muitos reformados, que acham bem que se mande os emigrantes embora, sem perceber que se isso acontecesse, as suas reformas deixariam de existir tal como estão, sugadas pela falta das receitas que os emigrantes ( que descontam muito mais do que recebem para a Seg.Social) deixariam de efetuar. Convém que pensem nisso a tempo, antes de ajudarem a criar uma catástrofe, tanto na disponibilidade de mão de obra, como na queda de receitas drástica da Seg. Social. Já chegava de acreditar nos cheganos e companhia e nas balelas do Montenegro e IL. Acordem em quanto é tempo.

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