(Carlos Esperança, in Facebook, 15/06/2026, Revisão da Estátua)
Não espero de nenhuma religião, ainda menos dos monoteísmos, a defesa do pluralismo e dos direitos individuais, quase sempre obtidos sem as religiões ou mesmo contra elas. Errado é, atualmente, considerá-las iguais, ou negar o contributo positivo que podem dar à paz e à tolerância.
Os judeus continuam a reivindicar a herança dos territórios do alegado contrato entre Deus e Abraão; os cristãos evangélicos estão cada vez mais radicais e intolerantes; os muçulmanos insistem em impor o pensamento de um beduíno analfabeto e amoral da Idade do Bronze, como Atatürk designou Maomé, como código político, ético e social, avessos à laicidade e à modernidade, sem abdicarem do proselitismo.
É neste contexto tóxico que os católicos, sob a liderança centralizada no Papa, emergem como referência para o mundo, contra a vontade de muitos, com a determinação que o Vaticano colocou na defesa a paz e da tolerância através dos dois últimos pontífices.
Quando a Europa regressa aos preconceitos que a precipitaram na guerra de 1939/45, preconceitos que exacerbam o racismo e a xenofobia de que se nutre a extrema-direita, a voz do Papa Leão XIV, na continuação do magistério do antecessor, Francisco, tem sido um refrigério e poderoso antídoto contra a violência xenófoba.
Leão XIV fez da defesa da dignidade dos migrantes e do apelo à paz os mais sólidos contributos da sua religião para morigerar a violência xenófoba da extrema-direita.
Frases como “A dignidade humana não tem passaporte”, “Todos, de algum modo, somos migrantes (…)”, “integrar não significa apagar a história de quem chega (…)”, “A paz exige coragem diplomática e respeito pela identidade” ou “paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, que vem de Deus”, descontada a referência à divindade, merecem ser subscritas por todos os que desejam a paz e a concórdia.
Não sei se a Igreja católica sobrevive às contradições que a minam, mas ignorar o que devemos ao magistério dos dois últimos pontífices, na defesa da paz e da convivência entre culturas diferentes, não é apenas uma injustiça, é uma perigosa leviandade.
Independentemente do futuro da Humanidade, se o houver, os esforços católicos para a convivência multiétnica e a coexistência entre culturas e países, é um honroso ativo que a Igreja católica romana poderá sempre exibir perante a intolerância política, religiosa e étnica que assola o mundo. Na visita do Papa a Espanha e na solidariedade expressa aos imigrantes na deslocação às Ilhas Canárias, o Papa encontrou uma expressiva ressonância no bispo local, D. José Mazuelos, no final da celebração eucarística presidida pelo Pontífice na noite de quinta-feira, 11 de junho: “Há quem defenda o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas queira que se corte a cabeça dos imigrantes”, palavras duras para a extrema-direita que se reclama católica e tem na agenda a exploração dos ressentimentos para alimentar o ódio aos imigrantes.
Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.
A criação do Rendimento Mínimo Garantido (hoje Rendimento Social de Inserção) pelo Governo Guterres em 1996 não aconteceu sem um grande combate da direita, nomeadamente do CDS de Portas.
Nas campanhas eleitorais, Paulo Portas atirava-se furiosamente aos “malandros do rendimento mínimo” que “não queriam trabalhar” contra o bom povo trabalhador a quem pedia o voto, com algum sucesso. Em 2008, Portas dizia que o rendimento social de inserção era “um financiamento à preguiça” mas o combate contra a prestação para os cidadãos em situação de pobreza tinha começado muito lá atrás.
O discurso sobre “os malandros do rendimento mínimo” foi sempre um mantra de Paulo Portas que não era partilhado da mesma forma pelo PSD que, quando chegou ao Governo – mesmo em coligação com o CDS –, não pôs fim à prestação que, com outro nome, dura até aos nossos dias.
Com a viragem do país à direita (o PSD mais à direita do que algum dia foi), é o primeiro-ministro social-democrata quem se apropria do discurso sobre os “malandros do rendimento mínimo”, criando o canal de denúncias em que os “bons trabalhadores” podem denunciar quem acham que está a receber o mísero subsídio erradamente (estimulando a alegria da delação) e obrigando os “preguiçosos” a trabalhar.
Não há narrativa com mais sucesso neste país do que a de pôr pobres contra pobres. Talvez devido à extrema influência da inveja sobre o vizinho do lado, a de pôr pobres contra ricos não tem o mesmo sucesso. O rico habitualmente não é vizinho do lado.
Veja-se como tem corrido bem em toda a Europa, e também em Portugal, o discurso contra o imigrante pobre que contribui para a Segurança Social – isto perante o total alheamento e praticamente nenhuma contestação social face aos imigrantes ricos que inflacionaram o preço das casas (o Chega culpa os imigrantes pobres pela inflação imobiliária) ou aos ricos que fogem aos impostos. As falhas dos cidadãos afluentes têm perdão social. Perante as falhas dos cidadãos na pobreza só falta chamar alguém para atirar o alcatrão e penas.
Numa destas noites, pediram-me uma fortuna para ir num Bolt da Baixa de Lisboa até à minha casa, mais ou menos nove quilómetros. O Bolt é igual ao Uber, funciona segundo as leis do mercado e os preços sobem quanto maior é a procura e menor o contingente de trabalhadores disponíveis. Optei pelo velho táxi. O desaparecimento dos imigrantes pobres a conduzir Ubers não prejudica muito a minha vida, mas vai ter provavelmente reflexos no PIB do turismo e na construção.
Talvez as “massas populares” até se regozijem com o desaparecimento de imigrantes, mas certamente que os empresários vão sofrer as consequências. Aqui está uma improvável guerra do Governo aos “ricos”. Ao contrário da guerra aos imigrantes, a guerra ao “malandro do rendimento mínimo” serve o populismo sem nenhuma consequência para o PIB e a Segurança Social.
A social-democracia foi um sucesso enquanto serviu de tampão à emergência do comunismo na Europa. Com a queda dos regimes comunistas, a social-democracia entrou em crise – uma crise que persiste e contra a qual ainda ninguém descobriu o antídoto. As excepções que aqui e ali aparecem não chegam para inverter a tendência. É neste caldo cultural do século XXI que é fácil impor medidas de direita pura e dura, apenas contestadas por uma minoria.
Pouco se sabe ainda sobre a prestação social única, além do “trabalho social” que pode “ir até oito horas por dia”, da diminuição dos valores, da retirada de apoios a quem tem carro e do canal de delação.
Na próxima sexta-feira, o Governo prometeu dar mais explicações. O PS não vota a lei tal e qual está. O Chega depende – se for ainda mais dura para os imigrantes aceita. Tudo indica que o Governo vai mais uma vez “coligar-se” com o parceiro preferencial que efectivamente elegeu, embora diga que não. É o zeitgeist.
Este ano, tu vais descobrir tarde demais que votar para perseguir imigrantes e proteger bilionários tem um preço. E esse preço não fica nos discursos. Vai aparecer no supermercado, nos lares, nos incêndios, na economia, nas reformas, na escola pública, no SNS, na habitação e nas rendas.
As políticas desta coligação de vontades entre o PSD e a extrema-direita vão começar a sair dos vídeos, dos slogans e das redes sociais — e vão entrar na tua vida. E nem estou a falar apenas do roubo da estabilidade, do trabalho e do dinheiro de quem trabalha para enriquecer os de cima. Nem dos pacotes laborais que pisam os de baixo e protegem os de cima. Nem da transformação dos serviços públicos em negócios para os grandes grupos económicos lucrarem à custa da tua saúde, da educação dos teus filhos, do suor do teu trabalho, da tua família e do teu futuro. Estou a falar de coisas concretas. Coisas que vais sentir na pele.
Este ano, teremos um verão complicado ao nível dos incêndios. Não há mão-de-obra suficiente para limpar as florestas, que estão, neste momento, transformadas num autêntico barril de pólvora. Os imigrantes foram escorraçados, e estas políticas vão ter custos em área ardida e em vidas humanas.
Os lares de terceira idade, sem mão-de-obra, veem os custos disparar, e serás tu, se tiveres pais ou avós num lar, a pagar a fatura.
A saúde pública continua a ver sair os seus profissionais para os negócios dos privados, enquanto tu ficas a olhar para a porta trancada das urgências.
Os custos nos supermercados disparam, não só para alimentar os lucros recorde dos grandes retalhistas, mas também porque a falta de mão-de-obra na agricultura começa a ter custos elevados.
Há alunos sem professores, mas ninguém sabe exatamente quantos, porque, no meio do caos deste Governo, não há grande interesse em que se saiba.
Os médicos de família têm listas de espera de seis meses. Exames essenciais já nem aceitam marcações — para a lista não parecer grande demais.
A economia, que precisava de 100 mil imigrantes todos os anos, começa a encravar. Os anos de ouro do crescimento económico de António Costa estão a terminar, e o que vem a seguir vai doer.
Pior do que a pandemia e a guerra na Ucrânia, que não nos colocaram de joelhos, bastaram dois anos de extrema-direita a condicionar o Governo para tudo começar a desabar.
A extrema-direita, em pânico, ao perceber que tu podes começar a ver o truque, grita que basta aumentar os salários para preencher essas vagas. Mas, quando há três postos de trabalho vagos e apenas dois trabalhadores disponíveis, por muito que aumentes os salários, um dos postos continuará por preencher — e essa empresa sofrerá com isso.
A seguir, dizem-te que, se aumentarmos muito os ordenados, os emigrantes que estão na Suíça voltam. Esquecem-se de te dizer que, se em Portugal triplicássemos o salário de quem trabalha num lar de terceira idade, esse lar teria de repercutir esse custo nas famílias que lá têm os seus familiares. E sabes quem pagaria? Tu. Mas, para a extrema-direita, isso é indiferente. O que interessa é ganhar poder à custa da tua revolta, da tua frustração e dos slogans fáceis que te meteram na cabeça.
Isto não apareceu do nada. Foi uma longa propaganda, bem financiada, em jornais, televisões e centenas de grupos nas redes sociais. Foi aí que foram buscar ao fundo dos buracos o pior do sistema, para mudar a mentalidade deste país e ensinar pessoas comuns, como tu, a odiar cegamente, sem sequer perceberem porquê.
Odeias não ter lugar na creche para o teu filho e culpas o imigrante — mas não culpas o corte do IRC aos mais poderosos, dinheiro que daria para garantir creches para todos os que precisam.
Ao mesmo tempo que odeias esse “socialismo”, esqueces que foi precisamente esse “socialismo” que te deu essas creches.
Odeias que as urgências de obstetrícia estejam fechadas e culpas a mulher imigrante que teve um filho em Portugal — esquecendo que temos hoje menos nascimentos do que há dez anos.
Não foi a pressão do número de grávidas. Foi a pressão do lucro privado que roubou médicos ao SNS, e o aumento de 20% da população idosa. Mas isso os bilionários não querem que tu saibas. É melhor para os bolsos deles que culpes o trabalhador imigrante e não penses muito no assunto.
Odeias o imigrante que aluga um quarto e atribuis-lhe o aumento do custo da habitação — quando, na verdade, sem ele não haveria quem construísse habitação nem quem reabilitasse casas para arrendar. A falta de mão-de-obra é uma das principais razões pelas quais os custos da habitação dispararam, e com eles as rendas.
Odeias o imigrante porque ele é visível…senta-se ao teu lado no autocarro. Já, os milionários estrangeiros que vieram comprar casas e arrendá-las a preços exorbitantes; os que desviaram a construção da classe média para o segmento de luxo e turismo; os especuladores imobiliários; os grandes fundos com benefícios fiscais que atraem ainda mais capital predatório — esses são invisíveis.
Odeias um milhão de imigrantes que entraram ao longo de dez anos, mas fechas os olhos aos 30 milhões de visitantes que invadem o país todos os anos, pressionando o mercado imobiliário e empurrando os residentes dos grandes centros urbanos para a periferia.
O que não sabes é que hoje 12,5% da habitação é comprada por empresas, não por famílias. Mas o culpado de tudo, disseram-te eles, é o rapaz que veio do Bangladesh e que divide a casa com mais quatro pessoas.
Odeias os imigrantes que te constroem casas, tratam dos teus idosos, te servem no café e colhem os alimentos que compras no supermercado. Dizes que eles são os culpados, que pressionam os serviços públicos — mas ninguém te explicou que a população, mesmo com imigração, apenas aumentou 3,7% em 10 anos, Isso porque vivemos num país envelhecido e a morrer.
Odeias o socialismo que não existe, mas foi dele que nasceu quase tudo o que hoje consideras um direito adquirido: a escola pública, o SNS, o direito a um mês de férias pagas, o direito ao descanso, o abono de família, os manuais escolares gratuitos, o subsídio de desemprego e a reforma. Na verdade, odeias e nem sabes o que estás a odiar.
Odeias o aumento da criminalidade que vês em vídeos nas redes sociais, quando os números indicam que a criminalidade violenta tem vindo a diminuir de forma consistente. No tempo de Passos Coelho, quando André Ventura andava no PSD, a criminalidade violenta era 25% superior — mas ele andava caladinho.
Odeias e culpas grupos de imigrantes porque te olham, porque foste doutrinado para sentir medo de caras com tons de pele mais escuros. Mas os crimes que estão a aumentar são os dos jovens radicalizados.
O crime de ódio, o número recorde de chamadas da polícia às escolas e o facto de 20% dos violadores, segundo o RASI, terem menos de 20 anos mostram outra realidade. Não é o desconhecido na rua. É o namorado. O conhecido. O familiar.
Até ao nível dos crimes rodoviários, o que se vê é o individualismo do “cada um por si”, com o Estado desinteressado em formar bons condutores.
Odeias os dependentes de subsídios e achas que os imigrantes vivem deles porque os vês na praça durante o dia — mas ninguém te explica que eles são a força de trabalho mais precária em Portugal: trabalham algumas semanas e ficam outras à espera do próximo trabalho.
Odeias os subsídios para os pobres, mas não sabes que os 20% mais ricos recebem mais subsídios do que os 20% mais pobres.
Odeias os partidos que te defendem para ficares ao lado de quem se ri de ti no campo de golfe. É assim que acabas a votar contra ti próprio. Quando vives com medo e em paranoia permanentes, já não votas em quem te protege. Votas em quem te promete castigar alguém. Esse é o golpe.
Tu podes ganhar o salário mínimo, não ter dinheiro para pagar um seguro de saúde, não conseguir pôr os teus filhos numa escola privada, receber abono de família, precisar do SNS, precisar da escola pública, precisar da reforma, precisar dos direitos laborais que outros conquistaram antes de ti — e, mesmo assim, foste convencido a odiar o centro-esquerda como se fosse ele o teu inimigo.
Fizeram-te acreditar que os abonos de família que recebes não te tornam “subsídio-dependente”, mas que o apoio dado a alguém mais pobre do que tu já é um escândalo.
Fizeram-te acreditar que o problema do país era o pobre que recebe pouco, o imigrante que trabalha muito e a mulher de lenço.
Muitos votaram porque viram muitos videozinhos nas redes sociais.
Votaram porque acharam que a grande insegurança no país era uma mulher islâmica com um lenço na cabeça e uma máscara cirúrgica no rosto, que foi levar o filho à escola.
Votaram porque acreditaram que, talvez, castigando outros pobres, conseguissem viver melhor.
Votaram na mudança, sem perceber que essa mudança era voltar para o passado, quando o país vivia na miséria.
Mal sabes que és usado pelos bilionários que financiam esses partidos. E que, depois de os poderosos “controlarem” os imigrantes, serás tu o próximo a ser controlado… Aliás, já estás a ser controlado.