“Economicamente correcto”? Não, obrigado.

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 14/09/2017)

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Sandro Mendonça

O vírus do “politicamente correcto” não se vê mas é real. Teve origem na América do Norte há cerca de 3 ou 4 décadas e foi infectando outros países. Os sinais são qualquer coisa como a sensibilidade extrema por parte de uma elite urbana e bem-pensante de que todas as atitudes e a linguagem que ofendam determinados grupos supostamente descriminados devem ser denunciadas e eliminadas. Este filão do “politicamente correcto” veio de uma (à altura) “nova esquerda” que tinha perdido a batalha na arena da economia. Isto é, desistiu da luta de classes (se calhar isso dava muito trabalho!) e agarrou-se à bandeira identitária: isto é, investiu tudo em categorias como “género”, “raça”, “orientação sexual”, etc.

Contudo, o “politicamente correcto” é uma patologia. Mas não é uma patologia gratuita: dá de comer a muita gente. É pau para toda a obra e tornou-se, como se diz hoje em dia, uma “indústria”. Parte do seu problema essencial é a contradição. Por exemplo: 1) o facto é que para uma certa “esquerdinha adocicada” é fácil falar bater no peito em prol de ciganos mas na verdade não quer viver perto deles; 2) certos jornalistas iluminados de um certo diário generalista português exploram o filão o racismo do império português e fazem manchetes contra o racismo em Portugal não hesitando em usar os testemunhos de privilegiados académicos africanos bem conhecidos pelas suas atitudes racistas para com portugueses ou classistas para com os seus concidadãos e em usar a auto-vitimização para esconder manifestas faltas de competência.

Enfim, há algo hipócrita aqui: o “politicamente correcto” é não dizer o que efectivamente se pensa.

Porém, a direita não está imune a manifestações de outras estirpes desta família de vírus moderno. O fenómeno homólogo na direita é o “Economicamente correcto”, isto é, a insistência em medidas que sabe à partida que falham e que ela própria não desejaria de ver aplicadas a si.

Por exemplo, austeridade: a) na realidade não há provas que tenha funcionado para equilibrar as contas públicas em nenhum país em que tenha sido aplicada pois é uma política macroeconómica auto-derrotista, e b) sobretudo a austeridade é para os “outros”, para os assalariados e para o resto da plebe.

Que manifestações de “Economicamente correcto” por cá hoje em dia? Estas:

  • CIP quer baixar o IRC: Deste o início da década de 1990 que a taxa de IRC baixa e isso só tem coincidido com a queda tendencial do crescimento da economia portuguesa. Portanto, nada permite presumir na prática que esta medida seja uma “bala de prata” para dinamizar a produção. Aliás, nem os custos do Estado nem os custos do trabalho são assim tão determinantes para as empresas que mais produzem e exportam…. O problema são os custos intermédios com electricidade, telecomunicações e financiamento. Então o que faz António José Saraiva, Presidente da CIP, quando aparecer a reclamar uma baixa radical de IRC?! É que se ele na sua empresa não admitiria um corte radical de receitas estando a oferecer o mesmo serviço aos clientes mas esquece-se que o Estado também é um agente económico que produz serviços para empresas e famílias. O que esses representantes do patronato perpetram é, portanto, o “politicamente correcto” aplicado à economiazinha.
  • Greve na Autoeuropa é estúpida: A luta na Autoeuropa tornou-se uma polémica. Agita-se o papão do desinvestimento em Portugal…. com instabilidade laboral ninguém vai querer investir cá, dizem! Porém, sabemos como na Inglaterra ou até na Alemanha (pessoal da Lufthansa, levando ao cancelamento de milhares de voos) há greves …. países afinal sempre usados como alegadas fontes emanadoras do “economicamente correcto”. É que, como alguém explicou muito bem, muita gente que anda por aí a dizer isto e aquilo na internet mas afinal nunca desejaria para si ou para os seus filhos trabalhar sempre ao fim de semana pelas condições oferecidas.
  • Junker, o integracionista: Junker num discurso de fuga para a frente acusa a Turquia de se afastar dos valores mas tolera no seio da UE experiências proto-fascistas como na Polónia e na Hungria. Essa é boa, Sr. Junker! A maior crise na Europa é de democracia, como a imposição de uma distribuição assimétrica dos custos da recessão económica bem mostrou…. E para Junker a cura para essa doença é, nada mais nada menos, que menos democracia! É que a sua proposta é um ministro das finanças não eleito para a Europa a mandar nos recursos públicos nacionais contornando os parlamentos eleitos. Tudo em nome da “eficácia”, como ele diz. Essa é muito boa, bravo!
  • Comércio internacional sem transparência e justiça económica é bom: Quase do dia para a noite foi marcada a votação do CETA (Acordo Global, Económico e Comercial entre o Canadá e a União Europeia) na Assembleia da República para 18 e 20 de Setembro. Cada um dos estados-membro da UE tem de proceder à sua votação e ratificação, mas isso arrisca-se em Portugal a suceder sem o mínimo de debate genuíno. Que haja pelo menos uma forte chamada de atenção pois o governo português está demasiado inclinado a fazer passar isto como se nada de mais se tratasse. Dia 18 frente à AR há o evento “24 horas contra o CETA” (ver detalhes aqui)… que seja um alerta pela transparência e justiça económica nos negócios internacionais.
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O gambozino da maioria absoluta

(Francisco Louçã, in Público, 22/08/2017)

 

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Este texto sugere-me alguns comentários caro Louçã:

  1. A direita já viu que a Geringonça vai até ao fim da legislatura.
  2. Tenta atrair o PS com “os cânticos da sereia” da maioria absoluta.
  3. Prepara a saída de Passos Coelho para tornar eventuais acordos ao centro mais tentadores e menos indigestos para o PS.
  4. Tenta convencer o PS que, mesmo sózinho, a maioria absoluta pode estar ao virar da esquina.
  5. Tudo fábulas encantatórias. Em eleições gerais, em 2019, antevejo um reforço eleitoral dos partidos à esquerda do PS, se até lá não cometerem grandes asneiras, como, por exemplo, abrirem uma crise política.
  6. E a razão é simples: todas as reversões na política de rendimentos que melhorou a vida das pessoas foram consequência das exigências ao PS feitas por esses partidos. Os eleitores viram que o seu voto quer no BE quer no PCP deixou de ser apenas um voto de protesto e que passou a ter influência na governação, logo nas suas vidas. 
  7. Logo, não há razão para que mudem o seu sentido de voto,, antes pelo contrário: muitos pragmáticos de centro-esquerda terão tendência a reforçar tal sentido de voto, porque ele passou a ter relevância prática e para que o PS enterre de vez as suas tentações de construir alianças ao centro, tipo bloco central.

Estátua de Sal, 22/08/2017


Que há quem garanta que os gambozinos existem, é ponto assente; mas que nunca foi caçado tal bicho, parece mais do que certo. Descontando as inquietações popperianas sobre a dificuldade de refutar a primeira hipótese, resta o problema maior para os duvidantes: devemos caçar gambozinos na presunção de que existem ou de que não existem? A questão complica-se ainda mais para quem sustenta que a inexistência de provas documentadas sobre alguma aparição do animal sugere que se trate de uma ficção. Então, a questão passa a ser: devemos aceitar a ideia da caçada que tomamos por pueril ou devemos recusar o jogo, ainda que algum dia pudesse ser provado que a ausência do registo do bicho foi descuido nosso?

A questão da maioria absoluta é mais ou menos como escolher com que estado de espírito se devem caçar gambozinos. Se tomamos por certo que não haverá maioria absoluta possível na actual configuração da relação de forças, então nem vale a pena considerar a fera. E há boas razões para tal agnosticismo: para uma maioria absoluta, o PS teria de comprimir o PSD muito para além do seu mínimo histórico, mesmo considerando que o CDS já está enfraquecido. Então, a única questão interessante passa a ser: porque é que se fala de coisa nenhuma e se discute uma inviabilidade, ou porque é que nos entretemos com uma veleidade gabozinesca?

A resposta pode ser: não interessa a fantasiosa maioria absoluta, interessam os motivos para se falar dela. Exemplo, para o director do Expresso é preciso que o PS tenha maioria absoluta para então ser mais pressionado do que agora. O raciocínio é decerto contraditório com a experiência dos eleitores: eles sabem que se o PS tivesse tido maioria absoluta teríamos tido pensões congeladas por mais quatro anos, redução nas pensões sociais (o previsto era 1020 milhões) e uma nova regra para facilitar despedimentos, pelo menos. O problema não é de pressões, é de realizações.

O director do PÚBLICO segue outra via e pergunta-se se a entrevista recente de Costa, sugerindo um pacto com o PSD depois das autárquicas para decidir fundos estruturais, é mesmo uma abertura a um novo bloco central e portanto a uma maioria absoluta que “só será possível se for construída por quem tem ideias semelhantes sobre como funciona a economia livre, num mercado europeu e cada vez mais global e competitivo.”

Desculpem a franqueza, mas são gambozinos. Nem haverá pacto, cujo enunciado é o tradicional jogo do empurra das culpas, nem haverá vontade de mudar de parceiro a meio do tango. Haverá mais dificuldades nesta segunda metade do mandato, isso tratarei proximamente, mas ninguém pode voltar para trás. É aliás por causa desta certeza que alguns preferem sonhar com a maioria absoluta, reconhecendo que nada podem fazer agora contra as condições que impuseram esta forma de maioria.

Para o PS, a maioria absoluta é também um gambozino: é evidentemente desejada, mas para jogar esse jogo tem de garantir que não conhece o bicho. Ora, vale a pena perguntar porquê. Qualquer enlevo do PS com essa ideia faria ressuscitar os temores de muitos dos seus eleitores, e mais ainda daqueles que precisa de ganhar para concretizar tal ambição, de que o PS volte ao seu programa e à sua política tradicional. Ou seja, para muitos eleitores do PS, a satisfação com a governação actual deriva essencialmente da certeza de que as circunstâncias excepcionais obrigaram o PS a um acordo com a esquerda. E uma maioria absoluta do PS significaria romper com esse acordo para voltar a um passado que assusta.

Assim, a equação gambozino passa a ser: o PS sabe que só conseguiria a maioria absoluta que lhe permitiria afastar os seus parceiros de esquerda se garantisse aos eleitores que nunca o faria e que, se tivesse o poder absoluto, nunca cumpriria o seu programa, antes continuaria submetido a esse mesmo compromisso que pretenderia romper. Gambozinos, portanto.

Voltar a falar de economia

(In Blog O Jumento, 22/08/2017)

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Entre praias, incêndios, falsos suicidas, assaltos mal esclarecidos e, mais recentemente, atentados terroristas, pouco se tem falado do país e quando se fala a seriedade não é muita, como aconteceu com a resposta do líder parlamentar do PSD a propósito da proposta de António Costa em relação às infraestruturas.

 É evidente que a direita não quer falar de economia, Passos e Cristas são agora devotos do diabo e já não analisam a realidade pelas páginas de economia, preferindo os obituários. O jornal preferido da direita já não é o Expresso, o tipo de notícias que mais excitam Passos e Cristas é mais o tipo de jornal que mostra mortos e feridos, assaltos e escândalos na primeira página. Até o Observador já parece outro, depois de meses a dedicar a home page a notícias sobre subidas de juros ou entrevistas com analista de empresas de rating, dedica-se agora a incêndios, um dia destes ainda vamos pensar que o José Manuel  Fernandes é porta-voz da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Compreende-se que a direita fuja do tema economia como o diabo da cruz, as boas notícias para o país não são a praia de Passos e Cristas. Mas a verdade é que quando os incêndios estiverem apagados o país será confrontado com a realidade e mesmo que as boas notícias desagradem à direita teremos de falar de economia. Há todo um presente e um futuro para discutir, ainda há gente a sofrer com a austeridade, há muitos portugueses que ainda têm de suportar a sobretaxa, há impostos a mais, há problemas para resolver.

Oxalá os problemas económicos pudessem ser apagados como se apagam os incêndios, mas isso não sucede. Quando algumas populações mais atingidas pelos incêndios já estiver esquecida do verão de 2017, ainda subsistirão muitos problemas na economia portuguesa. É por isso que é urgente voltar a falar de economia, debater as propostas do governo e exigir a Passos e a Cristas que digam o que querem.


Fonte aqui