Pobre Dr. Mexia

(Soares Novais, in Blog A Viagem dos Argonautas, 19/03/2017)

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1 – António Mexia, o todo-poderoso manda-chuva da Energia de Portugal (EDP), ganhou, em 2016, menos 140 mil euros do que em 2015. Mas tenham calma e não desatem a fazer já uma subscrição para ajudar a tapar tal rombo nas finanças caseiras do chamado senhor EDP. O Dr. Mexia meteu ao bolso 2,026 milhões de euros. Isto é: 5 587 euros por dia.

É o que diz o relatório de contas da EDP publicado na Comissão de Mercados de Valores Mobiliários (CMVM). Os 140 mil euros que Mexia não recebeu representam uma redução de 6,44% face a 2015 e deve-se, segundo o Jornal de Negócios, às “alterações na componente variável da renuneração.”

Esclareça-se que a renumeração fixa do assalariado dos chineses a quem o Dr. Passos entregou a EDP, “aumentou 25% acima da registada em 2015.”

Mais: o Dr. Mexia ganha quase 400 mil euros por via da renumeração variável de 2015, sendo que os mais de 600 mil euros que “restam foram pagos através da renumeração variável plurianual relativa a 2013.” Ainda segundo o mesmo periódico.

Mexia tem como salário fixo “a quantia de 983 908 euros” e recebeu um bónus extra da Comissão de Vencimentos “respeitante aos anos de 2012-2014, em virtude das qualidades de liderança e visão estratégica reveladas durante esse período pelo presidente do conselho de administração executivo.”  O conselho de administração custou à EDP 10,87 milhões de euros em 2016.

Percebe-se, assim, a razão pela qual o Dr. Mexia, tal como o Dr. Catroga, não está nada interessado em voltar a vestir a camisola de ministro. A da EDP é bem mais aconchegante…

É para isso que pagamos a electricidade mais cara da Europa. Para os patrões chineses serem uns mãos largas para com os seus funcionários. Os do topo. Obviamente.

2 – O país tem menos um desempregado: o Dr. Domingues ex-Caixa Ceral de Depósitos (CGD). Domingues regressou à Administração da “NÓS” para ser “vogal” da dita.

O Dr. Domingues reencontra-se, assim, com o seu amigo Lobo Xavier, o conselheiro-mandarete que levou ao presidente Marcelo as “sms” trocadas com o ministro Centeno.

É bem provável que o Dr. Domingues não ganhe o super-vencimento que auferiu como CEO da Caixa. Mas para adiar a sua ansiada reforma, como fez questão de afirmar quando aceitou presidir à CGD, o vencimento deve ser suficientemente generoso.

Além de mais, sendo apenas mais um “vogal” da administração da “NÓS”, o Dr. Domingues deve ter tempo suficientemente livre para dar corpo à sua propalada paixão pela vela.

Acresce outra vantagem: como se trata de uma empresa privada, o Dr. Domingues, ou “Pinta” como lhe chamava o seu avô de Arcos de Valdevez e que na sua juventude foi um fervoroso militante anti-capitalista-maoista, pode manter privado o seu património. Os juizes do Tribunal Constitucional não podem meter prego nem estopa…

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A economia do enriquecimento

(António Guerreiro, in Público, 18/03/2017)

Autor

   António Guerreiro

Acaba de sair em França um volumoso estudo dos sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre. Chama-se Enrichissement – une critique de la marchandise e é uma imponente análise e descrição de uma transformação económica iniciada no último quartel do século XX: de uma economia industrial passou-se para uma “economia do enriquecimento”. Enquanto a primeira incidia no desenvolvimento da capacidade produtiva de objectos standardizados e extraía valor de um alto nível de exploração do trabalho, a segunda baseia-se no factor do “enriquecimento”. Esta palavra é usada no livro com um sentido ambíguo: refere-se a uma economia inteiramente voltada para o luxo (portanto, destinada prioritariamente aos ricos), mas também às operações de enriquecimento de coisas existentes, no mesmo sentido em que se fala de enriquecimento de um metal. Por conseguinte, esta nova economia própria de um capitalismo desindustrializado não corresponde à produção de objectos novos, mas à criação de valor especulativo em tudo o que já existe e tem um passado. Hoje, como se pode ver em lojas de mobiliário “vintage”, até móveis e objectos do Ikea são vendidos como peças valiosas depois de serem “descontinuados” nas lojas da cadeia sueca. A indústria do luxo, o comércio de objectos antigos e de colecção, a criação de fundações e de museus, as artes e a cultura, a patrimonialização e o turismo: tudo isto faz parte dessa economia que tende a criar “bassins” – bolsas – de enriquecimento (por exemplo, lugares onde há uma concentração de edifícios de culto, por vezes uma cidade inteira). Em certos casos, essas bolsas são induzidas por aquilo a a que Boltanski e Esquerre chamam “patrimonialização provocada”. Foi o que aconteceu em Bilbau, uma cidade outrora industrial, resgatada para a arte contemporânea e para o turismo cultural através da implantação do museu Guggenheim, projectado pelo arquitecto Frank Gehry.

Esta nova economia que injecta valor mas não produz nada explica que os profissionais da cultura tenham duplicado nas últimas duas décadas, informam os autores do livro; e explica também o funcionamento do sistema contemporâneo do mercado da arte e das exposições. Boltanski e Esquerre dedicam um bom número de páginas a fundações e centros, museus, leilões, bienais. Um exemplo destacado é a transformação do edifício da fábrica da Fiat, em Turim, emblema do mundo operário que já não existe, num imenso centro com hotéis, restaurantes, galerias. E, na parte superior, uma cúpula concebida pelo arquitecto Renzo Piano, onde foi alojada a colecção de arte do antigo dirigente da Fiat.

A lógica da política cultural inaugurada por Jack Lang, em França, mas difundida noutros países, segundo a qual tudo se pode tornar cultura e até os estilos de vida participam do processo de “artificação”, foi posta ao serviço da economia. Esta transformação que pôs em primeiro plano a economia do enriquecimento escapa em boa parte à compreensão da ciência económica tradicional (a precisar do auxílio da sociologia) e subtrai-se à marxiana “crítica do valor”.

Para Marx, o capitalismo, precisando de produzir cada vez mais para obter a mesma quantidade de valor, haveria de se autodestruir.Mas na sua crítica da economia política o valor da mercadoria tem como medida única o tempo de trabalho necessário para a produção. Ora, na economia do enriquecimento, o valor já não tem nada a ver com o tempo de trabalho. Marx foi aqui ultrapassado por Mallarmé. Foi o poeta, e não o filósofo, o primeiro a compreender a frivolidade implícita no paralelismo entre a economia e a estética, quando escreveu: “Tudo se resume à Estética e à Economia política”.