Carta a um amigo que me aconselhou a ir ao psicólogo ou ao psiquiatra

(Júlio Marques Mota, in A Viagem dos Argonautas, 23/06/2022)

Meu caro amigo

Fiquei espantado com o que me disse, esta manhã. Preciso de um psicólogo. Talvez, não digo nem que sim nem que não, mas se sim garantidamente não será pela razão apontada.

E vejamos com alguma atenção o porquê da minha afirmação anterior. Acusa-me de não estar bem quando o acusei de desonestidade intelectual. Pressuposto na sua afirmação é de que não o é nem o foi. Pressuposto da minha parte é que não o é, mas de que o foi, precisamente, naquela resposta que um dia me deu e a qual eu considerei de pura desonestidade intelectual.

Para já tiremos às palavras a carga emocional que elas podem ter fora do seu contexto. Desonestidade intelectual significa aqui que se coloca um raciocínio viciado contra a posição de alguém ou que se quer bloquear aquele de quem se discorda, respondendo com perguntas que nada têm a ver com a questão inicialmente levantada.

Veja-se: tinha-lhe enviado um texto de John Ganz que fala da degenerescência democrática nas sociedades ocidentais. Estava-se a poucos dias de diferença do trágico assassínio em massa em Uvalde. Honestamente sugeri, mesmo a quem o tema da degenerescência não interessasse, que lesse o último parágrafo. Um parágrafo aterrador em que nos fala da polícia que foi a Uvalde buscar os seus filhos e deixou lá os filhos dos outros. Não são cidadãos comuns, é gente fardada, com farda oficial, que fez isto!. Que significa então esta ação senão degenerescência na democracia? E para não falar também do que significa o assassínio em massa de Uvalde ou noutro qualquer lugar. Era este o texto em questão ao qual o meu amigo responde. E cito de memória a sua resposta:

Gostaria de o ver a criticar as sociedades socialistas que defende  como Cuba ou outras.

Ora isto não tem nada a ver com o texto que lhe mandei. Certo? Mas mais: fala-me de repúblicas socialistas que defendo, pretendendo que eu escreva sobre elas. Respondi-lhe; é desonestidade intelectual responder a alguém,  em que como resposta a um problema grave que lhe é apresentado, responde apenas com um pergunta ou afirmação que nada tem a ver com o que está em análise. Foi o que lhe disse e hoje manteria a mesma resposta. Em análise linguística isto tem um nome, os ingleses e americanos chamam-lhe whataboutism. Mas respondi-lhe mesmo assim dizendo que do meu ponto de vista, e é esse que interessa aqui, pois seria eu que escreveria, nunca houve nenhuma república socialista no mundo, houve sim tentativas falhadas de passagem de modos de produção não capitalistas a transições para o socialismo e sem qualquer modelo de suporte. Falharam e Marx tinha razão. O que se pretendia para essas sociedades em pressuposta transição para o socialismo não tinha nada a ver com o grau de preparação dessas sociedades, o chamado desenvolvimento das forças produtivas. O mesmo se passou com as Primaveras coloridas de Hillary Clinton, falharam todas. Podemos também tomar como exemplo a Rússia em 1917 e 1991. No primeiro caso passou de repente de uma sociedade feudal para um estado de caos e como reação a esse caos passou depois para um capitalismo de Estado rapidamente em degeneração (1917); no segundo caso, 1991, e de repente, outra vez, quiseram que se fizesse a transição rápida para um capitalismo selvagem e num país em que praticamente ninguém sabia o que era propriedade privada. Falhou e gerou-se assim um regime autocrático como resultado. De Gorbatchov e, logicamente, da Casa Comum Europeia, nem um ar, mataram a ideia antes de a semearem. Certo?

Esta foi a minha resposta ao seu pedido e acha agora que eu, face ao que escrevi, devo ir ao psicólogo ou mesmo ao psiquiatra! Primeiro tinha que me mostrar os erros profundos de análise e de descoordenação de pensamento para justificar essa sua afirmação e também não o fez. Donde, do ponto de vista lógico ou intelectual, é apenas isso que interessa aqui e no contexto em análise, isto  só tem um nome: é desonestidade intelectual a que também se pode chamar a isto provocação não intencional: Passemos por cima de tudo isto e é  o que estou a fazer.

Deixe-me acrescentar um detalhe: quando fala das sociedades socialistas que eu defendo, isto não é verdade, nunca me viu defender o que para mim não existe, as ditas sociedades socialistas. Há aqui uma confusão e esta confusão é sua. Sou marxista de formação de base, um defeito para muita gente, para mim uma qualidade, sobretudo porque me considero equipado com as armas críticas da heterodoxia. Não haverá muitos em Portugal. Basta ler o que se escreve. Aliás não haverá muitos universitários, se os houver, que tenham lido tanto de Marx como eu e, sobretudo, que o tenham lido criticamente. Não é por acaso, que me reclamo intelectualmente de ser filho de Ricardo, Marx, Hegel, Sraffa, Keynes, Arghiri Emmanuel, Marriner Eccles (o Keynes antes de Keynes) e de Michael Pettis. Não será assim por acaso que,  se abrir o livro de Pettis, Trade Wars Are Class Wars, verá aí o meu nome nos agradecimentos do autor, pelas diversas trocas de opiniões, algumas longas, antes da publicação daquele que no ano da sua edição foi considerado livro do ano.

Digo-lhe isto, meu amigo, e com toda a ternura de quem tristemente olha para o descalabro da sociedade hoje para que o meu amigo perceba que, com este tipo de formação, eu não poderia cair nunca na ratoeira que de forma não intencional me colocava pela frente, desejando que eu escrevesse sobre as sociedades socialistas que não existem. Dessas, a seu tempo, falará a História mas apenas ao longo dos próximos séculos, disso estarei certo. Olhe-se para Marx e que escreveu ele, o maior visionário da história do capitalismo ? Nada, ou então apenas pura ironia e isto sobretudo no Manifesto Comunista. E que queria o meu amigo que eu escrevesse? Ironia, ou antes, o seu pedido é que é pura ironia e, como há pedidos que não se fazem, o seu, há respostas que não se dão. É este o caso.

Mas também lhe digo que com a histeria que atravessa a sociedade atualmente a sua própria sugestão de eu ir ao psicólogo ou ao psiquiatra e excluindo a enorme carga de ternura com que foi dita, poderia ser vista como tendo um outro contorno[1]. Um exercício mental. para esta última hipótese. Imagine essa sugestão feita secamente, isto é fora do contexto amigável e até fraternal em que me apresentou essa sugestão, e feita a todos os que não alinham com o pensamento oficial dominante. Como exemplo de pensamento dominante, aplicado a uma situação concreta, veja-se a década perdida com a política austeritária imposta pela União Europeia em todos os países-membros e com o argumento de que a crise da dívida pública (não se fala da dívida privada) seria ultrapassada com uma política de crescimento assente na dinâmica das exportações de cada um dos países membros, mas para onde? Se a austeridade é para todos, aumentar as exportações só é possível se for para a Lua. Bom, quem não defendesse essa argumentação da União Europeia, sofria as consequências, a ostracização, por exemplo. Contam-se pelos dedos de uma mão os economistas que foram à televisão argumentar contra o pensamento dominante e levavam pela frente com o ruído, quer  dos adversários que mal os deixavam falar   quer  dos respetivos moderadores das televisão.

Depois,  com o aprofundar da crise, considere que esta sugestão de ir ao psicólogo ou ao psiquiatra passa a ser considerada um imperativo legal, como aconteceu em muitos casos com as vacinas COVID. Isto significa que quem não aceita a verdade oficial é considerado deficiente, mentalmente doente! Isso não nos faz lembrar nada, a Ocidente ou a Leste?

No quadro deste exercício mental, relembro aqui, de memória, o cineasta Luchino Visconti e Os Malditos, onde um oficial SS diz à sua prima Essenbeck, mais ou menos isto: aqui está o contributo do povo alemão para a edificação do Terceiro Reich e, citando Hegel, diz também que quando uma flor se atravessa no caminho do Estado este só tem de fazer uma coisa: esmagá-la. Para onde estaríamos a caminhar, neste exercício intelectual? Eu digo-lhe, estaríamos a caminhar para um Estado totalitário, de razão única em que este define o que é a verdade e o que é a mentira.

Dessa verdade, a oficial, nos fala o jornal conservador O Observador ontem, (20.06.2022) quando noticiava:

“Kaliningrado ameaça Lituânia com resposta dolorosa

Bloqueio russo de cereais ucranianos é “verdadeiro crime de guerra”, diz Borrell. Kremlin promete retaliar depois de a Lituânia bloquear parcialmente trânsito de mercadorias para enclave russo.” Fim de citação

Conclui-se, bloquear alimentos destinados aos russos é normal, bloquear alimentos destinados aos “defensores do Ocidente” é crime de guerra. E aqui está a verdade oficial. A isto e parafraseando  a obra de George Orwell diremos que se trata de pensamento duplo. Duas ideias contraditórias e ambas aceites na cabeça do Comissário Europeu.

Sobre isto diz-nos Chomsky:

“George Orwell tinha um nome para isso. Chamou-lhe duplo pensamento, a capacidade de ter duas ideias contraditórias na sua mente e acreditar em ambas. Orwell pensou erroneamente que isso era algo que só se podia ter no estado ultra-totalitário que ele satirizava em 1984. Ele estava errado. Pode tê-lo em sociedades democráticas livres. Estamos a ver um exemplo dramático disso neste momento. A propósito, esta não é a primeira vez que tal acontece.”

Inegavelmente em 1984 e em A Quinta dos Animais Orwell tinha razão  quanto aos estados totalitárias e à degenerescência das democracias ocidentais, com estas a aproximarem-se dos regimes que o Ocidente diz estar a combater. Possivelmente, esta é uma verdade que custa a engolir e que explica porque se vê tanta gente a meter a cabeça na areia ou explica ainda muitos dos comportamentos tidos contra aqueles que não aceitam a lógica do pensamento único que caracteriza as autoridades de agora.

A fuga à verdade, à profundidade das razões que estão por detrás desse disfuncionamento, fuga esta geradora de muitas das nossas angústias, é o caminho que a Ocidente tem escolhido. Um exemplo de chapa no caso português: veja-se a desgraça do SNS com médicos especialistas pagos a pouco mais do que as empregadas domésticas, considerando-se, por definição, o trabalho destas como um trabalho claramente indiferenciado!

Esta realidade do SNS não é de agora, vem desde a política económica imposta pela Troika, e esta foi a da depreciação de tudo o que é trabalho diferenciado, especializado, desde que não seja nos mercados financeiros. Não é uma realidade criada  por Marta Temido. Uma realidade que só agora o nosso Presidente da República assume como uma realidade estruturalmente complexa! Só agora!

Mas há mais. Imaginemos duas empresas de serviços de saúde, A e B , cada uma com dois médicos ou mais, em  que a empresa A está sediada em Aveiro e a empresa B está sediada em Leiria. Cada uma destas empresas prestadoras de cuidados de saúde faz dois contratos de prestação de serviços: A empresa A faz um contrato de trabalho a tempo parcial com o Hospital de Aveiro de 12 horas e com a remuneração de 10 euros a hora.. E faz depois um contrato de prestação  de serviços com o Hospital de Leiria de 24 horas semanais a 50 euros a hora. Por sua vez a empresa B faz o mesmo tipo de operações mas  em posições simétricas. Faz um contrato de horário reduzido de 12 horas  semanais  com o Hospital de Leiria a 10 euros por hora e um contrato semanal de 24 horas semanais com o Hospital de Aveiro a 50 euros por hora. Tudo  dito quanto à competência política da nossa Administração, tudo dito quanto à precariedade criada com técnicos especialistas a ganharem pouco mais do que a empregada doméstica  e outros médicos a ganharem volumosas quantias de euros. Tudo isto porque não há carreiras médicas condignas, há sim um política de degradação de quem trabalha e depois há por esta via quem possa encher o saco.  Por cada conjunto de dois médicos  temos a soma de 240 euros+(24.10) +2400 (48.50)= 2640, um custo horário médio por  médico de 36.70 euros! média horária. Se o Estado pagasse aos jovens médicos 20 euros hora e lhes garantisse carreira condigna, toda a gente  ficava a ganhar, doentes, Estado, jovens médicos, com exceção dos  vampiros da medicina que os há.

A “escassez” de médicos já gerou tragédias sem que haja responsabilidades de ninguém. É uma situação de mercado, é uma questão de oferta e procura, dir-me-ão. É mentira, esta posição. O mercado é o respeito de um conjunto de regras estabelecidas a nível das instâncias públicas responsáveis . São estes legisladores que são os responsáveis últimos das tragédias que se estão a viver, são eles e são igualmente os decisores políticos que preferem as politicas austeritárias e que são insensíveis aos dramas que estas suas políticas geram. Falar em demissão de Marta Temido é patético, goste-se ou não dela, é patético pois esta situação tem apenas a ver com o modelo  austeritário dos governos destes últimos 12 anos e antes dela ser ministra.

Mas quanto à política de degradação salarial destes profissionais, há algo mais que deve ser sublinhado. É que esta é uma forma de os empurrar para fora do país. Lembram-se da almofada de conforto do tempo de Passos Coelho? É isto, mas isto ninguém reverteu dele. Tocar nas relações de trabalho é uma linguagem  que os nossos governantes, nem Bruxelas querem aceitar, até porque como sabemos é mais  fácil destruir do que reconstruir. E reconstrução é coisa que não se vê nem no PSD nem no PS,  com exceção neste partido, eventualmente, de Pedro Nuno Santos, e digo, eventualmente, porque nunca entendi a posição deste ministro quanto à bitola não europeia dos caminhos de ferro portugueses.  Podemos ainda analisar este empurrar para fora do país como uma fraude que está a ser cometida contra o país.  Com efeito o curso de medicina é um dos cursos mais caros do país.  O país gasta dinheiro, gastou dinheiro na formação destes alunos no secundário, gasta em grande na sua formação no superior. Chamemos a isto investimento em capital humano. Ora, criar condições que significam objetivamente estar a mandar os nossos licenciados especializados  para fora do país, significa estarmos a dar como donativo ao estrangeiro todo o dinheiro gasto na formação destes licenciados a países que têm ainda o ensino mais degradado  que nós mas que nos acusam depois de países despesistas!

E se em vez de estar a forçar os nossos estudantes de medicina  a irem para os estrangeiros os obrigássemos a trabalhar os primeiros cinco anos em instituição públicas de saúde mas com carreiras profissionais condignas? Onde é que é esta o mal nisto?

Central nesta situação triste e já trágica está a necessidade de reestruturar as carreiras médicas, no mínimo revertê-las para a situação em que estávamos antes da Troika, mas reversão é um termo banido do vocabulário dos nossos políticos, Marcelo inclusive. Responsáveis existem, a Comissão Europeia, o Primeiro-Ministro António Costa, o ministro das Finanças, tenham sido eles, Mário Centeno ou João Leão e, no fim da cadeia, teremos a pessoa  que menos pode fazer, a Ministra da Saúde. Mas há ou haverá premiados por este facto: Centeno vai para governador do Banco de Portugal, João Leão é proposto para diretor de uma ferramenta criada para impor a austeridade aos Estados-membros, o MEE, e Costa irá possivelmente para um alto cargo europeu, para não falar do destino de ministros anteriores das Finanças, Vítor Gaspar (FMI) e Álvaro Santos Pereira (OCDE).

Meu querido amigo, esta reação já vai longa, mas pelo que acima explico, quem precisa de ir ao psicólogo ou ao psiquiatra serão todos aqueles que vivem num mundo de pensamento duplo como o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Joseph Borrell,   e eu sinto que neste mundo de pensamento  duplo eu não estou.

Um grande abraço de quem não se sentiu magoado com a sugestão assinalada no início deste texto.


P.S. Não falamos da Ucrânia. Quanto a esta questão remeto para o texto do Vaticano em anexo – um texto que passa quase que em silêncio absoluto na nossa imprensa mas  onde se diz alto e bom som que  vivemos em liberdade de imprensa –  onde com exceção do problema da guerra por procuração, se defende os mesmos pontos de vista que tenho defendido, eu e os meus colegas, em múltiplos textos publicados no blog A Viagem dos Argonautas. Não se irá certamente dizer que também se aconselharia o Papa a ir a um psicólogo ou psiquiatra, creio eu. Utilizo aqui o pronome SE porque não entraria numa provocação, mesmo que não intencional, e colocá-lo a si a apresentar a mesma sugestão ao PAPA que me apresentou a mim. Pelo respeito que lhe tenho, e mantenho, nunca faria esta pergunta noutros termos que não estes.

Original aqui


[1] A este propósito tomo a liberdade de lhe sugerir a leitura do livro The Psychology of Totalitarianism de Mattias Desmet, da Universidade de Gante (Bélgica), publicado em junho de 2022 ou uma boa recensão sobre o mesmo. São muitas e diversas. Podemos discordar de muitos dos pontos de vista do autor, é o meu caso, mas sugere-se a sua leitura, porque  esta nos  obriga  a refletir sobre o clima de histeria em que se vive. 


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Os cortes de impostos da direita não funcionam nem fazem falta

(Vicente Ferreira, in blog Ladrões de Bicicletas, 18/02/2022)

Os impostos voltaram ao centro do debate em Portugal. Muitos, à direita, veem no nível de fiscalidade um dos principais obstáculos ao desenvolvimento económico do país. Apesar de ter sido responsável pelo maior aumento de impostos sobre as famílias desde o início do século, a direita tem feito campanha pela redução de impostos para todos. No seu programa eleitoral, o PSD propunha começar por baixar o IRC para as empresas e depois avançar para eventuais reduções do IRS para as pessoas. A IL defende simultaneamente uma enorme redução do IRC (que quer mesmo eliminar a médio prazo) e do IRS (que quer alterar para passar a ter apenas uma taxa, de 15%). O CH já chegou a defender a abolição do IRS, seguindo o exemplo de países como o Vanuatu ou as Ilhas Caimão, mas a proposta não consta do último programa que apresentou. Em todo o caso, todos querem reduzir os impostos em geral. Vale a pena tentar perceber os impactos que estas medidas teriam.

1. Cortes de impostos para as empresas: não funcionam como dizem

A direita tem repetido à exaustão que os cortes de impostos para as empresas estimulam o crescimento económico. A ideia é relativamente intuitiva: menos impostos sobre as empresas permitem-lhes aumentar os montantes que reinvestem, contribuindo para melhorar a produção e os salários. Nos debates para as eleições legislativas, o candidato da IL disse várias vezes que acreditava que a redução dos impostos se pagaria a si mesma através do crescimento gerado, pelo que o Estado não teria uma redução abrupta das receitas. O problema desta crença é que os factos teimam em desmenti-la, como mostra a recente revisão de literatura feita pelos economistas Philipp Heimberger e Sebastien Gechert.

Há estudos que usam diferentes indicadores: alterações nas taxas nominais, nas taxas efetivas ou nas receitas fiscais do Estado. Os efeitos avaliados podem ser de curto ou de longo prazo. A metodologia varia consideravelmente. E embora alguns apontem para um impacto positivo no crescimento, outros dizem que é nulo ou até negativo. Heimberger e Gechert analisaram dezenas de estudos empíricos sobre os impactos de cortes de impostos para as empresas e procuraram perceber se havia algum consenso. A conclusão é que, ao contrário do que os partidos de direita têm dito, não há evidência empírica que nos permita afirmar que esses cortes promovem o crescimento económico.

Temos até exemplos bem recentes do contrário, como o dos EUA: embora o governo de Donald Trump tenha cortado a taxa de imposto sobre as empresas de 35% para 21% (o valor mais baixo desde 1939), o investimento privado não acelerou e os salários não beneficiaram da medida. Quem ganhou verdadeiramente foram os acionistas e gestores de topo, cujos rendimentos beneficiaram do reforço da capitalização bolsista das empresas. Para os trabalhadores com salários médios ou baixos, o resultado acaba por ser negativo, dado que o Estado perde receita fiscal com que se financiam os serviços públicos de que todos beneficiam.

2. Cortes de impostos para os mais ricos: funcionam, mas só para eles

A ideia de que as medidas que beneficiam os mais ricos seriam boas para o conjunto da economia já é antiga. A economia “trickle down”, como ficou conhecida desde os tempos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, funcionaria da seguinte forma: enche-se o copo dos mais ricos e este acaba por transbordar para os que estão abaixo por via do consumo e do investimento privado, distribuindo os benefícios pela sociedade.

É isso que está na base de propostas como a da taxa plana de 15% para o IRS. A medida representaria um alívio fiscal de enormes proporções para os escalões mais elevados, ao passo que deixaria na mesma os 44% de agregados familiares que não pagam IRS (por terem rendimentos baixos) e deixaria quase na mesma quem recebe salários médios, já que os eventuais pequenos ganhos seriam mais do que compensados pela redução das receitas com que se financiam os serviços públicos. No essencial, a lógica da medida é a mesma: se se baixarem os impostos para os que recebem mais, os restantes acabarão por beneficiar do aumento do investimento dos primeiros.

O problema é que a realidade tem sido bastante diferente: Julian Limberg (King’s College) e David Hope (London School of Economics) publicaram este ano um estudo em que analisam os impactos de cortes de impostos para os mais ricos ao longo dos últimos 50 anos e concluem que não promoveram o crescimento prometido. “Focando-nos no desempenho económico, não encontramos efeitos significativos de grandes cortes de impostos. Mais especificamente, a trajetória do PIB per capita e da taxa de desemprego não são afetadas por reduções significativas dos impostos sobre os ricos, tanto no curto como no médio prazo”, escrevem os autores do estudo, que já tinha sido referido neste blog.

O único efeito visível que estes cortes de impostos têm é na desigualdade. Nas últimas décadas, os países que mais reduziram a taxa de imposto aplicada aos 1% mais ricos foram aqueles onde a fração do rendimento nacional captada por estes mais aumentou.

Ou seja, nesses países, o 1% do topo passou a arrecadar uma fatia ainda maior do bolo, como mostrou um estudo de Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Stefanie Stantcheva (fonte do gráfico acima). Portugal é identificado pelos autores como um dos países que mais reduziu os impostos sobre os mais ricos, e a tendência foi a mesma: a fatia do bolo captada pelo 1% do topo aumentou, ao mesmo tempo que se reduzia a dos 50% da base da distribuição.

Entre os partidos de direita, a IL é o que tem sido mais vocal na defesa deste tipo de medidas. Os liberais costumam dizer que o seu programa económico já foi testado em vários países, e têm toda a razão. Mas era bom olharmos mais para os resultados que teve: mais concentração de riqueza no topo e mais desigualdades.


Fonte aqui


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A grande denegação

(António Guerreiro, in Público, 11/02/2022)

António Guerreiro

O estado de denegação é gritante e até obsceno, mas até agora, na esfera pública, ninguém tinha erguido a voz a denunciá-lo. Fê-lo Viriato Soromenho-Marques, professor universitário, ligado há muitos anos, civicamente e em termos de conhecimento científico e reflexão filosófica, às questões do ambiente e da ecologia: “Chegou a ser escandaloso, o conceito de crescimento ocupou o palco como se estivéssemos no século XIX”. Estas palavras, proferiu-as ele numa conferência na Academia das Ciências (segundo uma notícia da Lusa que o PÚBLICO online reproduziu na passada segunda-feira), referindo-se à campanha eleitoral.

Assim foi, de facto. E, no entanto, o país (e não apenas este: a Espanha está na mesma, o sul de França também, a Itália idem, para não irmos mais longe) estava — e continua — a viver do Minho ao Algarve uma seca extrema. Só o calendário nos diz que é Inverno. Desta vez, nem os radicais urbanos que olham a meteorologia a partir do guarda-fato e das banais contingências quotidianas podem ignorar o desastre em expansão. Enquanto a Terra aquece e se acelera a um ritmo vertiginoso a sexta extinção em massa (poderá a humanidade sobreviver sem os “serviços” biológicos prestados pelo mundo dos seres vivos que a sustenta?), o discurso político da campanha, como já era antes e continuará a ser depois, não se desviou um milímetro das consabidas discussões sobre economia, recuperação, crescimento, etc. Escandalosa é esta denegação: todo o edifício económico, seja ele visto mais à esquerda ou mais à direita, mais virado para a produção da riqueza ou para a sua distribuição, anuncia-se hoje como um desastre programado. Esta evidência já nem precisa de ser apreendida por aturadas investigações científicas, está bem patente e só fechando os olhos é que é possível não vê-la.

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Fechar os olhos é precisamente o que fazem os responsáveis políticos de todo o mundo, que vivem no estado de denegação (leia-se, sobre isto, Living in Denial: Climate Change, Emotions and Everiday Life, de Kari-Mari Norgaard). O tempo em que a denegação era motivada pela ideia de que a própria ciência estava a criar um embuste, de que não havia provas científicas de que estava a acontecer um ecocídio ou, pelo menos, de que ele não era engendrado pelas actividades humanas — esse tempo já passou. Agora, parece que já toda a gente se convenceu de que a ameaça de colapso não é uma invenção, de que as alterações climáticas se estão a ampliar a uma enorme velocidade e de que o território inabitável não pára de crescer (Inverno após Inverno, Verão após Verão, chegam as confirmações). Mas a universalização desta evidência originou uma outra categoria de denegação, aquela que em inglês se chama implicatory denial: existe a consciência de que as alterações climáticas são uma realidade, com efeitos que podem levar à extinção da espécie humana, mas tudo prossegue como se nada fosse. E o “tudo” compreende os programas políticos, as actividades económicas, a organização da vida quotidiana e profissional.

Como se explica que tenhamos já a experiência vivida dos impactos das mudanças climáticas e, no entanto, isso tenha um efeito quase nulo nos comportamentos e decisões dos poderes políticos, que se mantêm em denegação? É fácil de explicar: são tão fortes as palas ideológicas que o olhar não muda de direcção. Era precisamente para obrigá-los a seguir sempre em frente que se punham palas nos cabrestos dos burros.

Outro efeito das palas ideológicas: elas põem-nos à espera de que a tecnologia nos salve.

Uma dos temas mais discutidos nesta campanha eleitoral, trazido ao palco por mediação de um novo partido político, a Iniciativa Liberal, foi o liberalismo. A discussão foi exclusivamente ideológica e demonstrativa do regime de denegação em que vivem uns e outros. Nas circunstâncias actuais o liberalismo económico já não precisa de ser combatido no campo ideológico: o colapso ecológico-climático está prestes a encarregar-se de enterrar os seus laboriosos empreendimentos, a tolher os seus impulsos, a escarnecer dos bons ofícios do mérito. Sejamos aliás correctos: tais impulsos e empreendimentos, mesmo quando ideologicamente criticados, nunca deixaram de ser seguidos na sua lógica, em todas as latitudes político-ideológicas. A denegação é de largo espectro e afecta também o regime de temporalidade: não há nada excepto o presente.



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