O murro amável e o murro-murro

(Pacheco Pereira, in Público, 18/09/2021)

Pacheco Pereira

Na política portuguesa, há duas questões que não são “amáveis”, são de murro mesmo: não tanto o Orçamento, mas a negociação do Orçamento, e saber se o PSD será capturado pela direita radical.


Há críticas ao PCP parecidas com as críticas ao PSD: os seus radicais acusam-no de ser meigo com o PS, e por isso ter uma crise de influência eleitoral, e, de passagem, de “salvar” o Governo. O que está implícito nesta crítica é que, se PCP e PSD levantassem mais a voz, e se recusassem qualquer entendimento com o Governo e o PS, estariam a subir nas sondagens e teriam melhores resultados nas eleições autárquicas. No PCP, o objectivo dessas críticas seria o desejo de que o partido fosse mais duro nos conflitos sociais, no Parlamento, e, por fim, que inviabilizasse o Orçamento. As coisas só não são mais explícitas porque mesmo os radicais contra o PCP têm medo que a inviabilização do Orçamento pudesse levar a eleições e sabem que uma crise de influência da sua “esquerda” significaria não só um reforço do PS, como um reforço da direita mais radical.

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Uma variante muito repetida na comunicação social como “análise” é a afirmação de que, se o PCP tiver um mau resultado eleitoral, será mais difícil haver um acordo sobre o Orçamento. O mínimo que se pode dizer é que tanto pode ser de uma maneira como doutra, mas esta “análise” é um desenvolvimento de outra que atribui o enfraquecimento do PCP à experiência conhecida como “geringonça”. Já escrevi e não vou repetir que penso ser uma “análise” errada, visto que as razões da crise do PCP são muito mais fundas do que as circunstâncias dos últimos anos. Mais: penso que, se não houvesse entendimentos com o PS, ou seja, se o PSD e o CDS estivessem a governar, as coisas seriam ainda mais críticas. Nos dois últimos governos socialistas, os acordos deram ao PCP mais poder do que ele alguma vez teria numa oposição pura e dura, porque lhe deram acesso a um direito de veto a muitas políticas que lhe minariam a sua principal base de sustentação actual, os sindicatos.

A comparação entre o PSD e o PCP tem sentido para os radicais de ambos os lados, mas esgota-se nessa razão de ser e, quando se quer ir mais longe, perde-se o sentido. Explico-me. Comecemos pelas diferenças, e que tem a ver com o facto de Rio ser cercado pela direita radical, dentro e fora do PSD, e o PCP ser cercado pelo desgaste da sua influência social, um processo muito mais difícil de contrariar do que qualquer oposição interna, ou de sectores mais radicais da esquerda, que quase não existe no PCP. O PSD também sofre na sua influência social, mas a fonte dessa crise são as políticas do próprio partido, principalmente o abandono do seu papel reformista e moderado, que foi ocupado pelo PS, e que por isso essa influência pode ser recuperada porque é conjuntural. Ainda e para já – com o tempo as coisas podem mudar.

Por seu lado, o PCP tem uma crise estrutural, que pouco tem a ver com as políticas, por isso a posição face ao Orçamento é pouco relevante para contrariar ou aprofundar a crise, porque o que mudou foi a sociedade. Não que deixe de haver papel para as lutas e o conflito, bem pelo contrário, só que o seu enquadramento pelo PCP numa política global não se traduz em votos.

Sendo assim, há uma enorme diferença na actuação dos críticos da direita radical que atacam Rui Rio. A contestação a Rio vem do interior do PSD, e dos círculos da direita radical nos lóbis e na comunicação social, apoiada pelo Chega e pela Iniciativa Liberal e pelos restos do CDS, e no PCP a maioria das vozes estão fora do partido e são muito pouco significativas. Portanto, no PSD estas críticas funcionam como uma pressão imediata, enquanto no PCP ainda estão longe de o ser.

Outra diferença essencial, talvez a mais relevante, é que os críticos da direita radical contra Rio precisam desesperadamente de que o PSD tenha um mau resultado eleitoral, e trabalham para isso, e os do PCP ou são indiferentes a esse resultado, ou não o desejam por considerações com a força da “esquerda”. Sabem, aliás, que as razões dessa crise também lhes batem à porta. Mesmo o Bloco de Esquerda, que podia ser o protagonista dessas críticas, não é, porque a sua estratégia passa também por entendimentos com o Governo.

Hoje as pessoas cumprimentam-se com aquilo a que tenho chamado “murro amável”, para não se cumprimentarem de mão. Duvido que haja muita diferença pandémica, mas os costumes são estes e talvez o “murro amável” seja para ficar. Só que na política portuguesa há duas questões que não são “amáveis”, são de murro mesmo: não tanto o Orçamento, mas a negociação do Orçamento, e saber se o PSD será capturado pela direita radical. Se queremos discutir as questões duras no plano puramente político e não a coreografia mediática, é isto que é relevante. É de murro, mas não é amável.

Historiador


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Pouca saúde

(Carlos Coutinho, 15/09/2021)

Ainda sou daquele tempo em que se dizia: ”Ler jornais é saber mais.” Continuo a pensar o mesmo, embora nem sempre veja confirmada a minha fé. Mesmo ontem, o “Público” aparecia com uma despudorada manchete, num estilo tão rasca como o do “Correio da Manhã” e de outros, apregoando que o fenomenal Chega estava a receber candidatos de todos os partidos, incluindo o PCP.

Só que, nas páginas interiores do diário da Sonae, a apanhada candidata revelava, afinal, que nunca votara no PCP e que apenas uma vez tinha posto a cruzinha no quadradinho da CDU, influenciada pelas escolhas dos pais que eram membros do PCP e lhe mereciam toda a consideração filial.

A verdade é que, sem jornais, ou, sobretudo, sem jornalistas, eu não ficaria agora a conhecer com rigor o regabofe que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem sido para as empresas privadas do sector.

Dir-se-á que nunca houve nem nunca haverá leis perfeitas, mas a que permite a realidade presente só pode resultar de circunstâncias especiais e foi isso que eu mais uma vez confirmei. Por exemplo, como é possível que o SNS, uma das mais importantes e duráveis criações da Lei nacional pós-ditadura, tem vindo a ser paulatinamente degradado?

Óbvio: porque ao leme da barca legislativa tem estado e continua, discretamente ancorado, um número inusitado de deputados que são, afinal, juízes em causa própria.

Ou seja, legisladores que lucram com as imperfeições das leis que sub-repticiamente conseguem conformar em proveito dos seus proventos actuais e futuros.

A jornalista Alexandra Campos folheou um livro do neurologista Bruno Maia com o seguinte título: “O Negócio da Saúde: Como a medicina privada cresceu graças ao SNS” em que defende a tese de que os grandes grupos económicos que dominam o sector são alimentados pelas falhas do sistema público e pelas rendas do Estado”.

Nesse livro, fruto de uma vasta investigação, pode ler-se também que, com a suborçamentação crónica, o SNS vai acumulando listas de espera, degradando estruturas e equipamentos, sendo obrigado a contratar serviços ao privado, que vai ao sector público recrutar profissionais – os quais, por sua vez, “levam consigo doentes e serviços”.

Assim, a situação actual é resultado de decisões políticas que passaram pela “desestruturação das carreiras dos profissionais” através da empresarialização dos hospitais e da introdução de contratos individuais de trabalho – que representam já 40% do total.

Para os amantes da estatística aqui ficam os seguintes dados: dos 45 ministros e secretários de Estado da Saúde que tivemos depois do 25 de Abril de 1974 e até 2020, “40% apresentam ligações a empresas do sector”.

As mulheres com este pecado são minoritárias no bando, mas entre elas avultam pesos pesados como Leonor Beleza e Maria de Belém. Ambas foram deputadas.

Os dados mostram que os governantes da área da saúde mantêm ligações com os grupos económicos, além do próprio sector da saúde” e o grupo Espírito Santo (hoje Luz Saúde) e o grupo Mello são os “campeões das ligações ao Governo”. PS e PSD têm repartido entre si o grosso da fatia do bolo, deixando algumas migalhas para o CDS.


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Ventura tem razão: Sampaio estava nos seus antípodas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/09/2021)

Daniel Oliveira

Cumprindo o papel institucional, que já percebeu que lhe é exigido em momentos demasiado emotivos para as suas pantominices, André Ventura fez o elogio fúnebre de Jorge Sampaio. Deixou para dirigentes do Chega de segunda linha expressões como “espero que a terra lhe seja leve mas que não apareça, nos próximos cem anos, mais nenhum Jorge Sampaio”. Teve, mesmo assim, a honestidade de dizer que “o Chega está nos antípodas do pensamento político de Jorge Sampaio”. É importante sublinhá-lo, quando se desenham falsos unanimismos em torno de uma figura querida dos portugueses. Mas não são apenas meras diferenças de opiniões, mas clivagens morais profundas. De nada serve recordar Sampaio se isso não tiver um significado político para o que queremos e o que não queremos.

Não é seguramente em torno do momento mais polémico da vida política de Sampaio, quando deu posse a Santana Lopes e, quatro meses depois, dissolveu o parlamento, que se desenham as grandes clivagens com o seu percurso. A análise política e constitucional pode divergir, mas não estão em causa valores fundamentais. Não é seguramente por isso que Ventura está nos antípodas de Sampaio. Estará, antes de tudo, porque ele foi um corajoso antifascista, que arriscou a liberdade em nome da democracia que Ventura aproveita mas combate. Estará, porque ele era um homem de valores. Mas a maior diferença está mesmo no percurso de Jorge Sampaio depois de ter sido Presidente da República.

Para dar sustento ideológico à impostura que levou à guerra-negócio no Iraque, os neoconservadores penduraram-se sem grandes pruridos intelectuais nas teses do “choque de civilizações”, de Samuel P. Huntington, alimentando com oportunismo a islamofobia que o atentado de 11 de setembro viria a potenciar. Tão poderosa, generalizada e transversal como, no passado, foi o antissemitismo. Que deu jeito a conflitos armados que nada tinham de civilizacional e força a toda a extrema-direita ocidental.

Com a autoridade de ter impedido a participação das Forças Armadas portuguesas no atoleiro iraquiano (apenas foram efetivos da GNR), e já depois de ter sido enviado especial para a Luta contra a Tuberculose, Sampaio foi nomeado em 2007, por Ban Ki-moon, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. Um organismo que nasceu de uma proposta de Zapatero e que tinha como principal objetivo desanuviar tensões e criar pontes entre o chamado mundo ocidental o mundo islâmico, combatendo a força do islamismo político radical e da islamofobia no ocidente. Depois da “problemática, contestada e danosa invasão e ocupação militar do Iraque”, como há um mês a descreveu Sampaio, esta era uma tentativa generosa (apesar de pouco frutuosa nos resultados) de combater o caldo político criado.

Apesar de simbolicamente menos relevante, a Plataforma Global para Estudantes Sírios, que o próprio Jorge Sampaio queria que se alargasse agora aos afegãos, teve muito mais efeitos práticos, com muitos jovens fugidos da guerra a terem a oportunidade de seguir o seu percurso escolar, com bolsas universitárias, dando massa critica a uma Síria com futuro e alimentando relações de cumplicidade e solidariedade entre culturas diferentes. Graças a Jorge Sampaio, mais de uma centena de jovens estudantes sírios frequentaram o ensino superior em universidades portuguesas e não só.

A ideia de que as inevitáveis tensões entre culturas se combatem ou atenuam pelo conhecimento mútuo e a solidariedade está nos antípodas dos que aproveitam o medo e a incompreensão para ganhar força política. 

Sampaio não estava nos antípodas dos cultores do ódio por mera divergência política circunstancial. Porque ele era de esquerda e Ventura é de direita. Está nos seus antípodas por ter querido sempre fazer parte das soluções e não ser mero beneficiário de cada problema. Sampaio está nos antípodas éticos e não apenas políticos de Ventura. Representa tudo o que Ventura nunca poderá representar. Poderá ter muitas vezes estado em minoria e não poucas terá desagradado muita gente. Mas, no fim, conta com aquilo que está reservado a poucos: ao respeito dos homens bons.

Quem vive obcecado pelo sucesso raramente conquista a glória. Sampaio tinha o que dá a muito poucos o acesso à imortalidade. Não é o oportunismo que saca uns votos pelo ódio primário. Os que se contentam com tão pouco só são recordados se chegarem demasiado longe. E sempre pelas piores razões.


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