Ireneu Teixeira – a Padeira da Geopolítica

(Luís Rocha, in Facebook, 10/09/2026, Revisão da Estátua)

Gente Boa. Passarei a estar convosco apenas aos domingos, em hora a anunciar em breve. Avisarei sempre que houver alguma alteração na programação. Obrigado por existirem na minha vida.

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Há uns tempos que tenho Ireneu Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos, lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW, deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue encolher em tempo real.

Ireneu é apresentado como comentador de política internacional, o que é uma classificação extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser a de um turista com um mapa de pernas para o ar.  Olha para ele, acha tudo muito interessante e depois vai parar a outro país.

 Em 2024, apresentou no NOW um vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro, explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para confirmar a informação.

É uma metodologia extremamente interessante.

 Antigamente verificava-se a notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se na televisão e logo se descobre o que era.

A ERC acabou por considerar que o NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de WhatsApp em política internacional.

Depois veio o episódio do suposto dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa, porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário internacional.

 E finalmente chegámos a Ceuta, ou melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões.

Toulouse em Ceuta, França em Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.

 É difícil errar tanto sem começar a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.

 Depois veio a fabulosa história da Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou como falsa.

 Mas nada disto se compara à monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a Restauração da Independência, em 1640.

São apenas 255 anos de diferença, uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois de inventarem a internet.

 O problema é que Ireneu não comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações, terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas sugestões.

 E talvez seja essa a verdadeira inovação.

Já não precisamos de correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente flexível com a verdade.

 Ireneu conseguiu transformar a política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na Restauração.

Há pessoas que explicam o mundo.

 Ireneu prefere inventá-lo.

 E fá-lo com aquele ar solene de quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a realidade se sinta intimidada e vá embora.

Só que a realidade tem este defeito terrível.

Insiste em existir.

E parece que finalmente alguém percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira, numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar a cara apenas ao domingo.

 É uma solução sensata e, sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.

 Ao domingo, portanto, lá teremos a sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos. A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir Toulouse com Ceuta.

 E tudo isto acontece na Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados, outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi entrevistada.

 É que, sendo accionista, Ronaldo adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.

No fundo, é uma espécie de reforma dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter de levar com ele todos os dias.

E talvez seja mesmo essa a grande conquista.

 Durante a semana, a Terra gira normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha, Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.

Depois chega domingo, abre-se a televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.

A História pode mudar de século, a geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente em Conselho de Segurança da ONU.

 Há pessoas que estudam o mundo para o compreender.

 Ireneu prefere recebê-lo por mensagem.

Felizmente, agora só ao domingo.

Valha-nos isso…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://theblindspot.pt/desinformacao-no-canal-now…

https://theblindspot.pt/comentador-do-now-justifica…

https://theblindspot.pt/queixa-the-blind-spot-a-erc…

https://theblindspot.pt/depois-de-condenacao-da-erc-por…

https://www.rtve.es/…/falso-jovenes…/17178491.shtml

https://poligrafo.sapo.pt/…/mercadona-contactou-a…

https://www.jf-aljubarrota.pt/pt_pt/history/padeira

A guerra – Crónica (nem demasiado fútil nem excessivamente sisuda)

(Carlos Esperança, in Facebook, 15/09/2026, revisão da Estátua)

Frase retirada de um artigo de Miguel Sousa Tavares publicado em 20/09/2025. Ver aqui

Há eleitores indignados com os gastos em Defesa, que se opõem ao empréstimo contraído de 5,8 mil milhões de euros, que nem conta para o défice, na perspetiva de Bruxelas, com o mero argumento de que mais tarde terá de ser pago, capital e juros.

Como é possível não sentirem orgulho em três fragatas topo de gama, já encomendadas a Itália, e nos modernos caças, 25 a 30, que irão substituir a frota dos F-16?

Que se acautelem os pescadores furtivos de meixão no estuário do Guadiana, os barcos de droga que demandam Portugal, e os russos. Estes, a muitos anos de ocuparem todo o Donbass, na Ucrânia, segundo disse o general Isidro Morais Pereira, demorariam mais de três séculos a chegar a Vilar Formoso, mas o melhor é estarmos prevenidos e armados.

Como acredito muito no general Isidro, na D. Helena Ferro Gouveia, no Sr. coronel José Carmo e no Dr. Irineu Teixeira, respeitados estrategas e pensadores que diariamente nos elucidam sobre a bondade da invasão do Irão pelos EUA e a iminência da derrota russa na Ucrânia, sinto-me sábio sobre as guerras em curso. Abençoados pedagogos!

Mas voltemos aos russos. As pessoas esqueceram-se do que a Senhora de Fátima disse à Lúcia quando aterrou no Mariódromo da Cova da Iria para lhe prescrever o terço como demonífugo e enviar recados sobre a necessidade de consagrar a Rússia ao seu, dela Senhora de Fátima, imaculado coração? Do cimo de uma azinheira, disse-lhe que «todo o mal vem da Rússia», opinião coincidente com a do Sr. cónego Formigão, que Deus há.

Não é por os russos demorarem séculos a chegar ao Algarve que devemos descurar a nossa defesa. Até pode suceder que nessa altura Putin tenha morrido e o Dr. Montenegro já não seja primeiro-ministro, e o mal virá da Rússia como outrora vinha de Castela.

Foi para defender o estuário do Tejo que o Dr. Portas comprou dois submarinos à Alemanha, enquanto ordenava a uma corveta da Marinha que demandasse a Figueira da Foz para defender a cidade da iminente invasão de pílulas abortivas por um navio holandês.

Graças ao defunto CDS – os caminhos do Senhor são insondáveis -, as pílulas regressaram à Holanda. Bendito seja o ministro, o Senhor seja louvado: poupou as mulheres à pílula abortiva e ajudou Durão Barroso a destruir armas químicas no Iraque!

E para que precisamos da Segurança Social, da Saúde e da Educação se estivermos mortos? Venham os caças e as fragatas, e livremo-nos dos imigrantes.

Não queremos imigrantes. Deixem-nos ser felizes.

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Falência política da escumalha

(Joseph Praetorius, in Facebook, 12/09/2026, Revisão da Estátua)

Fonte do cartoon aqui

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Aumento dos combustíveis, aumento dos géneros alimentares, aumento das rendas, pressão da especulação imobiliária, aumento das matérias-primas na indústria, agricultura em estrangulamento, encarecimento da produção, contenção salarial, redução da procura interna.

Falências em cascata e números mascarados por outros números que só negativamente influem na vida quotidiana da população (os vistos Gold e a especulação, por exemplo). Os números estão ótimos. E a população pior do que mal. A primeira vez que vi tal fenómeno assumido, foi numa intervenção pública do general Geisel da ditadura militar brasileira. (Cito de memória) – “A economia vai bem, mas o povo, mal”.

Não haveria melhor contexto para um governo de idiotas lançar a sua ofensiva:

  • Desorganizando o sistema nacional de ensino e o sistema nacional de saúde;
  • atacando os direitos laborais;
  • atacando os direitos fundamentais em Processo Penal;
  • gizando o ataque à Segurança Social;
  • comprometendo o Estado no favorecimento de guerra alheia e de indústria alheia de armamento;
  • esbanjando fundos públicos na sustentação dos nazis da Ucrânia;
  • comprometendo – com danos provavelmente irrecuperáveis a ecologia, por exemplo; destruindo as terras agrícolas do Barroso;
  • ou comprometendo os aquíferos de Setúbal, criticamente importantes.

Quanto às empresas de capitais públicos, o descalabro está à vista, da TAP à CP.

Nem sequer se escondendo o desígnio de acabar com a linha de Cascais, para libertar os respectivos terrenos para a especulação imobiliária.

A população não só está a ser – e continuará a ser – varrida do litoral, como se lhe inviabilizará o acesso ao litoral, na esperança de se poderem substituir, nas zonas mais atraentes, os “pés rapados” e a “meia-tigela” local (origem dos lumpen-ministriáveis, aliás) por gente de “outra extirpe” (como dizia há tempos uma idiota que envelheceu sem crescer). Um turismo de milionários enriquecerá o país, pensa esta escumalha (de rasquice sem fim).

Os milionários têm porém mais lugares onde gastar o dinheiro. E a praia de um milionário é, a um primeiro olhar, diria, o Mar Vermelho. (Bem sei que agora é arriscado, mas tais riscos não são eternos). Que singularidades oferecem as águas destas costas, diante daquele deslumbrante aquário de águas quentes (aparentemente, o lugar mais belo da Terra)?

E o turismo está em queda aqui na terrinha. Os camionistas alemães tendem para o desemprego, fazem contas à vida, aliás como outros, e já não podem encher os hotéis “de luxo”  do Algarve.

Os idiotas continuarão a bramar a excelência dos seus números, sem se darem conta dos riscos que, para a sua própria existência, comporta tal estupidez.

E a vida das pessoas continuará a piorar. Os números das insolvências estão já a estragar as versões oficiais, longe ainda de um balanço de aceitável rigor técnico, capaz de nos dar a proporção exata dos danos da política de devastação em curso.