Hasta siempre, Comandante André Guevara

(Tiago Franco, in Facebook, 30/04/2026, Revisão da Estátua)

Faltará a André Ventura, talvez, vender espetadas em pau de louro no pavilhão da Madeira, ali na Atalaia em Setembro, para completar o círculo de ir a todas.

Sem vergonha, sem complexos, sem perder a convicção. Se a ideia dá votos, ele defende-a como se acreditasse nela, mesmo que a tivesse arrasado no dia anterior. No dia? Na manhã desse mesmo dia!

Trata-se de uma máquina de propaganda andante, sempre em busca do próximo “soundbite” que alimente as redes sociais cheganas. Isto sim, o verdadeiro “influencer” criador de conteúdos digitais.

Ontem, no debate quinzenal com o chefe da Spinumviva, disse o Ventura que se o Luís quiser o voto para entalar os trabalhadores (no pacote laboral), terá que baixar a idade da reforma. Disse isto aos gritos, mostrou solidariedade com os velhinhos, contou a história de uma senhora de 81 anos e enfim, seguiu o manual do Paulo Portas do início do século mas retirou a parte da lavoura.

Vou-vos poupar à parte aborrecida, histórica e factual, que o PCP apresentou um projecto lei para redução da idade da reforma para 65 anos  e o Chega votou contra. Foi no ano passado. Provavelmente não era coisa para dar votos nesse dia.

O problema é que, de facto, o Ventura não é estúpido e sabe perfeitamente que ninguém lhe dará essa prenda. Que obviamente, nem ele quer. Desde logo porque quer tanto saber de velhos como eu de cactos no bidé. E depois por saber, ao contrário dos monos que se sentam naquela bancada, que Portugal tem uma população muito envelhecida (3a da UE) e um rácio de menos de dois trabalhadores para um pensionista.

Anos a pagar pensões a gente como o Jardim Gonçalves e a correr com malta mais nova, formada e com perspectiva de salários mais altos, para o estrangeiro, deixou-nos neste beco sem saída de estar no topo europeu para a idade de reforma (apx 67 anos).

Uma brutalidade se pensarmos em profissões de maior desgaste. O que faz um professor numa sala de aulas quase com 70 anos, a aturar os putos que aprendem no tik-tok? É uma visão do inferno, só para dar um exemplo.

Mas de facto estamos presos a isto. Reformados que continuam a trabalhar para balançar as pensões de merda e uma pirâmide invertida que nos deixa com uma média de idades a rondar os 48 anos. Curiosamente, a imigração que o Ventura não gosta está a ajudar a disfarçar este desequilíbrio. A ironia da vida…

Mas o ponto fulcral aqui é que o, agora, camarada Ventura, não quer aumentar pensões ou reduzir idades de reforma. O que ele quer é uma tirada para roubar os votos a alguns pensionistas e, ao mesmo tempo, criar uma narrativa para ir chumbado propostas do governo. Boas ou más é irrelevante. O que lhe importa é criar caos e ir abrindo caminho para eleições. Já percebeu que a hipótese de chegar a PM é bem real.

Enquanto ensaia isto, mesmo à descarada, em direto e com recados espalhados pelos elementos da vara que estão nas televisões (hoje repetem todos a preocupação com os velhos), vai enganando mais uns tolos que papam populismo como se fosse bolacha Maria com leite frio.

Este homem é um cancro na nossa democracia e um perigo para uma sociedade equilibrada e pacífica. Como é que tantos de vós escorregam nas patranhas deste Trump da Temu, transcende-me.

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O pobre que pede mais pacote

(Tiago Franco, in Facebook, 19/04/2026, Revisão da Estátua)

Não sei qual é a vossa banda sonora para a bicicleta. A minha são as discussões sobre o pacote laboral. Coisas que me irritam transmitem mais energia para as pernas, assim parece.

Não vou entrar, novamente, na parte técnica da discussão até porque, ao fim de quase 60 reuniões, imagino que a versão final do diploma ainda vá levar mais umas marteladas.

Importa, neste momento, destacar três coisas. A primeira é que eu espero que seja claro, para quem trabalha, que a discussão em torno destas alterações se resume a perceber o tamanho das perdas. Não há qualquer ganho possível para os trabalhadores e os sindicatos limitam-se a fazer controlo de danos.

A segunda, também relevante do atual estado de coisas, é que o governo já avisou que com acordo ou sem ele (neste caso da UGT uma vez que a CGTP já foi excluída), o diploma irá para o parlamento onde, obviamente, será aprovado pela maioria de direita. Por acaso tenho alguma curiosidade para perceber como se vai posicionar o Chega, que já percebeu que maior parte dos seus apoiantes não são propriamente empresários. O racismo como programa ideológico funciona até a precariedade nos bater à porta. E há uma quantidade assinalável de rapaziada do Chega que vai ter que deixar os paquistaneses em segundo plano, quando perceberem o buraco em que este pacote laboral os meteu.

A terceira, e talvez a mais importante, é a forma como o governo, os imbecis da IL e a direita em geral, nos vendem as transformações da lei laboral como modernidade, progresso e ponto de partida para maiores salários.

É mentira. Eu repito, é mentira. Facilitar despedimentos, precarizar contratos, criar formas para esticar trabalho temporário não é, de forma alguma, “incentivar o mercado”. É, quanto muito, deixar os trabalhadores em situação de stress permanente e sujeitos a todos os abusos do empregador, por medo de perderem o posto. Já para não falar do atraso permanente que isso implica na vida de cada um. Já tentaram pedir um empréstimo para uma casa com um contrato temporário?

Quando nos dizem que essa é a forma de aumentar a produtividade e pagar melhores salários eu digo, sem pestanejar, é mentira. Mas daquelas cabeludas mesmo. A produtividade está lá, os lucros são gerados. A riqueza é que não é distribuída.

A única coisa que a confederação de patrões pretende com este pacote laboral é aumentar o seu lucro, explorando, ainda mais, os milhões de pobres que neste país trabalham de forma precária e por salários de merda.

Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Itália, Luxemburgo, Japão, Singapura, Irlanda, Nova Zelândia, Canadá, Reino Unido, Bélgica e Áustria são alguns dos países do chamado “primeiro mundo”, com taxas de sindicalização muito superiores a Portugal. Acham que são os contratos coletivos de trabalho, as discussões na concertação, a carga fiscal ou as políticas de solidariedade social que impediram o sucesso económico destes países?

Não acham estranho que vos vendam, no panfleto, o sonho da vida escandinava mas vos tentem convencer que, para lá chegar, é preciso seguir o caminho do Laos? (Que por acaso está mesmo ao nosso lado na tabela dos sindicalizados)

Precariedade, baixos salários, facilidade no despedimento. Todos os ingredientes para se criar uma sociedade de escravos, sem vida, e ainda mais pobres. As regras para defesa dos trabalhadores existem porque, como se percebe, a relação é por si só desequilibrada para o lado do empregador. Mas mesmo nesse natural desequilíbrio, nem o mais otimista dos patrões pensou, um dia, que ia ter o CEO da Spinumviva a legislar sobre o futuro dos trabalhadores. É o jackpot de uma vida e uma das questões que levarei para a cova sem resposta. Como é que um trabalhador, ainda por cima pobre, vota e defende partidos de direita?

Antes de me despedir, que isto já vai longo, deixo uma nota para a rapaziada que, apreciando ser explorada, ensaia por aqui a cantiga do “vai trabalhar”. Antes de escrever este texto, e de beber o café da manhã, trabalhei 20 anos com contratos temporários. Sou capaz de ter uma noção de como se faz a coisa.

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Entre zero e 100%

(Tiago Franco, in Facebook, 12/12/2025, Revisão da Estátua)


Começo por elogiar e dar o crédito a esta maravilhosa fotografia do Egidio Santos (foto à direita). Porque resume numa imagem (e é por isso que ele é brilhante) a luta que esta geração tem a obrigação de fazer. O país que neste momento se vai formando e que entregaremos aos nossos filhos é, consideravelmente, pior do que aquele que recebemos.

O povo saiu à rua e o país tremeu. Até na minha estimada Autoeuropa a linha de montagem parou. Algo impensável nos 5 anos que por lá passei. Miguel Sousa Tavares foi a uma pastelaria e, portanto, concluiu que estava tudo normal, para lá dos “habituais professores que gostam de greves encostadas aos fins de semana“. Ai Miguel, Miguel, Miguel…sou um fã de tempos longínquos mas de vez em quando deixas o digestivo tomar conta da análise. Toca a todos. No próximo texto já levas um elogio.

O ministro Leitão Amaro ganhou, muito justamente, o prémio “Mohammed Saeed al-Sahhaf” do dia, com a frase “a adesão à greve está entre os 0 e 10%“. Há imagens de milhares de pessoas nas ruas em várias cidades, hospitais em serviços mínimos (incluindo os privados da CUF), escolas fechadas, transportes parados, gente que nem de casa conseguiu sair e alguns analistas, como o Luís Rosa, da CNN, a dizer que isto era apenas uma greve da função pública (a Autoeuropa já é “nossa”?). E, já agora, mesmo que fosse só da função pública, como é que isso encaixava nos “0 a 10% de paralisação” quando quase 1/5 dos trabalhadores são funcionários públicos? O que eu recomendo, vivamente, é um briefing entre o governo e os “pés de microfone” antes de debitarem propaganda. Como na anedota da orgia, organizem-se amigos, organizem-se.

A alternativa é, para a próxima, o amigo Leitão dizer que isto foi qualquer coisa entre os 0 e 100%. Aí não há forma de se enganar.

Para perceberem o efeito desta greve precisam apenas de dois indicadores. O primeiro é que a UGT se propõe a nova greve. A UGT, amigos. Onde militam os sindicatos do PS e do PSD. E o segundo é que durante o dia, o cata-vento Ventura, percebendo a dimensão da coisa, correu a meter-se ao lado dos trabalhadores e a criticar o governo. Ainda o idiota do Frazão fazia TikToks nas janelas da Assembleia da República a chamar comunistas aos manifestantes e já o Andrezito controlava os danos mudando de opinião para ir na onda do protesto. O Frazão tem que seguir o Ventura nas redes mas quando a conversa é sobre pacotes o homem fica, visivelmente, baralhado.

Espero que esta paragem tenha sido a primeira de muitas e que, de certa forma, seja inspiradora para que mais trabalhadores se juntem a esta luta. Até que este ataque sem quartel aos trabalhadores seja repelido, a união nas ruas não deve parar.

E não nos falem em custos da greve para a economia do país. Com 0% de adesão, como disse o nosso Mohammed da Temu, isto deve ter ficado ao custo de dois secretários de estado, uma comissão e três subsídios de deslocação para deputados com casa não declarada em Lisboa.

Querem flexibilizar o pacote? Façam ioga no glúteo. Diz ela e diz muito bem.

A luta continua.