O Tretas

(João Gomes, in Facebook, 26/05/2026)


As frases de Montenegro funcionam muito como uma peça de marketing político: pega num dado verdadeiro, escolhe o ângulo mais favorável e apresenta-o como se fosse o retrato completo da realidade do país. É semelhante a um comerciante que diz: “Esta loja teve o maior crescimento de vendas do bairro.” O que ele não diz é: que antes estava muito pior do que os outros; que continua a vender pouco; ou que os clientes continuam com dificuldades financeiras.

No caso de Portugal, o Governo usa uma estatística positiva – a recuperação do rendimento – para transmitir a ideia de que: o país está a prosperar; as pessoas vivem melhor; e a política económica está a resultar plenamente.

Mas a realidade do cidadão comum continua marcada por: rendas e casas caríssimas; salários baixos; dificuldades no SNS; custo de vida elevado; jovens a emigrar; e dificuldade em poupar. Ou seja: houve alguma recuperação, sim. Mas isso não significa que Portugal tenha deixado de ser um dos países mais pobres da Europa Ocidental em poder de compra.

A dimensão populista da frase está precisamente aqui: transformar uma melhoria parcial e estatística numa narrativa quase triunfalista sobre o país. É um populismo mais “institucional” e económico, diferente do populismo agressivo de partidos radicais, mas ainda assim baseado numa técnica clássica: simplificar uma realidade complexa; destacar apenas os números favoráveis; e criar uma perceção emocional de sucesso.

Porque, na prática, muitas pessoas olham para a própria vida e perguntam: “Se estamos assim tão bem, porque continuo sem conseguir comprar casa? Porque o salário mal chega ao fim do mês?” É aí que surge a distância entre: os indicadores macroeconómicos; e a experiência concreta da população.

Portanto, a frase não é totalmente falsa mas está construída para produzir um efeito político de confiança, otimismo e credibilidade, omitindo as fragilidades estruturais que continuam presentes no quotidiano da maioria dos portugueses.

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Ouçam o Luís, pela vossa saúde

(Tiago Franco, in Facebook, 20/05/2026, Revisão da Estátua)

Montenegro apela aos jovens para não “esbanjarem” o seu potencial fora de Portugal e elogia a competividade de Monção… 🙂 (Ver aqui).

O país está melhor, os portugueses é que estão pior… 🙂


Estudem, metam esses cérebros a produzir, arrebanhem aqueles 1000 euros por inteiro e rezem aos santinhos por uma carinha que vos permita casar e arranjar alguém para dividir a despesa do T1 antes dos 35.

Paguem impostos até rebentar enquanto vão assistindo à destruição do SNS e da escola pública. Passem o dia parados nas filas de acesso aos grandes centros enquanto queimam gasolina ao preço da Alemanha.

Peçam aos vossos país que tomem conta do miúdo ou desembolsem mais umas centenas para a creche. Vão construindo o currículo, sem real progressão de carreira, enquanto semi-analfabetos chegam a deputados da Nação e legislam em teu nome.

Aceitem que o subúrbio é o vosso local de excelência porque o centro urbano está direcionado para turistas e investidores estrangeiros. Esqueçam os transportes públicos e assumam o carro, tributado duas vezes, como hipótese única.

Orem por genes bons que vos protegem das filas de espera por um médico e compreendam que a classe média, que vos dizem ser aceitável ao fim de 40 anos na UE, é aquilo a que o resto da Europa chama pobreza.

Sim, juventude. Não esbanjem o vosso talento para lá de Monção. Ainda se arriscam a ter uma vida como a do Luís, sem precisarem de avenças, e isso seria uma chatice.

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Hasta siempre, Comandante André Guevara

(Tiago Franco, in Facebook, 30/04/2026, Revisão da Estátua)

Faltará a André Ventura, talvez, vender espetadas em pau de louro no pavilhão da Madeira, ali na Atalaia em Setembro, para completar o círculo de ir a todas.

Sem vergonha, sem complexos, sem perder a convicção. Se a ideia dá votos, ele defende-a como se acreditasse nela, mesmo que a tivesse arrasado no dia anterior. No dia? Na manhã desse mesmo dia!

Trata-se de uma máquina de propaganda andante, sempre em busca do próximo “soundbite” que alimente as redes sociais cheganas. Isto sim, o verdadeiro “influencer” criador de conteúdos digitais.

Ontem, no debate quinzenal com o chefe da Spinumviva, disse o Ventura que se o Luís quiser o voto para entalar os trabalhadores (no pacote laboral), terá que baixar a idade da reforma. Disse isto aos gritos, mostrou solidariedade com os velhinhos, contou a história de uma senhora de 81 anos e enfim, seguiu o manual do Paulo Portas do início do século mas retirou a parte da lavoura.

Vou-vos poupar à parte aborrecida, histórica e factual, que o PCP apresentou um projecto lei para redução da idade da reforma para 65 anos  e o Chega votou contra. Foi no ano passado. Provavelmente não era coisa para dar votos nesse dia.

O problema é que, de facto, o Ventura não é estúpido e sabe perfeitamente que ninguém lhe dará essa prenda. Que obviamente, nem ele quer. Desde logo porque quer tanto saber de velhos como eu de cactos no bidé. E depois por saber, ao contrário dos monos que se sentam naquela bancada, que Portugal tem uma população muito envelhecida (3a da UE) e um rácio de menos de dois trabalhadores para um pensionista.

Anos a pagar pensões a gente como o Jardim Gonçalves e a correr com malta mais nova, formada e com perspectiva de salários mais altos, para o estrangeiro, deixou-nos neste beco sem saída de estar no topo europeu para a idade de reforma (apx 67 anos).

Uma brutalidade se pensarmos em profissões de maior desgaste. O que faz um professor numa sala de aulas quase com 70 anos, a aturar os putos que aprendem no tik-tok? É uma visão do inferno, só para dar um exemplo.

Mas de facto estamos presos a isto. Reformados que continuam a trabalhar para balançar as pensões de merda e uma pirâmide invertida que nos deixa com uma média de idades a rondar os 48 anos. Curiosamente, a imigração que o Ventura não gosta está a ajudar a disfarçar este desequilíbrio. A ironia da vida…

Mas o ponto fulcral aqui é que o, agora, camarada Ventura, não quer aumentar pensões ou reduzir idades de reforma. O que ele quer é uma tirada para roubar os votos a alguns pensionistas e, ao mesmo tempo, criar uma narrativa para ir chumbado propostas do governo. Boas ou más é irrelevante. O que lhe importa é criar caos e ir abrindo caminho para eleições. Já percebeu que a hipótese de chegar a PM é bem real.

Enquanto ensaia isto, mesmo à descarada, em direto e com recados espalhados pelos elementos da vara que estão nas televisões (hoje repetem todos a preocupação com os velhos), vai enganando mais uns tolos que papam populismo como se fosse bolacha Maria com leite frio.

Este homem é um cancro na nossa democracia e um perigo para uma sociedade equilibrada e pacífica. Como é que tantos de vós escorregam nas patranhas deste Trump da Temu, transcende-me.

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