Quem quer casar com o agricultor?

(Por Estátua de Sal, 23/04/2019)

Melo, Cristas e Soares

Em tempos idos os fenómenos mais marcantes e inéditos no país estavam, por estranha tradição, associados ao Entroncamento. Agora parece que passaram para a Golegã.

O CDS, comandado pela azougada Dra. Cristas, foi apanhar couves à Golegã. Assim, acompanhada por Nuno Melo e Pedro Mota Soares, também conhecido pelo “ministro lambreta”, decidiram participar no projeto “Restolho“, da Associação de Agricultores AGROMAIS, que consiste na apanha de couves para o Banco Alimentar de Abrantes.

As razões de tão insólita acção de rua prendem-se necessariamente com as eleições europeias que, segundo a última sondagem da Aximage, não irão ser nada auspiciosas para o CDS e para a Dra. Assunção ainda que, segundo ela, irá lutar nas eleições de Outubro para ser Primeira-Ministra.

De facto, os votos que Marinho Pinto angariou nas europeias de 2015 (7%) vão ser avidamente disputados pelo PSD e pelo CDS, e nada melhor do que recorrer à apanha da couve, para tentar captar esses votos do MPT, o partido da Terra. Ora, como se tratam de eleições europeias, a Dra. Assunção só falhou o alvo quanto ao tipo de couve porque, em vez da colheita de couve lombarda, deveria ter optado pela apanha de couves de Bruxelas. Sempre era mais condizente.

Há que dizer que os políticos em campanha eleitoral resvalam muitas vezes para situações de extremo ridículo. Mas esta direita do CDS bate todos os outros aos pontos e cada vez nos surpreende mais com estas acções dignas de figurar no anedotário nacional. Acham eles que os portugueses são tão estúpidos e atrasados mentais que consideram que apanhar meia dúzia de couves em frente às televisões, transforma qualquer mortal num agricultor encartado e merecedor de empatia profissional, e quiçá, de ser merecedor de escolha nas urnas.

A Dra. Assunção sempre teve queda para as “causas agrícolas”, queda que herdou do seu patrono e mentor Paulo Portas. Ainda a haveremos de ver com o boné e com o capote alentejano que o dito patrono costumava usar para se passear em campanha eleitoral por feiras, mercados e romarias.

Mas mais ainda. Como o CDS está, para já, divorciado do PSD de Rui Rio e vai a votos sozinho para mostrar o que vale, a Dra. Assunção está livre e prendada para casar com quem se chegue à frente e a queira levar ao altar.

Com este tirocínio da apanha da couve, a Dra. Assunção mostrou os seus predicados de mulher da lavoura e alertou todos os jovens agricultores casadouros para o facto de não se assustar com as duras exigências dos trabalhos do campo.

Por isso, ó jovens agricultores, quando forem ao programa da SIC, não escolham qualquer uma e protestem, junto da produção, por só vos confrontar com candidatas de fraco curriculum. Mandem vir a Dra. Assunção que já tem provas dadas em todas as artes agrícolas, desde a apanha da couve até à pasta ministerial da actividade. É garantido que melhor esposa não podem ambicionar. 🙂


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A sondagem que diz que vai haver nova “geringonça”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/04/2019)

Daniel Oliveira

As sondagens, como os resultados eleitorais, não se devem resumir ao quem ganha e quem perde. Não por uma questão de justiça ou de injustiça, mas porque essas leituras não nos dão uma grelha que permita analisar a realidade política e prever o futuro. Como tão bem se percebeu nas últimas eleições legislativas.

Olhando para a última sondagem da Aximage, e pensando apenas na conjuntura política mais recente, há pelo menos uma coisa que parece evidente: o caso das famílias parece ter conseguido absorver os ganhos eleitorais dos passes sociais. A isto devemos juntar o razoável desinteresse pelas eleições europeias que faz com que o voto de protesto se mobilize, levando os governos a ter piores resultados. Isto quer dizer que, com a abstenção, as coisas até podem ser piores para o Governo. Uma das críticas feitas a António José Seguro foi não ter conseguido mobilizar o descontentamento numas eleições propícias a isso.

Segundo a sondagem, o PS conquistará 33,6%, o PSD 31,1%, a CDU 9,4%, o BE 8% e o CDS 6,8%. Registe-se ainda os miseráveis 1,3% da Aliança, que empata com o PAN. Em relação às últimas europeias, MPT e Livre desaparecem. Nas últimas Europeias, o PS teve 31,4%, PSD/CDS 27,7%, a CDU: 12,7%, o MPT 7,1% e o BE 4,6%. Nas últimas legislativas o PSD/CDS teve 38,4% (isto inclui o resultado do PSD-Madeira), o PS teve 32,3%, o BE teve 10,2% e a CDU teve 8,3%.

Olhando para esta sondagem concluiríamos apenas que é provável que se repita a “geringonça”, agora com o PS em primeiro mas muitíssimo longe da maioria absoluta. É o melhor resultado possível para quem defenda a repetição desta solução política

Façamos então a comparação com as últimas eleições para saber do que estamos mesmo a falar. Olhando para esta sondagem, o PS sobe 2% em relação às europeias e 1% em relação às legislativas. O PSD e o CDS, que concorreram juntos nessas duas eleições, sobem 10% em relação às europeias – o MPT teve 7% e isso explica a mudança – e descem 0,5% em relação às legislativas. A CDU desce quase 3% em relação às europeias e sobe 1% em relação às legislativas – é habitual ter mais nas europeias, beneficiando da abstenção. O Bloco de Esquerda sobe quase 4% em relação às europeias, quando viveu um dos piores momentos da sua história, e desce 2% em relação às legislativas – costuma ter mais nas legislativas. PSD e Bloco são os únicos a ganhar deputados.

Sabendo o que aconteceu nas últimas legislativas, talvez o mais importante seja mesmo olhar para os dois grandes blocos políticos. A direita mantém-se nos 38% em relação às legislativas e só sobe 10% em relação às europeias porque parece recuperar os eleitores do MPT. Os partidos da geringonça mantêm-se nos 51% que tiveram nas últimas legislativas e europeias. O que é surpreendente é a estabilidade do sistema e a aparente capacidade da direita absorver o voto de protesto em Marinho Pinto. Não estão aqui os novos partidos e não sabemos quem perderá mais com eles. Mas olhando para esta sondagem concluiríamos apenas que é provável que se repita a “geringonça”, agora com o PS em primeiro mas muitíssimo longe da maioria absoluta. Na realidade, este é o melhor resultado possível para quem defenda a repetição desta solução política.

Mas isto não invalida que a pré-campanha do PS tem sido miserável. António Costa é um desastre nestes momentos. Não sabe fazer campanha, não sabe prever problemas, não sabe empolgar o partido. É melhor na arte da negociação do que na arte da mobilização. Ou acorda agora, durante esta campanha, ou no fim de maio vai ter uma surpresa. Mesmo não mudando o cenário político, esta sondagem dá um elã ao PSD, que tenderá a mobilizar voto útil a esvaziar ainda mais o CDS. Sabendo que não regressam ao poder este ano, o grande objetivo será a vitória moral. Que daria, é bom perceber, uma botija de oxigénio a Rui Rio.

Esta direita insaciável e ansiosa

(Carlos Esperança, 15/04/2019)

Cavaco, o verrinoso

Esta direita tem os jornais, as televisões e a rádio; tem os bombeiros, os incêndios e os incendiários; tem a sofreguidão do poder e a nostalgia do “nosso Ultramar infelizmente perdido”; tem os antigos líderes como comentadores profissionais e a maior parte dos comentadores profissionais como satélites; tem as redes sociais e as redes de corrupção dos autarcas do Norte, que a Visão denunciou e a PGR ignora, mas tem Passos Coelho e Portas, Durão Barroso e Santana Lopes, Assunção Cristas e Nuno Melo, Marta Soares e Marco António. São o seu calcanhar de Aquiles.

Em períodos eleitorais esconde os mais detestáveis e mostra as estrelas da Companhia, que julga perdoadas. Ontem surgiu Durão Barroso, com o caso da quinta da Falagueira e a aventura iraquiana esquecida com a atual atividade financeira; hoje surgiu Cavaco Silva que, à semelhança de Américo Tomás, julga que o povo o ama.

Cavaco, odeia os cravos, pelo menos na lapela, e deve aos militares de Abril tudo o que foi, mas é o salazarismo que o guia e os pides o símbolo do heroísmo que aprecia. Hoje, saído da hibernação, surgiu a predizer que Portugal será a lanterna vermelha da Europa, enleado no ódio a este governo, esquecida a cumplicidade com Passos Coelho e Portas.

Ver declarações de Cavaco aqui


Este homem cuja memória anda pelas ruas da amargura esquece que a sua ministra da Saúde foi a única governante europeia impune pela compra do sangue contaminado, que colocou no gabinete o irmão Zezé que viajou para a Ásia quando o secretário de Estado, Costa Freire, foi julgado e preso e tem o despudor de acusar este governo da degradação do SNS devida ao governo de Passos e Portas, de que foi cúmplice, e cuja criação teve os votos contra do PSD e CDS.

Cavaco não é um estadista, é um algoritmo mal sequenciado, um depósito de bílis com saliva na comissura dos lábios, a destilar ódio contra a esquerda, que acaba por ajudar, pela repulsa que provoca.

Aliás, a desfaçatez e a falta de memória são a imagem de marca desta direita que resvala para a direita musculada sem precisar de Cavaco, Santana Lopes, André Ventura ou do merceeiro holandês do Pingo Doce.

Basta recordar Paulo Rangel a defender uma lei que tornasse incompatível a advocacia e a atividade parlamentar ☹ ☹ ☹.