A raposa, a tartaruga e a lebre

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 16/02/2019)

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António Costa organizou uma festa de propaganda em Gaia a lançar Pedro Marques para Bruxelas. Foi uma montra. Rui Rio organizou a Convenção da Comissão Estratégica Nacional (CEN) para o mesmo dia, para ouvir a sociedade civil e preparar o programa do partido. Seria uma montra de ideias. Assunção Cristas antecipou-se e agiu de véspera para marcar a agenda com a moção de censura, apontando a Costa – é um “nado morto”, disse o primeiro-ministro – mas o efeito é para acertar em Rio. A política é para gamers. Este fim-de-semana a competição foi entre o astuto Costa, a velocista Cristas e o fundista Rio.

Os socialistas abriram este sábado a nova fase de uma campanha que começou com a aprovação do Orçamento. As Europeias são o aquecimento para as legislativas e António Costa começa a pôr no terreno a história que quer contar para conter as dificuldades do momento ao mesmo tempo que põe gelo nos pulsos dos parceiros.

“Prometemos com conta, peso e medida”, disse o secretário-geral do PS perante o partido. É o mote para contrapor à contestação social e amainar reivindicações, mas também fala para esquerda e direita. É a moderação como trunfo. Este é o discurso. O resto é ação.

O primeiro-ministro é uma raposa. Com a remodelação, Costa – o hábil – mexe as peças do seu xadrez a preparar o novo ciclo suportado em algumas caras novas e num Governo que só precisará de ajustamentos na próxima legislatura (os ministros da Educação e Ensino Superior continuarão? Marta Temido manterá o lugar?) Os jovens ascendem a posições seniores fora da zona de conforto e Pedro Nuno Santos tem a sua prova de fogo num ministério com as Infraestruturas a cair aos bocados e sem o dinheiro dos fundos europeus que será autonomizado noutro ministério – para outro homem de confiança de Costa. O “pedronunismo” tem um ministério de desgaste. Não será fácil.

À direita, dois ritmos: uma lebre e uma tartaruga. O PSD vai devagarinho, cumprindo o calendário pré-estabelecido por Rui Rio, ao estilo de atleta fundista (só sprinta em caso de necessidade, como quando se viu apertado por Montenegro). Este sábado, a convenção do CEN em estilo de Estados Gerais, passou a ideia da política séria que o líder do PSD quer que seja a marca de água da sua diferença. Política sem politiquece, mas ainda com baixa intensidade, para Rio mostrar que não é como os outros, que procura o conteúdo, para contrastar com um PS em campanha eleitoral pura. O PSD há-de lá chegar. Mas uma convenção com painéis temáticos à porta fechada não dá um retrato de um partido aberto. Não fazemos ideia do que foi debatido em cada um dos 17 grupos temáticos, a não ser o que disseram depois oficiosamente alguns porta vozes. Na maior parte os casos, formularam ideias genéricas. Mas a iniciativa gera a expetativa de o PSD, daqui a uns meses ter um programa com bandeiras mobilizadoras.

O CDS é a lebre. Assunção Cristas tem pressa em aproveitar os espaços vazios que o PSD vai deixando. Se nem sempre a rapidez é a jogada avisada, no curto prazo rende. A moção de censura é um favor ao PS que serve para obrigar o PSD a posicionar-se. Cristas vai forçar Rio a contradizer-se seja qual for a sua opção: se votar a favor da moção de censura, o líder do PSD entra em contradição com a sua filosofia de não fazer oposição pela oposição em nome da tática e dos títulos de jornais; se votar contra, abre caminho a Cristas que vai assumir-se mais ainda como a única que se opõe verdadeiramente a Costa, encostando o PSD ao PS; caso se abstenha, dá a imagem de um líder fraco que não se quer comprometer nem melindrar o PS e continua a dar espaço ao CDS.

Rui Rio, porém, sem falar do assunto, voltou a mostrar este sábado qual é o seu guião: “A política só faz sentido se for para resolver os problemas das pessoas. Não tem qualquer utilidade quando é exercido em torno de guerras partidárias estéreis ou conduzida por temas virtuais, que podem alimentar notícias, mas que nada dizem ao cidadão”. Se estas frases servem de argumento, em breve saberemos como vai posicionar-se o PSD.

Os jogos começaram. Daqui a uns meses veremos qual dos personagens desta fábula escolheu a melhor estratégia.

 

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A próxima batalha no PSD

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 19/01/2019)

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Pedro Marques Lopes

Um dos argumentos mais descabidos que ouvi para que existissem eleições antecipadas no PSD foi o de que isso conduziria a uma clarificação.

Presumo que com isso se quereria dizer que, de facto, neste momento, os militantes do PSD deveriam diretamente dizer se queriam Rui Rio ou Luís Montenegro ou outro qualquer como presidente do partido.

Esqueçamos, por agora, que estamos a quatro meses de umas eleições europeias e a oito das legislativas e que um processo desses faria que de manhã se estivesse a fazer campanha para essas eleições e de tarde para a liderança do PSD.

O que convém lembrar é que o líder do partido foi eleito há um ano e que o partido ainda não disputou nem uma eleição desde essa data. Quem acha que Rui Rio devia convocar diretas pensa, por imperativo de coerência, que um primeiro-ministro devia convocar eleições gerais se um líder da oposição pensasse que ele não estaria a conduzir o país no sentido que achasse certo e havendo sondagens que indicassem um défice de popularidade.

O Conselho Nacional de passada quinta-feira serviu para mostrar que os militantes através dos seus representantes estão maioritariamente com Rui Rio, o que não sendo pouco apenas servirá para pacificar uma ala oposicionista, mas não evitará a continuação de uma guerra sem quartel de outra.

Se tenho poucas dúvidas de que Luís Montenegro até às próximas eleições permanecerá em silêncio e até se empenhará na campanha, há um grupo de militantes que não parará com a campanha contra o líder e fará os possíveis e os impossíveis para que o PSD tenha o pior resultado possível.

Aliás, se a hipótese de que o repto extemporâneo de Montenegro tinha tido apenas o objetivo de marcar terreno, mais claro ficou no discurso pós-derrota de ontem. Ficou agora claro que foi mais uma manobra para afastar outros opositores internos no futuro do que propriamente vontade de derrubar Rui Rio. Uma forma de dizer, na eventualidade de maus resultados eleitorais, “muita gente protestou, mas fui eu que avancei”. Como se os resultados forem satisfatórios, vai argumentar que o seu passo serviu para acordar o partido.

Os próprios resultados do Conselho Nacional assim o mostraram. É difícil pensar que um homem com a experiência política do ex-líder da bancada parlamentar social-democrata não soubesse que Rio não convocaria diretas. E que assim sendo não tivesse garantido um conjunto de apoios no Conselho Nacional que, pelo menos, lhe desse uma hipótese de poder convocar o sufrágio.

A afirmação de que mantém as divergências estratégicas (ainda não se percebeu bem quais são e em que áreas ou políticas) com Rui Rio e o “acordei um gigante adormecido” foram evidentes das intenções futuras de Montenegro.

A diferença entre Luís Montenegro e o grupo da alt-right à portuguesa é que o homem de Espinho, se chegasse a presidente do PSD, não o quereria transformar num projeto de extrema-direita soft nem, se nunca chegar à liderança, quererá destruir o partido. Para os Bannons lusos daria muito jeito conquistar uma estrutura montada e com muitos votos assegurados, não o conseguindo o PSD será um empecilho à sua estratégia e tratarão de o tentar fazer implodir. Tem de se reconhecer que têm feito um bom trabalho e tido até um apoio precioso de muita gente que está muito longe de secundar esta estratégia destrutiva. Montenegro, não há dúvida, ajudou.

Esta vitória de Rui Rio não deixa grandes dúvidas sobre a composição da próxima lista de deputados do PSD à Assembleia da República. Claro que a alt-right que se colou ao PSD vai fazer os possíveis e os impossíveis para que as eleições europeias sejam uma catástrofe para o partido e que ainda possa haver uma revolução antes das legislativas, mas esse cenário é praticamente impossível. O palco principal que essa alt-right que se colou ao PSD tinha vai-lhes fugir. São eles os grandes derrotados neste processo: nem marcaram terreno para o futuro nem conseguirão manter os seus bastiões no Parlamento. Manterão o seu órgão de comunicacional oficial, mas a capacidade de chegar aos militantes e votantes habituais do PSD vai diminuir muito. Se agora, sendo deputados, podem sempre argumentar que representam os eleitores sociais-democratas e podem afirmar as suas posições contra a direção do partido, sem esse respaldo a mensagem chegará com muito menos intensidade. Sobra-lhes um último recurso quando deixarem de ter palco, trazer o homem que os levou para o partido e lhes deu poder: resta-lhes Pedro Passos Coelho.

Justiça

Depois de um processo que durou onze anos, Armando Vara foi para a prisão.

Tenho muitas dúvidas sobre a adequação da pena aos factos efetivamente provados, bem como à qualificação jurídica de algumas ações do ex-governante, mas foi assim que as várias instâncias judiciais decidiram e, com certeza, estão convictas de que fizeram justiça.

Não sou dos que pensam que o nosso sistema jurídico penal é excessivamente garantista. Em face dos constantes graves atropelos aos direitos fundamentais de arguidos ou simples suspeitos, não estou disposto a abdicar de um milímetro das minhas garantias constitucionais. Pelo contrário, penso até que em muitos casos deve haver um reforço dessas garantias.

Uma justiça, no entanto, que leva onze anos a condenar alguém não faz justiça nenhuma. E não me venham com garantismos nem meios garantismos, é simplesmente péssimo funcionamento.

Talvez se alguns elementos da justiça se concentrassem em investigar e acusar condutas definidas e se deixassem de megaprocessos para vender a ideia de que são os defensores da democracia contra uma conspiração de políticos e “poderosos” as coisas corressem melhor.

Vá ao teatro

O nosso teatro vive as dificuldades normais de um país pobre, com níveis altos de iliteracia, pouco qualificado e com uma educação que despreza a expressão artística. O que falta, porém, em meios e apoios sobra em talento e, sobretudo, em vontade e amor ao teatro de quem dele faz a sua vida.

Nas duas últimas semanas vi duas magníficas peças. Uma no Teatro Aberto e outra no Teatro do Bairro. O Novo Grupo do João Lourenço tem em cena na Sala Vermelha A Verdade e, na Azul, A Mentira. Já vi A Mentira e só consigo explicar a falta de filas de pessoas para ver o espetáculo que cheguem ao Rossio por mera falta de publicidade. Nesta semana, fui ao Teatro do Bairro para ver a encenação de Muito Barulho por nada e podia dizer exatamente o mesmo – além de que vi um dos melhores Beneditos de que tenho memória.

Não tenho dúvidas de que muitas mais e excelentes peças andam por Lisboa e pelo resto do país.

Sendo verdade que as salas andam muito bem compostas, é ainda mais verdade que a qualidade dos espetáculos merecia ainda mais gente. Vá ao teatro, você merece.

Francisco Assis afastado das listas do PS às Europeias

(In TSF, 09/01/2019)

(Já não era sem tempo. Parece que o PS o vai deixar a falar sozinho. Costa deve estar muito sólido na liderança para deixar que este conspirador em almoços de leitão na Bairrada regresse ao país, vindo desse alfobre de mordomias que é o Parlamento Europeu.

Mas claro, ele tem sempre uma solução que é apresentar-se ao Dr. Rui Rio para ser cabeça de lista pelo PSD, já que o PSD está cada vez mais esfrangalhado e o Montenegro anda já a contar espingardas. Era um reforço de peso para o PSD e não seria de espantar esta transferência a meio da época. Sim, porque também se fala do regresso do Jorge Jesus ao Benfica, não é verdade?  🙂 

Comentário da Estátua, 09/01/2019)



O atual eurodeputado e cabeça de lista socialista nas eleições de 2015 não consta, ao que a TSF apurou, da lista que a direção de António Costa está a elaborar. Novo cabeça de lista está escolhido….



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