Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher?

(Por Júlio Marques Mota, in A Viagem dos Argonautas, 02/05/2017)

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Houve eleições em França. Os resultados são de todos conhecidos. Nesse domingo de Abril que não é de modo nenhum um Abril de portas mil, fui como tomar uma bica no meu café habitual, a Pastelaria Vénus. Estava bom tempo, tomei café na esplanada. Passa por mim, uma antiga aluna minha, de nome M. Abreu. Muito delicadamente, pergunta-me se estou muito preocupado com o que se irá passar em França. Sorri e convidei‑a a sentar-se, o que fez e agradeceu. Uma daquelas mulheres com quem dá mesmo muito gosto falar.

Perguntei-lhe: Preocupada, porquê?

Bem…porque, ao que se diz, a Marine Le Pen irá ganhar. Ora, não o vejo a ficar desagradado com essa hipótese, respondeu.

Sorri, olhei-a de frente e, calmamente, disse-lhe: dê-me, minha querida amiga, uma razão que seja, pela positiva, para que eu deseje que ganhe o candidato Macron.


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O escroque contra a fascista

(Por Francisco Louçã, in Público, 28/04/2017)

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Francisco Louçã

Entendamo-nos: o início da campanha da segunda volta correu pessimamente a Macron. Deslumbrado, festejou no domingo os 24% como se já tivesse a presidência no papo, esqueceu-se de que lhe faltam outros 27%. Arrogância. Esqueceu-se de que houve uma greve geral contra o seu governo há um ano. Insensibilidade. Esqueceu-se de que a lei que tem o seu nome foi imposta pelo Presidente por fora do parlamento dada a revolta dos próprios deputados do PS. E que lei: cartas de condução, resíduos radioactivos, segredo comercial, transportes públicos em autocarros, regras para os notários, cinco a dez mil milhões em privatizações, facilitar os despedimentos colectivos, reduzir indemnizações por despedimento, empréstimos entre empresas, o programa de Macron foi essa lei. Pesporrência.

Portanto, Macron deve mexer-se para conseguir os 27% que lhe faltam e faria bem em dar garantias aos trabalhadores que dele desconfiam. Mais valia que mostrasse o que o separa de Le Pen, uma candidata perigosíssima, xenófoba e com tintas fascistas, que tem de ser vencida. Em vez disso, para animar a festa, um dos conselheiros de Macron, Jacques Attali, decidiu exibir a sua cor: no dia em que Macron ia visitar uma fábrica ameaçada de fecho explicou que a globalização é isso mesmo, despedimentos, e que a resistência é uma “anedota“. Não havia de haver desconfiança?

Desenvolvido o programa do candidato, temos desde o despedimento de 120 mil funcionários públicos até ao corte de 10 mil milhões em subsídios de desemprego, como também um aumento do investimento público. No plano europeu, é puro hollandês: um ministro das finanças europeu, um parlamento da zona euro e, cereja em cima do bolo, “convenções democráticas” em todos os  países durante o último semestre deste ano.

Suponho que é por isso que surge o apelo: na falta da confiança e perante o perigo, usa-se o que está à mão, como em 2002 quando, como bem lembrou Tavares, o “lema informal” da esquerda era “votem no escroque (Chirac) contra o fascista (Le Pen pai)”. Há 15 anos, resultou; agora tem pelo meio o fracasso europeu, a vergonha Hollande e tudo o que alimentou Le Pen. Pergunto-me portanto quem se vai comover hoje com este apelo a votar no “escroque” e durante quanto tempo alguém pensará que a promoção do “escroquismo” é estratégia vencedora. Se isto é forma de combater a abstenção, então entrega os pontos. Se é a alternativa que sobra, então só retrata a degradação das direitas.

Ora, há todas as razões para votar contra Le Pen, mas Macron está perdido se pensa que basta repetir o número do “escroque contra a fascista”: é preciso que mostre alguma razão para obter os votos que lhe faltam. O problema político da segunda volta é esse e só esse. Quem tem a solução é Macron.

E, se Mélenchon tem conduzido mal estes dias e parece perplexo com o resultado, o certo é que o trunfo está na mão de Macron. Tudo depende deste e de mais ninguém, o que quer dizer que há mesmo um perigo trumpista. Mélenchon, que conduziu uma campanha brilhante, é a única esquerda que enfrentou Le Pen: é melhor que seja claro, vencê-la agora é o caminho vencedor para disputar nos próximos cinco anos a referência da alternativa.

Entretanto, o modismo português prefere ser facilmente paroquial a discutir dificilmente os problemas. Eis então a direita e os sobreviventes social-democratas a clamarem que o perigo francês é Mélenchon, o malandro que não concede a vénia perante o Ungido. Ver gente crescida no jogo garoto de “ai se eu estivesse em França, logo viam com quantos paus se faz uma canoa”, ou assistir a este ressentimento por um candidato de esquerda ter varrido um dos sucessores de Hollande, é simplesmente verificar o mau perder das direitas.

Leia-se José Manuel Fernandes que, magoado pelo fracasso, recorre a tudo para esse ajuste das contas perpétuas que carrega consigo: o seu argumento de autoridade acerca da semelhança entre a esquerda e a extrema-direita é um panfleto de Le Pen, que foi impiedosamente desmascarado pelo moderadoLe Monde. Mas Fernandes cuida pouco dos factos ou do jornalismo, essa caravela já partiu, só lhe interessa a sua fantasmagoria política, Mélenchon já está a arder? Isto vai chegando ao delírio, com Henrique Raposo, de quem não se poderia esperar melhor, a somar à sua misoginia lendária o dedo agora apontado contra os gays: o homem lá descobriu que “um terço” dos gays apoiaria Le Pen, que a esquerda está convertida ao islamismo e outras graçolas semelhantes. É uma paródia, mas é a direita no seu mais puro vernáculo.

Em contrapartida, Assis é eminentemente límpido: com Macron, renascem-lhe as esperanças de uma social-democracia regada pelo neoliberalismo. Só que, para seu inconveniente, tudo leva a crer que o presidente Macron se incline para um acordo com Valls para dividir o PSF e para formar governo com os homens de Bayrou e Sarkozy, mas esse detalhe virá depois – teremos assim a direita reunida, mais do que um centro a exuberar o seu segundo momento Tony Blair.

Por tudo isto, o prudente recuo do governo português é inteligente. Melhor do que ninguém, Costa, que conhece esta gente, sabe que a vitória de Macron não fecha nada, antes sinaliza mais uma fase de crise europeia. Que o mais forte argumento do campo Macron seja “o escroque contra a fascista” já diz tudo do ponto a que chegámos.

Adversários convenientes

(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/04/2017)

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Já não há esquerda nem direita, dizem Macron e Le Pen. A divisão é entre “globalistas” e “patriotas”, grita Le Pen. É entre “europeístas” e “nacionalistas”, concorda Macron. É a dicotomia que interessa aos dois e por isso Macron é o adversário ideal para Le Pen e vice-versa. A Le Pen, esta dicotomia simplista permite ficar sozinha na contestação ao “sistema”, conquistando todo o eleitorado que não acredita nesta União e nesta globalização. Para Macron, até dificulta a reedição da frente democrática que, em 2002, se uniu contra o pai de Marine. Mas, a médio prazo, ajuda a reconstruir, em torno de um suposto “europeísmo”, o centrão que gerou e geriu a crise e que está em forte desgaste. O centrão que impôs, também através da União Europeia, a contrarreforma social de que a Lei Macron, aprovada por decreto contra parlamento, foi só mais um episódio. Macron representa a derradeira aliança entre a terceira via e os neoliberais num reduto final e unificado de resistência do “sistema” ao cerco em que hoje vive. Para reconstruir este espaço interessa-lhe, mais do que uma frente democrática, uma capitulação do flanco esquerdo. Aquele que não desistiu de representar os excluídos da globalização e tem de gerir uma posição muito delicada nesta segunda volta: nem ser responsável pela vitória de Le Pen, nem legitimar o programa de Macron.

Ao se resumir tudo a uma clivagem entre “Nação” e “Europa” não se põe apenas a esquerda eurocética no mesmo saco que a extrema-direita. Põe-se a esquerda europeísta no mesmo saco que a direita liberal. Em todos os combates sociais dos próximos anos, de todas as vezes que Bruxelas sirva para aplacar os direitos dos trabalhadores e impor a lógica da concorrência aos serviços públicos, quando os eurocratas imponham a cada país a agenda que Macron abraça com entusiasmo, sempre que esteja dividida entre as suas convicções políticas e a preservação de um projeto que já não inclui os seus valores, será obrigada a escolher o combate que decidiu ser prioritário: a defesa da União Europeia, seja ela o que for e para o que for. Comporta-se como o náufrago que se agarra a um crocodilo para se salvar. E aceita, já está a aceitar, que o futuro não oferecerá melhor do que o programa de Macron. Não desistindo da Europa, desiste de tudo o resto.

Mesmo fora de França, onde o voto útil não é necessário, somos instados a escolher: neoliberalismo ou xenofobia? Não pensem, não hesitem, limitem-se a apoiar o que nos levou até aqui. Ou isso ou o fascismo. Mas só há uma forma de vencer Le Pen: perceber o que está a fazer crescer este monstro e combatê-lo a ele e às suas causas.

Deixando sempre claro que para lá de Le Pen não é tudo a mesma coisa. É isso mesmo que a extrema-direita quer: ficar sozinha na contestação ao caminho que estamos a seguir. Perante a possibilidade de Le Pen ganhar, acabaria, se fosse francês, por ser obrigado a votar no programa político que está a destruir a Europa, desta vez preconizado por um ex-banqueiro, apoiado por Schäuble. Mas reafirmando que ele representa, nas suas propostas, na sua ação governativa, no seu currículo de promiscuidade entre o Estado e a banca e no seu oportunismo político, a doença de que Le Pen é o sintoma. Não se pode permitir que a inevitável lógica do mal menor nos faça esquecer isto. Que não há só dois lados.