O dia em que Ventura se “coligou” com Luís Neves

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 15/10/2026)


Cara leitora, caro leitor,

O que se passou no Porto, onde a polícia feriu 37 manifestantes pacíficos que faziam uma vigília pelo direito à habitação, fica como uma página negra deste Governo, nomeadamente do ministro da Administração Interna. O “bonzinho” presidente da Câmara do Porto, como aqui escreve Amílcar Correia, manchou o seu mandato.

Depois do escândalo da demissão do secretário-geral da Administração Interna, a violência desproporcionada utilizada no Porto contra manifestantes pacíficos demonstra, de facto, que os dias do ministro da Administração Interna chegaram ao fim. 37 feridos!

Não há qualquer justificação para a violência policial. A Rádio Renascença cita a PSP, que confirma a intervenção “musculada”.

É aqui que o país de Luís Neves está unido com o país de Ventura. A partir dos acontecimentos da noite passada, são duas almas efectivamente coligadas. Sem surpresa, o Chega, através de Pedro Pinto, veio apoiar a violência policial. Ventura e Luís Neves, a mesma luta.

O cancro da falta de acesso à habitação em Portugal vai rebentar em cima do Governo, embora Luís Montenegro não seja o único responsável pelo desinvestimento na habitação acessível e no disparo dos custos da última década que tornam impossível para uma pessoa arrendar uma casa. O drama ultrapassou os grandes centros urbanos – é ir ver os preços por esse país fora.

Infelizmente, perante as manifestações, Luís Montenegro teve uma reacção igualzinha à que Passos Coelho teve quando os portugueses se queixavam dos tempos difíceis da austeridade. Atribuir aos manifestantes “razões egoístas” (!!!!) é o “Não sejam piegas” de Pedro Passos Coelho. Montenegro e Passos podem andar em zaragatas, mas é muito mais o que os une do que aquilo que os separa.

Quando os polícias, que têm responsabilidade pela ordem pública, invadiram as escadarias de São Bento, não lhes aconteceu nada. Quando Alexandre Poço, em 2020, decidiu acampar em frente ao Ministério da Educação em protesto pela falta de alojamento estudantil, acampou sossegadamente.

Luís Montenegro está apavorado. Teme que o que se está a passar em França e em outras cidades europeias se venha a repetir em Portugal. Para mal dele, a actuação da polícia na madrugada de quinta-feira foi a grande contribuição para que Portugal possa viver uma situação semelhante.

É verdade que os portugueses são um povo manso. Comemos e calamos com muita frequência. É a isso que Luís Montenegro, enquanto cai nas sondagens, se refere quando apela aos partidos para “não importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não tenham de facto respaldo na sociedade portuguesa”.

A história portuguesa está cheia de exemplos de que há limites para o remanso e para o “viver habitualmente” que Salazar considerava ser o grande objectivo do cidadão português.

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O que se passa na habitação em Portugal é muito mais grave do que se passa noutros países e é um assunto que não é de esquerda nem de direita. Os eleitores do Chega, com certeza, não são todos pessoas que considerem que rendas moderadas de 2300 euros sejam aceitáveis. Não são todos proprietários nem fazem parte do contingente que está no topo salarial, nem que fique muito tranquilo com a nova lei do arrendamento – não me espantaria que este acordo PSD/Chega sobre as novas regras venha a ter o destino do pacote laboral, mas logo vemos.

Os lenitivos e algumas propostas absurdas com que o Governo julga estar a resolver o problema da habitação não o vão levar a lado nenhum.

É certo que Montenegro também pode pedir, como fez Passos Coelho, para os jovens emigrarem para cidades estrangeiras onde as rendas sejam mais acessíveis. Aparentemente, não lhe resta mais nada, porque não tem qualquer política que consiga diminuir o impacto da catástrofe habitacional em Portugal. Aos que protestam, resta a política da violência policial, que é a única que o Governo pôs em prática.

Até para a semana.

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E uma comissão de inquérito ao assalto ao gabinete de Ventura?

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 24/09/2026)


Cara leitora, caro leitor,

Imagine que o gabinete de Luís Montenegro na residência oficial de São Bento tinha sido assaltado e de lá tinham sido roubados papéis fundamentais sobre o ministro Luís Neves (ou qualquer outro).

Imagine que o gabinete de José Luís Carneiro na Assembleia ou no Largo do Rato tinha sido vandalizado? O que acha que estes dois políticos iriam fazer? Tentar fingir que aquilo não tinha acontecido?

Estava em causa o regular funcionamento das instituições e acredito que tanto Montenegro como Carneiro estariam disponíveis para falar com a Polícia Judiciária – e não depor por escrito. Em qualquer destas situações hipotéticas, o país ficaria em transe e o Governo (ou o PS) também. No Chega e com o Chega no pasa nada.

André Ventura e os outros deputados chamados a depor no inquérito da PJ ao assalto ao gabinete vão depor por escrito. É muito mais difícil, já se sabe, do que depor ao vivo e ter que responder na mesma hora a perguntas feitas por polícias. Ventura não costuma ter problemas e é muito rápido a responder a perguntas directas, desde que não sejam sobre o assalto ao gabinete, como se viu na entrevista no canal Now.

Esta semana, saiu uma notícia na revista Sábado muito interessante. A Polícia Judiciária confessa a sua impotência em resolver um assalto (costumava ter grandes resultados na criminalidade comum) e admite que pode mesmo ter havido “encenação”, o que é crime. Ao mesmo tempo avisa que a investigação pode não dar em nada e o caso do assalto ao gabinete de Ventura pode ficar em águas de bacalhau – uma grande derrota para a justiça, a somar ao escândalo desta semana da investigação a escutas ilegais.

A notícia, da autoria de Alexandre Malhado e João Amaral Santos, tem passagens muitíssimo interessantes e reveladoras do estado das coisas dentro do Chega relativamente ao assalto ao gabinete.

Passo a citar: “No Chega o assunto é o elefante na sala. Não se discute o tema, embora este seja comentado em surdina. O Chega não fez a sua própria diligência interna para apurar os factos (…) Em alguns deputados existe a incompreensão por não se cavalgar um tema tão grave”. E agora uma citação deliciosa de um deputado à Sábado: “Se fazemos barulho por umas coisas, por que motivo não fazemos para isto?”. A notícia acrescenta que a Sábado enviou perguntas ao grupo parlamentar do Chega sobre o tema do assalto ao gabinete mas não obteve resposta.

Sinceramente, não consigo perceber o silêncio quase geral perante um caso desta gravidade que aconteceu num órgão de soberania. Houve pessoas que falaram, nomeadamente o PSD e o Livre que, por terem trazido o assunto para a primeira linha, foram acusados por Ventura de terem sido os culpados pelo assalto.

Apesar de aqui e ali alguns políticos falarem do assalto, o tema tem sido genericamente desvalorizado, em muitos casos porque se dá de barato que André Ventura vandalizou o gabinete, ou mandou alguém fazer para arranjar umas imagens para o TikTok, e que isso é normal e é alguma coisa com que temos que “lidar”, como com o sol ou a chuva.

Não pode ser assim. Se se encolhe os ombros à possibilidade de um gabinete de um dos partidos que mais deputados tem no Parlamento poder ser vandalizado e roubado (nomeadamente, como disse Ventura a 28 de Julho e nunca mais repetiu, “documentos relevantes” sobre Luís Neves que iriam servir para a comissão de inquérito que vai agora avançar), estamos mesmo perante a decadência moral das instituições. O mesmo é válido para o caso, ainda não provado, de ter sido Ventura a mandar vandalizar o gabinete.

Porque é que nenhum partido ainda propôs uma comissão de inquérito à segurança no Parlamento e em outros órgãos de soberania, já que o que aconteceu ao Chega pode acontecer em qualquer lado? Seguramente, uma comissão de inquérito parlamentar sobre a segurança no Parlamento com enfoque no assalto ao gabinete de Ventura seria um serviço à dignidade das instituições. Nada do que envolve este tema dá vontade de rir.

Ao pé da cama

Acabou de me chegar o livro de Mário Centeno com Filipe Santos Costa, Contas Certas. Vou começar a lê-lo esta noite com imensa curiosidade. As pré-publicações que saíram no PÚBLICO e também no Expresso são muito reveladoras de que Mário Centeno, como dissemos no podcast Soundbite, está a fazer a “rodagem do carro” – a expressão que Cavaco Silva usou como argumento para se ter deslocado ao congresso da Figueira da Foz em 1985, onde foi eleito líder do PSD.

Nos últimos tempos, tenho andado entretida com uma monumental biografia do general De Gaulle A Certain Idea of France do historiador britânico Julian Jackson. Foi-me “recomendada” num artigo que li na New Statesman e passo a palavra – a biografia é excelente e o autor tem uma escrita fantástica e não utiliza aquela seca que às vezes ataca alguns historiadores.

Até para a semana.

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Ali Bábá e os Sessenta Coirões

(Luís Rocha, in Facebook, 11/09/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma coisa que tenho de reconhecer ao Coiso. É um partido extremamente trabalhador. Trabalha muito para produzir absolutamente nada. É assim uma espécie de máquina de lavar roupa avariada. Faz um barulho dos diabos, abana a casa inteira, aquece que se farta, mas a roupa sai exatamente como entrou.

A última demonstração desta admirável capacidade produtiva foi a moção de censura ao Governo. O Coiso foi ao Parlamento para derrubar Montenegro com aquele entusiasmo de quem vai finalmente conquistar a Europa, quando na realidade tinha mais ou menos a mesma capacidade militar de uma associação recreativa de Alguidares de Baixo.

O sacristão de Mem Martins apareceu com ar de pequeno Napoleão, provavelmente já a imaginar a estátua no Rossio, seguido pela brigada de coirões parlamentares, todos afinados para berrar “demissão!”. E berraram. Berraram com convicção. Berraram com pulmão. Berraram como se o volume da voz tivesse alguma relação com o número de votos.

Não tinha. Para derrubar um Governo são precisos votos. E o Coiso tinha 60. Exatamente cinco dúzias.

A moção teve 60 votos a favor, 104 contra e 62 abstenções. Os 60 votos favoráveis foram precisamente os 60 deputados do Coiso. Não conseguiram convencer mais ninguém. Nem um. Foi uma coisa bonita de se ver, porque revelou finalmente a verdadeira dimensão parlamentar da revolução dos ruminantes. Cabia toda dentro do próprio redil.

Imagino que tenha havido um momento, depois da votação, em que alguém perguntou: “Então e agora?” E outro respondeu: “Agora dizemos que ganhámos.”

É assim que funciona a política coirona quando tem um problema com a realidade. A realidade diz “perderam”. A propaganda responde “vitória histórica”. E pronto. Problema resolvido.

O Coiso apresentou uma moção para demonstrar que o Governo estava isolado e descobriu que quem estava sozinho era ele. É uma espécie de ironia que normalmente exigiria um argumentista de comédia, mas que a política portuguesa oferece gratuitamente.

E eu até consigo perceber a irritação.

Se eu fosse dirigente de um partido de extrema-direita que tivesse uma relação particularmente pouco calorosa com o diretor da Polícia Judiciária, sobretudo depois da PJ ter estado envolvida no desmantelamento de organizações extremistas e neonazis, também não seria propriamente fã do homem.

Se passasse os dias a falar de imigração e criminalidade como quem vende rifas à porta da igreja e depois aparecesse a Polícia Judiciária a apresentar números que não confirmavam parte da narrativa, também começaria a sentir que aquele diretor tinha qualquer coisa contra a minha carreira política.

E se, pelo meio, tivesse inventado a história de um alegado assalto ao meu gabinete que estivesse a levantar uma quantidade considerável de perguntas, também perceberia a necessidade de arranjar rapidamente outro assunto.

É aqui que entra a moção.

Porque quando não se tem uma política económica convincente, fala-se de imigrantes. Quando não se tem uma política para a saúde, fala-se de criminosos. Quando não se tem uma política para a habitação, fala-se de identidade nacional. E quando não se tem capacidade para fazer coisa nenhuma, faz-se uma moção de censura.

É uma atividade política semelhante à de um homem que passa a tarde inteira a afiar uma faca e depois descobre que não tem pão.

Mas o melhor veio depois.

A moção foi chumbada, Montenegro continuou primeiro-ministro, Luís Neves continuou ministro e o Governo continuou no mesmo sítio. E, enquanto o Coiso se preparava para celebrar mais uma batalha imaginária contra o sistema, Montenegro aproveitou o debate para anunciar cerca de 800 milhões de euros em medidas para pensionistas e contribuintes.

É preciso ter azar.

Os homens foram ao Parlamento tentar matar politicamente o Governo e acabaram por servir-lhe de palco para anunciar medidas popularuchas.

São uma espécie de motorista de Uber paquistanês da política. Levam os adversários exatamente onde eles querem chegar.

E depois há a parte mais divertida, que é a explicação da vitória.

Porque o Coiso nunca perde. Pode perder eleições, votações, moções, argumentos, aliados e até o contacto com a realidade, mas perder nunca. Aquilo é uma máquina de reciclagem de derrotas. Entra uma derrota e sai uma “vitória política”.

Se tiverem 60 votos e os outros 166 não votarem com eles, é porque “marcaram a agenda”. Se ninguém os acompanha, é porque “não precisam de outros partidos”. Se a moção é chumbada, é porque “o sistema está borradinho de medo”.

É uma forma extraordinariamente confortável de fazer política. Não é preciso ganhar. Basta explicar muito bem porque é que perder é, afinal, uma maneira sofisticada de ganhar.

E talvez seja esse o verdadeiro problema do Coiso. Aquilo não parece um partido político. Parece uma sessão coletiva de autossatisfação.

Muito movimento. Muito entusiasmo. Muito suor. Muito berro. Muito “demissão!”. E no fim, quando se olha para os resultados, Portugal continua exatamente onde estava.

É o equivalente político de alguém passar dois minutos a fazer flexões diante do espelho e depois pedir aos outros que admirem a transformação. Não há transformação nenhuma. Há apenas o espelho. Mas o problema é que Portugal não está no espelho. Está cá fora. Que maçada.

Uma pessoa prepara uma revolução, compra os foguetes, ensaia os discursos, afina os coirões, veste-se de Napoleão e depois chega ao fim do dia e descobre que continua tudo igual.

Há dias em que a democracia consegue ser mesmo cruel. Principalmente para quem ainda não percebeu que gritar “demissão” não é o mesmo que ter capacidade intelectual para fazer alguma coisa de benéfico pela nação.

Mas pronto. Na próxima semana haverá outra coisa qualquer para berrar. Que nunca lhes dê uma amigdalite, coitadinhos…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.parlamento.pt/Fiscalizacao/Paginas/Mocoes.aspx

https://www.parlamento.pt

https://www.rtp.pt

https://www.dn.pt

https://www.jn.pt

https://portugal.gov.pt

https://portugal.gov.pt/…/governo-anuncia-suplemento…

https://elpais.com/…/el-parlamento-portugues-rechaza-la…