Suzana Garcia e os tremores do PSD

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/09/2021)

Daniel Oliveira

Já aqui escrevi sobre o desnorte que vai nas campanhas autárquicas do PSD, subitamente autodespromovido para o campeonato dos pesos-pluma que lutam pela notoriedade. Mas a coisa ganhou uma nova dimensão com a campanha de Suzana Garcia. A candidata do Chega transladada para o PSD, que acusou a presidente da Câmara Municipal da Amadora de não viver na Amadora, onde ela também não vive, foi um investimento mediático dos social-democratas. Garcia não tem qualquer relação com o concelho para além da ideia preconceituosa de que, para a Amadora, é preciso alguém que fale de insegurança. É interessante saber que a Amadora não só não é o concelho com mais criminalidade na Área Metropolitana de Lisboa (AML), como passou, de 2017 para 2020, de 4º para , na AML. Mas os investimentos mediáticos têm, numa campanha onde se somam centenas de campanhas, os seus riscos. São muitos cães a um osso e, quando se chega à reta final e as televisões se concentram nos principais concelhos e nos líderes partidários, é preciso ter alguma coisa a mexer no terreno.

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Nos últimos tempos, depois de um mediatismo desmesurado para um partido que teve 18% nas últimas autárquicas do concelho (contra 43% do PS), tem faltado a Suzana Garcia a atenção que ela esperava dos jornalistas. E se Maomé já não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. A candidata desistiu da Amadora e foi fazer campanha para Lisboa. Com uma estética e uma linguagem típicas da extrema-direita, coerente com o seu próprio perfil, deixou à porta da sede nacional de cada partido cartazes insultuosos, em que chama “fascista” ao PAN e “tachistas” ao PS. Diz que eles vão “tremer”. A rematar estes cartazes, a autoironia: “Os populistas vão tremer.” As mensagens não são sobre os problemas da Amadora. É uma campanha nacional, que faz ataques (sem grande conteúdo) às direções nacionais dos partidos.

Mas o cartaz mais interessante está à frente da Assembleia da República: “o sistema vai tremer.” O sistema vai tremer se o PSD, partido do sistema até à medula, vencer uma câmara da área metropolitana de Lisboa? Claro que não. Mas Suzana Garcia não é candidata à Câmara da Amadora, concelho para que se está nas tintas. Nem do PSD. É candidata a figura mediática da extrema-direita que usa, como Ventura usou em Loures, o PSD como rampa de lançamento depois de, também como Ventura, ter sido promovida pela televisão tabloide. Extraordinário é que um partido que foi usado uma vez e que está a pagar a fatura por isso se preste a ser usado de novo. Na primeira foi culpa de quem enganou, à segunda é de quem é enganado. Não consta que a subida conjuntural do PSD em Loures tenha deixado grandes raízes. Será igual na Amadora.

Ao pôr os cartazes em Lisboa, Suzana Garcia sobrepõe a sua mensagem à de Carlos Moedas, criando ruído sobre uma das candidaturas mais importantes para o partido. Parecendo-me evidente que não consultou a concelhia de Lisboa para a gracinha, exibe desrespeito por Moedas. Mas a cacofonia, em que candidatos de um concelho procuram protagonismo no do outro, é a imagem perfeita do estado do PSD. Está cada um por si, sem liderança nem rumo. O melhor para as garcias desta vida.

Nestas autárquicas, Rui Rio perdeu o partido para a tática de guerrilha do antigo marketeiro de Ventura, que faz as campanhas do Seixal, de Oeiras e da Amadora. O PSD está como o resto da direita: estilhaçado, a falar para uma bolha que vai minguando à medida que se radicaliza e tomado por um discurso identitário que espalha caras de Estaline pelas ruas do Seixal, troca a Rua Humberto Delgado pela Rua Jaime Neves ou chama “fascista” ao PAN. Se o objetivo da extrema-direita fosse destruir o sistema, uma parte estaria bem encaminhada: a destruição por dentro do PSD, que é um dos seus pilares.


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A Ordem do Dia

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/08/2021)

Daniel Oliveira

A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais encontraram-se com Hitler e ofereceram 2 milhões de marcos à campanha nazi. Empresas que hoje são motores da Alemanha e da Europa. Éric Vuillard descreve a reunião, em “Ordem do Dia”. Hitler não foi o chefe de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite. Foi a solução de recurso dessa elite. Têm saído notícias de empresários que financiam o Chega. Ele é um reforço musculado do sistema. Reductio ad Hitlerum? Não. Estou a dizer que, como escreve Vuillard, “não se cai duas vezes no mesmo abismo, mas cai-se sempre da mesma forma”


A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais e banqueiros encontraram-se com Adolf Hitler, que 15 dias depois iria a votos e precisava de dois terços do Parlamento para aprovar a Lei de Concessão de Plenos Poderes, o que acabaria por a ser possível graças ao apoio do Partido do Centro Católico. A reunião, com o objetivo de recolher dinheiro para a campanha, foi na residência oficial do Presidente do Reichstag, Hermann Göring. Éric Vuillard descreve-a, em “Ordem do Dia” (Prémio Goncourt 2017, publicado em Portugal pela D. Quixote), preenchendo os espaços vazios com notas ficcionais.

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Na reunião estariam Wilhelm von Opel (Opel), Ernst Tengelmann (Gelsenkirchener Bergwerks), Fritz Springorum (Hoesch), August Rosterg (Wintershall), Karl Buren (BUBIAG e membro do Conselho da BDA – confederação patronal alemã), Georg von Schnitzler ( IG Farben), Hugo Stinnes Jr. (membro do conselho da Associação Industrial Alemã), Ludwig von Winterfeld e Wolf-Dietrich von Witzleben (Siemens), Wolfgang Reuter (Demag), August von Fink (filho do fundador da Allianz) e mais alguns industriais, banqueiros e figuras que viriam a ter relevo na política económica nazi. Só naquele dia, a fina flor da finança e da indústria alemã ofereceu ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães dois milhões de marcos. A reunião só fica na História porque a História foi severa com o que aconteceu depois. Aquele era um encontro banal. Negócios, apenas. O encontro com Hitler foi afável, com frases amenas e de atenção para cada um dos convidados.

Escreve Éric Vuillard: “O essencial da mensagem cingia-se a isto: era preciso pôr termo a um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer na sua empresa.” O objetivo não era a subversão do sistema, era a salvaguardar o que interessava no sistema: a prosperidade daquelas respeitáveis fortunas. Depois da saída de Hitler e de novo discurso de Goering, repetindo as mesmas ideias, Hjalmar Schacht, presidente do banco central alemão até 1930 e futuro ministro da economia de Hitler até 1937, sorriu e rematou: “E agora, meus senhores, é passar à caixa!”

Mas quem ali estava não eram aquelas pessoas. Era a BASF, a Bayer, a Agfa, a Opel, a IG Farben, a Siemens, a Allianz, a Telefunken, a Varta (então Accumulatoren-Fabrik Aktiengesellschaft), a Krupp. Quase todas ainda existem, quase todas com os mesmos nomes. Estes motores da economia alemã e europeia não se limitaram a ajudar Hitler a chegar ao poder. Lucraram com a exploração do trabalho dos campos de concentração. Buchenwald, Ravensbrück, Sachsenhausen, Flossenbürg, Dachau, Natzweiler-Struthof, Dora-Mittelbau, Gross-Rosen, Neuengamme ou Auschwitz serviram empresas como a Krump, a BMW, a Siemens, a Bayer, a Agfa, a Telefunken ou a IG Farben (a última explorava uma enorme fábrica em Auschwitz). Algumas foram, mais tarde, forçadas a indemnizar sobreviventes do Holocausto ou seus herdeiros, usando o gesto para uma limpeza publicitária, mas sempre contrariadas ou em valores irrelevantes para o dano causado e o lucro garantido.

Hitler não foi o chefe de um grupo de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite de então. Foi a solução de recurso dessa elite. E a razão porque falo deste exemplo extremo é porque em todas as outras vitórias da direita autoritária, mesmo que muito menos extremas, aconteceu o mesmo.

Um grande empenhamento de doutrinação ideológica conseguiu que se instalasse uma associação automática entre capitalismo e democracia. E essa associação passou a fazer-se de forma ainda mais ousada, entre capitalistas e democracia. Haverá, na elite económica, quem tenha mais ou menos amor à democracia. Haverá muito poucos para quem esse amor supere o apego aos seus próprios interesses. E há momentos da História, que nem sequer são excecionais, em que a democracia e a liberdade são inimigas dos seus interesses.

Os que se movem pelo lucro não têm outros valores que não seja o lucro. A liberdade ou a democracia interessa-lhes na medida em que lhes serve, dispensando-as quando são um empecilho. Não desprezam nem acarinham o poder do Estado. Precisam do Estado para impor as suas “reformas”, defender os seus negócios e a sua propriedade e reprimir as veleidades democráticas do povo. Dispensam o Estado quando ele limita o seu poder.

Haveria, entre os “respeitáveis” industriais que financiaram a entrega do poder absoluto a Hitler, alguns nazis. Outros tratavam apenas da “ordem do dia”, fazendo contas aos seus benefícios e necessidades de curto e médio prazo. Depois, havendo mão de obra disponível em campos de concentração, aproveitaram. São só negócios. Muitos seriam antissemitas, mas todos perceberiam a enorme vantagem de ter um agitador que, perante o povo, apontasse o dedo para bem longe deles. E isso também não mudou.

Têm saído notícias sobre vários empresários já com algum peso a financiar o Chega – esperemos que todos o façam dentro da lei. Não há, nesse apoio, nada de estranho. Pelo contrário, ele é natural e acontece com quase toda a extrema-direita por esse mundo fora. Estranho é que, por enquanto, ainda seja tímido. O Chega é muitas vezes apresentado como antissistémico. A palavra tem a fluidez necessária para ser usada por todos. Ela só pode ser traduzida com rigor quando nos entendemos sobre o que é o sistema. E, para os que são contra o sistema, ele é apenas aquilo a que se opõem. Mas se assumirmos que o sistema é, antes de tudo, o económico, o Chega é o oposto de um partido antissistémico. É um reforço musculado do sistema. Basta ler o programa social e económico do partido de 2019, antes do apagão a que chamaram “clarificação”.

Os empresários que agora financiam André Ventura são os que sentem que as coisas estão maduras para impor as suas “reformas” de forma mais expedita. Também eles acharão que o sistema é o que não gostam: o que limita a sua liberdade absoluta. Se o Chega crescer, outros, talvez mais “respeitáveis”, irão seguir-lhes o exemplo e pôr ali as suas fichas.

Estou a cair na falácia argumentativa conhecida por Reductio ad Hitlerum? A própria ideia desta falácia, que tenta isolar o horror nazi como algo absolutamente excecional, é conveniente, porque nos quer fazer acreditar que o que aconteceu ali não nasceu de processos políticos banais e repetíveis. Mas que fique claro: não estou a dizer que Ventura é nazi. É mesmo só oportunista. O que estou a dizer é que a sua função, para esta elite, é a de sempre. A melhor resposta à acusação é dada por Éric Vuillard: “Não se cai duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, com uma mistura de ridículo e de pavor. (…) O abismo está rodeado de moradas imponentes.”


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A lei também é para os “portugueses de bem”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/05/2021)

Daniel Oliveira

As guerras internas no Chega interessam-me pouco. Para quem já viu a capacidade de atração do poder junto de matilhas de medíocres, a coisa é mais ou menos óbvia. Num partido unipessoal, onde à boa maneira da direita autoritária o líder tem poderes disciplinares e políticos absolutos, umas centenas de fura-vidas que apanharam a boleia do radicalismo da moda acotovelaram-se na esperança de estar no lugar certo quando chegar o momento de ir ao pote do sistema. Não há, nas zangas internas, qualquer questiúncula ideológica ou programática relevante. A mudança do programa contra o Estado Social ficou, aliás, para mais tarde, que as exigências de Ministérios tem prioridade em relação à vida das pessoas. Como nos partidos do centrão, há carreiras a construir. O líder, sabendo-se dono dos votos, usa a fome de todos para alimentar a discórdia e reforçar o seu poder.

A relevância das ideias nas lutas medíocres dentro do Chega é a mesma que existe para os afastamentos ou aproximações de Rio a Ventura. Depois de assinar um acordo para formar governo nos Açores e partilhar um palco numa reunião de autoajuda da direita deprimida, o PSD decidiu não comparecer no encerramento da convenção, como resposta às declarações violentas de André Ventura contra o partido. “Há limites de decência e bom senso”, disse o PSD em comunicado.

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Rui Rio convive com Ventura em acordos de governo e convenções, depois de ele insultar ciganos, deputadas de origem africana e beneficiários do RSI. Só quando insulta o PSD é que passa os limites da decência. Para Rui Rio, a fronteira da decência está à volta do seu umbigo. Como em torno da convenção do Chega a decência parece ser o último dos critérios, prefiro tratar dela para falar de uma condenação exemplar.

Instalou-se uma ideia extraordinária: que a forma mais eficaz de combater a anormalidade política do Chega (que resulta, entre outras coisas, do seu discurso xenófobo e racista) é normalizá-la. Que se vence debatendo com ele. Não me parece que o fracasso político dos democratas dos anos 30 tenha resultado da falta de argumentos. Não se vence a extrema-direita esperando que a razão prevaleça sobre a irracionalidade. Muito menos ela será vencida em terapias de grupo, como a organizada pelo MEL, onde não faltaram elogios ao Estado Novo.

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Também não acho que o caminho seja a ilegalização do Chega. Não é o peso eleitoral do partido que determina que isto seja um erro. Se houvesse argumentos para ilegalizar um partido com 6% ou 8% nas sondagens teríamos de lidar com isso. Em democracia, a força eleitoral de um jogador não determina as regras do jogo. Se deixarmos que assim seja, ele acabará por virar o tabuleiro e interromper a partida quando estiver em vantagem. Sou contra este processo porque ele muito dificilmente seria indiscutível à luz da da Constituição – a natureza ideológica do Chega não é de tal forma explícita nos seus documentos que não deixe espaço para escapatórias. Ou a ilegalização é decretada sem que seja uma evidência para todos os democratas ou, mais provável, oferece-se ao Chega uma vitória judicial. Mas a lei existe e é para ser usada. Foi o que aconteceu no caso do Bairro da Jamaica.

No debate presencial com Marcelo, Ventura exibiu uma “selfie” do Presidente com uma família do Bairro da Jamaica e disse que ali estavam “bandidos”. Cinco dos sete fotografados têm o cadastro limpo. O sexto é uma criança que agora tem cinco anos. Três são arguidos e assistentes – assim como um polícia – no mesmo processo. Dos sete, apenas um foi condenado por crimes. A esse, Ventura chamou-lhe “bandido verdadeiramente”. Há “bandidos” que não o são “verdadeiramente”. Mas se forem candidatos a autarcas do Chega, basta não terem uma condenação transitada em julgado para não ser da “bandidagem”. A presunção de inocência é para consumo da casa.

Já esta família foi exposta ao país, incluindo os que nela nunca tiveram problemas com a Justiça. O racismo é isto: a desindividualização do outro, que passa a representar um grupo de suspeitos. Só que, para o tribunal, cada uma daquelas pessoas tem o direito individual à sua honra e à sua imagem. Por isso, Ventura terá de se retratar publicamente. Já disse que não o fará, mostrando que a lei é sempre para os outros.

Vanusa Coxi, que trabalha desde os 16 anos e sempre cumpriu a lei, teve a coragem de dizer: eu sou cidadã, não sou uma metáfora para a propaganda do Chega. Os que acham que palavras são apenas palavras deviam acompanhá-la, numa ida ao supermercado, no dia seguinte ao ter sido exibida como “bandida” em horário nobre.

Infelizmente, no mesmo dia em que foi condenado foi possível dar uma entrevista de vinte minutos na SIC Notícias recusando-se a dizer mais sobre o tema do que adiar respostas para o dia seguinte, em terreno mais favorável, e que ia recorrer. Que outro líder partidário poderia dar uma entrevista no dia de uma condenação judicial sem que esse fosse o tema central, mesmo que isso não lhe desse jeito? E o que tinha a dizer no dia seguinte é que não tencionava cumprir a decisão judicial.

“É isto que faz crescer Ventura”, diz-se sobre tudo e um par de botas, transformando-o em legítimo portador de todas as frustrações nacionais. Até a aplicação da lei faz crescer o homem que só acredita nela quando se aplica aos de baixo. Temos de combater as causas que dão força ao Chega. Mas, mesmo que houvesse acordo sobre elas, é como dizer que a criminalidade se combate reduzindo a desigualdade. É verdade, mas nem por isso suspendemos a lei contra o crime.

Os impasses que levaram ao renascimento da extrema-direita no mundo ocidental são profundos e demorarão muito tempo a resolver. Já a nossa democracia é frágil e a defesa das suas regras é determinante para que a receita do sucesso de Ventura não seja copiada por outros, com muitas vítimas como Vanusa Caxi. A resposta política é complexa. Mas a imediata é simples: a aplicação da lei, que vigora no Bairro da Jamaica e nos debates em que Ventura participa.