A austeridade, afinal, acabou ou não?

(Pedro Lains, in Diário de Notícias, 18/04/2019)

Pedro Lains

Desapareceram, aos poucos, os economistas e afins que, por moto próprio ou respondendo a perguntas acertadas, durante anos nos disseram que era preciso austeridade, que era preciso cortar nos salários, nas pensões, nas ajudas à pobreza, nas fundações, nos institutos, no que fosse. Desaparecidos que estão, não podemos contar com eles para responder a uma das grandes perguntas que tem grassado o debate público dos últimos três anos. Todavia, muitos dos que fizeram as perguntas ou criaram o ambiente próprio recordam-nos afincadamente que a austeridade continua, sempre a mesma, sem dúvidas e sem enganos. Acrescentam apenas que é uma austeridade disfarçada e não assumida. Em que ficamos, continuamos ou não com a austeridade?

Há várias formas de responder a essa questão, mas um recente episódio mediático dá-nos uma forma altamente profícua de o fazer. Para tal, apenas precisamos de fazer um simples exercício mental do tipo “cenário alternativo”. Peguemos nesse episódio e imagine-se o que aconteceria na governação do país caso Passos Coelho e seguidores lá estivessem, apoiados nos tais economistas da “desvalorização salarial” e demais ideólogos “revolucionários”.

O episódio foi a divulgação de um estudo, sério, com muito trabalho envolvido, sobre cenários futuros para a segurança social nacional. O estudo tem perguntas e preocupações legítimas, utiliza técnicas apropriadas e chega a conclusões que promovem o debate. Trata de matérias importantes, para as quais há objectivamente pouca coisa, sendo uma contribuição fundamental. Com ele, sossegados, sentados em mesas de trabalho, políticos, cientistas sociais, representantes da sociedade civil têm mais uma arma para a interpretação dos problemas da segurança social e para as escolhas a fazer.

Todavia, o estudo foi feito no âmbito de uma fundação que tem uma agenda política própria, visível a todos, e que é a responsável pela montagem da bagagem mediática com que estes estudos são divulgados. Essa bagagem – que recorrentemente não é do agrado dos autores envolvidos – inclui grandes e dispendiosas conferências, um programa de televisão pago, comunicados de imprensa, assim como a colaboração dos muitos que jogam no tabuleiro do quanto mais se assusta mais atenção as pessoas dão, e mais audiências há. Toda essa máquina conseguiu lançar na opinião pública a ideia de que as “nossas” pensões estão em risco e que é preciso fazer alguma coisa, sendo que todas as opções avançadas são um custo para os que menos têm. Pelo meio, surgiram entrevistas a cidadãos assustados, a dizerem que preferiam guardar eles o dinheiro em vez de o colocar num “bolo” que não sabiam como era gerido (pessoas que naturalmente não leram o suficiente sobre o que se tem passado no Chile de 1980 para cá). Outros falaram com grande ardor do modelo sueco, passando quase despercebida a conclusão de que levou ao aumento do risco e das desigualdades entre os pensionistas daquele país.

O estudo sobre as pensões nacionais foi, todavia, algo precipitado numa questão fundamental, que ajudou à sua utilização abusiva. Na verdade, toma como plausível a descida da população portuguesa de 10,2 para 7,9 milhões de habitantes, entre 2020 e 2070. Ora, a história – que nada ensina sobre o futuro – de Portugal e da Europa diz-nos que isso dificilmente acontecerá.

E, sendo um problema, então o estudo deveria centrar-se também na discussão de medidas de reversão desse projectado declínio populacional, a saber, medidas de apoio à natalidade ou de atracção e integração de imigrantes.

O que tem isto tudo a ver com a pergunta inicial? É muito simples. Vejamos a resposta que o actual ministro da tutela deu ao assunto e imaginemos a resposta que seria dada por um governo de Passos Coelho. O que viria, perante tanta ciência, seriam cortes. Cortes de 600 milhões de euros aqui ou, já agora, uma vez que os cortes aumentam, segundo essas ideias anacrónicas, a “produtividade”, talvez se pudessem chegar a mais alguns milhões de euros. É essa a diferença. A austeridade, que fique bem claro, tem de envolver cortes.

Saltemos a conclusão sobre o que acima se disse para recordar que a austeridade, a verdadeira, a séria, ainda sobrevive num canto da Europa, precisamente aquele que é governado pela mesma gente que a defendeu cá, a saber, o Reino Unido. É isso que queremos, políticas que dividem as populações, que põem ricos contra pobres, regiões afastadas contra regiões centrais, desregulação e instabilidade financeira? Ou queremos um país a fazer honras à sua história?

Professor universitário e investigador.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.


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Que saudades do Pedro

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 17/04/2019)

Com o Pedro a mandar nisto, espalhando magnânimo a sabedoria adquirida nos altos voos proporcionados pelos aeródromos da Região Centro, não havia cá greves de professores, enfermeiros, procuradores, juízes, camionistas. O País vivia na maior das calmas, com os desordeiros, estroinas e madraços já na estranja, ou com voo marcado para fora da zona de conforto, e o resto do povo piegas com a bola baixa e a contar os tostões (que é para o que o povo tem jeito, é da genética). A situação era tão paradisíaca que alguns ministros até despachavam resoluções bancárias inauditas e catastróficas de chapéu de palha na cabeça e os pezinhos a chapinhar na piscina. A impunidade tinha acabado, o filha da puta estava preso. O tempo podia ser tranquilamente passado a vender o que restava das jóias do Estado.

Agora, com estes socialistas corruptos a mandar nisto, qualquer macaco acha que tem direito a uma vida melhor, exigindo mais dinheirinho no bolso só para o ir gastar logo a seguir a comprar isto e aquilo. Querem imitar a gente séria que tem empresas e posição, que tem apelidos. Que falta nos faz a Troika, esses senhores do Norte da Europa que fizeram o sacrifício de vir ao cu do Mundo dar lições a quem não se deixa governar.

Volta Pedro e traz a tua vontade indomável, o teu desprezo pelas eleições. Chega de greves e de consumismo, chega de regabofe. Basta.

(já agora, sempre é verdade que preferes votar Ventura a votar Rio?)


Fonte aqui


Esta direita insaciável e ansiosa

(Carlos Esperança, 15/04/2019)

Cavaco, o verrinoso

Esta direita tem os jornais, as televisões e a rádio; tem os bombeiros, os incêndios e os incendiários; tem a sofreguidão do poder e a nostalgia do “nosso Ultramar infelizmente perdido”; tem os antigos líderes como comentadores profissionais e a maior parte dos comentadores profissionais como satélites; tem as redes sociais e as redes de corrupção dos autarcas do Norte, que a Visão denunciou e a PGR ignora, mas tem Passos Coelho e Portas, Durão Barroso e Santana Lopes, Assunção Cristas e Nuno Melo, Marta Soares e Marco António. São o seu calcanhar de Aquiles.

Em períodos eleitorais esconde os mais detestáveis e mostra as estrelas da Companhia, que julga perdoadas. Ontem surgiu Durão Barroso, com o caso da quinta da Falagueira e a aventura iraquiana esquecida com a atual atividade financeira; hoje surgiu Cavaco Silva que, à semelhança de Américo Tomás, julga que o povo o ama.

Cavaco, odeia os cravos, pelo menos na lapela, e deve aos militares de Abril tudo o que foi, mas é o salazarismo que o guia e os pides o símbolo do heroísmo que aprecia. Hoje, saído da hibernação, surgiu a predizer que Portugal será a lanterna vermelha da Europa, enleado no ódio a este governo, esquecida a cumplicidade com Passos Coelho e Portas.

Ver declarações de Cavaco aqui


Este homem cuja memória anda pelas ruas da amargura esquece que a sua ministra da Saúde foi a única governante europeia impune pela compra do sangue contaminado, que colocou no gabinete o irmão Zezé que viajou para a Ásia quando o secretário de Estado, Costa Freire, foi julgado e preso e tem o despudor de acusar este governo da degradação do SNS devida ao governo de Passos e Portas, de que foi cúmplice, e cuja criação teve os votos contra do PSD e CDS.

Cavaco não é um estadista, é um algoritmo mal sequenciado, um depósito de bílis com saliva na comissura dos lábios, a destilar ódio contra a esquerda, que acaba por ajudar, pela repulsa que provoca.

Aliás, a desfaçatez e a falta de memória são a imagem de marca desta direita que resvala para a direita musculada sem precisar de Cavaco, Santana Lopes, André Ventura ou do merceeiro holandês do Pingo Doce.

Basta recordar Paulo Rangel a defender uma lei que tornasse incompatível a advocacia e a atividade parlamentar ☹ ☹ ☹.