Frivolidades do 25 de Abril de 2026

(Carlos Esperança, in Facebook, 26/04/2026, Revisão da Estátua)


No rescaldo do 25 de Abril, a notícia de mais um atentado ao PR dos EUA, depois de 4 presidentes assassinados e 6 frustrados, ocupa o espaço mediático e refere a luzidia elite política dos EUA debaixo das mesas, antes de superado o susto, e de alguns convidados, já serenados, aproveitaram para levar garrafas de vinhos, seguramente de boa qualidade, como lembrança e à guisa de reparação pelo repasto perdido.

E, no entanto, o 25 de Abril merecia destaque, pelo entusiasmo das celebrações, com multidões, imensos jovens, o que parecia ter caído em desuso, a vitoriarem a data.

Talvez o regresso de um Presidente da República de cravo ao peito, após 20 anos de ingratidão, a presidir às comemorações do 25 de Abril, e a presença da mulher com vestido e cravo vermelhos, tenha despertado o país para a ignomínia do ano anterior em que a morte do Papa foi o pretexto para cancelar as comemorações.

Assisti pela primeira vez às comemorações populares do 25 de Abril em Coimbra, com o pensamento em Almeida onde há mais de quatro décadas celebro a data, onde os meus companheiros de sempre e o município persistem na celebração.

A comparação com os dias 1.º de Maio foi, em Coimbra, de dimensão inimaginável e de uma alegria que só a juventude empresta. Eram milhares de pessoas e nem uma imagem televisiva vi. O Diário de Coimbra, que traz uma foto na 1.ª página com “os lousanenses que derrotaram o Direito B por 28/26 e agarraram o troféu” [sic], remeteu a notícia para a página 3, ocupando apenas ¼ da página com as manifestações populares.

O momento de «inconseguimento», termo cunhado pela antiga Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, foi o discurso de Aguiar Branco, reagindo ao incómodo do caso Spinumviva para o Primeiro-ministro, procurando legitimar a sua recusa em responder às dúvidas sobre os preços de amigo na casa de Espinho, com numerosas casas de banho, e outras trapalhadas empresariais. 

Para a história das frivolidades ficaram os cravos verdes do 4.º Pastorinho na Assembleia da República – talvez adquiridos com as algemas em local visitado por deputados do Chega -, que compensaram a homofobia, exibindo o símbolo da identidade gay que, Oscar Wilde, pediu aos amigos que usassem na lapela para a peça Lady Windemere’s Fan, em 1892.

Grave foi a reincidência na expressão “apunhalados pelas costas”, para referir a derrota militar no “nosso Ultramar infelizmente perdido”, à semelhança de Hitler, para justificar a derrota da Alemanha na 1.ª Guerra Mundial e preparar a seguinte.

O 4.º Pastorinho não aceita que patriotismo é o amor à Pátria, porque o confunde com o nacionalismo, a patologia de quem gosta de pátrias alheias e as pretende como colónias. Enfim, uma no cravo e outra na ferradura, e há solípedes que não estão quietos com os cascos.

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A visita de Lula a Portugal

(Carlos Esperança, in Facebook, 21/04/2026, Revisão da Estátua)


Lula da Silva é hoje uma referência mundial na luta pela paz e justiça social, uma dessas personalidades cuja coragem e determinação fizeram do operário metalúrgico o Presidente de um grande país e a esperança dos milhões de desesperados que herdou.

Este seu terceiro mandato, à semelhança dos dois primeiros, fica marcado pelos milhões de brasileiros que tirou da miséria, por políticas cujo humanismo revela que o autor não esqueceu de onde veio e os que sofrem como ele sofreu.

Lula da Silva está de visita a Portugal, uma honra para o País que moldou o seu, que lhe deixou a língua que nos une e o património histórico comum.

Esperava-se dos portugueses o sentimento de regozijo por termos entre nós o presidente da maior democracia do continente americano, um homem que alia à dimensão afetiva e humanista verdadeira paixão por Portugal e uma genuína amizade pelo povo português.

E assim é no coração de muitos portugueses, na decência com que o PR e o Governo de Portugal o recebem, na simpatia que lhe prodigalizam os cidadãos anónimos de Lisboa.

Mas, há sempre um mas. Das sarjetas da política partidária, das alfurjas do salazarismo serôdio, saem marginais consumidos pelo ódio, movidos pelo ressentimento, tocados por um marginal, dispostos a insultar o homem que paira bem acima dos homúnculos que o 4.º Pastorinho arregimenta para aparecer nas televisões a grunhir impropérios.

Os fascistas que saíram à rua, para insultar Lula da Silva, pretendem digerir a derrota de Orban na Hungria, a repugnância de Trump em todo o mundo, a náusea de Bolsonaro, o asco de Netanyahu e a memória dos regimes nazifascistas que os inspira.

Há naqueles marginais uma sede de protagonismo que só a boçalidade e a coreografia lhes asseguram. Podia pensar-se que a manifestação contra a corrupção era contra o próprio Chega que pretende ocultar o nome dos financiadores, mas era contra o presidente Lula, com gritos de apoio a Bolsonaro gritado em uníssono com brasileiros que o Chega quer reenviar para o Brasil.

As algemas que o 4.º Pastorinho exibia, talvez um talismã guardado de sevícias antigas sofridas, para esconjurar reincidências, são referenciadas como estando ainda à venda, por 7, 95 € nas sex shops.

Enfim, a miséria fascista a conspurcar o país que há 52 anos foi libertado da mais longa ditadura da Europa ocidental!

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Relembrar o fascismo para exorcizar o fascismo

(Whale Project, in Estátua de Sal, 05/04/2026, revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Pacheco Pereira sobre o ataque que a direita está a empreender contra o quadro democrático-constitucional (ver aqui). Pelo realismo da descrição do Portugal do antigamente, antes do 25 de Abril, que muitos já esqueceram e outros não viveram, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 05/04/2026)


Os portugueses gostavam tanto de cá estar que – numa população que rondaria os nove milhões de habitantes -, nos anos 60 mais de um milhão emigrou, em especial para França, onde era mais fácil chegar “a salto” fazendo de Paris “a segunda maior cidade de Portugal”.

A grande desertificação do interior do país começou aí, aldeias inteiras foram despovoadas ficando só os demasiado velhos para arrotear novos caminhos e muitas vezes as crianças.

Portugal teve o destino da Galiza plasmado numa canção: “Este parte, aquele parte e todos, todos se vão. Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão. Tens em troca órfãos e órfãs, tens campos de solidão, tens mães que não têm filhos, filhos que não têm pai…” (Ver vídeo abaixo com a canção interpretada por Adriano Correia de Oliveira).

Em Portugal até mulheres e crianças enfrentaram os perigos de “ir a salto”. Clandestinos, ilegais, nunca saberemos quantos os que, acusados de terem ido para França e abandonado mulher e filhos, na realidade nunca lá chegaram. Abatidos por guardas-republicanos ou guardas-civis espanhóis encontraram a morte nos caminhos de serras, desaparecidos. Nunca saberemos quantos foram.

O êxodo português foi provavelmente o maior movimento migratório da década na Europa, chegando a ser comparado ao grande êxodo da Irlanda no tempo da Grande Fome dos anos 1845 e 1848.

Era por estarem muito de bem com a vida que os portugueses arriscavam a vida para viver em cidades de contentores.

Mesmo assim há uns anos um idoso que vivera num desses bidonvilles dizia que tinha valido a pena. Era de uma aldeia perdida no centro de Portugal. Dizia ele: “Em Portugal comíamos para ali umas couves, carne era uma vez por ano, ali tínhamos carne três vezes por semana, era melhor’.

Tudo isto e conhecido, está nos livros. Ainda há gente viva desse tempo. Por isso, é simplesmente indecente haver gente a dizer que alguém que vivesse do seu trabalho vivia bem nesse tempo e estava de bem com a vida.

Podiam estar alguns com o cérebro lavado pela propaganda e pela religiosidade entranhada que pregava o sofrimento nesta vida como passaporte para a bem aventurança eterna. “No céu triunfarei”, era com esta promessa de uma canção de negros brasileiros que muita gente por aqui, em especial no Norte do país ia safando a vida e odiando os “comunistas” que diziam que merecíamos melhor desta vida.

Cabe acrescentar que, nesse tempo, qualquer um que falasse mal do regime era comunista e tinha direito a estadia num dos muitos “hotéis” do regime. De onde ninguém sabia quando e como sairia.

O que a direita quer é um regresso a esse tempo. Em que os preços das casas eram tão proibitivos que viviam três ou quatro famílias numa casa de dois quartos. Por isso o Governo está tão preocupado com a crise da habitação que está a vender casas a fundos privados abaixo do preço de mercado.

A verdade é que voltámos a ter fascistas no poder e desta vez fomos nós que votámos neles. Não houve mortos a votar nem apenas chefes de família.

Tudo por muita gente ir em contos de sereia como o ficar rico por pagar menos impostos ou acabar com as mordomias daqueles malandros dos funcionários públicos.

E, quem canta esses cantos de sereia, a única coisa que quer é fazer a nossa vida andar para trás, dizendo que e um andar para a frente.

O pacote laboral é um exemplo disso mesmo. Vendido como modernidade pretende o regresso ao poder discricionário que os patrões tinham noutros tempos. Acordem ou um dia acordam nos anos 60. E acreditem, poucos eram os que iam aguentar.

Fascismo nunca mais.


Cantar de Emigração – Adriano Correia de Oliveira