Relembrar o fascismo para exorcizar o fascismo

(Whale Project, in Estátua de Sal, 05/04/2026, revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Pacheco Pereira sobre o ataque que a direita está a empreender contra o quadro democrático-constitucional (ver aqui). Pelo realismo da descrição do Portugal do antigamente, antes do 25 de Abril, que muitos já esqueceram e outros não viveram, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 05/04/2026)


Os portugueses gostavam tanto de cá estar que – numa população que rondaria os nove milhões de habitantes -, nos anos 60 mais de um milhão emigrou, em especial para França, onde era mais fácil chegar “a salto” fazendo de Paris “a segunda maior cidade de Portugal”.

A grande desertificação do interior do país começou aí, aldeias inteiras foram despovoadas ficando só os demasiado velhos para arrotear novos caminhos e muitas vezes as crianças.

Portugal teve o destino da Galiza plasmado numa canção: “Este parte, aquele parte e todos, todos se vão. Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão. Tens em troca órfãos e órfãs, tens campos de solidão, tens mães que não têm filhos, filhos que não têm pai…” (Ver vídeo abaixo com a canção interpretada por Adriano Correia de Oliveira).

Em Portugal até mulheres e crianças enfrentaram os perigos de “ir a salto”. Clandestinos, ilegais, nunca saberemos quantos os que, acusados de terem ido para França e abandonado mulher e filhos, na realidade nunca lá chegaram. Abatidos por guardas-republicanos ou guardas-civis espanhóis encontraram a morte nos caminhos de serras, desaparecidos. Nunca saberemos quantos foram.

O êxodo português foi provavelmente o maior movimento migratório da década na Europa, chegando a ser comparado ao grande êxodo da Irlanda no tempo da Grande Fome dos anos 1845 e 1848.

Era por estarem muito de bem com a vida que os portugueses arriscavam a vida para viver em cidades de contentores.

Mesmo assim há uns anos um idoso que vivera num desses bidonvilles dizia que tinha valido a pena. Era de uma aldeia perdida no centro de Portugal. Dizia ele: “Em Portugal comíamos para ali umas couves, carne era uma vez por ano, ali tínhamos carne três vezes por semana, era melhor’.

Tudo isto e conhecido, está nos livros. Ainda há gente viva desse tempo. Por isso, é simplesmente indecente haver gente a dizer que alguém que vivesse do seu trabalho vivia bem nesse tempo e estava de bem com a vida.

Podiam estar alguns com o cérebro lavado pela propaganda e pela religiosidade entranhada que pregava o sofrimento nesta vida como passaporte para a bem aventurança eterna. “No céu triunfarei”, era com esta promessa de uma canção de negros brasileiros que muita gente por aqui, em especial no Norte do país ia safando a vida e odiando os “comunistas” que diziam que merecíamos melhor desta vida.

Cabe acrescentar que, nesse tempo, qualquer um que falasse mal do regime era comunista e tinha direito a estadia num dos muitos “hotéis” do regime. De onde ninguém sabia quando e como sairia.

O que a direita quer é um regresso a esse tempo. Em que os preços das casas eram tão proibitivos que viviam três ou quatro famílias numa casa de dois quartos. Por isso o Governo está tão preocupado com a crise da habitação que está a vender casas a fundos privados abaixo do preço de mercado.

A verdade é que voltámos a ter fascistas no poder e desta vez fomos nós que votámos neles. Não houve mortos a votar nem apenas chefes de família.

Tudo por muita gente ir em contos de sereia como o ficar rico por pagar menos impostos ou acabar com as mordomias daqueles malandros dos funcionários públicos.

E, quem canta esses cantos de sereia, a única coisa que quer é fazer a nossa vida andar para trás, dizendo que e um andar para a frente.

O pacote laboral é um exemplo disso mesmo. Vendido como modernidade pretende o regresso ao poder discricionário que os patrões tinham noutros tempos. Acordem ou um dia acordam nos anos 60. E acreditem, poucos eram os que iam aguentar.

Fascismo nunca mais.


Cantar de Emigração – Adriano Correia de Oliveira

Anda o mundo doido… e Portugal esquizofrénico (Crónica frívola)

(Carlos Esperança, in Facebook, 31/03/2026, Revisão da Estátua)


Luís Montenegro, exímio nos negócios e pilar da ética, já advertiu o PS para se habituar à nova configuração da AR, mas não se percebe porque lhe exige que vote diplomas que o Chega e a IL recusam.

Paulo Rangel julga que os aviões que poisam na Base das Lajes, no futuro, talvez, Base Donald Trump, se destinam a voos turísticos para jovens estudantes e Nuno Melo que a montagem de drones se destina à revenda para fotografar festas de família.

Ana Paula Martins garante que a Saúde está melhor, os portugueses é que estão doentes, e só por preconceito ideológico não se entregam os cuidados de Saúde às Misericórdias e aos privados de modo a que nunca mais seja o Estado a falhar.

Maria do Rosário Palma Ramalho, mais preocupada com o Trabalho, de que os patrões precisam, do que com a Segurança Social, vital para os trabalhadores, prometera que a legislação, já concertada com o Chega, seguiria para a AR sem mais delongas, e agora não percebe como foi possível que lhe boicotassem o acordo com o patronato.

Miranda Sarmento, quando era outro o Governo e Portugal crescia acima da média da UE, após dois anos falhados, já tem desculpa, a depressão Kristin e a Fúria Épica de Trump, como se então não tivesse havido pandemia e começado a guerra na Ucrânia.

Os portugueses que votam na AD e no Chega, que rejubilaram quando Paulo Rangel foi ao comício do PP a Madrid a insultar Pedro Sánchez e Ventura a pedir a sua prisão, vão agora em peregrinação a Espanha para encher os depósitos de combustível.

Perante o silêncio do PR, o anterior foi cúmplice, e do próprio PS, o Governo mantem-se em guerra com o Irão, ao lado das democracias, EUA e Israel, enquanto Espanha proíbe o espaço aéreo a aviões militares dos EUA, a UE recusa entrar na guerra e Meloni recusa as bases italianas ao amigo Trump porque o voto dos italianos precisa de ser recuperado depois da derrota no Referendo.

Os portugueses, já conformados com os salários, falta de habitação, aumento do custo de vida, inflação e Urgências dos hospitais fechados, ficaram em estado de estupor com a violência doméstica do eng. Mira Amaral, pessoa que se previa que cuspisse em quem estivesse perto e acabou detido por bater na mulher.

Anda o mundo doido… e Portugal esquizofrénico.

O Luís vingou o Aníbal

(Carlos Esperança, in Facebook, 30/03/2026, Revisão da Estátua)


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Retirar Saramago, o Nobel da Literatura Portuguesa, do currículo académico, não é um ato gratuito, é o ajuste de contas com a democracia e a memória coletiva do 25 de Abril.

Vinte anos depois da saída de Cavaco Silva de Belém, salazarista que abominava a obra de Saramago, sem nunca ter lido uma única página, coube ao governo de Montenegro a tentativa de agradecer ao «génio da banalidade» o apoio indefetível prodigalizado.

A substituição de José Saramago por Mário de Carvalho, é uma manobra bem ao gosto do dissimulado Montenegro, propor um grande escritor da mesma área ideológica para ocultar o saneamento político que se pretende para, depois, sem ruído, afastar o último.

Saramago continuará a ser lido por quem ama a língua portuguesa e aprecia a literatura, mas a tentativa de vingança está em curso perpetrada por quem se apropriou da agenda ideológica do Chega e quer vingar Cavaco.

Eis algumas razões da tentativa de lesa-literatura:

L’Osservatore Romano, diário do Vaticano, escreveu quando Bento XVI era Papa: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado” e, depois da morte, ainda lhe chamou “populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”, epítetos azedos de um reacionário.

O eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola, que viveu quase sempre fora de Portugal, declarou, após a atribuição do Nobel, que tinha vergonha de ser compatriota do escritor e que este devia renunciar à nacionalidade portuguesa.

O Sr. Manuel Clemente, ex patriarca de Lisboa, então bispo do Porto, afirmou que José Saramago “revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas” e, como “exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever”, como se alguém o coagisse a ele, bispo, a pensar antes de falar ou a calar-se quando o silêncio é crime, como aconteceu nos casos de pedofilia do clero da sua diocese.

Doze livros de José Saramago estão entre os classificados com os mais altos níveis de interdição do Opus Dei a nível internacional, num Índex de 79 obras de autores portugueses, incluindo Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Miguel Torga, Lídia Jorge e David Mourão-Ferreira.

Sousa Lara, subajudante de ministro de Cavaco, censurou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e opôs-se a que fosse incluído no concurso a um prémio literário europeu. Foi o rosto do cavaquismo, intolerante, vesgo e analfabeto.

Montenegro comporta-se como Cavaco na cultura, Durão Barroso no apoio à invasão do Irão e Santana Lopes na governação. É a síntese do pior da direita da pior maneira.

«Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus». (Mateus 5:3)