Calças o 37 ou o 38?

(In Blog O Jumento, 09/09/2019)

Esta mania de os políticos irem aos mercados receber banhos de multidão começa a ser preocupante, como se viu no espetáculo triste recentemente proporcionado pela líder do CDS? O espetáculo deprimente proporciona mais uns minutos de tempo de antena, mas não há um único português que mude de voto porque levou um beijinho de um líder de um partido entre as batatas e os pimentos.

O que estes espetáculos estão proporcionando é uma imagem triste dos nossos políticos. Todos sabemos que os mercados não deverão ser o forte da líder do CDS e que o tratamento por tu não será a sua norma de comportamento e muito menos com comerciantes.

Ver um comerciante berrar para saber onde está a “Assunção” de pois meter-lhe o braço por cima, conduzindo-a para a banca para lhe vender uns ténis, perguntando-lhe “calças o 37 ou o 38” proporcionam uma imagem muito triste de um político.

Pode ser muito popular, pode ser politicamente correto, mas se para se ser primeiro-ministro a qualidade que se exige é descer desta forma, permitindo a um comerciante um tratamento que ninguém permite isso significa rebaixar o nível da classe política. Compreende-se o desespero da líder que um dia se gabava de ser o terceiro partido e que agora sujeita-se a tudo para não ficar atrás do PAN, não se importando de atirar a imagem dos políticos para a sarjeta.

Esta imagem não condiz em nada com a de uma política que apesar de se a líder partidária mais jovem dá mostras de já ter nascido velha. Ainda há poucos dias víamos uma Assunção Cristas que nos debates quase nem mexia a cabeça para não estragar um penteado que parecia ser uma homenagem a alguma bisavó. A imagem proporcionada pela líder do CDS não é a imagem de nenhum dirigente político deste país, é uma imagem que a líder do CDS tem do que deverá ser um político popular, o que é lamentável porque ela de popular nada teve, de uma política de baixo nível talvez…


Fonte aqui

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Don’t feed Trump

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/08/2019)

Daniel Oliveira

Jair Bolsonaro andava debaixo de fogo. É a “Vaza Jato” que debilita o seu ministro mais popular. É um caso de corrupção envolvendo Fabrício Queiroz, ex-oficial e ex-assessor de Flávio Bolsonaro, filho do Presidente. Era a divulgação de que Moro blindou, quando era juiz, o atual superministro da Economia, Paulo Guedes, de qualquer investigação. Era a nomeação do filho para embaixador em Washington, topo da carreira diplomática, com o patético argumento de que o rapaz arranha inglês. E agora são os incêndios na Amazónia – mas disso, pela dimensão global que tem, não pode mesmo fugir.

Perante o mau momento, o que fez Bolsonaro há umas semanas? Aproveitou uma pega com o presidente da Ordem dos Advogados para dizer que o seu pai, resistente da ditadura, não tinha sido morto pelos militares, como confirmam todas as fontes oficiais, mas pela sua própria organização, como dizia o torturador Brilhante Ustra. O sadismo da sua afirmação, usando a morte de um pai para atingir um opositor, causou compreensível indignação. Mas essa indignação só foi acompanhada por quem tem memória histórica, sabe quem é Filipe Santa Cruz e quem era o seu pai e se incomoda com a simpatia evidente do Presidente para com a ditadura militar. Nenhuma dessas pessoas votou ou vai votar em Bolsonaro. E com a polémica que se instalou não se falou, durante uns dias e até a Amazónia apagar tudo, do nepotismo, da corrupção e da falta de seriedade de Bolsonaro, dos seus filhos e dos seus dois principais ministros. E era isto, e não as barbaridades que Bolsonaro diz e sempre disse, que estava a perturbar os eleitores que votaram no “mito” porque ele ia “limpar o Brasil”.

Bolsonaro não inventou a pólvora. A sua inspiração foi Donald Trump. Todos os dias o Presidente dos Estados Unidos cria uma polémica nova. Umas sérias, outras não. Umas chocantes, outras patéticas. Quando a coisa o começa a atingir de alguma forma, muda para outra ou recua. Mas a regra é produzir o máximo de ruído, sobrepor polémicas umas nas outras, para que a sua cacofonia leve a uma cacofonia dos seus opositores, que diariamente se indignam com coisas diferentes, sem conseguir ter foco na oposição que lhe fazem. Usando as redes sociais, Trump consegue banalizar os seus próprios disparates, banalizando com isso as críticas que lhe fazem. Já nada tem realmente importância a não ser o festival diário e inconsequente de polémicas. Com as redes sociais, ele consegue construir esta narrativa sem narrativa que os jornalistas seguem, sem outro critério que não seja o de alimentar o espetáculo que Trump lhes oferece.

O episódio da compra da Gronelândia é um bom exemplo. A vontade de comprar aquele território não tinha qualquer plausibilidade. O tweet que postou na conta oficial do Presidente, com uma montagem que punha uma torre Trump na Gronelândia e a frase “prometo não fazer isto na Gronelândia” era a prova de que estava apenas a gozar o prato. Mas, mesmo assim, os jornalistas tiraram leite das pedras. Consultaram-se dezenas de especialistas que debateram a possibilidade e as vantagens de comprar a Gronelândia. Olhou-se para a História, para o direito internacional, para economia. A primeira-ministra dinamarquesa reagiu, com indignação estadista. O Presidente dos EUA desmarcou uma visita.

Maravilhoso. O Presidente conseguiu, mais uma vez, com um das suas dezenas de tweets diários, criar uma polémica vazia e impedir que se falasse de política e do que ele está realmente a fazer. Enquanto a coisa estiver no campo da pantomima, ele ganha. Porque essa é a especialidade do pantomimeiro.

Mas também não foi Trump quem inventou isto. Apenas adaptou a política-espetáculo à era das redes sociais. Trump e a fileira de fascistas que lhe seguiram a peugada apenas perceberam como a usar para esvaziar o debate democrático de conteúdo. E nós caímos. Uma e outra vez. Todas as vezes e sem nunca aprendermos. Porque nos regemos pelas regras antigas, que nos dizem que tudo o que um Presidente dos Estados Unidos diz em público é obviamente notícia.

Não sei como se desarma esta armadilha. Sei que Trump e Bolsonaro devem começar a ser tratados pelo que são. Sim, são Presidentes dos seus países. Dois Estados bem relevantes, por sinal. Mas só é importante o que dizem como tal e usando os instrumentos que o Estado lhes garante. Tudo o resto deve ser tratado como é: entretenimento sem qualquer relevância política. Sim, é perigoso não nos indignarmos. Mas a indignação só vale a pena se for consequente, agindo conformidade e com gravidade. Era o que se devia estar a fazer com o que se passa na Amazónia. Para o resto, a resposta da primeira-ministra da Dinamarca deveria ser apenas uma: “Aqui governa-se um país, não temos tempo para palhaçadas”. Esvaziar a polémica é transformá-la no que é: entretenimento de um farsante. Guardem a indignação para aquilo contra o qual pretendem realmente agir. Mantenham o foco, ignorem o ruído.

Não há greves populares

(Ana Sá Lopes, in Público, 07/08/2019)

Marcelo Rebelo de Sousa veio ontem fazer a sua tentativa de apaziguamento relativamente à iminente greve dos motoristas. O argumento mais forte do Presidente – que já protagonizou uma sessão de “afecto” com motoristas em Dezembro passado, quando viajou a bordo de um camião – é que os trabalhadores se arriscam a perder popularidade (que nunca tiveram). “Se de repente há na sociedade portuguesa um sentimento, uma reacção”, se a sociedade se “sentir refém da luta, deixa de se identificar com a luta”.

A posição de Marcelo Rebelo de Sousa é uma variação mais suave da que foi já expressa pelo primeiro-ministro, que afirmou existir, contra a greve dos motoristas, “um claro sentimento nacional de revolta e de incompreensão”.

A questão aqui é que este argumento tem valor idêntico para o caso dos motoristas de matérias perigosas como para outro sector de que dependa a vida das pessoas normais: médicos, enfermeiros, professores, trabalhadores dos transportes públicos… A história não retém um caso de uma greve popular. Costa acha a greve injusta, porque é desencadeada no meio de um processo negocial; Marcelo admite a justeza das reivindicações, ou pelo menos aceita que “os fins sejam legítimos”. “Há que ter atenção que não basta que os fins sejam legítimos, que as aspirações sejam legítimas ou justas, é preciso depois que os meios não venham a prejudicar os fins”, disse o Presidente.

É verdade que estava a decorrer um processo negocial em resultado da greve da Páscoa e a convocação deste novo round de paralisações vem dar o dito por não dito por parte dos motoristas. Por alguma razão (eleições, como apareceu naquele vídeo que foi divulgado?), o sindicato que o advogado lidera – mas não só esse – decidiram estragar o Agosto aos portugueses. Mas uma exigência de 900 euros de vencimento-base em 2022, numa profissão de especial desgaste e responsabilidade, é assim tão absurdo?

O sindicalismo “selvagem” floresce onde o sindicalismo bem-comportado não tem resultados. Misteriosamente, o PS já nem importância dá aos seus dirigente sindicais, colocando-os de fora das listas de deputados – o que é uma absoluta novidade num partido que se integra na história dos partidos trabalhistas europeus. 

Depois de o primeiro-ministro, foi a vez de o ministro das Infra-Estruturas, o mais à esquerda deste Governo, admitir que se tem de “revisitar” a lei da greve. Pedro Siza Vieira, o ministro da Economia, mais recentemente disse que a revisão da lei da greve “é uma questão que tem de ser equacionada do ponto de vista político e os protagonistas políticos têm de ponderar a necessidade de rever a lei da greve”.

Uma coisa sabe este Governo: esta greve e todas as outras são impopulares e quanto mais duro for com os grevistas, mais ganha na opinião pública. Margaret Thatcher também sabia.