De onde vem tanta raiva?

(José Pacheco Pereira, in Público, 10/10/2020)

Pacheco Pereira

Pode haver sociedades com absoluto consenso, em que todos “remam para o mesmo lado”, em que todos os conflitos são sanáveis? A resposta é um claro não, não há sociedades sem divisões, mais ou menos agudas, mais ou menos conflituais. O que não existe é um estado “zero” de conflitualidade nem mesmo à força, nem nas democracias, nem nas ditaduras, nem na anarquia, nem na teocracia, nem no comunismo nem na mais pacífica, civilizada, ordeira, moderada, social-democracia. A única verdadeira TINA (there is no alternative) é esta, o resto são ficções políticas legitimadoras, ou subprodutos disfarçados de inevitabilidade. A questão não está em não existirem conflitos, está em saber como é que se formam os ciclos de conflito, e como é que eles se tornam numa tempestade perfeita, que é o que se está a passar nos dias de hoje. É isso compatível com a democracia, em que o voto é suposto dirimir todos os conflitos, ou pelo menos mitigá-los? É, de forma imperfeita, mas é. Mas o espaço para a democracia alarga ou encolhe conforme os tempos, e agora está a encolher, e não encolhe sempre da mesma maneira.

A outra TINA, que está por detrás da primeira, foi identificada por Marx, e repetida e analisada por muitos outros teóricos, longe de serem marxistas, e tem a ver com a desigualdade e os mecanismos da desigualdade – uns têm e outros não, seja de forma física, material ou simbólica, ou quase sempre combinando as duas, primeiro a primeira, depois a segunda. Porém, se sabemos isto há muito tempo, não chega, porque os mecanismos que “ferem” os indivíduos e os levam ao sentimento da desigualdade, agudizando o ressentimento e provocando a revolta, mudam com o tempo e manifestam-se de formas diversas.

No mais importante laboratório social do mundo, os EUA de Trump (o outro é o capitalismo na China gerido por um partido comunista), está a emergir com clareza um outro padrão de divisão que se tem agudizado nos últimos tempos. O que faz a raiva, literalmente raiva, da “base” de Trump, reproduzida de forma menos perfeita pelos partidos populistas europeus? Uma das coisas, não a única, mas uma das mais poderosas como geradora de ressentimento, é a percepção de muitos trabalhadores fabris de que é o seu trabalho que suporta a sociedade, e não tem o reconhecimento que lhes é devido, não apenas em termos salariais, mas em termos de prestígio social, daquilo que antes se chamava a “dignidade”. Os culpados são os “políticos” e todos aqueles a quem um diploma traz um título apenso, que os coloca na elite.

Quando Hillary Clinton os chamou de “deploráveis”, num excelente exemplo de como uma única frase pode destruir uma campanha, transformou-os numa coisa que até então não existia: a “base” de Trump. Deu-lhes identidade. Foi para essa “base” que Trump subiu à varanda da Casa Branca imitando à letra Benito Mussolini a fazer de imperador romano, com ar de mau e face de bronze. Mesmo que Trump perca as eleições, essa “base” vai continuar a mudar a política americana e não é num sentido muito democrático.

A fractura eleitoral mais aguda nos EUA nas eleições de 2020 é a que separa os eleitores brancos sem escolaridade de todos os outros. Para os “deploráveis”, há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os “não americanos”; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite. Sendo assim, a escolaridade tornou-se hoje mais do que um factor instrumental no acesso ao emprego e no valor do salário, mas no local onde passa uma fractura social entre os que têm e os que sentem que não têm ou não têm mesmo.

Parece irónico escrever-se isto em Portugal quando por todo o lado se repete o lugar-comum da “geração mais bem preparada”, num país onde os fenómenos populistas também crescem com os mesmos mecanismos de ressentimento antielitista. A questão é que o diploma sem as vantagens económicas e sociais está longe de ser percebido como um diploma, pelo que tê-lo é a mesma coisa ou pior do que não tê-lo, e não esbate o sentimento de que na sociedade são eles que fazem todo o trabalho duro e não uma elite com o “dr.” antes. Nós desprezamo-los mesmo inconscientemente, eles respondem-nos à letra.

O lubrificante deste ressentimento são as redes sociais, porque dão um meio de expressão e contacto para todos aqueles que se sentem excluídos do discurso respeitável e encartado. A ignorância agressiva que pulula nas redes, o desprezo pelo saber profissional e pelas hierarquias assentes no conhecimento, cujos efeitos vão desde a disseminação das terias conspiratórias até aos comportamentos anti-científicos, é impulsionado pelo igualitarismo das redes sociais: porque eu posso escrever aqui o que quiser, o que eu digo tem o mesmo valor de tudo o resto, diga ou não a verdade, tenha ou não fontes fiáveis, tenha ou não algum conhecimento sobre aquilo que escrevo.

Sem a tribalização da verdade, a perda do valor dos factos, a indiferença pela realidade objectiva, não haveria a “base” trumpiana e os seus émulos nacionais. E este estado de coisas agravou-se pela cobardia de quem devia defrontar a mentira e a opinião comum e circulante cara a cara e tem medo de ter a matilha das redes sociais atrás de si. E por isso se dobram, de políticos a jornalistas.


Ilíada, Canto IX, 438-43

(Por Valupi, in Aspirina B, 01/10/2012)

Não custa a entender. Quem defende o ostracismo de Ventura, recusando dar-lhe atenção e palco, está cheio de boas intenções: limitar a sua influência, manifestar a repugnância que a sórdida figura suscita, evitar lutar com o porco para não ficar emporcalhado. Acontece que quem assim pensa está também a pensar mal.

Odisseia é muito mais popular do que a Ilíada mas é nesta que se encontra uma lição política fundante e fundamental: aquele que é bravo na assembleia é valente na batalha – aquele que for bravo na batalha será valente na assembleia. A capacidade de tomar a palavra e enfrentar a ameaça de injustiça, como faz Aquiles na abertura do poema na cara de um rei, não é menos heróica do que a capacidade de enfrentar Heitor junto às muralhas de Tróia. As gerações que vieram a criar a primeira forma de democracia beberam desde o berço esta e outras lições – onde o falar livremente numa comunidade, de deuses ou humanos, era toda a civilização.

Se João Miguel Tavares merece ser uma das personalidades mais importantes do regime, tendo-lhe sido oferecida a raríssima e supina honra de presidir ao mais densamente simbólico dos feriados patriotas, por que razão se foge do Ventura alegando ser má companhia? Um e outro devem o seu sucesso exactamente à mesma fórmula, tentam ocupar os mesmos segmentos de mercado. Ambos viram uma oportunidade na decadência da direita, afundada na impotência e no ódio, e criaram marcas fortes e independentes. Um tornou-se caluniador profissional especializado nos alvos de quem lhe paga. O outro alinhou com Passos e serviu de cobaia para se ensaiar em Portugal o radicalismo da direita inimiga dos direitos humanos.

Loures só foi uma derrota nas urnas, no plano da inovação política corresponde a um triunfo da fórmula pois vimos um presidente do PSD, ex-primeiro-ministro, a promover e consagrar uma cópia à portuguesa de Trump. O caminho que trouxe o Chega para os boletins de voto ficou então aberto.

O equivalente da sonsaria torpe do bracinho do Ventura a simular a saudação nazi numa manifestação encontra-se nos artigos e intervenções deste Tavares entretanto rico quando ensaia a defesa do Estado Novo e a diabolização do 25 de Abril debaixo de camadas de torpe sonsaria inspirada em Rui Ramos e quejandos. Ambos, André e João Miguel, comungam da visão intencionalmente mentirosa e alucinada em que a corrupção é a mãe de todos os males, em que quase todos (ou todos, depende do espectáculo) os políticos são corruptos e fazem leis para blindarem a corrupção na impunidade, em que o Estado não presta e deve ser reduzido à expressão mínima para não andarmos a sustentar madraços e estroinas, e em que só Passos Coelho e Joana Marques Vidal nos poderão proteger dos monstros socialistas que nos querem devorar. Os públicos a quem se dirigem são uma mistela de fanáticos, broncos e descompensados.

O Daniel Oliveira, por exemplo, entrevistou com gosto e compadrio o caluniador profissional. E ouviu dele, sem ripostar, a celebração da actividade criminosa no seio do Ministério Público ao serviço de uma agenda de perseguição política. Que razões terá para continuar sem convidar Ventura para o Perguntar não ofende quando estamos, como diria o Jerónimo, perante farinha do mesmo saco? Acaso Ventura não é interessante e importante por desvairadas razões ou sob variegados pontos de vista? Acaso os seus ouvintes não adorariam assistir à conversa sobre a podridão de Pedroso, Vara e Sócrates? Ou será que o Daniel teme ficar outra vez em silêncio face às barbaridades que saíssem do boca do seu entrevistado e, nesse caso, tal já daria que falar, e depois era chato?

Deixar o Ventura, um hipócrita que se desfaz com um sopro de decência e duas ou três noções básicas de História, sem contraditório, olhos nos olhos e de peito cheio, acaba por ser um monumento ao estado degenerado da sociedade. Uma sociedade que tem alinhado cobardemente com a violação do Estado de direito democrático ao serviço de vinganças oligárquicas e corporativas. Uma sociedade que aceitou ser cúmplice da pulsão do linchamento moral. Ventura nasceu nesse esgoto e foi subindo pela sua montanha de merda até conseguir empestar a Assembleia da República. O Portugal da indústria da calúnia sente que Ventura é um dos seus, e cala-se consolado. O Portugal que se respeita a si próprio mas que opta por fugir de um palhaço que nos quer fazer mal pagará o preço de não combater pela liberdade.


Presidenciais – explicações simples

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 24/09/2020)

As eleições presidenciais são especialmente simbólicas, ouvi. É verdade. É por isso que escrevi o que escrevi quando decidi dar o meu apoio ao candidato do PCP, João Ferreira. A explicação que dei não tem leituras escondidas ou agendas ocultas. É simples. É o que ali está. Ainda assim houve quem mostrasse perplexidade, como se a consistência do meu trabalho parlamentar em matéria de justiça – com menos visibilidade, como se compreende, do que o trabalho relativo à igualdade – não suportasse positivamente a justificação que avancei.

Para além da minha preocupação permanente com a qualidade da democracia e, por isso, com o papel fundamental que atribuo ao PCP na inviabilização de movimentos inorgânicos e populistas, a questão da justiça é, insisto, fundamental.

Não há, certamente, donos da palavra populismo e é uma paródia distrairmo-nos neste momento histórico com truques retóricos que querem caricaturar quem justamente se preocupa. É evidente que se deve falar de corrupção, é evidente que se deve combater a corrupção, mas o que é também evidente é que já não nos livramos de um clima antipolíticos sabiamente criado paredes meias com a falsa ideia de que nunca houve tanta corrupção como agora. É assim que a voz popular grita que não há leis nem meios e que os malandros dos políticos são responsáveis pelos casos investigados.

No meio deste caldo infernal e pronto para minar o Estado de direito, há várias posturas possíveis. Há os “democratas-ponto-final”, os que não fazem contas às eleições. São os que só prestam contas à Constituição, à presunção de inocência, à reserva da vida privada, à proibição da inversão do ónus da prova e que, por isso, mesmo na lama com um porco, não glorificam os hackers mediatizados, dizem não às delações premiadas ou ao enriquecimento ilícito.

Depois há os “democratas-atenção-eleições” que apresentam projetos de lei para dar de comer à febre populista em curso (PSD, CDS e BE já o fizeram), gozando do conforto de quem defende ferverosamente o combate à corrupção nesses termos, sacrificando pela luta, portanto, o Estado de direito. E não, não vale dizer que a coisa é boa porque é feita em nome da democracia.

Se há Partido que nunca vacila nestas matérias e que, ao lado do PS, tem enfrentado muito populismo, é o PCP.

As eleições presidenciais são muito simbólicas, ouvi. Pois são.

Sei do que tenho feito em matéria de justiça e de Estado de Direito.

De democracia, portanto.

É por isso que estou com João Ferreira.