Estamos à espera que um chalupa nos tire o sorriso trocista?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/09/2021)

Daniel Oliveira

“Não são esses dois capangas que te protegem, podes ter a certeza!” “Esse restaurante está marcado pelo povo português, nunca mais vai ter paz!” “Assassino”, “bandido”, “pedófilo”. Estas foram algumas das coisas gritadas, através de um megafone, para dentro de um restaurante onde Ferro Rodrigues almoçava com a sua mulher. Algumas pessoas podem estar tão transtornadas que é possível que achem que pegar num megafone para ameaçar e insultar alguém que está dentro de um restaurante, num momento privado e com a sua família, é um exercício de liberdade de expressão. É crime. Não sou jurista, por isso não sei se se trata de um crime público ou semi-público, por ser contra um titular de um órgão de soberania, como se passa com o Presidente da República. Sei que o Ministério Público já abriu um inquérito.

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Os negacionistas – já sei que não são negacionistas, só acham que os responsáveis pela vacinação são “assassinos” – não me interessam muito. Se fosse francês ou norte-americano, interessavam-me. Aí são um real perigo para a saúde pública. Aqui, onde ainda há a memória de doenças que podem ser prevenidas matarem, são poucos. Tão militantemente desinformados como em todo o lado, mas felizmente desligados do esforço nacional que fez de Portugal um exemplo na vacinação. Assim sendo, não se lhe deve dar mais espaço do que a relevância que têm.

O que está em causa no episódio de sábado, no Largo de São Bento, em Lisboa, é outra coisa. Não encontrando qualquer resistência das autoridades públicas perante os seus atos de intimidação, estas pessoas estão a tornar-se cada vez mais agressivas. Não estamos a falar de pessoas que, neste ou naquele momento, contestam esta ou aquela opção do Estado. Basta procurar nos arquivos das crónicas que aqui escrevo para perceber que me incluo nesse grupo. Até me opus à prioridade dada à vacinação de menores. Não porque fosse “assassínio”, mas porque vacinar noutras paragens é mais urgente. Mas estas pessoas aparentam ser, em muitos casos, desequilibradas. Noutras ocasiões, viveriam o seu desequilíbrio de forma mais isolada, importunando familiares, amigos e vizinhos. Mas as redes sociais permitem que se juntem e tornam-se num perigo para outros.

Assistimos a esta agressividade totalmente deslocada perante o coordenador da task-force, a quem tentaram barrar a passagem à entrada de um centro de vacinação, com insultos. Voltámos a ver o mesmo com um juiz que, estando suspenso, continua a ser um magistrado e usou do seu estatuto para um abuso de poder sobre a PSP, incentivando outros a seguirem-lhe o exemplo. E, agora, voltam à carga contra o presidente da Assembleia da República. A lei não se suspende porque, coitados, são chalupas. Podemos ir sorrindo, mas um dia aparece um chalupa mais chalupa que nos tira o sorriso trocista da cara. E outros, bem menos chalupas, não hesitarão em aproveitar a corda que se vai esticando para a rebentar.

Sinto-me civicamente insultado ao ver um grupo ensandecido a insultar a segunda figura do Estado, num momento privado e familiar. Revira-me o estômago de cada vez que oiço o mesmo insulto atirado a Ferro Rodrigues, que resulta da lama que foi lançada sobre ele, sem que alguém, na justiça e na comunicação social, alguma vez tivesse sido responsabilizado pelo mal que causou. Mas, acima de tudo, não posso tolerar que a esmagadora maioria do país continue a assistir em silêncio à agressividade de uns poucos lunáticos que, de tanto não serem levados a sério, podem, um dia destes, vir a ser um problema sério.

Li, nas redes sociais, muitas pessoas condenarem este ato, começando por um temeroso “apesar de não gostar de Ferro Rodrigues”. Isso nem deve entrar na equação. Não foi apenas Ferro Rodrigues que foi assediado, insultado, perseguido e ameaçado. Foi o presidente da Assembleia da República.

A democracia dá àqueles cidadãos o direito ao protesto em frente à Assembleia da República que nos representa, por mais delirantes que sejam os seus argumentos. Têm, em Portugal, uma enorme margem de liberdade. Não lhes dá o direito de invadirem o espaço privado dos que têm o voto popular para os amedrontar. Porque é a todos nós que tentam impor a sua vontade através da ameaça. E, nesse momento, espero que a lei cumpra a sua função.


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Uma democracia cansada, triste e zangada

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/09/2021)

Pacheco Pereira

Escrever sobre impressões é arriscado e corre o risco de ser inútil ou, pior, ser uma colecção de lugares comuns. Não há nenhum medidor do “cansaço”, da “tristeza”, da “zanga” no sentido do título, a não ser estudos de opinião, sondagens, num terreno muito mais subjectivo do que objectivo. Mas há sinais. Maus sinais. Comecemos pela razão por que eu não digo que é Portugal, nem “o país”, nem “os portugueses”, o sujeito, mas sim a democracia. E aqui as coisas pioram muito, porque o estado da polis, que seria o primeiro remédio se estivéssemos a falar do país, ou o local onde em democracia se poderiam “arranjar” as coisas que estivessem estragadas, andando mal, tudo o resto tende a ser pior. Voltemos ao pathos, ao logos e ao ethos.

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Estamos em plena campanha eleitoral e o único elemento positivo é o próprio facto de haver várias dezenas de milhares de pessoas que se candidatam por todo o país. É a manifestação de massa mais relevante na democracia portuguesa nestes dias. Mas, fora isso, mesmo os grandes candidatos, ou que já ganharam, ou que têm meios e recursos, ou que têm fortes expectativas de ganhar, não conseguem colocar na rua um número mínimo de pessoas, fora os funcionários e os profissionais das campanhas.

De há muito tempo que se verifica esta situação e as chamadas “arruadas” são tão ficcionais como a Carochinha. Se olharmos para as janelas, que é um critério que ajuda a perceber a mobilização, cada vez há mais… nada. Até porque os candidatos, prudentes, escolhem ruas apertadas e trajectos curtos em zonas onde não há pessoas. Na televisão parece resultar, mas, fora os militantes, não está lá ninguém. E nem essas pessoas colocam autocolantes, sinal em desuso de pertença a uma campanha, e quando os têm tiram-nos mal se afastam do grupo. É relevante esta substituição da mobilização e contacto pessoal pelo marketing, ou seja, pela propaganda? Numa democracia, é. A democracia precisa do empenho da gente comum por aquilo em que acredita, precisa de um bom pathos. Não há.

O resto vai no mesmo sentido. Com a treta do Facebook e das redes sociais, lá colocam, por obrigação, uns simulacros de programas, que online ninguém lê. Seria interessante ver o que era lido em papel e o que é lido online, mesmo texto, mesma dimensão, mesma intenção. Suspeito seriamente que nem metade. Eu não estou a dizer que liam muito em papel, mas o que lêem online é para aí metade. O congresso do PS gabou-se de não ter quase nada em papel, para proteger as árvores… e não se preocupa com o facto de que moções e programas, que já eram pouco lidos quando se podiam folhear, agora nem isso. Isto tem como resultado que o elemento racional da actividade política, o seu carácter argumentativo, fica completamente dominado pelo espectacular. Só que a democracia precisa da razão, precisa de um logos que funcione. Não tem.

Cartaz do Chega colocado na Amadora e em Lisboa Arquivo Ephemera

O que sobra é a radicalização. Em muito momentos da história assistimos a processos de radicalização, e nunca dão bom resultado. Sem querer ir mais longe do que o invocar de um exemplo perfeito, a democracia republicana de Weimar na Alemanha acabou assim, metade por metade, excluindo-se uns aos outros, esmagando o centro. Até ao momento em que uma das metades chegou aos 75%, e acabou com tudo o resto, o que sobrava da outra metade e o que estava no meio. Após menos de 15 anos de uma democracia débil, demorou menos de um ano para os vencedores da radicalização mudarem tudo o que queriam, varrendo o resto.

Hoje, o mau pathos em política está na radicalização, por isso é que o cartaz do Chega aqui reproduzido é um dos cartazes icónicos destes tempos. Não sei se a vaca voadora é a do António Costa e a ambiguidade do voo do animal se destina a vê-lo ir para longe (para a Venezuela, dizem os radicais…) ou se o Chega acha que dando Red Bull à vaca ela voa com eles em cima para o poder. O cartaz é mau graficamente e ambíguo na mensagem, mas de facto o único sector que hoje toma o Red Bull são os populistas radicais do Chega, dos antivacinas, dos teóricos das conspirações e por aí adiante. E em frente deles há muita gente abúlica, o primeiro passo para a impotência. Porquê? Indiferença conta, medo também, mas acima de tudo porque não tem exemplos daquilo que mais falta à democracia hoje e está na base da crise de representação: virtude. Onde é que está o ethos? Não está.


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Suzana Garcia e os tremores do PSD

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/09/2021)

Daniel Oliveira

Já aqui escrevi sobre o desnorte que vai nas campanhas autárquicas do PSD, subitamente autodespromovido para o campeonato dos pesos-pluma que lutam pela notoriedade. Mas a coisa ganhou uma nova dimensão com a campanha de Suzana Garcia. A candidata do Chega transladada para o PSD, que acusou a presidente da Câmara Municipal da Amadora de não viver na Amadora, onde ela também não vive, foi um investimento mediático dos social-democratas. Garcia não tem qualquer relação com o concelho para além da ideia preconceituosa de que, para a Amadora, é preciso alguém que fale de insegurança. É interessante saber que a Amadora não só não é o concelho com mais criminalidade na Área Metropolitana de Lisboa (AML), como passou, de 2017 para 2020, de 4º para , na AML. Mas os investimentos mediáticos têm, numa campanha onde se somam centenas de campanhas, os seus riscos. São muitos cães a um osso e, quando se chega à reta final e as televisões se concentram nos principais concelhos e nos líderes partidários, é preciso ter alguma coisa a mexer no terreno.

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Nos últimos tempos, depois de um mediatismo desmesurado para um partido que teve 18% nas últimas autárquicas do concelho (contra 43% do PS), tem faltado a Suzana Garcia a atenção que ela esperava dos jornalistas. E se Maomé já não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. A candidata desistiu da Amadora e foi fazer campanha para Lisboa. Com uma estética e uma linguagem típicas da extrema-direita, coerente com o seu próprio perfil, deixou à porta da sede nacional de cada partido cartazes insultuosos, em que chama “fascista” ao PAN e “tachistas” ao PS. Diz que eles vão “tremer”. A rematar estes cartazes, a autoironia: “Os populistas vão tremer.” As mensagens não são sobre os problemas da Amadora. É uma campanha nacional, que faz ataques (sem grande conteúdo) às direções nacionais dos partidos.

Mas o cartaz mais interessante está à frente da Assembleia da República: “o sistema vai tremer.” O sistema vai tremer se o PSD, partido do sistema até à medula, vencer uma câmara da área metropolitana de Lisboa? Claro que não. Mas Suzana Garcia não é candidata à Câmara da Amadora, concelho para que se está nas tintas. Nem do PSD. É candidata a figura mediática da extrema-direita que usa, como Ventura usou em Loures, o PSD como rampa de lançamento depois de, também como Ventura, ter sido promovida pela televisão tabloide. Extraordinário é que um partido que foi usado uma vez e que está a pagar a fatura por isso se preste a ser usado de novo. Na primeira foi culpa de quem enganou, à segunda é de quem é enganado. Não consta que a subida conjuntural do PSD em Loures tenha deixado grandes raízes. Será igual na Amadora.

Ao pôr os cartazes em Lisboa, Suzana Garcia sobrepõe a sua mensagem à de Carlos Moedas, criando ruído sobre uma das candidaturas mais importantes para o partido. Parecendo-me evidente que não consultou a concelhia de Lisboa para a gracinha, exibe desrespeito por Moedas. Mas a cacofonia, em que candidatos de um concelho procuram protagonismo no do outro, é a imagem perfeita do estado do PSD. Está cada um por si, sem liderança nem rumo. O melhor para as garcias desta vida.

Nestas autárquicas, Rui Rio perdeu o partido para a tática de guerrilha do antigo marketeiro de Ventura, que faz as campanhas do Seixal, de Oeiras e da Amadora. O PSD está como o resto da direita: estilhaçado, a falar para uma bolha que vai minguando à medida que se radicaliza e tomado por um discurso identitário que espalha caras de Estaline pelas ruas do Seixal, troca a Rua Humberto Delgado pela Rua Jaime Neves ou chama “fascista” ao PAN. Se o objetivo da extrema-direita fosse destruir o sistema, uma parte estaria bem encaminhada: a destruição por dentro do PSD, que é um dos seus pilares.


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