Os Clientes e os Fascistas

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 02/06/2025, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

De facto receber 400 mil euros por dez dias de trabalho é indecente e obsceno. Mas a opinião publicada normalizou tanto o negócio com a doença dos outros, desde que seja privado, que só há escândalo quando é no público.

 Os lucros da Luz Saúde subiram para 31 milhões, os da CUF para 43 milhões, e nunca vi a cara dos acionistas, com nome nos jornais, como vi o deste médico e olhem que os acionistas não tiraram nem um pelo encravado.

Não me respondam “que o dinheiro é deles” – quer a formação dos profissionais, quer a ADSE, quer a investigação farmacêutica (menos de 5% é privada), quer as subcontratações do SNS, ou seja, todos nós pagamos esses milhões, além de que ninguém enriquece assim, aos milhões, trabalhando.

É preciso extorquir muito valor do trabalho dos outros, para ganhar milhões. O seu poder não é o trabalho, é serem donos dos hospitais e terem 4 partidos que os apoiam (PS, PSD, IL e Chega). Por isso, ontem liguei para a Luz, porque me vi obrigada para ajudar quem me pediu, e o enfermeiro do outro lado respondeu-me que precisam de fazer uma ficha de “cliente”. Respondi que a pessoa em causa estava doente, não era um “cliente”.

Esta quinta-feira darei uma aula pública a explicar as eleições, a sociologia do país e porque o Partido Fascista Chega é um Partido fascista, ficará em acesso gratuito a todos no meu podcast – ver hiperligação para subscrever os meus podcast aqui -, e não recebo por isso, faço-o por militância socialista utópica, uma dose todos os dias de uma pílula milagrosa chamada entusiasmo pela humanidade.

Já o Partido Fascista Chega recebe agora 5 milhões de euros em subvenções dos nossos impostos. Será uma aula de história e sociologia do país, ou seja, científica, com demonstração, evidências e fontes, dada por mim, professora, um ser humano e não um Powerpoint, o ChatGpt, um “acho que” ou um Tiktok; enfim, estamos em vias de extinção, admito, somos quase como os eletricistas e os alfaiates. Tentarei explicar, e sustentar, também porque prevejo que Gouveia e Melo e o Chega/IL/AD e o PS catatónico se propõem esvaziar o direito à greve. E a diferença entre bonapartismo e fascismo.

Por falar em militância, Greta Thunberg mostrou-se não uma marionete da transição dita verde e dos grandes subsídios da UE ao sector automóvel dito verde, mas uma militante consequente da ecologia e da Humanidade: vai a caminho de Gaza, com o ator Liam Cunningham, do Game of Thrones, e mais 10 pessoas e estão neste momento num veleiro a caminho de Gaza, contra o cerco.

E se fossemos todos, o mundo todo? Garanto-vos que, essa sim, seria uma medida real contra o fascismo, e uma medida que nos ajudaria a todos a deixarmos de ser clientes deste mundo e passar a ser gente, com afetos e alegria, em vez de zombies que ligam a TV e veem um campo de concentração em Gaza, mantendo-se no sofá, como se fosse mais um dia, normal.

Terras raras e mentes raríssimas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

As centrais de comunicação lançaram há uns tempos o tema das “terras raras” como elemento central da girândola de fogo-de-artifício de distração sobre o essencial do que está a ser negociado sobre a Ucrânia. As terras raras não são assim tão raras, as maiores reservas situam-se na China, os Estados Unidos dispõem grandes reservas, assim como a Rússia e a Ucrânia não faz parte dos reservatórios significativos.

O que está causa no acordo para o fim da guerra é a divisão do «botin» de guerra, do espólio da Ucrânia, o modo como os Estados Unidos e a Rússia vão ser compensados com as despesas que fizeram com esta guerra que as administrações americanas prepararam desde 2004. Já se sabe que os Estados Unidos vão ter direito a explorar os recursos minerais da Ucrânia nos territórios que ficarão sob controlo do estado ucraniano, que Kiev terá um governo vassalo e será dotado de umas forças armadas com capacidade para garantir que cumpre os acordos com os EUA e a ordem interna. Do lado dos territórios ocupados pela Rússia, esta também já se mostrou disponível para integrar os seus recursos minerais no acordo geral do “negócio dos minérios”. Ajuda a compor o orçamento.

O acordo dos minérios na Ucrânia é na sua essência idêntico aos acordos que nos anos 60 e 70 os Estados Unidos impuseram a estados vassalos na América do Sul, do qual o mais conhecido é o da exploração do cobre no Chile, por empresas americanas. A nacionalização das minas de cobre decretada pelo governo de Allende originou o golpe para repor a ordem do “negócio”, embora a nacionalização não afetasse as empresas estrangeiras, apenas as suas “compensações”. O acordo dos minérios na Ucrânia é do mesmo tipo do que ocorreu no Chile e dotará as empresas americanas do direito de exploração, o que arrasta o direito de intervenção. Os Estados Unidos garantirão as condições de segurança do negócio, que tem a vantagem suplementar de também favorecer a Rússia, a quem convém uma Ucrânia o mais dependente económica e politicamente possível.

Em resumo, as duas superpotências já acordaram sobre o grau de soberania que será concedido à Ucrânia e à administração dos seus recursos e estão de acordo que uma Ucrânia sob duplo controlo é o melhor negócio para ambos. Dispõem de dois dos maiores exércitos do planeta para garantirem os seus interesses na Ucrânia.

É neste momento, quando as duas superpotências acordam na tutela partilhada da Ucrânia, na vantagem de instalação de um regime em Kiev que assegure a ordem interna sem grandes perturbações, que as mentes raríssimas de Bruxelas, na União Europeia e na NATO, levantam a necessidade de criar um “exército europeu”! Este exército europeu é para fazer face a que ameaça? Aos tanques russos? Mas estes não passaram o Dnipro! Aos misseis russos, mas a Europa não é uma ameaça militar para a Rússia! O novo “exército europeu” é para constituir uma “força de interposição de paz” entre dois dos maiores exércitos do planeta?

As mentes raríssimas de Bruxelas entendem que é necessário criar um exército europeu para defender as empresas americanas que vão explorar as matérias primas ucranianas e a reconstrução de infraestruturas! Não se sabe é o que o tal exército vai defender! Vai defender as empresas americanas do exército russo?

A Europa não dispõe das matérias primas que quer os Estados Unidos quer a Rússia dispõem em grande quantidade, as “terras raras” que são raras na Europa, isso sim, os minerais ferrosos e carvão que permitem fabricar o aço, o petróleo e ainda terras aráveis, já concessionadas a grandes empresas agroindustriais americanas, mas as mentes raríssimas de Bruxelas entendem que os europeus devem criar e pagar um exército para garantir a segurança do negócio de fornecimento destas matérias aos Estados Unidos a título de pagamento eterno pelo armamento que lhes forneceram para uma guerra que correspondia aos seus interesses estratégicos no início do século XXI e deixou de fazer sentido!

As mentes raríssimas da Europa vão em fila a Washington pedir ao presidente dos Estados Unidos que deixe instalar um contingente militarmente irrelevante na Ucrânia em nome da defesa da Europa, que apenas está ameaçada pela desindustrialização e pela irrelevância resultantes da sua incapacidade de ter criado uma Europa com poder e como uma potência a ter em conta!

A única explicação racional para a insistência das mentes raríssimas da Europa na criação do exército europeu, na criação de um ambiente de histeria belicista, de ameaça, é que esse exército que será sempre um pequeno exército vai proporcionar grandes negócios de que a oligarquia europeia que domina as instituições europeias beneficiará.

A Ucrânia poderá ter ou não terras raras significativas e que justifiquem a troca de parte significativa da soberania pela sua sobrevivência, mas Bruxelas tem, sem dúvida, mentes raríssimas que oferecem a Europa para fazer o papel do espontâneo que entra em campo durante o jogo para causar confusão.

As reuniões entre os Estados Unidos e a Rússia têm-se desenrolado na Arábia Saudita e na Turquia, nenhuma na Europa. A Europa tem andado a bater a portas para se oferecer. Os dirigentes dos Estados Unidos e da Rússia têm sido muito generosos em atenderem estes peregrinos de mentes raríssimas e a coluna vertebral de uma lesma.

O Almirante Gouveia e Melo vai à escola

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 25/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O Governo anuncia que o melhor para a falta de professores é fechar-se turmas, para a falta de médicos é encerrar urgências. E abrir o quê? Uma indústria de morte a que chamam, numa completa imoralidade, “investimento em defesa”? Economia de guerra.

Neste cenário, temos na linha da frente, entre outros do mesmo lado, o Almirante Gouveia e Melo. O mesmo homem que, na frente de todo o país, voou para a Madeira para humilhar, em frente das TVs, os marinheiros que se recusaram a embarcar num navio que nos dias seguintes deitava fumo em frente das mesmas TVs…

O Ministério Público resolveu acusar o Almirante de negligência, assédio, abuso de poder ou, vá lá, narcisismo? Não, resolveu outra coisa, acusar os 13 marinheiros de insubordinação. Num país onde os acidentes de trabalho são uma vergonha, onde os trabalhadores estão em risco todos os dias para que os mercados não se arrisquem, o exemplo destes 13 homens devia orgulhar-nos.

O mesmo Almirante Gouveia e Melo que declarou que se “Se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender”. Morrer quem? Ele? Os filhos dele? Os netos dele? É que os nossos filhos não estão disponíveis para serem carne para canhão.

Nem meses passaram depois desta ignóbil declaração, que podia ter sido feita por qualquer ditador – já que afirma que tem nas mãos a vida e a morte dos cidadãos -, e ficou claro que a NATO são os EUA, (mas alguém duvidava?), cuja burguesia/corporações empresariais, desde Obama, se virou para o ataque à China, tentando obrigar esta a abrir o comércio externo na totalidade às Bolsas, procurando assim salvar o pagamento dos empréstimos trilionários feitos para salvar o capitalismo norte-americano na crise de 2008.

A Europa não existe, existem burguesias europeias, a alemã, a francesa (que já foi passear com Trump, enquanto a loucura de Leyen e Costa ia para Kiev), e a inglesa, que agora, num giro de 180 graus pedem para acabar com o que resta do Estado Social e produzir armas – diga lá quem deve morrer agora Sr. Almirante e em nome de quê?

Eu penso nos marinheiros do Báltico que se recusaram a continuar a guerra na Alemanha em 1918, e penso nos marinheiros do Chile que avisaram Allende que Pinochet, nomeado pelo mesmo Allende a 28 de Agosto, iria dar um golpe, e deu, a 11 de Setembro, 30 mil mortos foi o resultado; e penso nos marinheiros que na revolução portuguesa em 74-75 estiveram ao lado do povo contra os fautores da guerra.

Penso também em todos os trabalhadores portugueses que são submetidos a condições de trabalho que os colocam em perigo, seja porque os materiais não têm manutenção, seja porque os horários de trabalho colocam em causa a sua vida, seja porque são assediados, humilhados e mal tratados por gente que abusa do poder.

Nos últimos meses ficámos a saber coisas extraordinárias protagonizadas pelo Almirante Gouveia e Melo e a hierarquia da Marinha, desde uma perícia ao navio feita com base “em documentos” (por telepatia, portanto), ao facto que não lhes terem sido comunicados, aos marinheiros, os seus direitos; parte destas ilegalidades foram anuladas pelo Tribunal Administrativo, cujo Presidente recebeu estes dias o Chefe de Estado-maior da Marinha… (facto que ficámos a saber hoje pela defesa, de uma enorme dignidade, dos marinheiros, feita pelos advogados Paulo Graça e Garcia Pereira, que hoje publicam um artigo fundamental – ver aqui).

Toda esta loucura em que o mundo está a ser mergulhado por – literalmente – menos de 0,1% das pessoas (grandes proprietários),  tem na figura deste Almirante, o seu lado mais risível, já que ele se despede da Marinha para tentar ser Presidente da República, fingindo estar acima dos “partidos” mas apoiado pela direita, extrema- direita e Igreja, depois de vários processos internos de colegas, ao lado de D. João II como “Príncipe Perfeito”.

O que era óbvio – que a burguesia alemã e norte-americana iriam caminhar para uma guerra – o Almirante “perfeito” não adivinhou. E 6 meses depois a sua NATO não existe como tal. Erro crasso?

Não tão crasso quando está a querer levar-nos para uma guerra de lucros que ameaça a nossa vida e o nosso bem-estar social. E contra a qual resistiremos de pé!

Repouso as minhas esperanças em nós, seres imperfeitos, que saberemos resistir à guerra e à humilhação. Deixo aqui o meu respeito aos cidadãos que se insubordinam contra a injustiça. Ao espírito de cisão, essa vontade férrea que nos faz ser de espinha ereta e estar de bem connosco próprios.