Hospitais públicos “orientados” por administrações de amigados

(João Gomes, in Facebook, 09/06/2026)


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Há uma pergunta que os portugueses deveriam fazer sem receio e sem preconceitos partidários: quem governa realmente os hospitais públicos? Os profissionais que conhecem o terreno, os doentes que deles dependem, ou administrações escolhidas sobretudo pela sua proximidade ao poder político?

Nos últimos anos assistiu-se a uma profunda renovação das administrações hospitalares. Mudaram-se gestores, reorganizaram-se estruturas e multiplicaram-se as nomeações. Nada haveria de extraordinário se tais mudanças fossem acompanhadas por uma melhoria visível dos serviços prestados aos cidadãos. O problema é que muitos portugueses observam precisamente o contrário.

As urgências continuam sob pressão permanente. Os tempos de espera prolongam-se. Faltam médicos em diversas especialidades. Os profissionais denunciam exaustão e desmotivação. As greves sucedem-se. A fuga para o sector privado mantém-se. E, perante este cenário, raramente se escutam vozes firmes das administrações hospitalares a denunciar a insuficiência dos meios ou a contestar publicamente as políticas que contribuem para a degradação do serviço.

É aqui que surge uma suspeita legítima: terão os hospitais passado a ser dirigidos por gestores cuja principal função é executar orientações políticas, mesmo quando estas se revelam inadequadas para as necessidades do SNS?

A missão de uma administração hospitalar não deveria ser agradar ao governo do momento. A sua primeira obrigação deveria ser defender os interesses dos utentes, dos profissionais e da instituição que dirige. Quando um hospital não dispõe dos recursos necessários, espera-se que os seus responsáveis o digam claramente. Quando uma decisão política prejudica o funcionamento dos serviços, espera-se que a contestem. Quando as condições de trabalho se deterioram, espera-se que sejam os primeiros a alertar para os riscos.

Mas quando a lógica da nomeação assenta sobretudo na confiança política, corre-se o risco de transformar administradores em meros executores de orientações superiores. A autonomia desaparece. A crítica interna enfraquece. O contraditório torna-se incómodo. E a instituição perde uma das suas mais importantes linhas de defesa.

Os defensores deste modelo argumentam que qualquer governo necessita de equipas alinhadas com os seus objetivos. É verdade. Porém, existe uma diferença fundamental entre alinhamento estratégico e submissão administrativa. O primeiro é compatível com a competência e a independência. O segundo transforma organizações públicas em extensões partidárias do poder.

O resultado pode ser devastador. Hospitais silenciosos perante os problemas. Profissionais sem representação institucional efetiva. Utentes confrontados com serviços cada vez mais fragilizados. E um sector privado que cresce à medida que a confiança dos cidadãos no SNS diminui.

Seria ingénuo ignorar as consequências práticas de um sistema que privilegia a fidelidade política sobre a autonomia institucional. Quando os administradores deixam de ser os primeiros defensores dos hospitais que dirigem, os hospitais deixam de ter quem os defenda.

O SNS foi concebido para servir os cidadãos e não os governos. Sempre que esta hierarquia de prioridades se inverte, não é apenas a gestão que falha. É a própria ideia de serviço público que começa a perder significado.

E essa talvez seja a doença mais perigosa que um sistema de saúde pode contrair.

A República dos juízes

(Pedro Marques Lopes, in Revista Visão, 04/12/2025)


O Governo vai criar uma Unidade de Combate à Fraude no Serviço Nacional de Saúde. Segundo o Ministério da Saúde, destina-se a detetar, prevenir e combater fraudes, abusos e irregularidades no SNS. Vai ser liderada por um juiz.


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Ficámos a saber que ou o SNS funciona em autogestão ou os seus gestores são uns completos incompetentes. Até aqui, achava que era impossível imaginar uma organização, pequena que fosse, que não tivesse gente dedicada a prevenir e a combater fraudes ou irregularidades. A outra hipótese é o nível de competência das várias administrações dos vários hospitais e demais equipamentos ser tão indigente que nem controla faturas, nem tem métodos de gestão, nem organização, nem nada.

Claro está que os responsáveis máximos por esse possível estado de coisas são os ministros e primeiros-ministros. É o costume: ninguém como um político para desqualificar todos os políticos. Ninguém como um político para chamar estúpidos aos cidadãos que o escolhem para desempenhar uma tarefa, dando-a a quem não foi escolhido para isso. Em frente.

Numa grande ou pequena organização há sempre a possibilidade de existir fraude e até corrupção. Se forem crimes, há, é do conhecimento geral, umas entidades responsáveis pela investigação desses possíveis acontecimentos: são as polícias e o Ministério Público.

Segundo o Governo, gestores, polícias, Ministério Público, tudo incompetente. Vai daí, escolhe um juiz para ajudar a gerir – desculpe lembrar o óbvio, mas uma das tarefas de quem gere é exatamente “prevenir, detetar e combater fraudes, abusos e irregularidades” – e investigar.

Há duas coisas que um juiz não faz: gerir e investigar.

No caso concreto do juiz Carlos Alexandre, temos alguém que nunca geriu nem investigou coisa nenhuma, nem tem formação para nenhuma das duas atividades (o juiz que assinava de cruz as investigações do Ministério Público está, em parte, a substituí-lo; é tão engraçado).

Um juiz de instrução, como Carlos Alexandre, tem como tarefa garantir o respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos durante a fase de inquérito. Investigar é com o Ministério Público.

Por outro lado, também não é conhecida a sua capacidade para organização e métodos de gestão. Nomeadamente do SNS. Saberá distinguir um erro de gestão de uma fraude? Sabe como se fazem horários? O que são os tarefeiros?

Nunca é tarde para começar, mas colocar alguém que vai iniciar uma carreira de investigação e de gestão aos 64 anos é capaz de não ser grande ideia, sobretudo quando estamos perante uma organização que não é, digamos, pequena.

Seria insultar a inteligência de quem manda no Governo sequer pensar que não sabem tudo isto. Então porque diabo se escolhe o juiz Carlos Alexandre? É simples, porque se ouve o seu nome e pensa-se logo em combate à corrupção. Não é que a fama rime com o proveito – basta ver no que estão a dar os processos de que ele foi juiz de instrução e, repito pela enésima vez, não era ele a investigar. Mas como reza a cartilha populista, tem de se arranjar um bode expiatório e nada melhor do que gritar que “no SNS anda tudo a gamar” para excitar as pessoas.

Não é a organização, não são os métodos, não é a possível falta de controlo de custos, não é a gestão que, com todas as circunstâncias externas – envelhecimento da população, mais gente no sistema, medicamentos mais caros, etc., etc. –, fez passar os custos no SNS de 9 000 milhões para 17 000 milhões de euros, é a fraude e a palavra mágica: corrupção.

Palavra e solução mágicas, diga-se. Podia ser a imigração ou os ciganos ou mesmo os bengalis, mas para estes só com o Ventura podia fazer-se a associação direta. Foi a corrupção e, claro, temos Carlos Alexandre, o justiceiro da nação.

Estejam descansados, quando morrer outra pessoa por não ter sido atendida a tempo nas urgências ou um bebé nascer numa ambulância, ouviremos que está tudo a ser resolvido porque o Carlos Alexandre está a tratar de ver quem foi corrompido ou que fraude aconteceu.

Claro que vão surgir indícios de fraudes e de corrupção. Há poucas semanas em que não apareçam. Alguns parecem mais erros de organização ou de gestão, mas vão aparecendo. Prova-se assim, aliás, que há gente a investigar e a controlar. Alguns correspondem mesmo a atos criminosos.

Vão aparecer mais indícios. Carlos Alexandre não quererá que a sua imagem empalideça – sabe Deus se não estaria com saudades das luzes da ribalta.

Tenham ou não substância, conduzam ou não a condenações, é outro assunto. Estava, porém, capaz de jurar que existe uma possibilidade de começarem a aparecer notícias sobre possíveis fraudes e corrupções na primeira página dum jornal. Talvez no mesmo onde costumavam aparecer as investigações de casos onde Carlos Alexandre devia controlar se os direitos dos investigados estavam a ser respeitados.

Se a coisa se resumir a pouco mais do que capas do jornal e gritaria, ficará provado que o sistema conseguiu ocultar as terríveis manigâncias e que o bom do juiz bem tentou, mas foi torpedeado. Mais descrédito para a democracia, mais gasolina para a fogueira do populismo. “Dessem poder ao juiz e iam ver, mas não querem que se mostre os podres. Malandros.”

Se forem descobertas imensas fraudes e corrupção em barda e, claro, houver condenações, fica provado que os políticos são incompetentes e só um juiz pode pôr isto na ordem.

Bem-vindos à futura República dos juízes. Os patrocinadores são os políticos que escolhemos.

Black Hawk – ave que não cabe no ninho

(João Gomes, in Facebook,12/11/2025)


Portugal comprou quatro Black Hawk para servir o SNS. Quatro helicópteros de guerra em que se investiram mais de 30 milhões de euros, para aterrar… apenas num heliporto decente: o do Hospital de Braga. Sim, é verdade: o resto do país está, digamos, “sem capoeira”. Um país que mal tem espaço para galinhas agora tenta albergar aves de rapina metálicas que deveriam percorrer hospitais inteiros.

E aqui está o lado mais cómico (e doloroso): as aves pesadas do Estado português foram compradas à indústria americana, aquela que produz armas que fazem tremer o mundo, mas que, aparentemente, não se adapta a um cesto doméstico de serviço civil. É como comprar ovos de ouro e deixá-los nas mãos de quem já tem o poleiro mais caro do mercado – tudo em nome da eficiência e da proteção da saúde.

No fundo, esta compra resume muito da nossa política: gastar milhões em máquinas poderosas, sem perceber se cabem nos ninhais onde deveriam cumprir a sua missão. É a clássica situação de pôr todos os ovos num cesto… que, convenientemente, está sempre nas mãos de certas entidades, e não nas dos hospitais.

E a população assiste, entre incredulidade e gargalhada amarga, a mais um episódio de “investimento estratégico” que parece ter sido pensado mais para a indústria de guerra do que para os doentes que supostamente deveria servir.

Tal como os submarinos, vieram pelas mãos do… CDS. Desta vez não foi Portas, foi Melo – o do Atlético Norte.

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