Psiquiatria política no Eixo do Mal

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 26/12/2020)

(Quem quiser ver na íntegra o programa a que o artigo reporta basta seguir o link abaixo:

https://sicnoticias.pt/programas/eixodomal/2020-12-25-As-entrevistas-a-Cavaco-Silva-e-a-Passos-Coelho-e-o-massacre-de-animais-na-Azambuja

Estátua de Sal, 27/12/2020)


Pedro Marques Lopes – [sobre a acusação do MP a Rui Moreira com pedido de perda de mandato] Acho estranhíssimo que seja feito exactamente no ano eleitoral, acho muito estranho. E estas acusações que parecem fabricadas… Vou repetir, fabricadas… Que me dá a sensação que são feitas para dar uma espécie de… que há uma campanha contra os ricos e poderosos, é inacreditável […]

Daniel Oliveira – Deixa-me só dizer uma frase sobre isto. Dizer que eu não sou fã de Rui Moreira, acredito na presunção de inocência do Ministério Público, o Ministério Público não é culpado até prova em contrário – este calendário é impensável… Isto começa a ficar demasiado repetitivo, começa a ficar demasiado repetitivo!… Começa a ser demais, começa a ser demais!

Luís Pedro Nunes – O Ministério Público parece que tem uma agendinha… Que é: agora este, check; agora este, check

Eixo do Mal, a partir de 45:50

Pedro Marques Lopes fez um pedido que qualquer cidadão lhe deve agradecer. Pediu para que, a propósito de um caso que o deixa indignado, partidos, Governo e Presidente da República investiguem, apurem, intuam se no Ministério Público há agendas políticas a condicionarem o nascimento, o conteúdo e/ou o calendário de certas acusações. É um pedido que vai ficar sem resposta porque a evidência recolhida desde, pelo menos, 2009 mostra que Presidentes da República, Governos e partidos com assento na Assembleia da República convivem adaptados com a realidade de existirem acusações cujos calendários, conteúdos e origens radicam ostensivamente nas agendas políticas dos procuradores responsáveis pelas mesmas – tudo legal, tudo dentro da sua críptica e inescrutável “autonomia”.

A inimputabilidade é tal que quem quiser ver o Estado de direito democrático a ser respeitado na Procuradoria-Geral da República deve começar por fazer o testamento pois irá para uma batalha donde não regressará com futuro político viável. O poder das corporações da Justiça – e dos poderes políticos, económicos e fácticos que lucram com os crimes dos magistrados e dominam a paisagem mediática – de imediato esmagarão esses insanos atrevidos. Exagero? Não quando um fulano que promove as fugas ao segredo de justiça como necessária medida para atacar políticos cuja perseguição lhe enche os bolsos é coroado como símbolo vivo de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O Pedro tem a admirável vantagem nestas matérias de ser coerente e muito corajoso; ou seja, de parecer íntegro. Contra o ódio político dos seus pares de filiação partidária, contra o ódio ideológico da direita a que pertence nem que seja para se diferenciar do PS, e contra o ódio da turbamulta vítima do populismo do tempo e de todos os tempos, ele sempre conseguiu verbalizar no espaço público que o inimigo nº 1 do País, Sócrates, tinha direito a um julgamento justo. Daí, ao falar de Rui Moreira, e apesar de se anunciar seu amigo, a sua honestidade intelectual e autoridade cívica permanecem intactas.

Igual não se ouve nem se lê nos seus dois companheiros de programa, acima citados, que são pagos para dizerem que a culpabilidade de Sócrates não carece de tribunais para ser concretizada. Basta-lhes a sua deslumbrante cachimónia. Daí que as declarações destes dois melros em Dezembro de 2020, subitamente alvoraçados com o mesmo que têm visto ser feito ao PS há mais de 10 anos para seu próprio gáudio comentadeiro e produção neuronal de sentenças transitadas em emporcalhado, mereça registo. É especialmente engraçado ver o Daniel Oliveira a exclamar que agora, com o Rui Moreira, se chegou ao limite. Até aí, palavras dele, estava tudo bem. Porém, se a ideia é que o PS deixe de ter o exclusivo da atenção dos carrascos do Ministério Público, então alto e pára o baile. É que este Daniel, quando não está a ensinar ao BE como descer nas sondagens e a fazer coro com os direitolas para o abate de ministros socialistas, é um vero herói do Estado de direito. Nem dorme a pensar nele.

Dois pesos e duas medidas, relativismo moral, ambiguidades identitárias, vieses cognitivos os mais variados, pois claro. Tudo isto é ancestralmente humano, inevitável na política e na política-espetáculo onde estes artistas se divertem e ganham o seu. Mas há uma figura no elenco que arrasta o programa para o campo psiquiátrico, a Clara Ferreira Alves:

«O Sócrates pôs o País com uma mão à frente e outra atrás. Toda a gente sabe que o Sócrates tinha um lado profundamente lunático. Pronto, mas isso já está adquirido.»
[silêncio de todos os outros participantes] – Minuto 8:20

Ora, eis que aqui temos num simpático programa de cavaqueira desopilante a tese do ódio a Sócrates no seu grau mais alto de pulhice. Não só Sócrates surge como o actor individual que se pode singularmente destacar e acusar pela entrada da Troika em Portugal, sem que para tal seja preciso indicar um único facto explicativo, como a causa é atribuída a uma patologia, o lado “profundamente lunático“. Isto significa que o emissor da mensagem não reconhece no seu sujeito enunciado a capacidade para se responsabilizar pelos seus actos, merecendo ser afastado da convivência normal com os restantes cidadãos dado estar a carecer de tratamento médico sob pena de voltar a causar os males do passado, esse “isso” que “já está adquirido“. O silêncio do pessoal circundante face ao enésimo acto de contrição que a Pluma Caprichosa exibe na pantalha, seviciando-se com esgares de dor por causa de uma entrevista que a irá atormentar até ao fim dos seus dias e mais umas eternidades além, é um incontornável momento psiquiátrico para todos os responsáveis pela emissão. É que, caso não saibam, quem despacha diagnósticos de loucura contra terceiros via TV está a precisar – e com urgência – de marcar uma consultazinha da especialidade.


“Pois Luís Filipe Vieira é homem honrado”

(Rui Tavares, in Público, 13/09/2020)

Calma, concidadãos. Não venho aqui dizer se Luís Filipe Vieira é homem honrado — ou se não o é. Nada direi do que não sei. Sei apenas que sobre ele impendem suspeitas de ter tentado interferir com o curso da justiça; que dele se diz ter sido um daqueles enormes devedores ao Banco Espírito Santo cujos incumprimentos estamos todos a pagar agora. São casos de que a justiça dirá, não eu.

Sei outra coisa: que quando escrevo, em título, que “Luís Filipe Vieira é homem honrado”, todos aqueles de entre os leitores que não se riram esbugalharam os olhos de espanto. E entre esses incluem-se muitos benfiquistas (como eu, aliás). O mesmo sucederia se eu escrevesse “pois Jorge Nuno Pinto da Costa é homem honrado” ou “pois o mundo do futebol é mundo de homens honrados” porque, a bem ou a mal, ninguém consegue esticar a sua credulidade a tal ponto. E no entanto, o nosso primeiro-ministro António Costa, como eu adepto do Benfica, ao aceitar integrar a Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira à sua recandidatura a presidente do Benfica, está a dizer-nos isso mesmo: que Luís Filipe Vieira é, em seu entender, homem honrado. E está a dizê-lo quando a pergunta sobre a honradez de Luís Filipe Vieira está ainda — para ser generoso — em aberto e, se respondida na negativa, arrisca-se a arrastar consigo quem tenha atravessado a sua honra em nome da honradez de Luís Filipe Vieira. Ainda para mais quando se é primeiro-ministro, chefe do poder executivo, numa altura em que é ao poder judicial que compete saber o que se possa saber sobre este tema.

Há uma peça de Shakespeare, Júlio César, que tenho estado a pilhar desavergonhadamente desde o início desta crónica, na qual um discurso famoso — por ironia commumente conhecido como o “Monólogo de António” — nos diz tudo o que há para saber sobre estas coisas. A Marco António — o António do monólogo — é dada a possibilidade de discursar no funeral de Júlio César, desde que não diga mal daqueles que o mataram. António decide então fazer o contrário: dizer bem deles. “Brutus”, diz ele, “é homem honrado”. Se Brutus justifica que foi preciso matar César, assim deve ser, diz António (o deles), “pois Brutus é homem honrado”. E se Cássio, e Casca, e todos os outros, estiveram com Brutus, António não tem nada a dizer, “pois Brutus é homem honrado, e assim são eles todos, todos eles homens honrados”. Tantas vezes repete António que eles são homens honrados que o seu discurso tem o efeito contrário, acabando por virar a multidão contra aqueles de quem ele veio falar bem.

Assim levam descaminho estas coisas. António (o nosso, o Costa, o da República Portuguesa) não monologou. Pelo contrário; foi mais lacónico que retórico, limitando-se a dizer que a opção de fazer parte da Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira não tinha “rigorosamente nada que ver” com o cargo que ele ocupa, pressupondo-se que tenha apenas que ver com o facto de ele ser adepto do Benfica (como eu, como eu). O problema é que o nosso António se esqueceu daquilo que o António (da Roma republicana) veio salientar no seu monólogo. 

Emprestai-me a vossa atenção. Uma das questões principais do Júlio César de Shakespeare está na tensão entre República e amizade, lealdade e liberdade, ética e política, racionalidade e sentimentos. A lição de Shakespeare em Júlio César não se aplica tal qual ao caso atual. Como tantas vezes quando comparamos Antigo com o Moderno há elementos que parecem inverter a sua polaridade. Mas, grosso modo, podemos dizer que de um lado deste debate estão aqueles que fazem uso do chavão “a ética republicana é a lei” — e nada mais. Se Luís Filipe Vieira é inocente até prova em contrário, se toda a gente tem direito a ser adepto de um clube, então sim, como diz António Costa, este assunto não tem nada a ver com política.

Do outro lado estão aqueles que não conseguem mais tapar o sol com uma peneira. Que estão fartos das ligações entre política e futebol. Que não conseguem acreditar na honradez dos “homens de futebol” a não ser quando se lembram que uomini d’onore — homens honrados — era precisamente o que os mafiosos chamavam uns aos outros. Que estão cansados de pagar as dívidas do Bando Espírito Santo e do Novo Bando — ups, escapou-me a tecla, queria escrever Banco —, aquelas mesmas que Luís Filipe Vieira não pagou. E que esperavam que o primeiro-ministro em particular, pelo mal que todos esses assuntos têm feito à vida nacional, mantivesse uma saudável reserva e não se esquecesse que nem à mesa de café deixa de ser primeiro-ministro, como aliás aconselhou aos seus ministros.

Diz António, o dos romanos, falando de homens públicos: “o mal que fazem sobrevive-lhes; o bem é enterrado com eles”. A displicência de um Primeiro-ministro com temas destes pode deitar a perder todo o bem que tenha feito durante anos, ainda para mais quando uma das poucas qualidades que todos reconhecem no líder do maior partido da oposição é, enquanto político, nunca se ter metido em futebóis.

Por coincidência, os romanos trocavam de governantes nos Idos de Setembro. Que, por acaso, calhavam a 13 desse mês, exatamente o dia em que escrevo esta crónica. Cuidado, António Costa. Cuidado com os Idos de Setembro.

Historiador; fundador do Livre


O intocável de Portugal

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 01/01/2020)

Não é o mais poderoso, não é o mais influente, mas é o mais intocável de Portugal: o presidente do Benfica. Não este, todos. Mas, de todos, este é o que mais poder centra e concentra. Um poder aquém e além-desporto, que faz a ação política, judicial e jornalística sentir-se condicionada. Às vezes pelo que esta faz, mais vezes pelo que não faz. É também por isso que o fim dos debates combates televisivos é um desafio em si mesmo. É apenas um dos necessários.

Em 13 anos de direções de jornais, conheci frentes diversas do exercício do poder, contra o qual os jornalistas estão por função e vocação. Há forças, insídias, orquestrações e eficácias em todos eles, da política aos bancos, das organizações semiclandestinas às empresas, mas nenhum deles se compara ao futebol na falta de regras, na agressividade, na comunicação ameaçadora, seja na cartilharia de alguns comentadores ou na artilharia de trolls nas redes sociais. E tudo isso (e mais) cria navalhas verbais e não-verbais contra quem quer que seja, semeando respeito pelo desrespeito e afastando pessoas, pelo desprezo ou pelo medo.

A decisão anunciada pela SIC e prenunciada pela TVI de acabar com debates com comentadores afetos aos clubes não é um saneamento, é uma medida pela nossa sanidade e de emancipação dos próprios meios de comunicação social à pressão de os clubes mandarem até no espaço em que se lhes faz contraditório. Aplaudo de pé.

O fim dos debates combates televisivos de futebol não é uma decisão sanitária mas de sanidade. Mas nem isso pára a ameaça de violência que afasta a sociedade

Se dou exemplos sobre mim é só para servir de testemunha: durante a investigação do Football Leaks juntei a mensagens anónimas participadas à polícia uma série de mentiras factuais ditas em sinal aberto na televisão sobre quem sou, fui, que amigos tenho e até a que casamentos fui. Mentiras ridículas, que nem merecem ser citadas senão para relatar que muitas outras há que são perigosas, pondo em causa a honra e até a vida de algumas pessoas. Não exagero nem invento.

O problema não é a paixão que cega, é o medo que faz fechar os olhos. Sobretudo quando esse medo impregna as instituições. De todos, os mais medrosos (ou calculistas) são os políticos. Lamento pôr todos no mesmo saco, é claro que não são todos iguais (viva Ana Gomes!), mas o silêncio concreto adornado de anúncio de medidas gerais é uma covardia que persiste. “À justiça o que é da justiça” e etc. Ou os casos de violência. Ou o silêncio chocante em casos como o de Marega, vítima de racismo horripilante em Guimarães, que acabou por dar mais ou menos em nada.

Sou benfiquista, estou com azia por termos perdido um campeonato que podíamos ter ganho: serve compensação ao campeonato de 2015/16, que ganhámos ao Sporting sem merecer nem (espero eu) pagar aos deuses para expiar pecados. Ser benfiquista só me torna mais exigente com o meu clube do que com outros.

É por isso que este não é um texto sobre futebol, mas sobre a sociedade em que vivemos, a justiça que queremos e a liberdade que precisamos de defender.

Luís Filipe Vieira tirou o Benfica do lodo desportivo e financeiro, ao lado de Domingos Soares de Oliveira. O clube não tem hoje rival na estratégia de formação nem nas contas da SAD. Mas o seu poder cresceu de mais e chegou a um ponto em que parecia intocável. Perdeu o apoio de Ricardo Salgado e de Morais Pires, porque o BES colapsou deixando créditos por cobrar como os dele. Hoje, também a banca se livrou do futebol, que já não financia. Mas a forma como muitos políticos e alguns jornais se lhe vergam demonstra poder a mais, o que na verdade responsabiliza quem se verga. Na Justiça, não me lembro de um presidente envolvido em tantos casos, mesmo que espante ver o clube amnistiado do caso Paulo Gonçalves e me enfureça ver Rui Pinto enjaulado como um ladrão de vidas. Não quero justiça, quero a Justiça, a que condena ou absolve sem medo nem favor. E observo como, apesar de tudo, a Justiça é hoje mais forte do que no tempo dos apitos dourados, arquivados na indecência dos anos.

Também não percebo como se gastam €20 milhões a contratar um treinador. Mas reconheço a manobra de contratar Jesus para mudar de assunto sobre a derrota no campeonato e alumiar as almas dos benfiquista para as próximas eleições. Afinal, é preciso ganhar. Um presidente do Benfica, supõe-se, é intocável.