Luís Neves, o coveiro do XXV Governo Constitucional

(Carlos Esperança, in Facebook, 27/07/2026)

Luís Neves é um caso de estudo, um polícia competente, cidadão suspeito e político não recomendável que, contra todas as acusações, prolonga a agonia.

As suspeitas sobre o PM não impediram o regozijo com a sua aceitação do convite, para ministro da Administração Interna, depois de dois casos clamorosos de inaptidão para as funções.

Nem pensei que investigara o caso Spinumviva e no interesse do PM em tê-lo amarrado ao seu Governo, depois de ter um PGR da sua confiança. Tão desejoso de ver sobraçar a pasta alguém competente, não refleti na insólita transferência do líder da PJ para chefiar todas as outras forças policiais e de segurança.

Era estimulante ver alguém que preferia basear-se em factos em vez de perceções e num governo enredado no abraço do Chega, quem fosse determinado a combater a violência policial e o terrorismo de extrema-direita, o único de que há conhecimento. Nem pensei no perigo da confusão de funções e acumulação de tamanho poder por um só homem.

Mas, há sempre um mas, depois de conhecidos factos tão graves, política e eticamente, a permanência em funções, agravada com a falta de explicações, não põe apenas em causa o governo, que persiste em usar os padrões éticos de Luís Montenegro, arrasta consigo a dignidade das instituições.

Passados tantos dias, é legítimo supor que o ministro permanece para se proteger e que o PM, a quem já falta um mínimo de autoridade moral, é refém do que o ministro sabe a seu respeito.

O silêncio do Presidente da República não pode manter-se. Sabe-se que não tem poder para o demitir nem as condições políticas permitem que dissolva a AR, mas não pode esquecer que é o último responsável pelo normal funcionamento das instituições e, neste momento, é já o risco da dissolução do regime que se a vizinha.

O País exige explicações ao Presidente da República. Foi para isso que dois terços dos eleitores o sufragaram, com a animosidade da extrema-direita e a ambiguidade do PM.

A semana que hoje começa é demasiado longa para tanto silêncio. Não há uma segunda oportunidade para uma primeira e audível intervenção política.

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Matai-vos uns aos outros…

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/07/2026, Revisão da Estátua)

Sabíamos do poder destruidor das epidemias e da facilidade com que se convertem em pandemias, o que não conhecíamos era a facilidade e velocidade com que o belicismo se expandiu e legitimou em cada país e em todos os continentes.

Enquanto o flagelo ganhou adeptos e arrastou multidões, tornaram-se timoratos os que ainda pensavam em resistir, demonizados pela onda de propaganda que acompanhou as justificações.

É de pasmar, ver cidadãos pacíficos empolgados com a necessidade de nos defendermos, sem saberem de quem, e o ar bovino com que ouvem as vuvuzelas da guerra a falar das maravilhas de artefactos militares capazes de dispararem os mísseis mais modernos e de atingirem com eficácia inimigos que facilmente podem passar a amigos ou vice-versa.

Nunca, na minha longa vida, tinha assistido a tanta insensibilidade com a morte dos que caem de um dos lados e ao regozijo pelos que são abatidos no lado contrário com heróis e vilões à escolha de cada um e em cada momento, numa orgia de sangue que percorre o Planeta e ameaça fazer de nós a sua última geração.     

Num dia em que o acordo sobre o nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita, entre o líder ensandecido do país militarmente mais poderoso do mundo e o príncipe-herdeiro de uma monarquia que pratica a sharia e onde se preserva a lei de um defunto profeta analfabeto e amoral, qualquer pessoa sensata vê que a corrida ao armamento nuclear, que nenhum país devia possuir, vai provocar uma corrida generalizada a favor da morte.

Será que todos estamos dispostos a trocar benefícios da civilização e da democracia por uma ideia de segurança e pela capacidade de nos matarmos melhor e mais depressa uns aos outros, abdicando da saúde, da segurança social e da paz?

Somos cada vez menos os que passámos por uma guerra, mil vezes menos letal, onde vimos a perversidade que os conflitos armados desenvolvem e a amoralidade de que são capazes primatas com armas na mão.

Quem nunca viu o cadáver de um camarada amigo dentro de uma farda e lhe pegou para ver os olhos a vidrar de uma vida que se extinguiu aos vinte e poucos anos ao serviço da pátria, em pátria alheia, ou os despojos de um amigo que uma bazuca reduziu a pedaços recolhidos com terra e um dedo solitário onde luzia uma aliança, talvez sinta no sofá a febre da guerra e a vontade de aventuras de racionalidade duvidosa e desfecho incerto.

Já não somos pessoas, somos autómatos insensíveis e amorais, guiados ao extermínio por algoritmos.

Mas, se é isso que querem, matem-se uns aos outros sem aprenderem que esta é a vida, única e irrepetível, cujo privilégio nos coube.

Matai-vos uns aos outros…

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O Ministério Público e a democracia

(Carlos Esperança, in Facebook, 30/06/2026, Revisão da Estátua)

Há 47 dias, 14 de maio, o juiz Ivo Rosa enviou uma carta de 42 páginas ao PR, PGR e Provedor de Justiça com acusações que, a provarem-se, mostram a subversão do Estado de Direito. O juiz acusa, sem subterfúgios, que foi perseguido, difamado e constrangido, por retaliação às suas decisões judiciais. E refere nomes!

Ser alvo de oito inquéritos-crime, escutado ao longo de vários anos, vigiado e devassado na vida pessoal e com contas bancárias esmiuçadas, sem se confirmar um único indício delituoso, revela que a perseguição não resultou de um combate contra o crime, mas da atitude deliberada de perseguir o visado, como a Pide fazia na ditadura.

É difícil imaginar que tão grosseiro ataque ao Estado de Direito fosse levado a cabo sem o desatino da PGR Lucília Gago, o zelo de procuradores e a cumplicidade dos juízes de instrução que permitiram e prorrogaram sucessivamente as escutas e a perseguição.

Como é possível que, sob tutela do atual PGR, que Montenegro foi buscar à reforma, se tentasse arquivar os inquéritos, negando o acesso ao juiz Ivo Rosa, enquanto o principal suspeito da perseguição, o juiz Carlos Alexandre, foi contemplado pelo Governo com um cargo, que lhe satisfaz o ego, no Ministério da Saúde?

O desrespeito pelo Estado de Direito foi recentemente manifestado pelo juiz Alexandre, que assumiu preferências, criticou políticos do PS, António Costa incluído, sendo até sarcástico com António José Seguro, por continuar a viver nas Caldas da Rainha. Que atrevimento!

Do presidente da AR, de quem não se espera grande coisa, sabe-se que enviou a carta de Ivo Rosa à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, ou seja, para morrer aí. E do PR, o principal responsável pela defesa da CRP e do Estado de Direito, ignora-se qualquer decisão ou, sequer, a exigência de satisfações ao PGR!

António José Seguro não tem a perfídia nem o ativismo partidário que caracterizaram o anterior PR. Por isso se lhe exige, na magistratura presidencial, a assepsia que não podia esperar-se do irrequieto Marcelo.

Não há guerras, terramotos ou vicissitudes da Seleção Nacional de Futebol que possam adiar uma tomada de posição pública do PR, para esclarecer as perseguições ao juiz Ivo Rosa, não só por ele, na defesa do Estado de Direito, ferido pelo poder discricionário de alguns Procuradores e dos seus cúmplices.

Finalmente, torna-se suspeito o silêncio da exótica Associação Sindical de Juízes (ASJ), tantas vezes injusta e desmesuradamente ruidosa, agora alheia à perseguição a um juiz e à defesa das decisões judiciais sem coações, ultrajes que configuram um réquiem pela democracia e a morte do Estado de Direito.

A democracia confiou a António José Seguro o seu seguro de vida. Não pode ser traída.

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