Donald Trump e a era do Mal

(Chris Hedges, In The Chris Hedges Report, 26/09/2025, Trad. Estátua de Sal)

O Grande Ditador – por Mr. Fish

Sob qualquer perspectiva moral, Trump é depravado. Mas, investido do poder do Estado, desce a outro patamar — o patamar do Mal.


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Donald Trump exibe as características clássicas dos psicopatas: charme superficial, grandiosidade e arrogância, necessidade de estímulo constante, propensão para mentir, enganar e manipular, e incapacidade de sentir remorso ou culpa.

Mas será ele mau?

Se, como escreve a filósofa Susan Nieman , o mal não é simplesmente o oposto do bem, mas antes algo que lhe é hostil, se o objetivo do mal é destruir todas as distinções morais, então Trump qualifica-se como o mal. Para Trump, a moralidade é para os perdedores. Toda a vida é transaccional. O interesse próprio e o enriquecimento pessoal suplantam todas as outras considerações. Ninguém mais importa.

No seu novo livro , “Call It Evil: Understanding the Trump Era” (Chamem-lhe Mal: ​​​​Entendendo a Era Trump), Neiman defende que o mal “não é crueldade, mas algo muito pior: as ideias que permitem que a crueldade se torne comum“.

E ela continua:

Há uma diferença entre chamar má a uma ação e chamar crime a outra. Os crimes são coisas para as quais temos procedimentos — pelo menos para punir, senão para prevenir. Isto significa que um crime pode ser encaixado de alguma forma no resto da nossa experiência. Chamar má a uma ação é sugerir que ela não pode ocorrer — e que, por isso, ameaça a nossa confian,ça no mundo, confiança que necessitamos para o navegar. Não existe uma linha divisória clara entre o mal e o terrível. “Má” é o que se diz quando o queixo nos começa a cair, ao percebermos que uma linha foi ultrapassada.

Trump ultrapassa todos os limites. Declara guerras por capricho. Enriquece-se a si e à sua família com esquemas de criptomoedas, dos quais já lucrou mais de mil milhões de dólares. Ordena assassinatos e o rapto de chefes de Estado. Utiliza milhares de milhões de dólares dos contribuintes para sustentar o genocídio na Palestina e, desde Janeiro de 2025, já vendeu mais de 20 mil milhões de dólares em novas armas a Israel. Desmantela departamentos governamentais criados para apoiar os mais vulneráveis ​​e inflaciona o orçamento de guerra. Cria forças paramilitares desonestas para aterrorizar os cidadãos e os imigrantes. Ataca e tenta censurar a imprensa.

Em suma, ele faz o que todos aqueles que cometem o mal fazem. Fomenta um mundo onde nada é sagrado e onde a democracia e as virtudes cívicas não existem.

Os conceitos de equidade, decoro, justiça e empatia são implodidos pela administração Trump. A sua ameaça de aniquilar o Irão – isto é, cometer genocídio – anunciada, por todo o lado, nas Nações Unidas, é recebida com indiferença por um público anestesiado pela sua vacuidade moral.

“Uma vez que a supremacia do interesse próprio é consagrada como realismo de senso comum em vez de uma ideia filosófica, capacidades morais como a empatia e a vergonha tornam-se não apenas ingénuas, mas suspeitas”, escreve Neiman. E continua: “Os sádicos existem e causam sofrimento interminável. Mas as formas mais comuns de maldade surgem da visão de que apenas os tolos acreditam em algo para além da sua própria vantagem.”

As instituições criadas para proteger a democracia, salvaguardar as virtudes cívicas e promover a igualdade — incluindo os tribunais, os escritórios de advogados, as universidades e os meios de comunicação social, todas capturadas pela classe dos bilionários — rapidamente se curvaram para bajular a Casa Branca de Trump. Os magnatas de Silicon Valley inundaram-no, a ele e à sua campanha, com milhões de dólares. As alegadas virtudes que estas instituições e indivíduos afirmavam defender foram descartadas. Essas virtudes, demonstrou-se, não passavam de marketing, de performance artística, de uma farsa.

Para um público enraivecido, a ganância e a crueldade transparentes de Trump são preferíveis à hipocrisia dissimulada dos políticos, republicanos e democratas, que o antecederam. Ele não se envolve na falsa empatia deles. Na verdade, parece incapaz de empatia.

Quando a moral se torna coisa de tolos, a virtude perde o seu sentido. Quando acreditamos que devemos agarrar o que podemos, mesmo à custa dos que nos rodeiam, sucumbimos ao Mal.

“Ao contrário de nós, exibe permanentemente a combinação de motivações que nos dizem ser as verdadeiras forças motrizes do comportamento humano”, escreve ainda Neiman sobre Trump:

Também não parece entender ninguém. Embora reconheça que as outras pessoas, também conhecidas como perdedoras, têm normas, não faz ideia de como essas normas funcionam, levando as pessoas a sobreporem-se aos seus próprios interesses para as honrar. Agindo no palco internacional à imagem dos genes implacáveis ​​de Richard Dawkins, atraiu milhões de seguidores que dizem admirar a sua autenticidade. Isto não significa que os seus seguidores sejam deploráveis. Podem não ser maus, mas num mundo onde o interesse próprio implacável geralmente se camufla sob cores suaves, consideram a sua franqueza refrescante. Já ouviram tantas vezes que as pessoas escondem o interesse próprio genuíno que realmente move as coisas, que se sentem aliviadas por ver um homem que nunca o esconde.

O pior mal, defende Neiman, “pode ser a negação do mal – tal como o desprezo por qualquer bondade que se lhe possa opor. Quando o interesse próprio se torna a base da razão, o mal já não tem de se justificar. Já foi confundido com racionalidade”.

Este mal conduz-nos pelo caminho já conhecido do fascismo. Foi Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto durante o primeiro mandato de Trump, que nos alertou, chamando a Trump “fascista até à medula“.

Os media — sem coragem suficiente para rotular Trump de fascista — preferem a palavra “autoritário“, que, como observa Neiman, pode ser mais tolerável, mas “não tornará o fascismo mais tolerável“.

Autoritarismo, observa ela:

[É] uma palavra que pode ser útil para descrever certos professores alemães e o tipo mais brando de regime militar latino-americano. Mas um país onde homens mascarados deportam pessoas para desertos que nunca viram? As tropas de combate ocupam as grandes cidades e disparam sobre os cidadãos que protestam pacificamente? Um governo que coage os media, as universidades e outros países a atenderem à sua vontade? Um exército que faz explodir pescadores em pedaços com as mais insignificantes justificações e depois inicia o tipo de guerras que o Tribunal Militar Internacional de Nuremberga condenou? Como foi escrit em 1946: “Iniciar uma guerra de agressão não é apenas um crime internacional, é o supremo crime internacional, diferindo dos outros crimes de guerra apenas por conter em si o mal acumulado de todos eles.” Seria fácil continuar, mas enumerar crimes é inútil. Antes destas palavras serem impressas, o governo já terá encontrado inúmeras novas formas de desrespeitar o Estado de Direito.

Estamos em apuros.

A decadência moral na nossa sociedade precedeu Trump. Ele é a sua conclusão lógica. Ele é a apoteose de uma cultura onde a ganância, a exploração e o interesse próprio, os princípios fundamentais do neoliberalismo, são apresentados como as forças definidoras da existência humana.

Devemos lutar enquanto podemos. Mas para isso precisamos de resgatar a linguagem do bem e do mal. Precisamos de fazer escolhas morais e aceitar o sacrifício pessoal. Precisamos de reconhecer a desolação que se apresenta diante de nós, sem desviar o olhar do monólito fascista que se consolida.

Negar estas verdades e recusar-se a desafiar o mal garantirá a nossa escravidão.

Pronunciar estas verdades e estar ao lado dos oprimidos e marginalizados, mesmo que isso implique sacrificar a nossa própria segurança financeira e física, libertar-nos-á.

Fonte aqui


Um Seguro com Alzheimer

(João Gomes, in Facebook, 25/05/2026)


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O senhor Presidente de “todos os portugueses” tem uma memória seletiva e deve ter estado – nos últimos 12 anos e antes de se candidatar a PR – depois de no PS ninguém o querer – a ler livros de cowboys e romances de Eça de Queiroz.

Antes de 2022, a guerra pela autonomia do Donbass e os ataques sucessivos da Ucrânia aos pró-russos, já provocara aproximadamente 3900 civis mortos e entre 7 a 9 mil feridos, segundo dados das Nações Unidas. O conflito, iniciado em 2014, ficou marcado por bombardeamentos, fogo cruzado e ataques atribuídos às forças ucranianas, sobretudo nas regiões de Donetsk e Lugansk. Mesmo em 2021, antes da invasão russa em larga escala, a ONU ainda registava vítimas civis ligadas ao conflito. E, como se sabe, a “invasão russa” foi exatamente por causa disso e da falha dos acordos sobre isso.

Após a invasão russa de fevereiro de 2022 e até hoje, a Ucrânia passou também a atacar território russo – incluindo Belgorod, Kursk, Bryansk, Crimeia e até Moscovo com drones e mísseis fornecidos pelo ocidente – causando mortos civis, destruição urbana e ataques a infraestruturas. As autoridades russas falam em centenas de vítimas civis e milhares de ataques.

Neste quadro, o Ocidente e o senhor presidente de Portugal (que andou tão descansado a “pensar” nos últimos 12 anos) aplica uma moral geopolítica seletiva: condena fortemente os ataques russos a civis, mas relativiza ou silencia os ataques ucranianos – desde sempre – contra populações civis do Donbass ou cidades russas.

Portanto – é isto que temos e continuaremos a ter, até que – dentro em breve – a Europa perceba quem andou a gerir e a aproveitar-se da politica da Ucrânia para transformar a Europa num continente sem geopolítica própria, sem entender como foi sendo enganada e como “autorizou” um grupelho nazi a tomar conta e definir como se faz a politica económica, financeira e militar de um continente que fez História e – agora – não serve para nada.

Abandonar crianças não é apenas um crime

(João Gomes, in Facebook, 21/05/2026)


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Há notícias que passam rapidamente pelos ecrãs, consumidas entre um comentário político, uma guerra distante e a próxima distração digital. Mas algumas deixam algo demasiado incómodo, quase físico, porque tocam numa região moral profunda da condição humana. O abandono de crianças é uma delas.

Recentemente, em Portugal, duas crianças foram encontradas no Alentejo em circunstâncias difíceis de compreender sem um arrepio interior: menores, vulneráveis, deixados à sorte, dependentes apenas do acaso e da consciência de desconhecidos que decidiram parar, olhar e chamar ajuda. Num tempo em que tantos seguem caminho sem ver ninguém, foram precisamente “gente comum” que impediu que aquela história pudesse ter terminado em tragédia.

A justiça tratará do resto. Haverá processos, relatórios sociais, avaliações psicológicas, eventual perda das responsabilidades parentais e integração institucional. O Estado moderno conhece bem os seus mecanismos administrativos. Mas permanece sempre uma sensação amarga de insuficiência. Porque abandonar uma criança não é apenas violar um artigo do Código Penal. É romper um dos pactos mais antigos da civilização.

Uma criança nasce radicalmente dependente. Não escolhe onde nasce, quem a acolhe, qual a língua que ouvirá, se terá pão, afeto ou proteção. O primeiro universo da criança são os braços que a recebem. Quando esses braços desaparecem deliberadamente, não ocorre apenas um crime jurídico – produz-se uma espécie de colapso moral primário.

Talvez por isso estes casos provoquem uma indignação tão visceral. Há crimes que atacam património, interesses ou normas sociais. O abandono infantil atinge algo mais fundo: a própria ideia de humanidade organizada.

E, no entanto, este fenómeno não existe isolado. Vivemos numa época estranha, contraditória, quase esquizofrénica na sua arquitetura moral. Enquanto em Gaza, no Sudão ou noutras geografias de sofrimento coletivo milhares de crianças morrem sob bombas, fome ou deslocações forçadas, noutras partes do mundo algumas são descartadas pelos próprios pais em sociedades teoricamente estáveis e protegidas.

Mudam os cenários mas a vulnerabilidade permanece.

Num caso, a infância é esmagada pela maquinaria da guerra e pelos interesses geopolíticos. No outro, dissolve-se dentro da desagregação familiar, da pobreza extrema, da alienação social ou do vazio emocional de sociedades cada vez mais fragmentadas. Em ambos os casos, porém, há uma pergunta: que espécie de civilização estamos a construir quando tantas crianças ficam entregues ao acaso?

Portugal, como muitas democracias europeias, possui uma tradição jurídica relativamente humanista. O sistema penal procura compreender contextos: miséria, doença mental, dependências, exclusão social. E isso é importante, porque a justiça sem compreensão transforma-se facilmente em vingança institucionalizada. Mas existe também o risco oposto: o de transformar a compreensão em banalização moral.

A sociedade aceita – e bem – que o foco principal seja salvar a criança. Mas dificilmente aceita que o sofrimento imposto a menores indefesos pareça gerar consequências penais vistas como residuais. Há uma diferença entre compreender causas sociais e diluir responsabilidades individuais.

Porque uma criança abandonada leva consigo marcas invisíveis que raramente aparecem nos processos judiciais: a erosão da confiança básica no mundo, o medo do abandono, a perceção precoce de que a existência pode depender apenas da sorte. E nenhuma sentença mede isso verdadeiramente.

Talvez o problema mais profundo seja outro: habituámo-nos a viver rodeados de tragédias até perdermos capacidade de espanto. O sofrimento infantil tornou-se paisagem de fundo da modernidade. Surge nos telejornais, nos relatórios humanitários, nos bairros esquecidos, nas fronteiras, nos hospitais destruídos, nas instituições saturadas. E quando o horror se torna rotina, a civilização começa lentamente a anestesiar-se.

Por isso, abandonar crianças não é apenas um crime. É um sinal de falha coletiva. Falha da família, por vezes; do Estado, noutras; de comunidades desfeitas, de economias desumanizadas, de culturas que proclamam progresso mas deixam muitos dos seus filhos sem chão afetivo ou material. Uma sociedade revela a sua verdadeira natureza não pela grandiosidade dos seus discursos, mas pela forma como protege aqueles que nada podem oferecer em troca.

As crianças são esse espelho absoluto.

E talvez o mais inquietante do nosso tempo seja precisamente isto: continuamos capazes de construir máquinas sofisticadas, mercados globais e inteligências artificiais, mas ainda não aprendemos plenamente a garantir o essencial – que nenhuma criança tenha de olhar o mundo sentindo-se abandonada por ele.