A Ucrânia e o fim da NATO

(Por Scott Ritter, in Substack, 26/06/2026, Trad. Estátua de Sal)


Fui convidado para falar numa conferência em Istambul sobre “A Segurança Mundial e a Conferência da NATO”, organizada pelo Centro de Investigação da Iniciativa das Civilizações Globais. Estas são as observações que preparei.


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Com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia a entrar no quinto ano, é crucial que as nações que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) avaliem a situação e o que ela significa para o futuro de uma aliança transatlântica que dura há cerca de oito décadas.

Os grandes meios de comunicação ocidentais e as suas câmaras de eco nas redes sociais promovem uma narrativa centrada na noção de fadiga russa, resiliência ucraniana e determinação ocidental, e deleitam-se em destacar pontos de discussão baseados num lamaçal gerado pela Rússia que se arrasta há mais tempo do que a Grande Guerra Patriótica de 1941-45.

Esta narrativa é paralela às posições oficiais da maioria das nações que compõem a NATO, o que não surpreende, dada a estreita relação entre os meios de comunicação controlados por empresas e governos que mantêm uma relação de porta giratória com essas mesmas empresas.

Esta narrativa é deliberadamente enganadora, pois não visa refletir a verdade factual, mas sim promover uma ficção que está a ser utilizada para moldar a perceção pública, de modo a que o conflito russo-ucraniano possa ser prolongado até à sua conclusão desejada: a derrota estratégica da Rússia. Este objetivo é a posição formal da NATO e dos seus principais membros constituintes, tendo sido reiteradamente expressa desde a sua primeira formulação em maio de 2022. O conceito assenta em três pilares fundamentais: o colapso económico da Rússia provocado pelas sanções económicas; a exaustão militar da Rússia, resultante de uma guerra interminável financiada pelo Ocidente; e a desintegração das estruturas sociais russas, levando à queda do governo russo liderado pelo presidente Vladimir Putin.

Há um grande problema com este conceito: está a falhar. A economia russa está a crescer, e não a encolher, e conseguiu encontrar um equilíbrio entre as necessidades económicas de uma sociedade orientada para o consumo e a expansão drástica da sua indústria de defesa, ao ponto de a Rússia ultrapassar os seus pares ocidentais na produção de armamento essencial para a guerra. As forças armadas russas estão a fortalecer-se, e não a enfraquecer, e a prevalecer num campo de batalha complexo, apesar dos esforços coletivos do Ocidente para as desgastar através de uma guerra por procuração aparentemente interminável com a Ucrânia. Além disso, o governo do presidente russo, Vladimir Putin, continua a angariar o apoio não só da maioria da população russa, frustrando aqueles que ambicionam provocar um movimento como o Maidan em Moscovo, mas também do mundo para além dos limites da comunidade transatlântica.

Os próprios pilares que o plano de ação da NATO deveria derrubar dentro da Rússia estão, na verdade, a ruir dentro da própria NATO — uma crise energética desencadeada pelo autoimposto isolamento da Europa em relação ao fornecimento de energia russa, e exacerbada pela guerra no Médio Oriente, levou ao quase colapso de várias economias europeias cruciais. A força militar da NATO foi drasticamente reduzida nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, ao ponto de não existir uma única nação da NATO capaz de travar com sucesso um combate terrestre em grande escala na Europa, do tipo que está a ser travado entre a Rússia e a Ucrânia. E os custos associados à melhoria das forças militares da NATO para os níveis necessários para enfrentar e prevalecer sobre as forças armadas russas são proibitivos e, como tal, representam objectivos inalcançáveis ​​para a maior parte, senão para toda a Europa, dada a condição geral precária da economia europeia. Por último, as elites políticas e económicas que tomaram e mantiveram o poder na Europa nas últimas três décadas estão elas próprias a cair em desgraça. O Reino Unido teve quatro primeiros-ministros em quatro anos. O governo alemão está prestes a ruir, assim como o governo francês. Em suma, os próprios objectivos que a NATO procurou impor à Rússia estão a ser implementados — inadvertidamente, mas de forma eficaz — entre os próprios membros da NATO.

O que mais choca, na situação atual, é que ela não é o resultado de um erro de julgamento momentâneo, mas sim o resultado de políticas elaboradas ao longo de décadas. Ainda antes da constituição formal da NATO, os Estados Unidos e o Reino Unido já conspiravam para transformar o território da Europa Central — que hoje compreende a Ucrânia — numa «pílula venenosa» para anular a ideia de uma Grande Rússia. Tanto Ialta como Potsdam tinham como objetivo separar o território russo que hoje constituiria parte da Ucrânia em 2021. A CIA conspirava abertamente com antigos agentes e organizações de inteligência nazis para construir um movimento de resistência anti Rússia em território ucraniano, recrutado entre os piores grupos nacionalistas ucranianos do oeste, incluindo os liderados por Stepan Bandera e Andrei Milnyk. Mesmo depois de a União Soviética ter esmagado os últimos restos destas forças pró-nazis em 1954-55, os EUA e a NATO continuaram a alimentar a fantasia de uma frente unida dos elementos sobreviventes do movimento nacionalista ucraniano, com as Forças Especiais dos EUA a planearem a criação de movimentos de resistência locais em solo soviético, enquanto a CIA sustentava a odiosa ideologia do nacionalismo ucraniano através de financiamento direto e apoio ao treino, que continuou sem cessar até 1990.

Com o fim da Guerra Fria, a NATO colaborou com os Estados Unidos para desestabilizar a Rússia, ajudando a instalar governos anti Rússia e pró-Ucrânia em Kiev. A expansão da NATO ocorreu na sombra, com as verdadeiras motivações ocultas do escrutínio público por parte daqueles que viam a Rússia como fraca e susceptível de acreditar em narrativas enganadoras. A NATO contou com a ajuda de várias organizações não-governamentais que canalizaram dinheiro e recursos para um plano mestre concebido para criar a inevitabilidade de uma guerra entre a Europa e a NATO.

Em 1993, George Soros, que investe fortemente em oportunidades de mudança de regime na Rússia, publicou um artigo no qual escreveu sobre a inevitabilidade e a necessidade da violência entre a NATO e a Rússia. Mas Soros reconheceu abertamente que a NATO, enquanto instituição, era incapaz de sustentar qualquer conflito que enviasse centenas de milhares dos seus soldados para casa em sacos para cadáveres. Em vez disso, observou Soros, a NATO necessitaria de fornecer o arsenal bélico a uma fonte de mão-de-obra da Europa de Leste não pertencente à NATO, que combateria a Rússia como representante da NATO.

Este representante sempre foi identificável como sendo da Ucrânia.

A Revolução Laranja de 2004 foi um esforço apoiado pela NATO e financiado por Soros, concebido para substituir o pró-russo Viktor Yanukovych por nacionalistas ucranianos como Viktor Yushchenko, que abraçaram abertamente a ideologia de Stepan Bandera.

E deu certo.

Após o regresso político de Yanukovych, em 2010, a NATO apoiou os esforços dos EUA e da UE para orquestrar um golpe violento em fevereiro de 2014, que depôs Yanukovych e o substituiu por nacionalistas ucranianos, desencadeando, assim, os acontecimentos que levariam à Operação Militar Especial da Rússia em fevereiro de 2022. A cumplicidade da NATO nesta ação é evidente: a NATO estabeleceu instalações de treino na Ucrânia cuja missão era construir um exército ucraniano capaz de se igualar ao exército russo. Esta ação é a manifestação literal da visão de Soros, de 1993, de um exército do leste europeu equipado pela NATO.

E esta é a própria essência da situação militar que existe hoje entre a Ucrânia e a Rússia, onde milhões de vidas ucranianas e milhares de milhões de dólares em recursos ucranianos foram sacrificados para facilitar a guerra não tão secreta da NATO contra a Rússia.

Uma guerra que a NATO está a perder por uma grande margem.

O primeiro Secretário-Geral da NATO, Lord Ismay, observou, de forma memorável, que a missão da NATO era “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães sob controlo”.

Hoje vemos uma NATO onde os americanos estão a sair, os alemães estão a ressurgir e os russos estão a ser obrigados, contra a sua vontade, a envolver-se num confronto direto com uma NATO que procura ativamente a guerra com a Rússia até ao final da década.

É importante notar que a NATO não tem recursos para construir o tipo de força militar necessária para prevalecer contra a Rússia num conflito direto, e que qualquer guerra entre a NATO e a Rússia conduziria inevitavelmente não só à devastação económica dos países membros da NATO, mas também à destruição física das próprias sociedades que a NATO foi supostamente criada para proteger.

No próximo mês, a cimeira da NATO vai reunir-se em Ancara para discutir o futuro de uma organização que perdeu a sua legitimidade com o colapso da União Soviética e só pode continuar a justificar a sua existência ressuscitando a ameaça da Rússia, provocando Moscovo através da guerra por procuração com a Ucrânia.

Na situação atual, o confronto planeado pela NATO com a Rússia é literalmente um pacto suicida. Levará à derrota da NATO e ao provável extermínio da Europa.

A Cimeira de Ancara poderá vir a ser a última cimeira convocada pela NATO.

A Europa comporta-se hoje como um cão raivoso, e a única forma de uma comunidade se proteger de tal ameaça é abater o cão. A Rússia prepara-se para abater o cão europeu.

A prevenção da guerra deve ser a prioridade da NATO daqui para a frente. Isso exigirá a aceitação da dura verdade de que uma vitória russa sobre a Ucrânia é inevitável e que qualquer esforço da NATO para procurar um resultado alternativo, intensificando o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, só levará a um conflito direto com a Rússia, que a NATO não pode vencer, e, como tal, provavelmente desencadeará um conflito nuclear que terminará para sempre a experiência da civilização europeia.

A NATO está a jogar um jogo perigoso de roleta russa, onde todas as balas da pistola estão carregadas e o resultado é certo. A não ser que pare de jogar. A escolha é clara: a vida ou a morte para a Europa e para a aliança transatlântica. E a decisão será tomada no próximo mês, em Ancara.

Que escolha com sabedoria.

Fonte aqui

Afinal, a “autocracia” era a liberdade

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 19/06/2026, Revisão da Estátua)


Estão finalmente na defensiva os hiper-adaptados da ideologia dos anos 90, aqueles que no quadro da trilogia liberalismo político, economia de mercado e “direitos do homem” apontavam o futuro de liberdade, enquanto legitimavam no plano interno o permanente recurso à violência social e no plano externo justificavam a aplicação sistemática da força bruta, fosse por via das chamadas revoluções coloridas ou por recurso à invasão militar.

Para essa falange de fanáticos, a destruição de tudo o que contrariasse a marcha para a liberdade era o mal necessário a pagar para o aceleramento da instauração do paraíso da abundância, do consumo e do indivíduo autodeterminado.

Desde 1991, não houve agressão, seguida de espoliação de regiões inteiras e o caudal de milhões de mortes em que não estivesse presente a desgraçada fórmula da libertação pelas bombas, cujos fautores superaram largamente Robespierre, o exaltado da Liberdade, que não obstante condenava a exportação da revolução se esta contrariasse a vontade dos povos.

A junção das seitas neoliberal e neoconservadora provocou catástrofes humanitárias sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, pelo que muitos ainda mostram surpresa perante a resoluta determinação do Irão e do eixo da resistência em não quererem “ser livres”.

A derrota americana na Guerra do Irão de 2026 é o marco miliário que fixa o princípio do fim deste quase meio século em que aos EUA foram dadas todas as condições para a instalação da pax americana.

Queixam-se amargamente do retorno das “autocracias” e dos “homens fortes”, pelo que não percebem que foi o Ocidente que ao mobilizar o medo em regiões inteiras do planeta inviabilizou a globalização de uma prática democrática afeiçoada aos caracteres culturais específicos de cada povo.

A “autocracia” foi a fórmula mais eficaz de resistência à expansão do caos, o antídoto contra o jugo que impendia sobre Estados-civilização ameaçados. Neste particular, as “autocracias” foram o garante da liberdade para povos inteiros.

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Seguro, Zelensky e o nazi-fascismo

(Por José Goulão, in Facebook, 10/06/2026, revisão da Estátua)

A foto até pode ser montagem, mas o nazismo na Ucrânia de Zelensky, esse, é bem real

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Que Seguro tenha ido beijar a mão de Zelensky, um presidente fora do prazo, não me surpreende. Limitou-se a prosseguir a romaria a Kiev feita muitas vezes pelos chefes não eleitos da União Europeia, e também por Costa, Marcelo, Rui Tavares e outros democratas de rija cepa.

Que tenha escolhido o período das comemorações do 10 de Junho, cada vez mais “o dia da raça”, não me espanta igualmente. A Assembleia desta República que temos também ofereceu o púlpito a Zelensky em plenas comemorações do 25 de Abril, há poucos anos.

Que Seguro tenha assegurado “o apoio inabalável de Portugal” ao regime de Kiev, que ilegalizou mais de 10 partidos, censura a literatura e a imprensa e proíbe o uso de outras línguas, para lá do do ucraniano, que são faladas num Estado abundantemente multinacional, sobre isso também pouco há a dizer. Limitou-se a recitar a bíblia, ou a cartilha, como quiserem, sabida de cor e salteado por todos os chefes do chamado “mundo ocidental”.

Seguro, porém, esmerou-se, caprichou, e bateu a concorrência entre os romeiros. Foi confraternizar com o pequeno gaulaiter de Kiev apenas alguns dias depois de este se ter prostrado perante os restos mortais do genocida Andriy Melnyk, que integrou as tropas de Hitler no assalto à União Soviética, fundou o Batalhão Bucovina como parte da Abwher, a sinistra polícia de espionagem militar nazi de Wilhelm Canaris, e apadrinhou, como chefe da OUN, Organização dos Nacionalistas Ucranianos, os massacres de mais de cem mil pessoas nas regiões da Volínia e da Galícia Oriental, até pouco tempo antes territórios da Polónia.

 As vítimas foram sobretudo mulheres e crianças, porque os homens estavam na guerra ou na resistência. Judeus, polacos, russos, checos, húngaros, georgianos, ciganos, e até ucranianos pertencendo a famílias polacas – a lista dos sacrificados é longa. O Estado polaco atual considera oficialmente estas chacinas como “parte de uma campanha de genocídio”.

Zelensky no cemitério homenageando o nazi Melnyk

Zelensky mandou importar os restos de Melnyk do Luxemburgo. E recebeu-os como os de um “herói” no Cemitério Nacional Militar de Kiev, com honras de Estado. “É extremamente simbólico que os nossos heróis da Ucrânia de hoje, que arrancaram a Ucrânia das mãos dos russos, fiquem ao lado dos nossos heróis ucranianos de gerações anteriores que também trabalharam para garantir que a Ucrânia fosse o que é, que a Ucrânia fosse ela mesma, que a Ucrânia fosse livre“, disse Zelensky na oração de boas vindas ao genocida Melnyk.

Não me parece abusivo concluir que o pequeno fuhrer de Kiev definiu a Ucrânia de hoje – “ela mesma” e “livre” – como a continuação ideológica, social e militar da Ucrânia pela qual Melnyk e outros, como o “herói nacional” Bandera, combateram integrados nas tropas de Hitler.

Ora a Ucrânia desejada por Melnyk e Bandera era “um Estado nacional varrido de judeus, polacos e russos“. Em carta dirigida em 1940 a Adolph Hitler, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Joachim Ribbentrop, Melnyk definiu assim a sua OUN: “uma organização ideologicamente semelhante a movimentos semelhantes na Europa, especialmente o nacional-socialismo na Alemanha e o fascismo em Itália“. Feita a declaração de princípios, Melnyk rogou a Hitler “que nos seja permitido marchar lado a lado com as legiões da Europa e com a nossa libertadora Wermacht alemã“. Se a Ucrânia de hoje é a de Melnyk, como enfatizou Zelensky, sabemos ao que anda a máquina que controla o Estado ucraniano em Kiev; e reforçamos a certeza de que o Azov e outros grupos nazis que ganharam protagonismo a nível do poder através do golpe norte-americano e europeu de Maidan, em 2014, têm bem a quem sair.

Por cá e por essa Europa fora, os nossos dirigentes, e os alheios, ecoados pela canina comunicação social, desmultiplicam-se afanosamente para garantir que Zelensky não é nazi. Mas a verdade nua e crua é que os venera, como há mais de 80 anos fizeram os “heróis” Melnyk, Bandera e muitos outros que hão de acabar com os ossos no Cemitério Nacional Militar de Kiev.

Caso se tivesse apressado um pouco, Seguro ainda tinha ido a tempo de participar no segundo enterro do genocida. Mas cumpriu o beija-mão a Zelensky quando ele ainda trazia terra do cemitério agarrada aos sapatos, depois da macabra e estatal cerimónia.

Vai muito bem o presidente Seguro no seu novo emprego. É mais do mesmo nesta alegre “democracia liberal”, que cá vai cantando e rindo.