A Irlanda conhece as dores do medo

(João Gomes, in Facebook, 19/05/2026)


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A Irlanda olha para Gaza com uma memória que muitos preferem esquecer. Não se trata apenas de solidariedade ideológica, nem de um impulso romântico de apoio aos mais fracos. Trata-se de reconhecimento histórico. Os irlandeses sabem o que significa viver décadas sob pressão política, militar e psicológica de uma potência muito mais forte. Sabem o que é crescer entre muros invisíveis de medo, repressão, vigilância e humilhação. Sabem o que significa ver a própria identidade transformada num problema geopolítico.

Durante grande parte da sua história moderna, a Irlanda viveu sob o peso do domínio britânico. E mesmo depois da independência, a ferida permaneceu aberta na Irlanda do Norte: bairros militarizados, detenções sem julgamento, violência sectária, operações militares, atentados, medo constante. Londres justificava muitas dessas medidas em nome da segurança e do combate ao terrorismo. A população irlandesa, sobretudo a católica no Norte, ouvia repetidamente que as restrições às suas liberdades eram necessárias para garantir estabilidade.

É precisamente por conhecer esse discurso que muitos irlandeses olham hoje para os palestinianos com inquietação moral. Reconhecem padrões familiares: ocupação prolongada, controlo de território, postos de controlo, punições colectivas, deslocamentos forçados, linguagem securitária usada para justificar sofrimento humano contínuo. Não significa ignorar os ataques terroristas do Hamas nem negar o direito de Israel à segurança. Significa apenas compreender que o medo não pode servir eternamente como licença para a desumanização.

Talvez por isso a Irlanda tenha assumido, nos últimos anos, uma posição mais incómoda dentro da Europa. Uma posição que muitos governos europeus evitam adoptar por cálculo político, interesses estratégicos ou receio diplomático. Dublin tem insistido na necessidade de respeitar o direito internacional, condenando excessos militares e defendendo o reconhecimento efectivo dos direitos palestinianos. E isso irrita sectores que preferem uma Europa silenciosa ou cuidadosamente ambígua.

O problema é que a Europa fala constantemente de “ordem internacional baseada em regras”, mas parece aplicar essas regras de forma selectiva. Quando se trata de Israel, as grandes potências europeias recuam, hesitam ou escondem-se atrás de fórmulas diplomáticas vazias.

A Alemanha, marcada pelo peso histórico do Holocausto, transformou muitas vezes o apoio ao Estado israelita numa espécie de dogma político quase intocável. Mas a memória do horror nazi não deveria impedir a crítica legítima a decisões políticas e militares contemporâneas. Pelo contrário: deveria tornar a defesa do direito internacional ainda mais intransigente.

O Reino Unido continua preso à sua relação estratégica com Washington e à lógica tradicional da sua política externa no Médio Oriente. Há uma ironia nisto tudo: o país que durante décadas combateu violentamente movimentos irlandeses em nome da segurança mostra hoje enorme complacência perante políticas que muitos observadores internacionais consideram incompatíveis com os princípios humanitários que o próprio Ocidente diz defender.

E a França, apesar da retórica humanista, oscila entre declarações de preocupação e prudência diplomática, evitando quase sempre medidas políticas concretas que possam exercer verdadeira pressão sobre Israel.

No fundo, a Europa exige ao mundo respeito pelas resoluções internacionais, mas revela uma estranha timidez quando chega o momento de exigir que Israel cumpra decisões das Nações Unidas, respeite os limites impostos pelo direito humanitário ou aceite mecanismos internacionais de responsabilização. Condena violações noutros continentes com firmeza moral, mas torna-se cautelosa quando o custo político aumenta.

Essa duplicidade destrói credibilidade. E destrói também a ideia de que os direitos humanos são universais.

A Irlanda, precisamente porque conhece as dores do medo, compreende algo essencial: nenhuma segurança construída sobre humilhação permanente produzirá paz duradoura. Povos que vivem sem horizonte político acabam por transmitir o desespero de geração em geração. Foi assim na Irlanda durante décadas. E é isso que muitos receiam hoje na Palestina.

Talvez seja por isso que a voz irlandesa incomoda tanto. Porque recorda à Europa aquilo que ela própria prefere esquecer: que a paz não nasce apenas da força militar, mas da coragem política para aplicar os mesmos princípios a todos – aliados incluídos.

O silêncio que acompanha a violação de palestinianos

(Nicholas Kristof, in The New York Times, 11/05/2026, Trad. Estátua)


(A Estátua publica este texto com a raiva que lhe causa o seu conteúdo mas, também, com um leve sorriso de ironia… EUREKA! Pela primeira vez o New York Times – esse “insuspeito” arauto da verdade no e do Ocidente -, teve a honra de ser fonte de um artigo na Estátua… 🙂

Vindo, portanto, de onde vem, as atrocidades que são aqui expostas, não podem ser falsas nem sequer exageradas, não é? Se o que é descrito é a prática usual da dita “única democracia do Médio Oriente”, desculpem lá, mas eu prefiro uma autocracia, nem que seja a dos aiatolas!

Estátua de Sal, 15/05/2026)


Palestinianos, homens e mulheres, descrevem abusos sexuais brutais cometidos por guardas prisionais, soldados, colonos e interrogadores israelitas.


É uma proposta simples: independentemente das nossas opiniões sobre o conflito no Médio Oriente, devemos ser capazes de nos unir para condenar a violação.
Os apoiantes de Israel fizeram esta observação após os brutais ataques sexuais contra mulheres israelitas durante o ataque liderado pelo Hamas contra Israel, a 7 de outubro de 2023. Donald Trump, Joe Biden, Benjamin Netanyahu e muitos senadores norte-americanos, incluindo Marco Rubio, condenaram esta violência sexual, e Netanyahu, com razão, apelou a “todos os líderes civilizados” para “se manifestarem”.

No entanto, em entrevistas comoventes, palestinianos relataram-me um padrão de violência sexual generalizada por parte de Israel contra homens, mulheres e até crianças — por parte de soldados, colonos, interrogadores da agência de segurança interna Shin Bet e, sobretudo, guardas prisionais.

Não há provas de que os líderes israelitas ordenem estupros. Mas, nos últimos anos, eles construíram um aparato de segurança no qual a violência sexual se tornou, como 
afirmou um relatório das Nações Unidas no ano passado , um dos “procedimentos operacionais padrão” de Israel e “um elemento importante no tratamento desumano dos palestinos”. Um 
relatório divulgado no mês passado pelo Euro-Med Human Rights Monitor, um grupo de defesa dos direitos humanos com sede em Genebra, frequentemente crítico de Israel, conclui que Israel emprega “violência sexual sistemática” que é “amplamente praticada como parte de uma política estatal organizada”.

Como é este procedimento operacional padrão? Sami al-Sai, de 46 anos, jornalista freelancer, conta que, enquanto era levado para uma cela após a sua detenção, em 2024, um grupo de guardas atirou-o ao chão.
“Todos me batiam, e um deles pisou-me a cabeça e o pescoço”, disse. “Alguém me baixou as calças. Baixaram-me a cueca.” E então um dos guardas sacou de um bastão de borracha usado para bater nos prisioneiros.
“Estavam a tentar enfiá-lo no meu reto, e eu preparava-me para o impedir, mas não conseguia”, disse, falando com crescente ansiedade. “Foi muito doloroso”. Os guardas estavam a rir-se, disse ele. “Depois ouvi alguém dizer: ‘Deem-me as cenouras’”, recordou, acrescentando que, de seguida, usaram uma cenoura. “Foi extremamente doloroso”, disse. “Eu estava a rezar para morrer.”
Al-Sai estava de olhos vendados, disse, e ouviu alguém dizer em hebraico, que ele compreende: “não tirem fotografias”. Isso sugeriu-lhe que alguém tinha sacado de uma câmara. Uma das guardas era uma mulher que, segundo ele, o agarrou pelo pénis e pelos testículos e brincou: “estes são meus”, apertando-os até ele gritar de dor.
Os guardas deixaram-no algemado no chão, e sentiu um cheiro a cigarro. “Percebi que era a altura delas fumarem”, disse.
Depois de ser atirado para a sua cela, concluiu que o local onde tinha sido violado já tinha sido utilizado antes, pois encontrou vomitado, sangue e dentes partidos de outras pessoas esmagados na sua pele.
Al-Sai disse que lhe pediram para se tornar informador dos serviços de informação israelitas e acredita que o objetivo da sua detenção e encarceramento, ao abrigo do sistema de detenção administrativa, era pressioná-lo a aceitar. Como se orgulhava do seu profissionalismo jornalístico, disse, recusou.

Ao longo da minha carreira, cobri guerras, genocídios e atrocidades, incluindo estupro, por vezes em locais onde a escala da violência sexual é muito maior do que qualquer coisa cometida por militantes do Hamas, guardas israelitas ou colonos. No conflito de Tigray, na Etiópia, há alguns anos, estima-se que 100 mil mulheres tenham sido violadas. Estupros em massa estão agora ocorrendo no Sudão.

No entanto, o dinheiro dos impostos americanos subsidia o aparato de segurança israelita, portanto, trata-se de violência sexual na qual os Estados Unidos são cúmplices.

O meu interesse numa reportagem sobre agressões sexuais contra prisioneiros palestinianos surgiu depois que Issa Amro, um ativista não violento, muitas vezes chamado “o Gandhi palestiniano”, me contou, numa visita anterior, que havia sido agredido sexualmente por soldados israelitas e que acreditava que isso era comum, mas escondido por vergonha.

Segundo estimativas, Israel deteve 20.000 pessoas somente na Cisjordânia desde os ataques de 7 de outubro, e mais de 9.000 palestinianos permaneciam detidos neste mês. Muitos não foram acusados ​​formalmente, mas foram detidos sob pretextos de segurança mal definidos e, desde 2023, a maioria viu negadas as visitas da Cruz Vermelha e de advogados.

“As forças israelitas empregam sistematicamente a violação e a tortura sexual para humilhar as mulheres palestinianas detidas”, afirmou o relatório da Euro-Med. O relatório citava o caso de uma mulher de 42 anos que disse ter sido acorrentada nua a uma mesa de metal enquanto os soldados israelitas a violavam à força durante dois dias, enquanto outros soldados filmavam os ataques. Depois, disse que lhe mostraram fotografias suas a ser violada e disseram que seriam publicadas se não cooperasse com os serviços de informação israelitas.

É impossível saber com que frequência ocorrem agressões sexuais contra palestinianos. A minha reportagem para este artigo baseia-se em conversas com 14 homens e mulheres que disseram ter sido agredidos sexualmente por colonos israelitas ou membros das forças de segurança. Também conversei com familiares, investigadores, autoridades e outras pessoas.
Encontrei estas vítimas a perguntar a advogados, grupos de defesa dos direitos humanos, trabalhadores humanitários e palestinianos comuns. Em muitos casos, foi possível corroborar parcialmente os relatos das vítimas a falar com testemunhas ou, mais comummente, com pessoas em quem as vítimas tinham confiado, como familiares, advogados e assistentes sociais; noutros casos, tal não foi possível, talvez porque a vergonha fez com que as pessoas se mostrassem relutantes em admitir o abuso, mesmo aos seus entes queridos.

No ano passado , a Save the Children encomendou uma pesquisa com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que estiveram detidos em centros de detenção israelitas; mais da metade relatou ter presenciado ou sofrido violência sexual. A Save the Children afirmou que o número real provavelmente é maior, pois o estigma impede que alguns reconheçam o que lhes aconteceu.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, uma respeitada organização americana, entrevistou 59 jornalistas palestinianos que foram libertados pelas autoridades israelitas após os ataques de 7 de outubro. Três por cento disseram ter sido violados e 29 por cento disseram ter sofrido outras formas de violência sexual.

O governo israelita rejeita as alegações de que comete abusos sexuais contra palestinianos, assim como o Hamas negou violar mulheres israelitas. Israel acolheu um relatório das Nações Unidas que documenta agressões sexuais contra mulheres israelitas por palestinianos, mas 
rejeitou o apelo do relatório para que se investiguem as agressões israelitas contra palestinianos. Netanyahu denunciou as “acusações infundadas de violência sexual” feitas contra Israel.

O Ministério da Segurança Nacional de Israel recusou comentar para este artigo. O serviço penitenciário “rejeita categoricamente as alegações” de abusos sexuais, disse um porta-voz que pediu para não ser identificado, acrescentando que as queixas são “examinadas pelas autoridades competentes”. O porta-voz recusou dizer se algum funcionário da prisão já foi despedido ou processado por agressões sexuais.
Os palestinianos que entrevistei relataram vários tipos de abuso para além da violação. Muitos referiram que frequentemente tinham os genitais puxados ou eram espancados nos testículos. Os detetores de metal portáteis eram usados ​​para sondar entre as pernas nuas dos homens e depois eram esmagados contra as suas partes íntimas; alguns homens tiveram de ter os testículos amputados pelos médicos após as agressões, de acordo com o monitor Euro-Med.
Uma das razões pelas quais estes abusos não recebem mais atenção são as ameaças das autoridades israelitas, que periodicamente advertem os prisioneiros, após a libertação, para que se mantenham em silêncio, de acordo com os palestinianos que foram libertados. Outra razão, segundo me disseram sobreviventes palestinianos, é que a sociedade árabe desencoraja a discussão do assunto por temer ferir a moral das famílias dos prisioneiros e minar a narrativa palestiniana de uma plêiade de detidos desafiadores e heróicos.
As normas sociais conservadoras também inibem a discussão: duas vítimas disseram-me que um recluso que admitisse ter sido violado prejudicaria a capacidade das suas irmãs e filhas encontrarem marido.
Um agricultor concordou inicialmente em deixar-me usar o seu nome neste artigo. Libertado no início deste ano, depois de meses em detenção administrativa — sem que qualquer acusação fosse formalizada —, relatou o que disse ter acontecido num dia do ano passado: meia dúzia de guardas imobilizaram-no segurando-lhe os braços e as pernas enquanto lhe baixavam as calças e as cuecas e lhe inseriam um bastão de metal no ânus. Os violadores estavam a rir-se e a comemorar, disse ele.

Várias horas depois, disse que desmaiou e foi levado para a clínica da prisão. Depois de acordar, disse, foi violado mais uma vez, novamente com o bastão de metal.

“Eu estava a sangrar”, lembrou. “Eu desabei completamente. Eu estava a chorar.”
Depois de ser devolvido à sua cela, disse que pediu a um guarda caneta e papel para apresentar queixa sobre as agressões. O pedido foi negado. E, nessa noite, um grupo de guardas dirigiu-se à cela.

“Quem é que quer apresentar queixa?”, ironizou um guarda, disse, e outro apontou-o. “A palmada começou imediatamente”, recordou. E depois violaram-no com o bastão pela terceira vez naquele dia, disse ele. Lembrou-se de um deles dizer: “Agora tem ainda mais para colocar na sua queixa.”

Alguns dias depois da minha entrevista, o agricultor telefonou a dizer que, afinal, não queria que o seu nome fosse usado. Tinha acabado de receber a visita do Shin Bet, que o advertiu para não causar problemas, e também temia que a sua família reagisse mal à atenção recebida.

“O abuso sexual desenfreado de prisioneiros palestinianos é uma realidade; foi normalizado”, disse Sari Bashi, advogada israelita-americana de direitos humanos e diretora executiva do 
Comitê Público Contra a Tortura em Israel. “Não vejo provas de que tenha sido ordenado. Mas há evidências persistentes de que as autoridades sabem que isso acontece e não fazem nada para o impedir.”

Outro advogado israelita, Ben Marmarelli, disse-me que, com base nas experiências dos detidos palestinianos que representou, o estupro de prisioneiros palestinos com objetos “está a acontecer em todo o lado”.

Bashi afirmou que a sua organização apresentou centenas de denúncias detalhando abusos horríveis contra detidos palestinianos — e que em nenhum caso essas denúncias resultaram em acusações formais. A impunidade, disse ela, cria um “sinal verde” para os abusadores.

Um prisioneiro palestiniano de Gaza teria sido hospitalizado em julho de 2024 com uma laceração no reto, costelas fraturadas e um pulmão perfurado. Investigadores obtiveram um vídeo da prisão que supostamente mostrava os abusos. As autoridades detiveram nove soldados da reserva, mas a direita israelita reagiu com indignação, e uma multidão de manifestantes furiosos, incluindo políticos, invadiu a prisão para demonstrar apoio aos guardas. As últimas acusações contra os soldados foram retiradas em março, e no mês passado os militares aprovaram o regresso dos soldados ao serviço.

Netanyahu comemorou a retirada das acusações como o fim de uma “calúnia de sangue”. “O Estado de Israel deve caçar os seus inimigos, não seus heróis combatentes”, disse ele.

Bashi descreveu o resultado desta forma: “Eu diria que retirar as acusações é dar permissão à violação”. Esse prisioneiro, que posteriormente passou a precisar de uma bolsa de estomia para recolher os seus dejetos, foi devolvido a Gaza, e um seu conhecido disse que ele passou meses num hospital recuperando dos seus ferimentos internos. O conhecido afirmou que o ex-prisioneiro se recusou a dar entrevista.

Processos judiciais e atenção pública podem conter este tipo de violência. Em 1997, policias da cidade de Nova York violaram um imigrante haitiano, Abner Louima , com um pedaço de pau de forma tão brutal que ele precisou ser hospitalizado e ser sujeito a cirurgias. Os nova-iorquinos ficaram indignados, o prefeito Rudy Giuliani visitou Louima no hospital e os policias foram processados ​​num caso histórico. Isso enviou uma mensagem poderosa para toda a força policial: aqueles que agridem detidos podem ser punidos. E essa é a mensagem que deve ser transmitida a todas as forças de segurança israelitas.

Se a administração Trump insistisse no retomar das visitas da Cruz Vermelha aos prisioneiros, se o embaixador dos EUA visitasse sobreviventes de violação com câmaras a tiracolo, se condicionássemos as transferências de armas ao fim da violência sexual, poderíamos enviar uma mensagem moral e prática de que a violência sexual é inaceitável, independentemente da identidade da vítima. Para começar, o embaixador poderia assegurar que os palestinianos que ousaram falar para este artigo não sejam novamente brutalizados pela sua coragem.
Como acontece este tipo de violência? Décadas a cobrir conflitos ensinaram-me que uma combinação de desumanização e impunidade pode impulsionar as pessoas para um estado de natureza hobbesiano. Deparei-me com esta deriva rumo à selvajaria nos campos de extermínio do Congo ao Sudão e a Myanmar, e penso que isto também explica, em termos gerais, como é que os soldados americanos passaram a abusar sexualmente de prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.

A dura realidade é que, quando não há consequências, nós, humanos, somos capazes de imensa depravação contra aqueles que somos ensinados a desprezar como sub-humanos.

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, classificou os detidos como “escória” e “nazis” e vangloriou-se de ter endurecido as condições prisionais para os palestinianos. Quando tais atitudes prevalecem, o abuso sexual pode tornar-se mais uma ferramenta para infligir dor e humilhação aos palestinianos.

Ben-Gvir recusou, através de uma porta-voz, comentar os abusos sexuais cometidos pelos serviços de segurança.

A B’Tselem, uma organização israelita de defesa dos direitos humanos, documentou “um grave padrão de violência sexual” contra os palestinianos. Citou o relato de um prisioneiro em Gaza, Tamer Qarmut, que disse ter sido violado com um pau. A tortura, afirmou a B’Tselem, “tornou-se uma norma aceite”.

Um ex-oficial israelita que trabalhava na enfermaria de uma prisão descreveu, num depoimento ao grupo israelita Breaking the Silence, o que esse tipo de aceitação significa na prática: “Você vê pessoas normais, bastante comuns, chegando a um ponto em que abusam de outras por diversão, nem mesmo para um interrogatório ou algo do género. Por mera diversão, para ter algo para contar aos colegas, ou por vingança”.

A maior parte dos estupros e outras formas de violência sexual tem sido dirigida contra homens, até porque mais de 90% dos prisioneiros palestinianos são homens. Mas conversei com uma mulher palestiniana que foi presa aos 23 anos após o ataque do Hamas em outubro de 2023. Ela contou que os soldados que a prenderam ameaçaram violá-la, assim como sua mãe e sua sobrinha pequena. O seu calvário na prisão começou com uma revista íntima feita por guardas femininas, “mas então um soldado entrou, quando eu já estava completamente nua”, acrescentou.

Nos dias seguintes, contou que foi repetidamente despida, espancada e revistada por equipas de guardas, homens e mulheres. O padrão era sempre o mesmo: vários guardas, homens e mulheres juntos, dirigiam-se à sua cela, despiam-na à força, algemavam-lhe as mãos atrás das costas e curvavam-na para a frente pela cintura, por vezes forçando a sua cabeça para dentro da sanita. Nessa posição, era espancada e apalpada por todo o corpo, disse.
“Apalpavam-me por todo o corpo”, disse ela. “Para ser sincera, não sei se me violaram”, disse, porque por vezes perdia os sentidos devido aos espancamentos.

O objectivo do abuso era duplo, acredita ela: destruir o seu espírito e também permitir que os homens israelitas molestassem impunemente uma mulher palestiniana nua.

“Era despida e espancada várias vezes ao dia”, disse. “Era como se me estivessem a apresentar a todos os que lá trabalhavam. No início de cada turno, traziam os homens para me despir.”

Quando estava prestes a ser libertada da prisão, disse que foi chamada a uma sala com seis funcionários e recebeu uma advertência severa para nunca dar entrevistas.
“Ameaçaram que, se eu falasse, me violariam, me matariam e matariam o meu pai”, disse ela. Não surpreendentemente, ela recusou ser identificada neste artigo.

Alguns dos piores abusos sexuais parecem ter sido dirigidos a prisioneiros de Gaza. Um jornalista de Gaza partilhou comigo o seu relato dos abusos que sofreu após ter sido detido em 2024.
“Ninguém escapou às agressões sexuais”, disse. “Nem todos foram violados, diria eu, mas todos passaram por agressões sexuais humilhantes e repugnantes.” Numa ocasião, disse, os guardas amarraram-lhe os testículos e o pénis com abraçadeiras de plástico durante horas enquanto batiam nos seus genitais. Nos dias seguintes, disse, urinou sangue.
Noutra ocasião, disse, foi imobilizado, despido e, enquanto era vendado e algemado, foi chamado um cão. Com o incentivo de um tratador em hebraico, disse, o cão montou-o.

“Eles estavam a usar câmaras para tirar fotografias, e eu ouvi as suas gargalhadas e risos”, disse. Tentou livrar-se do cão, disse, mas este penetrou-o.

Outros prisioneiros palestinianos e observadores de direitos humanos também citaram relatos de cães-polícia que foram treinados para violar prisioneiros. O jornalista disse que, quando foi libertado, um responsável israelita avisou-o: “Se quiser continuar vivo quando regressar, não fale com a imprensa”.

Então, porque é que ele estava disposto a falar? “Há momentos em que recordar se torna insuportável”, disse. “O meu coração parecia que ia parar enquanto falava contigo sobre isto agora. Mas lembro-me que ainda há pessoas lá dentro. Então, falo.”

Vários relatos indicam que a violência sexual foi dirigida até a crianças palestinianas, que são geralmente presas por atirar pedras. Localizei e entrevistei três rapazes que tinham sido detidos, e todos descreveram terem sido abusados ​​sexualmente.
Um deles, um rapaz tímido com uma camisola da Hilfiger, que tinha 15 anos na altura da sua detenção, recusou-se a dizer se também tinha presenciado violações. Mas afirmou que as ameaças eram rotineiras: “Diziam: ‘Faz isso ou vamos enfiar esse pau no teu rabo’”.

Os outros rapazes contaram histórias muito semelhantes de violência sexual como parte das agressões e observaram que as ameaças de violação eram dirigidas não só a eles, mas também às suas mães e irmãos.

Os colonos israelitas não são um braço oficial do Estado da mesma forma que o sistema prisional, mas as Forças de Defesa de Israel protegem cada vez mais os colonos enquanto estes atacam aldeões palestinianos e usam violência sexual para forçar os palestinianos a fugir. “A violência sexual é usada para pressionar as comunidades” a deixarem as suas terras, de acordo com um novo relatório do Consórcio de Proteção da Cisjordânia, uma coligação de grupos internacionais de ajuda humanitária liderada pelo Conselho Norueguês para Refugiados.

O consórcio entrevistou agricultores palestinianos e descobriu que mais de 70% das famílias deslocadas relataram que as ameaças às mulheres e às crianças, particularmente a violência sexual, foram o motivo decisivo para o abandono das suas terras. “A violência sexual”, disse Allegra Pacheco, da coligação, “é um dos mecanismos que levam as pessoas a abandonar as suas terras”.

Numa aldeia remota de agricultores beduínos no Vale do Jordão, conheci Suhaib Abualkebash, um agricultor de 29 anos, que relatou como um grupo de cerca de 20 colonos invadiu as casas da sua família, espancando adultos e crianças, roubando joias e 400 ovelhas — além de lhe cortarem a roupa com uma faca de caça e, em seguida, atarem o seu pénis com abraçadeiras de plástico e puxá-lo. “Tinha medo que me cortassem o pénis”, disse Abualkebash. “Pensei que seria o meu fim.”

Alguns poderão perguntar-se se os palestinianos fabricaram acusações de agressões sexuais para difamar Israel. Para mim, isto parece improvável, porque nenhum dos entrevistados me procurou ou sabia com quem mais eu estava a falar, e mostraram-se relutantes em falar. No entanto, existem algumas evidências de que o abuso sexual em Israel se tornou tão frequente que as normas estão a mudar e as vítimas palestinianas estão a tornar-se um pouco mais dispostas a manifestar-se.

“Durante seis meses, não consegui falar sobre o assunto, nem mesmo com a minha família”, disse Mohammad Matar, um funcionário palestiniano que me contou que os colonos o despiram, o espancaram e o picaram com um pau nas nádegas enquanto falavam em violá-lo. Durante o ataque, os agressores publicaram uma fotografia dele vendado e apenas de cuecas nas redes sociais. Com o tempo, Matar decidiu manifestar-se para tentar quebrar o estigma. Agora, guarda uma cópia ampliada da foto que os colonos lhe tiraram na parede do seu escritório.

Para tentar perceber o que descobri, telefonei a Ehud Olmert, que foi primeiro-ministro de 2006 a 2009. Olmert disse-me que não sabia muito sobre violência sexual contra palestinianos, mas não ficou surpreendido com os relatos que eu tinha ouvido. “Acredito que isso aconteça?”, perguntou. “Definitivamente”. “Os crimes de guerra são cometidos todos os dias nos territórios”, acrescentou.

Assim, voltamos ao ponto que referi no início desta coluna: os apoiantes de Israel tinham razão em 2023 ao afirmar que, independentemente das nossas opiniões sobre o Médio Oriente, deveríamos ser capazes de repudiar a violação.

“Onde raio estão vocês?”, perguntou Netanyahu à comunidade internacional na altura, exigindo que condenasse a violência sexual cometida por aquilo a que o Governo israelita chamou de “regime violador do Hamas”.

O Hamas, de facto, violou brutalmente os direitos humanos. Mas as autoridades israelitas deveriam também examinar as suas próprias violações — em particular, aquilo a que um relatório de 49 páginas das Nações Unidas do ano passado chamou uma “tortura sexualizada” praticada por Israel contra os palestinianos, cometida com pelo menos “um incentivo implícito da alta liderança civil e militar”.

Pensem da seguinte forma: o abuso horrível infligido às mulheres israelitas no dia 7 de Outubro acontece agora aos palestinianos dia após dia. Persiste por causa do silêncio, da indiferença e da falha das autoridades americanas e israelitas em responder à pergunta de Netanyahu: Onde raio estão vocês?

* O autor, Nicholas Kristof tornou-se colunista da secção de Opinião do The Times em 2001 e ganhou dois Prémios Pulitzer.

Fonte aqui


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Netanyahu toca, Trump dança e o Ocidente desaba

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 25/04/2026, revisão da Estátua)


Ansioso por declarar vitória numa guerra que se apressou a dar como concluída com a entrada em vigor do cessar-fogo, Trump recebeu estas condições iranianas de ânimo leve, se calhar nem as leu.


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Como seria de esperar, o cessar-fogo na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão não passa de uma miragem. Apesar do ruído provocado por supostas cedências do Irão aos inimigos agressores e por enxurradas de declarações e as suas contrárias produzidas pelo transtornado Donald Trump, desmontar esta confusão levantada para consumo mediático é, afinal, muito simples. Washington está a tentar recompôr-se do fracasso de todos os objectivos políticos e militares da guerra, de modo a poder voltar a atacar; ou então busca uma saída airosa que, em termos de propaganda, possa transformar a derrota em vitória. Como, por exemplo, as tropas imperiais atlantistas fizeram no Afeganistão.

A mais recente decisão do presidente norte-americano (a prorrogação unilateral do cessar-fogo) não introduz qualquer alteração no status quo. É, afinal, uma declaração de derrota, disfarçada através de um gesto de suposta boa vontade que traz a contradição dentro dele. Para haver um autêntico cessar-fogo é necessário que os Estados Unidos abandonem a estratégia de bloqueio contra os portos iranianos, que o Irão considera um acto de guerra e desrespeita a cessação de hostilidades declarada há cerca de 20 dias. Mais uma canhestra jogada de propagada à medida da imbecilidade do seu autor, uma vez que a intenção de manter as tentativas de bloqueio persiste. Não deixemos, porém, de interpretar o gesto unilateral como uma manifestação norte-americana de pouca vontade para combater, como quem busca uma maneira de declarar vitória no meio do imbróglio a que aderiu por pressão sionista.

Por muitas estratégias vencedoras que o presidente dos Estados Unidos deseje exibir-nos, desmultiplicando-se em mentiras e contradições, no fim tudo se resume a uma única linha de conduta: Trump dança a música que Netanyahu toca.

No que diz respeito a esta nova fase da guerra contra o Irão isso acontece, pelo menos, desde a primeira quinzena de Fevereiro último. No dia 11 desse mês, o chefe do regime sionista fez uma extensa apresentação na Sala da Situação na Casa Branca – onde raramente têm assento estadistas estrangeiros – perante Trump e um núcleo restrito dos seus assessores.

Os pressupostos para uma bem-sucedida agressão contra o Irão apresentados por Benjamin Netanyahu, com toda a convicção, partiram dos princípios de que Teerão estaria maduro para uma mudança de regime; a vitória numa acção militar seria quase certa; o programa iraniano de mísseis balísticos poderia ser destruído em poucas semanas; o poder “dos ayatollahs” estaria tão enfraquecido que seria incapaz de bloquear o Estreito de Ormuz; o aparelho militar iraniano não tinha capacidade para atacar os aliados dos Estados Unidos e de Israel no Golfo. Além disso, apoiado em pareceres seguros do Mossad, o chefe sionista garantiu que, logo aos primeiros bombardeamentos, as populações agredidas iriam sublevar-se contra o regime, promovendo tumultos e rebeliões; e que os curdos do Iraque não hesitariam em invadir território iraniano, dispensando os militares norte-americanos de «pôr os pés em terra», e assim acelerariam a queda do regime. 

Netanyahu apresentou também uma lista dos dirigentes seculares que poderiam encabeçar um novo regime iraniano, nomeadamente Reza Palhevi, o herdeiro do antigo Xá, residente nos Estados Unidos, que assim iria repôr a monarquia fiel a Washington.

«Parece óptimo», declarou Trump aos presentes quando Netanyahu acabou a exposição. Pelo menos é o que revela o relato da reunião publicado pelo New York Times.

Nem todos os assessores emitiram pareceres tão optimistas. Por exemplo, o general Dan Caine, chefe das Forças Armadas, expressou reservas em relação ao plano mas declarou, desde logo, que se submeteria à vontade presencial. «Os israelitas precisam de nós, por isso sabem ser muito persuasivos», atreveu-se a dizer o general, mas o presidente estava surdo aos pareceres dos assessores. O vice-presidente Vance, que viajava pelo estrangeiro, expressou depois uma posição idêntica, como quem adverte «não digam que não vos avisei», mas também não foi escutado.

De acordo com dados publicados pela mais destacada comunicação social norte-americana, ainda não confirmados por via oficial, as reservas do general Caine acabaram por ser parcialmente úteis em fase posterior, ao dissuadirem o presidente de usar uma bomba nuclear contra o Irão. A par do principal chefe militar, todos os outros assessores presidenciais directos, com excepção do psicopata Peter Hegseth, ministro da Guerra, manifestaram idêntica opinião em relação à intenção presidencial, qualificando-a como uma tragédia suicida sem retorno e, potencialmente, de âmbito global. Trump não premiu o botão mas nada nos garante, na convulsão dos seus distúrbios mentais, que a ideia tenha sido posta de lado.

No dia seguinte ao da reunião na Sala da Situação, em 12 de Fevereiro, oficiais norte-americanos de inteligência “especialistas em Irão” apresentaram a Trump um relatório simples, na esperança de que este compreendesse o essencial. O documento dividia-se em quatro cenários de análise quanto aos possíveis resultados de uma eventual operação militar baseada nos pressupostos de Netanyahu: “Decapitação” do regime com o assassínio do chefe religioso Ali Khamenei; a fraqueza do Irão para conseguir atacar países árabes do Golfo; as eventuais revoltas populares contra o aparelho de poder que explodiriam logo aos primeiros bombardeamentos; e a mudança de regime para um outro de características seculares.

De acordo com a opinião dos analistas, os dois primeiros pontos eram exequíveis; os dois últimos, incluindo o papel dos curdos numa invasão terrestre, significavam que o chefe sionista “estava desligado da realidade”. 

Não se sabe se Trump passou os olhos pelo relatório dos peritos de inteligência, mas a sua decisão, alinhada com a vontade de Netanyahu, estava tomada desde a véspera.

Ao cabo de 40 dias de ataques cerrados e destrutivos dos Estados Unidos e Israel contra o território e o povo iranianos, privilegiando infraestruturas e comunidades de civis, e das respectivas respostas de Teerão, que provocaram sérias devastações de estruturas em nove países árabes do Golfo e em Israel, verifica-se que Trump e Netanyahu não atingiram nenhum dos objectivos delineados na reunião de 11 de Fevereiro.

De facto, os bombardeamentos não geraram tumultos e levantamentos, mas sim impressionantes manifestações de apoio à República Islâmica; o programa de mísseis balísticos continua activo e não tem poupado alvos estratégicos dos agressores; a vitória militar das forças imperial-sionistas continua distante; e as forças militares do regime de Teerão, afinal, tinham capacidade para bloquear o Estreito de Ormuz e atingir, provocando danos enormes, tanto os países árabes do Golfo como Israel.

Houve apenas a tal excepção que confirma a regra: o ayatollah Khamenei foi assassinado, mas a sua substituição pelo filho mais velho ocorreu logo de seguida, o que reforçou a solidez do regime, embora Trump queira fazer crer o contrário.

Dezenas de milhares de pessoas morreram nesta guerra, sobretudo iranianos, até à declaração de um cessar-fogo pelo qual os Estados Unidos afinal já ansiavam, porque a brutalidade criminosa dos ataques não conseguiu vergar o Irão. Pelo contrário, as bases militares norte-americanas e respectivos radares de milhares de milhões de dólares, instaladas nos países do Golfo, ficaram impraticáveis devido às saraivadas de mísseis balísticos e aos enxames de drones lançados pelo Irão. Por causa disso, a vida nos países do Golfo degradou-se a níveis que forçaram os mais poderosos a fugir nos seus jactos privados. Quanto a arsenais e munições disponíveis, consta que o Irão está em melhores condições de prosseguir uma guerra de desgaste, se a isso for obrigado; enquanto as carências e as limitações de armamento dos Estados Unidos, depois de anos de franca generosidade com a Ucrânia, Israel e países da NATO “ameaçados”, estão a refrear o voluntarismo militarista imperial-sionista. Uma realidade que se percebe pela declaração unilateral de prorrogação do cessar-fogo por tempo indeterminado

Uma declaração de vitória

Um dos mais significativos exemplos do fracasso dos pressupostos em que se baseou a agressão ilegal contra o Irão foi o que dava como certa a incapacidade de Teerão para bloquear o Estreito de Ormuz. O Irão não apenas concretizou o bloqueio, como o interrompeu num gesto de boa vontade para dar força ao processo negocial lançado no Paquistão; mas logo o restabeleceu, sem demora, na sequência de sucessivos delírios de Trump, principalmente quando garantiu que a República Islâmica cedera nas suas exigências para fazer a vontade aos Estados Unidos, a Israel e “à paz”.

Teerão definiu as condições para o movimento de navios, em especial petroleiros, através do Estreito de Ormuz: a passagem será exclusiva para navios comerciais – nunca de guerra – e desde que não tenham ligação «a países hostis»; a rota será estabelecida pelo Irão e a deslocação terá de processar-se sob a coordenação de forças iranianas.

Além disso, as autoridades de Teerão recusaram-se a participar numa segunda ronda de negociações no Paquistão porque os Estados Unidos mantêm a obsessão de bloquear portos iranianos, acto que o Irão considera uma violação do cessar-fogo.

Oásis artificiais sem viço

Trump envolveu-se no cessar-fogo, como um náufrago que se agarra a destroços de um navio, porque os objectivos da guerra estão a fracassar, um após o outro, devido ao facto de a capacidade de resistência e de resposta iraniana superar, em muito, as elucubrações do sionismo. A paragem temporária da agressão foi também do interesse de Israel, e não apenas por estar a sofrer as consequências – as mais graves de sempre – dos seus actos terroristas, o que evidencia, finalmente, que a impunidade tem limites.

A suspensão do envolvimento na frente iraniana permitiu a Israel investir com maiores capacidades na guerra permanente contra o Líbano. Segundo o Irão, e também os mediadores paquistaneses, o cessar-fogo era extensivo ao território libanês, mas o sionismo comportou-se como sempre e ignorou toda e qualquer decisão que tenha a ver com o pequeno país, reclamado pelos chefes do “povo eleito” como parte do ambicionado Grande Israel.

O Hezbollah, porém, continua a não estar de acordo com os anseios dos terroristas que governam Israel e responde-lhes à letra, contando com a solidariedade iraniana. O que acontece com bastante eficácia, e nem poupa, sequer, a cidade de Telavive, apesar de o governo colaboracionista de Beirute insistir na exigência de desarmar o grupo islâmico – por sinal o único que defende o país, porque ao exército regular libanês falta, desde sempre, coragem, patriotismo e vontade para se opôr aos agressores.

Outro factor determinante que forçou Trump a aceitar o cessar-fogo com ambas as mãos foi a pressão exercida pelos aliados do Golfo, que estão a contas com uma factura tão pesada que pode transformar-se em existencial.

Catar, Emirados Árabes Unidos – sobretudo o Dubai – Bahrein, Koweit, a própria Arábia Saudita tornaram-se alvos legítimos do Irão por albergarem bases militares norte-americanas usadas como áreas de agressão. E uma vez que os próprios países do Golfo se tornaram participantes directos na guerra, Teerão trata-os da mesma maneira que aos Estados Unidos e Israel. Por consequência, grandes áreas de produção e refinação de petróleo e gás natural desses territórios, sobretudo do Catar, sofreram danos que reduzem quase a zero as capacidades de exportação de tais produtos estratégicos, sendo que o remanescente não pode passar pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. 

Ora os paraísos artificiais do Golfo, ditaduras que alimentam as suas megalomanias com as exportações de combustíveis fósseis, necessitam de importar quase tudo o que lhes permita fazer funcionar o dia-a-dia e sustentar a insultuosa ostentação, que afinal tem alicerces de areias movediças. Agora, ao cabo de mês e meio de guerra, as ditaduras “nossas aliadas” da Península Arábica deixaram de exportar petróleo e gás e as imensas receitas da afluência de turismo endinheirado caíram para zero. Esses países não conseguem importar alimentos e outros bens essenciais de consumo; além disso, os bombardeamentos iranianos poderão deixá-los sem energia e água potável, produzida em sistemas de dessalinização que se tornaram alvos das operações iranianas.

Em pouco tempo, no caso de a guerra continuar, esses oásis artificiais que jorravam dinheiro e combustíveis para quase todo o mundo transformar-se-ão no inferno dos desertos que sempre foram – sem ar condicionado, água e alimentos quando o tórrido Verão se aproxima. O êxodo das classes possidentes e das próprias famílias reais em jactos privados testemunha o pânico que já começou a atingir esses territórios. Cheiks, emires, reis e os parasitas que deles se alimentam podem agradecer a situação aos amigos e aliados Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Aí está o efeito de boomerang

O Irão fez acompanhar o processo de cessar-fogo e o início das efémeras “negociações de paz” no Paquistão por um conjunto de dez exigências cuja aceitação é considerada essencial para que possa chegar-se a um acordo entre agredido e agressores.

Entre esses pontos estão a eliminação de todas as sanções económicas primárias e secundárias; o compromisso norte-americano e israelita de que não voltarão a atacar o Irão; o direito de Teerão a manter o programa de enriquecimento de urânio para fins civis; a aceitação do controlo da navegação no Estreito de Ormuz pelo Irão e Omã; a revogação de todas as resoluções e decisões do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atómica contra o Irão; a libertação de todos os activos iranianos congelados nos bancos ocidentais; e a proibição  de ataques dos Estados Unidos, de Israel e outros países do Médio Oriente contra os aliados do Irão.

Ansioso por declarar vitória numa guerra que se apressou a dar como concluída com a entrada em vigor do cessar-fogo, Trump recebeu estas condições iranianas de ânimo leve, se calhar nem as leu. Só assim se percebe a inicial disponibilidade do presidente dos Estados Unidos para aceitar os termos iranianos.

O conteúdo do documento iraniano, ponto por ponto, é a posição de um vencedor; ou, pelo menos, representa a confiança e a capacidade de quem continua pronto a responder a novas ofensivas que os Estados Unidos e Israel realizem. 

Num gesto de boa vontade a seguir à primeira reunião de negociações em Islamabad, o Irão decidiu desbloquear o Estreito de Ormuz, desde que os Estados Unidos levantassem o assédio aos movimentos de navios de e para os portos iranianos.

Como era de esperar, o caldo entornou-se de imediato e o Irão decidiu não comparecer à segunda reunião de negociações. Os Estados Unidos não só não levantaram as ameaças contra os portos iranianos como regressaram às atitudes de mentira e hostilidade em relação a todas as posições de Teerão.

Afinal, declarou Trump, era o Irão que aceitava as condições de “paz” norte-americanas. «O Irão concordou com tudo e trabalhará com os Estados Unidos para remover todo o seu urânio enriquecido», declarou Trump. Esse processo decorrerá sem utilização de tropas terrestres, segundo o presidente norte-americano. «Iremos descer e tomar conta do urânio enriquecido, com a ajuda da parte iraniana, e trazê-lo para os Estados Unidos», acrescentou Trump. «Óptimo, não é? Até lá teremos um acordo, e não haverá necessidade de combater quando existe um acordo. Assim é melhor; podíamos fazê-lo de outra maneira se fosse preciso», ameaçou.

O Irão, seguindo a ordem natural das coisas, voltou a fechar o Estreito de Ormuz; e o Ocidente que se prepare para as nefastas consequências: uma imensa e profunda crise económica e social gerada pela irresponsabilidade e o expansionismo imperial-sionista de Trump e Netanyahu.

O bloqueio do Estreito de Ormuz e os graves danos já provocados pela guerra nos maiores centros industriais de gás natural do Golfo, sobretudo no Catar e em numerosas instalações petrolíferas, tornarão cada vez mais difícil o abastecimento do Ocidente. As perturbações na indústria do gás natural liquefeito prejudicam também o aproveitamento de subprodutos como o hélio, a ureia e amónia. O primeiro é fundamental em áreas tecnológicas de ponta, como a produção de semicondutores utilizados em todos os artefactos electrónicos de maior consumo, incluindo os mais essenciais meios de diagnóstico na saúde. Ureia e amónia são indispensáveis para a produção de fertilizantes: a carência destes produtos terá efeitos trágicos nas necessidades e nos preços dos alimentos em vastas regiões do planeta.

Os Estados Unidos e Israel estão a perceber que o Irão não é o Iraque, a Líbia, o Afeganistão, ou mesmo a Síria de Assad. O Irão, por sinal o único país do mundo que está activamente solidário com o povo palestiniano – tem os seus trunfos e já demonstrou que poderá jogá-los e atingir os pontos fracos dos agressores. E também de outros países que, por cobardia ou cumplicidade, não tentam travá-los com os meios que o Direito Internacional – que ainda existe, sabiam? – coloca ao seu dispôr, assim eles o queiram.

Enquanto isso, as rotas de navegação estão bloqueadas entre os Estreitos de Bab el Mandeb – sob vigilância dos iemenitas aliados de Teerão – e de Ormuz, isolando o Golfo do Mar Vermelho e respectivo acesso ao Canal de Suez. Os navios comerciais seguem longas e dispendiosas rotas contornando África, até porque os prémios dos seguros por riscos de guerra subiram em flecha, para níveis incomportáveis.

Tudo isso se reflectirá nos nossos bolsos, agravando a miséria social, moral e económica do Ocidente, entregue a dirigentes medíocres, cobardes, sem humanismo, dignidade e coluna vertebral; uma casta apodrecida propícia a que dela emerjam aberrações intrinsecamente malévolas e sem limites como Donald Trump e Benjamin Netanyahu.