Netanyahu é um fantoche de Trump?

(Por E&R, in La Cause du peuple, 09/04/2026, Trad. Estátua)


Os israelitas estão furiosos: não foram consultados por Trump e pela sua equipa (pode-se presumir que o traidor Kushner os avisou) sobre a trégua de duas semanas negociada entre os iranianos e os americanos, através dos paquistaneses.


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Netanyahu quer destruir tudo; quer mesmo arrastar o Irão de volta à Idade da Pedra, enquanto Trump quer controlar o petróleo vendido aos chineses. O primeiro é um assassino, o segundo é um capitalista. Por vezes os seus caminhos cruzam-se, outras vezes separam-se. Netanyahu e o seu gangue de genocidas tentarão, portanto, tudo para sabotar uma paz que, é certo, é frágil. Daí os bombardeamentos maciços no Sul do Líbano sob o pretexto de visar combatentes do Hezbollah, que Israel nos vinha dizendo há dois anos que tinham sido erradicados. Mentira sobre a mentira…

O Hezbollah ainda existe obviamente; teve tempo para se esconder — como os iranianos com os seus mísseis balísticos e instalações nucleares — porque ninguém confia na entidade sionista, que não é mais do que mentiras sobre mentiras e massacres sobre massacres. E depois surpreendemo-nos que as coisas acabem mal para os pobres judeus que, na realidade, são os escudos humanos da sua oligarquia! Isto já aconteceu várias vezes na história, e os judeus polacos dos shtetls na URSS e na Polónia, entre 1939 e 1945, podem atestá-lo: foram claramente sacrificados no altar da criação do Estado de Israel em 1947.

Hoje, os judeus, que se dizem perseguidos em todo o lado, encontraram finalmente um refúgio, mas curiosamente, perseguem todos os seus vizinhos, assassinam-nos, queimam-nos vivos e continuam a organizar ataques falsamente antissemitas em todo o mundo para manter a narrativa de vitimização.

Mas tal já não engana mais ninguém; estamos a chegar ao fim de uma era. Até o NYT, uma publicação assumidamente israelo-americana (a versão esquerdista do complexo militar-industrial dos EUA), não consegue deixar de afirmar que Trump foi enganado pelos israelitas. A fonte francesa é Christophe Ginisty, autor de um livro sobre Trump, apresentado como um fantoche do Estado profundo, cuja parte visível é a equipa de conselheiros do presidente, aqueles que preparam os seus famosos relatórios.

“O New York Times acaba de publicar o relato mais condenatório sobre Trump desde o início da guerra. E é uma bomba. Jonathan Swan e Maggie Haberman, dois jornalistas da Casa Branca, revelam como Trump tomou a decisão de entrar em guerra contra o Irão. O que descrevem é exatamente o que analiso em *O Fantoche da Casa Branca*. Aqui estão os factos.

Netanyahu vendeu um sonho. A 11 de Fevereiro, na Sala de Situação, o Primeiro-Ministro israelita apresentou um cenário em quatro actos: matar o Líder Supremo, destruir o exército iraniano, desencadear uma revolução popular e instalar um novo regime. Chegou a mostrar uma montagem de vídeo com os “futuros líderes” do Irão. Trump respondeu: “Parece-me bem”. Numa única frase, selou o destino da região.

No dia seguinte, a CIA disse que tudo não passava de conversa de circunstância. As partes 3 e 4 do discurso de Netanyahu — a revolução popular e a mudança de regime — foram descartadas como uma “farsa” pelo próprio Ratcliffe. Rubio traduziu: “Por outras palavras, é tudo balela.” O general Caine acrescentou: “Este é o procedimento padrão de Israel. Exageram na propaganda e os seus planos nem sempre são bem elaborados”. Trump ouviu. E mesmo assim disse que sim.

Vance viu tudo. O vice-presidente foi o único na sala a opor-se abertamente, alertando que a guerra poderia “destruir a coligação política de Trump”, que o estreito de Ormuz era o verdadeiro ponto vulnerável e que ninguém poderia prever uma retaliação iraniana quando a sobrevivência de um regime estivesse em causa. Ele disse: “Sabes, acho que isso é uma má ideia.” Mas se quiser fazer isso, eu apoiá-lo-ei.” Isto não é coragem política. Isto é deferência.

Susie Wiles observava. A chefe de gabinete, que tinha as suas preocupações, sentiu que “não era da sua conta” comentar uma decisão militar perante outras pessoas. Ela “incentivou os assessores a partilharem as suas opiniões”. Ela permaneceu em silêncio. O General Caine nunca disse que não. Expôs os riscos: stocks de munições cada vez mais reduzidos, o Estreito de Ormuz e a ausência de um caminho claro para a vitória. Depois disse: “Se vocês ordenarem a operação, os militares irão executá-la.”

Trump, por sua vez, “só ouviu o que queria ouvir.” E Trump assinou a bordo do Air Force One, 22 minutos antes do prazo estabelecido pelo seu próprio general: “Operação Fúria Épica está aprovada. Sem abortos.”Boa sorte.” É assim que se vai para a guerra no século XXI. Não com uma deliberação solene. Não com uma votação no Congresso. Não com uma estratégia de saída. Com uma apresentação de diapositivos de Netanyahu, um “parece-me bem” e um bilhete enviado de um avião.

Em “O Fantoche da Casa Branca”, escrevo que os verdadeiros decisores são aqueles que preparam as apresentações a que Trump assiste. Netanyahu compreendeu isso melhor do que ninguém. Encenou um espetáculo visual de uma hora na Sala de Situação, com o Mossad como pano de fundo, vídeos de “futuros líderes” e a promessa de uma vitória rápida e decisiva. E Trump disse que sim. Enquanto Vance, Rubio, Wiles e Caine assistiam.”

Isto levanta uma nova questão, uma vez que Trump, sempre a raposa astuta, não podia desconhecer que o plano israelita de mudar o regime em 72 horas (e porque não em 10 minutos com a ameaça de um ataque nuclear?) era instável. O facto de o NYT ter revelado o processo pode fazer parte de um plano maior para culpar os israelitas pelo fracasso da operação, uma fuga de informação orquestrada por este presidente que não se importa de parecer tolo. Daí a imagem do coelho gigante na varanda, que o ridicularizou — deliberadamente! — em todo o mundo. Há sempre um vício maior, precisamente quando se pensa que o desvendou.

O verdadeiro resultado desta guerra?

Um Irão enfraquecido, forçado a arrastar-se até à mesa das negociações em Islamabad, mas com uma carta na manga: o Estreito de Ormuz e o bloqueio de um quarto do tráfego mundial de petróleo. Os estados do Golfo, esgotados e abandonados pelos Estados Unidos; e um Israel a lamber as suas feridas, escondendo-as. Aí, insistem em apenas 3 mortos e 5 feridos na Guerra dos Quarenta Dias. Na realidade, o país sofreu terrivelmente. A Jeune Nation enviou-nos um artigo da Al-Manar que resume o balanço oficial desta segunda guerra Irão-Israel: o custo económico desta farsa de país, por si só, é exorbitante.

Economicamente, o Yediot Aharonot estimou o custo da guerra em aproximadamente 65 mil milhões de shekels [18 mil milhões de euros, nota do editor], um valor preliminar que não inclui todas as perdas económicas indirectas, como a queda do crescimento ou o declínio do investimento. Este custo divide-se em mais de 50 mil milhões de shekels em custos militares diretos e aproximadamente 10 mil milhões de shekels em custos civis diretos, além de mais milhares de milhões em perdas indiretas não contabilizadas em crescimento, investimento e produção. […]

Em relação aos danos materiais, o quadro alarga-se com novos dados revelados pelo jornal Ma’ariv, que noticiou a destruição ou degradação de mais de 5.000 edifícios em Israel desde 28 de Fevereiro, reflectindo a extensão da destruição que afeta as infraestruturas e as zonas residenciais. Para ilustrar a dimensão desta destruição, o Yediot Aharonot referiu que o Irão lançou aproximadamente 670 mísseis e 765 drones contra Israel desde o início da guerra.

Conclusão: Graças a Trump, ou por causa dele, o Israel de Netanyahu está a tornar-se cada vez mais inviável e inabitável. Este não é o momento para promover a Aliá, e, no entanto, os judeus franceses continuam, sob a pressão amigável do seu rabino, a imigrar para Israel, como se costuma dizer, para escapar ao antissemitismo que acreditam ser galopante em França, particularmente o da França Insubmissa (LFI). Pessoalmente, se tivéssemos de escolher entre Rima Hassan e um míssil Shahab, não hesitaríamos durante três horas: escolheríamos Rima.

Fonte aqui

A guerra que já estava perdida antes de começar

(Luís Rocha, in Facebook, 18/03/2026, Revisão da Estátua)

This is what the “America first” looks like 🙂

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Há guerras que começam com mísseis, outras com discursos patrióticos ou nacionalistas, e depois há aquelas que começam com um homem a olhar para o espelho e a ver um génio estratégico onde, na realidade, está apenas um vendedor de carros usados com acesso a um botão perigosamente nuclear. Esta pertence, sem margem para dúvida, à última categoria.

Durante anos, andaram a provocar o Irão como quem atira amendoins a um tigre enjaulado, convencidos de que a jaula era eterna, inquebrável e, sobretudo, americana. Sanções aqui, assassinatos ali, ameaças embrulhadas em conferências de imprensa com bandeirinhas atrás. Tudo muito civilizado, muito democrático, muito “ordem internacional baseada em regras”, regras essas que curiosamente mudam sempre que Washington muda de humor. Ou de parvo na Casa Branca.

E depois há o outro artista desta opereta. Benjamin Netanyahu, ou, para os amigos, Bibi, o homem que olha para o Médio Oriente e vê um tabuleiro de Risco onde todas as peças lhe pertencem por direito divino, histórico, bíblico e, já agora, também imobiliário. A sua visão é tão simples, que é quase básica. Expandir, esmagar, controlar, e chamar a isso segurança.

Uma espécie de colonização com drones, muito moderna, muito higiénica, muito televisionável.

E como qualquer bom espectáculo de variedades precisa de um ajudante, entra em cena Donald Trump, o equivalente geopolítico de um caniche obediente com acesso a um arsenal industrial militar. Um tipo que confunde diplomacia com chantagem de casino mafioso e estratégia com birra de reunião de condomínio.

E a relação entre ambos verifica-se apaixonante. Bibi aponta, Trump ladra. Bibi pressiona, Trump assina. Bibi acena com a ameaça iraniana, e Trump, de coleira bem ajustada, decide que a melhor forma de mostrar força é fazer exactamente o que lhe pedem. Uma demonstração impressionante de soberania de bordel. Alugada.

E assim se constrói uma guerra idiota.

Mas o mais fascinante, verdadeiramente fascinante, é a surpresa. Aquela expressão quase infantil de espanto quando o Irão responde. Como se fosse impensável que um país com décadas de resistência, com uma estrutura militar assimétrica sofisticada e com uma paciência quase civilizacional decidisse, finalmente, devolver o golpe.

“Mas como?!” perguntam eles.

Como? Talvez porque passaram anos a tratá-lo como um alvo e nunca como um actor de cultura milenar e com uma taxa de literacia de 94%. Mau regime, mas muita cultura e inteligência. Coisa pouca.

Entretanto, o Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa grande parte do sangue energético do planeta, transforma-se num aperto de garganta global. E aí, subitamente, a guerra deixa de ser um vídeo de propaganda e passa a ser um problema sério. Daqueles que fazem tremer bolsas, governos e certezas.

Mas há um detalhe ainda mais triste nesta tragédia. O império que se julgava omnisciente começa a revelar não fraqueza material, mas algo mais perigoso, uma espécie de alucinação patriótica.

Enquanto se entretém a bombardear desertos e a distribuir democracia com mísseis, os Estados Unidos MAGA vivem mergulhados numa narrativa quase mística onde continuam a ser o centro do mundo, o árbitro da história, o adulto na sala, mesmo quando ninguém lhes pediu para organizar a festa.

Uma nação ideológica convencida de que manda no mundo por decreto divino, enquanto o resto do planeta começa, discretamente, a ignorar as ordens.

Não por rebeldia ideológica, mas por simples e clara exaustão.

E aqui está o verdadeiro ponto que vai doer. Esta guerra não está a ser perdida no campo de batalha.

Está a ser perdida na incapacidade de compreender o adversário. Na arrogância de achar que superioridade tecnológica resolve tudo. Na ilusão de que poder militar substitui inteligência estratégica.

Donald Trump, no meio disto tudo, continua obviamente fiel a si próprio. Burro que nem uma maçaneta. A tomar decisões como quem escolhe ingredientes numa pizza, a reagir em vez de pensar, a confundir ruído com força. Um homem que transformou a política externa numa extensão do seu ego e que agora descobre, tarde demais, que o mundo real não assina acordos de guerras parvas.

Já o Bibi segue firme, consistente na sua visão colonizadora que avança, envolta na narrativa da segurança. Obstinado mas desaparecido das conferências de imprensa.

Fazendo prova de vida através de clipes gerados por IA.

Fazendo supor que possa realmente ter sido “escolhido” para estar junto do criador.

No fim, quando o pó assentar, se assentar tão cedo ou se alguma vez assentar, não será a vitória que ficará na memória.

Será a estupidez.

Aquela estupidez persistente, arrogante, quase artística, de acreditar que se pode incendiar uma região inteira e sair de lá com as mãos limpas e a reputação intacta.

E talvez, só talvez, alguém pergunte, com um ligeiro atraso histórico, se o verdadeiro problema seria realmente o Irão.

Ou se seria a convicção delirante de que o mundo inteiro existe para ser gerido por um homem superlativamente patético ao serviço de outro com inclinações genocidas e delírios de superioridade religiosa.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-24316661

https://www.reuters.com/world/middle-east

https://www.theguardian.com/world/iran

https://www.aljazeera.com/middle-east

https://www.cfr.org/backgrounder/what-strait-hormuz

https://www.brookings.edu/topic/middle-east

https://www.csis.org/regions/middle-east

A história do fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2024)

Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.


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Quando, em finais de Julho passado, Netanyahu discursou perante o Congresso dos Estados Unidos, o extermínio que decorria em Gaza e as negocia­ções para lhe pôr termo, de que os Estados Unidos eram um dos principais negociadores e Israel supostamente uma das partes interessadas, não lhe mereceram qualquer atenção especial. Aliás, logo uma semana depois o principal negociador do Hamas, Ismail Haniyeh, era assassinado por Israel em Teerão, onde assistia à cerimónia de posse do novo Presidente iraniano, num sinal claro do entendimento que o Governo israelita dava às chamadas negociações de paz. Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração, recebida com entusiásticos aplausos, de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.

Pouco depois de iniciada a guerra de extermínio em Gaza, Israel já anunciara também que a sua guerra era em quatro frentes: em Gaza, contra o Hamas, no Iémen, contra os tutsis, no Líbano, contra o Hezbollah, e, a seu tempo e inevitavelmente, contra o Irão. Com a ofensiva no Líbano, que numa semana provocou mais de um milhão de deslocados e decapitou a cúpula militar do Hamas, Israel conseguiu duas coisas: desviar as atenções do continuado morticínio em Gaza e provocar o Irão a reagir. Tudo estava previsto, ensaiado de há muito e planea­do com os Estados Unidos, que forneceram as bombas de uma tonelada e as bombas perfuradoras que destruíram o abrigo subterrâneo onde se escondia Nasrallah e agora se apressaram a dizer que não apenas defenderam e defenderão Israel dos simbólicos ataques aéreos iranianos, como também estão empenhados em ajudar Telavive numa “adequada resposta” ao ataque iraniano de terça-feira. Qual resposta? Provavelmente aquilo que Israel deseja há muito e que o ex-PM israelita Naftali Bennett defendeu na CNN americana: um ataque às instalações nucleares e petrolíferas do Irão. Porque, ao contrário de Gaza e dos palestinia­nos, ninguém chorará uma lágrima pelos iranianos ou os seus aliados, incluindo no mundo árabe sunita, a via está aberta para aquilo a que Bennett chamou “uma oportunidade única”. E se alguém, como Guterres, cumprindo o seu dever como secretário-geral da ONU, tenta ainda evitar a catástrofe, Bennett chama-lhe “cobarde” e o MNE israelita “amigo de terroristas”. Porque o terrorismo, já se sabe, está só do outro lado, mesmo que Israel leve a cabo operações de extermínio contra os seus inimigos “terroristas” em território de três países soberanos: Síria, Líbano e Irão. Coisa que não me consta que esteja ao abrigo de qualquer lei ou tratado internacional.

Dizia Netanyahu, dirigindo-se ao povo iraniano, que era preciso libertá-los de “uma minoria de fanáticos religiosos”. É inteiramente verdade. Mas aconselho-vos a verem a série da Netflix “Unorthodox” — se conseguirem, o que eu não consegui, aguentar muitos episódios sobre aquele mundo de fascismo religioso e machismo repulsivo que é o dos judeus ortodoxos. A diferença para os ayatollahs do Irão é que estes estão no poder pela força e aqueles por mandato popular. E se o regime dos aya­tollahs representa tudo o que nós repudiamos, já de Israel dizem-nos que temos de ser aliados porque partilhamos os mesmos valores. Deveras?

A história do fogo
Ilustração Hugo Pinto

2 “Sempre juntos”, como assegurou Marcelo, o Presidente e o PM lá andaram a percorrer algumas das áreas ardidas nos grandes incêndios de Setembro. Prometeram reconstruir habitações, indústrias e agricultura — a agricultura residual que existia. Vêm 500 milhões de Bruxelas para isso, a descontar no PRR, 100 milhões dos quais já adiantados pelo Governo. Os autarcas terão ficado mais tranquilos, as populações talvez mais esperançadas, embora todos saibamos que agora vão começar as burocracias, os impasses, as demoras e as batotas no acesso aos subsídios: vítimas verdadeiras vão desesperar pelo prometido, vítimas falsas vão aproveitar a oportunidade. Mas saúde-se, sem ironia, a rapidez e determinação com que o Governo quer reagir e louve-se, com espanto, a amplitude do saco sem fundo de dinheiro com que o Governo vai calando todas as reivindicações e passando a ideia de estar a resolver “os problemas das pessoas”. Haverá, pois, além do dinheiro para reconstruir o que ardeu, mais dinheiro para aviões, helicópteros, carros de combate, máquinas de arrasto, subsídios aos bombeiros. Infelizmente, não é o dinheiro que resolverá o problema. Nem a feroz perseguição aos incendiários, anunciada pelo primeiro-ministro.

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Na última edição do Expresso, há uma entrevista com Stephen Pyne, apresentado como especialista em história do fogo, onde ele, na esteira de vários outros ao longo dos anos, explica por que razão o interior norte e centro de Portugal arde ciclicamente. Há 34 anos, diz ele, que os governantes portugueses conhecem bem as razões, mas tudo o que fazem é gastar cada vez mais dinheiro na prevenção e no combate aos incêndios sem cuidar do essencial, que é a paisagem inflamável. “É natural”, diz ele, “que os governantes demonstrem que protegem pessoas, vidas e bens. E assim há cada vez mais esforço no combate aos incêndios em aviões, veículos e tripulações, mas não resolve o problema e irá falhar, pois a paisagem continua a crescer nas suas formas inflamáveis”. E isto sucede porque “as pessoas se foram embora, abandonaram o território e já não praticam o tipo de agricultura que havia”. Foi o preço que pagámos por vender a agricultura a Bruxelas nos idos de Cavaco Silva. Sem agricultura, sem pessoas, sem mundo rural, vieram os eucaliptos, solução mágica para preencher o vazio das terras abandonadas. “Os eucaliptos”, explica Pyne, “pio­raram a situação, ao serem plantados em grande escala. Em vez de ter um mosaico, com azulejos pequenos, que era o que tinha o sistema agrícola, e com outras florestas a fazerem parte desses azulejos, plantam-se estas grandes áreas de uma espécie que não pára de crescer. Esta foi a fórmula perfeita para o fogo se espalhar. Quando só temos monocultura, o fogo fica sem travão”. Há 30 anos, também, que eu escrevo o mesmo. Sem ser especialista no assunto, longe de possuir qualquer conhecimento técnico, basta-me ler o que escrevem os que sabem, ver no terreno o que é um eucaliptal, olhar a nossa paisagem ao longo da A1 e das estradas e auto-estradas do interior ou reparar nas reportagens televisivas naquilo que está sempre a arder em pano de fundo: eucaliptos e pinheiros-mansos. Sempre, sempre, repetidamente. Pergunto-me: haverá alguém que ainda não tenha percebido, algum autarca, algum governante? Quantos mais milhares de hectares terão de arder, quantas mais lágrimas de crocodilo terão de chorar, até que um assomo de coragem lhes assalte a consciência?

3 Com António Costa a primeiro-ministro e Siza Vieira a ministro da Economia, a Efacec foi nacionalizada em 2020, por se tratar de “uma empresa estratégica nacional, exportadora, viável e economicamente sustentável, apenas em situação de dificuldade provisória” — além da necessidade de preservação dos seus postos de trabalho. Os mesmos argumentos que eu me recordo de ter escutado ao então CEO da empresa, explicando na TVI que as tais dificuldades não passavam de apertos normais de tesouraria, a serem ultrapassados a curto prazo pela robusta carteira de encomendas da empresa e a longo prazo pelos compradores que já se perfilavam no horizonte. E com estes argumentos o Estado avançou para a nacionalização da posição de 71% detida por Isabel dos Santos, a outrora “Dona Disto Tudo”, caída em desgraça e em deserção física e financeira. Daí para a frente só o Estado, desacompanhado pelos demais accionistas privados, foi cobrindo as sucessivas “dificuldades provisórias”, até se atravessar com 484 milhões. Um quarto dos trabalhadores foram-se embora, com destaque para os principais quadros, e os tais iminentes compradores jamais apareceram, o que levou o Governo a vender a Efacec por 15 milhões e vagas esperanças de reaver algum dinheiro numa even­tual revenda. Mas entretanto comprometido com garantias que podem elevar a conta final até aos 564 milhões. Contas feitas, a manutenção de cada posto de trabalho na Efacec custou aos contribuintes para cima de um milhão de euros. Tudo um desastre, sem fundamento nem justificação, concluiu agora o Tribunal de Contas. Tudo tão previsível, digo eu. Só mesmo os comunistas é que ainda acreditam na bondade da gestão pública com dinheiro dos contribuintes a perder de vista.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia