A história do fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2024)

Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.


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Quando, em finais de Julho passado, Netanyahu discursou perante o Congresso dos Estados Unidos, o extermínio que decorria em Gaza e as negocia­ções para lhe pôr termo, de que os Estados Unidos eram um dos principais negociadores e Israel supostamente uma das partes interessadas, não lhe mereceram qualquer atenção especial. Aliás, logo uma semana depois o principal negociador do Hamas, Ismail Haniyeh, era assassinado por Israel em Teerão, onde assistia à cerimónia de posse do novo Presidente iraniano, num sinal claro do entendimento que o Governo israelita dava às chamadas negociações de paz. Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração, recebida com entusiásticos aplausos, de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.

Pouco depois de iniciada a guerra de extermínio em Gaza, Israel já anunciara também que a sua guerra era em quatro frentes: em Gaza, contra o Hamas, no Iémen, contra os tutsis, no Líbano, contra o Hezbollah, e, a seu tempo e inevitavelmente, contra o Irão. Com a ofensiva no Líbano, que numa semana provocou mais de um milhão de deslocados e decapitou a cúpula militar do Hamas, Israel conseguiu duas coisas: desviar as atenções do continuado morticínio em Gaza e provocar o Irão a reagir. Tudo estava previsto, ensaiado de há muito e planea­do com os Estados Unidos, que forneceram as bombas de uma tonelada e as bombas perfuradoras que destruíram o abrigo subterrâneo onde se escondia Nasrallah e agora se apressaram a dizer que não apenas defenderam e defenderão Israel dos simbólicos ataques aéreos iranianos, como também estão empenhados em ajudar Telavive numa “adequada resposta” ao ataque iraniano de terça-feira. Qual resposta? Provavelmente aquilo que Israel deseja há muito e que o ex-PM israelita Naftali Bennett defendeu na CNN americana: um ataque às instalações nucleares e petrolíferas do Irão. Porque, ao contrário de Gaza e dos palestinia­nos, ninguém chorará uma lágrima pelos iranianos ou os seus aliados, incluindo no mundo árabe sunita, a via está aberta para aquilo a que Bennett chamou “uma oportunidade única”. E se alguém, como Guterres, cumprindo o seu dever como secretário-geral da ONU, tenta ainda evitar a catástrofe, Bennett chama-lhe “cobarde” e o MNE israelita “amigo de terroristas”. Porque o terrorismo, já se sabe, está só do outro lado, mesmo que Israel leve a cabo operações de extermínio contra os seus inimigos “terroristas” em território de três países soberanos: Síria, Líbano e Irão. Coisa que não me consta que esteja ao abrigo de qualquer lei ou tratado internacional.

Dizia Netanyahu, dirigindo-se ao povo iraniano, que era preciso libertá-los de “uma minoria de fanáticos religiosos”. É inteiramente verdade. Mas aconselho-vos a verem a série da Netflix “Unorthodox” — se conseguirem, o que eu não consegui, aguentar muitos episódios sobre aquele mundo de fascismo religioso e machismo repulsivo que é o dos judeus ortodoxos. A diferença para os ayatollahs do Irão é que estes estão no poder pela força e aqueles por mandato popular. E se o regime dos aya­tollahs representa tudo o que nós repudiamos, já de Israel dizem-nos que temos de ser aliados porque partilhamos os mesmos valores. Deveras?

A história do fogo
Ilustração Hugo Pinto

2 “Sempre juntos”, como assegurou Marcelo, o Presidente e o PM lá andaram a percorrer algumas das áreas ardidas nos grandes incêndios de Setembro. Prometeram reconstruir habitações, indústrias e agricultura — a agricultura residual que existia. Vêm 500 milhões de Bruxelas para isso, a descontar no PRR, 100 milhões dos quais já adiantados pelo Governo. Os autarcas terão ficado mais tranquilos, as populações talvez mais esperançadas, embora todos saibamos que agora vão começar as burocracias, os impasses, as demoras e as batotas no acesso aos subsídios: vítimas verdadeiras vão desesperar pelo prometido, vítimas falsas vão aproveitar a oportunidade. Mas saúde-se, sem ironia, a rapidez e determinação com que o Governo quer reagir e louve-se, com espanto, a amplitude do saco sem fundo de dinheiro com que o Governo vai calando todas as reivindicações e passando a ideia de estar a resolver “os problemas das pessoas”. Haverá, pois, além do dinheiro para reconstruir o que ardeu, mais dinheiro para aviões, helicópteros, carros de combate, máquinas de arrasto, subsídios aos bombeiros. Infelizmente, não é o dinheiro que resolverá o problema. Nem a feroz perseguição aos incendiários, anunciada pelo primeiro-ministro.

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Na última edição do Expresso, há uma entrevista com Stephen Pyne, apresentado como especialista em história do fogo, onde ele, na esteira de vários outros ao longo dos anos, explica por que razão o interior norte e centro de Portugal arde ciclicamente. Há 34 anos, diz ele, que os governantes portugueses conhecem bem as razões, mas tudo o que fazem é gastar cada vez mais dinheiro na prevenção e no combate aos incêndios sem cuidar do essencial, que é a paisagem inflamável. “É natural”, diz ele, “que os governantes demonstrem que protegem pessoas, vidas e bens. E assim há cada vez mais esforço no combate aos incêndios em aviões, veículos e tripulações, mas não resolve o problema e irá falhar, pois a paisagem continua a crescer nas suas formas inflamáveis”. E isto sucede porque “as pessoas se foram embora, abandonaram o território e já não praticam o tipo de agricultura que havia”. Foi o preço que pagámos por vender a agricultura a Bruxelas nos idos de Cavaco Silva. Sem agricultura, sem pessoas, sem mundo rural, vieram os eucaliptos, solução mágica para preencher o vazio das terras abandonadas. “Os eucaliptos”, explica Pyne, “pio­raram a situação, ao serem plantados em grande escala. Em vez de ter um mosaico, com azulejos pequenos, que era o que tinha o sistema agrícola, e com outras florestas a fazerem parte desses azulejos, plantam-se estas grandes áreas de uma espécie que não pára de crescer. Esta foi a fórmula perfeita para o fogo se espalhar. Quando só temos monocultura, o fogo fica sem travão”. Há 30 anos, também, que eu escrevo o mesmo. Sem ser especialista no assunto, longe de possuir qualquer conhecimento técnico, basta-me ler o que escrevem os que sabem, ver no terreno o que é um eucaliptal, olhar a nossa paisagem ao longo da A1 e das estradas e auto-estradas do interior ou reparar nas reportagens televisivas naquilo que está sempre a arder em pano de fundo: eucaliptos e pinheiros-mansos. Sempre, sempre, repetidamente. Pergunto-me: haverá alguém que ainda não tenha percebido, algum autarca, algum governante? Quantos mais milhares de hectares terão de arder, quantas mais lágrimas de crocodilo terão de chorar, até que um assomo de coragem lhes assalte a consciência?

3 Com António Costa a primeiro-ministro e Siza Vieira a ministro da Economia, a Efacec foi nacionalizada em 2020, por se tratar de “uma empresa estratégica nacional, exportadora, viável e economicamente sustentável, apenas em situação de dificuldade provisória” — além da necessidade de preservação dos seus postos de trabalho. Os mesmos argumentos que eu me recordo de ter escutado ao então CEO da empresa, explicando na TVI que as tais dificuldades não passavam de apertos normais de tesouraria, a serem ultrapassados a curto prazo pela robusta carteira de encomendas da empresa e a longo prazo pelos compradores que já se perfilavam no horizonte. E com estes argumentos o Estado avançou para a nacionalização da posição de 71% detida por Isabel dos Santos, a outrora “Dona Disto Tudo”, caída em desgraça e em deserção física e financeira. Daí para a frente só o Estado, desacompanhado pelos demais accionistas privados, foi cobrindo as sucessivas “dificuldades provisórias”, até se atravessar com 484 milhões. Um quarto dos trabalhadores foram-se embora, com destaque para os principais quadros, e os tais iminentes compradores jamais apareceram, o que levou o Governo a vender a Efacec por 15 milhões e vagas esperanças de reaver algum dinheiro numa even­tual revenda. Mas entretanto comprometido com garantias que podem elevar a conta final até aos 564 milhões. Contas feitas, a manutenção de cada posto de trabalho na Efacec custou aos contribuintes para cima de um milhão de euros. Tudo um desastre, sem fundamento nem justificação, concluiu agora o Tribunal de Contas. Tudo tão previsível, digo eu. Só mesmo os comunistas é que ainda acreditam na bondade da gestão pública com dinheiro dos contribuintes a perder de vista.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia