Grupo de forcados com clitóris ou o novo empoderamento do Séc. XIX

(Luís Rocha, in Facebook, 14/08/2026, Revisão da Estátua)

Nasceu movimento de mulheres conservadoras com “valores bíblicos” (com mão do Chega)

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Há coisas que só Portugal consegue produzir com aquela mistura muito própria de solenidade, provincianismo e fé na superioridade moral de quem acabou de descobrir uma coisa qualquer que o resto do país já sabia. Agora temos as Mulheres Conservadoras Portugal, um movimento que promete levar a voz feminina para a política, aparentemente com a mesma estratégia com que certas avós levam uma travessa de bacalhau para um almoço de família. É comer e calar porque a velha é que manda.

O movimento ainda está embrionário, mas parece querer nascer com padrinhos internacionais. Em Sintra, juntaram-se deputadas do Chega, figuras conservadoras portuguesas e Priscila Costa, deputada brasileira do PL Mulher, numa espécie de cimeira ibérica em que faltou apenas alguém aparecer com uma bandeira e anunciar: – Minhas Senhoras, está oficialmente inaugurada a regressão ao século dezanove! (Ver aqui).

A ideia é simples e bonita. Tão bonita que quase parece inocente. Querem defender a família, a maternidade, o cristianismo, a vida desde a concepção e os valores tradicionais. Ou seja, querem emancipar a mulher explicando-lhe cuidadosamente quais são os valores que uma mulher emancipada deve ter.

É um conceito revolucionário. É como criar um movimento de defesa dos pássaros e começar a reunião explicando-lhes que voar é uma coisa muito bonita, mas que seria conveniente permanecerem dentro da gaiola, por razões de segurança, tradição e respeito pela família.

Ver um grupo de mulheres conservadoras com agenda evangélica é como ver um grupo de forcados com clitóris. Há uma extraordinária demonstração de coragem, mas também aquela sensação desconfortável de que alguém confundiu o espetáculo. E estão tão desfasadas como um javali num banquete de Estado.

A coisa torna-se ainda mais deliciosa quando se olha para a importação brasileira. Priscila Costa veio a Portugal em missão internacional, trazendo na bagagem a preocupação com aquilo a que chamou a “mentalidade abortista do povo europeu”. É uma frase extraordinária. Portugal, que passou séculos a exportar navegadores, bacalhau, emigrantes e futebolistas, descobriu finalmente o produto que faltava. Mulheres brasileiras a atravessarem o Atlântico para explicar aos europeus que estão demasiado avançados. É quase neocolonialismo, mas com eyeliner.

E depois há a “família tradicional”, essa entidade misteriosa que aparece sempre que alguém conservador precisa de uma coisa para proteger. Nunca ninguém explica exatamente qual é a família tradicional. Talvez seja aquela em que o homem manda, a mulher ajoelha, os filhos obedecem e o Espírito Santo faz a ata da reunião.

Mas há aqui uma ironia extraordinária. Estas mulheres querem ocupar a política para defender um modelo social que durante décadas explicou às mulheres que o seu principal talento era ocupar-se da casa, dos filhos, do marido e, se sobrasse tempo, da catequese. Agora dizem-lhes: Venham para a política! E elas vieram. Para dizer que a mulher deve regressar ao lugar de onde acabou de sair. É talvez a primeira máquina do tempo política movida a Instagram e TikTok.

O mais engraçado é que isto não é propriamente uma anomalia portuguesa. No Brasil, o movimento Mulheres Conservadoras já trabalha precisamente esta fórmula. Família natural, defesa da vida desde a concepção, valores cristãos, combate às agendas progressistas e participação política feminina.

A estratégia é brilhante. Primeiro convencem as mulheres de que são essenciais para a sociedade. Depois explicam-lhes que a sociedade precisa delas para defender precisamente aquilo que lhes restringiu a autonomia durante gerações. É a velha técnica de empoderamento da Santa Inquisição.

Não se trata, evidentemente, de dizer que todas as mulheres conservadoras são estúpidas, retrógradas ou incapazes de pensar. Isso seria injusto e intelectualmente preguiçoso. Há mulheres conservadoras perfeitamente inteligentes, coerentes e democraticamente respeitáveis.

O problema começa quando a inteligência é utilizada para vender como emancipação aquilo que, embrulhado de outra maneira, parece apenas uma versão moderna da velha tutela moral.

E é aqui que este movimento pode tornar-se politicamente interessante. Porque a direita percebeu finalmente que não pode continuar a falar para as mulheres como quem fala para uma bancada de homens num café de província depois do terceiro bagacinho. Precisa de mulheres. Mulheres jovens. Mulheres com redes sociais.

Mulheres que saibam falar de maternidade, família, beleza, carreira e política sem parecerem estar a ler um comunicado do Vaticano. É a nova direita com verniz de influencer.

E talvez seja esse o verdadeiro perigo. Não é o regresso do passado vestido de passado. Esse toda a gente o reconhece. O verdadeiro truque é fazer o passado aparecer de vestido novo, maquilhado, com telemóvel na mão e a dizer: – Calma. Isto não é conservadorismo. É empoderamento.

E nós, que já vimos tanta coisa, ficamos apenas a olhar e a pensar: – Como pode ter aparecido este javali no banquete de Estado…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://dnbrasil.dn.pt/…/em-portugal-deputada-piv-da…

https://www.opiniaoce.com.br/…/priscila-participa-de…

https://noticias.uol.com.br/…/pivo-de-crise-entre…

https://mulheresconservadoras.com

https://www1.folha.uol.com.br/…/conservadoras-fazem…

Patriots: A Europa procura os seus mísseis e o inverno não espera por ninguém

(B.Partisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 13/08/2026, Revisão da Estátua)


As máquinas de lavar roupa parecem ter ganho… 🙂


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Depois de prometer defender a Ucrânia até ao último míssil, a Europa está a descobrir que, de facto, atingiu o último míssil.

Bruxelas está agora a vasculhar os arsenais europeus com a graciosidade de um alcoólico que procura uma última garrafa atrás do sofá. Um Patriota aqui? Um PAC-3 esquecido aí? Dá uma boa vista de olhos atrás das caixas, Han, certamente sobrou uma.

Durante quatro anos, porém, o Ocidente vendeu-nos uma história maravilhosa: o arsenal democrático era imenso, a indústria ocidental era todo-poderosa e a Rússia estava condenada a fabricar os seus mísseis com máquinas de lavar.

Pequeno problema: as máquinas de lavar roupa parecem ter ganho.

O Politico descreve uma Europa que se debate com aquela disciplina particularmente humilhante conhecida como aritmética. A Alemanha está relutante em esgotar ainda mais as suas reservas, enquanto outros proprietários do Patriot começam a perceber que um sistema de defesa aérea sem mísseis tem aproximadamente o mesmo valor militar que um extintor de incêndio sem espuma.

E os números de Julho da Ucrânia não ajudam em nada: 29 mísseis balísticos russos afirmaram ter sido intercetados de um total de 195.

A este ritmo, o Patriot corre o risco de se tornar em breve mais um item decorativo do que um sistema de defesa aérea.

Mas Bruxelas tem, obviamente, uma solução: uma licença de produção! Maravilhoso. Entregámos os projetos a Kiev e, através da magia do mercado, surgem instantaneamente fábricas, máquinas-ferramentas, engenheiros, componentes, subcontratados, cadeias de abastecimento e milhares de trabalhadores qualificados.

Só que levará alguns anos. O inverno, esse sacana pró-russa, chegará daqui a uns meses.

Porque eis o pormenor de que os estrategas dos talk shows televisivos se esqueceram: não se produzem mísseis com milhares de milhões. Produz mísseis com uma indústria. Os biliões só permitem que compre aquilo que alguém é capaz de fabricar.

Nem os Estados Unidos têm um botão “+1.000 Patriotas”. Aumentar massivamente a produção leva anos. Entretanto, cada intercetor enviado para a Ucrânia é retirado de um arsenal destinado a outra pessoa.

Depois de explicar que a Rússia iria ficar sem mísseis, o Ocidente descobre agora, com uma certa ironia poética, que é o Ocidente que está a ficar sem intercetores.

Há quatro anos que a Europa confunde anúncios com capacidades, orçamentos com conchas e conferências com fábricas. Transformou o esforço de guerra industrial num exercício de comunicação institucional: uma conferência de imprensa de manhã, milhares de milhões à tarde e uma escassez à noite.

Foi-nos prometido o arsenal das democracias. O que estamos a ter agora é o mercado de velharias da NATO. E enquanto Bruxelas ainda procura no fundo do armário mais uns mísseis, o Inverno aproxima-se silenciosamente.

Pelo menos o inverno nunca prometeu ser solidário com a Ucrânia.

Fonte aqui

António, o Náufrago do Berlaymont

(Jorge Rocha, In Blog Ventos Semeados, 12/08/2026)


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Há ingratidões que se pagam devagar, e a de António Costa para com Pedro Nuno Santos foi dessas: o homem que segurara a Geringonça nos anos difíceis, quando segurá-la exigia mais nervo do que aplauso, viu-se, no Congresso seguinte, tratado não como herdeiro mas como ameaça, mal ousou dizer em voz alta o que todos já sabiam — que também ele queria, um dia, suceder. Não faltaram rasteiras discretas, do tipo que não deixa marca visível mas deixa carreira manca.

Mas Costa veio a desistir da política nacional com uma facilidade suspeita, ele que discutira orçamentos e maiorias com unhas e dentes durante oito anos. Bastou uma busca à residência oficial, uma conspiração nunca cabalmente explicada, com Lucília Gago e Marcelo nos papéis principais, para que largasse Lisboa sem drama excessivo, atraído pelos fulgores de Bruxelas como quem troca subitamente de amante por uma mais vistosa, sem se dar ao trabalho de disfarçar o entusiasmo.

Passados dois anos, a pergunta merece resposta honesta: valeu a pena? Porque o homem que geria maiorias absolutas em Lisboa geme agora consensos entre vinte e sete, o que é uma forma elegante de dizer que já não decide nada sozinho, apenas modera quem decide. É presidente do Conselho Europeu, título sonoro que soa a poder e significa, na prática, sentar à mesa e sorrir enquanto Macron e Merz discutem por cima da sua cabeça.

Prova disso foi o episódio do Kremlin: quis fazer o que a razão mandava, abrir um canal com Putin, preparar o terreno para uma paz que a guerra na Ucrânia precisa mais do que de heroísmo continuado — e foi imediatamente chamado à ordem, como aluno apanhado a passar um bilhete na aula, pelo bloco franco-alemão que prefere a guerra prolongada à negociação prematura. Chamaram-lhe “mal orientado”, compararam-no ao erro do antecessor, e Costa, que em Lisboa despachava ministros renitentes num telefonema, teve de explicar-se em cimeira como quem pede desculpa por bom senso fora de horas.

Fica o retrato irónico de um homem que trocou o poder de decidir pelo poder de presidir — dois verbos que parecem primos e são, na prática, opostos. Em Lisboa mandava e era criticado; em Bruxelas sugere e é repreendido.

Talvez seja este o destino reservado a quem confunde protagonismo com influência: descobrir, dois anos depois do desembarque europeu, que trocou uma pátria onde podia agir por um continente onde apenas lhe é permitido, com sorte, ser ouvido.

Fonte aqui