Descodificando a primeira guerra Epstein

(Raphael Machado in S.C.F. 13/03/2026)


As “coincidências” são tão abundantes que temos que nos questionar se essa guerra está sendo travada por motivos geopolíticos e econômicos, realmente, ou como cortina de fumaça para ajudar a abafar o maior escândalo sexual da história humana.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Eu certamente não fui o único a concluir, assim que foi divulgado o novo conjunto de documentos sobre o caso Epstein, que “agora sim, os EUA certamente vão atacar o Irã”. Mesmo que de forma meramente intuitiva, a conclusão era óbvia para todos que estavam prestando atenção, desde 2025, na possibilidade de que Israel estaria em posse de algum “podre” de Donald Trump – provavelmente vinculado à rede Epstein – e que isso seria utilizado como elemento de pressão para forçar Trump a intervir no Oriente Médio em prol de Israel.

Recapitulando, ao longo da primeira metade de 2025, Trump parecia razoavelmente frio e distante em relação a Israel, ocasionalmente, inclusive, fazendo declarações que contrariavam alguns consensos da elite sionista. Com isso não estamos querendo dizer que Trump havia se descolado em qualquer sentido significativo em relação ao lóbi sionista e Israel; apenas que ele parecia estar mais preocupado com os próprios interesses pessoais e políticos, os quais não estavam necessariamente alinhados com os interesses de Israel em relação à Palestina e o Irã.

Foi visível, porém, como de forma bastante repentina, após uma visita de Netanyahu, a agressividade da posição oficial de Washington em relação a Teerã deu um salto. Ainda que a liberação de documentos do caso Epstein em 2024 tenha deixado a reputação de Trump quase incólume, a suspeita de que Israel talvez tivesse posse de ferramentas de pressão sobre ele já era corrente. O giro de 180º na posição de Trump, com ele passando inclusive a bombardear o Irã nos últimos dias da Guerra dos 12 Dias, representou uma traição tão profunda das promessas eleitorais do projeto MAGA que só seria explicável através de chantagem.

Como dissemos, naturalmente, Trump possuía já vínculos profundos com o establishment sionista, começando por sua conexão familiar por casamento com Jared Kushner, além de inúmeros vínculos empresariais e políticos com elementos do neoconservadorismo, do Chabad, e assim por diante.

Ainda assim, a hesitação estava ali, mas ela foi repentinamente superada.

Mas Israel parece não ter ficado satisfeita com a intervenção dos EUA na Guerra dos 12 Dias. Hoje já se sabe que o ataque aéreo às instalações nucleares iranianas foi simbólico, houve aviso prévio, tal como a retaliação do Irã contra uma base dos EUA foi, também, simbólica e com aviso prévio. Os EUA fizeram um ataque performático, foram embora e declararam “missão cumprida”, visando manter-se longe de um óbvio embaraço geopolítico.

Mas para Israel, é claro, aquilo não havia sido o suficiente. O programa nuclear é apenas um pretexto, o objetivo fundamental sempre foi a estatalidade iraniana e o fato do Irã ser um obstáculo significativo para o projeto de estabelecimento de uma Grande Israel.

É assim que, alguns meses depois, subitamente nos deparamos com a possibilidade, graças aos novos documentos do caso Epstein, de que Trump possa ter tido um envolvimento bem maior com Epstein do que originalmente imaginado. Testemunhos escabrosos afirmam a possibilidade não só de Trump ter abusado de menores de idade, mas também de ter ordenado assassinatos.

Considerando que boa parte do trabalho de Epstein com esse agenciamento de mulheres e meninas para homens poderosos com o objetivo de coletar material comprometedor desses personagens, é impossível imaginar que haja fotos e vídeos comprometedores de Trump sendo utilizados como mecanismos de pressão?

O nome da operação iniciada em 28 de fevereiro piora ainda mais a situação: “Epic Fury”. Os mais atentos perceberão que as 2 primeiras letras do nome coincidem com as 2 primeiras letras do nome “Epstein”, e que agora quando alguém pesquisar em um buscador virtual o nome de “Trump” e começar a digitar essas 2 letras em seguida, será agora provavelmente contemplado por resultados focados na guerra com o Irã.

Não casualmente, nas redes sociais começou-se a popularizar o termo “Epstein Fury” para a operação dos EUA, bem como o próprio governo iraniano e suas mídias começaram a se referir à aliança EUA-Israel como “Coalizão Epstein”, à elite ocidental como “classe Epstein.

Para além disso, é curioso como civis iranianos, de forma espontânea, começaram a queimar estátuas de Baal e Moloch em praças públicas, referências explícitas à rejeição iraniana à dimensão profundamente satânica das elites pedófilas ocidentais, e isso foi recebido com acusações de antissemitismo, como se, de fato, Baal e Moloch, os devoradores de crianças, fossem os deuses de Israel.

De qualquer maneira, enquanto o conflito se desdobra e está todo mundo distraído, o Departamento de Justiça dos EUA ordenou que fossem deletados dezenas de milhares de documentos do caso Epstein, especialmente os que mencionam Trump…e a família Rothschild.

As “coincidências” são tão abundantes que temos que nos questionar se essa guerra está sendo travada por motivos geopolíticos e econômicos, realmente, ou como cortina de fumaça para ajudar a abafar o maior escândalo sexual da história humana.

Texto em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

Entre o cancro e a indiferença do Estado

(António Lacerda Sales, in Facebook, 14/03/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O Parlamento rejeitou esta sexta-feira projetos de lei de partidos da oposição que pretendiam garantir o pagamento do subsídio de doença a 100% para os doentes com cancro e reforçar os seus direitos laborais.

Quem recebe um diagnóstico de cancro já vê a vida abalada no corpo, na alma, na família e no trabalho. O que não pode ver abalado também é o rendimento com que paga a casa, a comida, os medicamentos e a dignidade.

Por isso, não compreendo e digo-o com frontalidade, o voto contra de PSD e CDS, nem a abstenção do PS, perante uma proposta que pretendia garantir a doentes oncológicos um subsídio de doença a 100%.

Estamos a falar de pessoas que enfrentam tratamentos agressivos, incerteza, medo, fadiga extrema e uma quebra profunda na sua capacidade de trabalhar. Não estamos a falar de uma questão lateral. Estamos a falar de humanidade, de decência e de sentido de Estado.

É precisamente nestes momentos que se vê a verdade de cada um sobre o Estado social. E o que se viu no Parlamento foi profundamente dececionante. Sobretudo em partidos que tantas vezes invocam a sensibilidade social e a defesa do Estado social, mas que, quando chega a hora da decisão concreta, falham no essencial.

Um Estado digno desse nome não pode pedir a um doente com cancro que trave ao mesmo tempo a batalha pela vida e a batalha pela sobrevivência económica.

Mais ainda, quando vivemos num tempo em que se anunciam, com aparente normalidade, milhares de milhões para a guerra, para o armamento e para a escalada militar. Se há margem para gastar 6000 milhões nesse contexto, como é possível dizer que não há margem para proteger plenamente quem enfrenta uma das fases mais duras da sua existência?

Isto não é apenas uma opção orçamental. É uma escolha moral. É uma escolha política. E é uma escolha civilizacional.

Eu sei de que lado estou. Estou do lado de quem, perante o sofrimento, não hesita. Do lado de quem entende que o cancro não pode significar, além de dor e medo, uma penalização salarial. Do lado de um Estado social que protege a sério, quando a vida mais vacila.

Porque há matérias em que não basta ter discurso. É preciso ter coragem. E hoje, infelizmente, faltou coragem a demasiados.

A guerra do Irão — da ilusão da libertação à ameaça de uma terceira Guerra Mundial

(Ricardo Graça, in Facebook, 15/03/2026, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há uma crença que circula com a convicção das verdades simples: os Estados Unidos foram ao Irão libertar o povo iraniano de um regime opressor. A intervenção era necessária. Era justa. Era inevitável.

Compreendo quem pensa assim. A narrativa é sedutora, foi construída com décadas de investimento mediático e diplomático, e apela ao que há de mais nobre no ser humano — o desejo de que os mais fortes protejam os mais fracos. O problema é que a história não confirma essa narrativa. Confirma o oposto.

O padrão que a história regista

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, disseram ao mundo que iam libertar o povo iraquiano e eliminar armas de destruição maciça que ameaçavam a humanidade. As armas nunca existiram — o próprio governo americano o admitiu posteriormente. O povo iraquiano ficou com um Estado destruído, uma guerra civil que durou anos, centenas de milhares de mortos civis e o surgimento do Estado Islâmico no vácuo de poder criado pela intervenção. A libertação custou mais vidas do que o regime que a justificou.

No Afeganistão, os Estados Unidos e a NATO estiveram vinte anos. Vinte anos de ocupação militar, de construção institucional, de formação de exércitos e de promessas de democracia. Em agosto de 2021, os últimos soldados partiram. Duas semanas depois, os Talibã estavam de volta a Cabul — exatamente onde estavam antes da invasão. Vinte anos. Triliões de dólares. Dezenas de milhares de mortos. O resultado foi zero — exceto para a indústria do armamento, que nunca trabalhou tanto.

Na Líbia, a NATO interveio em 2011 para proteger civis e derrubar Muammar Kadhafi. O regime caiu. O que ficou foi um Estado falhado, partido em facções armadas rivais, com dois governos paralelos, tráfico de seres humanos institucionalizado e uma guerra civil que dura até hoje. A Líbia de Kadhafi era um Estado autoritário. A Líbia pós-NATO é um caos sem Estado.

No Vietname, os Estados Unidos combateram durante duas décadas contra o comunismo e pela liberdade do povo vietnamita. Cinquenta e oito mil soldados americanos morreram. Mais de dois milhões de vietnamitas civis morreram. O napalm queimou aldeias inteiras. O Agente Laranja contaminou gerações. E o Vietname tornou-se comunista na mesma — porque a força militar nunca resolve o que é uma questão política e cultural.

A lista não fica por aqui. Granada, 1983. Panamá, 1989. Somália, 1993. Jugoslávia, 1999. Síria, 2011. Haiti, múltiplas vezes. Em cada caso, a narrativa foi a mesma: libertação, democracia, proteção de civis. Em cada caso, o resultado foi destruição, instabilidade e o surgimento de novos problemas mais graves do que os que a intervenção pretendia resolver.

Não é má sorte. É um padrão.

A ilusão da libertação — porque seduz e porque falha

Quem acredita genuinamente que os Estados Unidos foram ao Irão salvar o povo iraniano não está errado em querer que os iranianos sejam livres. Está errado quanto ao instrumento. A liberdade não se entrega com bombas. A democracia não se instala com ocupação militar.

A autodeterminação dos povos — que é um princípio fundamental do direito internacional, consagrado no artigo 1.º da Carta das Nações Unidas — significa exactamente isso: são os povos que determinam o seu destino, não as potências externas que decidem qual o destino que merecem.

O povo iraniano tem uma história de milénios, uma cultura extraordinariamente rica e uma capacidade demonstrada de resistência e transformação. Merece liberdade. Merece dignidade. Merece um Estado que o respeite.

O que não merece é ser o próximo capítulo de um manual de intervenção que produziu, em cada aplicação anterior, mais morte, mais caos e mais sofrimento do que aquele que pretendia eliminar.

A pergunta que quem apoia a intervenção deve responder não é “o regime iraniano é mau?” — é. A pergunta é: “existe alguma evidência histórica de que uma intervenção militar americana produziu liberdade duradoura e estável?” A história responde com uma consistência perturbadora: não.

O direito internacional que ninguém cita

A Carta das Nações Unidas, assinada em 1945 após a devastação de duas guerras mundiais, proíbe no seu artigo 2.º, n.º 4, o recurso à ameaça ou ao uso da força nas relações internacionais contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

As únicas exceções são duas: a legítima defesa individual ou coletiva prevista no artigo 51.º, e a autorização expressa do Conselho de Segurança das Nações Unidas ao abrigo do Capítulo VII. Nenhuma destas exceções se aplica a uma intervenção ofensiva unilateral contra o Irão.

O Tribunal Penal Internacional tem jurisdição sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade desde o Estatuto de Roma de 1998. Os ataques deliberados a populações civis, a destruição desproporcionada de infraestruturas e o uso de armas de efeito indiscriminado constituem crimes de guerra tipificados. A questão é que o TPI pune os fracos — líderes africanos, ditadores de países periféricos. As grandes potências com assento permanente no Conselho de Segurança operam numa impunidade estrutural que o próprio sistema internacional consagrou ao dar-lhes direito de veto.

É a maior hipocrisia do direito internacional: o sistema foi criado para prevenir guerras e julgou os criminosos de guerra de Nuremberga. Mas foi desenhado por quem ganhou a guerra — e garante que quem tem poder suficiente nunca será julgado pelo mesmo tribunal.

Portugal e a Constituição que ninguém lê

O artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa é um dos mais notáveis do constitucionalismo europeu. Estabelece que Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva.

Portugal preconiza constitucionalmente a dissolução dos blocos político-militares. É membro da NATO — o maior bloco político-militar do mundo. A tensão entre o texto constitucional e a prática política nunca foi resolvida. Nunca foi sequer debatida com seriedade.

O artigo 8.º da CRP estabelece que as normas de direito internacional geral ou comum fazem parte integrante do direito português. A proibição do uso da força consagrada na Carta da ONU, o direito internacional humanitário, os princípios de Nuremberga — tudo isto faz parte do ordenamento jurídico português. O que significa que qualquer participação ou apoio português a uma intervenção que viole estes princípios é inconstitucional e internacionalmente ilícita.

O silêncio do Estado português perante a guerra no Irão não é neutralidade. É cumplicidade por omissão — a mais confortável das cumplicidades.

O espectro da terceira guerra mundial

Quem lê história com atenção sabe que as grandes guerras não começam com uma declaração solene. Começam com um incidente, uma escalada, uma resposta que provoca outra resposta, até ao ponto em que o mecanismo de alianças e compromissos arrastar nações inteiras para um conflito que nenhuma delas quis individualmente.

Foi assim em 1914. O assassinato de um arquiduque em Sarajevo acionou um sistema de alianças que transformou um conflito regional numa guerra que matou vinte milhões de pessoas.

O cenário atual tem todos os ingredientes estruturais para uma escalada com consequências imprevisíveis. Uma potência ocidental em operação militar no Irão. A Rússia e a China com interesses estratégicos diretos na região e compromissos com actores regionais. Israel num estado de guerra permanente. O Hezbollah, o Hamas, as milícias iraquianas — todos com capacidade de amplificar o conflito. E uma arquitectura de alianças que, se acionada, envolve potências nucleares.

A diferença entre 1914 e hoje é que as armas nucleares existem. E que os Estados que as possuem não demonstraram, nas últimas décadas, a prudência necessária para inspirar confiança de que nunca as usarão.

Isto não é alarmismo. É análise geopolítica elementar.

Guerra — a falência de tudo o resto

Há uma definição de guerra que toda a gente conhece mas poucos citam na sua dureza real: guerra é o fracasso organizado da humanidade em resolver os seus conflitos por meios civilizados.

Cada bomba que cai sobre uma cidade representa a falência da diplomacia, do diálogo, do direito internacional e da razão. Representa a decisão de que é mais simples destruir do que negociar — e que as vidas que serão destruídas no processo valem menos do que os objectivos que se pretendem alcançar.

O direito internacional humanitário — as Convenções de Genebra, o Protocolo Adicional I — tenta humanizar o inumano, estabelecendo regras para a guerra como se a guerra pudesse ter regras que a tornem aceitável. É um esforço nobre. E é uma admissão de derrota civilizacional: não conseguimos eliminar a guerra, então tentamos torná-la menos bárbara.

Não é suficiente. Nunca foi suficiente. E enquanto existir a convicção de que os problemas políticos têm solução militar, continuará a não ser suficiente.

E a guerra, qualquer guerra, começa sempre com uma justificação que parece razoável — e termina sempre com mortos que não têm culpa nenhuma.