(João Gomes, in Facebook, 03/04/2026)

Há um momento em que as grandes potências deixam de conseguir ocultar a fragilidade estrutural do seu poder. É isso que se está a passar nos Estados Unidos com uma administração Trump que começa a “desfazer-se” – a retórica do discurso deixa de sustentar a realidade, e a liderança revela a sua natureza improvisada, errática e perigosa.
A administração de Trump entra agora numa fase que já não pode ser descrita apenas como turbulenta. O que se observa é um padrão de desagregação interna: demissão de responsáveis judiciais, substituições forçadas na hierarquia militar e sinais evidentes de conflito dentro das próprias estruturas do Estado, militares e civis. E, quando um governo começa a perder os seus quadros estratégicos em plena crise internacional, não se trata apenas de gestão política – trata-se de perda de controlo.
A frente externa agrava esse diagnóstico. A escalada militar contra o Irão, longe de produzir um efeito de dissuasão, abriu um teatro de operações difuso, assimétrico e altamente volátil. O encerramento de facto do Estreito de Ormuz para determinados fluxos marítimos, a resposta contínua através de mísseis e drones, e a incapacidade de neutralizar alvos estratégicos iranianos demonstram uma falha fundamental de cálculo: subestimou-se o adversário, sobrestimou-se a capacidade de imposição.
Mais grave ainda é a natureza dos ataques conduzidos. A destruição de infraestruturas civis – escolas, hospitais, redes básicas – não só não enfraqueceu decisivamente o aparelho militar iraniano, como contribuiu para um isolamento político crescente dos Estados Unidos. Em vez de consolidar alianças, Washington está a dissipá-las.
Esse isolamento já é visível na principal arena internacional. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, potências com interesses divergentes convergiram numa rejeição clara de uma escalada forçada no Estreito de Ormuz. Na NATO, o cenário é ainda mais revelador: aliados históricos recusam-se a seguir uma estratégia que consideram imprudente, desproporcional e potencialmente desastrosa.
A reação de Trump – ameaçando uma saída da NATO – não é apenas impulsiva; é sintomática. Revela uma incompreensão profunda da arquitetura de poder que sustentou a primazia americana durante décadas. A NATO não é apenas uma aliança militar; é um instrumento de projeção geopolítica, de coordenação estratégica e de “legitimidade internacional” dos próprios EUA. Romper com ela não é um gesto de força – é um ato de autossabotagem. É tornar os EUA um ator secundário no Mundo.
Entretanto, no plano interno, os sinais de desgaste acumulam-se. A dívida pública cresce a um ritmo que limita a margem de manobra futura, enquanto os custos de uma guerra prolongada tendem a amplificar tensões económicas e sociais. A ocultação de baixas militares – prática recorrente em conflitos impopulares – sugere que a administração já reconhece o risco político de uma escalada sem resultados claros.
Tudo isto converge para uma conclusão inquietante: os Estados Unidos, sob esta liderança, caminham para uma erosão acelerada da sua estratégia global. O que durante décadas foi um sistema relativamente coerente de alianças, influência e poder está a fragmentar-se. Não por pressão externa isolada, mas por decisões internas que minam a própria consistência do projeto.
No plano simbólico, a perda de credibilidade é talvez o dano mais profundo. O respeito internacional não se impõe apenas pela força militar – constrói-se pela previsibilidade, pela racionalidade estratégica e pela capacidade de liderança. Quando essas qualidades desaparecem, o vazio é rapidamente preenchido por desconfiança e distanciamento. Hoje, esse respeito parece em queda livre. Entre líderes ocidentais, cresce a prudência – ou mesmo a rejeição – face a uma administração considerada volátil. Entre as populações globais, a imagem dos Estados Unidos sofre um desgaste que nunca aconteceu e não será revertido no curto prazo.
O populismo que levou Trump ao poder assentava numa promessa de força, de controlo e de restauração de grandeza. O paradoxo é evidente: ao tentar afirmar essa força de forma unilateral e impulsiva, acabou por expor fragilidades profundas e acelerar um processo de declínio relativo. Se este percurso continuar, não estaremos perante o fracasso de uma administração. Estaremos diante de um ponto de inflexão histórico – um momento em que a principal potência mundial perde não apenas influência, mas coerência estratégica.
E quando uma potência deixa de compreender os limites do seu próprio poder, o risco deixa de ser apenas o da derrota. Passa a ser o da desordem.


