A NATO e a China

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 03/11/2026)


Esperamos que as flagrantes insuficiências militares demonstradas pelos EUA no ataque ao Irão, em fevereiro de 2026, resfriem o ímpeto de Washington se envolver numa operação contra Pequim, até porque Pequim não é Teerão.


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As relações entre a NATO e a China foram praticamente inexistentes durante a década de noventa do século passado e atingiram um ponto baixo quando a NATO bombardeou a embaixada chinesa em Belgrado (maio 1999). As conversações de alto nível entre a NATO e a China iniciaram-se em 2002, por iniciativa de Pequim, após uma visita surpresa do embaixador chinês em Bruxelas ao secretário-geral da Aliança. Essa iniciativa abriu as portas a um diálogo que se manteve até aos dias de hoje, não só ao nível político como militar.

Os encontros entre as duas partes tornaram-se frequentes, tanto em Bruxelas como em Pequim, normalmente ao nível de Secretário-Geral Adjunto, do lado da NATO, e de vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, do lado da China. O ponto alto desses encontros teve lugar em 2009 quando o Vice-Secretário-Geral NATO visitou Pequim. O diálogo a nível militar iniciou-se em 2010, quando uma delegação militar chinesa visitou o quartel-general da NATO, em Bruxelas, mantendo-se a partir daí contactos regulares até aos dias de hoje, embora de alcance muito limitado.

A China participou nalgumas atividades promovidas pela NATO. Em 2002, tornou-se um observador permanente do Submarine Escape and Rescue Working Group (SMERWG), e participou no exercício Sorbet Royal, um importante exercício militar conjunto da NATO focado na fuga e salvamento de submarinos; também participou anualmente em atividades promovidas pela NATO Scientific and Environmental Affairs Division; desde 1999, em programas patrocinado pelo Science Prgrame’s Cooperative and Techology. Para além disso, oficiais chineses participaram em seminários anuais organizados pela NATO sobre desarmamento e não-proliferação.

Entre 2010 e 2014, militares e diplomatas chineses participaram em cursos organizados pela NATO School, em Oberammergau (Alemanha), a principal instituição de formação individual da NATO, ao nível operacional. A NATO manteve também contactos com a China, em Cabul, entre a embaixada chinesa e a missão da Aliança, no Afeganistão. Este relacionamento ocorria no âmbito de um diálogo militar pragmático focado na transparência, segurança marítima (incluindo antipirataria) e questões globais, sem ter a China o estatuto de parceiro.

Este relacionamento já limitado, resfriou-se a partir da Cimeira de Londres (2019), quando a NATO passou a considerar a China um desafio sistémico aos interesses, à segurança e aos valores dos países aliados. Essa linguagem passou a ser a norma nos documentos estratégicos da Aliança como, por exemplo, o Conceito Estratégico da NATO, em 2022.

Segundo o Comunicado final da Cimeira de Haia (2022) “as ambições declaradas e as políticas coercivas da República Popular da China (RPC) desafiam os nossos interesses, a nossa segurança e os nossos valores… as operações híbridas e cibernéticas maliciosas da RPC, bem como a sua retórica de confronto e desinformação, têm como alvo os Aliados e prejudicam a segurança da Aliança… e esforça-se por subverter a ordem internacional baseada em regras, nomeadamente nos domínios espacial, cibernético e marítimo. O aprofundamento da parceria estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa e as suas tentativas, que se reforçam mutuamente, de minar a ordem internacional baseada em regras vão contra os nossos valores e interesses.”

O endurecimento da linguagem por parte da Aliança, tinha a ver fundamentalmente com dois temas: a guerra na Ucrânia e o papel da China no Indico-Pacífico, em ambos os casos alinhada com o discurso de Washington.

No primeiro caso, a NATO acusa Pequim de ser um facilitador da invasão da Ucrânia pela Rússia. Para além de não condenar aberta e publicamente Moscovo, fornece componentes eletrónicos e apoio económico fundamental para sustentar a base industrial militar russa; omitindo, convenientemente, o facto de empresas chinesas venderem às empresas europeias os componentes eletrónicos que estas fornecem à Ucrânia. No segundo caso, os altos dignitários da NATO, em particular, o secretário-geral da NATO Mark Rute, numa linguagem tremendamente hostil, apresentam a China como “uma ameaça direta ao Ocidente, especialmente em relação a Taiwan.”

As declarações dos altos dignitários da NATO e a leitura dos documentos estratégicos da Aliança deixam os dirigentes chineses muito preocupados sobre uma possível intervenção da NATO no índico-Pacífico ao lado das forças americanas, talvez excessivamente preocupados.

Se a “NATO 3.0” que os EUA vieram propor aos aliados se concretizar, será uma NATO mais próxima da “NATO 1.0”, dos tempos da Guerra Fria, centrada na defesa coletiva e no Art.º V, e menos da “NATO 2.0”, do pós-guerra-fria e da gestão de crises da segurança cooperativa, então Washington não contará com ela no Índico-Pacífico. Embora fique a dúvida: para quê exigir 3.5% do PIB com despesas em defesa (a menos que seja “apenas” para apoiar o complexo militar industrial norte-americano) se, simultaneamente, Washington afirma que a Europa chega militarmente para a Rússia e que a Rússia não tenciona atacar a Europa? Não se pode excluir que a contradição não passe de “gato escondido com o rabo de fora.”

Na ausência de uma NATO no Pacífico ocidental para cercar a China, tal como existe na Europa para bloquear a Rússia, os EUA contam com o equipamento preposicionado na região, com uma enorme rede de bases e instalações militares, e com acordos estabelecidos com países da região para aceder ao seu território, aquilo que é a maior concentração de forças americanas no exterior do seu país (80 – 90 mil militares permanentemente destacados na região); e com os seus parceiros da região que integram a parceria da NATO “Parceiros à Volta do Globo”, mas não só.

O reforço da presença norte-americana nos últimos anos nessa região, o desenvolvimento de conceitos como o Agile Combat Employment, e o debate sobre a eventual realocação de parte dessas forças para regiões mais afastadas da costa chinesa, não levam em consideração o envolvimento e participação da NATO. Por isso, é com Washington que Pequim deve concentrar os seus esforços e atenção e não com Bruxelas. A hipotética participação de países da NATO numa aventura militar norte-americana na região será sempre marginal ao esforço de guerra que os EUA necessitam empreender. Esperamos que as flagrantes insuficiências militares demonstradas pelos EUA no ataque ao Irão, em fevereiro de 2026, resfriem o ímpeto de Washington se envolver numa operação contra Pequim, até porque Pequim não é Teerão.

As masmorras: a rede de câmaras de tortura de Zelensky à vista de todos

(Tim Kirby in S C F, 03/11/2026, Trad. Estátua)


Devemos esperar ver cada vez mais levantamentos populares, pois as autoridades podem não ser capazes de os impedir.


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Neste momento, estão a ocorrer revoltas bizarras por todo o continente europeu, com exceção da Rússia; a França está em chamas, os jovens alemães recusam-se violentamente a cumprir o serviço militar e o Tribunal Constitucional da Polónia está a ser alvo de ataques.

Agora, na frente oriental da «civilização», as palavras da figura obscura Kirill Budanov(1) não conseguiram desviar a atenção dos meios de comunicação ucranianos e mundiais para uma rede secreta de prisões utilizada contra os seus próprios cidadãos. As suas tentativas de acalmar uma população enfurecida não pareceram correr muito bem, uma vez que terá sido atingido por um spray de gás pimenta ou algum tipo de gás antes do fim da noite.

Kirill Budanov é o chefe do gabinete presidencial ucraniano e o mais jovem chefe dos serviços de informação militar ucranianos, que obviamente têm laços muito próximos com Zelensky. É oficialmente considerado um terrorista pela Rússia e um inimigo declarado extraoficialmente. Nas ruas escuras de Kiev, falando sob os holofotes das câmaras, relatou ao público ucraniano a situação em torno de uma prisão não oficial (possivelmente do Exército de Azov) perto de Kiev, chamada “O Poço”, onde prisioneiros com ligações militares, ou seja, recrutados à força, estão a ser mantidos ilegalmente, seguindo as mais nobres tradições do Ocidente iluminado.

A New Resistance apresentou o seguinte resumo da história, que explica tudo de forma concisa:

“Várias pessoas foram espancadas até à morte numa cave utilizada como câmara de tortura perto de Kiev, onde dezenas de homens estavam a ser mantidos em cárcere privado – esta informação foi divulgada no Parlamento ucraniano (Verkhovna Rada).

Os falecidos estão a ser registados como “desaparecidos”. Isto está a acontecer em mais de cem outras câmaras de tortura semelhantes em toda a Ucrânia, salientou o deputado Dmytruk.

As pessoas estão a ser sequestradas e torturadas. Algumas são vendidas às unidades militares, outras aos seus familiares. As mais fracas simplesmente morrem devido à tortura e às condições de confinamento. É assim que funciona atualmente todo o sistema de “mobilização”…

Budanov afirma que a descoberta de uma câmara de tortura em Kiev “prejudica a unidade dos ucranianos” e que é necessário “dar prioridade aos interesses da nação”.

A abordagem de Budanov, que enquadra a exposição da violência como uma ameaça à unidade em vez de abordar o abuso em si, reflete a dinâmica clássica dos Estados fascistas, onde os perpetradores consideram a responsabilização pública, e não a crueldade em si, como a verdadeira ofensa.”

Esta história não deve surpreender ninguém que acompanhe a política russa, uma vez que uma das muitas justificações para o início da Operação Militar Especial foi o facto de o lado de Kiev ter utilizado prisões secretas para fazer “desaparecer” os habitantes locais no Donbass durante anos. Também usavam tortura e humilhações brutais nestas instalações, o que se presume estar a acontecer em “O Poço”, nos arredores da capital ucraniana. Aliás, se tiver curiosidade sobre estas prisões secretas, pode consultar esta análise extremamente detalhada da RIA Novosti sobre a utilização destes locais no Donbass durante o período de 2014 a 2022 pelas Forças Armadas Ucranianas e pelo Batalhão Azov, considerados terroristas na Rússia.

O importante a compreender é que o Poço de Kiev não é um incidente isolado, mas sim parte de uma rede de instalações semelhantes que tem vindo a ser utilizada desde o Maidan. Não se trata de especulação, mas de um facto. O Poço não é uma exceção, mas uma prática comum quando um governo assume o poder considerando a maioria dos seus cidadãos como sub-humanos e sendo financiado por elites que também consideram todos os ucranianos sub-humanos. Tudo isto faz parte do extermínio da Ucrânia moderna e transporta todas as características da metodologia globalista.

Imagem acima: Este jovem, ao abandonar a instituição física e mentalmente debilitado, tornou-se o símbolo desta rede secreta de prisões.

Então, a questão é: porque é que isto está a acontecer agora? Porque é que as prisões secretas que existem desde o Maidan, que já foram expostas várias vezes, são agora motivo de indignação pública e de levantamentos? A resposta pode ser simples: o regime de Zelensky está a perder o controlo da sociedade. Se um Estado poderoso te conseguir fazer desaparecer numa rede de prisões secretas com um estalar de dedos, ninguém dirá uma palavra, mas se um regime fraco tentar fazer o mesmo, a resistência deixa de ser fútil ou suicida e torna-se quase obrigatória.

Podemos ver em vários vídeos a indignação em frente ao The Pit que o regime está a perder o controlo, mesmo perante os seus próprios jornalistas, que comprou e pagou. A maior mudança tática em toda a guerra foi o “40 dias de terror” de Zelensky durante o verão de 2026, que atacou todos os tipos de infraestruturas civis na Rússia. Esta acção obrigou o Kremlin a responder na mesma moeda, intensificando radicalmente os seus esforços e levando a Rússia a destruir praticamente todos os centros de dados, postos de abastecimento de combustível, fábricas, locomotivas e armazéns na Ucrânia.

A situação é agora tão desesperada que Kiev, outrora o epicentro seguro do regime de Zelensky, viu o seu nível de vida, para muitos, reduzidos aos do século XIX. O presidente da Câmara de Kiev chegou a declarar publicamente que era tempo de fugir da capital. Até aos 40 Dias de Terror, tentar resgatar um ente querido detido num centro secreto de detenção significaria certamente ser o próximo alvo. Talvez agora a realidade tenha mudado a tal ponto que seja possível até utilizar algum tipo de gás contra Kirill Budanov sem ser punido.

É claro que, mesmo que o público ucraniano já esteja plenamente consciente de algo, os grandes meios de comunicação ocidentais encarregar-se-ão de encobrir a situação. O professor e escritor norueguês Glenn Diesen comentou o seguinte sobre o assunto:

“O establishment político-mediático tem um dia agitado pela frente: encobrir as câmaras de tortura de Zelensky, minimizar as revelações e garantir que a história desaparece da vista do público.”

Estas palavras são absolutamente verdadeiras. No entanto, nenhuma campanha de relações públicas será capaz de esconder a iminente queda de Kiev do público mundial. Mesmo aqueles que estão “por dentro” reconhecem que a capital está, metaforicamente, com a cabeça a postos. Os preços dos imóveis estão a cair a pique e as vendas atingiram níveis recorde de baixa, enquanto a cidade se esvazia e poderá tornar-se inabitável em breve. Os “orcs” estão no horizonte e não se sabe quem manterá o controlo da cidade quando toda esta terrível guerra chegar ao seu fim definitivo.

À medida que as forças russas se aproximam e continuam a destruir as infraestruturas do regime de Kiev, devemos esperar ver cada vez mais levantamentos, uma vez que as autoridades podem não conseguir detê-los. Embora Zelensky provavelmente ainda tenha muita resistência graças aos drones baratos em grande número, não pode manter-se no poder para sempre, nem Kiev pode sustentar-se como cidade sem eletricidade, água e saneamento básico. A Morte observa toda a capital, afiando a sua foice enquanto aguarda.

Para concluir, é importante notar que Budanov teve de falar em russo muitas vezes para se dirigir adequadamente à multidão enfurecida. Há algo de bastante apropriado neste facto.

(1) Incluído na lista de terroristas e extremistas da Rússia.

Fonte aqui

Acampadas: a coisa mais bonita desde o 25 de Abril

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 04/11/2026)


As praças de volta a nós. Toda a violência foi do Estado, a acampada resiste.


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1. Segunda-feira à noite, sentada nas ondas do mar do Rossio, a olhar aquelas centenas de jovens também sentados, e as centenas de pé atrás deles, uns e outros a votarem de braço no ar, pensei há quanto tempo não reparava nas ondas do mar do Rossio. Porque há muito tempo que não me sentava nelas, e porque entre a Assembleia Popular e o microfone várias ondas brilhavam, descobertas. Eram a parte da calçada onde se podia passar, falar, cantar, dançar. Tudo isso aconteceu.

Íamos a caminho das 23h de um dia de semana em que grande parte daquelas pessoas já tinha trabalhado ou tido aulas. E por um segundo, ali aos pés de D. Pedro IV de Portugal/I do Brasil, vi as ondas do calçadão carioca, que são cem Rossios no oceano. Mas agora o futuro estava ali também. O Rossio tinha voltado a nós. Como a praça de D. João I voltou ao Porto, o pioneiro destas acampadas.

Há quanto tempo não me sentava na cidade onde nasci sem querer fugir? Sem sentir que não a reconheço, que nos foi tirada, expropriada dela mesma? Sem a toda a volta ouvir inglês, não o da língua franca, mas o de quem está em Lisboa ou no Porto como se os nativos fossem invisíveis. E serão até não serem.

Mas a causa não são os turistas nem os expatriados. Tal como a causa das três cargas policiais que fizeram mais de cem feridos não são os polícias. À frente da alienação das nossas cidades estão presidentes de câmara, neste momento Carlos Moedas em Lisboa, Pedro Duarte no Porto.

E por trás dos bastões, dos cães, dos infiltrados com armas de fogo, com petardos, está um governo cobarde chefiado por Luís Montenegro, a fazer-se fascista julgando que assim não é engolido pelos fascistas. Mais um Presidente da República, António José Seguro, que primeiro não abriu a boca, traindo milhões de votos úteis antifascistas, e depois quando falou foi tão remendado, remediado como um Portugal que a ditadura gerou.

E onde estiveram nas últimas semanas 226 eleitos com os nossos votos? Porque dos 230 deputados que compõem a Assembleia da República só vi notícia de quatro a tentarem travar a última carga policial, Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto, Paulo Muacho e Fabian Figueiredo (que na carga anterior tentara mediar sozinho e desta vez foi acompanhado pela ex-deputada Joana Mortágua).

Descontando os deputados que insultam a democracia, sobram muitas dezenas ainda. Já estiveram nas acampadas? Observaram estas centenas, por vezes milhares de pessoas em assembleias populares a interpelarem, contraporem, votarem propostas, dia a dia articuladas por núcleos tão ágeis na palavra como no vídeo, tanto nas redes como ao vivo? Eles organizam grupos de trabalho, rodam lugares de representação, asseguram que homens brancos cis não prevalecem, aliam-se a gente ameaçada de despejo nas periferias, fazem a sopa de graça para quem vier, animam as crianças que podem ser bastantes, cantam e dançam a decisão do tribunal anunciada na segunda-feira, têm graça, pinta, carisma. E todos os dias — todos os dias — enchem a praça de música, começando pela Primavera dos Coros.

Segunda-feira, antes das 19h, éramos um círculo em coro, e no meio a maestrina Inês Proença (27 anos, do Coro Regador), tamanho de menina com não sei quantos braços, para a esquerda para a direita, a toda a roda, montando um cânone de gente que nunca se tinha visto, telemóvel com as letras manuscritas, canções populares, canções de luta, do Rossio ao Barroso. Um coro: que força.

Mais pena tenho de não ter estado na véspera, apenas partilhado o vídeo de quando Tomás Frazer (31 anos) dirigiu uma orquestra de 300 intérpretes organizados por WhatsApp em canções como Traz outro amigo também, de Zeca Afonso, com arranjos feitos agora por Francisco Máximo (23 anos). Na mesma calçada onde de madrugada a polícia voltara a espancar pessoas pacíficas, já com capacetes para se protegerem, já com mães/pais a tentarem proteger os filhos (como já acontecia nas periferias, tem lembrado Brito Guterres).

Nestas três semanas, toda a violência foi do Estado português. E o tribunal veio dizer que a ilegalidade também. Violência e ilegalidade de um governo que até hoje não conseguiu arrancar violência aos acampados.

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2. A destruição da Palestina estará no historial de Moedas e Montenegro. Em 2024, no pico do genocídio (e contra a vontade de trabalhadores da câmara), Moedas cedeu o Cinema São Jorge para Israel celebrar o seu 76.º aniversário. Os diplomatas do extermínio & seus convidados vieram de copo na mão à varanda zombar dos lisboetas que protestavam lá em baixo. Um cinema da cidade ocupado por Israel, pregado na lapela do embaixador, em recompensa. No Porto, entretanto, os novos israelo-portugueses compravam bairros inteiros. E Montenegro acabava de se tornar primeiro-ministro de um novo governo facilitador do genocídio.

Neste país onde, em Outubro de 2026, pivôs de TV mencionam símbolos da Palestina como potencial argumento para a carga da polícia, até uma Helena Roseta se insurgir. Mas o Rossio agora é também essa praça que em qualquer direcção tem lenços da Palestina misturados com cravos vermelhos. Nunca esteve tão perto do 25 de Abril.

O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Milliband, disse há semanas: vocês tinham razão. Dirigia-se a quem há muito se opõe ao genocídio na Palestina. Em parte por convicção, em parte para conquistar votos muçulmanos (remeto para a leitura do veterano Tariq Ali). Mas mesmo esta fasquia, nem por isso alta, é difícil de imaginar entre responsáveis portugueses. Para começo de conversa, faltam essas palavras: vocês tinham razão. Os palestinianos tinham razão. Os aliados deles tinham razão. Tal como a acampada tinha razão antes da decisão do tribunal.

Uma das decisões de segunda-feira no Rossio foi não sair do Rossio para o mercado de Natal de Moedas. Que Moedas o monte noutro lugar. Qualquer cristão a sério saberá que mercado e Natal são duas palavras incompatíveis. A praça do Rossio não é um mercado, será “do povo como o céu é do condor”, algo escrito há 150 anos pelo poeta brasileiro Castro Alves.

Hoje, no tempo do extermínio em directo, acabamos de ter a vitória de Lula, conquistada por milhões que foram à luta, voto a voto. Coincide com a acampada, que se define também por isto: uma das suas vozes ser a imigrante brasileira Priscila Valadão. Ouvir o sotaque dela no Rossio, aos pés daquela estátua, atava a história. E o momento em que as centenas de pessoas sentadas se levantaram para aplaudir foi quando falou uma jovem afrodescendente.

Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho. São eles que estão a dormir lá, a apanhar da polícia, não eu, que só de vez em quando vou a Lisboa. E calha que tenho levado na sacola, porque estou a lê-lo, Caminhos da Insubmissão, de Jorge Valadas, um português com idade para ser meu pai, desertor da guerra colonial, depois exilado em Paris.

Esta segunda-feira, sentada na cidade de onde saí há nove anos, capital do país de onde sempre quis sair, a acampada era uma espécie de fim de exílio. Como disse uma das “acampadas”, já nem nos lembrávamos dos turistas.