Da forma como as coisas estão, fica claro que Teerão nunca aceitará um bloqueio naval permanente. Portanto, haverá retaliação. Aconteça o que acontecer a seguir, o petróleo Brent ultrapassará certamente os US$ 120 por barril. O abastecimento de combustível de aviação ficará bastante restrito a partir do final da próxima semana. Os preços do diesel e da gasolina seguirão o mesmo caminho em duas semanas.
Nenhuma análise séria pode considerar o blá-blá-blá mentalmente retardado do Sindicato Epstein sobre o que rola nos corredores do poder em Teerão.
Como se eles tivessem alguma pista fundamentada.
Nada está “fraturado” (exceto a psique do Babuíno da Bárbaria). É claro que existem diferentes abordagens conceituais e um animado debate público nacional. Mas, no alto nível de decisão, todo o sistema está fortemente unificado.
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As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão.
O 25 de Abril, “essa revolução miserável” André Ventura
Cada pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na “guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis” assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra mulheres e crianças.
Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.
O 25 de Abril não começou com uma revolução, mas com um golpe de Estado. Na tarde, com a descida à rua de muitos milhares de pessoas apoiando os militares, transformou-se numa revolução. Essa revolução foi manchada de sangue nesse mesmo dia, sangue que não era dos dirigentes da ditadura, que foram, e bem, protegidos e enviados para o exílio, mas das vítimas da PIDE/DGS, que disparou sobre a multidão que cercava as instalações da polícia política matando quatro pessoas. O esquecimento manipulado dos dias de hoje começa nesses disparos e nessas mortes, que também ficaram sem punição.
Assalto à PIDE no Porto em 1974
É que todas estas manipulações não são um combate pelo passado, mas pelo presente e pelo futuro, porque servem o combate à liberdade e à democracia. É de memória que se trata, mas mais fundamental ainda é que essa violação da memória destina-se a abrir caminho no presente a autoritarismos e medos em 2026 e não em 1974.
Há nas pessoas comuns, os dois terços de portugueses que não votaram Chega, nem nas legislativas nem nas presidenciais, uma cada vez maior preocupação com o período negro que atravessamos, e com o défice de combate contra os obscurecedores da Luz. Na rua percebe-se muito bem esse défice que muita esquerda, no seu snobismo comodista, não percebe, como se incomodaria ao ver os apoios emotivos das pessoas comuns a quem combate o Chega, com palmas nos cafés, dedos ao alto, carros que param, abraços e beijos. Sempre com mais emoção do que um “concordo”, porque, insisto, há um défice de representação na luta contra o Chega que se percebe porque a questão já não é estritamente de diferenças políticas, é de medo “deles”.
E, nessa representação, dá-se voz a outras vozes que travam o mesmo combate, como a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Não há hoje declaração dos bispos portugueses que não seja contra o Chega e, como o exemplo vem de cima, o mesmo acontecia com o Papa Francisco, o “Papa comunista”, e Leão XIV, falando pelos imigrantes e denunciando a sua perseguição, ou contra a guerra de Trump. É que nem é sequer um problema de interpretação, são palavras puras e simples falando da violência contra os mais fracos.
Aliás, há muita cobardia nesta violência contra os mais fracos, sejam as mulheres insultadas, sejam os imigrantes perseguidos, sejam os pobres que “não querem trabalhar”, sejam os pretos, os monhés, os muçulmanos que não têm uma mesquita para rezar. Que diriam estes cruéis e violentos do Papa Leão XIV, que visitou uma mesquita na Argélia chamando-lhe um “lugar sagrado para a oração” e para a “procura de Deus”? Um defensor da “islamização da Europa” e da “grande substituição”.
Eu sou ateu, mas reconheço nas igrejas cristãs, católicas, anglicanas e luteranas de hoje um combate que muita da esquerda é incapaz de travar com a voz alta e dura, sejam muitos dos democratas americanos, seja a esquerda mole e temerosa ou nefelibata que temos na Europa. É também por isso que todos que combateram a ditadura e foram despedidos, maltratados e presos dão uma lição de coragem a quem gosta de ameaçar, amedrontar, perseguir os fracos. São eles os verdadeiros corajosos.
Numa altura em que o “não é não” já não existe, o 25 de Abril não é de passarinhos a voar, nem de cores macias nos cartazes, e é mais do que festa, luta.
Há uma estranha regularidade na política contemporânea: quando a realidade começa a tornar-se incómoda – sondagens em queda, desgaste de imagem, críticas internas e externas – surge, quase sempre, um “acontecimento”. Não necessariamente criado, note-se, mas rapidamente moldado, amplificado, reinterpretado até adquirir uma utilidade que, curiosamente, parecia estar em falta dias antes.
É um fenómeno antigo, embora hoje mais visível. A política deixou há muito de ser apenas gestão do real; tornou-se, em larga medida, gestão da perceção. E nesse campo, os factos não precisam de ser fabricados – basta que sejam enquadrados com precisão cirúrgica.
Um incidente de segurança, por exemplo, é antes de mais isso mesmo: um incidente. Mas, num ambiente mediático saturado e polarizado, pode transformar-se em símbolo, narrativa, prova indireta de algo maior. De repente, o protagonista político deixa de ser apenas um líder sob pressão para passar a ser alguém “sob ataque”, “no centro de forças adversas”, “incomodando interesses poderosos”. A transição é subtil – e altamente eficaz.
Não é preciso recuar muito na história para encontrar padrões semelhantes. Crises externas que consolidam lideranças frágeis. Ameaças difusas que reforçam discursos de ordem. Episódios isolados elevados à categoria de tendência. Sempre com o mesmo resultado: reorganizar o campo político sem alterar necessariamente a realidade subjacente.
E depois há a ironia maior: quanto mais contestado é um líder, maior é a probabilidade de qualquer evento ser reinterpretado como validação da sua relevância. Afinal, só se ataca – ou se diz que se ataca – quem “incomoda”. É uma lógica circular, quase perfeita. E perigosamente sedutora.
Nada disto implica, necessariamente, conspiração. Implica algo mais simples e, talvez por isso, mais inquietante: o oportunismo estrutural da política moderna. A capacidade de absorver o acaso e devolvê-lo como estratégia. De transformar o imprevisto em argumento. De converter fragilidade em força aparente.
O problema não está apenas nos protagonistas. Está também na mecânica que permite – e recompensa – este tipo de operação. Um ecossistema mediático que privilegia o impacto sobre a verificação. Um público cansado, mas permeável a narrativas fortes. E uma cultura política onde a urgência de vencer se sobrepõe, demasiadas vezes, à necessidade de compreender.
No fim, ficamos com uma sucessão de episódios que parecem extraordinários, mas obedecem a uma lógica previsível. Do atentado ao “mal tratado”, o percurso faz-se em poucas horas – às vezes minutos. E o que começou como um facto torna-se, rapidamente, ferramenta.
Talvez a questão não seja se estes momentos são aproveitados. Isso é quase inevitável. A questão é outra: até que ponto já deixámos de distinguir claramente entre o que acontece e o que é feito acontecer – não nos factos, mas na forma como os entendemos. E essa, mais do que qualquer incidente isolado, é uma transformação profunda – e duradoura – da própria política.