Futebol e espetáculos que justificam guerras e encobrem genocídios

(Por Tortuga, in Resistir, 19/07/2026)


O principal produto mediático destes dias, acompanhado por milhões de telespectadores de todo o planeta, é o campeonato mundial de seleções nacionais de futebol organizado pela FIFA a cada quatro anos. Um espetáculo para os entusiastas do desporto de massas, mas também um importante ponto de encontro de todo o tipo de interesses económicos, sociais e políticos.

Antes de entrarmos em pormenores sobre as particularidades específicas do facto de esta edição do Mundial de Futebol se realizar nos EUA, convém recordar duas circunstâncias negativas que ocorrem em cada edição do Mundial e também noutros eventos desportivos e competições culturais de características semelhantes.

Por um lado, há a questão ecológica:   cada um destes eventos representa uma grande agressão ao ambiente, sob a forma de construção de infraestruturas faraónicas, na sua maioria desnecessárias: estádios, estradas, edifícios para alojar as delegações visitantes… Sem esquecer o custo humano de tudo isto. Por exemplo, no último Mundial do Qatar, cerca de 500 trabalhadores migrantes morreram nas obras, devido à pressa da organização para que as construções estivessem prontas dentro dos prazos. É também necessário ter em conta os danos causados à atmosfera pelas emissões poluentes dos automóveis e aviões que transportam os milhares e milhares de espectadores que se deslocam para assistir aos jogos ao vivo.

Por outro lado, é preciso mencionar o fomento dos nacionalismos patrióticos que se verifica com este tipo de competições. É sabido que o patriotismo nacionalista é um poderoso catalisador do racismo, da xenofobia, da exclusão e também da corrida ao armamento e da própria guerra. Os mundiais de futebol e de outros desportos, longe de promover o encontro multicultural e o diálogo, aprofundam as rivalidades e as diferenças entre países, exacerbam o culto à própria nação e são fonte de diversos tipos de desconsideração e desprezo para com as demais.

Mas concentremos-nos na presente edição do campeonato. Como é do conhecimento geral, o principal país anfitrião são os Estados Unidos da América do Norte. Um Estado que, ao longo da sua história recente, deixou pelo mundo uma série de guerras, golpes de Estado, pilhagens e violações do direito internacional. Um país cujo governo, para nos referirmos ao mais recente, ameaça invadir Estados soberanos, orquestra guerras económicas, impõe bloqueios comerciais que geram escassez — e, consequentemente, pobreza —, sequestra e assassina líderes de outros países, bombardeia escolas cheias de meninas e, acima de tudo, em conjunto com o seu aliado íntimo, Israel, mantém em curso um genocídio indescritível contra a população civil da Palestina e do Líbano. Limitando-nos apenas ao âmbito do futebol, soube-se nestes dias que 566 futebolistas palestinos – o equivalente a 25 equipas completas – foram assassinados por Israel.

Talvez pensem que somos demasiado sensíveis, mas permitam-nos opinar que o facto de um Estado que faz todas essas coisas poder organizar um campeonato mundial e de os restantes países participarem com as suas seleções nacionais, como se nada fosse, é uma forma de minimizar a gravidade dos crimes cometidos, ações que continuam a decorrer até aos dias de hoje.

É um desviar o olhar e, por conseguinte, justificar e até mesmo avalar todas essas políticas que constituem crimes contra a humanidade, levadas a cabo incessantemente pelo principal governo anfitrião deste Mundial de Futebol. O mesmo se pode afirmar sobre o facto de se permitir que Israel participe em competições internacionais ou no Festival Eurovisão da Canção.

Como se não bastasse, a esta circunstância fundamental há que acrescentar mais um conjunto de razões que fazem com que a realização de um Mundial nos EUA não faça o menor sentido:   o elevado preço dos bilhetes, que torna o espetáculo elitista, classista e excludente para as pessoas com rendimentos mais baixos. A forma como a agência governamental ICE aproveita o Mundial para a sua caça permanente a migrantes. A discriminação, sob a forma de obstáculos e humilhações nas fronteiras ou recusa de vistos que as autoridades dos EUA impõem a pessoas provenientes de países do Sul ou inimigos dos EUA, chegando mesmo a afetar algumas das seleções nacionais participantes, ou o árbitro somali Omar Artan, considerado o melhor de África, a quem foi impedida a entrada no país. Tudo isto sem que a FIFA, organizadora do torneio, emita a mais mínima crítica. Recordemos que, em 2023, a FIFA retirou à Indonésia a organização de um Mundial Sub-20, por não ter permitido a entrada no país aos membros da seleção israelense como medida de protesto contra o genocídio.

Denunciar o militarismo, as guerras e os genocídios, bem como as agressões ao ambiente ou aos direitos humanos fundamentais, é uma obrigação que temos enquanto seres humanos decentes. Assim como evitar que esses factos e situações sejam normalizados, justificados ou legitimados. Um pequeno gesto, que pode ser eficaz se muitas pessoas o praticarem, é deixar de consumir, enquanto espectadores, produtos da indústria do espetáculo promovidos ou produzidos em países como Israel e os EUA. A Copa do Mundo de Futebol de 2026, por exemplo.

Fonte aqui.

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(Estátua de Sal, verão de 2026)


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Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

Um professor universitário suspeitou da utilização de IA num teste e decidiu contra-atacar

(Susan Svrluga, in Público, 16/07/2026)

Side-by-side illustration of a human brain and an electronic circuit board connected in the center

(Publico estes dois textos pela sua atualidade. Uma revelação dos perigos e armadilhas do mundo que estamos a criar, com a introdução da IA a subjugar a racionalidade humana.

Estátua de Sal, 18/07/2026)


Um professor da Universidade Brown suspeitou que os alunos recorreram à IA após um exame feito em casa ter notas muito acima do habitual.


Roberto Serrano ficou chocado quando viu os resultados do exame intermédio da sua disciplina de economia matemática avançada na Universidade Brown no semestre passado: a média foi de 96, quando, no passado, tinha variado entre os 60 e os 80. Quase metade dos estudantes este ano obteve uma pontuação perfeita de 100.

Quando Serrano e os seus assistentes puseram um grande modelo de linguagem, o ChatGPT, a fazer o exame, este apresentou um processo estranho e rebuscado para resolver um dos problemas, em vez de uma demonstração directa e simples. O mesmo aconteceu com muitos estudantes.

Roberto Serrano decidiu, depois do tiroteio mortal na universidade em Dezembro, permitir que os alunos fizessem a prova em casa pela primeira vez. E acabou por descobrir que estes resultados já não podem ser considerados fiáveis para medir a aprendizagem dos estudantes, mesmo numa universidade de elite, da chamada Ivy League, as mais respeitadas dos Estados Unidos.

“Penso que é basicamente impossível”, disse Serrano, “encontrar uma explicação alternativa que explique os dados para além de terem copiado em massa.”

Os resultados da disciplina de Serrano mostram que o ensino superior continua a debater-se com uma questão muito básica: à medida que os alunos se tornam melhores a utilizar inteligência artificial, como podem os docentes garantir que os estudantes estão realmente a aprender?

Quando o ChatGPT foi lançado, em 2022, alguns educadores recearam que os estudantes o utilizassem para fazer batota, mas outros acharam que os grandes modelos de linguagem (LLMs, do inglês Large Language Models) não conseguiam escrever ensaios convincentes nem resolver problemas matemáticos difíceis. Agora conseguem.

E novos dispositivos estão a tornar mais difícil avaliar os estudantes. Existem calculadoras de aspecto inocente com câmaras e IA generativa. (“Fotografa. Resolve. Feito.” é o slogan de um desses dispositivos.) Óculos com câmaras e IA incorporadas podem fornecer respostas durante os testes sem que os professores façam a mínima ideia de que isso está a acontecer.

“A realidade é que os estudantes vão utilizar IA, quer os professores saibam disso ou não”, diz Laurent Lessard, professor associado de engenharia mecânica e industrial na Universidade Northeastern. Lessard, que fez parte de um grupo de trabalho sobre IA — algo que muitas universidades têm —, defende que a tecnologia está a evoluir tão depressa que os professores têm de se adaptar rapidamente ou deixarão de compreender as suas capacidades e a forma como os estudantes a utilizam.

Lessard diz que a IA conseguiria completar uma cadeira universitária semestral em cerca de duas horas.

De muitas formas, as universidades estão a adoptar a IA, com investigadores a utilizá-la para potenciar o seu trabalho em algumas áreas, docentes a desenvolver aplicações de tutoria para ajudar os estudantes a lidar com problemas difíceis, e responsáveis universitários a criar disciplinas e cursos relacionados com IA para preparar os estudantes para um mercado de trabalho em rápida mudança.

Mas o problema mantém-se: para os estudantes que sabem que podem conseguir uma nota melhor se utilizarem um LLM e que sabem que irão competir por empregos e admissões com colegas que o utilizam, o incentivo para recorrer a uma ferramenta tão rápida e fácil pode ser muito forte, diz Lessard; é por isso que tantos docentes estão a tentar repensar a forma como ensinam, como avaliam e o que classificam.

Algumas universidades estão a recuperar, ou a ponderar recuperar, práticas tradicionais, como os exames supervisionados e os exames orais. As universidades de Stanford e Princeton começaram este ano a permitir e, no caso de Princeton, a exigir exames monitorizados por software, apesar dos seus códigos de honra.

A Faculdade de Direito da Universidade de Chicago está a testar a proibição de dispositivos nas salas de aula das disciplinas obrigatórias do primeiro ano. E alguns professores deixaram de atribuir, ou de classificar, trabalhos de casa; passaram a dar mais importância ao processo de aprendizagem do que ao produto final; e aumentaram o tempo dedicado às discussões presenciais.

A maioria dos adolescentes, 59%, considera que utilizar IA para copiar é uma ocorrência normal na sua escola, de acordo com um relatório de Fevereiro do Pew Research Center. Especialistas afirmam que a utilização de IA entre estudantes universitários é generalizada.

Na Universidade Brown, uma comissão que estudou a utilização da IA durante grande parte deste ano lectivo divulgou, na semana passada, um relatório que recomendava várias alterações, incluindo a revisão dos regulamentos académicos para garantir que a integridade académica continua a ser um princípio fundamental.

A universidade está a investigar o que aconteceu na disciplina de Serrano. “Brown trata todas as alegações de integridade académica com a máxima seriedade”, afirmou Brian Clark, porta-voz da universidade.

Serrano, professor de economia, sabe que aprender pode ser uma luta: aos 17 anos, enquanto crescia em Madrid, começou a perder a visão. Chegou a ponderar não continuar os estudos. Em vez disso, aprendeu a usar uma bengala e a ler Braille. Na universidade, o pai ajudava-o a reconstituir os apontamentos que tinha rabiscado nas aulas para que Serrano os pudesse transcrever para Braille. Depois de concluir o doutoramento na Universidade de Harvard, começou a leccionar na Brown.

Muitas pessoas enfrentam circunstâncias muito mais difíceis, considera, mas “isso deu-me claramente a ideia de que aprender e ter sucesso não acontecem sem esforço”.

Serrano ficou surpreendido quando 86 estudantes se inscreveram na sua disciplina este ano, cerca de três vezes mais do que o número habitual. Agora pergunta-se se isso aconteceu porque o programa da disciplina deixava claro que o exame intermédio e o exame final seriam realizados em casa.

Após o exame intermédio, Serrano disse à turma que parecia ter havido fraude generalizada, apesar de os estudantes terem assinado uma declaração de integridade académica ao realizarem a prova. A resposta foi o silêncio, conta.

Também lhes disse que lhes daria uma oportunidade para lhe provarem que estava errado. Depois de alterar o exame final para uma prova presencial de três horas, 27 estudantes desistiram da disciplina. Vinte e dois deles tinham obtido uma pontuação perfeita de 100 no exame intermédio.

A média do exame final foi de 48,6.

Perante os resultados, disse à turma que anulava o exame intermédio. E perguntou-lhes, se optaram por utilizar IA num exame: “Porque estão aqui? Porque estão a frequentar uma universidade?”

A boa notícia, diz Serrano, foi que continuou a ter um grupo muito forte de estudantes que demonstrou um bom domínio da matéria no exame final. A nota mais alta no exame final foi 95. Esse estudante também tinha obtido 95 no exame intermédio.

Depois de contar a sua história ao jornal El País, recebeu mensagens de centenas de pessoas, de todo o tipo de escolas, a maioria confirmando a sua convicção de que a preocupação com a IA na sala de aula é generalizada. Sempre existiu fraude no meio académico, e as novas tecnologias trouxeram frequentemente novos desafios.

Mas a IA, nas suas várias formas, surgiu tão subitamente — como um tsunami, disse ele — que apanhou os educadores desprevenidos, não apenas para impedir a batota, mas também para avaliar se os estudantes estão realmente a aprender.

Agora estão a responder, diz. “Com pessoas suficientes a pensar sobre isto, acabaremos todos por encontrar soluções melhores.”

Um exclusivo PÚBLICO/Washington Post

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Consegue distinguir uma canção feita por IA de uma criada por humanos

(Pedro Rios, in Público, 16/07/2026)

Foi há apenas três anos: Heart on my sleeve dava-nos um dueto entre Drake e The Weeknd. Duas megaestrelas juntas, um acontecimento pop. Acontece que nem Drake nem The Weeknd andavam realmente por ali: a façanha fora concebida com ajuda da inteligência artificial (IA). Foi uma das primeiras demonstrações de grande impacto público do poder da IA na geração de música. Nos meses e anos seguintes, tivemos, por exemplo, folk-rock impecavelmente sintetizado, sem qualquer guitarra real, tudo simulado, emulado, congeminado pela IA — eram os Velvet Sundown, talvez já não se lembre deles.

Agora, a indústria da música alia-se à indústria da IA à qual em tempos mostrou os dentes: há notícias de contratos milionários com designers de música feita com IA e com serviços de geração de música, como o popular Suno.

“Esta é, sem dúvida, uma das transformações mais rápidas que a indústria da música alguma vez viveu”, diz Kristin Robinson, jornalista da Billboard que tem acompanhado o tema. “Também acho que é uma transformação com mais consequências do que outras que já vimos.”

Daniel Dias (texto) e Gabriela Pedro (ilustração e infografia) radiografaram esta revolução em curso. E fizeram perguntas. A música gerada por inteligência artificial está em todo o lado. Como lidar com ela num meio que já era precário para os artistas? A que soará a música do futuro? Que ouvintes seremos nós?

“Muitas pessoas dizem que não querem ouvir nada que tenha sido conspurcado por IA”, diz ao Ípsilon a artista de carne e osso Holly Herndon. “Mas a rádio já está, hoje, cheia de música que é gerada artificialmente e depois regravada. Vai ser muito difícil diferenciar entre o que foi e o que não foi tocado por IA.” Um estudo indica que 97% dos ouvintes não conseguem perceber as diferenças.

“A diferença que tenho visto nestes últimos anos é inacreditável. Hoje olho para o Royal e é outra companhia. Toda a diversidade só a beneficiou. Quando estamos num ambiente muito igual, tudo parece sempre o mesmo. Quando são introduzidos novos corpos, ideias e energias, o ballet renova-se”, diz Marcelino Sambé, português, negro, bailarino principal do prestigiadíssimo Royal Ballet de Londres. Volta a Portugal para dançar num programa em Seteais que junta experiência e futuro. 

Do Irão ao Sudão, da Argélia a França, os filmes no programa do Curtas Vila do Conde falam com o mundo. Desta sexta-feira até ao dia 26, a 34.º edição do festival celebra o cinema em toda a sua variedade. Uma das vertentes da programação, sob o signo do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof, que estará no festival, fala de resistência e espaço. 

O Canto das Árvores Esquecidas é “uma obra ardente, revoltada contra as inevitabilidades da sociedade de onde emana, fogosa e franca na exposição da infância, dores e culpa, e intimidade”, elogia Vasco Câmara.​ “Provavelmente não farei filmes tão bons como os clássicos indianos, mas farei sempre third world cinema, com as coisas que experimentei”, disse-lhe a realizadora Anuparna Roy.

Em O Cume, um dos momentos altos da recta final do Festival de Almada, Christoph Marthaler desmonta com “o seu prodigioso sentido do absurdo a coreografia e a cacofonia dos retiros onde as elites decidem a vida dos demais. Uma alegoria enigmática — mas urgente”, escreve Inês Nadais, que conversou com o encenador suíço. Já Gonçalo Frota falou com Christian Benedetti sobre a sua Gaivota — na qual os velhos querem matar os novos.

Nascida em Coimbra há 30 anos, a Lux Records revelou-nos Belle Chase Hotel, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders e outros nomes essenciais da música portuguesa. Não há segredos: laços de proximidade e acção independente. Mário Lopes esteve à conversa com Rui Ferreira, o faz-tudo da Lux.


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