Crónica desde o Líbano: Hezbollah, combater “até à última gota de sangue”

(Bruno Amaral de Carvalho, in NòsDiário, 08/05/2026, Revisão da Estátua)


Ghaleb Abu Zainab observando os escombros de um edifício que desapareceu debaixo das bombas israelitas, onde vivia a sua família

Como uma premonição, o ruído dos drones regressou a Beirute na quarta-feira. Nos arredores da capital libanesa, várias pessoas apontavam para o céu enquanto um aparelho não tripulado sobrevoava a cidade. Com a concentração dos combates no sul do país, Beirute parecia estar a salvo dos ataques de Israel. Mas já não. Telavive decidiu violar, uma vez mais, o cessar-fogo com o objetivo de matar o comandante das forças especiais do Hezbollah no bairro de Haret Hreik, onde viviam até há bem pouco tempo cerca de 100.000 pessoas.


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No cemitério dos mártires da resistência em Dahieh, na periferia de BeiruteAbu Hassan visita a sepultura dos seus dois únicos filhos. Hassan morreu em combate em 2008 e Mohammad Hussein foi morto por Israel em 2024. Os dois eram combatentes do Hezbollah. “Esforcei-me muito para os criar e para os conduzir à resistência. Também faço parte da resistência e não tenho vergonha disso. Pelo contrário, sinto-me honrado e orgulhoso”, explica. “Lutamos contra o inimigo israelita e contra os americanos também”.

Quando questionado sobre a acusação de que o Hezbollah é uma organização terrorista, defende que “são eles [Israel e os Estados Unidos]” que vêm matar o seu povo e destruir a sua terra. “Eles ocuparam a Palestina e agora querem expandir-se e tomar o Líbano, a Síria, o Iraque, até chegarem ao Irão. Não vão conseguir. Aconteça o que acontecer, continuaremos a lutar, mesmo que seja com as nossas vidas. Até ao último momento, até à última gota de sangue”.

Abu Hassan na sepultura dos seus dois filhos no cemitério de Dahieh, na periferia de Beirute. (Foto: Bruno Amaral de Carvalho)

Ali ao lado, de túmulo em túmulo, Khalil, responsável pela manutenção deste cemitério, vai descrevendo quem está enterrado neste lugar. Entre os mais famosos está Hadi Nasrallah, o filho do histórico líder do Hezbollah que morreu aos 18 anos a combater as forças israelitas ao serviço do Hezbollah em 1997. Também aqui esteve enterrado provisoriamente Hassan Nasrallah, depois de ter sido morto por Israel em 2024, precisamente neste bairro, com a organização xiita a decidir manter a sepultura para memória futura.

Depois de vários dias de intempérie, o sol regressa a Beirute. Enormes esqueletos de edifícios destruídos preenchem a paisagem de Haret Hreik. Numa janela, há um cortinado que dança ao sabor do vento. No mesmo prédio, uma varanda está segura apenas por um ferro torcido. Algures, um homem tenta retirar alguns dos seus pertences de um apartamento destruído. Embora o cenário seja de muita destruição, a vida persiste. Por todas as partes, há comércios abertos e o trânsito infernal de Beirute não é alheio a esta parte da periferia.

Ghaleb Abu Zainab observa os escombros de um edifício que desapareceu completamente debaixo das bombas israelitas. Ali vivia a sua família e os seus vizinhos. Mas Ghaleb não é um libanês anónimo. É um dos mais importantes dirigentes do Hezbollah, membro do Conselho Político, um dos órgãos da direção sob a liderança de Naim Qassem, o secretário-geral da organização. Acede a falar com Nós Diario sobre o significado deste ataque. Conta que era um edifício civil, com muitas lojas, onde a população fazia compras.

“Aqui vivia parte da minha família. Eu fui criado nesta zona. Quando chegámos aqui, há muito tempo, a maior parte desta zona ainda era um pomar. Todas as minhas memórias estavam aqui”, recorda.

Agora, quando visita este lugar, vive uma mistura de sentimentos porque perdeu esse património afetivo. Nesta área, mais de 20 familiares seus perderam as suas casas. “Este é o efeito da agressão israelita. É isto que faz, desloca as pessoas à força. Mas não sabem que isto aumenta a força da presença das pessoas. Quanto aos meus sentimentos pessoais, sinto-me triste por tudo. Pelas paredes, pelas portas, pelas memórias. Estavam em todos os recantos da casa. Mas não apenas aqui. Eu sou de uma aldeia do sul, que foi completamente arrasada. Lá não há uma única casa de pé. Querem controlar o nosso país e criar novas memórias, as suas. Apesar de toda esta destruição, acabaremos por reconstruir e preservar as nossas memórias. Talvez daqui a um ou dois anos, quando nos voltar a visitar, a situação será diferente. Vamos colocar uma parte da nossa alma nestas casas. Para vivermos com dignidade. Longe do inimigo israelita”, garante.

“Ainda têm medo de que Israel volte a atacar “

Ahmed, um motorista de 50 anos, explica que não é sempre assim. De noite, a maioria da população desaparece do bairro. “Ainda têm medo de que Israel volte a atacar e continuam a viver em centros de refugiados ou em casas de familiares”, explica. No mesmo dia em que Nós Diario visitou Haret Hreik, as forças israelitas lançaram três mísseis sobre o bairro a partir de um navio ao largo do Líbano.

O alvo foi um edifício de 10 andares que ficou parcialmente destruído, junto de uma escola. Este ataque representou a primeira violação do cessar-fogo em Beirute depois de várias semanas de calma, apesar das violações diárias por parte de Israel no sul do Líbano. O objetivo era matar o líder das unidades de elite do Hezbollah, as forças Radwan, que estão a dar dores de cabeça na fronteira à invasão israelita. No ataque, morreram duas pessoas e cerca de 20 ficaram feridas. Milhares voltaram a fugir do bairro para procurar refúgio no centro de Beirute.

Hezbollah causa baixas a Israel

Nos últimos, a chuva intensa e o vento jogaram a favor da organização xiita. Para a resistência libanesa, a adversidade meteorológica é, na verdade, uma vantagem tanto para atacar as posições israelitas como para evitar a vigilância dos drones e conseguir substituir combatentes na linha da frente. A resistência libanesa tem dado muitas dores de cabeça, dizem vários meios de comunicação social de Israel. Por exemplo, o Yedioth Ahronoth garante que os soldados israelitas são pouco visíveis porque se refugiam em bunkers para evitarem os drones do Hezbollah. Já o libanês L’Orient Today garante que a resistência libanesa conseguiu adaptar-se às novas circunstâncias recorrendo a drones produzidos no seu próprio território guiados por cabos de fibra ótica para evitar a interferência eletrónica dos seus inimigos. A imprensa israelita e vários observadores, assim como especialistas militares, têm criticado a falta de preparação do exército para fazer frente a esta ameaça.

Preocupação” da China com a situação no Líbano

O embaixador da China junto das Nações Unidas, Fu Cong, afirmou que é necessário reavaliar a decisão do Conselho de Segurança da ONU de pôr termo ao mandato da missão de manutenção da paz de longa data no Líbano, que deverá terminar ainda este ano. Em declarações aos jornalistas a passada semana na sede das Nações Unidas  em Nova Iorque, o embaixador Fu Cong expressou a profunda preocupação do Governo da China com a situação atual no Líbano, numa altura em que Pequim assumiu a Presidência rotativa do Conselho de Segurança para o mês de maio.

“Não existe um cessar-fogo genuíno”

Aliás, Fu Cong observou ainda que não existe um cessar-fogo genuíno no Líbano, descrevendo o atual estado do conflito como apenas um “fogo mais fraco”.“Acreditamos, de facto, que devemos rever a decisão de retirar a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil)”, afirmou Fu Cong. “Penso que, pelo menos, a opinião da esmagadora maioria do Conselho de Segurança é que este não é o momento certo para retirar a Unifil dessa parte do país“, afirmou Fu

A China aguarda um relatório do secretariado das Nações Unidas, previsto para o mês de junho, “antes de tomarmos a nossa posição”, acrescentou. Assim, Fu Cong afirmou ainda que “cabe a Israel pôr fim a este bombardeamento do Líbano”. “A proteção de civis em conflito armado é uma linha vermelha do direito internacional”, sustentou. Esse enquadramento permite a Pequim unir o frente libanês com o seu discurso global: condenação de ataques a civis, defesa de soberania e pressão para que o conflito não escale.

Fonte aqui

Mas que grande chuto no pacote – laboral – do Luís

(José Pendão, in Facebook, 07/05/2026, Revisão da Estátua)


A Estátua não resiste em sublinhar a qualidade argumentativa e factual deste texto, ainda por cima ilustrada com dados estatísticos, obtidos em publicações emanadas de entidades que, estão longe de enviezamento em prol das posições dos trabalhadores.

E por isso, os meus parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 08/05/2026)


De tempos a tempos, Portugal exuma uma ideia que já foi enterrada em meia dúzia de países e trata-a como se fosse novidade — com a devoção dos que confundem amnésia com inovação. A ideia de que “flexibilizar a legislação laboral aumenta os salários” é uma dessas relíquias. Sobreviveu à troika, sobreviveu à geringonça, sobreviveu à pandemia, e reaparece agora — perfumada, com PowerPoints e nome de batismo: “Trabalho XXI — Flexibilizar para Valorizar e Crescer.”

Reparem no verbo. Não é “flexibilizar e valorizar”. É “flexibilizar para valorizar”. A preposição carrega a promessa causal. A gramática faz o trabalho que a evidência não consegue.

A Ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho — que tem a rara distinção de ser simultaneamente professora de Direito do Trabalho e autora de uma reforma que qualquer manual de Direito do Trabalho desaconselharia — apresentou o anteprojeto com a serenidade de quem anuncia uma cura.

O diagnóstico: Portugal tem “um sistema excessivamente rígido”.

A terapia: mais de cem alterações ao Código do Trabalho que, no essencial, facilitam o despedimento, alargam a precariedade contratual, e reduzem obrigações das empresas — incluindo, num rasgo de génio, cortar para metade a formação contínua obrigatória nas microempresas. A promessa é que tudo isto nos aproximará da Europa que funciona. Pois bem. Olhemos então para essa Europa. Toda ela. E com números.

A OCDE construiu ao longo de décadas o mais completo índice de Legislação de Proteção do Emprego. Os dados revelam um padrão que deveria, no mínimo, obrigar a uma pausa antes de se repetir a ladainha da flexibilidade como panaceia.

Os Países Baixos e Portugal são dois dos quatro países da OCDE com maior proteção contra o despedimento individual. Partilham a mesma prateleira de rigidez. E é aqui que a narrativa tropeça nos seus próprios pés.

Porque, nos Países Baixos, o salário bruto médio mensal é de €5.190. Em Portugal, é de €1.694. O holandês leva para casa, líquido, €3.771 por mês. O português, se ganhar a média — e metade não ganha — fica-se pelos €1.200 e pouco. A mesma rigidez legislativa. Um abismo de três para um nos salários. Se a legislação laboral fosse a variável decisiva, os dois países estariam lado a lado. Não estão. Não estão nem perto.

E os Países Baixos não são um acidente estatístico. A Islândia lidera a tabela salarial da OCDE. A Dinamarca está no topo europeu. A Noruega, a Suécia, a Bélgica — todos nos lugares cimeiros, todos com legislação laboral mais rígida do que a dos Estados Unidos, esse paraíso da flexibilidade onde a dispersão salarial é três vezes superior à dos países nórdicos.

Mas o caso verdadeiramente revelador — e o mais desonestamente citado — é o da Dinamarca. Pronunciam “Dinamarca” como quem saca de um ás de trunfo e se recosta na cadeira à espera dos aplausos. O nosso Leitão Amado, então, os olhos até brilham. Vejam a Dinamarca, diz ele com ar embevecido. Citam-na, porém, amputada.

Sim, o modelo dinamarquês permite que os empregadores contratem e despeçam com facilidade. Os custos de despedimento são baixos. Os litígios são raros. Até aqui, o argumento brilha. Mas a Dinamarca não é um ponto. É um triângulo. E quem cita apenas um dos lados está a fazer geometria com um vértice — o que, em rigor, não é geometria nenhuma. É apenas um ângulo, e na maioria das vezes, obtuso.

O triângulo chama-se flexicurityflexisegurança – e funciona assim.

Primeiro lado: flexibilidade na contratação e despedimento.

Segundo lado: proteção social robusta para quem perde o emprego — até dois anos de subsídio generoso, financiado por uma despesa social que atinge 26,2% do PIB, entre as mais altas do mundo.

Terceiro lado: investimento massivo em programas ativos de emprego — formação, requalificação, apoio à inserção — onde a Dinamarca gasta mais do que qualquer outro país da OCDE.

Os três lados são indissociáveis. Retirem um e o triângulo colapsa.

E há mais. Na Dinamarca, 82% dos trabalhadores estão cobertos por negociação coletiva. Os salários não são decididos pelo mercado desregulado nem por decreto governamental — são negociados entre os sindicatos (sim, esses bandidos que representam 67% dos trabalhadores, a mais alta taxa de sindicalização na Europa) e as associações patronais, sector a sector, profissão a profissão.

Não existe sequer salário mínimo legal, porque as bases de negociação coletiva são tão elevadas que o tornam supérfluo: o mínimo negociado ronda os 15 euros por hora. O salário bruto médio mensal é de €5.459. O PIB per capita é 82% superior à média europeia. O coeficiente de Gini — que mede a desigualdade — é o sétimo mais baixo da União Europeia. E a taxa de emprego é de 76,6%, acima da média comunitária. Eis um país que é simultaneamente flexível, igualitário, produtivo e com salários elevados. Mas que o é por causa do triângulo inteiro — não por causa de um dos seus lados.

Onde está, no “Trabalho XXI”, o segundo lado? E o terceiro? Em lado nenhum.

O que se propõe é a perna da flexibilidade sem a perna da segurança. É como copiar o manual de voo sem comprar o avião — e pedir a trabalhadores que ganham €1.050 por mês que batam os braços e levantem voo.

Olhemos agora para os Países Baixos, porque o caso holandês destrói o argumento da rigidez de um ângulo diferente e igualmente devastador. Os Países Baixos têm um dos mercados laborais mais regulados da OCDE — e são um dos países mais ricos e mais produtivos da Europa.

O segredo? Não é a ausência de regulação. É a qualidade da regulação e, sobretudo, a negociação coletiva. Nos Países Baixos, entre 75% e 85% dos trabalhadores estão cobertos por convenções coletivas de trabalho. Sim, a união faz a força, quem diria?

Os salários são negociados ao nível sectorial, entre sindicatos e associações patronais, num modelo tripartido onde o governo, os empregadores e os trabalhadores negoceiam em conjunto. As convenções coletivas cobrem não apenas salários, mas férias, pensões, formação, horários, licenças parentais. E o Estado pode estender as convenções negociadas a todo um sector — garantindo que mesmo empresas sem sindicatos cumprem os mesmos padrões. O salário mínimo legal, que existe, é de €2.070 por mês, quase duas vezes e meia o mínimo português. E em 2024, os aumentos salariais negociados por convenção coletiva atingiram 7,1%.

Portugal, com rigidez laboral comparável, tem uma cobertura de negociação coletiva residual, empresas demasiado pequenas para negociar, e um tecido económico onde o patrão individual decide o que paga — frequentemente o mínimo legal e nem um cêntimo mais. Não é a legislação que nos separa dos holandeses. É tudo o resto.

Mas talvez o argumento mais honesto fosse olhar não para quem não desregulou, mas para quem desregulou. Porque outros países europeus tentaram exatamente a receita que o Governo agora propõe. E os resultados estão à vista.

Em Itália, as reformas dos anos 2000 facilitaram contratos temporários e reduziram a proteção dos novos trabalhadores. Os jovens encontraram emprego mais depressa, sim — mas com contratos atípicos e salários mais baixos que os de quem tinha entrado antes deles. Mais rápido a entrar. Pior a ficar. As reformas parciais criaram um mercado dual: uma classe de protegidos, outra de descartáveis. Em Espanha, o mesmo padrão. Por toda a Europa, os dados de dezanove países mostram a mesma história: onde se desregulou parcialmente, a precariedade juvenil aumentou e o desemprego não diminuiu.

Isto não é teoria nem especulação. Aconteceu há mais de vinte anos. Está medido. E nós, com o atraso pontual que nos caracteriza, preparamo-nos para repetir em 2026 o que já correu mal em Roma e Madrid antes de o iphone existir.

A evidência agregada é ainda mais demolidora: reduções na proteção laboral não apresentam relação significativa com o crescimento do PIB — mas estão significativamente correlacionadas com reduções na quota salarial. Tradução: flexibilizar não faz a economia crescer. Faz os trabalhadores ficarem com uma fatia mais pequena do bolo. O bolo pode até manter o tamanho. Mas quem corta as fatias muda as proporções.

E chegamos ao coração do país. O problema de Portugal não é a rigidez. É a produtividade. E a produtividade não se resolve com mais horas de trabalho e menos formação.

O próprio Ministério do Trabalho admite que, a produtividade por hora trabalhada, em Portugal, permanece 28% abaixo da média europeia. Os salários estão 35% abaixo. Na UE, cada trabalhador contribui em média com 74 mil euros para o PIB. Em Portugal, 48 mil — embora convenha lembrar que uma fatia generosa desses trabalhadores bem mais produtivos é constituída por portugueses que emigraram e que, curiosamente, se tornaram produtivos no instante em que atravessaram a fronteira. O mesmo trabalhador, a mesma ética, a mesma competência. Mudou o país, mudou o salário. Mudou a produtividade. Mas o problema, garantem-nos, é o Código do Trabalho.

Entre 2015 e 2024, o PIB cresceu 21% — mas apenas 5% veio da produtividade. O resto veio de mais gente a trabalhar. Não trabalhamos melhor. Trabalhamos mais.

E eis o dado que destrói a narrativa inteira: em vinte anos, a produtividade portuguesa cresceu 49,9% mas os salários reais cresceram apenas 39%. Os dados são da OCDE — não de um panfleto sindical. A diferença — dez pontos percentuais de riqueza criada — migrou para as margens de lucro. Para os donos do capital.

Em 2022, Portugal, Espanha e Itália foram os únicos países da OCDE onde a produtividade subiu enquanto os salários reais desceram. Os trabalhadores produziram mais e receberam menos.

A Comissão Europeia recomenda o exato oposto do que o Governo propõe: o investimento em inovação, a remoção de barreiras à expansão empresarial, o reforço do capital humano. Economistas da Universidade de Chicago — dificilmente um bastião do marxismo — concluíram que a menor desigualdade nos países nórdicos resulta da pré-distribuição igualitária dos rendimentos via acordos coletivos, regulação laboral e investimento em formação. Não é o Estado que corrige depois. São as regras do jogo que impedem a desigualdade antes. Na Dinamarca, com negociação coletiva a cobrir 82% dos trabalhadores. Nos Países Baixos, com convenções sectoriais que abrangem até 85%. Em Portugal, com um “Trabalho XXI” que propõe enfraquecer precisamente essas regras.

O que está em causa não é uma questão técnica sobre artigos do Código do Trabalho. É uma escolha civilizacional, feita em nome de quem trabalha, contra quem trabalha, por quem nunca terá de viver as suas consequências.

A Dinamarca construiu um triângulo: flexibilidade, proteção social, investimento em capital humano. Os Países Baixos construíram outro: regulação exigente, negociação coletiva abrangente, parceria tripartida. Um mais flexível outro mais rígido mas ambos os modelos produzem salários três vezes superiores aos portugueses. Ambos exigem, porém, algo que o “Trabalho XXI” não oferece: um Estado que gasta, sindicatos que negoceiam, e uma classe empresarial que aceita que os ganhos de produtividade se reflitam nos salários de quem os origina.

Portugal está prestes a copiar o capítulo da flexibilidade e a arrancar as páginas da proteção. A Itália e a Espanha fizeram exatamente o mesmo — e colheram o pior dos dois mundos: precariedade de mercado flexível sem salários de mercado flexível. O Governo sabe disto. A ministra, sendo catedrática, sabe disto melhor do que a maioria. E é precisamente por isso que o mais perturbador não é a ignorância — seria desculpável — mas a escolha deliberada de citar a Dinamarca sabendo que se copia apenas o vértice que favorece quem emprega. Os outros dois vértices, os que protegem quem trabalha, não ficaram esquecidos numa gaveta. Foram cirurgicamente removidos. Não é um descuido. É um projeto.

Flexibilizar para valorizar, dizem. Mas reparem bem em quem diz. Reparem na ministra que nunca teve um contrato a termo. No ministro da Presidência que nunca dependeu de um banco de horas. Nos comentadores que nunca receberam €1.050 por mês. Na classe patronal que aplaude de pé uma reforma que lhe permite despedir mais barato, contratar mais precário, formar menos, e chamar a tudo isto “modernização.” Reparem em quem ganha e em quem perde. Reparem, sobretudo, em quem fala e em quem se cala.

A história e os dados são claros. Flexibilizar sem proteger não valoriza ninguém — apenas transfere o risco de quem tem capital para quem tem apenas o seu trabalho. É empobrecer com verniz técnico, precarizar com linguagem de gestão, e chamar “mérito” ao abandono. E quando um dia, daqui a dez anos, alguém fizer o balanço e concluir que os salários não subiram, que a produtividade não melhorou, e que a precariedade se consolidou — podem ter a certeza de que os mesmos que hoje aplaudem estarão nos mesmos painéis televisivos a explicar que o problema é não termos flexibilizado o suficiente.

É assim que funciona. É sempre assim que funciona.

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A liturgia da obediência

(João Ferreira, in Facebook, 07/05/2026, Revisão da Estátua)

Ao centro o Presidente do Parlamento da Ucrânia recebido na Assembleia da República. O currículo antidemocrático – mesmo fascizante – do cavalheiro pode ser consultado aqui.

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Há momentos em que o silêncio pesa menos do que o aplauso. E o que se viu na Assembleia da República foi precisamente isso: o peso insuportável da submissão travestida de virtude.

O presidente do parlamento ucraniano foi recebido de pé, ovacionado como herói, símbolo de uma causa que nos é vendida como sagrada, intocável, moralmente pura. E eu pergunto: herói de quê? De que memória? De que verdade?

Perdoem-me, mas eu não aplaudo. Eu sinto vergonha. Vergonha de ver quase todo o espectro político português alinhado numa coreografia servil, incapaz de questionar, incapaz de pensar para além do guião imposto por Bruxelas, Washington e pela máquina mediática ocidental.

E ironicamente, no meio desta cegueira coletiva, foi o Partido Comunista Português — partido cuja visão ideológica rejeito frontalmente — o único a manter-se sentado. O único a recusar participar nesta liturgia da propaganda. E isso diz muito. Diz demasiado. Quando um partido que sempre combati politicamente demonstra mais independência de pensamento do que quase toda a restante classe política, algo está profundamente errado.

Vivemos numa época em que a ignorância já não é acidente: é método. Repetir slogans substituiu pensar. E qualquer tentativa de contextualizar o conflito ucraniano é imediatamente catalogada como traição, heresia ou cumplicidade. Fala-se de democracia, mas cala-se a complexidade. Fala-se de liberdade, mas censura-se o contraditório. Fala-se de paz, enquanto se financia guerra.

E o mais grotesco é assistir a tantos, embriagados por propaganda, a chamar “comunista” à Rússia atual, revelando um analfabetismo político quase ofensivo. Confundem categorias. Confundem história. Confundem realidade. Porque foram treinados para reagir, não para compreender.

A propaganda moderna não inventa necessariamente mentiras. Seleciona verdades. Mutila contextos. Fabrica moralidade conveniente. É uma técnica antiga, apenas equipada com ferramentas novas.

E enquanto esta encenação se desenrola, Portugal afunda-se. Salários indignos. Habitação impossível. Serviço Nacional de Saúde em rutura. Jovens a emigrar. Reformados a sobreviver. Mas há sempre dinheiro para guerras externas. Há sempre urgência para conflitos alheios. Há sempre entusiasmo para causas importadas. E para os portugueses? Sacrifício. Resignação. Silêncio.

Chamam solidariedade ao envio de milhares de milhões para alimentar um conflito sem fim, mas esquecem-se da solidariedade básica para com o próprio povo.

Aplaudem longe. Ignoram perto. Aplaudem símbolos. Abandonam pessoas. Perdoem-me, mas eu não consigo alinhar nesta encenação coletiva. Não aplaudo porque pensar ainda não é crime. Não aplaudo porque a consciência pesa mais do que a conveniência. Não aplaudo porque a dignidade começa precisamente onde termina a obediência cega.

E hoje, olhando para aquele hemiciclo de pé, não vi coragem. Vi conformismo. E isso envergonha-me. Mas esta crise não é apenas moral. É também política.

E é precisamente aqui que se revela outra tragédia nacional: Portugal não tem uma força política equivalente ao Vox, não tem uma figura como Matteo Salvini, não tem uma força como a Alternative für Deutschland, nem sequer uma tradição de pensamento estratégico e soberano como a de Charles de Gaulle. Não existe em Portugal uma direita conservadora sólida. Intelectualmente preparada. Culturalmente consciente. Geopoliticamente lúcida.

Existe apenas um agrupamento político em torno de um líder, tratado por muitos como a grande esperança nacional, mas que, olhando friamente, continua mais próximo de um movimento de contestação do que de um verdadeiro partido. Porque um partido exige doutrina. Exige estrutura. Exige coerência.

E o que ali vejo é uma contradição permanente: à direita nos costumes, à esquerda na economia. Uma fórmula politicamente explosiva. Intelectualmente inconsistente. Na prática, estatismo económico revestido de retórica identitária. E isso não é uma direita estruturada. É improviso político.

Na geopolítica, a confusão é ainda mais evidente. Prefere-se ouvir ativistas e comentadores como Irineu Teixeira, alinhados com narrativas emocionais, em detrimento de análises estratégicas e militares de homens como Agostinho Costa, cuja leitura do conflito — concorde-se ou não — revelou, ao longo destes últimos anos, uma consistência que muitos dos seus opositores nunca conseguiram acompanhar. E isso é revelador. Porque uma direita séria escolhe a análise sobre a agitação. Escolhe a estratégia sobre a histeria. Escolhe a realidade sobre a propaganda.

Quanto ao líder desse agrupamento, reconheço-lhe uma utilidade política inegável. Na oposição, muitas vezes acerta no diagnóstico. Em muito do que denuncia, concordo. Mas a política mede-se no poder, não no protesto. E é precisamente aí que nasce a minha desconfiança.

Porque demasiadas vezes vi, dentro desse mesmo espaço político, a distância brutal entre o discurso e a prática. E quem conhece por dentro aprende depressa uma verdade simples: há quem combata o sistema apenas até ter oportunidade de o administrar.

Portugal não precisa de salvadores. Precisa de uma direita consciente. Séria. Coerente. Estruturada. E isso continua, infelizmente, por nascer.

E há algo que é preciso ser dito com clareza: não culpem a direita pela queda da Europa. A direita soberanista e conservadora não governa a Europa. Não controla a União Europeia. Não define o rumo da Comissão Europeia. Não molda o pensamento dominante em Bruxelas.

A responsabilidade pelo estado atual da Europa pertence a quem a governa há décadas. Aos arquitetos deste modelo. Aos sacerdotes deste dogma. Aos administradores deste declínio.

E o mais trágico é que muitos ainda não perceberam que a Europa — leia-se, a União Europeia — entrou numa trajetória de isolamento estratégico, declínio económico e irrelevância geopolítica. Como no Titanic: continuam a tocar música e a dançar, mesmo com a água já pelos pés.

E esse paralelismo é brutalmente exato. Porque, no início deste século, muitos acreditaram que o mundo caminhava para a consolidação definitiva de uma ordem unipolar, assente na hegemonia absoluta dos Estados Unidos e na expansão do seu modelo político, económico e militar. Parecia o encerramento da História. Um centro de poder. Uma narrativa dominante. Um modelo universal imposto como inevitável.

Mas a História raramente respeita guiões. A Rússia travou esse avanço estratégico. A China venceu no campo onde verdadeiramente se decide o poder duradouro: economia, indústria, tecnologia e planeamento estratégico. A Índia emergiu como potência civilizacional e económica. E o chamado Sul Global despertou para uma realidade simples: o mundo não precisa de um único centro de gravidade. Hoje estamos a viver as dores de parto dessa transformação histórica. A passagem de um mundo unipolar para um mundo multipolar. O fim progressivo da hegemonia absoluta norte-americana.

E é precisamente aqui que a União Europeia revela toda a sua fragilidade estratégica. Sem autonomia política real. Sem independência energética. Sem soberania militar efetiva. Sem visão própria. Bruxelas continua presa a uma lógica atlântica que já não corresponde à realidade emergente do século XXI. Aposta num paradigma em desgaste, enquanto o centro de gravidade mundial se desloca para Oriente e para Sul.

Enquanto insistimos em discursos moralistas, superioridade civilizacional e arrogância burocrática, outros avançam. A China avança. A Rússia reorganiza-se. A Índia afirma-se.

E a Europa? Debate regulamentos. Produz burocracia. Consome propaganda. E continua a olhar para o mundo com a arrogância colonial expressa por Josep Borrell, quando afirmou que “A Europa é um jardim e o resto do mundo é selva”.

Essa frase não foi apenas infeliz. Foi reveladora. Reveladora de uma mentalidade que ainda não percebeu que o mundo mudou. Mudou o eixo do poder. Mudou a economia. Mudou a ordem internacional.

E quem paga esse erro? Os povos europeus. Com inflação. Com energia cara. Com perda industrial. Com estagnação económica. Com perda de competitividade.

E, no entanto, grande parte dos media prefere maquilhar as consequências, anestesiar a opinião pública e proteger a narrativa dominante. Porque admitir o erro seria reconhecer que a Europa entrou numa guerra económica, estratégica e civilizacional para a qual não estava preparada. E pior: devido a escolhas que nem sequer servem necessariamente os interesses dos povos europeus.

Este sonambulismo estratégico, esta cegueira voluntária, esta embriaguez ideológica da Europa, vai sair-nos cara. Muito caro. Porque a História não espera por civilizações adormecidas. E quem insiste em dormir enquanto o mundo muda, acaba inevitavelmente por acordar derrotado.

Fonte aqui.