Quem lucra com o aumento dos preços dos combustíveis

(Eugénio Rosa in Resistir, 24/09/2026)


– Petrolíferas obtêm um aumento de receita de €327 milhões/mês e o Estado de €3 milhões/mês em relação aos preços em vigor no início da guerra contra o Irão.

– Todo esse acréscimo de custos é suportado pelas famílias e empresas portuguesas.


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Os leitores desculpem por estar continuamente a desconstruir os aumentos semanais dos combustíveis, mas eles estão a ter consequências dramáticas para as empresas e as famílias.

O aumento dos combustíveis provoca por arrasto o aumento dos preços de todos os bens e até das taxas de juro do crédito à habitação (que não são consideradas pelo INE no cálculo da inflação oficial).

Além disso, a inflação oficial engana, pois a inflação real não é igual para todos os portugueses.

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Proibir, punir e fazer dinheiro

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 23/09/2026, Revisão da Estátua)


A respeito da repressão da palavra, importa ter presente que as chamadas redes sociais ocupam o lugar que outrora coube aos cafés e, antes destes, à praça pública. Nas sociedades antigas ou, se preferirmos, pré-modernas (e pré-industriais), a palavra era, apenas ou quase apenas, a palavra falada; daí a importância que o género político discursivo ocupou na literatura clássica (i.e. na Grécia e em Roma) e a parenética (semões) na literatura sagrada medieval, proferida dos púlpitos ou nas pregações públicas. A opinião pública era não mais que o burburinho que ocorria na praça (ágora ou no forum e, depois, na feira), nos recintos sagrados e nas disputas que se produziam nas assembleias comunais e municipais, ou no adro e recintos fronteiros dos templos.

Como o Estado quase mal intervinha na educação, nem perseguia qualquer esforço pedagógico, a liberdade da palavra era um risco ou uma arriscada liberdade pessoal, como a seu tempo demonstrou com brilhantismo Moses Finley no seu Política no Mundo Antigo. Contudo, para o poder, era difícil controlar a espontaneidade da palavra, da conversa pintalgada de desabafos, intrigas e anedotas maliciosas. A repressão era individualizada e caía sob a forma de prisão e exílio sobre o indesejado propalador de ideias subversivas, chegando mesmo à morte em situações extremas, tal como a imputada «corrupção moral da juventude» que causou a perdição de Sócrates. No que à esfera religiosa respeita, recorria-se a penas espirituais que a Igreja aplicava, as quais, por vezes, acabavam em excomunhão e entrega e condenação ao braço secular da justiça.

Depois, a «opinião pública» passou em crescendo a dominar a leitura e a escrita, pelo que o centro de gravidade das relações entre o Estado e os cidadãos, ou entre os cidadãos entre si, transitou para os jornais-gazetas e os livros. Por mais que o poder quisesse exercer vigilância e aplicar punições, as censuras viam-se a braços com grandes dificuldades, pois o exame prévio ou o nihil obstat eram mil vezes violados pela edição clandestina que não parava de crescer e corria de mão em mão. A censura e as penas aplicadas eram, assim, quase ineficazes.

Hoje, com a transição das galáxias de Gutenberg e de Marconi para a presente galáxia do algoritmo, a opinião pública não é mais a «opinião que se publica» nos jornais, nas rádios e nas TV’s, mas um direito ao alcance de todos. Cada um é um jornal, uma rádio ou uma TV.

Os jornalistas, agentes do poder ou dos poderes em conflito pelo poder, têm sido os mais encarniçados inimigos das redes sociais. Perderam o monopólio da palavra, deixaram de exercer o domínio do discurso, pelo que se compreende a raiva repressora e censória que sistematicamente exibem.

Ora, como a comunicação dita social não é o tão gabado 4º poder, mas a emanação do principal poder que se entranhou e confundiu com o Estado, ou seja, o 4º poder (o poder da Finança), não é de estranhar que esta, detentora da Big Tech, arrepie caminho e queira estrangular a verdadeira opinião pública que lhe fugiu ao controlo.

Estou certo que na actual deriva autoritária, censória e estranguladora da palavra que tomou o liberalismo, as redes sociais serão eliminadas ou postas a render por pagamento de perfil, por forma a que a máquina de fazer dinheiro do capitalismo não só domine, mas ganhe com o negócio da palavra algemada.

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As veias (re)abertas da América Latina

(Manuel Loff, in Público, 22/09/2026)


O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.


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Ainda sem sabermos se Lula consegue voltar a travar o assalto do neofascismo bolsonarista, reflitamos sobre a natureza da nova vaga ultradireitista que está a tomar conta da América Latina.

A reação às experiências progressistas que começaram na viragem do século não começou agora, com os Bolsonaro, Milei, Kast, o salvadorenho Bukele, o equatoriano Noboa, o colombiano Espriella. Se há 20/30 anos foi a vez dos neoliberais (Fernando Henrique Cardoso, Fox, Piñera, Macri), esta nova geração de ultrarreacionários encena essa mistura perversa de sinais exteriores de fortuna, religiosidade estridente e desfaçatez moral, narcisismo trumpista, militares nas ruas e prisões concentracionárias como as de Bukele. Não hesita, como se viu com Bolsonaro, em montar golpes de Estado para conter o “comunismo”, que é aquilo que eles acham já ter sido, com Lula, os Kirchner, Morales, Correa, López Obrador, mais recentemente Boric ou Petro, as políticas redistributivas tipicamente social-democratas, que reforçaram a intervenção social do Estado mas não tocaram na estrutura da propriedade. A desigualdade classista e étnica, que é intrínseca a toda a ordem social das Américas (de facto, de todo o mundo capitalista, colonial e pós-colonial), manteve-se.

Do protetorado imposto (e aceite) à Venezuela pós-chavista até ao desabrido apoio ao Bolsonaro pai e aos filhos Flávio (o agora candidato) e Eduardo (o conspirador exilado nos EUA), o neoimperalismo trumpista tem tudo a ver com isto. Mas há mais do que isso. E é bem visível no caso de Abelardo de la Espriella, o novo Presidente colombiano, advogado de clientes poderosos acusados de ligações a grupos paramilitares, narcotráfico e corrupção. O que prometeu quando tomou posse, a 7 de agosto, diz tudo desta nova vaga fascizante que percorre as Américas: cortar impostos sobre os mais ricos, retomar a guerra civil, reatar relações diplomáticas e comerciais com Israel (rompidas pelo Presidente Petro em protesto por Gaza) e deixar de apoiar a denúncia de genocídio no Tribunal Internacional de Justiça.

Três dias depois, um terramoto matou mais de 400 pessoas no seu país, mas Espriella bloqueou imediatamente a ajuda de centenas de socorristas oferecida pelo México, Brasil e China, para, com toda a pompa, receber 82 membros do Exército de Israel. Um deles, oficial do mesmo exército que matou e deixou soterradas 80 mil pessoas em Gaza, “utilizou como cenário as ruínas do Hospital Universitario del Valle, em Cali, onde havia dezenas de mortos sob os escombros, para gravar a peça de propaganda mais cínica e insultuosa” (Iván Olano, CTXT.ES, 4.9.2026).

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O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e, ao mesmo tempo, encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.

Pergunta Iván Olano: “Por que razão as elites colombianas — e as de muitos outros países — demonstram tanto entusiasmo perante o genocídio perpetrado por Israel em Gaza? Não é apenas por vocação colonial ou por simples obediência aos EUA: é porque isso concretiza as suas fantasias.”

Israel transformou-se, para as direitas dos nossos dias, dos liberais aos neofascistas, naquilo que representou a Alemanha imperial de 1914-18 e a nazi de 1939-45, para as direitas da primeira metade do século XX: um modelo superior de tecnologia da guerra, um supremacismo étnico associado a um discurso religioso obsessivo, que não hesita em recorrer à violência genocida para concretizar um projeto político.

Um nacionalismo religioso sustentado numa “revolução tecnológica” que abre caminho ao que se tem chamado “tecnofascismo”. É isso o que constitui a “israelização” das nossas sociedades. E o que não falta são prosélitos deste modelo, como há dias Henrique Raposo, para quem “a Europa (…) está a aprender com os melhores: Israel”, e se mostra chocado com o “irracionalismo anti-israelita ou mesmo antijudeu que torna impossível as pessoas repararem que Israel é um aliado natural (…) das democracias e que todos nós vamos beneficiar da tecnologia militar israelita?” (Expresso, 18.9.2026)

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990