Um regime

(Henrique Raposo, in Expresso, 31/07/2016)

Quem gere a PJ como se fosse uma taberna só pode ter um destino: rua

(Como o tempo passa! Pela terceira vez desde a origem deste blog – a última já foi há quase dez anos, ver aqui -, publico um texto do Henrique Raposo, que é normalmente um escriba que defende os pontos de vista da direita com os quais não me identifico. Mas, esta análise que ele faz da nossa governação atual – uma espécie de panfleto radical de direita -, pela sua assertividade e contundência levou-me a reincidir.

Estátua de Sal, 04/08/2026)


A origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.


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Eu odiava Sócrates e os seus Governos, porque representavam a bancarrota moral e económica do país. As minhas filhas vão entrar na vida adulta num país ainda marcado pelos erros do socratismo. Eu agora não odeio Montenegro, mas desprezo-o. Sinto por este tempo malsão um desprezo que talvez seja mais grave do que o ódio. É que este desdém já tem um certo cansaço, uma semente de rendição: o país político é porventura irreformável. O ódio do passado continha uma esperança de mudança, reforma, europeização. Estou a ser demasiado pessimista? Não sei, talvez. Talvez seja o efeito destas semanas absolutamente inacreditáveis e anedóticas que envolvem um atrelado do negócio da droga num país sem liderança e oposição. Perante a falta de vergonha ou de noção do Governo, devíamos ter em campo duas forças a zelar pela salubridade do regime. Mas o Palácio de Belém está calado, tal como o Largo do Rato. Porquê?

O Presidente da República já devia ter falado com dureza em relação ao caso Luís Neves/atrelado. Porque não há aqui saídas limpas. De duas, uma: ou a história do atrelado resulta de uma incúria amadora ou resulta de uma história que vai dar cadeia. Seja qual for a verdade, Luís Neves não tem condições para permanecer no cargo. Ou está envolvido num negócio criminoso ou fez um ato de gestão revelador de total irresponsabilidade, desmazelo, amadorismo. Não há terceira via. O Presidente da República tem de sair da sua bonomia, porque o que está aqui em causa é o tal funcionamento das instituições.

Mas avancemos para a origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.

Só que nem um agosto limpa as dúvidas, sobretudo esta: porque é que o primeiro-ministro protege Luís Neves desta maneira? Porquê? Ou seja, o que é que Luís Neves, ex-PJ, sabe sobre Luís Montenegro e Hugo Soares que nós não sabemos? Repare-se nesta cronologia que tresanda.

(1) Havia (há?) investigações em curso sobre Montenegro e Hugo Soares.

(2) Montenegro e Hugo Soares, que estão debaixo de diversos escrutínios, resolvem escolher para MAI o diretor da principal polícia de investigação. Porque é que alguém rasga assim uma regra não escrita e fundamental da democracia? Um polícia não deve ser ministro, e vice-versa.

(3) Descobre-se que o percurso de Luís Neves está cheio de buracos, muitos deles inaceitáveis e que já deviam ter levado à sua demissão. No passado, pessoas foram demitidas por um décimo desta trapalhada. Uma democracia que se leva a sério tem de demitir a pessoa que está no centro da história rocambolesca do atrelado. Uma democracia que se leva a sério não pode passar semanas a fio debaixo deste ridículo.

(4) Contra qualquer lógica, o primeiro-ministro mantém a personagem. O que me leva de novo à pergunta: Luís Neves está no Governo para proteger o primeiro-ministro, escaldado com a história interminável da casa? E, já agora, tendo em conta o silêncio inacreditável do PS, há que perguntar: Luís Neves sabe alguma coisa sobre o PS que nós não sabemos? Esta pergunta seria ilegítima com qualquer outro cenário. Mas sucede que Luís Neves é ex-diretor da PJ. Porque é que o PS, que devia ser o principal partido da oposição preocupado com estes assuntos institucionais, está tão calado? Porque é que o PS parece mais incomodado com o caso Luís Neves do que, por exemplo, com as buscas às Juntas de Freguesia socialistas?

Lamento, mas o que se está a passar é demasiado grave. Os silên­cios são demasiado graves. Quando jornalistas ou intelectuais, como este que aqui vos escreve, têm de preencher um vazio político criado pela incompreensível inércia das instituições, então é porque estamos mesmo muito mal.

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Mas, se me permitem, e para contrariar o pessimismo, há que meter mãos à obra. Não podemos continuar nas mãos de medíocres como Luís Montenegro. Como é que isto se muda? Há que voltar às regras antigas dentro dos partidos. Enquanto as regras de eleição dos líderes partidários continuarem nesta linha das primárias e da democracia direta, então é certo e sabido que vamos continuar nas mãos de gente medíocre que jamais conseguiria um lugar de destaque fora dos partidos. Em qualquer outra atividade humana o sucesso não depende do facto de almoçarmos com 300 concelhias. Montenegro é uma figura medíocre que está no poder porque almoça com 300 caciques locais, é só isto; almoça e promete-lhes cargos e tachos num Estado que existe para satisfazer os membros do PSD e do PS. Quantos tachos não deu já Montenegro dentro da Segurança Social e dos hospitais? Um candidato a primeiro-ministro em Portugal é hoje em dia um sinal de mediocridade, é um refugo. Como é que saímos deste poço? Deixem-me voltar a uma certa esperança da juventude. Quando tinha 27 anos, precisamente, eu escrevi aqui que não podíamos cair na lengalenga do “défice democrático” porque isso iria abrir a caixa de Pandora da democracia pura, isto é, da demagogia e da mediocridade. Os partidos têm de ser instituições afastadas da democracia direta. Havia uma lógica na velha escolha do líder partidário, havia vários filtros até ao congresso decisivo. Agora não há filtros e o resultado está à vista. O triunfo das primárias é o triunfo do que há de mais primário no ser humano. É o triunfo dos fanáticos, como Ventura, e dos chico-espertos, como Montenegro.

Schengen: o cadáver que Bruxelas tenta encobrir

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 04/08/2026, Revisão da Estátua)


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Algumas mentiras acabam por se tornar tradições europeias. Schengen é uma delas. Oficialmente, as fronteiras internas desapareceram. Na realidade, estão a germinar mais rapidamente do que as ervas daninhas.

A Alemanha controla agora quase todas as suas fronteiras terrestres. A França está a prolongar os controlos fronteiriços até 31 de outubro. Os Países Baixos, a Polónia, a Suécia, a Noruega e muitos outros estão a fazer exatamente a mesma coisa. Cada país cita a sua desculpa favorita: imigração ilegal, terrorismo, crime organizado, tráfico humano, segurança nacional… A este ritmo, a única fronteira que se mantém completamente aberta é aquela que separa a retórica de Bruxelas da realidade.

No entanto, a Comissão Europeia continua a repetir o seu mantra: de acordo com o Código de Fronteiras Schengen, estes controlos devem manter-se excecionais, temporários e de último recurso. Isso é admirável. A exceção já dura há anos, é renovada a cada seis meses e, eventualmente, torna-se a forma normal de funcionamento. Até George Orwell acharia o cenário algo inverosímil.

O mais revelador não é o regresso das barreiras, mas sim o que isso significa. Nenhum governo europeu confia mais no seu vizinho para proteger as fronteiras externas da União. Esta é a verdadeira crise. A bela retórica sobre a “solidariedade europeia” evapora-se assim que um ministro do Interior precisa de prestar contas aos seus eleitores, em vez de aos conselheiros de comunicação de Bruxelas.

Schengen tornou-se um zombie administrativo. Legalmente, ainda respira. Politicamente, está em estado terminal. As instituições europeias continuam a organizar o funeral… enquanto explicam que o paciente está em excelente estado de saúde.

E enquanto Bruxelas afirma que tudo está perfeitamente sob controlo, os Estados-membros estão a restabelecer postos de controlo fronteiriço, um após outro. Um feito burocrático, digno dos maiores ilusionistas: conseguir demonstrar que as fronteiras já não existem… enquanto milhares de polícias são mobilizados para elas.

Em última análise, Schengen resume na perfeição a União Europeia contemporânea. Quanto mais um sistema falha, mais os seus líderes celebram o seu sucesso. Quanto mais fronteiras reabrem, mais se fala de livre circulação. Quanto mais os Estados-membros reivindicam a sua soberania, mais Bruxelas proclama a integração.

O mais irónico é que ninguém parece disposto a pronunciar as palavras que se tornaram tabu: Schengen está morto. Oficialmente, está simplesmente a beneficiar de uma “prorrogação temporária devido a circunstâncias excecionais”. Na linguagem europeia, isto ainda é considerado um sucesso.

5 aspectos da crise de Ceuta que a imprensa europeia evita discutir

(Lucas Leiroz, in S. C. F., 01/08/2026)


O caso deve ser analisado sob uma ótica muito mais profunda do que a mera demagogia liberal humanitária.


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Ceuta está no centro das manchetes, mas o problema está longe de começar ou terminar naquela pequena cidade espanhola encravada no norte da África. O que se viu nos últimos dias foi apenas mais um capítulo de uma crise que a Europa insiste em tratar como exceção, quando na realidade ela já se tornou parte da nova normalidade do continente.

Durante anos, governos europeus preferiram discutir imigração quase exclusivamente em termos morais. Falar de fronteiras passou a ser quase um tabu. Questionar políticas migratórias passou a ser confundido com hostilidade aos próprios migrantes. Enquanto isso, o problema cresceu silenciosamente até alcançar um ponto em que os fatos já não podem mais ser ignorados.

O primeiro fato é que a resposta do governo espanhol evidencia os limites de uma política migratória excessivamente dependente de uma lógica humanitária. O governo de Pedro Sánchez construiu boa parte de sua imagem internacional em torno da defesa dos direitos humanos e da solidariedade aos migrantes. Paralelamente, organizações da sociedade civil favoráveis à ampliação das políticas de acolhimento ganharam espaço no debate público. A consequência, segundo seus críticos, foi o enfraquecimento dos mecanismos institucionais de soberania e segurança e a diminuição da capacidade do Estado de controlar efetivamente suas fronteiras.

O segundo ponto diz respeito à natureza do fluxo migratório. É importante distinguir imigração irregular de refúgio. O direito internacional estabelece critérios objetivos para reconhecer uma pessoa como refugiada, relacionados à perseguição e ao risco concreto à vida ou à liberdade, ademais de situações de guerra ou catástrofe que tornem inviável a vida na terra de origem. Nada disso parece estar acontecendo no Marrocos. Muitos dos que chegam a Ceuta parecem estar motivados principalmente por razões muito distintas da proteção internacional prevista nas convenções sobre refugiados. Isso exige que o debate seja conduzido com precisão jurídica e política.

Há ainda uma dimensão que raramente recebe atenção. Nos estudos contemporâneos de segurança internacional, cresce o debate sobre a possibilidade de fluxos migratórios serem utilizados como instrumentos de pressão política. Em determinadas circunstâncias, governos podem facilitar, direcionar ou explorar movimentos populacionais para criar dificuldades a outro país, pressionar negociações diplomáticas ou gerar instabilidade. Em outras palavras, a migração também pode integrar estratégias de guerra híbrida. Isso não significa que toda crise migratória seja deliberadamente planejada, nem que os próprios migrantes tenham consciência de qualquer estratégia. Significa apenas que grandes deslocamentos populacionais podem produzir efeitos geopolíticos relevantes e, justamente por isso, interessam aos Estados.

Essa discussão leva ao terceiro fato. A crise de Ceuta não pode ser analisada isoladamente das transformações estratégicas ocorridas no Norte da África nos últimos anos. Marrocos aprofundou sua cooperação com Israel após os Acordos de Abraão, ampliando relações em áreas como defesa, inteligência e tecnologia. Há evidências públicas de que Israel tenha participado da atual crise migratória, inclusive com publicações nas redes sociais por parte de oficiais israelenses (e seus familiares) sugerindo que um evento desse tipo “poderia acontecer”.

O quarto aspecto revela uma contradição recorrente no debate político europeu – e ocidental como um todo. Parte da esquerda mantém um discurso fortemente favorável à causa palestina e critica duramente Israel, mas frequentemente trata a questão migratória apenas sob uma perspectiva moral (pseudo-) humanitária. Ao mesmo tempo, pouco se discute o fato de que Marrocos desenvolveu relações estratégicas importantes com Israel e de que a própria Espanha mantém laços umbilicais com o conjunto das potências ocidentais. A política internacional não se organiza segundo os discursos performáticos que predominam nos pronunciamentos públicos e viralizam nas redes sociais. Agora, a esquerda liberal não sabe mais quem apoiar entre uma Espanha “pró-Palestina” (da boca para fora) e uma horda de invasores ilegais (de um país de “Terceiro Mundo”, o que significa automaticamente “vítima” para o vocabulário ideológico esquerdista).

O quinto fato talvez seja o mais importante. Ceuta dificilmente será um episódio isolado. A Europa enfrenta envelhecimento populacional, desaceleração econômica, polarização política e pressões migratórias permanentes em suas fronteiras. Se essas questões continuarem sendo tratadas apenas por meio de discursos simbólicos, novas crises tendem a surgir – até que eventualmente a substituição populacional europeia seja uma realidade concluída.

A discussão sobre imigração precisa deixar de ser apenas um tema humanitário para tornar-se uma questão central de soberania, segurança e estabilidade política – o que nós sabemos que não acontecerá se não houver um movimento iliberal suficientemente forte para varrer a agenda de Bruxelas de todo o continente europeu.

Fonte aqui