Sebastián Pereyra no meio do fogo

(Francisco Louçã, in Público, 26/06/2017)

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Francisco Louçã

Do nosso correspondente na Andaluzia (ou em Madrid, não se sabe) – Património universal da UNESCO, a reserva de Doñana está a arder há vários dias. No terreno, é o caos. Já foram retiradas duas mil pessoas e há estradas fechadas que isolam 50 mil pessoas na estância turística de Matalascañas. Segundo um jornal de Madrid, parece que a localidade de Mazagón “praticamente se esvaziou de gente”. E ainda se espera que algum dirigente partidário anuncie suicídios imaginários.

Várias fontes anónimas confirmaram a este jornalista, também anónimo, que estão a ser preparadas desculpas esfarrapadas para proteger a incompetência das autoridades. Escreve por exemplo o PÚBLICO em Lisboa: “‘Há um vendaval’, disse por telefone ao El Pais, a partir do local, Juanjo Carmona, da organização de defesa do ambiente WWF, sem que quase fosse possível perceber as suas palavras, por causa do vento”. Um responsável ambiental do governo da Andaluzia, que vai pelo nome de José Fiscal, disse que “tudo aponta que a mão humana esteja por detrás” do incêndio, pois que “ontem à noite não se detectou nenhum raio na zona”. Vento a mais e fogo posto, são as desculpas de sempre.

O meu colega português e quase homónimo Sebastião Pereira, também ele sob pseudónimo, encontrou a mesma muralha de justificações no caso do incêndio luso de Pedrógão Grande. Fogo quente, vento forte e impreparação dos meios locais também foram evocados. Do mesmo modo, as autoridades da Andaluzia queixam-se agora das condições naturais mas também da letargia do governo central, que no passado recente foi impondo cortes aos serviços florestais, corpo de guardas especializados e outros meios de prevenção e de combate aos incêndios.

No meio deste labirinto de justificações, admitem as nossas fontes anónimas que a desastrosa gestão da tragédia poderia por fim à carreira política do primeiro-ministro Mariano Rajoy, que tem sobrevivido à prisão de alguns dos dirigentes do seu partido por acusações de corrupção, mas que dificilmente escaparia à condenação da opinião pública pela inacção na defesa da floresta.

No entanto, alguns comentadores anónimos sugerem que as críticas ao governo Rajoy são inspiradas anonimamente por agentes de Lisboa, dado que o governo luso teria levado a mal a pressão do Partido Popular espanhol que, temeroso sobre o resultado da recente moção de censura e registando a derrota nas primárias do PSOE de Susana Diaz, presidente da Andaluzia, contra Pedro Sanchez, partidário de uma iniciativa parlamentar para afastar Rajoy, procuraria atingir António Costa através do meu colega anónimo e só para evitar precedentes embaraçosos. De facto, o artigo de Sebastião, anónimo, serviu sobretudo para ser citado por alguma imprensa portuguesa como prova da vaga de indignação que estaria a varrer Espanha, o que é sempre deveras ameaçador, sobretudo se a dita vaga for anónima.

Ainda sob anonimato, as nossas fontes reconhecem que tudo é muito confuso, mas acrescentam com algum indisfarçado pesar que é assim a “entente cordiale” ibérica, na boa tradição de procurar defenestrar os maus exemplos.

Sebastián Pereyra, anónimo

Nota esclarecedora: “Sebastián Pereyra” é um jornalista conhecido da nossa redacção, que escreve sob pseudónimo por razões que não vêm ao caso e que só a incompetência do presente cronista permite vislumbrar no caso vertente. Sebastián prossegue a melhor tradição ibérica de reportagem anónima e, se nos perguntarem , já sabem a resposta, ninguém nos dá lições.

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SAIA AÍ UM PSICÓLOGO PRÓ PASSOS!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 26/06/2017)

 

Passos_no_Coelho

E com urgência! É que eu temo pelo seu futuro. Não político, porque desse estou-me completamente nas tintas, mas psicológico! Temo pelo Passos, mas temo mesmo. E isto é sério: ou o Estado lhe fornece já um psicólogo ou não há mesmo “Estado” que lhe valha.

Porque, na verdade, havendo para o Passos três tipos de “Estados”, por falta de apoio psicológico, ele já não se consegue reconhecer em nenhum. Senão vejamos: Primeiramente o Estado, o Estado propriamente dito, o tal Estado a que ele pertence, nem que seja como Conselheiro ou suposto líder da oposição, mas ao qual não pertence, nem se lembra de ter pertencido; depois há o chamado “Estado das coisas”, das quais demonstra não fazer a mínima ideia e, por fim, o seu “Estado”. E aqui é que está o verdadeiro “busílis” da questão!

Tornando-se um “aproveitador” de um boato que um Provedor lhe soltou ao ouvido, não requerendo a ajuda imediata de um psicólogo, ele disse saber de fonte segura que havia pessoas a suicidarem-se (depois na forma de tentativa apenas) porque o “Estado” não lhes garantia o apoio psicológico necessário. E que o “Estado” tinha falhado.

E não olhou para si mesmo, como que dizendo: Eu, Psicólogo? Eu não preciso, eu sempre levanto a cabeça e sempre sigo em frente…

Porque, no fundo, no emaranhado de laços que deverão ir lá pela sua cabeça, ele lá pensará e bem: Mas para que diabo serve um psicólogo, se ele só me manda erguer a cabeça e seguir em frente? Isso já eu faço, pensará ele…

Mas lá está, ele é como aqueles animais de raça asinina, que também erguem a cabeça, seguem em frente e coiso mas, com uma pequena diferença: enquanto estes, mesmo que com palas, em enfrentando uma parede arretam, o Passos não: o Passos vai contra ela!

Porquê? Porque em vez de se tornar num “aproveitador” de um Provedor e sem conselheiros argutos ao dispor, que lhe dissessem que, em vez de ir em frente, podia virar à esquerda ou mesmo à direita à mão, ele deveria ter consigo, e sempre, isso sim, um Psicólogo!

Que até, em última análise, dada a precariedade da sua cabeça, por tantos nós entrelaçada, lhe poderia aconselhar uma baixa à Caixa de modo a evitar assim a tal tentada tentativa de esmurraço na parede.

Mas o seu “Estado” falhou, o Psicólogo não lhe enviou e contra a parede o estrepou!

Maldito este “Estado”, diz ele, mas englobando os três: o de todos, o das coisas e o dele! E o Estado desse Costa que tudo açambarcou e só o Provedor boateiro lhe deixou!

De modos que eu só tenho um conselho, um último conselho a dar-lhe: vá uns tempos para umas Caldas!

E “ele” há por aí muitas Caldas: As da Saúde, as do Gerês, as de Vizela, as das Taipas, isto só para falar aqui para norte porque, lá mais para o centro, tem umas famosas: as Caldas da Rainha!

Arranje, portanto, e de uma vez por todas, umas Caldas à medida, mas acompanhado de um psicólogo à séria,

A sério Dr. Passos, é importante que vá uns tempos para uma Caldas, mas…nunca se esqueça do respectivo acompanhamento psicológico!

Mas tudo isto à séria!


Fonte aqui

Perguntas que ardem

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 26/06/2017)

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Passou uma semana e não é mais fácil escrever sobre o incêndio de Pedrógão. No início era a dor, a incredulidade, a incapacidade de encaixar aquele número – 64 -, o pavor daquela estrada. O mais adequado era o silêncio: a capa do DN de segunda-feira, no seu vazio, encenava isso mesmo. Mas os jornais são feitos de palavras, como o resto do jornalismo, como a opinião. Temos de escrever, portanto escrevemos. Mesmo que para dizer o paradoxo – que nada temos para dizer.

Até porque quando escrevi, no domingo, não sabia muito sobre o incêndio, a não ser o número de mortos e que ainda ardia. Não sabia sequer a que horas tinham morrido as pessoas naquela estrada. E não sabia porque ninguém dizia. Nunca vi, nas perguntas aos responsáveis e sobreviventes, alguém pedir uma linha de tempo, questionar: a que horas foi isso? Não: o que vi foi uma desmesurada, desrespeitosa e obscena exploração da dor. Sobretudo nas TV, mas na verdade em quase todos os relatos. Sobre factos puros e duros, que permitam começar a desenhar um mapa do que aconteceu, zero.

Estabelecer uma cronologia é essencial – a coisa mais essencial – para a análise do que se passou. É a partir dela que se pode perceber se era possível ou não evitar aquelas mortes – e quando digo “se era possível” significa, obviamente, se era exigível dadas as circunstâncias (podemos sempre considerar que era possível se os bosques estivessem “limpos”, se as árvores não estivessem perto da estrada e não fossem das que ardem com facilidade, etc). Mas uma semana depois essa cronologia continua a faltar. Alguns jornais e meios tentaram fazê-la, nos últimos dias. Mas são tentativas falhadas, muito incompletas. E, mais grave: ainda não foi tornada pública uma cronologia oficial. Não acho isso normal. Não acho normal que a ministra da Administração Interna diga que ainda não a tem. Como não? Há pessoas que estiveram lá, no meio do fogo, e se salvaram. Será assim tão difícil questioná-las? Há os bombeiros e as comunicações dos bombeiros, às quais ao que parece o Expresso teve acesso, e que descreve como “desesperadas” (não é difícil acreditar: quem não desesperaria perante aquilo?). Há o comando da Proteção Civil que supostamente coordenou tudo. Como, não há uma cronologia?

Também não é normal a resposta que a GNR deu ao primeiro-ministro. Vaga, sem – mais uma vez – cronologia, sem responder diretamente a uma pergunta direta sobre se as pessoas foram encaminhadas para a N236, dizendo que todas as comunicações falharam mas não dizendo durante quanto tempo e se todas ao mesmo tempo, e se isso fez, no entender do comando, a diferença entre salvar ou não aquelas pessoas. Não me espanta isso na GNR: tem uma cultura de falta de transparência e não raro de encobrimento. Por que haveria de ser diferente neste caso?

E já se sabe com certeza que houve falhas do SIRESP. Um sistema de comunicações de emergência que falha numa emergência serve para quê? Falta saber a que ponto falhou. E se há responsabilidades por isso.

Sim, devemos questionar tudo. E exigir. E duvidar. Mas que sentido faz, por exemplo, ter reportagens e entrevistas a assegurar que o incêndio não começou com um raio porque, de acordo com as pessoas da região e a que ligou para o 112, não se ouvia trovoada”, se há especialistas (como Emanuel de Oliveira, consultor na área dos riscos naturais e incêndios florestais) a garantir que um determinado tipo de raio – o “positivo” – pode partir de uma trovoada a dezenas de quilómetros de distância (até 95) e que um raio desses, de acordo com as imagens de satélite meteorológico, caiu às 14.45 de 17 de junho na zona onde o incêndio se iniciou? Não quer isto dizer, obviamente, que a PJ não se pode enganar; porém, para pôr a versão da PJ em causa talvez seja necessário um pouco mais que senso comum sobre trovoadas e relâmpagos, não?

Porque há uma diferença entre questionamento sério e fundamentado e o atiçar da polémica porque sim. Porque há uma diferença entre querer saber e salivar com a hipótese de se estar ante “o fim do estado de graça” do governo Costa; porque há uma diferença entre exigir esclarecimentos e falar de “branqueamento”, como sucedeu, ainda o incêndio lavrava, porque o PR se lembrou de, numa óbvia e compreensível tentativa de sossegar as pessoas, e provavelmente a si mesmo, dizer que “tinha sido feito tudo o que era possível”.

“Se morreram 64 pessoas alguma coisa falhou”, leio repetidamente. Sim, óbvio que muita coisa falhou. Mas isso significa que há culpados? Que têm de rolar cabeças e que já sabemos quais? E não, pedir calma não significa “desdramatizar”. Passos, entre outros, insiste em dizer, desde domingo, que houve “desdramatização”. Onde? De quem?

Como se pode falar de desdramatização depois de ver, na madrugada de dia 18, o secretário de Estado a chorar nos braços do Presidente e o PM a falar da maior tragédia de vidas humanas nos incêndios em Portugal? Fala de quê, Passos? Tenha – tenhamos – a seriedade de não fazer dos mortos estandartes para aproveitamento político. Não precisamos de atear mais fogos, obrigada.