Reflexão – a criação da NATO, uma ideia nazi?

(João Gomes, in Facebook, 11/07/2026)


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A História não pode ser lida apenas através das versões oficiais. Também se constrói a partir das perguntas incómodas que muitos preferem evitar. Uma dessas perguntas diz respeito à origem da NATO e ao papel desempenhado por antigos oficiais da máquina militar de Hitler na formação da aliança que viria a dominar a estratégia de defesa do Ocidente durante mais de sete décadas.

A NATO foi criada em 1949 e apresenta-se, desde então, como uma “organização defensiva” destinada a proteger a Europa da ameaça soviética. Essa é a narrativa oficial. Mas será suficiente para explicar a realidade do momento histórico?

Quando a Aliança Atlântica nasceu, a União Soviética encontrava-se profundamente devastada pela Segunda Guerra Mundial. Cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos tinham morrido. Cidades inteiras estavam reduzidas a escombros, a capacidade industrial encontrava-se seriamente afetada e a economia vivia um enorme esforço de reconstrução. O Exército Vermelho permanecia numeroso, mas também enfrentava uma gigantesca tarefa de reorganização e desmobilização.

Perante este cenário, é legítimo perguntar se o receio de uma invasão soviética da Europa Ocidental era tão iminente como foi apresentado ou se esse perigo serviu igualmente para justificar uma nova arquitetura política e militar destinada a consolidar um bloco ocidental sob liderança norte-americana. É precisamente neste ponto que a ação de antigos oficiais do regime nazi dentro da NATO deixa de ser um simples detalhe histórico para assumir uma importância muito maior.

E não se tratava de militares de segunda linha. Eram alguns dos estrategas mais experientes da Wehrmacht. Homens que tinham planeado campanhas militares, dirigido operações de grande escala e combatido precisamente contra a URSS. Tinham sido formados numa cultura profundamente anticomunista e participaram numa guerra que o regime de Hitler apresentava como uma luta existencial contra o bolchevismo.

Poucos anos depois da derrota da Alemanha nazi, muitos desses mesmos oficiais voltavam a ocupar posições de enorme responsabilidade. Adolf Heusinger tornou-se Presidente do Comité Militar da NATO. Hans Speidel assumiu o comando das forças terrestres da NATO na Europa Central. Johann Adolf von Kielmansegg ocupou igualmente importantes funções de comando na estrutura aliada. Reinhard Gehlen, antigo responsável pela espionagem alemã na Frente Oriental, foi aproveitado pelos Estados Unidos, colaborou diretamente com a CIA e criou o serviço de informações da Alemanha Federal, fornecendo durante anos informação estratégica utilizada pelo bloco ocidental.

Não foram casos isolados. Fizeram parte de uma escolha política consciente. Os Estados Unidos e os restantes aliados concluíram que o conhecimento militar destes homens era demasiado valioso para ser desperdiçado. A desnazificação deixou rapidamente de constituir prioridade quando entrou em cena um novo adversário.

A questão verdadeiramente incómoda não é, por isso, saber se antigos nazis participaram na construção da NATO. Isso encontra-se amplamente documentado. A verdadeira questão consiste em perguntar até que ponto esses homens influenciaram a cultura estratégica da organização porque uma instituição militar não é apenas feita de edifícios, tratados ou equipamentos. É construída pelas pessoas que definem a sua doutrina, elaboram os seus planos e estabelecem a forma como identifica amigos, adversários e ameaças.

Ora, quando uma parte significativa dessa elite militar foi formada durante o Terceiro Reich, torna-se difícil acreditar que toda essa herança intelectual tenha desaparecido simplesmente porque terminou a guerra. As ideias estratégicas, os métodos de planeamento e a visão geopolítica não desaparecem por decreto. Também não mudam apenas porque muda a bandeira.

É difícil não admitir que uma organização cuja estrutura militar foi parcialmente desenhada por antigos generais da Wehrmacht tenha herdado parte da sua leitura estratégica da Europa e que isso tenha influenciado largamente a leitura global que ainda hoje se faz do Mundo. Não no plano ideológico do nacional-socialismo, mas na forma de encarar o Leste e o resto do Mundo como “adversários permanentes” e de considerar indispensável a existência de um poderoso bloco militar ocidental para manter a defesa de uma “ideologia branca”, apesar de surgirem com intenções democráticas e objetivos económicos.

Após a sua formação a NATO rapidamente ultrapassou a simples missão de defesa territorial. A sua influência passou igualmente pela consolidação política do espaço ocidental. Ao longo da Guerra Fria, a integração militar caminhou lado a lado com a integração económica e política das democracias ocidentais, sempre sob forte influência e exigências dos Estados Unidos. Em vários países europeus, movimentos comunistas ou socialistas revolucionários passaram a ser encarados não apenas como adversários políticos internos, mas também como fatores de risco para a arquitetura estratégica construída no pós-guerra. Novos movimentos revolucionários de transformação nas nações europeias rapidamente eram ameaçados de “intervenção”. Foi o caso de Portugal em 1974, por exemplo.

Não significa isto que a NATO tenha sido criada para restaurar o nazismo mas também não ajudou a eliminá-lo. E a prova foram os vários movimentos fascistas que permaneceram ativos em toda a Europa e noutras partes do Mundo: Portugal, Espanha, Grécia, Alemanha Ocidental (reintegração de numerosos antigos oficiais e dirigentes do Terceiro Reich nas forças armadas, serviços de informações e administração do Estado), Itália (permanência de estruturas e partidos neofascistas, como o Movimento Sociale Italiano e reintegração de antigos quadros do regime de Mussolini), França (reintegração parcial de antigos colaboradores do regime de Vichy), Bélgica, Países Baixos e Noruega são os casos europeus.

Os mesmos homens que poucos anos antes eram considerados parte integrante da máquina militar de um regime responsável por alguns dos maiores crimes da História passaram a ser vistos como parceiros indispensáveis na construção da segurança ocidental. A moral foi substituída pela utilidade. A justiça cedeu lugar ao pragmatismo. E talvez tenha sido precisamente nesse momento que nasceu uma NATO cuja missão foi muito além da defesa militar.

Mais do que conter uma URSS exausta e ocupada com a sua própria reconstrução, a “Aliança” contribuiu para consolidar uma determinada ordem política, económica e estratégica na Europa Ocidental, tornando extremamente difícil qualquer evolução que se afastasse do modelo liberal apoiado pelos Estados Unidos.

Essa opção pode ter sido considerada necessária pelas lideranças ocidentais da época. Mas isso não impede que hoje se coloque uma pergunta legítima. Até que ponto a NATO nasceu apenas para defender a Europa? Ou nasceu também para definir que Europa deveria existir e como os cidadãos europeus deveriam viver?

Hoje a visão é muito clara: a Europa volta a estar ameaçada pelas antigas ideologias de extrema-direita porque as novas gerações desconhecem, nunca viveram e não aprenderam o que foi o papel de uma extrema-direita nacionalista que se quis tornar um império e submeter primeiro a Europa e depois o resto do Mundo a uma ideologia onde os direitos dos cidadãos não existissem.

O que seria – hoje – a Europa se a URSS não tivesse vencido Hitler? O que seria hoje a Europa se a NATO não impusesse a sua (des)ordem politica e as exigências dos caminhos a seguir na economia, nas finanças, nas garantias sociais? Essa a pergunta que fica.

A cimeira da NATO e a Irmandade dos Coxos

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 11/07/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua não resiste em sublinhar o realismo e a assertividade deste texto. A descrição do que foi aquilo em Ancara está perfeita. E as alegorias utilizadas são de excelente adequação. Em suma, um encontro de corsários em que – para não destoar -, até pistolas foram distribuídas aos participantes pelo anfitrião Ergodan.

Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 11/07/2026)


Aquela cimeira da NATO teve todos os condimentos de um ajuntamento da Irmandade dos Coxos, o sindicato de flibusteiros que se reunia na Ilha de Tortuga para delinear novos assaltos e patifarias, distribuir saques e açoites aos infratores da omertà.

No friso da família mafiosa, Trump, Zelensky e al-Julani da Al-Qaeda, o diligente servo Rutte angariador do imposto revolucionário e de extorsão sobre os vassalos da UE, mas também o pequeno tirano britânico Starmer e o Mestre-de-cerimónias beija-mãos Macron.

Só lá faltou o carniceiro de Telavive, mas numa das próximas edições desta reunião de família, lá estará. Ou não pretendem eles dar por extinta a NATO e substituí-la por uma nova organização mundial de defesa dos regimes plutocráticos?

Atrás, o nosso Montenegro com aquele ar de parvenu, com a carga de complexos que é muito própria das figuras do nosso regime que se juntam sempre a estas reuniões para aparecer na fotografia.

Tudo aquilo foi sinistro. O que resta do Ocidente limita-se a pregar ódios, espalhar medos e preparar guerras que sirvam para salvar a pele destes oligarcas prepotentes que trouxeram a Europa à deplorável situação de hoje.

Se ao menos fossem africanos, tal reunião teria permitido que um qualquer coronel, major ou capitão valente tomasse o poder e pusesse na rua estas lideranças falhas que nos levam ao suicídio. Infelizmente, na Europa já não há golpes de Estado libertadores, ou antes, ainda não há, mas o seu tempo lá chegará, talvez na Alemanha e certamente em França.

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Vexames Nacionais​

(Raquel Varela, in Jornal Maio, 09/07/2026)


Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames.  Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.

Raquel Varela


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O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores. 

Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a  monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA. 

Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.

A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes. 

Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem. 

Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.

Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade. 

A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.

O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA. 

Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo. 

Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.

Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder. 

A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos. 

Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza. 

Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente. 

Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames.  Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.

“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.

O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder. 

A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem. 

A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.

Fonte aqui