A máquina de inventar videojogos

(Rui Pereira, in Facebook, 07/08/2026)

(Foto: em Público 5.8.2026)

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Quase poderia subtitular-se assim a propaganda de guerra ucraniana que, nos últimos dias, apresentou um novo videojogo: – os russos estão a usar drones para caçar civis ao longo da Ucrânia.

As peças “jornalísticas” mostram bizarríssimas imagens, em que um drone supostamente russo, supostamente persegue um suposto vendedor ucraniano de legumes. Como duas crianças jogando às apanhadas em torno de uma mesa, o drone-criança rodopia em volta de uma mesa-carrinha, atrás de um vendedor de legumes-criança que procura não ser apanhado, correndo também em volta da mesa-carrinha.

Finalmente, o drone apanha-o, explode-lhe em cima e a peça “jornalística” passa para uma entrevista com o atingido que, com o rosto ruborescido, volta a descrever a cena, agora por palavras, esquecendo-se, porém, de explicar como pode estar vivo, vídeo aqui.

O vídeo, divulgado “pela Ucrânia” segundo a CNN, passa então por verdade bíblica. Ficamos a saber que o Financial Times explica o que a suposta vítima se esqueceu de explicar (como sobreviveu?), mas esse pormenor é deixado em claro também pela “reportagem” televisiva.

Em vez disso, outra peça da CNN internacional passa para o enquadramento geral, sobre a inumanidade dos russos, que estariam agora a dedicar-se a matar os civis ucranianos, um por um, num macabro videojogo criado nas profundezas da bárbara Moscóvia para diversão dos seus jovens aprendizes de Rasputine, ver vídeo aqui.

Por seu lado, o jornal Público cita Zelensky tematizando agora o até aqui relatado e enquadrado. Segundo o matutino português, o tema é “denunciado” (sic) por Zelensky, sob a fórmula “safari” de drones russos contra populares na Ucrânia, ver aqui.

Tudo isto, Agendamento (agenda-setting) de um assunto, o seu Enquadramento (Framing) e por fim a sua constituição enquanto tema partilhado no discurso público (Tematização, script, schematta) está mais do que estudado e é sobejamente conhecido pelas ciências da comunicação, como estratégias de manipulação das perceções a que se dá o nome outrora bem reputado de “propaganda”.

O pré-construído cultural em que assenta é o da barbaridade russa, um bordão da russofobia que atravessou os tempos de Ivan o Terrível a Vladimir Putin sem qualquer solavanco: – bárbaros comunistas, bárbaros não-comunistas, bárbaros autocratas, bárbaros plutocratas, numa palavra: – bárbaros.

A tematização só cumpre, porém, a sua missão, se for capaz de se tornar invisível aos olhos dos seus destinatários, invisibilizando outros temas seus concorrentes. Para isso, precisamos portanto de nos interrogar a que outros temas poderíamos estar a assistir em vez deste? Percebemos então que os ataques, esses, sim, reais, de drones ucranianos contra infraestruturas logísticas de distribuição civil russas (armazéns Wildberries – a Amazon russa), que nada têm de militar, são um deles. Que outro é a tragédia dos bombardeamentos sobre as infraestruturas portuárias, energéticas e de logística bélica ucraniana pelos drones e mísseis da Rússia, cuja Força Aérea voa em céus ucranianos como se estivesse em sua própria casa.

O que se oculta, em suma, é o sacrifício de milhares de vidas de um par de gerações do povo ucraniano em nome do delírio ocidental de “desgastar a Rússia” como enunciaram Biden e o seu séquito. E este massacre, engendrando uma guerra de desgaste contra a Rússia que dura desde 2014, mata ucranianos, sim, mas não perseguindo-os um por um com malabarismos propagandísticos. Mata-os em massa, fardados aos milhares em nome de coisa nenhuma que possa interessar a qualquer um deles.

Como explicar a demissão de Fedorov?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/08/2026)


As forças armadas ucranianas não só não conseguiram recuperar terreno como todos os dias recuam, assim o dizem as agências ucranianas Deep State e AMK Mapping. Quem está a ganhar não muda simultaneamente o ministro da Defesa nem o responsável máximo pela campanha militar.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

A crise política causada pelas sucessivas demissões de cargos governativos e de posições chave no sistema político ucraniano, culminando com a do ministro da Defesa Mikhail Fedorov, ilustra bem a presente divisão nas elites políticas do país, resultado, acima de tudo, do insucesso da campanha militar contra a Rússia e da necessidade de encontrar estratégias alternativas ganhadoras.

As forças armadas ucranianas não só não conseguiram recuperar terreno como todos os dias recuam, assim o dizem as agências ucranianas Deep State e AMK Mapping. Quem está a ganhar não muda simultaneamente o ministro da Defesa nem o responsável máximo pela campanha militar.

Entretanto, sucedem-se as manifestações em apoio de Fedorov por várias cidades do país, exigindo o seu regresso ao cargo de ministro da Defesa e criticando Zelensky por o ter demitido. Para aliviar a pressão, Zelensky ofereceu a Fedorov outros cargos que ele não aceitou. Um dos pontos de discórdia prendia-se com a tensão permanente entre Fedorov e o general Syrsky, Chefe de Estado-Maior General, homem de confiança de Zelensky, sobre como conduzir as operações militares.

Fedorov queria intrometer-se nas questões táticas. A intromissão de políticos nas operações tem dado, normalmente, mau resultado. Fedorov e os seus apoiantes ocidentais perceberam que podiam atingir a profundidade da Rússia com drones em vez de mísseis de longo alcance, por serem mais baratos e evitar os imbróglios políticos intrincados causados pelos mísseis, o que faz todo o sentido do ponto de vista estratégico. Fedorov devia ter ficado por aí. Esqueceu-se do que se ensina nas escolas militares, que ele não frequentou. A vitória materializa-se com a ocupação do terreno e para ocupar o terreno são precisos soldados que a Ucrânia não tem.

Após muitas pressões, procurando uma solução de compromisso com o grupo desafiador apoiante de Fedorov, Zelensky demitiu Syrsky nomeando em sua substituição o general Drapaty, próximo de Fedorov. Estes desenvolvimentos mostram que a margem de manobra de Zelensky se tem vindo a estreitar, tendo sido obrigado a afastar pessoas da sua confiança. A maior baixa terá sido a do seu fiel chefe de gabinete Andriy Yermark, afastado na sequência do escândalo de corrupção. A proximidade com o seu substituto, o general Kirill Budanov, está longe de ser a mesma. Zelensky mantém ainda um leque considerável de pessoas da sua confiança em posições chave, nomeadamente, David Arakhamia líder da bancada parlamentar do partido Servo do Povo.

Na função de ministro da transformação digital, que exerceu de agosto de 2019 a janeiro de 2026, antes de ser nomeado ministro da Defesa, Fedorov esteve sempre muito ligado à modernização das Forças Armadas. Em 2022, conjuntamente com o Estado-Maior e a “UNITED24 Platform” lançou o programa “Drones do Exército”, uma iniciativa para financiar a aquisição, reparação e substituição de drones. O programa incluía ainda um curso de formação de pilotos de drones.

Em 2023, Fedorov anunciou a criação das primeiras companhias do mundo, de ataque com UAV, a serem equipadas com drones e terminais Starlink. Conjuntamente com outras entidades ucranianas criou uma plataforma (Brave1) para angariar fundos para adquirir armamento. Em meados desse ano, já tinham sido, segundo ele, criadas mais de 20 escolas para operadores de UAV e formados mais de 10 mil operadores. Outros programas se seguiram para ensinar as pessoas a montar drones em casa, substituindo/complementando o fabrico industrial.

Quem está a promover Fedorov?

Em julho de 2025, conjuntamente com Andrius Kubilius, o Comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Fedorov anunciou a criação do “BraveTech EU”, um projeto da Comissão Europeia para financiar startups tecnológicas europeias de defesa, dando-lhes a oportunidade de testarem os seus produtos no Teatro de Operações da Ucrânia.

Fedorov negociou pessoalmente o financiamento de vários projetos com Rachel Reeves, a ex-ministra do Tesouro britânica, e criou mecanismos de fornecimento de drones à Ucrânia recorrendo às estruturas da UE. O seu envolvimento ativo na indústria de defesa permitiu-lhe criar uma enorme rede de contactos. Fedorov não só não passou despercebido como ganhou uma notável visibilidade no seio do complexo industrial-militar norte-americano e europeu. O protagonismo que granjeou através destes contactos e projetos alavancou a sua imagem e chamou a atenção para a possibilidade de poder vir a ser mais útil.

Conscientemente ou não, Fedorov adquiriu imensas vantagens competitivas sobre os seus adversários políticos. A possibilidade de ser uma alternativa a Zelensky começou a ganhar forma. O Rating Group, uma companhia de sondagens ucraniana financiada por várias organizações internacionais, tornou-se um elemento crucial da engrenagem que já está em marcha. Fedorov com 13,4% das intenções de votos passou a incluir a lista dos três candidatos mais votados (Volodymyr Zelensky, 22,3% e Valerii Zaluzhnyi, 14,9%) numa sondagem recente. Alguns apontam ter sido o seu protagonismo e a possibilidade de vir a tornar-se num rival de Zelensky o verdadeiro leitmotiv da sua demissão.

Não só passou a ser claro para os patrocinadores internacionais que Zelensky já não era indispensável, como tinham encontrado um putativo sucessor “à maneira” disponível para entrar na corrida à sua sucessão. Era mais fácil falar e fazer negócios com Fedorov que, entretanto, se tornou o “favorito” do ocidente. Alguns analistas afirmam que Fedorov representa os interesses de Washington ou de Londres. Não é difícil estabelecer uma ligação entre drones, dinheiro e Londres. Só em 2026, a UE desembolsará 28,3 mil milhões de euros para apoiar a capacidade industrial de defesa da Ucrânia combinando-a com o complexo industrial-militar europeu.

Torná-lo o próximo presidente seria a cereja no bolo. Vários órgãos da comunicação social ocidental têm avançado com essa possibilidade. O plano parece estar já em marcha, apesar de Fedorov não ter anunciado publicamente essa intenção. O “The Times” foi mais longe, dizendo que Fedorov “ foi encorajado a fundar um partido político anticorrupção… a sua crescente popularidade, aliada ao historial de Zelensky afastar aliados influentes, alimentou especulações de que esta medida poderá ter fortalecido um potencial rival, em vez de o ter enfraquecido.”

Alguns afirmam que o comportamento de Fedorov após a sua demissão assemelha-se bastante ao de uma campanha eleitoral. Por isso, seria ingénuo pensar que as manifestações em seu apoio são espontâneas e inorgânicas. Não é por acaso que ocorrem simultaneamente em 11 ou 12 regiões. São coordenadas e organizadas com envolvimento externo. Não são espontâneas nem uma expressão da revolta popular. Começam a assumir os contornos de uma revolução colorida.

Os russos ainda não conseguiram causar na Ucrânia os danos e o sofrimento necessários para que os seus dirigentes sintam que foi atingido um impasse doloroso. Enquanto isso não acontecer, a Ucrânia não sentirá a necessidade de ir para negociações. Kiev e os seus patrocinadores continuarão a alimentar a ilusão de que podem vergar a Rússia.

Não se espere uma solução política para o conflito, se a fação e os interesses com que Fedorov está alinhado vier a tomar o poder. O conflito não só continuará como aumentará de intensidade. A sua proximidade a Londres assim o faz antever, uma vez que Londres não pretende uma resolução pacífica do conflito. Fedorov é o homem certo no lugar certo.

Bloqueio do Mar Negro – a Rússia corta as rotas terrestres e marítimas de Odessa

(Por Russia Truth, in Reseau International, 04/08/2026, Trad. Estátua)


Os desenvolvimentos operacionais no teatro de operações ucraniano indicam que o conflito atingiu um ponto de viragem estratégico crítico.


Através de uma campanha contínua de controlo apertado sobre as infraestruturas marítimas e os principais corredores logísticos, as forças russas cortaram efetivamente o acesso da Ucrânia ao Mar Negro, tornando o país num Estado sem litoral.

Ao mesmo tempo, a implantação operacional da constelação de satélites de comunicação russos Rasvet melhorou a orientação em tempo real dos drones no centro e oeste da Ucrânia.

Entretanto, os mecanismos de apoio ocidentais estão sob crescente pressão: Washington continua a desvincular-se da coordenação operacional e as principais estruturas de liderança europeias enfrentam uma grave instabilidade política.

  1. Acesso bloqueado ao Mar Negro e destruição da Ponte Zatoka

Após semanas de ataques diários de mísseis de precisão e drones contra Odessa e as instalações portuárias regionais do Mar Negro, o comércio marítimo da Ucrânia praticamente cessou.

• Situação de país sem litoral: Como salientaram especialistas em relações internacionais, entre os quais o Professor John Mearsheimer, a Ucrânia é agora, efetivamente, um país sem litoral. As empresas de transporte marítimo comercial ocidentais e as seguradoras marítimas recusam-se a entrar em águas territoriais ucranianas. Só em Julho, as forças russas intercetaram ou danificaram cerca de 80 navios que tentavam aceder aos portos do Mar Negro.

• Interrupção da Ponte Zatoka: Um ataque combinado de mísseis táticos e drones danificou gravemente a Ponte Zatoka — uma ligação vital de transporte que liga Odessa ao sul da Roménia, às rotas de trânsito da Moldávia e às redes de abastecimento rodoviário europeias. Embora a infraestrutura da era soviética tenha historicamente permitido reparações rápidas, esta perturbação está a exercer uma pressão considerável sobre os restantes corredores logísticos ocidentais operacionais.

• Contraste com a Crimeia: Enquanto enxames de drones ucranianos de longo alcance continuam a visar as infraestruturas da Crimeia — causando interrupções localizadas no fornecimento de eletricidade e combustível — a península continua estruturalmente ligada pelo Corredor Terrestre da Crimeia e pela Ponte da Crimeia. Em contraste, as rotas marítimas da Ucrânia no Mar Negro foram completamente neutralizadas.

  • Implantação Operacional da Rede de Satélites Rasvet

A integração do sistema de satélites Rasvet — o equivalente russo do Starlink em órbita terrestre baixa — representa um grande avanço tecnológico nas capacidades de ataque de longo alcance da Rússia.

• Ligações de dados terminais no centro e oeste da Ucrânia: Graças aos lançamentos de satélites, foi implantado um número suficiente de unidades Rasvet para fornecer ligações de comunicação em tempo real, a cada hora, para drones de ataque Geran-4 guiados opticamente, operando em profundidade no território ucraniano.

• Coordenação de reconhecimento e ataque: Operando em conjunto com os grupos de ataque Geran, os drones de reconhecimento Gerber fornecem imagens de vídeo em tempo real e de alta resolução de ataques marítimos e costeiros diretamente às estações de controlo em terra na Rússia.

• Expansão da rede: Embora a cobertura global completa 24 horas por dia, 7 dias por semana, exigisse a implantação de aproximadamente 1.000 satélites operacionais, a rede existente já permite a coordenação baseada em intervalos de grupos de ataque em toda a profundidade operacional da Ucrânia.

  • Logística Assimétrica: Ataques contra o Comércio Eletrónico e a Retaliação Industrial

A campanha assimétrica de drones da Ucrânia contra a infraestrutura de comércio eletrónico doméstica da Rússia desencadeou uma campanha de contra-ataque mais ampla, visando os centros logísticos civis ucranianos.

• Centro Logístico da Wildberries: Após os ataques de drones ucranianos aos armazéns de distribuição da Wildberries localizados nos centros regionais russos, a CEO Tatiana Kim confirmou que, embora as pequenas empresas tenham sofrido perdas devido à força maior, a empresa conseguiu redirecionar as suas cadeias de abastecimento. Com o apoio da defesa aérea estatal integrada e de novos centros regionais na Ásia Central, a logística do comércio eletrónico russo absorveu o impacto.

• Destruição dos Centros de Distribuição Ucranianos: Em retaliação, as forças russas intensificaram os seus ataques de precisão contra as redes de logística e distribuição postal ucranianas, incluindo as instalações da Nova Poshta. Sem as reservas de capital e de infraestruturas necessárias para absorver estas perdas, as redes de distribuição nacionais da Ucrânia enfrentam uma grave degradação das suas capacidades operacionais.

  • A Liderança Ocidental esvaziada: Retirada dos EUA e Crise Política de Friedrich Merz

À medida que a situação militar se deteriora no terreno, a coligação política ocidental que apoia Kiev enfrenta uma fragmentação estrutural.

O contexto operacional de agosto de 2026 destaca um fosso crescente entre as realidades militares no terreno e as capacidades estratégicas ocidentais.

Ao neutralizar a capacidade de comércio marítimo da Ucrânia, ao bloquear a sua infraestrutura ferroviária e ao implantar sistemas de drones guiados por satélite, Moscovo continua a ditar o ritmo do conflito.

Entretanto, com a retirada dos Estados Unidos do teatro de operações e o aprofundamento da instabilidade política interna nas capitais europeias, a capacidade estrutural da NATO para apoiar o esforço de guerra de Kiev atingiu um limite material e intransponível.

Fonte aqui

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.