(Alejandro Marcó del Pont in Diálogos do Sul, 09/03/2026)

Saldo da ofensiva ao Irão já é desastroso e potencialmente irreversível para Trump; impactos da operação nos EUA serão severamente sentidos por sua base mais leal.
Em 28 de fevereiro de 2026, as explosões que sacudiram Teerã não atingiram apenas os enclaves subterrâneos do programa nuclear iraniano; sua onda expansiva percorreu milhares de quilômetros até fragmentar o alicerce político sobre o qual Donald Trump havia construído sua segunda presidência. Em uma operação de audácia e risco extremos, a Força Aérea dos Estados Unidos, em coordenação com Israel, lançou o ataque mais contundente contra o Irã desde a crise dos reféns de 1979.
O objetivo declarado da Casa Branca era cirúrgico e clássico: eliminar de uma vez por todas a ameaça representada pelas instalações nucleares e pelo arsenal de mísseis balísticos da República Islâmica. Mas a magnitude do que ocorreu naquela madrugada — com relatos que falavam não apenas de bombas sobre centrifugadoras, mas também de um míssil que atingiu o bunker onde se refugiava o líder supremo, Ali Khamenei — revelava uma ambição muito maior: a decapitação do regime e seu colapso definitivo.
No entanto, a pergunta que paira sobre os escombros de Teerã — e também sobre os mercados de Nova York — não é tanto se o Irã conseguirá se reconstruir, mas se os Estados Unidos e seu presidente poderão sobreviver às consequências de seu próprio sucesso militar. O paradoxo possui a beleza trágica típica de um drama grego. Donald Trump, o presidente que chegou ao poder prometendo enterrar as “guerras eternas” e colocar a “América em primeiro lugar”, acaba de abrir a porta para um conflito de desgaste no Oriente Médio que ameaça devorar seu legado, sua base eleitoral e a estabilidade da economia global. E tudo indica que não o fez sozinho: foi conduzido até ali, com a precisão de um relojoeiro suíço, pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Para compreender a magnitude do abismo diante do qual Trump se encontra, é preciso abandonar por um momento os mapas dos generais e voltar os olhos para os postos de gasolina de Ohio e Pensilvânia. O coração do movimento MAGA (Make America Great Again – Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre) bate no ritmo do preço do petróleo. Seu núcleo eleitoral — a classe trabalhadora branca e a classe média manufatureira — foi uma das principais vítimas da inflação pós-pandemia. Cada dólar que o barril sobe é um voto que se afasta das urnas republicanas. Analistas do Goldman Sachs e do Barclays vinham advertindo sobre isso havia semanas em seus relatórios: um conflito aberto com o Irã faria disparar o preço do petróleo. Brent e WTI ultrapassariam facilmente a barreira dos 100 dólares, levando a inflação de volta a territórios proibidos, próximos de 5%. As hipotecas ficariam mais caras, o crédito para pequenos negócios do Meio-Oeste se congelaria e o sonho da “America First” se dissolveria na miragem de uma estagflação.
A lógica elementar indicava que Trump não poderia se permitir esse cenário. Seu instinto de sobrevivência política, que sempre foi sua principal bússola, deveria tê-lo levado a contemporizar, a ameaçar, talvez a realizar um bombardeio simbólico sobre instalações militares abandonadas. Mas não isso. Não um ataque que, segundo fontes de inteligência citadas pela Reuters e pelo The Straits Times dias antes da operação, havia sido explicitamente desaconselhado pela CIA. A agência advertia que um “golpe decapitador” contra Khamenei não provocaria o colapso do regime, mas sua substituição por figuras ainda mais radicais da Guarda Revolucionária (IRGC), dispostas a travar uma guerra de desgaste infinita. Se a inteligência americana sabia disso, se os modelos econômicos o previam, que nuvem tóxica turvou o julgamento do presidente?
A resposta, incômoda, mas cada vez mais aceita nos círculos analíticos de Washington, tem duas faces. Uma, a mais vulcânica e pública, é a do próprio Netanyahu, um sobrevivente político que há décadas enxerga no Irã uma ameaça existencial que precisa ser eliminada antes que seja tarde demais. Sua lógica era a do “agora ou nunca”. Com um presidente americano imprevisível e ansioso por demonstrar força, e com a percepção — possivelmente equivocada — de que os aiatolás estavam enfraquecidos pelos protestos internos, a janela de oportunidade parecia escancarada. A outra face, mais turva e que circula nos corredores do poder sob o sigilo do off the record, tem nome e sobrenome: o lobby israelense e os dossiês Epstein.
Sabe-se — e isso não é segredo para os serviços de inteligência — que Jeffrey Epstein não operava sozinho; sua rede de influência e chantagem era uma teia que se conectava a interesses israelenses, incluindo o Mossad. A teoria que ganha cada vez mais adeptos sustenta que o material comprometedor que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos guarda em seus cofres sobre figuras-chave do establishment não é propriedade exclusiva do governo federal. O Mossad, argumenta-se, teria uma cópia. E, no momento crucial — quando a máquina de guerra hesitava entre a prudência e a audácia — essa informação pode ter funcionado como um elemento sutil, porém eficaz, de coerção. Não seria necessário um vídeo de Trump em uma situação comprometedora para dobrar sua vontade; bastaria ter a capacidade de vazar informações sobre um colaborador próximo, um familiar ou um grande doador para que a geometria das decisões começasse a se inclinar.
Além da lenda obscura dos vídeos e das fotos, a influência do lobby israelense em Washington é uma realidade tão tangível quanto o mármore do Capitólio. Acadêmicos do porte de John Mearsheimer e Stephen Walt documentaram isso há anos em The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (O lobby israelense e a política externa dos EUA, em tradução livre). Não se trata de uma conspiração, mas de um fato político: o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel (AIPAC) e suas organizações satélites financiam campanhas, moldam discursos e condicionam votações no Congresso com uma eficácia avassaladora. Nenhum político que aspire a manter-se no poder deseja enfrentar uma máquina multimilionária de pressão e desgaste político financiada pelo lobby. Essa coerção — financeira e política — pode ser tão eficaz quanto qualquer forma de chantagem. Assim, quando o Pentágono e o Departamento de Estado debatiam a resposta ao Irã, as opções que priorizavam a “vantagem militar qualitativa” de Israel pesavam mais na balança do que aquelas que defendiam a estabilidade econômica interna dos Estados Unidos.
O que ocorreu no terreno na madrugada de 28 de fevereiro revela até que ponto essas prioridades estavam desalinhadas. Se os Estados Unidos buscavam uma operação cirúrgica para degradar a capacidade militar iraniana e proteger suas bases na região, os resultados indicam outra coisa. Os satélites mostravam impactos em instalações navais e lançadores de mísseis, sim. Mas também chegavam imagens dantescas de Minab, onde uma escola primária próxima a uma base militar foi atingida, matando 150 meninas. Houve ainda ataques contra hospitais em Teerã, já abarrotados de vítimas civis. Era a marca de um ataque concebido não para ser breve e exemplar, mas para ser total e, sobretudo, irreversível. Aquilo não era um aviso; era uma declaração de guerra existencial. Era a assinatura de Israel, o aliado que necessita que o conflito se transforme em um pântano do qual o Irã não consiga se reerguer.
E é nesse pântano que Trump corre o risco de ficar preso. O que ele provavelmente concebeu como um espetacular show of force ao estilo Trump — uma explosão de grandeza destinada a forçar o Irã a negociar sua rendição — foi interpretado pelo mundo e pelos mercados como a entrada em uma armadilha de custos infinitos. O Irã não colapsou. Sua liderança foi substituída por linhas ainda mais duras da Guarda Revolucionária, que prometem vingança. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial, treme diante da possibilidade de um bloqueio total. E, enquanto os petroleiros começam a desviar suas rotas, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos dispara: os investidores exigem maior retorno diante do risco de uma inflação que já não veem como transitória, mas como um fenômeno entranhado na geopolítica.
A lógica de Netanyahu, fria e calculada, funcionou com perfeição. Ele conseguiu que o exército mais poderoso da Terra participasse da eliminação de seu maior inimigo estratégico sem precisar sacrificar a totalidade de suas próprias reservas. Conseguiu também que os Estados Unidos queimassem seu capital político e econômico em um conflito que, para Israel, é uma questão de vida ou morte. Para Trump, em contrapartida, o saldo é desastroso. Ele não apenas rompeu sua promessa fundacional de encerrar as “guerras eternas”, como o fez em um momento de máxima vulnerabilidade econômica para seu eleitorado. A fratura em sua base mais leal — profundamente antiglobalista e responsável por levá-lo ao poder — pode já ser irreversível. Muitos o veem agora como um presidente que foi enganado ou chantageado, ou que simplesmente traiu seus próprios princípios sob pressões externas.
A teoria da “captura estratégica”, estudada nas academias militares, ganha aqui uma expressão concreta. Quando um aliado menor consegue levar uma potência maior a executar ações que servem essencialmente a seus próprios interesses regionais — mesmo à custa do bem-estar interno da potência dominante — a relação deixa de ser uma aliança para tornar-se uma espécie de tutela invertida. E foi exatamente isso que ocorreu. Netanyahu olhou Trump nos olhos e o convenceu de que assassinar Khamenei seria um presente. Mas esse presente veio acompanhado de inflação, aumento das taxas de juros e da quase certeza de uma derrota nas eleições de meio de mandato.
Enquanto a fumaça se dissipa sobre Teerão e as represálias iranianas atingem bases americanas em sete países, uma pergunta paira sobre o Salão Oval: quem governa realmente a política de defesa dos Estados Unidos? A resposta, por mais incômoda que seja em um país que se orgulha de sua soberania, parece apontar para Jerusalém.
Donald Trump, o negociador que prometia não se deixar enganar, caiu na armadilha mais antiga do tabuleiro do Oriente Médio: acreditar que é possível usar a força sem pagar um preço político. Seu legado — o da “America First” — jaz agora enterrado sob as ruínas de um bombardeio que não trará paz, mas uma guerra interminável concebida nos gabinetes de Tel Aviv.
E a história, mais uma vez, provavelmente o lembrará não como o presidente que encerrou guerras, mas como aquele que foi utilizado por seu aliado mais astuto para iniciar a mais perigosa de todas.
(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui
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