Há desastres naturais. E há desastres cuidadosamente preparados pela inércia humana. O que aconteceu junto ao Mondego, com o colapso do dique e a subsequente ferida aberta na Autoestrada 1, não surgiu de surpresa, como um capricho súbito das águas. Não foi um relâmpago em céu limpo. Foi, antes, um acontecimento anunciado – repetido, descrito, antecipado durante dias por técnicos, autarcas e pela própria evidência do rio a subir lentamente, como quem avisa antes de entrar.
Durante duas semanas soube-se que os diques estavam sob pressão. Soube-se que o caudal aumentava. Soube-se que o risco existia. E, sobretudo, soube-se que havia um ponto sensível: a zona onde o dique protegia o talude que sustenta uma das infraestruturas rodoviárias mais importantes do país. Nada disto pertence ao domínio do imprevisível. Pertence ao domínio da decisão. Mas a engenharia não chegou a acontecer. Em proteção hidráulica, há uma regra simples: quando o risco cresce todos os dias, intervém-se antes do pico, não depois do colapso.
As soluções não exigiam milagres tecnológicos nem ciência futurista. Pediam apenas aquilo que a engenharia conhece há séculos:
– reforço do dique com enrocamento pesado;
– estabilização do talude com cascalho, geotêxteis e drenagens;
– proteção dos pilares contra erosão regressiva;
– obras de emergência capazes, pelo menos, de ganhar tempo.
Ganhar tempo é, muitas vezes, salvar infraestruturas. E salvar infraestruturas é poupar milhões, meses de interrupção e o caos logístico que agora se anuncia. Nada disso aconteceu a tempo. E quando a água finalmente fez o que sempre faz – procurar o ponto mais fraco – já não havia engenharia possível, apenas gestão de danos.
A política do “vamos ver”
Portugal desenvolveu uma especialização curiosa: a arte de monitorizar.
– Monitoriza-se o risco.
– Monitoriza-se a subida do rio.
– Monitoriza-se a previsão meteorológica.
– Monitoriza-se tudo… exceto a decisão.
Entre o alarme técnico e a ação política existe frequentemente um vazio administrativo onde o tempo passa com notável eficiência.
E a natureza, menos paciente, aproveita. Depois chega o momento solene das declarações: “Era impossível prever.” “Foi um evento excecional.” “As estruturas estavam a ser acompanhadas.” Acompanhar, neste caso, revelou-se uma forma elegante de assistir.
O custo da inação
Agora, a A1 ficará cortada durante meses. Virão desvios, prejuízos económicos, transtornos diários e obras de emergência muito mais caras do que qualquer prevenção teria sido. É a velha matemática portuguesa: adiar é barato – até deixar de ser. Quando finalmente se intervém, já não se protege. Reconstrói-se. E reconstruir custa sempre mais do que prevenir. Em dinheiro, em tempo e em credibilidade.
Se o Marquês de Pombal estivesse vivo
Depois do terramoto de 1755, Lisboa não ficou à espera de relatórios intermináveis nem de consensos burocráticos. Reconstruiu-se com rapidez, método e autoridade técnica. Pode discutir-se tudo sobre o Marquês de Pombal – menos a capacidade de decidir quando o país ardia, ruía ou inundava.
Hoje, perante um dique a ceder lentamente durante duas semanas, talvez perguntasse apenas: “Já reforçaram?” E perante a resposta negativa, provavelmente não convocaria uma conferência de imprensa. Convocaria pedra, terra, homens e urgência.
O verdadeiro problema
O problema não é apenas hidráulico. É estrutural – mas no Estado. Não falta conhecimento técnico. Não faltam avisos. Não falta experiência histórica. Falta, demasiadas vezes, o momento exato em que alguém decide agir antes da catástrofe, e não apenas explicá-la depois. Porque há uma diferença fundamental entre fatalidade e falha: a fatalidade não avisa durante duas semanas.
A incompetência – essa – vão agora pagando os portugueses, cujo arrependimento de terem optado pela AD, nas últimas eleições legislativas, deve ser agora tremendo.
Sergey Lavrov não hesitou. Não suavizou o tom. Acendeu o fósforo e deixou queimar. “Em Anchorage, aceitámos a proposta dos Estados Unidos.”
E agora, diz ele: “Washington já não está preparada para implementar o que foi proposto — nem em relação à Ucrânia, nem à cooperação ampliada, nem mesmo a promessa implícita de que uma fase diferente nas relações EUA-Rússia seria possível”.
Essa frase é importante porque destrói a narrativa. A oferta era real o suficiente para ocupar grandes parangonas, mas não o bastante para resistir ao contacto com o sistema de sanções.
E então Lavrov deixou a contradição bem à vista — porque enquanto Washington falava em cooperação, a sua marinha e os seus braços de segurança estavam ocupados a fazer algo completamente diferente: rastreando, abordando e apreendendo petroleiros em todos os oceanos.
E isso não é uma metáfora — é literal. Nos meses que se seguiram a Anchorage, as forças americanas perseguiram e abordaram embarcações — mais recentemente o Aquila II — ao longo de milhares de quilómetros em mar aberto, como parte de uma campanha crescente de interdições marítimas ligadas à aplicação de sanções. Petroleiros foram perseguidos, abordados, apreendidos ou forçados a regressar. Pelo menos sete foram tomados definitivamente. Outros fugiram. Foi assim que a “cooperação ampliada” se manifestou na prática.
Lavrov não precisou de levantar a voz. O aço já o fizera.
Não há qualquer confusão. Foi propositado. O aparato que, de facto, implementa a política externa dos EUA — sanções, fiscalização, influência no setor energético, estrangulamento financeiro e, agora, interdição marítima de rotina — não pode ser desligado de ânimo leve, uma vez em ação.
Mesmo sob a ilusão de uma presidência “América Primeiro”, o que começou como política sob Biden (a aplicação de sanções) agora torna-se mais intenso. Isso criou bases eleitorais, inércia legal e álibis morais que fazem com que qualquer reversão pareça uma rendição. Washington pode mudar o seu discurso, mas a máquina continua a funcionar. E a Europa não se limita a seguir; ela lidera o espetáculo público de histeria russófoba. Sempre.
O bumerangue energético da Europa
O regime de sanções nunca representou uma posição moral pura. Foi uma demolição e reconstrução, em ritmo de guerra, do sistema energético europeu, realizada com fervor ideológico e sem qualquer preocupação com as consequências previsíveis.
O Eurostat considera agora os preços da eletricidade para uso doméstico “estáveis”, uma forma astuta de evitar reconhecer o óbvio: eles permanecem bem acima dos níveis pré-2022. O choque não passou. Ele instalou-se. Bruxelas celebra a “diversificação”, mas os seus próprios números admitem silenciosamente os danos: o gás russo caiu de, aproximadamente 45% do fornecimento da UE em 2021 para cerca de 13% em 2025; o petróleo, de 27% para menos de 3%; e o carvão foi completamente eliminado. Isso não é adaptação, é amputação.
A Alemanha — a suposta espinha dorsal industrial da Europa — agora trata os preços da energia como uma ameaça à sua segurança. O setor industrial encerrou 2025 em profunda contração, com a produção a cair novamente à medida que a procura diminuiu. A resposta de Berlim foi reveladora: subsidiar os próprios custos que a sua política desencadeou. Os subsídios aos preços da eletricidade industrial deveriam começar no início de janeiro (de 2026). Mesmo as reduções projetadas nos preços são propagados não como um sucesso, mas como um alívio — alívio de alguns dos custos de energia mais altos do continente, dependentes de apoio estatal.
A Europa confundiu teatro moral com estratégia — e agora paga a conta da energia com os aplausos. Este é o efeito bumerangue das sanções: punição no exterior, medidas paliativas em casa. Enquanto isso, a Rússia ascende como uma potência económica, tudo às custas da arrogância dos eurocratas.
A dependência não foi encerrada — foi simplesmente reatribuída.
A acusação mais abrangente de Lavrov vai para lá da Ucrânia. Ele descreve um sistema: a grande ilusão da dominação económica global imposta por meio de tarifas, sanções, proibições e controlo das vias energéticas e financeiras — e também agora, imposta não apenas com folhas de excel, mas também com interdições marítimas ilegais.
A experiência da Europa desde 2022 torna esse sistema impossível de ignorar. O que é vendido como diversificação parece cada vez mais uma transferência de dependência. O fornecimento estável e de longo prazo por gasodutos deu lugar à exposição a uma volátil guerra global de licitações de GNL — estruturalmente mais cara, estrategicamente mais fraca e permanentemente incerta. Os contratos de longo prazo agora são procurados não por força, mas por compulsão. Uma joint venture grega que pretende um contrato de compra de GNL, a 20 anos, de até 15 biliões de metros cúbicos anuais, não é soberania. É uma necessidade, uma cortesia ao esquema de proteção de Washington, iniciado durante o governo Biden, mas continuado por Trump 2.0. Mas, a Europa tinha uma escolha: poderia ter escolhido a sobrevivência e a soberania.
A Europa não escapou da alavancagem, que se tornou mais gerível com a energia russa barata e confiável. Ela simplesmente mudou de senhorio.
E quando as sanções começam a ser aplicadas na prática — quando os navios são perseguidos, abordados, apreendidos — a ficção de que isso é apenas “pressão económica” desmorona-se. Torna-se o que sempre foi: controle da oferta.
Quando a Bíblia do Atlanticismo Pisca
Eis o sinal revelador — aquele que só aparece quando a negação, finalmente, falha.
A Foreign Policy, publicação oficial da ortodoxia transatlântica — o catecismo, a Bíblia, o lugar onde o pensamento aceitável é purificado e transformado em seriedade — publicou recentemente uma manchete que seria impublicável há pouco tempo: “A Europa está-se a preparar para se voltar para Putin”. Isto é importante precisamente por causa do local onde foi publicado.
A Foreign Policy não divulga heresias da corte imperial por conta própria. Ela regista mudanças, depois delas já terem ocorrido com os principais líderes transatlânticos. Quando reconhece uma mudança neste caso, está admitindo. O artigo não era simpático para Moscovo e não tinha essa intenção. Era brutalmente pragmático: a Europa está a descobrir que ser marginalizada por Washington nas negociações que determinam o seu próprio futuro tem consequências.
França e Itália — sem serem exceções, sem serem atípicas — estão a sinalizar a necessidade de um diálogo direto com Moscovo. Canais antes congelados estão a reabrir-se, com cautela, quase a contragosto. Assessores estão a viajar. Mensagens estão a circular. Não se trata de uma ideologia em evolução. É a fria aritmética a reafirmar-se.
Publicamente, o tom continua russófobo — absolutista, moralista, muitas vezes estridente. Em privado, a conclusão já foi assimilada. Os líderes europeus agora entendem algo que não podem mais apagar: a Rússia não entrou em colapso, não se rendeu e não desapareceu da história. Muito pelo contrário. Eles não precisam de gostar desse facto. Não é mais necessário pedir autorização.
A Rússia endurece o jogo — e lê o tabuleiro
A resposta da Rússia à pressão ocidental não foi o pânico. Foi a recalibração. Diversificação económica. Estabelecimento de rotas ferroviárias alternativas. Integração euroasiática mais profunda. Um setor energético que redirecionou os fluxos em vez de implorar por clemência — mesmo enquanto os seus navios eram perseguidos pelos mares a pretexto de “regras”.
Moscovo também entende o calendário americano. Sabe que Washington quer uma saída rápida antes das eleições de meio mandato — uma forma de reduzir a exposição sem expor o que já está sendo discutido abertamente. Sabe também que o mecanismo de sanções não pode ser revertido rapidamente, sem derramamento de sangue político, dentro do próprio sistema americano.
Essa assimetria é decisiva.
A Rússia percebe que Trump, quaisquer que sejam os seus intentos, tem menos cartas na manga do que aparenta. Ele não pode simplesmente suspender as medidas coercivas — marítimas ou financeiras — sem confrontar a estrutura que Washington levou anos a consolidar. Moscovo, portanto, não tem incentivo para se apressar, nenhum motivo para ceder cedo e todos os motivos para manter a calma, continuar a estabelecer a fria realidade do campo de batalha no terreno e deixar que o calendário político dos EUA aumente a pressão.
Isso não é teimosia. É poder negocial, conquistado com muito esforço.
O que significa, de facto, uma mudança de rumo na Europa
Uma verdadeira guinada europeia em direção à Rússia não seria a reconciliação ou o arrependimento. Seria a aceitação da realidade geopolítica e civilizacional num momento em que a negação se tornou suicida. A Europa não pode construir uma ordem de segurança duradoura em oposição permanente à Rússia sem se debilitar económica, industrial e politicamente. A experiência pós-2022 comprovou esse limite: a Europa esvaziou a sua própria base produtiva muito mais rapidamente do que conseguiu restringir, superficialmente, a profundidade estratégica da Rússia.
A interdependência energética, mesmo após reestruturação, continua a ser fundamental para a sobrevivência da Europa como civilização industrial. Essa realidade não pode ser eliminada por decreto nem obscurecida por slogans. Gasodutos, redes elétricas, rotas marítimas e cadeias de abastecimento respondem à geografia e à física, não a declarações de valores. Uma mudança de rumo significa admitir que a estabilidade provém da gestão da interdependência, não de uma ruptura meramente formal — e que a Rússia, seja ela bem-vinda ou rejeitada, permanece estruturalmente vital para o sistema continental europeu.
Acima de tudo, força a Europa a confrontar-se com a verdade que passou anos a evitar: a ordem atlântica à qual se vinculou encontra-se num estágio final de implosão imperial. A volatilidade das políticas, o excesso de sanções, o maximalismo na aplicação das regras e a geopolítica do ciclo eleitoral não são meros problemas. São sintomas. A Europa já não pode presumir que o alinhamento com Washington garanta coerência, proteção ou prosperidade. A adaptação já não é opcional. A Europa deve reinserir-se na História como um ator civilizacional com capacidade de ação — e não como uma dependência agarrada a uma ordem que já não consegue sustentar-se.
O realinhamento deixou de ser meramente teórico
O veredicto de Anchorage não foi um mal-entendido. Foi uma revelação.
Washington fez uma oferta que não podia politicamente honrar e, em seguida, recorreu a sanções, interdições e medidas coercivas — a única linguagem que o seu sistema ainda domina. A Europa ficou debilitada pelo custo. A Rússia absorveu a pressão. E nalgum ponto intermediário, o antigo roteiro atlântico silenciosamente deixou de funcionar.
O que mudou agora não foi a retórica da Europa, mas o seu reconhecimento interno. Até os eurocratas mais russófobos entendem o que não pode ser negado: a Rússia não vai voltar à ordem ocidental e a Europa não pode dar-se ao luxo de um confronto interminável.
A Europa não se está a aproximar da Rússia por boa vontade. A Rússia não está à espera da Europa por nostalgia. E Washington já não é o mediador indispensável que ainda finge ser. O realinhamento já está a acontecer — não porque alguém o tenha escolhido, mas porque a velha ordem perdeu força, antes de ficar sem slogans.
(*) O autor é analista político, escritor e estratega especializado em geopolítica, assuntos de segurança e dinâmicas estruturais do poder global. É fundador e editor do The Islander, uma plataforma de comunicação social independente que analisa a guerra, a diplomacia, a arte de governar a economia e a transição acelerada para um mundo multipolar.
O regime de Trump intensificou o embargo ilegal dos EUA contra Cuba, que já dura há décadas, transformando-o numa guerra económica total. A nação insular caribenha de 11 milhões de habitantes, que ainda está a recuperar de um furacão devastador ocorrido há apenas três meses, enfrenta uma crise existencial devido ao bloqueio de combustível, após Trump ter anunciado o corte total no fornecimento de petróleo.
No entanto, o ditador americano declarou perversamente Cuba uma «ameaça à segurança nacional dos EUA», dando assim a si mesmo licença para impor um sofrimento genocida.
Washington suspendeu todos os envios da Venezuela após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. Caracas tinha sido uma tábua de salvação para o aliado socialista, recebendo suprimentos de petróleo. Agora, Trump ordenou que todos os países cessassem o envio de exportações de combustível para Cuba, sob pena de sanções económicas e apreensão de navios.
A situação em Cuba é crítica. O presidente Miguel Díaz-Canel ordenou racionamento de emergência, uma vez que o país está a ser atingido por apagões contínuos. «Não permitir que uma única gota de combustível entre no nosso país afetará os transportes, a produção alimentar, o turismo, a educação das crianças e o sistema de saúde», afirmou.
A Rússia e a China condenaram a agressão dos EUA contra Cuba. Moscovo prometeu continuar a fornecer petróleo bruto, apesar da ameaça de sanções americanas. A China também expressou solidariedade com o fornecimento de ajuda alimentar e tecnologia solar para impulsionar a crescente rede de fontes de energia renovável de Cuba.
Mas a Rússia e a China deveriam fazer mais para defender um aliado em necessidade, sob o princípio de que um ataque a um de nós é um ataque a todos.
O tempo é essencial. O regime de Trump tem Cuba na mira para uma mudança de regime. O ataque à Venezuela e a agressão contínua contra o Irão com impunidade parecem ter encorajado Washington a aumentar a pressão sobre Havana.
Trump e os seus lacaios, como o secretário de Estado Marco Rubio, filho de emigrantes cubanos, estão ansiosos pela perspetiva de colocar Cuba de joelhos e finalmente destruir a revolução que desafiou a hostilidade implacável dos Estados Unidos por mais de 65 anos.
Em 1959, a revolução cubana liderada por Fidel Castro e Che Guevara transformou o país empobrecido de uma ditadura apoiada pelos EUA num farol de esperança para o mundo, mostrando que o socialismo era uma libertação viável da pobreza, da miséria e da degradação típicas do capitalismo ao estilo americano. Cuba tornou-se a «ameaça de um bom exemplo» no suposto quintal de Washington.
Por mais de seis décadas, os EUA impuseram um embargo económico ilegal a Cuba, em flagrante violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Todos os anos, nos últimos 30 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas vota por esmagadora maioria, exigindo que os EUA ponham fim à sua agressão económica.
Além do estrangulamento económico, os Estados Unidos lançaram uma campanha de terrorismo de Estado e operações psicológicas para promover uma mudança de regime. Ron Ridenour relata em Killing Democracy como a CIA realizou inúmeras tentativas de assassinar Fidel Castro e outros atos de agressão, como o bombardeamento de um avião civil em 1976, matando todas as 73 pessoas a bordo. A CIA também atacou a ilha com armas biológicas para destruir a agricultura cubana.
O povo cubano também foi ameaçado com aniquilação nuclear durante a crise dos mísseis de 1962, quando Cuba tentou defender-se instalando armas nucleares da União Soviética. Os americanos não tolerariam isso, embora os EUA presumam o direito de colocar os seus mísseis nas fronteiras de outras nações.
Quando a União Soviética entrou em colapso em 1991, Cuba sofreu um choque económico devido à perda do comércio. Foram necessários anos de inovação e improvisação para que a ilha se recuperasse, o que aconteceu com a ajuda do apoio contínuo da Rússia e da China, bem como da nova e vital linha de abastecimento de petróleo da Venezuela socialista nos últimos 25 anos.
O corte do petróleo venezuelano por Trump mergulhou Cuba numa crise aguda. Isso vem somar-se ao furacão Melissa, que atingiu a ilha em outubro passado.
Num ato de hipocrisia repugnante, o governo Trump anunciou na semana passada uma proposta de US$ 6 milhões em «ajuda humanitária», ostensivamente devido aos danos causados pelo furacão. Havana condenou o que considerou uma guerra económica dos EUA, causando sofrimento a toda a população e, em seguida, jogando «latas de sopa para ajudar algumas pessoas».
Há sinais de que a Rússia está a aumentar a sua assistência militar a Cuba. Um avião cargueiro Ilyushin IL-76 pousou em 1º de fevereiro na base aérea de San Antonio de Los Baños, a 50 quilómetros de Havana. Acredita-se que a carga incluía sistemas de defesa aérea.
Uma manobra russa semelhante ocorreu em outubro passado na Venezuela, quando um avião de carga IL-76 pousou em meio a tensões crescentes com os Estados Unidos. Isso foi visto como um apoio da Rússia a Caracas. No entanto, as defesas russas mostraram-se insuficientes quando comandos americanos invadiram Caracas em 3 de janeiro para sequestrar o presidente Maduro e a sua esposa. Especula-se que os venezuelanos não estavam suficientemente treinados para operar as armas russas.
Moscovo deve garantir que o mesmo erro não se repita em Cuba. Os dois aliados históricos assinaram um acordo renovado de cooperação militar em março de 2025. No mês passado, em 21 de janeiro, o ministro do Interior russo, Vladimir Alexandrovich Kolokoltsev, acompanhado por uma delegação de militares russos, manteve conversações com os líderes cubanos em Havana.
A Rússia e a China devem agir de forma decisiva para que Washington saiba que deve tirar as mãos de Cuba. São necessárias mais entregas de IL-76.
Porquê não enviar petroleiros acompanhados por navios de guerra russos e chineses para garantir a liberdade de navegação sob o direito internacional?
A China deve lançar um aviso vendendo mais títulos do Tesouro dos EUA e deixando Washington saber que a sua economia corre o risco de uma liquidação do dólar.
Alguns alertarão que tais medidas podem antagonizar Washington e levá-la a uma guerra total. Talvez. Mas qual é a alternativa? Mais agressão das hienas americanas enquanto perseguem um rebanho, eliminando os membros mais fracos um por um?
Cuba tem sido há muito uma inspiração corajosa para o socialismo e um desenvolvimento mais humano. A Rússia e a China devem a Cuba uma solidariedade ativa e precisam de defender o seu apelo a um mundo multipolar livre da hegemonia dos EUA. A hora de agir é agora.
Trata-se de uma questão de solidariedade moral e humanitária com uma nação que está a sofrer uma agressão bárbara por parte de um império sem coração. Mais do que isso, porém, se Cuba cair, será apenas uma questão de tempo até que o império norte-americano intensifique os seus ataques contra a Rússia e a China. Síria, Ucrânia, Venezuela, Taiwan, Irão, Cuba… até que ponto Moscovo e Pequim vão permitir que o regime psicótico norte-americano continue com as suas agressões antes que seja tarde demais?
Autor: Finian Cunningham, coautor da obra Killing Democracy (Matando a Democracia).