A guerra contra os Eslavos na Ucrânia chega ao fim

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 27/10/2026)

Steve Witkoff com Vladimir Putin, em 21 de Outubro de 2026

Aproxima-se o momento em que terá que se aceitar a derrota ocidental na Ucrânia. O Presidente Trump está decidido a substituir Volodymyr Zelensky, que fez aliança com organizações criminosas que lutam contra os Estados Unidos. O Exército russo continua a avançar. Musk, que proíbe o uso da rede Starlink para atacar e matar civis, acaba de abrandar o seu ritmo na Ucrânia. A Rússia está a ponto de atingir o seu objectivo militar. Resta saber: o que vão fazer os Europeus para mascarar o seu fracasso?


A Rússia levou muito tempo cumprir o papel que a Resolução 2202 do Conselho de Segurança  [1] lhe havia fixado e a desencadear a sua “operação militar especial” na Ucrânia.

É verdade que os seus parceiros alemães e franceses, igualmente designados como potências garantes dos Acordos de Minsk nada fizeram a propósito.

O Presidente Vladimir Putin até repreendera o oligarca Konstantin Malofeïev que, em nome da Santa Rússia, havia recrutado cossacos para vir em ajuda dos habitantes de Donbass, massacrados pelos «nacionalistas integralistas» com o assentimento do Presidente Petro Poroschenko. É verdade que Malofeïev, proprietário do grupo de comunicação Tsargrad, e de uma parte do das telecomunicações Rostelecom, é um monárquico e que agia em favor de um Grão-Duque. O Presidente lembrou-lhe que, hoje em dia, o facto de dispor de grandes meios não permite que se substitua o Estado.

Vladimir Putin só interveio quando os «nacionalistas integralistas» planearam uma operação militar de envergadura, não só no Donbass, mas também contra a Crimeia, que tinha aderido à Federação da Rússia [2]. Acabou por fazê-lo a correr, reconhecendo as repúblicas do Donbass como Estados soberanos, em 21 de Fevereiro de 2022, antes mesmo do Kremlin ter conseguido arranjar as bandeiras das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk para o acto.

O objetivo militar que então ele se havia fixado era o de libertar todas estas regiões; uma meta que deverá alcançar nas próximas semanas. Apenas porque os ocidentais forneceram armas aos ucranianos e a guerra escalou é que Vladimir Putin considerou libertar também a Novorossia; novo objetivo que deverá também alcançar nos próximos meses.

Seja como for, Donald Trump sucedeu a Joe Biden. Ao contrário deste, não tinha nenhum interesse privado neste conflito. Portanto, ele tentou pôr-lhe fim, advertindo publicamente Volodymyr Zelensky na Casa Branca, em 28 de Fevereiro de 2025. Mas este, sendo amplamente apoiado pela imprensa internacional, conseguiu fazer esquecer durante nove meses que já não passava de um impostor, ou seja, desde o fim do seu mandato, em Maio de 2024, e tratou de virar as opiniões públicas ocidentais a seu favor.

Donald Trump propôs várias rondas de negociações, nenhuma das quais teve sucesso. Zelensky foi apanhado com as mãos na massa, mas descartou-se sucessivamente sobre o director da sua administração, Andriy Yermak, depois sobre a sua substituta, Mariia Vitushok. Conseguiu encobrir os escândalos de corrupção da sua equipa, principalmente o caso Midas, e até mesmo o papel do seu sócio comercial, Timur Minditch, no escândalo de Jeffrey Epstein.

No entanto, graças a uma total impunidade, Volodymyr Zelensky acabou a formar aliança com os cartéis da droga mexicanos, que o Presidente Trump havia designado como «organizações terroristas estrangeiras» e aos quais dedicava uma guerra sem quartel  [3].

Em poucas semanas, na América Latina, narcotraficantes atacaram as forças da polícia e os agentes da Drug Enforcement Agency-DEA (Agência de Combate às Drogas) . Eles conseguiram monitorizar as transferências de droga através da fronteira méxico-americana e assassinaram funcionários ​​norte-americanos. Entretanto, as suas drogas estão disponíveis gratuitamente na UE, onde penetram sem risco através da fronteira ucraniana.

Assim sendo, o Presidente Trump decidiu sinalizar o fim da paródia. Ele enviou o seu representante especial, Steve Witkoff, à Ucrânia, depois à Noruega junto dos europeus, e finalmente à Rússia. O seu acólito, Jared Kushner, seguiu os contactos por teleconferência. O jovem estava a fazer negócios algures e viu-se surpreendido pela publicação de um livro denunciando os seus próprios esquemas [4].

Simultaneamente, Elon Musk, constatando que o Exército ucraniano utilizava o seu acesso Starlink, violando o contrato, para acções contra civis, restringiu o fluxo na Ucrânia. Atacado por esta decisão, ele republicou um post de Vladimir Zelensky gabando-se de utilizar esta rede para atacar a profundidade da Rússia [5].

Dmitri Medvedev, o antigo presidente russo e actual Secretário do Conselho de Segurança do país, divulgou uma lista dos problemas criados a Trump pelo «toxicómano de Kiev» [6]. Assim:

“1. Ele apoiou sempre abertamente, e em todo o lado, o velho Biden.

2. Ele recusou transmitir a Trump reais elementos comprometedores sobre o rival aquando das precedentes eleições.

3. Com uma insistência importuna — tal como uma grande mosca verde caída no pote de mel — e num tom grosseiro, ele exigiu a Trump dinheiro e armamento para levar a cabo a guerra contra a Rússia.

4. Ele manipulou os dirigentes europeus, empurrando-os quotidianamente contra Trump e a sua equipa

5. Em muitas ocasiões, ele ignorou Trump e seus colaboradores quando lhe apresentavam diferentes propostas tendo em vista negociações sobre o conflito.

6. Ele desprezou os Estados Unidos, recusando cessar os ataques contra as refinarias russas, ignorando os argumentos de Trump sobre o impacto destas acções nos preços mundiais dos produtos petrolíferos, bem como sobre a situação nos Estados Unidos na véspera das eleições.

7. Com o seu comportamento irrefletido, ele levou os Estados Unidos e a OTAN ao limiar de um conflito nuclear mundial com a Rússia.

8. Ele desviou, sem vergonha — junto com seus acólitos, tais como o foragido Minditch ou Yermak (agora caído em desgraça) — os fundos dos EUA que o velho Biden lhe entregava generosamente para a guerra ; ele continuou a meter a mão no que restava destas somas mesmo já com a Administração Trump.

9. Ele teceu laços com os cartéis mexicanos — que Trump abomina —; estes últimos enviam os seus homens de mão à Ucrânia para aí aprender a usar drones, pagando ao «toxicómano de Kiev» com dinheiro proveniente da venda de substâncias ilícitas nos Estados Unidos.

10. Em vez de ter em conta a posição de Washington, ele exerceu chantagem sobre os Estados Unidos, brandindo a ameaça de uma derrota na Ucrânia e agitando o espectro de consequências desastrosas para todo o Ocidente.”

Está claro que desta vez não haverá escapatória.

Yuri Ushakov, antigo embaixador russo em Washington e actual Conselheiro de Vladimir Putin, indicou que negociações trilaterais Rússia /Ucrânia /EUA poderiam se realizar no Abu Dhabi depois de 4 de Novembro. Ele lembrou entretanto que a oferta anterior de Moscovo, de 18 a 20 de Setembro, tinha sido recusada pela parte ucraniana  [7].

Dmitry Preskov, porta-voz do Kremlin, comentou a procura da UE por um negociador, mas sem nada fazer a respeito. «Eles discutem ainda e não tomam qualquer decisão». A propósito de uma eventual nomeação de Alexander Stubb, Presidente finlandês, ele declarou : «Se houver um negociador, muito bem. Se for um negociador que sinceramente se esforce para contribuir para uma solução pacífica, será ainda melhor.» O Kremlin não esconde a sua preferência por Gerhard Schröder, antigo Chanceler alemão e actual administrador da Gazprom.

O deputado Leonid Slutsky, presidente do Partido Liberal Democrata (fundado por Vladimir Zhirinowski), declarou : «Kyiv não busca negociações de paz. Zelensky já bloqueou uma grande cimeira trilateral na diáspora ucraniana com raides brutais às assembleias de voto durante as eleições para a Duma. Ele decidiu repetir esta acção antes de preparar a reunião em Abu Dhabi. A parte norte-americana deveria igualmente tirar conclusões e «não congelar», mas sim parar completamente toda a ajuda militar à Ucrânia. Isso é que seria uma contribuição real para o processo de paz». Geralmente, este Partido é utilizado pelo Kremlin para dizer bem alto o que a etiqueta força a não expressar.

O Kremlin rejeita, sem cerimónia, todos aqueles que propõem timidamente um simples cessar-fogo. Fala agora de um verdadeiro tratado de paz, no pleno sentido do termo, com a desnazificação do país.

O conjunto das potências membros da «Coligação dos Dispostos» enfrenta hoje as consequências de tudo isto.

• Como se vai reconhecer que, sim, havia «nacionalistas integralistas», «banderistas», no seio do governo ucraniano?

• Como se vai reconhecer que eles não se consideravam Eslavos, mas antes pretendiam erradicar todos os Eslavos, Ucranianos e Russos, até ao último descendente?

• Como se vai aceitar que foi esta gente que foi apoiada sem reservas às custas de grandes aumentos de impostos na União Europeia e no Canadá?

É provável que depois desta carnificina, que custou a vida a mais de um milhão de pessoas, não seja apenas Volodymyr Zelensky a pôr-se na alheta rapidamente, mas também dirigentes políticos da União Europeia e do Canadá.

No entanto, a Alemanha, a França, a Itália, a Polónia e o Reino Unido assinaram, em 26 de Outubro, uma declaração comum sublinhando o seu compromisso sem falhas ao lado da Ucrânia e anunciando que se comprometiam a reforçar o seu papel no seio da OTAN [8].

NOTAS

1] «Résolution 2202 du Conseil de sécurité», dite S/RES/2202 (2015), adoptée le 17 février 2015.

[2] «Plan d’attaque ukrainien», Révélé par l’Agence Tass, 9 mars 2022.

[3] “A aliança de V. Zelensky com cartéis latino-americanos põe em perigo estratégia antidroga da Casa Branca”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Outubro de 2026.

[4] Princes and Thieves: Jared Kushner and Mohamed bin Zayed’s Secret Plot to Remake the Middle East, Matthew Cole, Atria/One Signal Publishers.

[5] «@elonmusk», Elon Musk, X, October 25, 2026.

[6] Dmitri Medvedev, VK, 24 октября 2026 года.

[7] «Commentary by Presidential Aide Yury Ushakov following Vladimir Putin’s meeting with US President’s Special Envoy Steve Witkoff», Kremlin, October 21, 2026.

[8] «Déclaration conjointes des ministres de la défense du E5», Ministère français de la Défense, 26 octobre 2026.

Fonte aqui

Que circo arde quando arde a tenda?

(Rui Pereira, in Facebook, 28/10/2026, Revisão da Estátua)

FOTO (como um abraço): Egídio Santos. Porto, Praça D. João I, 25.20.2026

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Sem a pretensão de responder por inteiro à pergunta, limito-me a anotar  que alguns termos de comparação – entre as dores de quem sofre a impossibilidade de ter uma vida “normal” e os ardores hipócritas que pautam os “debates” entre aqueles que cinicamente, em nome dos interesses que os fazem eleger e que efetivamente representam -, são causas profundas do estado a que “isto” chegou.

Por uma vida “normal” quero apenas designar a possibilidade de uma existência – não vamos mais longe -, materialmente equivalente à das gerações anteriores. As pessoas deixaram de ir trabalhar aos oito anos de idade, numa geração. A seguinte já pôde estudar e trabalhar em conformidade com o que estudara. Teve uma relativa autonomia nas escolhas do seu emprego, da aquisição da sua casa e de bens de conforto que se tomaram como sendo direitos adquiridos. Em contrapartida, reproduziram-se, pagaram impostos, trabalharam, descontaram para a Segurança Social, enfim, fizeram a sua vida comum, anónima, conjunta… “normal”.

Por “estado a que isto chegou” – paráfrase de Salgueiro Maia na noite de 24 para 25 de abril de 1974 -, quero sintetizar a deceção, para tantos e tantos, surpreendente, que consiste no facto de o sistema económico do capitalismo (vulgo mercado) não mais ser capaz de assegurar à geração seguinte o melhoramento material da sua vida em relação à geração anterior.

Assim, o Luís bem pode trabalhar “todos os dias, t-o-d-o-s”, como assegurou ontem, no Parlamento, em resposta ao deputado entrevistadeiro que lhe perguntava por onde andava, nestas últimas semanas, em que “as principais praças do país estavam a ferro e fogo”. Sabemos, como dizem os franceses, como “les bons esprits se rencontrent” e, aqui, as almas estão bem uma para a outra.

Porém, não foram as praças do país que estiveram “a ferro e fogo”. O que esteve e está em suspenso, congeladas, são as vidas das pessoas. Dos velhos porque têm de optar entre comer e tratar-se, sob risco de serem despejados da casa onde subvivem. Dos intermédios que a qualquer momento podem ser vítimas do bastão empresarial das leis laborais. Dos mais novos, que olham para diante e preferem fechar os olhos perante o buraco negro a que os Luíses deste mundo – e, sobretudo, os que estão detrás deles -, os condenaram e a que chamam “futuro”.

Não há em Portugal um irresolúvel problema de habitação. Como não o há em Espanha. Da mesma maneira como não há na França ou na Albânia um problema de educação.

Há em todos aqueles lugares – a que se somam aqueles que por ora ainda ardem apenas em lume brando -, um problema entre vida humana e sistema rentista de acumulação de capital. Os seus protagonistas, argumentos, causa das coisas são mais diferentes ou mais iguais de lugar para lugar, mas aquilo que temos pela frente é o último reduto do capital. Aquilo que Peter Sloterdijk, refletindo sobre a chamada “globalização”, traduziu com total exatidão como representando a garantia de que já não há para onde escapar!

Sem ponto de fuga, os homens e mulheres da “situação” podem arguir nas televisões com decretos e regulamentos, podem absurdamente falar dos “acampados” como se alguém pretendesse construir parques de campismo no centro das cidades, como se as “tendas” não fossem um símbolo de uma vida tornada impossível, mas sim um projeto urbanístico com fins residenciais, para onde os que as montam pretendessem mudar-se em substituição da casa que não têm.

Em complemento, o procedimento do MAI, algo ao estilo do “new sheriff in town”, não deve surpreender quem tenha um conhecimento mínimo do funcionamento das forças policiais em Portugal (nomeadamente da PJ, de onde vem Luís Neves): primeiro faz-se, depois inquire-se se alguém prevaricou e, se sim, a seguir reintegra-se, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

Não, não se trata de tendas, nem de casas, nem de escolas, nem de empregos, nem de passado, nem de presente, mas sim do “problema do futuro”.

O que me remete para a última intervenção pública de José Mário Branco, um ano antes da sua morte, durante uma das poucas homenagens que aceitou: a de ter o seu nome numa tília do Palácio de Cristal. Quando perguntado sobre esse problema, o problema “do futuro”, respondeu significativamente, “esse está resolvido, não há!”.

Na batalha das tendas é disso que se trata. O problema urgente de um futuro que, a continuar como o circo do passado e do presente, está resolvido: “não há”.

Quem controla a informação em Portugal

(Ricardo Graça, Advogado, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua.)


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Todos os dias, milhões de portugueses ligam a televisão, abrem o telemóvel ou folheiam um jornal a pensar que estão a ser informados. Mas não estão! Estão a receber uma versão da realidade escolhida por um punhado de pessoas que a maioria nunca ouviu falar.

Em Portugal, quase toda a informação que chega ao cidadão passa por três ou quatro grupos privados. A Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, detém a SIC e o Expresso. A Media Capital, controlada pelo empresário Mário Ferreira, dono da Douro Azul, detém a TVI e a CNN Portugal. A Medialivre, antigo grupo Cofina, detém o Correio da Manhã, a CMTV, o Jornal de Negócios e a Record. A Global Media, detém o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e a TSF. E depois há a RTP, que é pública, financiada com dinheiro dos contribuintes, e que muda de direcção cada vez que muda o Governo.

E a concentração não pára. Pelo contrário, acelera. A Cofina tentou comprar a Media Capital. A família Berlusconi negociou a compra da Impresa. Os grupos compram-se, fundem-se, absorvem-se. Cada fusão significa menos vozes. Cada aquisição significa menos pluralidade. E cada despedimento numa redacção significa menos olhos a vigiar quem precisa de ser vigiado.

Toda a informação que o país consome é filtrada por meia dúzia de grupos, controlados por meia dúzia de pessoas, com meia dúzia de interesses. Não é teoria. É facto. Está publicado e basta uma simples pesquisa na internet.

Agora pergunte-se: quando um empresário que tem interesses na construção, no turismo, nos navios de cruzeiro e nos negócios internacionais é dono de uma televisão, acha que essa televisão vai noticiar livremente contra os interesses dele? Quando o dono de um jornal tem dívidas a bancos, acha que esse jornal vai investigar esses bancos? Quando um grupo de Comunicação Social depende de publicidade institucional do Estado, acha que vai fazer jornalismo a sério sobre a incompetência do Governo? A resposta é óbvia. E toda a gente a sabe. Mas ninguém a diz em horário nobre. Mas o problema não é só quem é dono. É como funciona a máquina.

A maior parte das notícias que aparecem nos jornais e nas televisões não nascem de investigação jornalística. Nascem de comunicados de imprensa, de notas de assessores de comunicação, de agências de relações públicas que fabricam histórias e as servem prontas à redacção. O jornalista recebe, edita e publica. Às vezes nem edita. E o leitor consome aquilo como se fosse jornalismo quando, na verdade, é publicidade disfarçada.

Há empresas inteiras dedicadas a isto. Chamam-lhes agências de comunicação. O trabalho delas é garantir que certas notícias aparecem e que outras desaparecem. Que certos nomes são protegidos e que outros são destruídos. Que certos problemas nunca chegam ao público e que outros são amplificados até à exaustão. Tudo isto é feito de forma profissional, organizada e bem paga. E o cidadão comum nunca sabe que está a ser manipulado.

E já agora: repare nas notícias que nunca aparecem. Já viu um telejornal investigar a fundo os contratos entre o Estado e as grandes construtoras? Já viu uma reportagem séria sobre os lucros da banca enquanto as famílias pagam juros que não conseguem suportar? Já viu uma peça sobre os benefícios fiscais que as multinacionais recebem em Portugal enquanto o cidadão comum paga IRS até ao último cêntimo? Estas notícias existem, estes factos são públicos. Porque as empresas que beneficiam desses contratos, desses lucros e desses benefícios são as mesmas que compram publicidade nos jornais e nas televisões. E ninguém morde a mão que o alimenta.

Depois há a propaganda do medo.

Ligue a televisão num dia qualquer. O que encontra? Assaltos, violência, crises, catástrofes, doenças, ameaças. Tudo urgente. Tudo dramático. Tudo desenhado para manter as pessoas com medo, coladas ao ecrã, a consumir publicidade entre dois blocos de pânico.

O medo vende. O medo gera audiências. O medo faz com que as pessoas não pensem, não questionem, não se revoltem. Uma população com medo é uma população obediente. E uma população obediente é fácil de governar.

Já reparou que as boas notícias quase nunca passam? Que as soluções que funcionam noutros países nunca são noticiadas? Que os movimentos de cidadãos que se organizam e resolvem problemas nunca têm cobertura? Não é por acaso. O cidadão informado e confiante não serve os interesses de quem precisa que ele tenha medo.

E quando alguém levanta estas questões, sabe o que acontece? É chamado de “teórico da conspiração”. Como se questionar quem controla a informação fosse loucura. Como se perguntar a quem serve uma notícia fosse delírio. Como se exigir transparência sobre quem decide o que é notícia e o que não é fosse paranóia.

O rótulo “teoria da conspiração” é uma das ferramentas mais eficaz de censura dos nossos tempos. Não é preciso proibir ninguém de falar. Basta descredibilizar quem fala. E o sistema faz isso com uma eficiência impressionante. Quem questiona é maluco. Quem duvida é radical. Quem investiga é perigoso. E quem aceita tudo sem questionar é cidadão responsável e bem informado.

Eu não estou a dizer que existe um comité secreto que decide as notícias. Não precisa de existir. O sistema funciona sozinho. Quando os donos da Comunicação Social têm interesses económicos e políticos, quando as redacções dependem de publicidade para sobreviver, quando os jornalistas trabalham em condições precárias e sem tempo para investigar, quando as agências de comunicação fornecem notícias prontas a publicar, o resultado é sempre o mesmo: uma informação filtrada, enviesada e ao serviço de quem paga. E quem paga nunca é o cidadão.

Há outro truque que o cidadão comum não vê: o conteúdo patrocinado. Os grandes grupos de Comunicação Social vendem espaço nos seus jornais e nos seus sites a empresas que querem parecer notícia sem o ser. Chamam-lhe “branded content”, “conteúdo de marca” ou “publicidade nativa”. Na prática, é uma peça escrita para parecer jornalismo, publicada ao lado de notícias reais, com um aviso tão discreto que a maioria das pessoas não repara. O leitor lê aquilo a pensar que é informação. É publicidade. E o jornal cobra por isso.

Os próprios grupos de Comunicação Social  já têm divisões inteiras dedicadas a produzir este conteúdo. Não são as redacções. São departamentos comerciais com outro nome. Mas o produto aparece no mesmo jornal, no mesmo site, na mesma aplicação. E o cidadão, que confia no nome do jornal, consome sem questionar.

E repare nos “especialistas”. Quantas vezes ouviu os mesmos comentadores, os mesmos analistas, as mesmas caras a dizer as mesmas coisas em canais diferentes? São sempre os mesmos. Rodam entre estúdios como actores de telenovela. Estão na SIC de manhã, na TVI à tarde e na CNN à noite. Dizem o que se espera que digam. Confirmam a narrativa do dia. E criam no cidadão a ilusão de que ouviu várias opiniões quando, na verdade, ouviu a mesma três vezes com gravatas diferentes.

Falemos agora de quem faz as notícias. Dos jornalistas. A maioria dos jornalistas em Portugal trabalha em condições que ninguém aceita em 2026. Contratos precários, salários baixos, horários impossíveis e redacções cada vez mais pequenas. Um jornalista que há dez anos cobria um tema e tinha tempo para investigar, hoje cobre três temas ao mesmo tempo e tem de publicar antes do almoço para alimentar o site. Não tem tempo para confirmar, para cruzar fontes, para ir ao terreno. Tem tempo para reescrever o comunicado que lhe chegou e pôr um título que gere cliques.

Isto não é culpa dos jornalistas. É culpa de um modelo de negócio que substituiu a qualidade pela velocidade e a investigação pelo volume. Os bons jornalistas existem. Muitos deles sabem exactamente o que está mal. Mas estão presos num sistema que os obriga a produzir em quantidade o que devia ser produzido com rigor. E quando tentam investigar a sério, muitas vezes são travados. Não por censura formal. Por falta de meios, por pressão editorial, por medo de perder anunciantes. A auto censura é a forma mais eficiente de controlo: o jornalista aprende sozinho o que pode e o que não pode dizer.

E depois há a informação que já não passa sequer pelos jornais. Passa pelos algoritmos. Hoje, a maioria das pessoas não vai ao site de um jornal procurar notícias. Recebe-as no telemóvel, escolhidas por um algoritmo que não sabe o que é verdade, sabe o que gera reacção. O algoritmo não distingue jornalismo de propaganda. Não distingue factos de opinião. Não distingue informação de manipulação. Mostra-lhe o que o mantém mais tempo a olhar para o ecrã. E o que mantém as pessoas a olhar é, quase sempre, o que as assusta, o que as indigna ou o que confirma o que já acreditavam.

Há ainda outro fenómeno que merece atenção: a porta giratória entre a política e a Comunicação Social. Quantos antigos políticos, assessores e secretários de Estado passaram para direcções de comunicação de grandes empresas, para agências de lobbying ou para cargos na Comunicação Social? E quantos jornalistas foram para gabinetes ministeriais e voltaram como se nada fosse? Esta circulação cria uma rede de cumplicidades em que quem informa e quem é informado se confundem. O jornalista que amanhã quer ser assessor não vai incomodar hoje o ministro que lhe pode dar o lugar. E o antigo assessor que agora é comentador vai proteger quem o pôs onde está.

Em Portugal, temos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a ERC. Deveria ser uma entidade reguladora da informação livre. Mas na prática, é um organismo que emite pareceres, publica relatórios e assiste a tudo sem poder real de intervenção. Quando a concentração da propriedade dos media ameaça a pluralidade, a ERC opina. Quando um órgão de comunicação viola regras deontológicas, a ERC lamenta. Quando os interesses económicos dos donos contaminam a informação, a ERC analisa. E o cidadão continua a ser tratado como espectador de uma peça de teatro onde o guião já foi escrito.

A Constituição garante a liberdade de imprensa. Artigo 38.º. Garante que o Estado não pode censurar. A censura moderna não vem do Estado. Vem do mercado. Vem de quem é dono. Vem de quem paga. Vem de quem decide o que é notícia e o que não é.

A censura de hoje não proíbe. Ignora. Não apaga. Abafa. Não prende jornalistas. Despede-os.

O cidadão que quer ser informado em Portugal tem de fazer um esforço activo. Tem de ler várias fontes. Tem de comparar versões. Tem de procurar quem escreve e para quem. Tem de perceber que a notícia que lhe aparece no telemóvel não é um acto de serviço público, é um produto. E como todo o produto, serve quem o produz, não quem o consome.

A pergunta que fica é simples: num país onde meia dúzia de empresários controla quase toda a informação, onde as redacções vivem de publicidade e comunicados, onde o medo é modelo de negócio e onde questionar tudo isto dá direito ao rótulo de teórico da conspiração, pode dizer-se que existe liberdade de informação?

A resposta, essa, nunca vai passar no telejornal. Tal como as verdades que não servem os interesses de quem o paga.