O mundo está à beira de uma guerra nuclear?

(WSWS.org, editorial, 30/09/2026, Trad. Estátua)

Nesta foto divulgada pelo Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia em 10 de fevereiro de 2022, o navio de assalto anfíbio da Marinha Russa, Kaliningrad, entra no porto de Sebastopol, na Crimeia. [Foto AP/Serviço de Imprensa do Ministério da Defesa da Rússia]

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

O mundo está à beira de uma guerra nuclear? A questão surge diretamente dos eventos dos últimos dias, à medida que a guerra entre os EUA e a NATO contra a Rússia na Ucrânia se intensifica, transformando-se num confronto aberto entre potências nucleares.

A Rússia declarou esta semana estar pronta para usar armas nucleares caso a NATO bloqueie Kaliningrado, território russo no Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia. O alerta foi emitido pelas embaixadas russas na Bélgica, Grã-Bretanha e Irlanda, nos dias 28 e 29 de setembro, e também em nota diplomática à NATO. 

Afirmando que a NATO estava preparando um “bloqueio aéreo e naval” de Kaliningrado, a embaixada russa na Irlanda declarou: “Não deve haver dúvidas — a Rússia estaria pronta para usar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, para defender o seu território caso os países da NATO tentem isolar a região de Kaliningrado do resto do país.” 

A porta-voz da NATO, Allison Hart, respondeu na terça-feira, afirmando: “A NATO é uma aliança defensiva e nenhuma das nossas atividades ou exercícios representa um risco para qualquer parte da Rússia”. Ela denunciou “a ameaça do uso da força, incluindo qualquer retórica nuclear irresponsável”.

Essa afirmação é totalmente falsa, visto que a aliança da NATO está armando e orientando ataques ucranianos em território russo. A NBC News noticiou em outubro de 2025 que o governo Trump forneceria informações de inteligência a Kiev para ajudá-la a “atacar instalações de petróleo e gás dentro da Rússia”. Em 30 de julho, a Comissão Europeia pagou a Kiev € 3,47 biliões, incluindo financiamento para “drones a jato de longo alcance”. Na noite de 19 para 20 de setembro, a Ucrânia lançou o maior ataque da guerra, com drones, contra Moscovo e região circundante. Em 28 de agosto, as forças ucranianas atacaram um bombardeiro estratégico Tu-95, parte das forças nucleares da Rússia, na base aérea de Engels.

Além disso, as “atividades e exercícios” da NATO são direcionados para a própria Kaliningrado. Em meados de agosto, segundo uma fonte militar ocidental citada pela Reuters, dezenas de aeronaves da NATO realizaram uma operação não anunciada ao redor do enclave. A operação demonstrou que eles poderiam cortar as ligações de rádio e radar, bem como as defesas aéreas. Desde janeiro, 14 países europeus consideram os petroleiros ligados à Rússia que mudam de bandeira ou desligam seus transponders como “embarcações apátridas” sujeitas a abordagem, e a Suécia apreendeu uma, em março.

Em 11 de setembro, o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, disse sobre Kaliningrado: “Quase não há tropas lá”. Ele propôs que a NATO “realizasse exercícios tão agressivos no nosso lado a ponto de deixar [Putin] incerto sobre o que iremos fazer”. Ele acrescentou: “Não devemos pensar no nosso confronto com a Rússia apenas como algo restrito à Ucrânia”. 

As potências europeias estão partindo do pressuposto de que Moscovo está a fazer bluff. Na Cimeira de Defesa e Espaço da Euronews, em Bruxelas, na quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou: “Não levo isso a sério. … Todos sabem que [Putin] jamais poderá vencer a NATO.” 

A lógica é a de uma escalada implacável. As potências europeias condicionaram a sua política a uma vitória ucraniana. “Putin precisa sentir que a guerra está chegando à própria Rússia”, declarou na quarta-feira o Comissário Europeu da Defesa, Andrius Kubilius.

Entretanto, a situação militar da Ucrânia está a deteriorar-se. Em julho, intercetou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos russos e entra no inverno sem as defesas aéreas necessárias para proteger a sua rede elétrica. Cada novo revés será respondido com uma escalada ainda maior: o envio de tropas terrestres ou a abertura de novas frentes, incluindo Kaliningrado.

Para Moscovo, os riscos não poderiam ser maiores. Kaliningrado é para o Mar Báltico o que a Crimeia é para o Mar Negro. É a sede da Frota do Báltico e a base dos mísseis Iskander, com capacidade nuclear, da Rússia. Desde que a Finlândia e a Suécia aderiram à NATO, a cidade está cercada pela Aliança por terra e mar.

Em certo sentido, o enclave é mais sensível que a Crimeia. O seu estatuto é reconhecido internacionalmente desde a Conferência de Potsdam de 1945, que o transferiu para a União Soviética. Uma ação contra Kaliningrado seria um ataque a um território que nenhum governo contesta ser russo. A doutrina nuclear da Rússia permite uma resposta nuclear a uma agressão convencional que represente uma “ameaça crítica” à sua integridade territorial.

Nikolai Sokov, ex-diplomata russo e analista nuclear radicado em Viena, disse à Reuters em entrevista publicada na quarta-feira: “Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico — um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus, mas para eles isso será uma guerra aberta. Vejo, assim, um risco de erro de cálculo mútuo.”

Um bloqueio à Rússia pode estar “um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus”, mas, segundo o direito internacional, é um ato de guerra. A definição de agressão adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974 inclui “o bloqueio dos portos ou costas de um Estado pelas forças armadas de outro Estado”. 

Considerando os riscos, é espantoso que não haja apelos à negociação nem se fale num acordo. O único debate nas capitais europeias gira em torno de até que ponto e com que rapidez intensificar o conflito.

Esta é a imprudência das potências imperialistas assoladas por uma crise social, económica e política cada vez mais profunda, que impulsionam a guerra sem se importarem com as suas consequências. O regime de Putin, que representa uma oligarquia capitalista e é incapaz de fazer qualquer apelo genuíno à classe trabalhadora internacional, responde com ameaças nucleares.

O contraste com 1962 é gritante. Quando os Estados Unidos e a União Soviética chegaram à beira do conflito por causa dos mísseis soviéticos em Cuba, o perigo foi abertamente reconhecido. O presidente John F. Kennedy anunciou a crise na rede nacional de televisão em 22 de outubro, e durante a semana seguinte o mundo acompanhou cada desenvolvimento. Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev trocaram cartas, e os dois governos, temendo as consequências, negociaram por canais informais até encontrarem uma maneira de recuar. Hoje não há reconhecimento nem negociação. 

Existe um abismo imenso entre a dimensão do perigo e a consciência pública sobre ele. Milhões sentem que algo está profundamente errado, mas não conseguem acreditar que os seus governos arriscariam uma guerra nuclear. Na medida em que o perigo é apresentado na mídia, ele aparece como a ameaça inexplicável dos russos, a “retórica nuclear” de Putin e a “guerra híbrida”. Nunca é apresentado como uma resposta às ações das potências da NATO. 

Até a noite de quarta-feira, o New York Times e a CNN não haviam noticiado o alerta de Moscovo. Os veículos de comunicação que se manifestaram pressionam por uma escalada ainda maior. O Washington Post escreveu na segunda-feira: “Uma mensagem melhor de Trump seria que os EUA permitirão que a Ucrânia aja com mais intensidade se a Rússia não aliviar a pressão.”

Os democratas criticaram o presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua postura insuficientemente agressiva contra a Rússia. Em 24 de setembro, 21 senadores democratas declararam que os “apelos por desescalada” na cimeira de Trump com o presidente chinês Xi Jinping “não fazem nada para interromper o fluxo de bens chineses de dupla utilização que mantém a máquina de guerra de Vladimir Putin em funcionamento”. Entre os signatários estavam o líder democrata Chuck Schumer, Elizabeth Warren e Adam Schiff.

A guerra na Ucrânia, provocada por três décadas de expansão da NATO até as fronteiras da Rússia, faz parte de uma luta pela hegemonia global travada em todos os continentes. Mais de quatro anos após o início do conflito, uma nova e catastrófica etapa está sendo preparada às escondidas da população. A classe trabalhadora, que pagará o preço, precisa ser alertada. Os governos que cortam empregos e programas sociais para financiar o rearmamento são os mesmos que estão conduzindo a uma guerra que pode se tornar nuclear.

A luta contra a guerra deve estar ligada à luta de classes que já está em curso. A mesma crise que impulsiona a classe dominante para a guerra está a impulsionar os trabalhadores para a luta contra as demissões, contra a destruição dos programas sociais e contra os ataques aos direitos democráticos.

A classe trabalhadora é a única força social capaz de deter a guerra, mas só poderá fazê-lo se compreender o que está a ser preparado e lutar conscientemente contra ela e contra o sistema capitalista que a produz. A primeira tarefa é romper o silêncio sobre o perigo. Exortamos os nossos leitores a divulgarem esta declaração o mais amplamente possível.

Fonte aqui

Inverno de 2026: A Europa dividida entre o Urso, o Tio Sam e o termómetro

(Por h16, in Reseau International, 01/10/2026, Trad. Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

A alegria do aquecimento global (um pouco) e do El Niño (muito): tudo indica que, este ano, com o Pacífico a aquecer como raramente acontece, o início do inverno poderá ser ameno e húmido no Velho Continente.

Eis uma (muito rara) boa notícia para os governos europeus… que, no entanto, deverão evitar qualquer otimismo ingénuo, uma vez que as previsões meteorológicas não excluem um regresso do frio em janeiro e fevereiro, ou seja, exatamente na altura em que as reservas de gás estão no nível mais baixo.

E este ano, partem de um nível baixo: a 25 de setembro, as reservas europeias de gás situavam-se em apenas cerca de 70%, cerca de quinze pontos abaixo da média dos últimos cinco anos, e isto apesar do seu preço no mercado ter mais do que duplicado num ano.

Recorde-se que, em 2022, no meio do pânico, Bruxelas impôs uma meta de 90% de enchimento até 1 de novembro, taxa que foi necessário “flexibilizar”  este ano, com uma tolerância de dez pontos quando as condições de mercado são «desfavoráveis». Mas eis que a nova meta de 80% nem sequer é certo que seja atingida.

Fiquemos tranquilos: a Grande Comissão fez o que os ministérios franceses praticam com mestria há muito tempo sempre que um objetivo não é atingido, ou seja, rebaixá-lo, e concluiu, assim, no início de setembro, que não existe «risco imediato» para o abastecimento.

Está bem, mas para encher os tanques são necessários hidrocarbonetos que o Golfo não parece poder fornecer: a Aramco avisou os europeus de que não receberiam petróleo bruto ao abrigo dos contratos em outubro e a QatarEnergy prolongou até novembro a sua cláusula de força maior relativa ao GNL. E, infelizmente, a União, que importa 80% do seu gás e 95% do seu petróleo, não dispõe de alternativas geográficas.

Na prática, restam, portanto, apenas dois fornecedores de último recurso: um a oeste, outro a leste, e nenhum dos dois disposto a fazer concessões.

No entanto, Washington já tinha avisado em novembro passado, com a publicação da Estratégia de Segurança Nacional: os Estados Unidos estão a voltar a centrar-se no seu hemisfério ocidental, acrescentam um «corolário de Trump» à doutrina de Monroe e a Europa é instada a recuperar a sua «confiança civilizacional». Esta estratégia apela a um rápido fim das hostilidades na Ucrânia e visa uma «estabilidade estratégica» com Moscovo.

Quem viu nisso apenas mais uma manobra ficará desiludido: dez meses depois, a sua aplicação está a avançar passo a passo.

E, aliás, na terça-feira, à margem da Assembleia Geral da ONU, Trump assinou com Copenhaga e Nuuk o acordo sobre a Gronelândia, que está muito longe de ser uma simples atualização do acordo de 1951, como os comentadores de sempre tentam fazer crer.

Assim, os Estados Unidos garantem agora uma presença militar permanente, da qual até mesmo uma Gronelândia independente herdaria (artigo XI), quer queira quer não, um direito de veto sobre qualquer presença militar de países não membros da NATO no território polar, bem como sobre a identidade dos intervenientes autorizados a investir nas suas infraestruturas e recursos estratégicos (fora da NATO e da UE). A Dinamarca renunciou ao seu direito de intervir no próprio princípio da criação de novas bases americanas, conservando apenas o direito de discutir os «detalhes de implementação» e já não pode estabelecer as regras que regem as deslocações das forças armadas americanas na ilha. Em suma, mesmo que em Copenhaga se afirme, com um ar tenso, ter-se conservado a soberania, trata-se sobretudo de uma soberania de fachada.

No mesmo dia, Trump assinou a lei HR5334, que o autoriza a aplicar direitos aduaneiros de até 100% a todos os produtos dos cinco maiores compradores de hidrocarbonetos russos. De acordo com as estimativas que circulam no Congresso, esta lista inclui a França, a Bélgica e a Hungria. É certo que o presidente pode conceder isenções… Ou não.

Paralelamente, a revisão da presença militar norte-americana na Europa prevê a retirada de 25 000 a 40 000 homens, ao mesmo tempo que promete uma base permanente à Polónia. Tal como era previsto, a transferência de responsabilidades está em curso, de forma metódica.

Por fim, para aqueles que contavam com o gás e o gasóleo americanos para passar o inverno, recordemos que, perante Zelensky, Trump se mostrou favorável a uma proibição das exportações de gasóleo americano, ao mesmo tempo que pediu a Kiev que deixasse de atacar as infraestruturas energéticas russas. Pois é, o fornecedor de último recurso não está, portanto, garantido a fornecer, e preferiria que as refinarias russas continuassem a funcionar.

Para pressionar os europeus a sentarem-se à mesa das negociações, dificilmente se poderia ser mais claro.

Por outro lado, Moscovo pouco teve em conta a vontade daqueles que prometiam asfixiar a sua economia em poucos trimestres e, em vez de isolar a Rússia, as sanções acabaram por deslocar as refinarias para a Índia, que absorveu 36% do petróleo bruto russo exportado desde o final de 2022. As suas exportações de petróleo para a União passaram, de 8,7 para 19,2 mil milhões de dólares em dois anos: o gasóleo «indiano» que chega a Roterdão tem o aroma dos Urais. E no que diz respeito ao gás, a União continua a ser o principal cliente do GNL russo, absorvendo quase metade das suas exportações. A França ocupa o segundo lugar entre os importadores europeus de energia russa, atrás da Hungria e do seu gasoduto.

Resumindo, Moscovo produz, a Europa consome.

A influência russa estende-se até ao interior da União: o oleoduto Druzhba transforma Budapeste e Bratislava em pontos de bloqueio permanentes, e a prova disso ocorreu esta semana: as sanções europeias foram renovadas cinco minutos após a meia-noite, à custa da retirada dos oligarcas Alisher Usmanov e Mikhail Fridman da lista de pessoas sancionadas contra a Rússia. Segundo vários diplomatas, a própria França pressionou para que Usmanov fosse retirado da lista, a fim de obter a libertação de cidadãos franceses detidos no Azerbaijão.

Cínica, a Macronia pretende liderar a «coligação de voluntários», mas troca o levantamento de sanções por prisioneiros. Nem sequer se ousa imaginar o que ela concederia caso o inverno fosse demasiado rigoroso.

O prazo está a esgotar-se: a partir de meados de outubro, qualquer nova compra de petróleo bruto russo expõe os grandes clientes de Moscovo à ira dos Estados Unidos. Se Nova Deli reduzir as compras para salvaguardar o seu acesso ao mercado norte-americano, a Europa perde uma boa parte do seu gasóleo «indiano», precisamente no inverno em que a Arábia Saudita a priva de petróleo bruto. Se Nova Deli se mantiver firme, cada carga indiana torna-se um risco bancário. Em ambos os casos, os preços sobem e o vendedor de último recurso chama-se Washington, que terá todo o interesse em explicar que um gasóleo a preços acessíveis é incompatível com uma guerra prolongada no Oriente.

Assim, em quatro anos, os líderes europeus ofereceram a um adversário os meios de pressão que pensavam ter-lhe confiscado, transformaram um protetor num credor e a sua política energética num boletim meteorológico: se o El Niño cumprir as suas promessas até março, Bruxelas falará de «resiliência».

E, caso contrário, negociar-se-á a Ucrânia, com um casaco de penas, com Washington, de um lado, e Moscovo, do outro.

Fonte aqui

Os generais de sofá

(Adriano Pires, in Facebook, 02/10/2026)

Imagem gerada por IA

Há fenómenos perturbadores a acontecer nos nossos dias. Um deles é a extraordinária facilidade com que certos indivíduos, que nunca cumpriram o serviço militar obrigatório, nunca comandaram sete soldados, nunca estudaram Ciência Militar, nunca empunharam uma metralhadora, nunca abriram um manual de estratégia e, muito menos, alguma vez puseram os pés numa fábrica de armamento, conseguem, depois de meia dúzia de comentários televisivos e algumas horas de peregrinação pelas redes sociais, transformar-se em consumados especialistas em História, geopolítica, defesa, ataque e, sobretudo, na guerra da Ucrânia.

É um fenómeno admirável, quase uma espécie de milagre intelectual do nosso tempo.

E há ainda um detalhe curioso: esses especialistas sabem quase tudo sobre a guerra da Ucrânia, mas pouco ou nada sabem sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, sobre o bombardeamento da Jugoslávia ou sobre tantos outros conflitos que ajudaram a moldar a ordem internacional das últimas décadas. Alguns nem sequer sabem qual foi a primeira guerra desencadeada pelos Estados Unidos fora do seu território, contra quem foi travada ou em que circunstâncias ocorreu. Mas isso, aparentemente, é um pormenor sem importância. Afinal, para ser general de sofá, basta conhecer a guerra que está a passar no ecrã.

Eis a verdadeira democratização do conhecimento militar.

Antigamente, para compreender uma guerra, era necessário estudar História, geopolítica, estratégia, logística, economia, relações internacionais e, sobretudo, aprender a distinguir a informação da propaganda. Hoje, aparentemente, basta possuir uma conta numa rede social, uma opinião suficientemente firme e uma desconfiança quase religiosa em relação a tudo aquilo que não confirme as nossas convicções.

A guerra da Ucrânia transformou-se, assim, numa espécie de campeonato mundial das certezas instantâneas. Há quem saiba exatamente o que pensa Vladimir Putin, embora nunca tenha estado numa sala com ele; quem conheça os planos secretos do Kremlin, apesar de nem sequer conhecer o conteúdo dos relatórios públicos; quem saiba o que Zelensky irá dizer antes de ele próprio o saber; quem tenha decifrado as verdadeiras intenções da NATO; e quem, com uma segurança que faria inveja aos próprios serviços de inteligência, anuncie regularmente a derrota inevitável de um dos lados.

Tudo isto, naturalmente, a partir do conforto de um sofá.

O sofá tornou-se, aliás, uma espécie de novo estado-maior. É nele que se desenham ofensivas, se perdem batalhas, se conquistam territórios, se derrubam governos e se decide o destino das nações. O mapa da Europa cabe inteiro no ecrã de um telemóvel, e a complexidade da guerra reduz-se a algumas setas, meia dúzia de comentários e um vídeo de três minutos, convenientemente escolhido para confirmar aquilo que já se pensava antes de o vídeo começar.

Entretanto, a realidade — essa velha senhora, pouco elegante, pouco sentimental e absolutamente indiferente às nossas convicções — continua a seguir o seu caminho.

Uma recente entrevista a um analista militar norte-americano chamou a atenção para uma questão que raramente ocupa o espaço nobre das discussões televisivas: a guerra moderna não se ganha apenas com discursos, bandeiras, fotografias de estadistas ou declarações solenes. Ganha-se também com fábricas, linhas de produção, munições, combustível, peças sobressalentes, capacidade financeira, logística e tempo.

Um míssil não aparece porque um político anunciou que será enviado. Um sistema de defesa aérea não nasce porque um comentador considera que seria conveniente possuí-lo. Um tanque não chega à frente de batalha porque alguém escreveu, numa rede social, que ele poderia mudar o curso da guerra.

Entre a decisão política e a realidade do campo de batalha existe uma coisa extraordinariamente prosaica que os generais de sofá tendem a esquecer: a matéria.

É preciso produzir. É preciso transportar. É preciso reparar. É preciso substituir. É preciso treinar homens. É preciso manter cadeias logísticas. É preciso financiar tudo isso. E, sobretudo, é preciso fazê-lo durante meses e anos, não apenas durante o tempo de duração de uma conferência de imprensa.

A indústria militar ocidental possui uma enorme capacidade tecnológica, mas enfrenta também limitações de produção, de reposição e de stocks. A Rússia, por seu lado, adaptou parte da sua economia ao esforço de guerra e aumentou a produção de determinados equipamentos. Os números exactos são objecto de disputa entre diferentes fontes e devem, por isso, ser tratados com prudência. Mas existe uma realidade que dificilmente pode ser apagada por qualquer narrativa: numa guerra prolongada, a capacidade de produzir, reparar e substituir material pode tornar-se tão importante como a qualidade do material existente.

É precisamente aqui que a propaganda encontra o seu inimigo mais incómodo: a realidade.

Durante meses, ouvimos discursos que apresentavam a guerra como uma simples questão de vontade política. Bastaria continuar a enviar armas, preservar a determinação e esperar que o adversário acabasse por ceder. Como se a História fosse uma conferência de imprensa. Como se as guerras terminassem porque alguém declarou, com suficiente convicção, que deveriam terminar.

Mas a História, essa senhora teimosa e pouco obediente, raramente segue os guiões escritos pelos políticos.

Napoleão descobriu-o na Rússia. A Alemanha descobriu-o, de forma ainda mais trágica, durante a Segunda Guerra Mundial. E muitas outras potências descobriram, em guerras menos famosas, que uma operação militar não vive apenas da coragem dos soldados nem da qualidade das armas. Vive de economias capazes de suportar o esforço, de sociedades capazes de resistir, de logística capaz de alimentar as frentes e de Estados capazes de manter durante muito tempo aquilo que prometeram durante pouco.

É por isso que uma guerra não pode ser compreendida apenas através das narrativas dos seus protagonistas.

A Rússia possui a sua interpretação dos acontecimentos. A Ucrânia possui a sua. Os Estados Unidos e os seus “aliados” possuem as suas próprias leituras. Cada um selecciona factos, interpreta acontecimentos e constrói uma narrativa de acordo com os seus interesses, objectivos e necessidades políticas. Isso não significa que todas as versões tenham necessariamente o mesmo grau de correspondência com os factos. Significa apenas que quem pretende compreender uma guerra precisa de fazer aquilo que o propagandista mais detesta: comparar, duvidar e verificar.

A realidade de uma guerra é quase sempre mais feia e mais complexa do que a narrativa construída sobre ela. Há avanços e recuos, vitórias e derrotas, erros de cálculo, decisões acertadas, oportunidades perdidas, interesses económicos, objectivos estratégicos e, acima de tudo, seres humanos que pagam com a vida decisões tomadas muito longe das trincheiras.

O problema do nosso tempo é que confundimos frequentemente informação com confirmação. Dizemos que queremos saber o que aconteceu, quando muitas vezes queremos apenas encontrar argumentos que provem aquilo em que já acreditávamos. É assim que nascem os especialistas instantâneos.

Eles não precisam de estudar Clausewitz, conhecer a história militar europeia, compreender a logística de uma operação de grande escala ou distinguir capacidade industrial de capacidade tecnológica. Não precisam de conhecer o funcionamento de uma cadeia de abastecimento militar, nem de saber quanto tempo demora a produzir, reparar ou substituir determinado sistema de armas.

Possuem algo muito mais poderoso: uma opinião definitiva.

E uma opinião definitiva, nas redes sociais, vale frequentemente mais do que um estudo de duzentas páginas.

Talvez por isso o general de sofá seja uma das figuras mais representativas do nosso tempo. Não usa uniforme, não comanda tropas, não conhece a guerra senão através das imagens que chegam ao ecrã. Mas conhece tudo. Sabe quem tem razão, quem vai vencer, quem está a perder, quem está a mentir e até aquilo que os generais verdadeiros — russos e ucranianos — ainda não conseguiram descobrir.

O seu quartel-general é a sala de estar.

A sua academia é o algoritmo.

O seu estado-maior é a caixa de comentários.

E a sua principal arma é a certeza.

Talvez seja precisamente por isso que, numa época em que todos parecem ter respostas para tudo, a primeira manifestação de inteligência seja recuperar uma virtude antiga e quase esquecida: a dúvida.

Não a dúvida de quem nada sabe, mas a dúvida de quem sabe o suficiente para perceber a dimensão daquilo que ignora.

Porque uma guerra não é um jogo de futebol entre Dinamarca e Portugal.

Não existem adeptos nas bancadas, resultados ao intervalo, repetições em câmara lenta nem comentadores capazes de anunciar o minuto exacto em que chegará o apito final.

Numa guerra existem homens. Existem mortos, existem economias, existem armas, existem interesses nacionais, existem erros, existem cálculos e, sobretudo, existem consequências.

E há ainda uma coisa que nenhum general de sofá consegue derrotar: o tempo.

Mais cedo ou mais tarde, a realidade acaba sempre por entrar na sala de estar. E quando entra, raramente pede licença.

É então que o sofá deixa de ser um estado-maior e volta a ser apenas aquilo que sempre foi: um lugar confortável para assistir, à distância, à história que outros estão a pagar com sangue.

Tenho dito

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.