Ronaldo e o Ensaio sobre a Cegueira

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/10/2026, revisão da Estátua)


Releiam o magnífico romance de Saramago. Está lá tudo, a fragilidade do ser humano perante o imprevisto e o medo de ficarmos cegos.

Estamos todos cegos e não surge a mulher do médico para nos guiar no desnorte, onde não vemos o que ocorre à nossa volta. Não vemos a vitória de Bolsonaro no Brasil, uma vitória mais de Trump, sem necessidade de sequestrar e raptar Lula, depois de submeter a Gronelândia enquanto espera juntar Espanha a Portugal, após as próximas eleições, na submissão absoluta aos EUA.

Estamos cegos e não sabemos. Não vemos os tambores da guerra que rufam na Europa para sair do beco, com a economia de rastos e os estreitos de Suez e Bab el-Mandeb a infernizar o nosso presente, a comprometer o futuro e a derrubar as democracias.

Estamos cegos e surdos, indiferentes à morte de ucranianos, russos, palestinos, israelitas ou iranianos, e não ouvimos os gritos de mães com filhos mortos nos braços, de famílias que gritam sob escombros de prédios destruídos e mutilados que gemem nos hospitais.

Estamos cegos porque a epidemia é o amor-próprio ferido, o herói da Pátria em silêncio, algures na Arábia Saudita, a exigir a cabeça de Jesus, e ainda não lhe a levaram. Apenas dispõe do avião, do aeroporto, do museu e da estátua, falta-lhe a cabeça de Jesus quando podia pedir a de Montenegro, e a Pátria agradecia.

Suspeito que a mulher do médico deixou de fingir que é cega, emigrou e nos abandonou à cegueira que persiste porque nos recusamos a abrir os olhos. Não é epidemia é a ptose palpebral coletiva que nos atingiu porque recusamos acionar os músculos para abrir os olhos.

«Se este homem insubstituível franze o sobrolho

Dois reinos periclitam

Se este homem insubstituível morre

O mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho

Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia

Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro».

(Bertolt Brecht)

O futebol profissional é um veneno?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 02/10/2026)

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O futebol profissional fornece às televisões e às redes sociais uma sucessão interminável de conflitos, declarações, especulações e insultos. Tudo muito apaixonante, hipocritamente comercial e quase sempre irrelevante para as nossas vidas. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da seleção nacional confirma isso. 

O futebol profissional exalta o culto da vedeta. A celebração dos milhões ganhos pelos grandes futebolistas normaliza a aceitação de desigualdades extraordinárias e desproporcionadas. A notícia da Forbes que estima que Ronaldo ganhou 300 milhões de dólares, só no último ano, confirma isso. 

O futebol profissional ajuda a criar uma horda de milhões de viciados em apostas. Um relatório da Organização Mundial de Saúde, que associa esta questão a endividamento, pobreza e problemas familiares, confirma isso. 

Em Portugal, no segundo trimestre de 2026, o futebol representou 69,9% do volume das apostas desportivas online que geraram 125,1 milhões de euros de receita bruta para os seus donos.  

O futebol profissional é aproveitado por fascistas e traficantes. O facto de em 20 de janeiro de 2026 a operação Irmandade ter detido 37 suspeitos ligados aos nazis do Grupo 1143, que tem antecedentes numa fação da Juventude Leonina, por suspeitas de crimes de ódio e violência, confirma, mais uma vez, isso. Os problemas com racismo, violência organizada e tráfico de droga, que se repetem em quase todos os jogos e em todo o mundo, comprovam também essa infiltração. 

O futebol profissional é cada vez mais para ricos ou especuladores e menos para pobres ou remediados; é mais para criminosos do que para gente honrada. As negociatas deste mundo à parte ilustram isso. 

Em abril de 2026 a FIFA colocou à venda bilhetes da categoria mais cara para a final do Mundial a 10.990 dólares. As assinaturas para ver futebol na TV atingem valores cada vez mais elevados. Os bilhetes para jogos importantes também. 

Um relatório da UEFA revela que os clubes ingleses, os mais ricos do mundo, estiveram envolvidos em 52% do valor mundial das transferências deste verão. 

Segundo a FIFA, entre janeiro e o início de dezembro de 2025 os clubes pagaram 1,37 mil milhões de dólares a agentes, mais de 90% acima do ano anterior.   

Há dias uma comissão independente considerou o Manchester City responsável por graves violações financeiras (o clube recorreu), incluindo contratos fictícios que alteraram receitas e custos em mais de 900 milhões de libras.  

Em 9 de dezembro de 2025 a polícia argentina fez buscas na federação e em vários clubes numa investigação relacionada com a Sur Finanzas, suspeita de branqueamento e evasão fiscal. 

Em junho passado uma operação conjunta da polícia e da comissão anticorrupção de Hong Kong deteve 19 pessoas, incluindo treinadores e jogadores, por suspeitas relacionadas com apostas ilegais e suborno para manipular partidas locais. 

Em 2023, na operação El Dourado, feita numa academia de futebol para miúdos em Famalicão, a polícia encontrou 47 alegadas vítimas de tráfico de pessoas, incluindo 36 menores a quem tiraram os documentos de identificação. 

O futebol até já deu um prémio da paz a Donald Trump! E revelou-nos a retórica brutal de André Ventura. 

Tanta coisa que, todos os dias, confirma o veneno social em que o futebol profissional se transformou – e não, não aprofundo aqui mais casos portugueses porque, sinceramente, tenho amor à pele e o futebol, que já foi o desporto mais belo do mundo, agora mete medo… 

Um dia para esquecer

(José Manuel Correia Pinto in Facebook, 04/10/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

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Lula perdeu o primeiro turno das eleições presidenciais e somou pesadas derrotas nas eleições para o governo dos 27 Estados brasileiros, bem como para o Congresso (senadores e deputados).

Algumas derrotas são irreversíveis (nos casos em que os vencedores tiveram mais de 50% dos votos) e tudo indica que no segundo turno da eleição presidencial se vai aprofundar ainda mais a diferença que o separa de Jair Bolsonaro.

As eleições brasileiras estão infelizmente cada vez mais parecidas com as norte-americanas, com a diferença de, no Brasil, o grande capital ter sido, em larga medida, substituído pelo “bas fond” sob cuja capa se movem os interesses mais escabrosos da sociedade brasileira.

Aparentemente, de positivo, no dia de hoje apenas a terceira vitória consecutiva da seleção sem Ronaldo e com mais uma exibição convincente contra uma das melhores equipas do Mundial deste ano (2026).

Mas só na aparência se tratou de uma vitória, pois ainda os festejos não tinham terminado e já Jesus capitulava vergonhosamente, escancarando as portas ao regresso de Ronaldo, cedendo aos interesses dos que fazem da selecção um negócio em que participam de mãos dadas a Federação, Ronaldo bem como todos aqueles que se sentam à volta da mesa farta da Federação.

A ignorância política de Jesus levou-o a cometer um erro de consequências imprevisíveis, com repercussões no seu próximo futuro como selecionador. A sua relação com os apoiantes da seleção, com a comunicação social, cuja maioria o apoiou sem reservas no “abandono de Ronaldo”, a confiança e autoridade que nele reconhecem e depositam os jogadores não podem deixar de ficar seriamente afectadas com a humilhação a que ele próprio se submeteu ao convidar, em modo de desculpa, para continuar na seleção um jogador que somente está interessado em nela participar com regras diferentes dos restantes.

Jesus reunia todas as condições para, com as vitórias, o apoio dos jogadores, o entusiasmo e a solidariedade dos adeptos criar as condições para uma profunda “limpeza” na Federação, que tem urgentemente de ser vigiada e fiscalizada por quem está realmente interessado no progresso do futebol português.