Porque apoiei este Governo apesar de ter saído do PS, e porque não quero que o PS tenha maioria absoluta

(Alfredo Barroso, in Facebook, 16/09/2019)

Alfredo Barroso

(Uma explicação, outras se seguirão)

Não tenho qualquer animosidade especial em relação ao PS, partido de que fui um dos fundadores, em 1973, no qual militei, até à marginalização absoluta, durante 42 anos, e do qual me desfiliei em 2015. As minhas divergências começaram com António Guterres, decidido a copiar o estilo “Terceira Via” – na realidade o estilo neoliberal – de Tony Blair, aliado do perigoso idiota Bush filho, presidente dos EUA, na criminosa invasão do Iraque que pôs o Médio Oriente em polvorosa, como hoje bem podemos constatar.

A “neoliberalização ideológica” do PS e da maioria dos partidos da Internacional Socialista foi assim como que uma espécie de suicídio colectivo que deu cabo das melhores intenções de alguns líderes políticos aparentemente de esquerda, que acabaram por pôr em prática políticas contrárias aos interesses das classes populares e de boa parte das classes médias, “proletarizando-as”.

E foi então que comecei a bater-me pela necessidade dos partidos de esquerda – PS, BE e PCP-PEV – manifestarem a vontade de estabelecer uma plataforma mínima comum capaz de viabilizar Governos sustentados à esquerda, rompendo com a tradição, nefasta para o PS e para o País, deste partido governar ao centro, em alternância ou em conivência com o PPD-PSD e, inclusive, com o CDS-PP, integrando assim o famoso “arco de governação” tão caro a Paulo Portas.

Ora bem, António Costa teve a coragem de romper com esse ridículo “arco”, afastando-se do PPD-PSD e estabelecendo com o BE e o PCP-PEV a tal “plataforma mínima comum” capaz de viabilizar um Governo que durou uma Legislatura.

É por estas e outras razões que me preocupa a possibilidade do PS vir a obter uma maioria absoluta e derivar para a direita. Sobretudo depois de ouvir o ministro das Finanças, Mário Centeno, defender a maioria absoluta, dizendo que com ela seria muito mais fácil “governar” – ou seja, presumo eu, seria muito mais fácil fazer “cativações” que distorcem e retorcem os Orçamentos de Estado em prejuízo da qualidade dos serviços públicos e do investimento público, tão necessários ao País.

Passei tantos anos da minha vida política – sem quaisquer ambições pessoais e sendo até prejudicado por isso – a defender a constituição e viabilização de Governos sustentados à esquerda, que não há-de ser agora que desistirei de os defender. Creio que terão sido muito poucos os comentadores e cronistas políticos que defenderam tão aberta e afincadamente este Governo do PS e o seu primeiro-ministro, António Costa.

Todavia, preocupa-me a perspectiva de o PS alcançar maioria absoluta e, por isso mesmo, vou votar no sentido de tentar evita-la. Há pessoas que andam na vida política, não para conquistar cargos políticos e garantir carreiras auspiciosas, mas sim para serem fiéis às suas ideias e ideais políticos e sociais. É esse o meu caso.

E sei de gente vária, até de amigos meus, que não conseguem compreender tal atitude. Paciência. Estou de bem comigo próprio, e posso dizer, sem jactância, que saí da vida política activa mais pobre do que para lá entrei, logo após o 25 de Abril de 1974. Em todo o caso, acho que chegou o tempo de deixar a minha actividade de cronista político – desde há vários anos a escrever quase sempre “de borla” – para me dedicar um pouco mais a mim próprio, nos poucos anos que ainda me restam. Estou algo pessimista em relação ao futuro, mas espero que o futuro me desminta e que tudo corra pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, como diria o professor Pangloss…

Campo d’ Ourique, 16 de Setembro de 2019


Advertisements

António Costa, um socialista com fortes preocupações capitalistas

(Elisabete Miranda, in Expresso Curto, 17/09/2019)

Bom dia. A julgar pelas análises políticas, o aguardado duelo de ontem entre António Costa e Rui Rio acabou sem vencedores claros nem derrotados óbvios. Há quem considere que houve um empate, quem ache que António Costa não ganhou mas também não perdeu, e quem não tenha dúvidas de que o líder social-democrata dominou em várias frentes. Da interceção destas três opiniões, Rui Rio pode até ter-se saído ligeiramente melhor, mas sem fôlego para abalar o favoritismo do PS e perturbar o curso da campanha (na dúvida, tire as teimas e ajuíze por si).

Rui Rio saiu favorecido pelo estilo, ao apresentar-se emotivo frente a um António Costa glaciar, e politicamente incorreto por oposição a um primeiro-ministro calculista (por exemplo no caso das críticas ao Ministério Público e aos julgamentos na praça pública). Tentou desmontar a magia das “contas certas” e relativizar os méritos do Governo nos resultados económicos (a propósito, vale a pena recuperar estes gráficos), deu o braço a torcer quando encurralado por António Costa e ensaiou um discurso ideologicamente mais próximo do seu eleitorado tradicional.

Fê-lo quando defendeu as parcerias público-privadas (PPP) na saúde, a urgência de reduzir o peso do Estado na economia, a baixa acentuada da carga fiscal, calibrada entre o curto prazo (famílias) e o longo prazo (empresas) ou quando vitimizou a iniciativa privada, esmagada por burocracia e custos de contexto.

Rui Rio falou ao coração da direita, mas António Costa já ocupou parte desse espaço. Embora não prometa choques fiscais, o primeiro-ministro concede uma nova ronda de descidas de impostos para a abrangente e indefinida “classe média” portuguesa, apostou forte numa agenda de digitalização e simplificação administrativa, e, no início da legislatura tratou logo de entabular um longo e promissor namoro com a classe empresarial.

Em 2016, mal tinha aquecido a cadeira, o primeiro-ministro já deixava cair uma das suas mais arrojadas promessas eleitorais: um imposto sobre heranças superiores a um milhão de euros. Pouco tempo depois travou o imposto sobre fortunas reclamado pelos parceiros à esquerda e reciclou-o num (mais inócuo) imposto sobre o grande património imobiliário (AIMI). Inviabilizou medidas mais musculadas contra o negócio do trabalho temporário. Convidou destacados empresários da praça a proporem um cardápio de instrumentos de ajuda à capitalização e financiamento das empresas, o que lhe valeu a tal menção honrosa da Comissão Europeia, que ontem exibiu no debate. Não beliscou o regime de residentes não habituais (o que pretende transformar Portugal na Florida da Europa), apesar dos embaraços diplomáticos e de pressões dentro do seu próprio Governo. Desbloqueou o impasse dos ativos por impostos diferidos na banca. E ainda deu corpo a uma promessa de Passos Coelho e lançou as SIGI, um novo tipo de sociedades imobiliárias pelas quais o mercado há muito suspirava.

Com tamanho curriculum não admira o rasgado elogio que em janeiro a presidente da bolsa de Lisboa lhe fez aqui no Expresso ao dizer que “desde que Miguel Cadilhe foi ministro das Finanças nunca tivemos um Governo com uma iniciativa tão estruturada relativamente ao mercado”. Nem espanta que os empresários se acotovelem para ouvi-lo e lhe façam juras de fidelidade.

Por muitos choques fiscais que prometa aos empresários, não é certo que Rui Rio lhes consiga falar mais ao bolso nem dar maiores garantias de estabilidade. Afinal, António Costa revelou-se um socialista com fortes preocupações capitalistas e tem quatro anos com provas dadas.

A moral do regime em relação ao Estado Novo (onde Rio perdeu)

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 17/09/2019)

O líder do PSD foi ao tapete no debate que estava equilibrado quando caiu na armadilha de Costa e disse que o atual regime (o democrático), com as fugas de informação da Justiça, perdia a “autoridade moral” em relação ao salazarismo. Não foi uma frase feliz…


“Se isto fosse hóquei em patins, este debate seria um Portugal-Espanha” Rui Rio, presidente do PSD, no debate com António Costa

12 valores no índice dos melhores do mundo. A metáfora de Rui Rio logo no início do debate tem piada, mas é ligeiramente exagerada. O frente a frente emitido pelas três televisões esta segunda-feira era o primeiro confronto entre o líder do PSD e António Costa – e era terreno virgem por desbravar, daí o interesse dos 2,8 milhões de pessoas que assistiram àquela ‘final’ de 60 minutos. Havia, de facto, grandes expectativas sobre o desempenho de Rui Rio naquele ringue, mas não estávamos perante uma final entre iguais, não era um Portugal-Espanha daqueles emotivos até ao último segundo. Por uma razão muito simples: o ponto de partida dos dois protagonistas era demasiado desigual: Rio partia para o debate com uma enorme desvantagem em relação a Costa. Foi mais como se estivessem a disputar a segunda eliminatória de uma competição, em que o socialista entrava em campo com uma séria vantagem e bastava gerir o resultado (avanço nas sondagens, na perceção dos eleitores, o facto de Costa estar no poder e de Rio ter o seu próprio partido dividido e desmobilizado, etc.).

Como balanço geral, Rui Rio esteve bem – sobretudo no tom, pode assim convencer alguns indecisos, recuperar em relação ao que as sondagens preveem – mas isso não chega. O debate não foi decisivo, como aliás seria de esperar que não fosse. Apesar de o líder do PSD ter cumprido o que se lhe exigia – até porque as expectativas eram muito baixas –, se analisarmos o debate ao detalhe quem ganhou foi António Costa. Escrutinando a troca de argumentos tema a tema, foi mais Rio quem acabou por ceder ou por ficar encostado às cordas do que o socialista, que teve sempre mais frieza e golpe de asa para desacreditar os argumentos do social-democrata ou para o levar ao seu regaço. Já lá vamos.

Outra consideração genérica tem a ver com a falta de dramatismo e contraste: Rio foi criticando Costa, mas com exceção da questão fiscal o líder do PSD não se apresentou ao eleitorado como uma verdadeira alternativa à governação socialista. Desde 2005, pelo menos, que PS e PSD se apresentam ao eleitorado com dois modelos diferentes, alternativos e contrastantes de sociedade e de governação – e os debates Sócrates-Santana, Sócrates-Passos, ou Passos-Costa foram muito mais dramáticos. Esta segunda-feira isso não aconteceu. No final, a sensação também foi de que aqueles dois homens podiam perfeitamente entender-se a governar o país juntos (mais Rio em relação a Costa do que Costa em relação a Rio) se limassem umas arestas das propostas – as diferenças do PS para a esquerda são bem maiores e aguentaram-se quatro anos.

Ora, acontece que o hóquei luso-espanhol é um desporto que exige rapidez, reflexos e capacidade de reação, algo que tem faltado a Rui Rio, cujo risco no fim da partida, quando assomarem os adversários internos, são mesmo os “patins”…

“É mais um debate (…). Espero que seja esclarecedor para os portugueses” António Costa, secretário-geral do PS, à entrada do debate com Rui Rio

17 valores no índice do jogo para empate. António Costa subiu para o estúdio improvisado no Pavilhão do Conhecimento a desvalorizar o adversário. Rui Rio era só mais um igual aos outros, e essa estratégia podia ter corrido mal, mas não correu. O socialista jogou o seu ‘catenaccio’ político, com a sorte de Rio não ter sacado de golpes que o seu eleitorado adoraria, como o ‘familigate’ ou as falhas do Estado (fogos, Tancos, hospitais, urgências das maternidades, etc.). Se Rio preferiu a credibilidade moderada a ataques que podiam parecer excessivos, Costa defendeu os tiros do adversário e ripostou com eficácia e golpe de asa (jogou sobretudo no contra-ataque quando Rio desguarneceu a sua posição, como o David Dinis explicou aqui.

Resumindo esta ideia, Rio Rio entrou em perda quando Costa lhe desmentiu os números da emigração – passou a ideia de que estava mal preparado – mas também resvalou noutros temas. Na economia desmontou bem como Centeno cumpriu o défice, mas depois foi desarmado no dossiê do Montijo (afinal concordava com Costa) e também no TGV (quando viu Costa a ler-lhe o programa do PSD). Se nos impostos Rio estava a marcar pontos – foi o ponto onde mais se distinguiu dos socialistas –, a seguir acabou a concordar com a leitura de Costa sobre os valores das contribuições para a Segurança Social que insuflaram os números da carga fiscal com o aumento do emprego. Na Saúde, esteve bem ao lembrar a falta de medicamentos e a falta de investimento, mas admitiu um “empate” no jogo dos números. Era onde teria mais terreno aberto, mas o mantra de Costa a debitar números acabou por também ser eficaz.

No fim de contas, Costa geriu o debate e jogou apenas aquilo que precisava de jogar… e jogou ao centro e centro-direita, no terreno do adversário: lembra-se de alguma coisa de esquerda que Costa tenha dito no debate, depois de quatro anos a liderar o Governo teoricamente mais à esquerda de sempre?

“Rui Rio tem uma obsessão contra a Justiça, não gosta de juízes, é o líder da oposição ao Ministério Público, felizmente não tenho essa obsessão, a democracia precisa de uma democracia forte” António Costa

17 valores no índice do uppercut político. António Costa tinha esta engatilhada. Foi o momento em que ganhou o debate, que estava basicamente empatado. Tocou no tema e no nervo que faz Rui Rio estremecer até às entranhas e só pode ter sido propositado. A estratégia para um debate político também passa por isto, a política é um jogo, sempre foi um jogo: levar o adversário a reagir. O social-democrata caiu na armadilha e soltou-se, no momento mais emotivo e genuíno da sua prestação. O que nos leva à próxima frase…

“Temos um país em que os julgamentos se fazem nas tabacarias e nas televisões. Arrumam logo com uma pessoa nas capas dos jornais. Isto é digno de uma democracia? Defendo o Ministério Público, mas quero um Ministério Público eficaz. Qual é a autoridade moral de um regime que faz uma coisa destas sobre o Estado Novo?” Rui Rio

18 valores no índice da sinceridade total. Rui Rio não se tentou moderar com hipocrisias e disse mesmo aquilo que pensa sem filtros. Costa provocou a reação e levou o líder do PSD a cair na armadilha, ao usar argumentos que José Sócrates ou Ricardo Salgado (cujos casos foram enunciados na pergunta) não desdenhariam. Que Rio tem uma “obsessão” com a justiça e os jornalistas é uma evidência há muito tempo (Costa explicou-lhe que hoje não é possível a informação ficar confinada às paredes dos tribunais), mas o problema já nem é esse. É a questão do relativismo político enunciado pelo social-democrata em relação ao salazarismo.

Rui Rio acha que pode comparar as fugas de informação da Justiça (ou o jornalismo de investigação) numa sociedade democrática com as prisões da PIDE ou os tribunais plenários. As coisas têm o seu lugar na memória e na história e o líder do PSD não distinguiu bem as coisas: não é ‘o regime’ que está a fazer os julgamentos na praça pública que incomodam Rio (mais do que os casos em si), mas era o regime anterior que fazia aquilo que Rio acha que o regime atual não tem moral para condenar. O líder do PSD perdeu o debate com esta frase triste.