A armadilha de Tucídides

(João Gomes, in Facebook, 15/05/2026)


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Quando Xi Jinping recebeu Trump e evocou a necessidade de “evitar a Armadilha de Tucídides”, não estava apenas a citar um conceito académico ou um episódio remoto da Grécia Antiga. Estava a estabelecer o tom político de toda a conversa que se seguiria. E talvez mais do que isso: estava a anunciar ao mundo que a China já não se apresentava diante dos Estados Unidos numa posição de subalternidade estratégica.

Na superfície diplomática, a frase talvez tenha parecido conciliadora, como uma advertência prudente sobre os perigos históricos da rivalidade entre potências dominantes e potências emergentes. Tucídides escrevera que foi o crescimento de Atenas e o medo que esse crescimento provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável e Xi recuperou essa ideia para afirmar que a História não precisava repetir-se. Mas a política internacional raramente vive apenas da superfície das palavras.

Ao invocar Tucídides naquele momento, Xi Jinping fazia algo muito mais profundo: colocava os Estados Unidos e a China no mesmo plano histórico. Não como mestre e discípulo. Não como império e periferia. Não como vencedor da Guerra Fria e potência em ascensão obrigada a aceitar regras alheias. Mas como dois centros de poder civilizacional obrigados a negociar um novo equilíbrio.

Esse é decisivo. Durante décadas, Washington habituou-se a falar com o mundo a partir de uma posição de supremacia quase incontestável – militar, financeira, tecnológica e cultural. A China, por sua vez, cresceu dentro dessa ordem internacional, beneficiando dela enquanto preparava o momento em que pudesse alterar o próprio eixo da balança global.

A referência à Armadilha de Tucídides é, portanto, simultaneamente um gesto com diplomacia e uma declaração de soberania estratégica. Xi quis dizer a Trump: “Podemos evitar o conflito. Mas apenas se os Estados Unidos aceitarem que o mundo deixou de ser unipolar.”

E talvez tenha sido precisamente essa a frase não pronunciada o mais importante de toda a visita. Porque a verdadeira questão nunca foi apenas comercial. Muito se falou das tarifas, dos défices, da tecnologia, das fábricas e da concorrência industrial. Mas por detrás desses temas encontra-se uma disputa muito maior: quem define as regras do século XXI? Quem controla as cadeias energéticas, os semicondutores, as rotas marítimas, as moedas de reserva, as infraestruturas digitais e os corredores comerciais que ligam continentes inteiros?

A China percebeu há muito tempo que o confronto moderno já não depende apenas de exércitos. Um bloqueio tecnológico pode ser tão destrutivo quanto um bloqueio naval. Uma sanção financeira pode ter o mesmo efeito de um míssil. E uma guerra prolongada no Médio Oriente pode desorganizar cadeias energéticas inteiras, provocar inflação global e travar o crescimento das economias dependentes da estabilidade comercial.

E é aqui que a questão de Taiwan e do Irão ganham significado. Quando Xi fala em evitar a Armadilha de Tucídides, não está apenas a falar da relação bilateral entre Pequim e Washington. Está também a enviar um sinal sobre a arquitetura global do conflito.

A China observa a sua região e o Médio Oriente não apenas como regiões marcadas por crises recorrentes, mas como peças vitais da sua segurança estratégica e económica. A história de Taiwan e o petróleo iraniano, as rotas energéticas do Golfo, os corredores marítimos e os projetos ligados à Nova Rota da Seda fazem parte de uma lógica estratégica central para Pequim.

Nesse contexto, a mensagem implícita tornou-se mais clara. A China não parece disposta a assistir passivamente a uma sucessão interminável de confrontos, sanções e intervenções que desestabilizem regiões fundamentais para o seu crescimento económico. E menos ainda a aceitar que crises internacionais sejam conduzidas exclusivamente segundo os interesses geopolíticos de Washington.

Quando Xi fala de “programas sem sentido”, ou quando Pequim critica políticas de confrontação contínua, o que está verdadeiramente em causa é a ideia de que o sistema internacional não pode continuar eternamente subordinado à lógica da guerra permanente ou da pressão estratégica unilateral. Pequim sabe que uma escalada regional envolvendo o Irão teria efeitos globais profundos: aumento brutal do preço da energia; instabilidade financeira internacional; perturbação do comércio marítimo; aceleração da militarização global; e fragmentação ainda maior da economia mundial.

Tudo isso ameaça diretamente aquilo que a China considera essencial: estabilidade para continuar a crescer, exportar, investir e consolidar a sua influência. Por isso, a frase de Xi teve uma densidade muito superior à aparência protocolar. Ela funcionou como aviso histórico, mas também como linha vermelha diplomática.

A China afirmou que não aceitaria ser empurrada para uma posição defensiva dentro de uma ordem internacional desenhada exclusivamente pelos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, procurou deixar claro que qualquer tentativa de contenção absoluta da ascensão chinesa poderia gerar precisamente aquilo que todos afirmam querer evitar: uma espiral de confronto sistémico.

Todos dizem querer evitar a Armadilha de Tucídides. Mas quase todos os movimentos estratégicos do presente parecem empurrar o mundo para dentro dela. Os Estados Unidos reforçam alianças militares no Indo‑Pacífico, restringem tecnologias sensíveis e tentam reduzir dependências industriais da China. Pequim expande a sua marinha, acelera a autonomia tecnológica, fortalece laços energéticos e financeiros alternativos e aproxima‑se de países pressionados pelo Ocidente.

Cada lado afirma agir defensivamente. Cada lado vê o outro como potência revisionista. E cada passo dado para garantir segurança acaba por aumentar a insegurança do adversário. Foi exatamente isso que Tucídides descreveu há mais de dois mil anos.

Talvez por isso a frase de Xi Jinping tenha ecoado tão fortemente. Porque nela existia simultaneamente prudência e desafio. Prudência, ao reconhecer que uma colisão entre grandes potências seria desastrosa para o planeta.

Desafio, ao afirmar que a China já não aceita um lugar secundário na hierarquia global. No fundo, a Armadilha de Tucídides não é apenas uma teoria sobre guerras. É uma teoria sobre o medo. O medo de perder poder. O medo de ver surgir uma nova ordem. O medo de que o futuro pertença a outro.

E talvez seja precisamente esse medo – mais do que qualquer ideologia – que hoje molda silenciosamente o destino do século XXI.

Algumas consequências geoestratégicas do ataque norte-americano ao Irão

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2026)


A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA.


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A incapacidade de os EUA concretizarem os objetivos políticos a que alegadamente se propuseram, isto é, a mudança de regime no Irão, com o recurso à força militar, evidenciou as limitações do seu poderio bélico: as suas bases militares no Golfo Pérsico foram atacadas e destruídas pelos mísseis e drones iranianos, foram incapazes de honrar os compromissos securitários com os seus aliados da região, e os navios da quinta esquadra debandaram do Golfo para não serem afundados.

Entretanto, o estreito de Ormuz encontra-se sob o controlo de Teerão que determina quem o cruza. Os EUA não conseguiram restabelecer a liberdade de navegação na região. A marinha norte-americana não foi sequer capaz de colocar na região três grupos de porta-aviões, uma capacidade militar muito distante daquela empregue nas guerras em que se envolveu nessa parte do mundo (seis grupos em 1991 e oito em 2003, nas guerras contra o Iraque). Todos estes desenvolvimentos estão a ser seguidos por todo o mundo com muita atenção, em particular pela China.

A antes ‘senhora dos mares’, vê-se agora em dificuldades. Para além do estreito de Bab-el Mandeb e do mar do Sul da China, enfrenta também sérias dificuldades no controlo do estreito de Ormuz. O resultado pífio do embate nestas duas frentes poderá ser determinante nas ambições hegemónicas norte-americanas. Ao que se junta o facto de a indústria naval dos EUA enfrentar uma crise sistémica, a qual faz perigar as pretensões dos EUA de domínio incondicional dos oceanos.

A confrontação militar com Pequim

Os acontecimentos recentes no Irão permitem-nos antever o resultado desse possível confronto. O tema tem sido recorrentemente abordado nos círculos militares norte-americanos. Os argumentos em abono de uma confrontação militar com a China são mais do foro comunicacional do que do técnico, podendo isso levar os decisores a confundir narrativas com factos e, consequentemente, a tomarem decisões erradas.

A ocorrer, esse embate teria lugar na Ásia Oriental/Pacífico ocidental, onde se situam os potenciais focos de um conflito sino-americano, e seria provocado pelas restrições à liberdade de navegação no Mar do Sul da China ou por uma ação militar chinesa em Taiwan. Em qualquer dos casos, os EUA encontrar-se-iam sempre numa situação difícil e desvantajosa. A China combaterá na sua área geográfica e começa a dispor de vantagem tecnológica.

A China tem vindo ao longo das duas últimas décadas a preparar-se para esse eventual embate. O confronto seria travado principalmente no ar, mar, espaço (contra satélites) e ciberespaço (contra sistemas informáticos). É pouco provável que envolva operações terrestres de relevo. O combate no Pacífico Ocidental obrigaria os EUA a operar uma extensa e vulnerável linha de comunicações.

As bases militares norte-americanas na primeira e na segunda cadeia de ilhas não lhes conferem presentemente o potencial de combate necessário para derrotar as forças chinesas. O sistema de ilhas artificiais, criadas pela China no Mar do Sul da China, enquadra-se num poderoso sistema de A2AD (Anti acesso/Negação de Área) desenvolvido por Pequim para controlar o acesso à região e para dificultar ou impedir que o oponente opere nelas.

Uma força expedicionária norte-americana participante nesse combate colocaria os porta-aviões norte-americanos vulneráveis aos mísseis hipersónicos da China, para os quais não têm defesa. As bases norte-americanas localizadas na segunda cadeia de ilhas seriam igualmente alvos ao alcance dos mísseis chineses. Falamos, por exemplo, de Guam. Há dez anos, os EUA estariam numa situação de vantagem. Hoje essa vantagem desvaneceu-se, tanto em meios como em tecnologia.

Os ‘choke points’

É conhecida a dependência chinesa das vias marítimas para as exportações e importações de mercadorias e, consequentemente, a sua vulnerabilidade a um bloqueio da marinha norte-americana. Com base no que temos assistido nos últimos dois meses, é importante perceber se Washington seria, nesta altura, capaz de levar por diante o bloqueio das rotas marítimas no Pacífico e dos choke points que lhes estão associados, quando não foi capaz de o fazer no estreito de Bab el-Mandeb, perturbado pela ação dos Hutis, no Iémen. Incapaz de os derrotar, imagine-se o resultado de uma intervenção numa área consideravelmente mais vasta contra um opositor incomensuravelmente superior.

Para fazer frente a esse risco, que pode evoluir para ameaça, a China tem vindo a aumentar a sua marinha, que, nesta altura, é a maior do mundo. Já tem três porta-aviões operacionais e estão mais dois em construção, sendo um deles nuclear. A sua frota de submarinos tem tido um crescimento constante, construindo anualmente cerca de quatro unidades. A sua enorme guarda costeira é composta por navios de combate e é dotada de uma capacidade que deve ser levada muito a sério. Pelo contrário, a marinha norte-americana, apesar de ser uma força de combate formidável, perdeu o fulgor de há algumas décadas.

Taiwan, sempre Taiwan

Neste confronto pela manutenção da liderança global insere-se o controlo de Taiwan que, no caso de uma confrontação militar com a China, conferiria uma grande vantagem aos EUA, por integrar a “primeira cadeia de ilhas”, crucial para impedir e/ou dificultar a projeção de poder da China na região do Indo-Pacífico.

Cabe dizer que não nos encontramos nos preliminares de uma invasão, a menos que Taipé optasse por declarar a independência, o que é altamente improvável. Enquanto isso não acontecer, uma operação militar chinesa em Taiwan não acontecerá. Se assim não fosse, Taipé já teria tomado uma série de medidas preventivas, nomeadamente preparar uma defesa robusta do seu território. Um país que está prestes a ser invadido não mantém um serviço militar de apenas quatro meses.

A China não tomou no passado a iniciativa de desencadear uma guerra no Pacífico, não se vê porque o faria agora. Não se descortinam razões plausíveis para que isso aconteça, nem precedentes históricos. Nas últimos séculos em que a China foi a potência dominante da região, excluindo os últimos 150 anos, nunca tentou invadir o Japão. Pelo contrário, foi Tóquio que atacou a China em várias ocasiões (1592, 1894-5, 1931 e 1937).

No entanto, não se pode descartar a ocorrência de wild cards. A militarização do Japão (onde se inclui a aquisição de uma eventual capacidade nuclear) e/ou a colocação de uma força militar norte-americana na ilha, para lá de pequenos contingentes com a missão de formar as forças militares locais, poderia provocar uma reação militar por parte de Pequim. Independentemente da modalidade de ação escolhida pela China para intervir em Taiwan, interrogamo-nos como é que os EUA reagiriam a uma operação militar chinesa de grande envergadura na ilha, cientes da estratégia de ambiguidade estratégica seguida por Washington. Estariam os EUA dispostos a combater por Taiwan?

E os aliados asiáticos?

Depois do que aconteceu aos aliados dos EUA na Ásia Ocidental, os aliados asiáticos devem estar muito apreensivos. Ao contrário dos democratas (liberais intervencionistas), o presidente Donald Trump assume não necessitar de aliados para afirmar as suas ambições hegemónicas. A hubris está a sair-lhe cara. Já hostilizou os europeus – não se trata apenas de não cooperar com eles, mas também de os criticar e punir – e também já deu indícios de o vir a fazer com os asiáticos.

A posição dos EUA em relação ao QUAD – uma aliança informal entre os EUA, Japão, Austrália e Índia, criada para contrariar a influência da China na região – que outrora foi a pedra angular da estratégia norte-americana no Indo-Pacífico, deteriorou-se significativamente desde o regresso de Trump à Casa Branca, em 2025, deixando o grupo sem liderança e com o seu valor geoestratégico degradado. No seu primeiro mandato, Trump reavivou o QUAD, após uma década de dormência, e integrou-o firmemente na estratégia norte-americana, para agora o relegar para a insignificância geopolítica.

O comandante do Comando norte-americano do Pacífico manifestou publicamente a sua preocupação com o facto de não ter navios anfíbios, contratorpedeiros e submarinos de ataque suficientes. Alguns responsáveis da administração vieram dizer que os EUA gastaram tanta munição no Irão que não conseguiriam executar na íntegra os planos de contingência para defender Taiwan em caso de uma invasão chinesa. Os EUA poderão demorar até seis anos a repor as munições gastas.

O que à partida visava ser um passo na afirmação do poderio norte-americano, está a transformar-se num desaire que afeta seriamente a reputação militar norte-americana, deixando claro aos olhos de todos que uma aventura militar vencedora contra a China, no Pacífico ocidental, não tem qualquer viabilidade. A ambição hegemónica norte-americana poderá ter soçobrado no estreito de Ormuz.

Como se isso não bastasse, Pequim não reconhece nem vai cumprir as sanções dos EUA às compras de petróleo iraniano. O presidente Xi Jinping deu instruções às empresas e aos bancos chineses para desrespeitarem as sanções norte-americanas à refinação de petróleo na China. As enormes reservas estratégicas de petróleo, a diversificação das fontes de abastecimento e um mix energético único (o petróleo representa apenas cerca de 4% da produção de eletricidade da China) tornaram a China praticamente invulnerável aos acontecimentos em curso.

A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA. É neste cenário que Trump e Xi se vão encontrar.

O silêncio que acompanha a violação de palestinianos

(Nicholas Kristof, in The New York Times, 11/05/2026, Trad. Estátua)


(A Estátua publica este texto com a raiva que lhe causa o seu conteúdo mas, também, com um leve sorriso de ironia… EUREKA! Pela primeira vez o New York Times – esse “insuspeito” arauto da verdade no e do Ocidente -, teve a honra de ser fonte de um artigo na Estátua… 🙂

Vindo, portanto, de onde vem, as atrocidades que são aqui expostas, não podem ser falsas nem sequer exageradas, não é? Se o que é descrito é a prática usual da dita “única democracia do Médio Oriente”, desculpem lá, mas eu prefiro uma autocracia, nem que seja a dos aiatolas!

Estátua de Sal, 15/05/2026)


Palestinianos, homens e mulheres, descrevem abusos sexuais brutais cometidos por guardas prisionais, soldados, colonos e interrogadores israelitas.


É uma proposta simples: independentemente das nossas opiniões sobre o conflito no Médio Oriente, devemos ser capazes de nos unir para condenar a violação.
Os apoiantes de Israel fizeram esta observação após os brutais ataques sexuais contra mulheres israelitas durante o ataque liderado pelo Hamas contra Israel, a 7 de outubro de 2023. Donald Trump, Joe Biden, Benjamin Netanyahu e muitos senadores norte-americanos, incluindo Marco Rubio, condenaram esta violência sexual, e Netanyahu, com razão, apelou a “todos os líderes civilizados” para “se manifestarem”.

No entanto, em entrevistas comoventes, palestinianos relataram-me um padrão de violência sexual generalizada por parte de Israel contra homens, mulheres e até crianças — por parte de soldados, colonos, interrogadores da agência de segurança interna Shin Bet e, sobretudo, guardas prisionais.

Não há provas de que os líderes israelitas ordenem estupros. Mas, nos últimos anos, eles construíram um aparato de segurança no qual a violência sexual se tornou, como 
afirmou um relatório das Nações Unidas no ano passado , um dos “procedimentos operacionais padrão” de Israel e “um elemento importante no tratamento desumano dos palestinos”. Um 
relatório divulgado no mês passado pelo Euro-Med Human Rights Monitor, um grupo de defesa dos direitos humanos com sede em Genebra, frequentemente crítico de Israel, conclui que Israel emprega “violência sexual sistemática” que é “amplamente praticada como parte de uma política estatal organizada”.

Como é este procedimento operacional padrão? Sami al-Sai, de 46 anos, jornalista freelancer, conta que, enquanto era levado para uma cela após a sua detenção, em 2024, um grupo de guardas atirou-o ao chão.
“Todos me batiam, e um deles pisou-me a cabeça e o pescoço”, disse. “Alguém me baixou as calças. Baixaram-me a cueca.” E então um dos guardas sacou de um bastão de borracha usado para bater nos prisioneiros.
“Estavam a tentar enfiá-lo no meu reto, e eu preparava-me para o impedir, mas não conseguia”, disse, falando com crescente ansiedade. “Foi muito doloroso”. Os guardas estavam a rir-se, disse ele. “Depois ouvi alguém dizer: ‘Deem-me as cenouras’”, recordou, acrescentando que, de seguida, usaram uma cenoura. “Foi extremamente doloroso”, disse. “Eu estava a rezar para morrer.”
Al-Sai estava de olhos vendados, disse, e ouviu alguém dizer em hebraico, que ele compreende: “não tirem fotografias”. Isso sugeriu-lhe que alguém tinha sacado de uma câmara. Uma das guardas era uma mulher que, segundo ele, o agarrou pelo pénis e pelos testículos e brincou: “estes são meus”, apertando-os até ele gritar de dor.
Os guardas deixaram-no algemado no chão, e sentiu um cheiro a cigarro. “Percebi que era a altura delas fumarem”, disse.
Depois de ser atirado para a sua cela, concluiu que o local onde tinha sido violado já tinha sido utilizado antes, pois encontrou vomitado, sangue e dentes partidos de outras pessoas esmagados na sua pele.
Al-Sai disse que lhe pediram para se tornar informador dos serviços de informação israelitas e acredita que o objetivo da sua detenção e encarceramento, ao abrigo do sistema de detenção administrativa, era pressioná-lo a aceitar. Como se orgulhava do seu profissionalismo jornalístico, disse, recusou.

Ao longo da minha carreira, cobri guerras, genocídios e atrocidades, incluindo estupro, por vezes em locais onde a escala da violência sexual é muito maior do que qualquer coisa cometida por militantes do Hamas, guardas israelitas ou colonos. No conflito de Tigray, na Etiópia, há alguns anos, estima-se que 100 mil mulheres tenham sido violadas. Estupros em massa estão agora ocorrendo no Sudão.

No entanto, o dinheiro dos impostos americanos subsidia o aparato de segurança israelita, portanto, trata-se de violência sexual na qual os Estados Unidos são cúmplices.

O meu interesse numa reportagem sobre agressões sexuais contra prisioneiros palestinianos surgiu depois que Issa Amro, um ativista não violento, muitas vezes chamado “o Gandhi palestiniano”, me contou, numa visita anterior, que havia sido agredido sexualmente por soldados israelitas e que acreditava que isso era comum, mas escondido por vergonha.

Segundo estimativas, Israel deteve 20.000 pessoas somente na Cisjordânia desde os ataques de 7 de outubro, e mais de 9.000 palestinianos permaneciam detidos neste mês. Muitos não foram acusados ​​formalmente, mas foram detidos sob pretextos de segurança mal definidos e, desde 2023, a maioria viu negadas as visitas da Cruz Vermelha e de advogados.

“As forças israelitas empregam sistematicamente a violação e a tortura sexual para humilhar as mulheres palestinianas detidas”, afirmou o relatório da Euro-Med. O relatório citava o caso de uma mulher de 42 anos que disse ter sido acorrentada nua a uma mesa de metal enquanto os soldados israelitas a violavam à força durante dois dias, enquanto outros soldados filmavam os ataques. Depois, disse que lhe mostraram fotografias suas a ser violada e disseram que seriam publicadas se não cooperasse com os serviços de informação israelitas.

É impossível saber com que frequência ocorrem agressões sexuais contra palestinianos. A minha reportagem para este artigo baseia-se em conversas com 14 homens e mulheres que disseram ter sido agredidos sexualmente por colonos israelitas ou membros das forças de segurança. Também conversei com familiares, investigadores, autoridades e outras pessoas.
Encontrei estas vítimas a perguntar a advogados, grupos de defesa dos direitos humanos, trabalhadores humanitários e palestinianos comuns. Em muitos casos, foi possível corroborar parcialmente os relatos das vítimas a falar com testemunhas ou, mais comummente, com pessoas em quem as vítimas tinham confiado, como familiares, advogados e assistentes sociais; noutros casos, tal não foi possível, talvez porque a vergonha fez com que as pessoas se mostrassem relutantes em admitir o abuso, mesmo aos seus entes queridos.

No ano passado , a Save the Children encomendou uma pesquisa com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que estiveram detidos em centros de detenção israelitas; mais da metade relatou ter presenciado ou sofrido violência sexual. A Save the Children afirmou que o número real provavelmente é maior, pois o estigma impede que alguns reconheçam o que lhes aconteceu.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, uma respeitada organização americana, entrevistou 59 jornalistas palestinianos que foram libertados pelas autoridades israelitas após os ataques de 7 de outubro. Três por cento disseram ter sido violados e 29 por cento disseram ter sofrido outras formas de violência sexual.

O governo israelita rejeita as alegações de que comete abusos sexuais contra palestinianos, assim como o Hamas negou violar mulheres israelitas. Israel acolheu um relatório das Nações Unidas que documenta agressões sexuais contra mulheres israelitas por palestinianos, mas 
rejeitou o apelo do relatório para que se investiguem as agressões israelitas contra palestinianos. Netanyahu denunciou as “acusações infundadas de violência sexual” feitas contra Israel.

O Ministério da Segurança Nacional de Israel recusou comentar para este artigo. O serviço penitenciário “rejeita categoricamente as alegações” de abusos sexuais, disse um porta-voz que pediu para não ser identificado, acrescentando que as queixas são “examinadas pelas autoridades competentes”. O porta-voz recusou dizer se algum funcionário da prisão já foi despedido ou processado por agressões sexuais.
Os palestinianos que entrevistei relataram vários tipos de abuso para além da violação. Muitos referiram que frequentemente tinham os genitais puxados ou eram espancados nos testículos. Os detetores de metal portáteis eram usados ​​para sondar entre as pernas nuas dos homens e depois eram esmagados contra as suas partes íntimas; alguns homens tiveram de ter os testículos amputados pelos médicos após as agressões, de acordo com o monitor Euro-Med.
Uma das razões pelas quais estes abusos não recebem mais atenção são as ameaças das autoridades israelitas, que periodicamente advertem os prisioneiros, após a libertação, para que se mantenham em silêncio, de acordo com os palestinianos que foram libertados. Outra razão, segundo me disseram sobreviventes palestinianos, é que a sociedade árabe desencoraja a discussão do assunto por temer ferir a moral das famílias dos prisioneiros e minar a narrativa palestiniana de uma plêiade de detidos desafiadores e heróicos.
As normas sociais conservadoras também inibem a discussão: duas vítimas disseram-me que um recluso que admitisse ter sido violado prejudicaria a capacidade das suas irmãs e filhas encontrarem marido.
Um agricultor concordou inicialmente em deixar-me usar o seu nome neste artigo. Libertado no início deste ano, depois de meses em detenção administrativa — sem que qualquer acusação fosse formalizada —, relatou o que disse ter acontecido num dia do ano passado: meia dúzia de guardas imobilizaram-no segurando-lhe os braços e as pernas enquanto lhe baixavam as calças e as cuecas e lhe inseriam um bastão de metal no ânus. Os violadores estavam a rir-se e a comemorar, disse ele.

Várias horas depois, disse que desmaiou e foi levado para a clínica da prisão. Depois de acordar, disse, foi violado mais uma vez, novamente com o bastão de metal.

“Eu estava a sangrar”, lembrou. “Eu desabei completamente. Eu estava a chorar.”
Depois de ser devolvido à sua cela, disse que pediu a um guarda caneta e papel para apresentar queixa sobre as agressões. O pedido foi negado. E, nessa noite, um grupo de guardas dirigiu-se à cela.

“Quem é que quer apresentar queixa?”, ironizou um guarda, disse, e outro apontou-o. “A palmada começou imediatamente”, recordou. E depois violaram-no com o bastão pela terceira vez naquele dia, disse ele. Lembrou-se de um deles dizer: “Agora tem ainda mais para colocar na sua queixa.”

Alguns dias depois da minha entrevista, o agricultor telefonou a dizer que, afinal, não queria que o seu nome fosse usado. Tinha acabado de receber a visita do Shin Bet, que o advertiu para não causar problemas, e também temia que a sua família reagisse mal à atenção recebida.

“O abuso sexual desenfreado de prisioneiros palestinianos é uma realidade; foi normalizado”, disse Sari Bashi, advogada israelita-americana de direitos humanos e diretora executiva do 
Comitê Público Contra a Tortura em Israel. “Não vejo provas de que tenha sido ordenado. Mas há evidências persistentes de que as autoridades sabem que isso acontece e não fazem nada para o impedir.”

Outro advogado israelita, Ben Marmarelli, disse-me que, com base nas experiências dos detidos palestinianos que representou, o estupro de prisioneiros palestinos com objetos “está a acontecer em todo o lado”.

Bashi afirmou que a sua organização apresentou centenas de denúncias detalhando abusos horríveis contra detidos palestinianos — e que em nenhum caso essas denúncias resultaram em acusações formais. A impunidade, disse ela, cria um “sinal verde” para os abusadores.

Um prisioneiro palestiniano de Gaza teria sido hospitalizado em julho de 2024 com uma laceração no reto, costelas fraturadas e um pulmão perfurado. Investigadores obtiveram um vídeo da prisão que supostamente mostrava os abusos. As autoridades detiveram nove soldados da reserva, mas a direita israelita reagiu com indignação, e uma multidão de manifestantes furiosos, incluindo políticos, invadiu a prisão para demonstrar apoio aos guardas. As últimas acusações contra os soldados foram retiradas em março, e no mês passado os militares aprovaram o regresso dos soldados ao serviço.

Netanyahu comemorou a retirada das acusações como o fim de uma “calúnia de sangue”. “O Estado de Israel deve caçar os seus inimigos, não seus heróis combatentes”, disse ele.

Bashi descreveu o resultado desta forma: “Eu diria que retirar as acusações é dar permissão à violação”. Esse prisioneiro, que posteriormente passou a precisar de uma bolsa de estomia para recolher os seus dejetos, foi devolvido a Gaza, e um seu conhecido disse que ele passou meses num hospital recuperando dos seus ferimentos internos. O conhecido afirmou que o ex-prisioneiro se recusou a dar entrevista.

Processos judiciais e atenção pública podem conter este tipo de violência. Em 1997, policias da cidade de Nova York violaram um imigrante haitiano, Abner Louima , com um pedaço de pau de forma tão brutal que ele precisou ser hospitalizado e ser sujeito a cirurgias. Os nova-iorquinos ficaram indignados, o prefeito Rudy Giuliani visitou Louima no hospital e os policias foram processados ​​num caso histórico. Isso enviou uma mensagem poderosa para toda a força policial: aqueles que agridem detidos podem ser punidos. E essa é a mensagem que deve ser transmitida a todas as forças de segurança israelitas.

Se a administração Trump insistisse no retomar das visitas da Cruz Vermelha aos prisioneiros, se o embaixador dos EUA visitasse sobreviventes de violação com câmaras a tiracolo, se condicionássemos as transferências de armas ao fim da violência sexual, poderíamos enviar uma mensagem moral e prática de que a violência sexual é inaceitável, independentemente da identidade da vítima. Para começar, o embaixador poderia assegurar que os palestinianos que ousaram falar para este artigo não sejam novamente brutalizados pela sua coragem.
Como acontece este tipo de violência? Décadas a cobrir conflitos ensinaram-me que uma combinação de desumanização e impunidade pode impulsionar as pessoas para um estado de natureza hobbesiano. Deparei-me com esta deriva rumo à selvajaria nos campos de extermínio do Congo ao Sudão e a Myanmar, e penso que isto também explica, em termos gerais, como é que os soldados americanos passaram a abusar sexualmente de prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.

A dura realidade é que, quando não há consequências, nós, humanos, somos capazes de imensa depravação contra aqueles que somos ensinados a desprezar como sub-humanos.

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, classificou os detidos como “escória” e “nazis” e vangloriou-se de ter endurecido as condições prisionais para os palestinianos. Quando tais atitudes prevalecem, o abuso sexual pode tornar-se mais uma ferramenta para infligir dor e humilhação aos palestinianos.

Ben-Gvir recusou, através de uma porta-voz, comentar os abusos sexuais cometidos pelos serviços de segurança.

A B’Tselem, uma organização israelita de defesa dos direitos humanos, documentou “um grave padrão de violência sexual” contra os palestinianos. Citou o relato de um prisioneiro em Gaza, Tamer Qarmut, que disse ter sido violado com um pau. A tortura, afirmou a B’Tselem, “tornou-se uma norma aceite”.

Um ex-oficial israelita que trabalhava na enfermaria de uma prisão descreveu, num depoimento ao grupo israelita Breaking the Silence, o que esse tipo de aceitação significa na prática: “Você vê pessoas normais, bastante comuns, chegando a um ponto em que abusam de outras por diversão, nem mesmo para um interrogatório ou algo do género. Por mera diversão, para ter algo para contar aos colegas, ou por vingança”.

A maior parte dos estupros e outras formas de violência sexual tem sido dirigida contra homens, até porque mais de 90% dos prisioneiros palestinianos são homens. Mas conversei com uma mulher palestiniana que foi presa aos 23 anos após o ataque do Hamas em outubro de 2023. Ela contou que os soldados que a prenderam ameaçaram violá-la, assim como sua mãe e sua sobrinha pequena. O seu calvário na prisão começou com uma revista íntima feita por guardas femininas, “mas então um soldado entrou, quando eu já estava completamente nua”, acrescentou.

Nos dias seguintes, contou que foi repetidamente despida, espancada e revistada por equipas de guardas, homens e mulheres. O padrão era sempre o mesmo: vários guardas, homens e mulheres juntos, dirigiam-se à sua cela, despiam-na à força, algemavam-lhe as mãos atrás das costas e curvavam-na para a frente pela cintura, por vezes forçando a sua cabeça para dentro da sanita. Nessa posição, era espancada e apalpada por todo o corpo, disse.
“Apalpavam-me por todo o corpo”, disse ela. “Para ser sincera, não sei se me violaram”, disse, porque por vezes perdia os sentidos devido aos espancamentos.

O objectivo do abuso era duplo, acredita ela: destruir o seu espírito e também permitir que os homens israelitas molestassem impunemente uma mulher palestiniana nua.

“Era despida e espancada várias vezes ao dia”, disse. “Era como se me estivessem a apresentar a todos os que lá trabalhavam. No início de cada turno, traziam os homens para me despir.”

Quando estava prestes a ser libertada da prisão, disse que foi chamada a uma sala com seis funcionários e recebeu uma advertência severa para nunca dar entrevistas.
“Ameaçaram que, se eu falasse, me violariam, me matariam e matariam o meu pai”, disse ela. Não surpreendentemente, ela recusou ser identificada neste artigo.

Alguns dos piores abusos sexuais parecem ter sido dirigidos a prisioneiros de Gaza. Um jornalista de Gaza partilhou comigo o seu relato dos abusos que sofreu após ter sido detido em 2024.
“Ninguém escapou às agressões sexuais”, disse. “Nem todos foram violados, diria eu, mas todos passaram por agressões sexuais humilhantes e repugnantes.” Numa ocasião, disse, os guardas amarraram-lhe os testículos e o pénis com abraçadeiras de plástico durante horas enquanto batiam nos seus genitais. Nos dias seguintes, disse, urinou sangue.
Noutra ocasião, disse, foi imobilizado, despido e, enquanto era vendado e algemado, foi chamado um cão. Com o incentivo de um tratador em hebraico, disse, o cão montou-o.

“Eles estavam a usar câmaras para tirar fotografias, e eu ouvi as suas gargalhadas e risos”, disse. Tentou livrar-se do cão, disse, mas este penetrou-o.

Outros prisioneiros palestinianos e observadores de direitos humanos também citaram relatos de cães-polícia que foram treinados para violar prisioneiros. O jornalista disse que, quando foi libertado, um responsável israelita avisou-o: “Se quiser continuar vivo quando regressar, não fale com a imprensa”.

Então, porque é que ele estava disposto a falar? “Há momentos em que recordar se torna insuportável”, disse. “O meu coração parecia que ia parar enquanto falava contigo sobre isto agora. Mas lembro-me que ainda há pessoas lá dentro. Então, falo.”

Vários relatos indicam que a violência sexual foi dirigida até a crianças palestinianas, que são geralmente presas por atirar pedras. Localizei e entrevistei três rapazes que tinham sido detidos, e todos descreveram terem sido abusados ​​sexualmente.
Um deles, um rapaz tímido com uma camisola da Hilfiger, que tinha 15 anos na altura da sua detenção, recusou-se a dizer se também tinha presenciado violações. Mas afirmou que as ameaças eram rotineiras: “Diziam: ‘Faz isso ou vamos enfiar esse pau no teu rabo’”.

Os outros rapazes contaram histórias muito semelhantes de violência sexual como parte das agressões e observaram que as ameaças de violação eram dirigidas não só a eles, mas também às suas mães e irmãos.

Os colonos israelitas não são um braço oficial do Estado da mesma forma que o sistema prisional, mas as Forças de Defesa de Israel protegem cada vez mais os colonos enquanto estes atacam aldeões palestinianos e usam violência sexual para forçar os palestinianos a fugir. “A violência sexual é usada para pressionar as comunidades” a deixarem as suas terras, de acordo com um novo relatório do Consórcio de Proteção da Cisjordânia, uma coligação de grupos internacionais de ajuda humanitária liderada pelo Conselho Norueguês para Refugiados.

O consórcio entrevistou agricultores palestinianos e descobriu que mais de 70% das famílias deslocadas relataram que as ameaças às mulheres e às crianças, particularmente a violência sexual, foram o motivo decisivo para o abandono das suas terras. “A violência sexual”, disse Allegra Pacheco, da coligação, “é um dos mecanismos que levam as pessoas a abandonar as suas terras”.

Numa aldeia remota de agricultores beduínos no Vale do Jordão, conheci Suhaib Abualkebash, um agricultor de 29 anos, que relatou como um grupo de cerca de 20 colonos invadiu as casas da sua família, espancando adultos e crianças, roubando joias e 400 ovelhas — além de lhe cortarem a roupa com uma faca de caça e, em seguida, atarem o seu pénis com abraçadeiras de plástico e puxá-lo. “Tinha medo que me cortassem o pénis”, disse Abualkebash. “Pensei que seria o meu fim.”

Alguns poderão perguntar-se se os palestinianos fabricaram acusações de agressões sexuais para difamar Israel. Para mim, isto parece improvável, porque nenhum dos entrevistados me procurou ou sabia com quem mais eu estava a falar, e mostraram-se relutantes em falar. No entanto, existem algumas evidências de que o abuso sexual em Israel se tornou tão frequente que as normas estão a mudar e as vítimas palestinianas estão a tornar-se um pouco mais dispostas a manifestar-se.

“Durante seis meses, não consegui falar sobre o assunto, nem mesmo com a minha família”, disse Mohammad Matar, um funcionário palestiniano que me contou que os colonos o despiram, o espancaram e o picaram com um pau nas nádegas enquanto falavam em violá-lo. Durante o ataque, os agressores publicaram uma fotografia dele vendado e apenas de cuecas nas redes sociais. Com o tempo, Matar decidiu manifestar-se para tentar quebrar o estigma. Agora, guarda uma cópia ampliada da foto que os colonos lhe tiraram na parede do seu escritório.

Para tentar perceber o que descobri, telefonei a Ehud Olmert, que foi primeiro-ministro de 2006 a 2009. Olmert disse-me que não sabia muito sobre violência sexual contra palestinianos, mas não ficou surpreendido com os relatos que eu tinha ouvido. “Acredito que isso aconteça?”, perguntou. “Definitivamente”. “Os crimes de guerra são cometidos todos os dias nos territórios”, acrescentou.

Assim, voltamos ao ponto que referi no início desta coluna: os apoiantes de Israel tinham razão em 2023 ao afirmar que, independentemente das nossas opiniões sobre o Médio Oriente, deveríamos ser capazes de repudiar a violação.

“Onde raio estão vocês?”, perguntou Netanyahu à comunidade internacional na altura, exigindo que condenasse a violência sexual cometida por aquilo a que o Governo israelita chamou de “regime violador do Hamas”.

O Hamas, de facto, violou brutalmente os direitos humanos. Mas as autoridades israelitas deveriam também examinar as suas próprias violações — em particular, aquilo a que um relatório de 49 páginas das Nações Unidas do ano passado chamou uma “tortura sexualizada” praticada por Israel contra os palestinianos, cometida com pelo menos “um incentivo implícito da alta liderança civil e militar”.

Pensem da seguinte forma: o abuso horrível infligido às mulheres israelitas no dia 7 de Outubro acontece agora aos palestinianos dia após dia. Persiste por causa do silêncio, da indiferença e da falha das autoridades americanas e israelitas em responder à pergunta de Netanyahu: Onde raio estão vocês?

* O autor, Nicholas Kristof tornou-se colunista da secção de Opinião do The Times em 2001 e ganhou dois Prémios Pulitzer.

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