O significado da guerra no século XXI

(Thierry Meyssan, in Voltairenet.org, 17/05/2022)

Os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki não corresponderam a qualquer estratégia militar. O Japão já tinha a intenção de se render. Os Estados Unidos apenas pretenderam que eles não o fizessem aos Soviéticos, que começavam a espalhar-se pela Manchúria, mas sim a eles.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há 77 anos, os Europeus (salvo os antigos Jugoslavos) têm gozado de paz nos seus territórios. Esqueceram já essa memória longínqua e é com horror que observam a guerra na Ucrânia. Os Africanos dos Grandes Lagos, os antigos Jugoslavos e os muçulmanos do Afeganistão à Líbia, passando pelo Corno (Chifre-br) de África, observam-nos enojados : durante muitas décadas, os Europeus ignoraram o seu sofrimento e acusavam-nos de serem responsáveis pelas suas próprias desgraças.

Segundo alguns, a guerra da Ucrânia começou com o nazismo, segundo outros há oito anos, mas no consciente dos Ocidentais não tem mais do que dois meses. Eles constatam uma parte do sofrimento que ela causa, mas ainda não captaram todas as suas dimensões. Acima de tudo, interpretam-na erradamente com base na experiência dos seus bisavós e não daquilo que vivem.

AS GUERRAS NÃO SÃO MAIS DO QUE UMA SUCESSÃO DE CRIMES

 Assim que começa, a guerra acaba com as “nuances”. Ela obriga toda a gente a tomar posição por um dos dois campos. Aqueles que não obedecem são imediatamente esmagados pelas mandíbulas da besta.
 O apagamento das nuances obriga toda a gente a reescrever os acontecimentos. Existem apenas os « bons», nós, e os « maus », os outros, do outro lado. A propaganda de guerra é de tal modo poderosa que depois de algum tempo, ninguém mais distingue os factos da maneira como eles nos são descritos. Ficamos todos mergulhados na escuridão e ninguém sabe como acender a luz.
 A guerra faz sofrer e mata sem distinção. Pouco importa em que campo estamos. Pouco importa que se seja culpado ou inocente. Sofre-se e morre-se não só pelos golpes dos contrários, mas também, colateralmente, pelos do nosso próprio campo. A guerra, não é somente sofrimento e morte, mas também injustiça, que é muito mais difícil de suportar.
 Nenhuma das regras das nações civilizadas subsiste. Muitos cedem à loucura e já não se comportam como humanos. Não há autoridade que coloque todos face às consequências dos seus actos. Já não se pode contar com a maioria das pessoas. O homem torna-se um lobo do homem.

Passa-se então qualquer coisa de fascinante. Se algumas pessoas se transformam em feras cruéis, outras tornam-se fontes de luz e o seu olhar ilumina-nos.

Passei uma década nos campos de batalha sem voltar a casa. Se hoje fujo do sofrimento e da morte, permaneço irresistivelmente atraído por esses olhares. É por isso que odeio a guerra e, no entanto, sinto falta dela. Porque neste emaranhado de horrores brilha sempre uma forma sublime de humanidade.

AS GUERRAS DO SÉCULO XXI

Gostaria agora de vos apresentar algumas reflexões que não vos comprometem neste ou naquele conflito, e muito menos neste ou naquele campo. Vou apenas levantar um véu e convidar-vos a ver o que ele escondia. Aquilo que vou evocar talvez vos possa chocar, mas nós apenas podemos encontrar paz encarando a realidade.

As guerras evoluem. Não falo aqui de armas e de estratégias militares, mas das razões dos conflitos, da sua dimensão humana. Assim como a passagem do capitalismo industrial para a globalização financeira transforma as nossas sociedades e pulveriza os princípios que as definiam, da mesma forma essa evolução muda as guerras. O problema é que somos incapazes de adaptar as nossas sociedades a essa mudança estrutural e, portanto, ainda menos capazes de pensar na evolução da guerra.

 A guerra procura sempre resolver os problemas que a política não conseguiu resolver. Ela não ocorre quando estamos prontos para isso, mas quando eliminamos todas as outras soluções.

É exactamente o que se passa hoje em dia. Os Straussianos norte-americanos encurralaram inexoravelmente a Rússia na Ucrânia, não lhe deixando outra opção a não ser fazer a guerra. Se os Aliados teimarem em levá-la ao limite, provocarão uma Guerra Mundial.

Os períodos entre duas épocas, em que é preciso repensar as relações humanas, são propícios a este tipo de catástrofes. Alguns continuam a raciocinar de acordo com princípios que provaram a sua eficácia, mas já não estão adaptados ao mundo. No entanto, eles vão em frente e podem provocar guerras sem querer.

Na noite de 9 de Maio de 1945, a aviação norte-americana bombardeou Tóquio. Numa noite mais de 100. 000 pessoas foram mortas e mais de 1 milhão ficaram sem casa. Foi o maior massacre de civis da história.

 Se, em tempos de paz, distinguimos os civis dos soldados, esta maneira de pensar já não faz sentido nas guerras modernas. As democracias varreram a organização das sociedades em castas ou ordens. Todos podem se tornar combatentes. Os levantamentos em massa e as guerras generalizadas baralharam as cartas. Agora são os civis que comandam os militares. Eles já não são as vítimas inocentes, antes se tornaram os principais responsáveis pelo infortúnio geral do qual os militares não passam de meros executantes.

Na Idade Média do Ocidente, a guerra era assunto dos nobres e deles em exclusivo. Em caso algum o povo decidia. A Igreja Católica promulgou leis de guerra a fim de limitar o impacto dos conflitos sobre os civis. Tudo isso já não corresponde ao que vivemos e já não tem base nenhuma.

A igualdade homem-mulher derrubou também ela os paradigmas. Não só agora as mulheres são soldados, mas também podem ser comandantes civis. O fanatismo já não é exclusivo de um sexo reputado forte. Algumas mulheres mostram-se mais perigosas e cruéis do que certos homens.

Não estamos conscientes dessas mudanças. Em todo o caso, não retiramos daí nenhuma conclusão. Seguem-se posições bizarras, tal como a recusa dos Ocidentais em repatriar as famílias dos jiadistas que deixaram partir para os campos de batalha e em os julgar. Todos sabem que muitas destas mulheres são muito mais fanáticas do que seus maridos.

Todos sabem que elas representam um perigo muito maior. Mas ninguém o diz. Prefere-se pagar a mercenários curdos para os guardar junto com os filhos em campos, o mais longe possível.

Apenas os russos repatriaram as crianças, aliás já contaminadas por essa ideologia. Eles confiaram-nas aos seus avós na esperança de que estes conseguissem amá-los e curá-los.

Desde há dois meses, acolhemos civis ucranianos que fogem dos combates. Aparentemente, são mulheres e crianças que sofrem. Assim, não se tomam precauções. No entanto, um terço destas crianças foram treinadas em acampamentos de férias dos banderistas. Aí, elas aprenderam o manejo das armas e a admirar o criminoso contra a humanidade Stepan Bandera.

Campo de férias na Ucrânia segundo um quotidiano atlantista. Fonte : « Le Monde » (2016).

 As Convenções de Genebra não são mais do que um resquício do período em que pensávamos como humanos. Elas já não tem ligação com qualquer realidade. Os que as aplicam não o fazem porque se creiam obrigados, mas porque esperam permanecer humanos e não se afundar num oceano de crimes. A noção de « crime de guerra » já não tem nenhum sentido, uma vez que o objectivo da guerra é cometer uma sucessão de crimes para alcançar a vitória que não se pôde obter por meios civilizados e visto que, em democracia, todos os eleitores são responsáveis.

No passado, a Igreja Católica interditara as estratégias dirigidas contra os civis, como o cerco às cidades sob pena de excomunhão. Para além de que hoje já não há autoridade moral para fazer respeitar as regras, ninguém fica chocado com as « sanções económicas » que atingem populações inteiras, a ponto de causar fomes assassinas como foi o caso contra a Coreia do Norte.

Tendo em vista o tempo que precisamos para tirar conclusões do que fazemos, continuamos a considerar certas armas como proibidas enquanto nós próprios as utilizamos. Por exemplo, o Presidente Barack Obama havia explicado que o uso de armas químicas ou biológicas era uma linha vermelha a não ultrapassar, mas o seu Vice-Presidente, Joe Biden, montou um vasto sistema de pesquisa sobre a matéria na Ucrânia. Os únicos a proibitr-se qualquer arma de destruição em massa a si próprios são os Iranianos, já que o Imã Ruhollah Khomeini as condenou moralmente. Precisamente, são eles, que não fazem nada desse género, os que acusamos de querer fabricar uma bomba atómica.

No passado, declarava-se guerras para se conquistar territórios. No fim, assinava-se um Tratado de Paz para modificar o cadastro. Na era das redes sociais, a questão é menos territorial e mais ideológica. A guerra apenas pode terminar desacreditando uma maneira de pensar. Embora territórios tenham mudado de mãos, algumas guerras recentes deram lugar a armistícios, mas nenhuma a um Tratado de Paz e a reparações.

Vemos claramente que, apesar do discurso dominante no Ocidente, a guerra da Ucrânia não é territorial, mas ideológica. Além disso, o Presidente Volodymyr Zelensky é o primeiro chefe de guerra na história a expressar-se várias vezes por dia. Ele passa muito mais tempo a falar do que a comandar o seu Exército. Ele redige as suas intervenções à volta de referências históricas. Nós reagimos às memórias que ele evoca e ignoramos o que não compreendemos. Para os Ingleses, fala como Winston Churchill e eles aplaudem-no; Para os franceses, ele lembra Charles De Gaulle, eles aplaudem-no; etc. Para todos, conclui com « Glória à Ucrânia! » e não compreendem a alusão que acham bonita.

Os que conhecem a história da Ucrânia reconhecem o grito de guerra dos banderistas. O que eles gritavam ao massacrar 1,6 milhões dos seus concidadãos, entre os quais pelo menos 1 milhão de judeus. Mas como é que um Ucraniano poderá apelar para o massacre de outros Ucranianos e um judeu para o massacre de judeus ?

A nossa inocência torna-nos surdos e cegos.

Pela primeira vez num conflito, uma das partes censurou os média inimigos antes mesmo da guerra começar. A RT e o Sputnik foram fechados na União Europeia porque teriam podido contestar aquilo que se ia seguir. Depois dos média russos, média da oposição começam a ser censurados. O sítio da Rede Voltaire, Voltairenet.org, é censurado na Polónia desde há um mês por decisão do Conselho de Segurança Nacional.

 A guerra já não se limita ao campo de batalha. Torna-se indispensável conquistar os espectadores. Durante a guerra do Afeganistão, o Presidente norte-americano, George W. Bush, e o Primeiro-Ministro britânico, Tony Blair, pensaram destruir o canal de televisão por satélite Al-Jazeera. Ele não tinha qualquer impacto sobre os beligerantes, mas fazia pensar os espectadores do mundo árabe.

É de notar que após a guerra de 2003 no Iraque, pesquisadores franceses idealizaram que a guerra militar se transformaria em guerra cognitiva. Se o absurdo das armas de destruição em massa de Saddam Hussein não durou mais do que alguns meses, a maneira como os Estados Unidos e o Reino Unido conseguiram fazer com que todos aceitassem isso foi perfeita. Em última análise, a OTAN acabou por acrescentar aos seus cinco habituais domínios de intervenção (ar, terra, mar, espaço e cibernética), um sexto : o cérebro humano. Se a Aliança evita actualmente enfrentar a Rússia nos quatro primeiros, ela está já em guerra nos dois últimos domínios.

À medida que os domínios de intervenção se alargam, a noção de beligerante apaga-se. Já não são os homens que se confrontam, mas os sistemas de pensamento. A guerra, portanto, globaliza-se. Durante a guerra na Síria, mais de sessenta Estados, que não tinham nenhuma relação com esse conflito, enviaram armas para lá e hoje em dia, uma vintena de Estados envia-as para a Ucrânia. Como em directo não conseguimos interpretar os acontecimentos, antes os percebemos com olhos do velho mundo, acreditámos que as armas ocidentais eram utilizadas pela Oposição democrática síria enquanto elas iam parar aos jiadistas e agora estamos persuadidos que elas vão para o Exército ucraniano e não para os banderistas.

Ou seja, o inferno está cheio de boas intenções.

Original aqui


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A Rússia reescreve a Arte da Guerra Híbrida

(Pepe Escobar, in Strategic Culture, 20/05/2022, trad. Estátua de Sal)

A Guerra Híbrida está a ser travada predominantemente no campo de batalha económico/financeiro – e o nível da dor para o Ocidente coletivo só vai subir.


A “narrativa” ficcional imposta por toda a NATO é que a Ucrânia está a “ganhar”.

Então, porque é que o vendedor ambulante de armas, o chefe do Pentágono Lloyd “Raytheon” Austin, iria implorar literalmente, desde finais de Fevereiro, que o Ministro da Defesa russo Shoigu lhe atendesse o telefone, apenas para ter finalmente o seu desejo atendido?

É agora confirmado por uma das minhas principais fontes de informação. O telefonema foi uma consequência direta do pânico. O Governo dos Estados Unidos (USG) quer, por todos os meios, acabar com a detalhada investigação russa – e da acumulação de provas – sobre os laboratórios americanos de armas biológicas na Ucrânia, tal como sublinhei num artigo anterior.

Esta chamada telefónica aconteceu exatamente após uma declaração oficial russa ao Conselho de Segurança da ONU, a 13 de Maio: utilizaremos os artigos 5 e 6 da Convenção sobre a Proibição de Armas Biológicas para investigar as “experiências” biológicas do Pentágono na Ucrânia.

Isto foi reiterado por Thomas Markram, Subsecretário-Geral da ONU responsável pelo desarmamento, mesmo quando todos os embaixadores dos países membros da NATO, como era previsível, negaram as provas recolhidas como sendo “desinformação russa”.

Shoigu, frio, antecipa a chegada da chamada com muita antecedência. A Reuters, limitando-se a citar o proverbial “funcionário do Pentágono”, disse que o alegado apelo de uma hora de duração não levou a nada. Disparate. Austin, segundo os americanos, exigiu um “cessar-fogo” – que deve ter dado origem a um sorriso de gato siberiano no rosto de Shoigu.

Shoigu sabe exatamente para que lado sopra o vento no terreno – tanto para as Forças Armadas Ucranianas como para os UkroNazis. Não se trata apenas da derrocada do Azovstal – e do colapso de todo o exército de Kiev.

Após a queda de Popasnaya – o bastião crucial e mais fortificado da Ucrânia em Donbass – os russos e as forças de Donetsk/Luhansk aniquilaram as defesas ao longo de quatro vetores diferentes a norte, noroeste, oeste e sul. O que resta da frente ucraniana está a desmoronar-se – rapidamente, com um caldeirão maciço subdividido num labirinto de mini caldeirões: um desastre militar que o Governo dos EUA não pode evitar.

Assim, podemos esperar uma exposição total – com sobre-exploração – da questão das armas biológicas do Pentágono. A única “oferta que não se pode recusar” que resta aos EUA seria apresentar algo tangível aos russos para evitar uma investigação completa.

Ora, isso não vai acontecer. Moscovo está plenamente consciente de que tornar público o programa ilegal de armas biológicas proibidas é uma ameaça existencial para o Estado Profundo dos EUA. Especialmente quando documentos apreendidos pelos russos mostram que a Big Pharma – através da Pfizer, Moderna, Merck e Gilead – esteve envolvida em várias “experiências”. Expor completamente todo aquele labirinto foi, desde o início, um dos objetivos declarados por Putin.

Mais “medidas militares-técnicas”?

Três dias após a apresentação na ONU, a direção do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo realizou uma sessão especial para discutir “as realidades geopolíticas radicalmente alteradas que se desenvolveram como resultado da guerra híbrida contra o nosso país desencadeada pelo Ocidente – sob o pretexto da situação na Ucrânia – sem precedentes em escala e ferocidade, incluindo o renascimento na Europa de uma visão do mundo racista sob a forma de uma russofobia rupestre, uma via aberta para a “abolição” da Rússia e de tudo o que é russo”.

Portanto, não é de admirar que “o agressivo curso revisionista do Ocidente exija uma revisão radical das relações da Rússia com os Estados hostis”.

Devemos esperar “uma nova edição do Conceito de Política Externa da Federação Russa” que sairá em breve.

Este novo Conceito de Política Externa irá desenvolver o que o Ministro dos Negócios Estrangeiros Lavrov voltou a salientar na reunião da 30ª Assembleia do Conselho de Política Externa e de Defesa: os EUA declararam uma Guerra Híbrida geral contra a Rússia. A única coisa que falta agora, é uma declaração formal de guerra.

Para além do nevoeiro de desinformação que encobre a candidatura da Finlândia e da Suécia – chamemos-lhes os Idiotas e os nórdicos mais idiotas – para aderirem à NATO, o que realmente importa é outro exemplo de declaração de guerra: a perspetiva de mísseis com ogivas nucleares estacionados realmente perto das fronteiras russas. Moscovo já avisou os finlandeses e os suecos, educadamente, que isto seria tratado através de “medidas técnico-militares”. Foi exatamente disso que Washington – e os lacaios da NATO – foram informados do que aconteceria antes do início da Operação Z.

E, claro, isto é ainda mais grave, envolvendo também a Roménia e a Polónia. Bucareste já tem lançadores de mísseis terrestres Aegis Ashore capazes de enviar Tomahawks com ogivas nucleares para a Rússia, enquanto Varsóvia recebeu os mesmos sistemas. Indo diretos ao assunto: se não houver uma desescalada, todos acabarão por receber o cartão-de-visita hipersónico do Sr. Khinzal.

Entretanto, a Turquia, membro da NATO, joga um jogo de destreza, emitindo a sua própria lista de exigências antes mesmo de considerar o jogo dos nórdicos. Ancara não quer mais sanções pelas suas compras de S-400s e ser incluída de novo no programa F-35. Será fascinante ver o que “his master’s voice” vai inventar para seduzir o sultão. Os nórdicos empenharam-se numa “posição clara e inequívoca” autocorretora contra o PKK e o PYD não é claramente suficiente para o sultão, que gostou ainda mais de turvar as águas ao salientar que a compra de energia russa é uma questão “estratégica” para a Turquia.

Contrabalançar o Choque Financeiro

Neste momento, é evidente que a Operação Z em aberto visa a potência unipolar hegemónica, a expansão infinita da NATO vassalada, e a arquitetura financeira mundial – uma combinação entrelaçada que transcende largamente o campo de batalha da Ucrânia.

A histeria do pacote de sanções em série do Ocidente acabou por desencadear os movimentos contra financeiros, até agora bastante bem sucedidos, da Rússia. A Guerra Híbrida está a ser travada predominantemente no campo de batalha económico/financeiro – e o nível de dor para o Ocidente coletivo só vai subir: inflação, preços mais elevados das matérias-primas, rutura das cadeias de abastecimento, custo de vida em explosão, empobrecimento das classes médias, e infelizmente para grandes extensões do Sul Global, pobreza e fome.

Num futuro próximo, à medida que as evidências internas surgirem, talvez mesmo se descubra que a liderança russa até jogou e apostou no roubo flagrante pelo Ocidente de mais de US $ 300 bilhões em reservas russas.

Tal implica que já há anos atrás – digamos, pelo menos a partir de 2016, com base em análises de Sergey Glazyev – o Kremlin sabia que isso iria inevitavelmente acontecer. Como a confiança continua a ser uma base rígida de um sistema monetário, a liderança russa pode ter calculado que os americanos e os seus vassalos, conduzidos pela russofobia cega, jogariam todas as suas fichas de uma só vez quando o empurrão chegasse – demolindo por completo a confiança global no “seu” sistema.

Devido aos infinitos recursos naturais da Rússia, o Kremlin pode ter tido em conta que a nação acabaria por sobreviver ao choque financeiro – e até lucrar com ele (incluindo a valorização do rublo). A recompensa é demasiado doce: abrir o caminho para O Dólar Condenado – sem ter de pedir ao Sr. Sarmat que apresente o seu cartão-de-visita nuclear.

A Rússia pode mesmo até cogitar a hipótese de obter um retorno poderoso desses fundos roubados. Uma grande quantidade de ativos ocidentais – totalizando até US$ 500 bilhões – pode ser nacionalizada se o Kremlin assim o desejar

Assim, a Rússia está a ganhar não só militarmente mas também, em grande medida, geopoliticamente – 88% do planeta não se alinha com a histeria da NATO – e, claro, na esfera económica/financeira.

De facto, este é o campo de batalha chave da Guerra Híbrida, onde o Ocidente coletivo está a ser posto em cheque. Um dos próximos passos fundamentais será uma expansão dos BRICS coordenando a sua estratégia de desvio do dólar.

Nenhum dos passos acima referidos deverá ensombrar as repercussões interligadas ainda por avaliar da rendição em massa dos neonazis Azov no centro do UkroNazistão em Azovstal.

A mítica “narrativa” ocidental sobre os heróis da luta pela liberdade imposta desde Fevereiro pelos meios de comunicação social da NATOstão caiu com um único golpe. Pêsames para o silêncio estrondoso em toda a frente da guerra de informação ocidental, onde nem mesmo os vira-latas tentaram cantar aquela canção merdosa “vencedora” da Eurovisão.

O que aconteceu, no fundo, é que o creme de la creme dos neonazis treinados pela NATO, “aconselhados” pelos melhores peritos ocidentais, armados até à morte, entrincheirados em bunkers antinucleares de betão profundo nas entranhas de Azovstal, foi pulverizado ou forçado a render-se como ratos encurralados.

Novorossiya como uma mudança de jogo

O Estado-Maior russo estará a ajustar as suas táticas para o grande enfrentamento em Donbass – como os melhores analistas e correspondentes de guerra russos incessantemente debatem. Terão de enfrentar um problema inescapável: à medida que o exército russo metodicamente esmaga o – desagregado – exército ucraniano em Donbass, um novo exército da NATO está a ser treinado e armado na Ucrânia ocidental.

Assim, existe um perigo real de que, dependendo dos objetivos finais a longo prazo da Operação Z – que só são partilhados pela liderança militar russa – Moscovo corra o risco de encontrar, dentro de poucos meses, uma reencarnação móvel e melhor armada do exército desmoralizado que está agora a destruir. E é exatamente isso que os americanos querem dizer com o “enfraquecimento” da Rússia.

Até ver, há várias razões pelas quais uma nova realidade Novorossiya pode revelar-se uma mudança de jogo positiva para a Rússia. Entre elas:

  1. O complexo económico/logístico de Kharkov a Odessa – ao longo de Donetsk, Luhansk, Dnepropetrovsk, Zaporozhye, Kherson, Nikolaev – está intimamente ligado à indústria russa.
  2. Ao controlar o Mar de Azov – já um “lago russo” de facto – e subsequentemente o Mar Negro, a Rússia terá o controlo total das rotas de exportação para a produção de cereais de classe mundial da região. Bónus extra: exclusão total da NATO.
  3. Tudo isto sugere um esforço concertado para o desenvolvimento de um complexo agro-industrial integrado – com o bónus extra de um potencial turístico sério.

Neste cenário, uma Ucrânia de Kiev-Lviv remanescente, não incorporada na Rússia, e naturalmente não reconstruída, seria, na melhor das hipóteses, sujeita a uma zona de exclusão aérea mais ataques de artilharia/mísseis/drone selecionados no caso de a OTAN continuar a entreter ideias engraçadas.

Esta seria uma conclusão lógica para uma Operação Militar Especial centrada em ataques de precisão e numa ênfase deliberada em poupar vidas civis e infraestruturas, ao mesmo tempo que incapacita metodicamente o espectro militar/logístico ucraniano.

Tudo isto leva tempo. Contudo, a Rússia pode ter todo o tempo do mundo, uma vez que todos nós continuamos a ouvir o som do Ocidente coletivo a descer em espiral.


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A China espirra, o mundo inteiro constipa-se

(Paulo Cannabrava Filho, in Diálogos do Sul, 19/05/2022)

Ainda que a elevação de 4,5% de um PIB de US$ 17,3 tri seja uma enormidade, o país está quase parando, pois crescia a ritmo alucinante de 10% ou mais ao ano.


Um espirro na China, o mundo se resfria, ou pior, fica de cama prestes a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Isto, agravado pelas sanções que os Estados Unidos estão impondo a seus aliados europeus, com o pretexto de castigar a Rússia, a gerar uma das maiores crises da história. 

Estados Unidos, herdeiro da vocação belicista e expansionista dos europeus que colonizaram e povoaram a América do Norte, fizeram fama como sendo a grande potência das guerras e das mentiras. Fazem de tudo para ter uma guerra, sobretudo, mentem.

Impressionante. Como só diminuir o ritmo de desenvolvimento, e crescer 4%, a economia no mundo ocidental e cristão despenca. A China botou o pé no freio devido às medidas profiláticas de controle da covid-19 e à guerra dos Estados Unidos que está a paralisar a economia na UE. Sem ter quem compre, tem que parar de produzir.

Ainda que a elevação de 4,5% de um PIB de US$ 17,3 trilhões seja uma enormidade, na China é um quase parando, pois crescia a ritmo alucinante de 10% ou mais ao ano. 

A crise que é permanente nos países centrais do capitalismo, notadamente sob o domínio do capital financeiro, agravada pela covid piora mais ainda com o decretado bloqueio à Federação Russa.

Me refiro ao modelo adotado após 1980, que utiliza o decálogo do Consenso de Washington como cartilha de gestão econômica. Conseguiram o feito de minar e derrubar o arcabouço da União Soviética, deixando a Rússia na ruína e nas mãos das máfias que se apropriaram das desestatizadas e dos especuladores. 

Máfias e os agentes do capital financeiro quase destruíram o país. Salvo, lentamente vem recuperando o controle sobre os centros de decisão, e ocupando o lugar de destaque no cenário global, como potência econômica e militar de economia planificada. Não foi fácil. O êxito russo desesperou tio Sam e seus acólitos.

Quatro décadas de neoliberalismo aplicado nos países emergentes, que chamávamos de Terceiro Mundo, foram décadas perdidas. Está nos jornais, basta saber ler. Desestatização, desnacionalização, desindustrialização, Estado mínimo, precarização, desemprego… são as palavras chave do neoliberalismo predador.

No Brasil, esse estancamento por décadas, mais incompetência na gestão e descontrole inflacionário, conduziram à atual situação que leva o nome de estagflação. Não tem como recuperar a economia com as regras desse jogo. 

A Cartilha do Pensamento Único, glamourizada como globalização e dada como inevitável, inclusive nas academias, está na raiz da crise. Concentração e transnacionalização são duas das sequelas. Fábricas fechadas para abrir filiais onde a mão-de-obra é mais barata, desregulamentação do trabalho, matrizes em paraísos fiscais, tudo no afã de otimizar lucro para os acionistas. 

Consequências: de um lado, gerou esse cassino global, a meca dos especuladores. Dinheiro para multiplicar dinheiro, abandono do ciclo de produção industrial. Por outro lado, os Tigres asiáticos são resultado dessa expansão das transnacionais. Em certa medida, também a China.

Quem segura a China?

Maior mercado consumidor do mundo, todos quiseram ir para lá. Mas… três mil anos de civilização, chinês não é tonto, já foi maior potência comercial em outros tempos, transformou-se no que é hoje, a fábrica do mundo. Impressionante: tudo é feito na China. Das bugigangas aos microssatélites é a maior potência comercial e econômica do mundo. Potência sob todos os pontos de vista, principalmente pelo fato de ter eliminado a pobreza. 

A China só está atrás dos Estados Unidos em aparelhamento militar. Mas, também nesse aspecto, pronto terá superado. Em 20 anos, construiu uma frota naval maior que a dos ianques e está se posicionando para ser a líder na tecnologia de exploração do espaço sideral.

Atingiram esse status apesar dos esforços contrários do mundo ocidental sob hegemonia estadunidense. Os ocupantes da Casa Branca não escondem a perplexidade. Precisamos barrar a China. A China é o inimigo real, a disputar a hegemonia. Para barrar a China, precisa primeiro acabar com a Rússia. Não tem como enfrentar a China e a Rússia. 

Só que já é um pouco tarde. Apareceu um Putin, que devolveu a autoestima do povo e está lá comemorando a vitória sobre o nazifascismo, na guerra de todas as guerras, por isso chamada de Guerra Mãe. 55 milhões de mortos, dos quais 27 milhões, russos, entre estes, 18 milhões, civis.

A Segunda Guerra terminou há exatos 77 anos, em maio de 1945. De lá para cá, assistimos a implementação da hegemonia dos Estados Unidos, ocupando a Europa Ocidental militar e economicamente e se expandindo por todas as latitudes. O pretexto era a reconstrução, a via foi a da guerra cultural e centenas de bases militares alimentadas por sete frotas navais. A maior potência militar do planeta impôs a economia do dólar e a estratégia do caos para dominar o planeta.

Não só a Europa é cenário dessa guerra. Os Estados Unidos querem levar a guerra também para todos os que consideram seus aliados. Como fez na guerra contra o Iraque, agora quer envolver os países asiáticos, como Japão, Coreia do Sul e Austrália. O Japão se ergueu dos escombros da Segunda Guerra, tornou-se uma grande potência econômica e tecnológica, mas não se livrou da ocupação militar e cultural dos Estados Unidos. 

Das quase 800 bases militares que os EUA mantêm em 45 países, umas 120 estão no Japão, a maioria (75%) em Okinawa, onde teve início um movimento de protesto a exigir expulsão dos ianques violadores da soberania e das mulheres. Outras 120 bases estão na Alemanha. Países perderam a noção de soberania. Quando começará o movimento contra essa dominação?

A NATO é a continuidade da Segunda Guerra

A expansão da Otan para o leste é continuação dessa guerra. Os Estados Unidos querem estender sua hegemonia. Usou das técnicas de guerra híbrida para incluir países que antes pertenciam à União Soviética ou que historicamente se mantinham neutros diante das disputas durante a Guerra Fria. A Ucrânia, caso típico, de golpe de estado que coloca governo títere, deu no que deu.

No dia 16, reuniu-se em Moscou a cúpula da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que reúne Belarus, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Rússia. Na oportunidade, Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, segundo despachos de Prensa Latina, declarou que “o sistema unipolar da ordem mundial é irremediavelmente coisa do passado, porém, o Ocidente Coletivo (leia-se Otan) luta ferozmente para manter suas posições. […] Nenhum país representa ameaça para a Europa, mas o Ocidente trava uma guerra híbrida em grande escala com o claro objetivo de estrangular a Rússia”. 

Na segunda semana de maio, o Congresso estadunidense aprovou US$ 40 bilhões em ajuda militar e humanitária. Já tinham liberado US$ 1,3 bilhões. Muito humanitária! Quantos dólares foram utilizados para promover o golpe de 2014 que resultou no governo títere causante da atual guerra?

Rússia cautelosa preserva a Ucrânia

Quem quer essa guerra? A quem interessa essa guerra?

A Rússia está atuando com muita cautela e comedidamente nas ações bélicas na Ucrânia. Atuando, se pode dizer, cirurgicamente, procurando causar o menor dano possível para a população. Só tem atacado e destruído alvos militares. 

Se fossem os Estados Unidos e a coligação com que atacou o Iraque, já não restaria pedra sobre pedra em Kiev e outras cidades ucranianas. Vale lembrar que o Iraque foi totalmente destruído… tudo, pontes, rodovias, ferrovias, prédios públicos, tudo. Na Ucrânia, até o parlamento e o governo continuam funcionando. Os crimes de guerra são da parte ucraniana, maior parte pelos nazistas.

Na quarta-feira (18), as agências de notícias informavam que as tropas russas dominaram completamente a usina siderúrgica Azovstal, uma ocupação militar que resistiu duramente antes de capitular. Surpresa, nos subterrâneos da usina funcionava um comando com oficiais britânicos, canadenses, turcos e ianques, oficiais da Otan. Não dá mais para esconder seu envolvimento.  

A Rússia está sendo cautelosa também com relação ao suprimento de gás aos países europeus. Sabe que afeta gravemente a toda população de países que são vizinhos e/ou países com que, até agora, mantinha relações harmoniosas. 

No final de semana, Putin telefonou ao chanceler alemão Olaf Scholz tentando acalmá-lo, posto que ainda não cortou o suprimento de gás. Se cortar, param as indústrias e geram-se milhões de desempregados. A quem interessa isso?

Negado ingresso da Finlândia e Suécia na NATO

Agora Suécia e Finlândia anunciam querer integrar a Aliança Atlântica, que já não é só Atlântica, pois inclui países como Japão e Austrália. Mas, Suécia e Finlândia têm mais de 1.500 km de fronteira com a Federação Russa. É muita provocação. 

O que leva um país como Suécia, depois de 200 anos de neutralidade, sujeitar-se aos desígnios de Washington? Dólares? 

Esses dois países dependem do gás, petróleo e energia elétrica da Rússia. Se negam a pagar o que devem aos bancos russos, e as dívidas estão crescendo. Isso dá aos russos todo o direito de cortar o suprimento. Eis a raiz da crise. Não pagam e pedem socorro à Otan. Realmente perderam o senso.

É uma jogada das mais perigosas. 

Hungria e Turquia perceberam a encrenca, disseram, formalmente, que não aprovam o ingresso da dupla de países bálticos à Otan. Quase que simultaneamente, a Áustria comunicou que descarta a hipótese de ingressar na Otan e manterá status de neutralidade. Os países membros têm poder de veto. Oxalá resulte, porque é muita ousadia cutucar o tigre siberiano com vara curta. Só a neutralidade dos países fronteiriços garante a paz na região. Paz e desenvolvimento com a Europa se integrando como Eurásia. Esse é o futuro de um novo mundo livre da hegemonia do imperialismo.

Fato inédito: pela primeira vez, na sexta-feira (13), o chefe do Pentágono – o ministério da guerra – Lloyd Austin, chamou o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, para propor uma trégua e um canal de comunicação. Conversaram por uma hora sem resolver coisa alguma, segundo a Reuters. Quase que a mesma coisa disse à agência TASS. De qualquer forma, é positivo que haja um canal de comunicação que possa evitar um mal maior.

Estratégia do caos

Fica claro quando se vê que a guerra que anunciam contra a Rússia é na verdade contra seus próprios aliados da Otan, a União Europeia, basicamente. Uma União Europeia integrada à Eurásia, usufruindo dos ingentes recursos minerais da Rússia, caminho para o desenvolvimento integrado e assim livrar-se da dominação imperial, é o que mais temem os estrategistas do Pentágono, os senhores de todas as guerras que ocupam os centros de decisão.

As casas precisam de calefação – aquecimento central – para que as pessoas não morram de frio; as fábricas e escritórios precisam de energia elétrica; a vida e a economia se movem por meio de todo tipo de transporte. Estamos falando de energia elétrica, de combustão, petróleo, gás, carvão, redes de transmissão. 

A Hungria anunciou que não entra na conversa fiada dos Estados Unidos porque 60% do gás e petróleo que movem o país vêm da Rússia. Na Alemanha, o parque industrial depende de 40% até 90% da fonte energética russa.

Não é só energia o problema 

Sobe o preço do combustível, desencadeia alta em tudo. A Europa se tornou dependente em trigo, açúcar, carnes, insumos agrícolas e industriais, bens de consumo. Tudo ficou mais caro e a comida começa a escassear nas prateleiras dos armazéns. Inclusive produtos de consumo já estão mais caros e custam a chegar devido ao bloqueio. É de se esperar que a população desperte do que parece uma hipnose coletiva e se levante contra essa realidade de ser colônia, submissa aos Estados Unidos. 

Inflação oficial, na zona do euro, nos últimos 12 meses, admitida oficialmente, em torno de 7%, 8%. A inflação real, para dona de casa, chega a 30% em alguns produtos, como trigo, milho e soja. No Brasil, o pãozinho já está 20% mais caro. Isso porque não há política agrícola no país. 

Por conta do trigo, os países do G7 se reuniram por dois dias em Stuttgart, Alemanha, preocupados com o que fazer. China, Índia e Rússia são os maiores produtores de trigo do mundo; Ucrânia é um dos grandes fornecedores de trigo para Europa, está bloqueada pela guerra; Índia, segunda maior produtora do cereal, proibiu a exportação. G7 – Alemanha, Itália, França, Reino Unido, Canadá, Japão e Estados Unidos – pediu que a Índia atue com responsabilidade e instou a Rússia a suspender o bloqueio do trigo ucraniano. Assim de simples, eles penalizam e não querem ser penalizados.

Do outro lado da anacrônica cortina de ferro, agora mais estreita, apesar do esforço de guerra, as sequelas do bloqueio decretado pelos Estados Unidos e seus sequazes da Otan são menores, porque são compensadas com o incremento do plano de integração e cooperação asiática que tem a China como locomotiva. Ademais, a Rússia não foi pega de surpresa. Já vinha sofrendo sanções desde o governo Trump e se preparou.

McDonald ‘s fecha as portas em toda a Rússia. Um símbolo a menos do triste período da debacle soviética. Voltar a comer chachlik melhora a autoestima. A Renault fechou, as fábricas foram reestatizadas e voltaram a produzir sem provocar desemprego.

Agora propriedade do Instituto Central de Pesquisa e Desenvolvimento de Automóveis e Motores (Nami), estatal, seguirá produzindo o Lada, um Fiat da era soviética, e peças de reposição para manutenção dos Renault produzidos para o mercado russo.

Petróleo e gás que deixaram de fluir para alguns países da Europa já estão fluindo em dobro para a Índia. Novas rotas e dutos incrementarão, no curto prazo, o fluxo das fontes de energia russas entre os dois países vizinhos que se complementam e entre os demais países asiáticos.  

O dólar já desapareceu há algum tempo nas transações entre os países asiáticos. China, Rússia e Índia estão desenhando a nova geopolítica do mundo. Até a Arábia Saudita está aceitando rublos e ienes. 

Os ministros de Relações Exteriores dos BRICS estiveram reunidos virtualmente na quinta-feira (19) para preparar a reunião de cúpula que transcorrerá em junho, em Pequim. A China, maior potência, com a maior população do planeta, 1,2 bilhão, logo será superada pela Índia, hoje perto de um bilhão de habitantes. Integradas com a Rússia, são as bases para os BRICS – que a essa aliança somam o Brasil e a África do Sul – e determinam hoje a nova geopolítica do mundo. Um mundo multipolar, sem hegemonias, sem guerra, preocupado em preservar a vida com qualidade.

Fonte aqui

O autor iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1967. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo


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