Quem controla a informação em Portugal

(Ricardo Graça, Advogado, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua.)


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Todos os dias, milhões de portugueses ligam a televisão, abrem o telemóvel ou folheiam um jornal a pensar que estão a ser informados. Mas não estão! Estão a receber uma versão da realidade escolhida por um punhado de pessoas que a maioria nunca ouviu falar.

Em Portugal, quase toda a informação que chega ao cidadão passa por três ou quatro grupos privados. A Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, detém a SIC e o Expresso. A Media Capital, controlada pelo empresário Mário Ferreira, dono da Douro Azul, detém a TVI e a CNN Portugal. A Medialivre, antigo grupo Cofina, detém o Correio da Manhã, a CMTV, o Jornal de Negócios e a Record. A Global Media, detém o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e a TSF. E depois há a RTP, que é pública, financiada com dinheiro dos contribuintes, e que muda de direcção cada vez que muda o Governo.

E a concentração não pára. Pelo contrário, acelera. A Cofina tentou comprar a Media Capital. A família Berlusconi negociou a compra da Impresa. Os grupos compram-se, fundem-se, absorvem-se. Cada fusão significa menos vozes. Cada aquisição significa menos pluralidade. E cada despedimento numa redacção significa menos olhos a vigiar quem precisa de ser vigiado.

Toda a informação que o país consome é filtrada por meia dúzia de grupos, controlados por meia dúzia de pessoas, com meia dúzia de interesses. Não é teoria. É facto. Está publicado e basta uma simples pesquisa na internet.

Agora pergunte-se: quando um empresário que tem interesses na construção, no turismo, nos navios de cruzeiro e nos negócios internacionais é dono de uma televisão, acha que essa televisão vai noticiar livremente contra os interesses dele? Quando o dono de um jornal tem dívidas a bancos, acha que esse jornal vai investigar esses bancos? Quando um grupo de Comunicação Social depende de publicidade institucional do Estado, acha que vai fazer jornalismo a sério sobre a incompetência do Governo? A resposta é óbvia. E toda a gente a sabe. Mas ninguém a diz em horário nobre. Mas o problema não é só quem é dono. É como funciona a máquina.

A maior parte das notícias que aparecem nos jornais e nas televisões não nascem de investigação jornalística. Nascem de comunicados de imprensa, de notas de assessores de comunicação, de agências de relações públicas que fabricam histórias e as servem prontas à redacção. O jornalista recebe, edita e publica. Às vezes nem edita. E o leitor consome aquilo como se fosse jornalismo quando, na verdade, é publicidade disfarçada.

Há empresas inteiras dedicadas a isto. Chamam-lhes agências de comunicação. O trabalho delas é garantir que certas notícias aparecem e que outras desaparecem. Que certos nomes são protegidos e que outros são destruídos. Que certos problemas nunca chegam ao público e que outros são amplificados até à exaustão. Tudo isto é feito de forma profissional, organizada e bem paga. E o cidadão comum nunca sabe que está a ser manipulado.

E já agora: repare nas notícias que nunca aparecem. Já viu um telejornal investigar a fundo os contratos entre o Estado e as grandes construtoras? Já viu uma reportagem séria sobre os lucros da banca enquanto as famílias pagam juros que não conseguem suportar? Já viu uma peça sobre os benefícios fiscais que as multinacionais recebem em Portugal enquanto o cidadão comum paga IRS até ao último cêntimo? Estas notícias existem, estes factos são públicos. Porque as empresas que beneficiam desses contratos, desses lucros e desses benefícios são as mesmas que compram publicidade nos jornais e nas televisões. E ninguém morde a mão que o alimenta.

Depois há a propaganda do medo.

Ligue a televisão num dia qualquer. O que encontra? Assaltos, violência, crises, catástrofes, doenças, ameaças. Tudo urgente. Tudo dramático. Tudo desenhado para manter as pessoas com medo, coladas ao ecrã, a consumir publicidade entre dois blocos de pânico.

O medo vende. O medo gera audiências. O medo faz com que as pessoas não pensem, não questionem, não se revoltem. Uma população com medo é uma população obediente. E uma população obediente é fácil de governar.

Já reparou que as boas notícias quase nunca passam? Que as soluções que funcionam noutros países nunca são noticiadas? Que os movimentos de cidadãos que se organizam e resolvem problemas nunca têm cobertura? Não é por acaso. O cidadão informado e confiante não serve os interesses de quem precisa que ele tenha medo.

E quando alguém levanta estas questões, sabe o que acontece? É chamado de “teórico da conspiração”. Como se questionar quem controla a informação fosse loucura. Como se perguntar a quem serve uma notícia fosse delírio. Como se exigir transparência sobre quem decide o que é notícia e o que não é fosse paranóia.

O rótulo “teoria da conspiração” é uma das ferramentas mais eficaz de censura dos nossos tempos. Não é preciso proibir ninguém de falar. Basta descredibilizar quem fala. E o sistema faz isso com uma eficiência impressionante. Quem questiona é maluco. Quem duvida é radical. Quem investiga é perigoso. E quem aceita tudo sem questionar é cidadão responsável e bem informado.

Eu não estou a dizer que existe um comité secreto que decide as notícias. Não precisa de existir. O sistema funciona sozinho. Quando os donos da Comunicação Social têm interesses económicos e políticos, quando as redacções dependem de publicidade para sobreviver, quando os jornalistas trabalham em condições precárias e sem tempo para investigar, quando as agências de comunicação fornecem notícias prontas a publicar, o resultado é sempre o mesmo: uma informação filtrada, enviesada e ao serviço de quem paga. E quem paga nunca é o cidadão.

Há outro truque que o cidadão comum não vê: o conteúdo patrocinado. Os grandes grupos de Comunicação Social vendem espaço nos seus jornais e nos seus sites a empresas que querem parecer notícia sem o ser. Chamam-lhe “branded content”, “conteúdo de marca” ou “publicidade nativa”. Na prática, é uma peça escrita para parecer jornalismo, publicada ao lado de notícias reais, com um aviso tão discreto que a maioria das pessoas não repara. O leitor lê aquilo a pensar que é informação. É publicidade. E o jornal cobra por isso.

Os próprios grupos de Comunicação Social  já têm divisões inteiras dedicadas a produzir este conteúdo. Não são as redacções. São departamentos comerciais com outro nome. Mas o produto aparece no mesmo jornal, no mesmo site, na mesma aplicação. E o cidadão, que confia no nome do jornal, consome sem questionar.

E repare nos “especialistas”. Quantas vezes ouviu os mesmos comentadores, os mesmos analistas, as mesmas caras a dizer as mesmas coisas em canais diferentes? São sempre os mesmos. Rodam entre estúdios como actores de telenovela. Estão na SIC de manhã, na TVI à tarde e na CNN à noite. Dizem o que se espera que digam. Confirmam a narrativa do dia. E criam no cidadão a ilusão de que ouviu várias opiniões quando, na verdade, ouviu a mesma três vezes com gravatas diferentes.

Falemos agora de quem faz as notícias. Dos jornalistas. A maioria dos jornalistas em Portugal trabalha em condições que ninguém aceita em 2026. Contratos precários, salários baixos, horários impossíveis e redacções cada vez mais pequenas. Um jornalista que há dez anos cobria um tema e tinha tempo para investigar, hoje cobre três temas ao mesmo tempo e tem de publicar antes do almoço para alimentar o site. Não tem tempo para confirmar, para cruzar fontes, para ir ao terreno. Tem tempo para reescrever o comunicado que lhe chegou e pôr um título que gere cliques.

Isto não é culpa dos jornalistas. É culpa de um modelo de negócio que substituiu a qualidade pela velocidade e a investigação pelo volume. Os bons jornalistas existem. Muitos deles sabem exactamente o que está mal. Mas estão presos num sistema que os obriga a produzir em quantidade o que devia ser produzido com rigor. E quando tentam investigar a sério, muitas vezes são travados. Não por censura formal. Por falta de meios, por pressão editorial, por medo de perder anunciantes. A auto censura é a forma mais eficiente de controlo: o jornalista aprende sozinho o que pode e o que não pode dizer.

E depois há a informação que já não passa sequer pelos jornais. Passa pelos algoritmos. Hoje, a maioria das pessoas não vai ao site de um jornal procurar notícias. Recebe-as no telemóvel, escolhidas por um algoritmo que não sabe o que é verdade, sabe o que gera reacção. O algoritmo não distingue jornalismo de propaganda. Não distingue factos de opinião. Não distingue informação de manipulação. Mostra-lhe o que o mantém mais tempo a olhar para o ecrã. E o que mantém as pessoas a olhar é, quase sempre, o que as assusta, o que as indigna ou o que confirma o que já acreditavam.

Há ainda outro fenómeno que merece atenção: a porta giratória entre a política e a Comunicação Social. Quantos antigos políticos, assessores e secretários de Estado passaram para direcções de comunicação de grandes empresas, para agências de lobbying ou para cargos na Comunicação Social? E quantos jornalistas foram para gabinetes ministeriais e voltaram como se nada fosse? Esta circulação cria uma rede de cumplicidades em que quem informa e quem é informado se confundem. O jornalista que amanhã quer ser assessor não vai incomodar hoje o ministro que lhe pode dar o lugar. E o antigo assessor que agora é comentador vai proteger quem o pôs onde está.

Em Portugal, temos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a ERC. Deveria ser uma entidade reguladora da informação livre. Mas na prática, é um organismo que emite pareceres, publica relatórios e assiste a tudo sem poder real de intervenção. Quando a concentração da propriedade dos media ameaça a pluralidade, a ERC opina. Quando um órgão de comunicação viola regras deontológicas, a ERC lamenta. Quando os interesses económicos dos donos contaminam a informação, a ERC analisa. E o cidadão continua a ser tratado como espectador de uma peça de teatro onde o guião já foi escrito.

A Constituição garante a liberdade de imprensa. Artigo 38.º. Garante que o Estado não pode censurar. A censura moderna não vem do Estado. Vem do mercado. Vem de quem é dono. Vem de quem paga. Vem de quem decide o que é notícia e o que não é.

A censura de hoje não proíbe. Ignora. Não apaga. Abafa. Não prende jornalistas. Despede-os.

O cidadão que quer ser informado em Portugal tem de fazer um esforço activo. Tem de ler várias fontes. Tem de comparar versões. Tem de procurar quem escreve e para quem. Tem de perceber que a notícia que lhe aparece no telemóvel não é um acto de serviço público, é um produto. E como todo o produto, serve quem o produz, não quem o consome.

A pergunta que fica é simples: num país onde meia dúzia de empresários controla quase toda a informação, onde as redacções vivem de publicidade e comunicados, onde o medo é modelo de negócio e onde questionar tudo isto dá direito ao rótulo de teórico da conspiração, pode dizer-se que existe liberdade de informação?

A resposta, essa, nunca vai passar no telejornal. Tal como as verdades que não servem os interesses de quem o paga.

O Brasil não é uma herança de família

(José Pendão, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua)


O programa eleitoral de Flávio Bolsonaro tinha uma particularidade enternecedora: antes de salvar o Brasil, convinha salvar o pai. A prioridade foi anunciada sem grandes pudores, com aquela desenvoltura tão característica de quem considera a separação de poderes uma formalidade burocrática destinada a complicar a vida das famílias respeitáveis. A anistia de Jair Bolsonaro, condenado por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, tornou-se uma das bandeiras do candidato, que prometia procurar a absolvição política do progenitor pelos mecanismos ao seu alcance, fosse através do Congresso ou de um eventual indulto presidencial. Uma curiosa conceção de serviço público, convenhamos, em que a Presidência da República funciona como extensão da sala de estar familiar e o interesse nacional começa, muito naturalmente, por resolver os problemas judiciais lá de casa.

Felizmente, os brasileiros tinham outros planos.

Luiz Inácio Lula da Silva acaba de ser reeleito Presidente do Brasil com 51,79% dos votos, contra os 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa recuperação extraordinária depois de ter perdido a primeira volta. Aos oitenta anos, o antigo operário metalúrgico conquistou o seu quarto mandato, contrariando sondagens, expectativas e aquela numerosa congregação internacional de especialistas que há anos anuncia a morte definitiva da esquerda com a convicção de quem já encomendou as flores para o funeral.

O defunto, pelos vistos, continua a mexer-se. E, para grande inconveniência dos coveiros, ainda vota.

Seria, contudo, precipitado concluir que o resultado brasileiro representa o início de uma gloriosa reconquista progressista. Conheço suficientemente bem a História, e sobretudo a humanidade, para desconfiar de ressurreições políticas anunciadas antes de o entusiasmo eleitoral ter terminado a digestão. As revoluções que começam com champanhe e declarações solenes sobre o nascimento de uma nova era costumam acabar em reuniões de emergência para explicar por que razão a nova era se parece tanto com a anterior.

Mas seria igualmente absurdo ignorar o significado desta vitória.

Num mundo onde Donald Trump regressou à Casa Branca, onde Javier Milei transformou uma motosserra em manifesto ideológico e onde diferentes movimentos nacionalistas e populistas conseguiram apresentar-se como proprietários exclusivos do futuro, o Brasil acaba de introduzir um desagradável contratempo na narrativa da inevitabilidade histórica.

A extrema-direita descobriu que a História não é uma estrada de sentido único e que, por mais alto que se grite, continuam a existir cruzamentos onde os cidadãos podem escolher outra direção.

Convém, naturalmente, distinguir o conservadorismo democrático da direita populista e dos movimentos autoritários. Nem toda a direita é extrema-direita, nem todo o liberal é um bolsonarista de fato engomado. Mas uma parte significativa do novo populismo desenvolveu uma extraordinária técnica de exploração do descontentamento social: identificar problemas reais, encontrar culpados suficientemente convenientes e oferecer soluções que dispensam o incómodo exercício de compreender as causas.

A criminalidade? Falta de autoridade. A pobreza? Falta de esforço. A imigração? Culpa dos imigrantes, evidentemente. A degradação dos serviços públicos? Culpa dos burocratas, das elites, dos comunistas ou de uma conspiração internacional que, curiosamente, nunca parece encontrar dificuldades para reunir os seus membros.

É uma forma de pensamento económico de admirável eficiência. As causas são sempre simples, os culpados estão previamente identificados e as soluções cabem num autocolante para o para-choques de uma Brasilia amarela.

O bolsonarismo acrescentou a esta receita uma componente particularmente brasileira: uma espécie de monarquia republicana em que o poder circula pela família, a autoridade é venerada como virtude suprema e as instituições são respeitadas com uma condição bastante razoável, a de não contrariarem os interesses do patriarca.

A justiça deve ser implacável, sobretudo com os pobres, os suspeitos habituais e os adversários políticos. A polícia precisa de poderes reforçados, os criminosos merecem penas exemplares e a sociedade necessita de disciplina. Mas quando um tribunal condena o chefe da família por uma conspiração contra a ordem democrática, instala-se subitamente uma epidemia de sensibilidade garantista. Descobre-se a importância dos direitos individuais, denuncia-se a perseguição judicial e a palavra «anistia» começa a ser pronunciada com a ternura normalmente reservada às orações de Natal.

É uma conceção da justiça semelhante à daqueles cavalheiros que defendem entusiasticamente o cumprimento das regras de trânsito, desde que as multas sejam enviadas exclusivamente para a morada dos vizinhos.

O mais extraordinário é que ninguém se deu ao trabalho de esconder esta contradição. Flávio Bolsonaro fez da possibilidade de libertar o pai uma promessa política assumida. Não se tratava de uma suspeita maliciosa inventada pelos adversários, nem de uma interpretação abusiva de algum discurso obscuro. Era uma prioridade proclamada publicamente, como se um dos grandes problemas nacionais do Brasil fosse a dificuldade de um antigo Presidente condenado encontrar uma solução satisfatória para a sua situação penal.

E depois falam-nos de renovação política.

A dinastia apresentava-se como a grande alternativa às velhas elites, uma revolução contra o sistema conduzida pelo filho do anterior chefe do sistema, com o objetivo de reabilitar o pai e preservar a influência da família. Faltava apenas instituir o brasão oficial e estabelecer um regime de transmissão hereditária do ressentimento.

Naturalmente, quase sessenta milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, e seria intelectualmente preguiçoso concluir que todos o fizeram para libertar Jair Bolsonaro. Muitos manifestaram preocupações legítimas com a criminalidade, o endividamento, os impostos, o custo de vida e a condução económica do país. Outros identificam-se com valores conservadores ou discordam profundamente das políticas de Lula. Reduzir um eleitorado tão vasto a uma caricatura seria cometer precisamente o erro que tantas vezes atribuímos aos nossos adversários.

Mas não deixa de ser legítimo perguntar por que razão uma parte da população aceita tão facilmente que a defesa intransigente da autoridade conviva com projetos destinados a aliviar as consequências judiciais dos seus próprios dirigentes.

A resposta talvez esteja menos na ideologia do que numa velha tendência humana: a facilidade com que transformamos princípios universais em privilégios de grupo.

E, enquanto a direita populista aperfeiçoava esta arte, o que andava a fazer a esquerda?

Em demasiados países, dedicava-se a perder a ligação com as pessoas que historicamente afirmava representar. Continuava a falar de justiça social, mas nem sempre parecia capaz de explicar como é que essa justiça se traduzia numa renda suportável, num emprego estável, numa escola decente ou num hospital onde fosse possível marcar uma consulta sem consultar previamente a esperança média de vida.

Não se trata de desvalorizar os direitos das minorias, a igualdade de género ou a proteção ambiental. São conquistas fundamentais de sociedades democráticas e não luxos facultativos que se abandonam perante dificuldades económicas. Trata-se de reconhecer que uma política progressista incapaz de responder às condições materiais da população acabará por deixar a defesa desses direitos politicamente isolada.

Uma pessoa pode preocupar-se simultaneamente com a dignidade dos imigrantes e com o preço do supermercado. Aparentemente, esta descoberta ainda não chegou a todas as direções partidárias.

Lula percebeu, pelo menos durante a campanha, que não bastava apresentar Flávio Bolsonaro como uma ameaça à democracia. Era necessário convencer os brasileiros de que a alternativa poderia melhorar as suas vidas. Falou de rendimentos, trabalho, proteção social, endividamento das famílias e oportunidades económicas. Procurou recuperar eleitores desencantados e mobilizar aqueles que tinham ficado em casa na primeira volta.

Não sabemos ainda se conseguirá cumprir as expectativas, nem se as medidas anunciadas são economicamente sustentáveis a longo prazo. Algumas levantam legítimas dúvidas orçamentais. Mas a campanha trouxe novamente para o centro do debate uma questão que a esquerda não deveria alguma vez ter permitido que lhe escapasse: de que serve defender abstratamente o futuro se não conseguimos melhorar concretamente o presente?

E talvez seja esta a lição mais importante para os movimentos progressistas europeus, incluindo os portugueses, tão frequentemente ocupados a discutir a pureza doutrinária das suas propostas enquanto os seus antigos eleitores procuram respostas noutros quadrantes políticos.

O populismo não se combate eficazmente tratando todos os seus eleitores como uma multidão de ignorantes manipulados. Combate-se compreendendo as razões do seu descontentamento e apresentando soluções mais credíveis do que a promessa de encontrar um bode expiatório para cada problema nacional.

Mas não confundamos esperança com ingenuidade. Lula venceu, mas o bolsonarismo não desapareceu. Quarenta e oito por cento dos votos representam uma força política extraordinariamente relevante, e o novo Congresso brasileiro terá uma presença conservadora ainda mais robusta. O Presidente enfrentará dificuldades económicas, enormes tensões institucionais e uma sociedade profundamente dividida. A vitória eleitoral não concede poderes sobrenaturais, embora alguns governantes, de diferentes quadrantes, pareçam continuar à espera de que essa disposição seja incluída nas respetivas constituições.

E o comportamento de Flávio Bolsonaro depois da derrota oferece-nos uma recordação pouco tranquilizadora do que continua em jogo. O candidato recusou reconhecer o resultado e anunciou que pretende pedir a anulação da eleição, contestando a decisão judicial que prolongou o horário de votação. A decisão foi controversa e pode naturalmente ser sujeita a escrutínio. Mas contestar judicialmente uma eleição exige fundamentos e provas, não apenas a convicção íntima de que perder é uma injustiça incompatível com a própria importância histórica.

O pai também recusara aceitar a derrota de 2022. É reconfortante descobrir que, num mundo de valores familiares em erosão, certas tradições continuam a ser transmitidas de geração em geração.

A democracia, para esta conceção de política, parece funcionar segundo um princípio bastante simples: quando ganhamos, o povo pronunciou-se soberanamente; quando perdemos, o povo foi evidentemente enganado, o sistema encontra-se corrompido e torna-se urgente reconsiderar as regras do jogo. É uma espécie de democracia com cláusula de devolução, reservada exclusivamente aos membros do clube.

Mas as consequências desta eleição não se esgotam no Brasil. O país é a maior economia da América Latina, possui recursos estratégicos essenciais, uma dimensão territorial e demográfica que lhe confere influência internacional e uma importância ambiental que ultrapassa largamente as suas fronteiras. A continuidade de Lula representa também a continuidade de uma diplomacia que procura preservar autonomia perante Washington, manter relações com a China e desempenhar um papel relevante entre as economias emergentes.

Num contexto internacional em que Trump procura reforçar a influência norte-americana no continente, esta vitória constitui um limite político à expansão de um bloco regional alinhado com a sua administração. Não significa que Lula se transforme num adversário permanente dos Estados Unidos, nem que o Brasil possa ignorar as suas relações comerciais. Significa apenas que continua a existir uma grande potência sul-americana cuja orientação externa não se confunde automaticamente com as preferências da Casa Branca.

Um pormenor aparentemente modesto, mas que possui alguma importância num tempo em que a autonomia diplomática começa, em determinados círculos, a ser considerada uma manifestação de falta de educação.

Também a proteção da Amazónia poderá beneficiar desta continuidade. Os resultados de redução da desflorestação durante o mandato de Lula representam progressos reais, ainda que acompanhados por contradições ambientais e económicas que não podem ser ignoradas. O Brasil continua a enfrentar pressões poderosas sobre o território, conflitos relacionados com a exploração de recursos naturais e desafios de desenvolvimento que nenhuma fotografia de um Presidente abraçado a uma árvore consegue resolver.

E não será Lula quem resolverá sozinho as contradições geopolíticas de um mundo dominado por interesses económicos, nacionalismos e rivalidades estratégicas. Mas talvez não seja necessário exigir-lhe semelhante prodígio.

A importância desta vitória reside também na demonstração de que o avanço da direita populista não constitui uma inevitabilidade. Os seus movimentos podem ganhar eleições, conquistar governos e influenciar profundamente o debate público, mas podem igualmente ser contrariados por alternativas políticas capazes de mobilizar maiorias.

Uma derrota eleitoral não destrói uma ideologia, tal como uma vitória não representa necessariamente a consagração moral dos vencedores. Convém recordar isto aos dois lados, sobretudo àqueles que desenvolvem uma tendência preocupante para confundir a vontade popular com a vontade divina sempre que os resultados lhes são favoráveis. E seria particularmente saudável que a esquerda não cometesse agora o erro de transformar Lula num santo padroeiro da democracia.

O Partido dos Trabalhadores tem uma história que inclui realizações sociais significativas, mas também escândalos, erros económicos, compromissos discutíveis e promessas por cumprir. A própria dependência de uma liderança octogenária levanta dúvidas legítimas sobre a capacidade de renovação do progressismo brasileiro.

O homem que simboliza a esperança de rejuvenescimento da esquerda mundial tem oitenta anos. A ironia é tão generosa que quase dispensa comentário.

Talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar novos Lulas, mas construir movimentos políticos suficientemente fortes para não dependerem eternamente da longevidade de um único dirigente. Uma esquerda que pretende representar o futuro deveria conseguir imaginar esse futuro sem precisar de consultar primeiro o boletim clínico dos seus fundadores. Ainda assim, seria mesquinho negar o significado do que aconteceu no domingo.

Durante anos habituámo-nos a ouvir que os valores progressistas estavam condenados, que os cidadãos tinham deixado de acreditar na solidariedade e que o futuro pertencia inevitavelmente aos novos profetas da autoridade, da identidade nacional e da motosserra libertadora. O Brasil veio recordar que a História não é uma escritura de propriedade e que os seus presumíveis herdeiros podem descobrir, no momento da partilha, que os restantes familiares não concordam com o testamento.

Talvez esta eleição inspire movimentos progressistas noutros países. Talvez fique como uma exceção num ciclo internacional dominado por forças conservadoras. Talvez o próximo mandato de Lula produza avanços importantes ou uma nova coleção de desilusões. A política tem esta inconveniente característica de não oferecer garantias de satisfação.

Mas uma coisa mudou. A narrativa da inevitabilidade sofreu uma pequena, embora considerável, indisposição.

E, sobretudo, milhões de brasileiros demonstraram que a democracia continua a oferecer a possibilidade de escolher entre projetos diferentes, mesmo depois de anos de polarização, desconfiança e discursos sobre a suposta inutilidade das instituições.

Não significa que o povo tenha finalmente acordado de um longo sono político. Os povos não adormecem nem despertam em conjunto, como passageiros obedientes de uma excursão organizada. Dividem-se, contradizem-se, mudam de opinião e, frequentemente, voltam a cometer erros que julgavam ter deixado para trás. É precisamente essa imprevisibilidade que torna a democracia tão irritante para quem prefere governar sem interrupções.

A esperança, por seu lado, continua a ser uma criatura de hábitos pouco recomendáveis. Insiste em reaparecer quando tudo parecia definitivamente perdido, perturba o conforto intelectual dos pessimistas e obriga-nos a considerar a possibilidade desagradável de que os nossos destinos não estejam inteiramente decididos.

Confesso que mantenho alguma desconfiança perante tanto otimismo. A humanidade já me proporcionou demasiadas ocasiões para apreciar a robustez das minhas piores expectativas.

Mas talvez, desta vez, mereça conceder-lhe o benefício da dúvida.

O Brasil não salvou o mundo. Não derrotou definitivamente o populismo, não resolveu as desigualdades sociais e não inaugurou uma era de esclarecimento universal. O bolsonarismo continuará a existir, Trump continuará na Casa Branca, as forças nacionalistas continuarão a disputar o poder e os problemas económicos e sociais não desaparecerão por decreto presidencial.

Mas, no domingo, os brasileiros recusaram entregar a Presidência a um candidato que incluía entre as suas promessas a resolução dos problemas judiciais do pai.

E fizeram-no através do instrumento mais banal e simultaneamente mais extraordinário que uma democracia possui: uma urna de voto.

Pode parecer pouco, sobretudo para quem esperava assistir ao nascimento de uma revolução mundial. Mas, numa época em que tantos autoproclamados salvadores da pátria tratam as instituições democráticas como obstáculos administrativos às suas ambições pessoais, talvez seja uma recordação suficientemente importante.

A esperança não conquistou o mundo. Limitou-se a ganhar umas eleições.

E a família Bolsonaro descobriu, uma vez mais, que uma república não é uma herança de família.

Pelo menos enquanto os eleitores continuarem a ter alguma coisa a dizer sobre o assunto.

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Da valentia dos governantes e das suas polícias

(Por José Gabriel, in Facebook, 25/10/2026, Revisão da Estátua)


Quando hoje abri o Facebook dei, em má hora, com uma página onde abundavam os comentários laudatórios à polícia e ao governo. Há horas de azar.

Surpreendido – não foi nada disso que vi na transmissão em direto – fui-me informar melhor, até porque um dos comentários falava da “valentia” da PSP e do governo. Sem dúvida extensível ao Pedro, El Implacable, presidente da Câmara do Porto, e Carlos, El Gilipollas, presidente da Câmara de Lisboa. Da valentia dos governantes não obtive provas. Porventura estarão ainda a dormir, quiçá corajosamente debaixo das camas, tentando dominar as aflições nas miudezas, designadamente intestinais.

Policias de choque avançam sobre manifestantes durante um ato pelo direito à habitação em Lisboa, Portugal, em 25 de outubro de 2026. O protesto pelo direito à habitação e contra o aumento do custo de vida em Portugal teve início no Porto, no dia 10 de outubro, e, posteriormente, estendeu-se a Lisboa e a várias outras cidades portuguesas.

Da valentia da polícia, sim, há numerosas provas. Que coragem! Ignorando a nova lei das burcas, posto que iam de capacete opaco e irreconhecíveis, bateram, agrediram com denodada vontade, enfrentando aqueles perigosos pacifistas. Levaram, até, cães, não fossem os manifestantes darem-lhes tau-tau. De caminho, tentaram repor, não só a ordem pública, como pedagogicamente espancaram firmemente jovens mulheres, tentando mostrar-lhes que lugar delas é em casa.

Aqui ficam algumas imagem que testemunham essa valentia. Não estranhem que para cada jovem – e não tão jovem – manifestante haja, pelo menos, dois polícias que, apesar de estarem armados, não deixaram de se precaver contra a perigosa potencial violência dos manifestantes, alguns dos quais ostentavam fatais recursos de combate como cravos – ainda por cima vermelhos, que são os piores.

Policias de choque detêm uma pessoa durante uma manifestação pelo direito à habitação em Lisboa, Portugal, 25 de outubro de 2026. O protesto pelo direito à habitação e contra o aumento do custo de vida em Portugal começou no Porto, no dia 10 de outubro, e estendeu-se, posteriormente, a Lisboa e a várias outras cidades portuguesas.

E gritavam frases tão perigosas como “o povo unido jamais será vencido” e “fascismo nunca mais“. Ora, nas suas instruções, aos polícias sempre ensinaram que se o povo está unido, é desancá-lo, para que se desuna e não tenha ideias subversivas. Quanto a fascismo, nunca ouviram falar. Só lhes disseram que é preciso manter a ordem pública, custe o que custar, mesmo que não haja desordem nenhuma – sempre treinam, que nunca se sabe o que vem aí. Isto para não falar nas sábias palavras do senhor almirante Gouveia e Melo, que explicou que aqueles manifestantes eram dirigidos pela Rússia, nada menos!

E pronto. Agora é esperar que o senhor Presidente da República saia debaixo da secretária – honi soit qui mal y pense – e nos fale do consenso que deve existir entre os manifestantes e a polícia, e que o senhor Primeiro-ministro apareça, já que continuar escondido “será-lhe“, sem dúvida, politicamente funesto. É que Passos Coelho não deixará de lhe lembrar que a carga policial foi escusadamente postergada. Devia sido logo, ou até antes, como ensinava Salazar, El Descaderado.


E a Estátua convida-vos a ver o vídeo abaixo, do youtuber Pedro Lourenço, uma excelente peça de reportagem sobre a manifestação no Porto e os abusivos desmandos policiais.