Ali Bábá e os Sessenta Coirões

(Luís Rocha, in Facebook, 11/09/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma coisa que tenho de reconhecer ao Coiso. É um partido extremamente trabalhador. Trabalha muito para produzir absolutamente nada. É assim uma espécie de máquina de lavar roupa avariada. Faz um barulho dos diabos, abana a casa inteira, aquece que se farta, mas a roupa sai exatamente como entrou.

A última demonstração desta admirável capacidade produtiva foi a moção de censura ao Governo. O Coiso foi ao Parlamento para derrubar Montenegro com aquele entusiasmo de quem vai finalmente conquistar a Europa, quando na realidade tinha mais ou menos a mesma capacidade militar de uma associação recreativa de Alguidares de Baixo.

O sacristão de Mem Martins apareceu com ar de pequeno Napoleão, provavelmente já a imaginar a estátua no Rossio, seguido pela brigada de coirões parlamentares, todos afinados para berrar “demissão!”. E berraram. Berraram com convicção. Berraram com pulmão. Berraram como se o volume da voz tivesse alguma relação com o número de votos.

Não tinha. Para derrubar um Governo são precisos votos. E o Coiso tinha 60. Exatamente cinco dúzias.

A moção teve 60 votos a favor, 104 contra e 62 abstenções. Os 60 votos favoráveis foram precisamente os 60 deputados do Coiso. Não conseguiram convencer mais ninguém. Nem um. Foi uma coisa bonita de se ver, porque revelou finalmente a verdadeira dimensão parlamentar da revolução dos ruminantes. Cabia toda dentro do próprio redil.

Imagino que tenha havido um momento, depois da votação, em que alguém perguntou: “Então e agora?” E outro respondeu: “Agora dizemos que ganhámos.”

É assim que funciona a política coirona quando tem um problema com a realidade. A realidade diz “perderam”. A propaganda responde “vitória histórica”. E pronto. Problema resolvido.

O Coiso apresentou uma moção para demonstrar que o Governo estava isolado e descobriu que quem estava sozinho era ele. É uma espécie de ironia que normalmente exigiria um argumentista de comédia, mas que a política portuguesa oferece gratuitamente.

E eu até consigo perceber a irritação.

Se eu fosse dirigente de um partido de extrema-direita que tivesse uma relação particularmente pouco calorosa com o diretor da Polícia Judiciária, sobretudo depois da PJ ter estado envolvida no desmantelamento de organizações extremistas e neonazis, também não seria propriamente fã do homem.

Se passasse os dias a falar de imigração e criminalidade como quem vende rifas à porta da igreja e depois aparecesse a Polícia Judiciária a apresentar números que não confirmavam parte da narrativa, também começaria a sentir que aquele diretor tinha qualquer coisa contra a minha carreira política.

E se, pelo meio, tivesse inventado a história de um alegado assalto ao meu gabinete que estivesse a levantar uma quantidade considerável de perguntas, também perceberia a necessidade de arranjar rapidamente outro assunto.

É aqui que entra a moção.

Porque quando não se tem uma política económica convincente, fala-se de imigrantes. Quando não se tem uma política para a saúde, fala-se de criminosos. Quando não se tem uma política para a habitação, fala-se de identidade nacional. E quando não se tem capacidade para fazer coisa nenhuma, faz-se uma moção de censura.

É uma atividade política semelhante à de um homem que passa a tarde inteira a afiar uma faca e depois descobre que não tem pão.

Mas o melhor veio depois.

A moção foi chumbada, Montenegro continuou primeiro-ministro, Luís Neves continuou ministro e o Governo continuou no mesmo sítio. E, enquanto o Coiso se preparava para celebrar mais uma batalha imaginária contra o sistema, Montenegro aproveitou o debate para anunciar cerca de 800 milhões de euros em medidas para pensionistas e contribuintes.

É preciso ter azar.

Os homens foram ao Parlamento tentar matar politicamente o Governo e acabaram por servir-lhe de palco para anunciar medidas popularuchas.

São uma espécie de motorista de Uber paquistanês da política. Levam os adversários exatamente onde eles querem chegar.

E depois há a parte mais divertida, que é a explicação da vitória.

Porque o Coiso nunca perde. Pode perder eleições, votações, moções, argumentos, aliados e até o contacto com a realidade, mas perder nunca. Aquilo é uma máquina de reciclagem de derrotas. Entra uma derrota e sai uma “vitória política”.

Se tiverem 60 votos e os outros 166 não votarem com eles, é porque “marcaram a agenda”. Se ninguém os acompanha, é porque “não precisam de outros partidos”. Se a moção é chumbada, é porque “o sistema está borradinho de medo”.

É uma forma extraordinariamente confortável de fazer política. Não é preciso ganhar. Basta explicar muito bem porque é que perder é, afinal, uma maneira sofisticada de ganhar.

E talvez seja esse o verdadeiro problema do Coiso. Aquilo não parece um partido político. Parece uma sessão coletiva de autossatisfação.

Muito movimento. Muito entusiasmo. Muito suor. Muito berro. Muito “demissão!”. E no fim, quando se olha para os resultados, Portugal continua exatamente onde estava.

É o equivalente político de alguém passar dois minutos a fazer flexões diante do espelho e depois pedir aos outros que admirem a transformação. Não há transformação nenhuma. Há apenas o espelho. Mas o problema é que Portugal não está no espelho. Está cá fora. Que maçada.

Uma pessoa prepara uma revolução, compra os foguetes, ensaia os discursos, afina os coirões, veste-se de Napoleão e depois chega ao fim do dia e descobre que continua tudo igual.

Há dias em que a democracia consegue ser mesmo cruel. Principalmente para quem ainda não percebeu que gritar “demissão” não é o mesmo que ter capacidade intelectual para fazer alguma coisa de benéfico pela nação.

Mas pronto. Na próxima semana haverá outra coisa qualquer para berrar. Que nunca lhes dê uma amigdalite, coitadinhos…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.parlamento.pt/Fiscalizacao/Paginas/Mocoes.aspx

https://www.parlamento.pt

https://www.rtp.pt

https://www.dn.pt

https://www.jn.pt

https://portugal.gov.pt

https://portugal.gov.pt/…/governo-anuncia-suplemento…

https://elpais.com/…/el-parlamento-portugues-rechaza-la…

É preciso mudar a cabeça que não pensa

(João Gomes, in Facebook, 10/09/2026)


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Há exatamente um ano escrevi que a Europa estava a transformar a defesa numa gigantesca operação financeira e que, por detrás dos números, faltava a pergunta essencial: onde está a diplomacia capaz de transformar uma guerra em paz?

Um ano depois, não tenho razões para retirar uma única palavra ao essencial daquela reflexão. Pelo contrário. Algumas das coisas que então pareciam apenas projecções ganharam entretanto forma política, financeira e institucional.

Em Março de 2025, a União Europeia apresentou o plano ReArm Europe/Readiness 2030, com a possibilidade de mobilizar até €800 mil milhões para a defesa europeia, incluindo €150 mil milhões através do instrumento SAFE. O Parlamento Europeu acompanhou esta orientação. Em Março, aprovou por 442 votos contra 98, com 126 abstenções, uma resolução que reforçava o apoio militar à Ucrânia e defendia garantias de segurança robustas. Em Novembro voltou ao mesmo caminho, aprovando por 401 votos contra 70 uma posição que associava a paz a um cessar-fogo prévio, garantias de segurança e novas formas de pressão sobre a Rússia. E, em Dezembro, aprovou por 425 votos contra 120 uma resolução sobre a preparação militar europeia que colocava em cima da mesa a possibilidade de atingir os €800 mil milhões de investimento na defesa até 2030.

Ou seja: aquilo que há um ano era anunciado como uma enorme possibilidade financeira transformou-se numa arquitectura política permanente.

E não ficou pelo papel.

Em 2026, o SAFE começou efectivamente a distribuir dinheiro. Chipre recebeu €177,2 milhões, a Lituânia €956,3 milhões, a Grécia €118,2 milhões e a Estónia €351,6 milhões nas primeiras tranches dos seus empréstimos. O mecanismo prevê €150 mil milhões em empréstimos aos Estados-membros e integra o objectivo de mobilizar mais de €800 mil milhões para a defesa europeia.

A minha pergunta de há um ano tornou-se, portanto, ainda mais simples: quanto custa esta nova Europa da prontidão permanente e quanto tempo estamos dispostos a viver dentro dela?

Mas existe uma questão ainda maior. Onde está a paz? Não se pode dizer que a palavra tenha desaparecido dos documentos europeus. Pelo contrário. Ela aparece em quase todas as conclusões, declarações e resoluções. Fala-se de “paz justa e duradoura”, de “negociações significativas”, de “cessar-fogo” e de “soluções diplomáticas”.

Mas existe uma diferença entre falar de paz e construir as condições políticas para a alcançar. E é aqui que a Europa continua prisioneira da sua própria contradição.

António Costa, enquanto presidente do Conselho Europeu, reconhece que a diplomacia é necessária. Em Junho de 2026 chegou mesmo a afirmar que a União precisa de um canal diplomático direto com Moscovo, para poder ouvir e transmitir posições. É uma constatação elementar – e talvez uma das mais importantes que ouvi de uma instituição europeia nos últimos tempos. Mas, simultaneamente, o Conselho Europeu continua a defender mais apoio militar, mais produção de armas, mais munições, mais drones, mais mísseis, mais pressão económica sobre a Rússia e mais garantias militares para a Ucrânia.

Em Junho de 2026, a própria conclusão europeia é reveladora: apoia-se a diplomacia, mas continua-se a aumentar o apoio militar e a “enfraquecer a economia de guerra russa” para obrigar Moscovo a negociar.

É uma estratégia possível. Mas não é uma estratégia de paz. É uma estratégia de pressão para obter uma negociação.

E há uma diferença enorme entre as duas coisas. Kaja Kallas, responsável pela política externa da União, tornou essa lógica particularmente clara durante 2025. Em Abril dizia que a única forma de levar a Rússia a negociar seriamente seria aumentar a pressão sobre Moscovo. Em Maio repetia que a opção era colocar mais pressão sobre a Rússia para que negociasse seriamente. Em Dezembro, quando as conversações continuavam, a prioridade continuava a ser a mesma: mais pressão sobre Moscovo e mais apoio a Kiev.

Ora, se a diplomacia é sempre apresentada como aquilo que acontecerá depois de a pressão militar produzir resultados, então a diplomacia deixa de ser uma política autónoma. Passa a ser o prémio prometido no fim da escalada. E esse é precisamente o problema.

A Europa habituou-se a pensar que para conseguir a paz é necessário primeiro tornar a guerra suficientemente cara para o adversário. Só que ninguém consegue garantir antecipadamente onde termina essa lógica. Porque Moscovo também calcula. Washington também calcula. Kiev também calcula. E cada capital interpreta a palavra “pressão” de maneira diferente.

Entretanto, a guerra continua. E a Europa paga. Paga financeiramente, paga economicamente, paga politicamente e paga através de uma crescente militarização da sua própria ideia de segurança.

Em Junho de 2026, a União já contabilizava €220,2 mil milhões de apoio à Ucrânia desde o início da guerra, dos quais €77 mil milhões em assistência militar. E a factura não terminou. O Conselho Europeu continua a preparar apoio financeiro e militar adicional, enquanto o novo sistema de empréstimos SAFE começa a materializar a enorme transformação da política europeia de defesa.

A questão é a seguinte: uma política de segurança que não consegue produzir uma saída política para a guerra é uma política de segurança incompleta. E é aqui que a Europa falha. Falha porque confundiu durante demasiado tempo capacidade militar com capacidade política.

Pode-se fabricar mais munição. Pode-se comprar mais mísseis. Pode-se aumentar os orçamentos militares. Pode-se contrair dívida. Pode-se criar fundos. Pode-se construir fábricas de armamento. Mas nenhuma fábrica produz uma coisa chamada acordo de paz. E nenhum míssil consegue fabricar confiança entre dois Estados que estão em guerra.

É por isso que o problema europeu já não é apenas militar. É político. A Europa precisa de uma política externa que seja capaz de falar com Washington sem depender de Washington, com Kiev sem se limitar a repetir Kiev e com Moscovo sem considerar que falar com Moscovo é uma concessão moral. Uma Europa verdadeiramente soberana não pode escolher os seus interlocutores em função da simpatia que sente por eles.

Diplomacia não é gostar do adversário. É falar com ele precisamente porque existe um conflito.

E aqui chegamos ao problema das cabeças. Ursula von der Leyen transformou a Comissão numa das principais impulsionadoras da nova arquitetura europeia de defesa. Kaja Kallas tornou-se a voz de uma política externa particularmente assente na pressão sobre Moscovo. António Costa, embora introduza no discurso uma preocupação maior com a diplomacia e tenha reconhecido a necessidade de um canal direto com a Rússia, continua inserido numa estrutura europeia que mantém como prioridade o reforço militar da Ucrânia e da capacidade de pressão sobre Moscovo.

Não é necessário afirmar que estas três figuras pensam exatamente da mesma maneira. Não pensam. E talvez esse seja precisamente o problema. A Europa não tem uma cabeça política única para pensar a paz. Tem várias cabeças, várias instituições, várias sensibilidades e várias estratégias que nem sempre convergem.

A Comissão pensa em instrumentos e capacidade. Kallas pensa sobretudo em pressão e segurança. O Conselho procura conciliar 27 governos e preservar a unidade. O Parlamento Europeu reflete uma maioria política que, em matéria de Ucrânia, tem reiteradamente aprovado o reforço do apoio militar. E o cidadão europeu fica a assistir a tudo isto como quem olha para uma máquina gigantesca cujo botão “acelerar” todos sabem onde está, mas cujo botão “parar e negociar” ninguém parece encontrar.

É preciso mudar esta lógica. E talvez seja aqui que a conclusão de há um ano tenha de ser ainda mais dura. Não basta mudar políticas. É preciso mudar quem pensa as políticas. Não porque uma mudança de dirigentes garanta automaticamente a paz – não garante. Mas porque uma Europa que permanece presa à mesma arquitetura mental dificilmente produzirá um resultado diferente.

Se os mesmos dirigentes continuam a interpretar a segurança quase exclusivamente através do aumento da capacidade militar, se continuam a acreditar que a paz nascerá essencialmente da pressão sobre o adversário e se continuam a colocar a diplomacia como consequência de uma futura correlação de forças, então estamos perante uma política que pode prolongar a guerra durante muito tempo sem saber exatamente como terminá-la.

E isso é demasiado perigoso para um continente que já conheceu duas guerras mundiais.

A Europa precisa de dirigentes que saibam que defender a Europa não é apenas preparar a guerra que poderá vir. É também impedir a guerra que ainda pode terminar. Precisa de gente capaz de sentar à mesma mesa quem não queremos sentar à nossa mesa. Precisa de diplomatas com autonomia. Precisa de canais diretos com Moscovo. Precisa de capacidade para ouvir Kiev sem assumir automaticamente todas as suas posições como posições europeias. Precisa de capacidade para dialogar com Washington sem aceitar que a estratégia europeia seja sempre uma extensão da estratégia americana. E precisa, sobretudo, de voltar a perguntar aos seus cidadãos uma coisa muito simples: queremos uma Europa armada para uma guerra interminável ou uma Europa suficientemente forte para poder negociar a paz?

Porque não são exatamente a mesma coisa.

Há um ano terminei o meu texto dizendo que uma Europa que gasta o seu futuro em armas corre o risco de esquecer para quem governa. Hoje acrescentaria apenas isto: uma Europa que sabe quanto custa uma guerra, mas não sabe quanto custa politicamente construir a paz, está a pensar com a cabeça errada.

Não precisamos de dirigentes que confundam firmeza com obstinação. Não precisamos de dirigentes que confundam diplomacia com fraqueza. Não precisamos de dirigentes que confundam segurança com rearmamento permanente. Precisamos de uma mudança de cabeça.

E, se as cabeças que hoje conduzem a Europa não forem capazes de fazer essa mudança, então serão os cidadãos europeus que terão de exigir outra orientação – e, quando chegar o momento democrático, outros dirigentes.

Porque a paz não se constrói apenas com armas suficientes para continuar uma guerra. Constrói-se com dirigentes suficientemente inteligentes para saber quando é preciso parar de preparar a guerra e começar verdadeiramente a preparar a paz.

Um ano depois, a conclusão é inevitável: A Europa não está mais perto da paz. Está mais armada, mais endividada, mais dividida na sua visão estratégica e ainda sem uma diplomacia europeia capaz de falar diretamente com todos os protagonistas do conflito. E enquanto Ursula von der Leyen, Kaja Kallas e António Costa representarem, cada um à sua maneira, uma Europa que ainda não conseguiu transformar a força militar numa estratégia política de paz, todos os europeus correm o risco de perder. Não a guerra. Mas a paz.

Cultura de exigência? Se alguma persiste, terias de te demitir!

(Hugo Dionísio, in substack. 10/09/2026, Revisão da Estátua)


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Em Portugal, os ricos pagam colégios privados dispendiosos para que os seus filhos obtenham, quase automaticamente, as notas de que necessitam para entrar nas universidades economicamente acessíveis do público, atirando para as universidades dispendiosas privadas e detidas pelos ricos, os filhos dos trabalhadores que têm de andar nas escolas públicas, nas quais não se pode pagar para obter notas mais altas!

Eis, em algumas palavras, o resumo da educação em Portugal! O rico envia o filho para o privado e daí para o público e o pobre, envia o filho para o público e daí para o privado, para a imigração ou para lado nenhum!

Daí que. esta “cultura de exigência”, vinda de um governo como este soa como ouvir um fumador falar em combate ao tabagismo. Vamos pedir às nossas crianças que façam como está a fazer o Ministro da Educação? Com a mesma “cultura de exigência” com que ele tratou a colocação de professores e a privatização da correcção dos exames nacionais? Vamos aplicar a mesma “cultura de exigência” que Montenegro aplicou quando disse que ia, em 60 dias de governação, criar e aplicar um plano de acção para a resolução do caos na Saúde? Ou demandaremos uma “cultura de exigência” do tipo daquela que foi usada no bónus da REN ao dono da ZARA? E que tal a “cultura de exigência” no caso das fragatas italianas?

Os resultados obtidos no PISA 2025 só podem admirar quem tem andado a dormir, de forma muito profunda, nos últimos 15 anos. Nem por um momento poderia haver dúvidas sobre o caminho prosseguido. E nem vale a pena atirar com as culpas apenas a Montenegro e companhia, uma vez que as responsabilidades governativas foram repartidas e houve quem tivesse tempo de inverter o caminho de descalabro para onde este país rapidamente avança.

Quando, ainda no tempo de Durão Barroso, se decidiu, por razões puramente políticas e anti-sindicais, iniciar uma guerra contra os professores, supostamente por causa da sua avaliação, porque “tinha de haver cultura de exigência”, todos deveriam ter percebido que uma escola pública não funciona bem com a sua força de trabalho em permanente alvoroço devido às ofensivas governamentais. Com Sócrates, a realidade beligerante governo–sindicatos não mudou; contudo, valha a verdade, o período de José Sócrates foi o último em que sentimos um investimento efectivo na educação e na escola pública. É certo que se trataram de investimentos feitos com o autoritarismo e sujeitos às escolhas, não poucas vezes duvidosas, de José Sócrates.

Na década seguinte, Portugal sentiu esses investimentos, nomeadamente com a redução brutal da taxa de abandono escolar precoce, naquela que foi a maior redução registada na OCDE. No PISA 2015, Portugal obteve os melhores resultados de sempre. Mas quando chegámos à Troika de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas — Portugal que, com José Sócrates, tinha subido o investimento na educação para níveis médios próximos dos da OCDE —, com o governo PPD/CDS e com o beneplácito da UE e do FMI, o orçamento da educação baixou cerca de 30%, de forma abrupta. No final da legislatura neoliberal radical, o orçamento do Ministério da Educação ficava bem abaixo da média da OCDE. Nesses tempos, todos deveríamos ter percebido que a coisa não poderia correr bem. Diga-se em abono de Passos Coelho e Nuno Crato que, pelo menos, tiveram a esperteza saloia de suspender a participação de Portugal no PISA. Sabiam bem o que faziam e sabiam bem os resultados que daria.

Veio António Costa e este, em 8 anos de poder, poderia ter mudado Portugal para sempre! Poderia ter operado uma transformação deveras importante, não se ficando apenas por paliativos, os quais, em muitos casos, apenas foram introduzidos por imposição da “essssqueeerda raaadicaaalll” ou da “exxxxtreeemaaaa esssquerdaaaa”. Foi o caso dos manuais escolares gratuitos, dos aumentos nos apoios sociais e de algum desafogamento financeiro na vida das famílias, que lhes permitiu garantir melhores condições de educação às suas crianças. Não fossem os papões da “exxxxtreeemmmaaaa essssquerdaaaa”, nem sequer o PS teria chegado ao poder. O resultado foi o que se esperava por parte de um partido que vive no drama de dizer querer valorizar os direitos dos trabalhadores, a Constituição e os serviços públicos e de se submeter aos ditames de Bruxelas. Querer praticar uma política de esquerda, ao mesmo tempo que se submete a um enquadramento normativo, institucional e económico de caráter neoliberal e neocolonial, é algo muito complicado.

Valha a verdade: o único momento, ao longo de todo o século XXI, em que os salários portugueses quase convergiram com a média europeia, foi o período da jocosamente designada “geringonça”. Nesse período, a economia portuguesa cresceu também sempre acima da média. Bastou desapertar alguns dos calces neoliberais que asfixiam a economia e os trabalhadores e o país voltaram a ver alguma luz. Pela primeira vez, também, a legislação laboral foi “reformada” sem que os trabalhadores perdessem direitos. O resultado é conhecido. Com uma maioria absoluta, depois de traídas as esquerdas, sozinho, o executivo de António Costa foi alvo de um violento ataque de “lawfare”, algo que deveria ter-se previsto quando o patronato, em protesto, abandonou a Comissão Permanente de Concertação Social.

Nesse período, o país foi vítima das indefinições dos que se dizem “do centro”, “da moderação”, mas que são absolutamente sectários e fanáticos no seguidismo das políticas de Bruxelas, quando as mesmas se destinam a suprimir direitos e conquistas civilizacionais. Os únicos momentos em que os governos portugueses incumpriram as “recomendações” e imposições de Bruxelas trataram-se de situações que funcionariam a favor dos trabalhadores e do povo. Nesses casos, como o da habitação, o “centro moderado” esquece-se logo do bom comportamento.

Depois do golpe de Estado, do silêncio cúmplice e cobarde do PS e do exílio de Costa, forçado a abdicar, tal como querem fazer com Pedro Sánchez, pois Bruxelas e o capital monopolista têm horror aos governantes que, mesmo de forma limitada, conseguem governar para além das imposições do semestre europeu, dos planos, agendas, actos e estratégias de von der Leyen e da check-list do consenso de Washington.

Mas 8 anos de PS e uma maioria absoluta não resolveram o problema da falta de professores, nem a sangria anual de jovens portugueses que são forçados a emigrar devido aos custos especulativos da habitação; 8 anos e uma maioria absoluta não foram suficientes para repor os salários perdidos pelos professores, não sendo também suficientes para recuperar a imagem desta classe aos olhos do povo. Como querem que os estudantes levem a sério os ensinamentos dos professores, se tudo o que ouvem, em casa e na imprensa totalitária, é que os professores são acomodados, gostam é de progressões automáticas e estão habituados à boa vida sem exigência? Mesmo quando uma parte importante deles tem de viver com salários de miséria, estagnados, sem progressão e desenraizados do seu meio e longe das suas famílias?

Chega Montenegro, cheio de reformas e planos urgentes, mas de urgente só vimos a destruição de tudo o que resta da enorme transformação que o país sofreu entre 1974 e 1976, que conduziu à CRP de 1976 e à criação de um conjunto de garantias públicas que catapultaram este país para níveis de desenvolvimento, ainda que insuficientes e insuficientemente atingidos, mais consentâneos com o país que se diz uma “democracia”. Nada mais Montenegro tem feito do que engordar a extrema-direita e o neofascismo, seja seguindo os seus passos, seja contribuindo para o ressentimento e a desilusão.

Portanto, falar de “cultura de exigência” por parte de Montenegro é considerar que, então, todo o mal que este governo tem praticado tem-no feito de propósito e com enorme competência.

Será que o ódio destilado quanto à capacidade colectiva e organizativa demonstrada pelos professores não pode poupar os nossos filhos? Será que o ódio aos sindicatos, à capacidade reivindicativa, não pode esperar que os nossos filhos e crianças se formem? Destruir o colectivo dos professores é mais importante do que a educação das nossas crianças? Existe alguma escola pública forte que não tenha uma classe de professores igualmente forte, autónoma, independente?

Mas o mais interessante dos dados do PISA 2025 é que confirmam uma tendência que se vem acentuando nas últimas décadas e que está relacionada com a profunda decadência do Ocidente e do seu modelo de governação. Não mais o ocidente, com exceção de uma Finlândia e pouco mais, conseguiu acompanhar a Ásia. A China, com a média mais alta, demonstra que para ter resultados diferentes É PRECISO FAZER DIFERENTE! A superioridade chinesa em tudo é tal, que já se torna fastidioso discutir se governam melhor ou pior, se é diferente ou igual à podridão decadente do ocidente. Apenas a Estónia se intrometeu entre os asiáticos. Se bem que falamos apenas de 4 países asiáticos, a China (com uma superioridade brutal e esmagadora), que a separam em vários países, o Japão, Singapura e a Coreia do Sul.

A Turquia, país em que estive há uns anos no âmbito de uma delegação da OCDE e EU a visitar estabelecimentos de ensino e formação profissional, está hoje à frente de Portugal, acima da média da OCDE. Há 10 anos, nos locais mais pobres, tinha escolas sem água e sem electricidade. Mesmo assim, ficou acima da média da OCDE e o PS mostra-se contente porque está “na média”! Governantes medíocres apenas atingem resultados medíocres, ou medianos, o que, neste mundo, quer dizer medíocre. Se esta imagem da ascensão Turca não nos mostra as transformações profundas no mundo e a forma como a periferia começa a exigir a sua parte do bolo do direito ao desenvolvimento, então usemos a China, porque é este o país o responsável pela quebra da dicotomia que caracterizou os últimos 250 anos de imperialismo ocidental: a dicotomia que existe entre um centro que suga as riquezas de uma periferia que se viu, por isso, bloqueada no seu direito ao desenvolvimento.

Aquilo que o Ocidente, de forma reaccionária, chama de sobrecapacidade industrial consiste na capacidade que a China tem de exportar factores de produção a baixo custo, em transações Sul-Sul, ou periferia-periferia, que não apenas transforma a China num centro exportador de mais-valia produtiva, capaz de contrariar o efeito de sucção produzido pelo neocolonialismo e imperialismo ocidental. Estas realidades demonstram, sobretudo, a decadência relativa do ocidente e o nascimento de uma nova ordem, multipolar, pluricêntrica e baseada em trocas mais vantajosas. Kallas, von der Leyen ou Trump têm razão: a culpa é da China, mas não porque faça algo de mal, e sim pelo que faz de melhor. Ao contrário do Ocidente, a China desenvolveu-se sem colonizar e ocupar ninguém. Daí que o seu sucesso seja ainda mais admirável. E nossa decadência mais inaceitável.

Houvesse “cultura de exigência” e o governo teria de se demitir e já! E com ele, toda esta classe dirigente europeia, que se comporta como um batalhão de CEOs que se limitam a cumprir regras como se fossem algoritmos humanos, incapazes de fazer coisas diferentes, de atacar os problemas, com profundidade e, agora, já nem capazes de discutir são, pois a ferramenta que existia e que o impunha foi arregimentada pelos seus patrões: a comunicação social.

Esperar que Portugal, onde os ricos pagam pelas notas altas dos filhos, fizesse melhor, só poderia ser ilusão!

Países onde não se conseguem consolidar avanços civilizacionais e produzir, em cima dos mesmos, um edifício de desenvolvimento incremental, sem recuos, apenas com incrementos, países que sistematicamente avançam e recuam num processo de destruição constante das conquistas civilizacionais que se vão fazendo são países condenados!


Fontes Consultadas

· OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2025-results-volume-i_73451bc5-en.html

· OCDE — Education at a Glance 2014 (dados citados pelo Observador, 09-09-2014): https://observador.pt/2014/09/09/investimento-por-aluno-portugal-abaixo-da-media-antes-secudario-e-superior/

· Edustat/GEE — “Portugal gasta menos em Educação do que há 20 anos”: https://www.edustat.pt/Infostat/InfostatDetail?ID=14

· Edustat — Taxa de abandono escolar 2025: https://www.edustat.pt/detalhes-infostat?ID=59

· Visão — “Portugal é o país que desinvestiu mais em Educação na última década” (11-09-2014): https://visao.pt/atualidade/economia/2014-09-11-portugal-e-o-pais-que-desinvestiu-mais-em-educacao-na-ultima-decadaf795120/

· RTP — abandono escolar precoce, maior redução (Eurostat, 20-04-2015): https://www.rtp.pt/noticias/mundo/portugal-com-quarta-maior-taxa-de-abandono-escolar-precoce-mas-a-melhorar-eurostat_n821840

· Polígrafo-Sapo — PIB acima da média da UE entre 2016 e 2019 (25-01-2022): https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/pib-de-portugal-cresceu-acima-da-media-da-uniao-europeia-entre-2016-e-2019/

· Público — patrões abandonam concertação social (22-10-2021): https://www.publico.pt/2021/10/22/economia/noticia/patroes-abandonam-concertacao-social-pedem-intervencao-marcelo-1982148

· GEP/MTSSS — “Salário Mínimo Nacional — 45 anos depois”: https://portugal.gov.pt/

· Wikipedia — Nuno Crato (mandato 2011–2015, resultados PISA 2015): https://en.wikipedia.org/wiki/Nuno_Crato

· Entrevista a Nuno Crato — “Chalk & Talk”, ep. 58: https://www.annastokke.com/transcripts/ep-58-transcript

· BCE — Relatório Anual 2019: https://www.ecb.europa.eu/press/annual-reports-financial-statements/annual/html/ar2019~c199d3633e.pt.html

· Assembleia da República — Constituição da República Portuguesa (1976): https://www.parlamento.pt/


Fonte aqui