O vidente de Massamá

(In Blog, O Jumento, 29/08/2016)
DEtector Mentiras

( Cartoon In Blog 77 Colinas, 2/08/2016)

Não deve ser fácil ser líder da oposição sem ter um projecto ou propostas, apostando apenas numa calamidade pública, nas divergências dentro da geringonça ou esperando por uma zanga entre Costa e Marcelo. Passos perdeu quase um ano a digerir a derrota, começou com a pantomina do primeiro-ministro no exílio, a que se seguiu um quase desaparecimento e regressa agora armado em vidente.
Passos está tão convencido que sem si no poder só acontecerão desgraças que se transformou numa espécie de Vidente de Massamá. Passos chegou ao poder graças a uma crise financeira, exerceu esse poder sem limites contando com a chantagem externa e parece apostado em que se repitam essas circunstâncias. O presidente da Comissão Europeia mudou, o BCE mudou de política, o líder do PS mudou, a residência da República mudou, mas Passos recusa-se a mudar, lembrando a senhora que descobriu que o seu rebento era o único com o passo certo na parada do juramento de bandeiras.
Passos não tem qualquer programa e mesmo sabendo que Marcelo nunca lhe permitira governar à margem da Constituição e que um PS liderado por António Costa não alinharia nas suas políticas como sucedeu com Seguro, insiste nas suas soluções extremistas.
Passos parece estar a perder a noção da realidade e o seu discurso começa a assemelhar-.se ao de alguém que bateu com a cabeça nalgum lado. Num dia diz que os investidores só voltarão a Portugal com ele no poder, no outro arma-se em analista de execuções orçamentais e só vê desgraças e até já lhe deu ara fazer adivinhações com dois meses de antecedência.
Em vez de ideias Passos prefere mostrar o estado da sua cabeça e começa a ser óbvio que este ano que passou não lhe fez muito bem, começa a evidenciar sinais de loucura, a perder consciência da realidade. Esta nova versão de Passos, a do Vidente de Massamá não promete nada de bom e até parece que o líder do PSD adivinhou a sua própria desgraça.

TV Guia da culpa da mulher

(Isabel Moreira, in Expresso, 28/08/2016)

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Todos as semanas somos confrontados com capas do correio da manhã e de certas publicações que violam grosseiramente direitos fundamentais. A grosseria com que se invade o direito à vida privada, à intimidade, o direito à imagem, o direito à palavra, o direito ao bom nome, a dignidade pessoal, é hoje desporto sem sanções.

Acorda-se e vê-se na banca dos jornais, com uma insustentável leveza, um amontoado de calúnias e de difamações, bem como uma técnica hostil e destruidora da paz psicológica dos visados, a qual consiste num amontoado de insinuações construídas em simultâneo com um processo judicial em curso.

A violência doméstica é um dos crimes (públicos) que tem merecido mais atenção por parte dos sucessivos governos. Assim é, porque a lei foi aperfeiçoada, as práticas foram aperfeiçoadas, os instrumentos internacionais foram transpostos para a ordem jurídica portuguesa, mas continuamos numa guerra infernal de mortes persistentes todos os anos, bem como um número assustador de sobreviventes a habitarem um processo doloroso conhecido, com feridas emocionais, físicas e sociais.

Esta guerra devia, pensar-se-ia, ser agarrada por todas e por todos. Cada cidadã, cada cidadão, cada instituição, cada órgão de comunicação social, num mundo decente, saberia do seu papel social na sensibilização para o tema, na desconstrução de estereótipos, na mudança do paradigma de uma sociedade patriarcal, sexista e demolidora das mulheres, que continua a provocar, todos os anos, cerca de 40 mortes.

Selvaticamente, acontece o contrário. Por vezes, desistimos de denunciar cada publicação abjeta, porque somos invadidos por um sentimento de impotência, de resto justamente: estamos pasmados a olhar para o horror e nada ouvimos da ERC, da justiça ou do sindicado dos jornalistas.

A Capa da TV Guia de 21 de agosto traz uma fotografia da cara de uma figura pública, Bárbara Guimarães, uma mulher, como se sabe, mãe de dois filhos, que fez queixa de ter sido vítima de violência doméstica.

O seu ex-marido foi acusado e a justiça deve fazer o seu caminho, não me passando pela cabeça, naturalmente, antecipar-me ao resultado do julgamento.

O ponto é outro. A capa traz esta frase a letras gordas vermelhas e amarelas em modo de pré-terramoto: “Bárbara em noites loucas com os filhos”. A narrativa começa com uma mentira descarada: Bárbara Guimarães é ré.

Há fotos com o apontamento no canto da hora a que cada uma foi tirada, sim, fotos com Bárbara Guimarães e a filha num restaurante de uma praia do Algarve onde se percebe (embora tentem esconder) que há um grupo de amigos a assistir a um evento musical exclusivo para estes.

“Bárbara não se priva de álcool e de diversão”, nas tais das noites loucas. A mãe, imagine-se, a mulher que devia estar em casa e que devia saber que se deita os filhos às 21h da noite “não se priva” de “álcool”, nem de “diversão”, ela que está a viver o que se sabe, a louca, deduz-se.

Pior: induz-se um nexo de causalidade quando lemos este horror e o que se segue relativo a “a não resistir a noites quentes e animadas e serões regados a álcool”, “com a filha”, esta, a “menina cansada”. O nexo causal é simples: Bárbara Guimarães é má mãe (pronto, já está) e as suas alegações não são credíveis ou não estaria a divertir-se, não é? É a mulher que não resiste, que não se priva, todo um vocabulário.

Afinal, a TV Guia está todos os dias de olhos postos na alegada vítima e observa que em mais de 3 anos Bárbara Guimarães não ficou sempre fechada em casa e foi, nas palavras da grandiosa publicação, “apanhada”.

O nexo causal é simples para estes bandidos vendedores de papel: Bárbara Guimarães vai à praia todo o dia com a filha, de noite ficou para um evento “sempre de copo numa mão e de cigarro numa outra”, ao mesmo tempo que a filha pedia para ir para casa (a TV Guia ouviu, claro), logo é má mãe, logo as suas aptidões para ser mãe são duvidosas, logo a sua credibilidade deve ser posta em causa, logo encher esta reportagem com a “memória” do acordo de regulação do poder parental feito entre os pais das crianças em questão.

Já chega?

Não.

Falta o corpo. A TV Guia trata de “apanhar”, também, o corpo de Bárbara Guimarães. Fotos de um ser humano na praia, com os seus direitos espatifados, seguidas do escrutínio: “de biquíni e sem problemas em mostrar o seu corpo. Bárbara mostrou um corpo que surpreendeu quem está habituado a ver em excelente forma física”.

A TV Guia tem a resposta. Bárbara afirmou que perdeu muito peso desde o início do processo conhecido e agora tem uma “barriga saliente”, “pernas magras demais” e “pele envelhecida”.

Porquê?

“Provavelmente culpa da quantidade de cigarros que fuma ao longo do dia”, lê-se.

Culpa.

É isto.

Não sei quantos homens acusados de violência doméstica ou que tenham feito queixa deste crime, e a mãos com um acordo de regulação do poder parental, foram capa de sucessivas publicações à conta da expressão do seu rosto, do aumento de gordura da sua zona abdominal, da quantidade de cigarros que funam, das horas a que se deitam, dos dias em que se atrevem a sair com amigos e com os seus filhos, da sua roupa, do grau de envelhecimento da sua pele, das namoradas que têm ou que não têm.

Sei: zero.

E deve ser assim.

Mas vivemos no esgoto do duplo-padrão, em que uma mulher que apresenta queixa é atirada aos lobos, muitos deles femininos, como a mulher que assina esta peça da TV Guia. Para os lobos vão também as crianças, exploradas de publicação em publicação, ficando tudo registado, crianças que hoje saberão do que estão a fazer com elas e que amanhã poderão ver o histórico do que fizeram com elas.

Uma publicação como esta – que se junta a centenas sobre o caso – deve ser objeto de reflexão coletiva, porque não está apenas em causa o nome de uma mulher e os direitos daquelas crianças.

Está em causa a substância: esse duplo-padrão. Está em causa o modelo de sociedade em que queremos viver. Está em causa sermos ou não cúmplices com uma cidade que toma por arrogância uma mulher falar, que reduz as mulheres ao seu papel, o do silêncio, que expressa por múltiplos meios, como no exemplo dado neste artigo, que uma mulher não pode estar no espaço público com a mesma liberdade de um homem.

Está em causa sermos ou não cúmplices com uma história documentada e feroz de descredibilização do discurso feminino, está em causa olhar para uma mulher em tribunal e recordarmo-nos de todos os casos monstruosos em que a coragem de algumas não venceu a violência para silenciar o histerismo da espécie.

Está em causa não ser cúmplice com quem transforma o direito de viver e de aparecer em furo para dar cabo de uma pessoa apenas e só porque essa pessoa é uma mulher.

Isto é connosco.

Bons costumes

(Daniel Oliveira, in Expresso, 27/08/2016)

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                       Daniel Oliveira

Com aplauso do governo de Paris, várias cidades balneares francesas proibiram a utilização de burkinis na praia, medida entretanto suspensa, em algumas localidades, pela mais alta instância da justiça administrativa francesa. Apesar do nome, os burquínis tampam o corpo e o cabelo, deixando o rosto visível. Vi-os quando estive em praias turcas. Lá, ninguém incomodou a mulher que, ao meu lado, usava biquíni. Gostava que em França acontecesse o mesmo, no sentido inverso. “O acesso à praia será banido a todos os que não tiverem roupa de banho adequada que respeite os bons costumes e o secularismo”, lê-se no comunicado do presidente da Câmara de Cannes.

Dantes o Estado achava que as mulheres sérias se deviam tapar, hoje acha que se devem destapar. Sempre em nome dos “bons costumes”. A ministra da igualdade francesa diz que tapar o corpo é uma forma de controlo sobre a mulher. E o Estado decretar que ela tem de o destapar é o quê?

A questão não é se gosto do que representa o burquíni, porque não gosto. É onde acaba o direito de o Estado determinar uma coisa tão pessoal como a roupa que cada individuo usa, seja qual for a sua religião. A defesa da liberdade das mulheres não determina que estas prefiram o biquíni ao burquíni. Determina que elas se vistam e se dispam como e quando querem, sem receberem ordens de maridos ou de polícias. As dos segundos não são mais libertadoras do que as dos primeiros.

Quando polícias obrigam uma mulher a despir-se na praia e os veraneantes que assistem aplaudem e lhe gritam “vai para casa” a França tem de olhar com medo para o caminho perigoso que está a trilhar. Quando as vendas de burquínis aumentam depois desta proibição deve compreender a inutilidade da medida. Viver em sociedade é difícil. Não podemos transformar cada gesto do outro numa insuportável ofensa para os nossos valores. Mesmo quando os valores dos outros nos incomodam. Sim, para grande parte dos muçulmanos, como para muitos católicos e para a maioria dos hindus ou dos judeus ortodoxos, as mulheres mantêm uma posição subalterna na sociedade e até acontece muitas delas defenderem a sua própria subordinação. Ao contrário dos que querem rasgar os burquínis em nome de um feminismo onde nunca militaram, sei que a autodeterminação das mulheres se faz garantindo-lhes instrumentos para exercerem a sua liberdade: trabalho, independência económica, planeamento familiar, direito a decidir sobre a sua gravidez e proteção judicial contra o abuso e a discriminação. O Estado obrigar uma mulher a vestir-se ou a despir-se em nome dos “bons costumes” é o oposto da autodeterminação. Até porque pode haver mulheres que querem mesmo usar o burquíni.

Não podemos ignorar a situação em França: isto coincide com uma crescente tentação totalitária, que se manifesta num estado de emergência eterno, na limitação ao direito de manifestação e na aprovação de leis fundamentais, como a laboral, por decreto. E coincide, como tem sido deixado claro por todos, com o sentimento de medo e revolta depois do Bataclan e de Nice. Na realidade, não se quer destapar os corpos das muçulmanas, quer-se tornar invisível a insuportável presença dos muçulmanos. Podemos continuar entretidos a discutir indumentária feminina. Mas todos sabemos que o debate é outro. E que à sua sombra se vai legitimando a intolerância e o autoritarismo. Sempre em nome da segurança e dos bons costumes, claro.

Aumentar taxas de juro é fácil

(Paul De Grawe, in Expresso, 27/08/2016)

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                       Paul de Grawe

Não vejo razão para que o Governo português tenha de pagar mais pela dívida do que o italiano. Os mercados guiam-se por humores e gostos politicos.

As taxas de juro na Europa e nos Estados Unidos continuaram a sua tendência de baixa durante o verão. As taxas a dez anos das obrigações do tesouro alemãs e suíças são agora negativas (-0,09% e -0,5% respetivamente). Isto implica que os investidores pagam de facto aos governos suíço e alemão pelo privilégio de deterem os seus títulos. Noutros países europeus as taxas de obrigações a dez anos ainda não são negativas mas estão próximas do zero. Na maioria destes países as taxas colocaram-se abaixo do 1%. Exceções são a Itália (1,1%), Portugal (3,07%) e a Grécia (8,15%). Porque é que as taxas de Portugal estão tão altas (comparadas com as dos outros países, não numa perspetiva histórica)? Para mim é um mistério. Não vejo razão nenhuma para que o Governo português tenha de pagar mais do que o italiano. Por vezes, os mercados financeiros baseiam as suas análises em sentimentos, humores e gostos (políticos), não em fundamentos económicos.

A razão fundamental por que as taxas de juro baixaram tanto na Europa e nos Estados Unidos é hoje bem conhecida. Tem tudo que ver com o chamado excesso de poupança. O montante total das poupanças das famílias, empresas e governos é muito maior do que o montante que estas famílias, empresas e governos estão dispostos a investir. A razão por que tanta gente quer poupar tanto e por que tão poucos estão com vontade de investir é a mesma: falta de confiança no futuro. Esta falta de confiança empurra muitos para a poupança e impede-os de investirem. Um círculo vicioso.

O resultado tem duas facetas. Primeiro, as taxas de juro caem. Enquanto houver excesso de poupança relativamente ao investimento, a taxa de juro irá continuar a descer. Segundo, o excesso de poupança também implica que há procura insuficiente de bens e serviços. Isto faz pressão para baixo na inflação. Esta tem andado à volta dos zero por cento já há algum tempo na zona euro. Como resultado, tudo gira em torno do zero, a taxa de inflação, a taxa nominal e a taxa real de juro (a qual é a diferença entre a taxa nominal e a taxa de inflação). Zero não é um equilíbrio muito atraente.

Qual é o papel do banco central nesta história? Há uma conceção errada muito vulgarizada de que as políticas dos bancos centrais são a causa na raiz das baixas taxas de juro. Mas não é o caso. É verdade que os bancos centrais têm comprado ultimamente muita dívida e inundaram o mercado com dinheiro. Isto acrescentou-se à tendência de descida das taxas de juro. Ao fazê-lo, no entanto, os bancos centrais tentam aumentar a procura geral de bens e serviços para no final aumentarem a inflação e as taxas de juro. Assim, o que os bancos centrais estão a tentar fazer é baixar as taxas de juro temporariamente ainda mais de forma a estimular a economia. Isto deveria pôr de novo a inflação e as taxas de juro num caminho ascendente.

Os bancos centrais, porém, acham que é difícil alcançar isto. A razão é que por si só os bancos centrais não podem absorver o excesso de poupança. Como argumentei atrás, este excesso resulta de uma falta de confiança no futuro que leva as pessoas a pouparem demasiado e investirem de menos. Enfiar dinheiro pela goela destas pessoas não fará com que invistam mais e poupem menos.

Os bancos centrais não podem absorver o excesso de poupança. O problema só pode ser ultrapassado pelos governos

O problema só pode ser ultrapassado por alguém que tome as rédeas. As famílias e as empresas não o farão facilmente. Só pode vir dos governos. Estes podem aumentar o investimento público. Ao fazê-lo podem virar o excesso de poupança de pernas para o ar e transformá-lo num excesso de investimento que aumentará as taxas de juro. É realmente fácil.

Porque é que os governos europeus, especialmente aqueles que podem contrair dívida gratuitamente (ou até sendo pagos por isso), não aumentam o investimento público mantém-se um quebra-cabeças. Só pode ser explicado por um dogma errado de raiz, segundo o qual os governos não devem aumentar a sua dívida, mesmo que isso possa ser feito de graça.

Os futuros historiadores da economia não vão acreditar quando olharem para o presente episódio. Não vão compreender porque fomos tão estúpidos que não aumentámos o investimento público quando a necessidade de o fazer era tão grande e as condições financeiras tão favoráveis.


(Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica)

Mais críticos, mais chatos e com mais lata

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 26/08/2016)

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 João Quadros

Chegaram ao fim os Jogos Olímpicos do Rio e começaram as críticas dos desportistas de sofá à prestação dos nossos atletas. Um clássico.

Num país onde há tanta gente nos supermercados em fato de treino, custa a aceitar resultados tão fracos. Veja-se Cuba, tem um ditador reformado que anda de fato de treino o dia inteiro, mas teve 11 medalhas. Segundo fontes, que eu inventei (não pode ser só o Marques Mendes), ficámos em quarto lugar dos países onde a prestação dos seus atletas olímpicos é mais criticada. Ou seja, nem a dizer mal chegámos à medalha. Esperava mais destes críticos.

É natural que certas pessoas sintam que ficámos aquém das expectativas.

Não nos podemos esquecer de que somos um país habituado a ter gente a ganhar medalhas, como por exemplo, o Ricciardi, o Mexia e o Zeinal Bava (melhor banqueiro da Europa, melhor gestor da Europa, do mundo, etc). Depois de termos gasto 20 mil milhões de euros com banqueiros de topo, 17 milhões, em quatro anos, para atletas olímpicos, são luxos a que não nos podemos dar.

Desta vez, até o ladino João Miguel Tavares teve a distinta lata de se vir queixar do “choradinho olímpico” e do que gastámos (segundo o CM) com aquela malta, exactamente na mesma página onde já choramingou pelos direitos de autor que o fisco lhe cobrava e na coluna onde defendeu as escolas privadas com natação e cavalos pagos por nós. Pessoalmente, prefiro pagar a canoa do Pimenta que a “dressage” do Martin. Infelizmente, os nossos atletas olímpicos, depois de quatro anos fracassados, ao contrário dos heróis do João Miguel Tavares, não são convidados para uma Arrow Global ou para um Goldman Sachs.

Na realidade, os atletas portugueses são gente com tão pouco espírito competitivo que nem com “doping” são apanhados. A única coisa que tomam é um copo de bagaço para ganhar coragem e ir pedir dinheiro aos pais para poderem ir aos jogos. Percebo a indignação do JMT e companhia, porque a maioria dos portugueses, que se queixa dos falhanços nos jogos olímpicos do Rio, são gente que há quatro anos acorda mais cedo para saber como estão a correr os treinos da canoagem, da natação, do judo, etc.

Confesso que também estou farto do choro pós-olímpico, mais concretamente dos choramingas que, de quatro em quatro anos, se queixam que Portugal não trouxe medalhas. Aposto que se um daqueles atletas, de repente, saca uma medalha com um golo à Ederzito, vão a correr fazer um site para pedir desculpas.

Aos que se sentem mais desgostosos com a nossa competitividade olímpica, deixo um conselho, podem sempre doar 0,5% do vosso pagamento de IRS a instituições, e há várias dedicadas ao desenvolvimento desportivo de jovens. Mas, se calhar, dá uma trabalheira ter de preencher o quadro 9 do anexo H do IRS. Não compensa, prefiro queixar-me. Na minha moderada opinião, estou a calmantes, é imoral exigir seja o que for de quem desprezámos durante quatro anos.


top 5
Medalhados Olímpicos
1. “BCE obriga três dos novos administradores da CGD a frequentar um curso de 8 dias” – Se for de primeiros- -socorros, acho fundamental.
2. “Cristas em sessão fotográfica com vestido com kiwis” – Já não é a primeira vez. Já apareceu com um só com pêras. Estou desconfiado de que Cristas tem um caso com um administrador da Compal.
3. PSD promete continuar aproximação institucional ao MPLA – a nova PàF.
4. Foto com mulher árabe obrigada a despir-se pela polícia, numa praia de Nice, provoca polémica – A lei do: tira, tira, tira!
5. “Só há 211 desempregados a limpar florestas” – E a administração da Caixa com tanta gente.
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Memória dos que não sobram

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 26/08/2016)

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Baptista Bastos

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino.


Durão Barroso, Maria Luís Albuquerque, Paulo Portas, Vítor Gaspar, Carlos Moedas, outros mais, serviram quem entenderam dever servir, e foram à vida. Quero dizer: ajeitaram melhor o seu pessoal caminho. Maria Luís ainda aguarda. Aguarda a subida ao poder, depois de Pedro Passos Coelho ser abalroado. O cenário é perturbador. No Pontal, o dirigente máximo do PSD pareceu uma careta de si mesmo. Acentuaram-se-lhe, por moto próprio, os gestos, o sorriso bisonho, o discurso paralelo à ofensa dos outros, e aquele ar de triunfo obrigatório que parece ser um tique nervoso de quem comanda à Direita.

Todos estes acontecimentos são deploráveis pelo que revelam de ócio mentiroso. Quando do 25 de Abril, as pessoas, na generalidade cansadas do fascismo beato, irmanaram-se para proceder a uma alteração histórica nos destinos da pátria. Foi quando a revolução desceu à rua, e aqueles que a não assistiram perderam um dos momentos cruciais da história pátria. Houve democratas instantâneos como o pudim flan, e outros, atemorizados com o desenrolar as coisas, que fugiram para o Brasil, lá permaneceram até que a poeira deixou de estremecer as consciências e tudo voltou quase à mesma.

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino. Durão Barroso é um desses triunfadores de algibeira. O destino social e político deste homem segue, paralelo, o destino da pátria, sempre sacudida por atenções momentâneas de pessoas sempre prontas a virar o casaco e a fazer melhor vida pessoal. Não me detenho muito nestes casos passionais, mais próprios do momento e da inexistência de carácter. Sei muito bem que os que ficam são tidos como marginais, gente antiga e fora do contexto. E, acaso, todas estas acusações sejam verdadeiras. Mas vejo essa população ainda imensa, que se sujeitou a acreditar nos sonhos, e sinto que ela tem a razão que alimenta a vida e constrói os ideais possíveis.

É lógico que as coisas mudaram, e mudam substancialmente cada dia que passa. E sei que, para muita gente, é difícil adaptar-se a estas normas novas, recuperadas de tradições antigas. Com certa emoção (confesso), sigo as travessias, os gritos e ainda as esperanças desses meus compatriotas. No contexto político mais alargado de todo o mundo, essa gente ainda é aquilo que resta, o que sobra do que ficou dos sonhos antigos. E todos nós sobrevivemos.

Proposta de proibição do Verão para os políticos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 26/08/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

Mas o que é que deu a vários políticos no activo que quando chega o Verão perdem o juízo todo? Eu sei que o sol tem estado muito forte, e a canícula é grande, mas todos são gente com dinheiro para se protegerem, estarem repousados no ar condicionado, usarem bons chapéus e porem cremes no corpo. Mas não, passam-se da cabeça e do corpo e é um estendal pouco dignificante nas revistas do “coração”, que, pelo menos uma vez por ano, não têm como matéria prima apenas as estrelinhas das telenovelas e os famosos porque são “famosos” e têm gente que, todos esperamos, sabem o que fazem. Às vezes duvido.

Podem dizer, e esse é também o argumento comercial e interesseiro das revistas e dos fotógrafos que vendem as férias dos “famosos”, que não havendo nada a esconder, tudo se pode mostrar. Mas mostrar e exibir são duas coisas diferentes. Não são fotos de paparazzi tiradas às escondidas, mas exposições e poses consentidas e certamente negociadas, feitas voluntariamente num exibicionismo insensato, para não dizer outra coisa.

Vejamos dois exemplos: o que leva o nosso Presidente da República, que eu pensava mais comedido nestas matérias, a exibir a sua praia em companhia, numa companhia que, aliás, sempre se tinha pautado pela reserva e ainda bem? O outro exemplo é o de Assunção Cristas que se mostra para a fotografia com um vestido curto com kiwis (Nossa Senhora do Gosto alumiai-nos a todos!) e noutra série de fotos combinadas com os calções que antes se chamavam hot pants e o hot estava lá por alguma razão.

É-me indiferente que o Presidente queira aparecer de “namorado” ou que a líder do CDS tenha resolvido ser sexy, estão no seu direito de ter as ilusões que quiserem. Mas não me venham depois dar lições de moral do comedimento, de moral da reserva, ou da moral que deve assistir a adolescentes e adultos na defesa da privacidade, sua e dos seus.

O exemplo que estas pessoas com responsabilidade estão a dar conflui num grave problema dos nossos tempos: a contínua erosão do valor da privacidade, da reserva, e mesmo do bom gosto. Quando nós assistimos a uma geração de adolescentes que usa e abusa das fotografias provocatórias nas redes sociais, de que só mais tarde amargamente se arrepende, vemos agora estes adultos a fazer algo que não é muito diferente. O mal disto é que se gera uma cultura de exibição que torna mais difícil para quem não a deseja, ou mesmo a abomina, poder resistir, dizer que não, que não quer ser fotografado, que não quer ver cada passo seu escrutinado no Twitter e que, acima de tudo, não tem que dar nenhuma satisfação a ninguém de por que razão quer que permaneça intacta a sua reserva de intimidade e privacidade.

Ah! e outra coisa: ainda estou para ver alguém que não venha a arrepender-se destas exibições, ou porque, com o tempo, deixou de gostar de se ver “exibida”, ou porque tem razões para não querer ver a sua vida tão devassada como no passado. Foram precisos 200 anos de “civilização burguesa” para criar as condições económicas da privacidade e mais de 200 anos para se perceber o valor de não se viver numa “aldeia global”, onde todos sabem tudo sobre todos e a liberdade é menor. Liberdade, meus senhores e senhoras.


O fascínio pelo MPLA, a outra maneira de falar do fascínio pelo dinheiro
Que Portas, que está vendido a tudo o que pague, se tenha dedicado a assegurar o sucesso do Congresso do partido que governa Angola em ditadura, a gente hoje já o percebeu. Mas a surpresa veio agora do CDS que, apesar dos muitos desmentidos pouco convictos, deu um claro aval à ditadura de José Eduardo dos Santos, o homem dos 99% dos votos. Imagino como devem estar entalados os propagandistas do CDS que pululam pelos blogues de direita e que agora elogiam um partido comunista reciclado, uma elite corrupta até à medula, e que, ainda recentemente, mostrou o que era na perseguição a Luaty e aos seus companheiros. Ainda não perceberam o que são más companhias, mas agora têm uma.

Como o governo salvou a Caixa sem se salvar a si

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 25/08/2016)

Autor

                    Pedro Santos Guerreiro

O Governo fez o caminho todo errado para chegar ao destino certo. O mais importante na Caixa nunca foi a nomeação da administração, mas convencer Bruxelas a não impor uma ajuda Estado, o que teria consequências dramáticas sobre todo o sistema financeiro. O PS perdeu a oportunidade de capitalizar-se a si próprio com a vitória política de hoje. E o PSD devia estar calado sobre este assunto, que ele próprio deixou causar por inércia e medo.

Os administradores chumbados foram os bobos da corte e o assunto tornou-se o bombo dos cortes e costura. Com razão: o processo de nomeação da administração envergonhou todos os envolvidos, começando e acabando no governo, que para mais reagiu de forma patética. A Caixa precisa de uma boa administração e de um sistema de governo que a proteja do capcioso poder político e da soberba de uma comissão executiva demasiado convencida consigo própria. Correu tudo mal no processo de nomeação da administração. Mesmo que a comissão executiva tenha prevalecido, apesar do vexame de ser mandada estudar. E mesmo que, pela primeira vez em décadas, a equipa agora conhecida não seja contaminada por representantes de partidos políticos.

Mas o que esteve sempre em causa na Caixa Geral de Depósitos era um problema infinitamente maior. A necessidade de capitalização. De injeção de dinheiro fresco, conversão de dívida do Estado em capital e emissão de obrigações para financiar a sua reestruturação. Uma enormidade de dinheiro, que totaliza 4,6 mil milhões (dos quais 2,7 mil milhões em dinheiro fresco). Estava nas mãos da Comissão Europeia autorizá-lo. Ou não.

Não é, nunca foi, uma questão de semântica. Ser ou não ser considerado ajuda de Estado teria consequências completamente diferentes e avassaladoras. Se a Direção Geral de Concorrência tivesse obrigado a considerar a injeção de capital como ajuda de Estado, duas coisas aconteceriam: o valor seria considerado no défice do Estado e lá iam as contas públicas este ano para ar; e, sobretudo, teria de haver “bail in” na Caixa.

Sim, leu bem. A Caixa Geral de Depósitos, banco do Estado, o maior banco português, esteve durante os últimos meses sob ameaça de “bail in”. Na prática, isso significaria que antes do dinheiro do Estado entrar, credores privados perderiam o seu.

Se a Direção Geral de Concorrência tivesse obrigado a considerar a injeção de capital como ajuda de Estado, duas coisas aconteceriam: o valor seria considerado no défice e lá se iam as contas públicas este ano; e teria de haver “bail in” na Caixa.

Dados os montantes em causa, os grandes depositantes não seriam chamados a perder dinheiro, mas os obrigacionistas sim. Incluindo muitos detentores de obrigações de retalho. Ou seja, pequenos investidores.

As consequências sobre as contas públicas, sobre a reputação dessa “caixa forte” que é a CGD e sobre todos os bancos nacionais seriam gravíssimas. Os mercados aumentariam os custos de financiamento de todos os bancos, a possibilidade de aumentos de capital noutros bancos (como o BCP e o Novo Banco, que deles precisam) seria dificultada, muitos obrigacionistas perderiam dinheiro e a inexpugnabilidade da Caixa, último reduto na percepção pública de banco seguro, ruiria.

Foi isto que o governo conseguiu e que se confirmou hoje: a injeção de capital pode ser feita sem ser considerada ajuda de Estado. Depois da vitória de António Costa nas sanções, a vitória de António Costa na Caixa. Ambas em Bruxelas. Ambas contra o fatalismo preconizado por Passos. Costa matou duas vezes Coelho com uma cajadada. E Marcelo Rebelo de Sousa, que anunciou o seu empenho na “questão da banca” desde o seu primeiro discurso, também. A vitória política é de ambos.

A situação calamitosa da Caixa Geral de Depósitos resulta do adiamento sucessivo do problema, que o anterior governo caucionou. O grande mérito de Passos no caso BES resultou, paradoxalmente, no grande demérito no Banif, no Novo Banco e na Caixa. Porque em todos estes casos fez o mesmo: nada. Fazer nada no BES significou não ceder ao poderoso lóbi de Ricardo Salgado e essa é uma coroa de louros que ninguém no governo antes de Passos Coelho pode reclamar. Fazer nada no Banif foi uma vergonha perdulária, como é uma vergonha despesista termos de capitalizar a Caixa num enorme balúrdio. Felizmente, sem “bail in”. Foi essa a vitória do governo PS que António Costa não consegue aproveitar, porque de tanto amadorismo em querer festejar com foguetes para o ar acabou por virar os tiros todos para os seus próprios pés. Mas hoje safámo-nos de boa. Provavelmente, nem nunca saberemos bem de quão “boa” era. Ainda bem.

Pecadilhos dos nossos bispos

(Blog O Jumento, 23/08/2016)

bispos

«2240. A submissão à autoridade e a corresponsabilidade pelo bem comum exigem moralmente o pagamento dos impostos, o exercício do direito de voto, a defesa do país:

«Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto, a quem se deve o imposto; a taxa, a quem se deve a taxa; o respeito, a quem se deve o respeito; a honra, a quem se deve a honra» (Rm 13, 7).» [Catecismo da IgrejaCatólica]

Não faz muito sentido que em pleno século XXI as relações entre dois Estados, Portugal e o Vaticano, seja regida por uma concordata, como se o papa não abdicasse dos seus poderes medievais. Sendo Portugal um Estado de direito onde a Constituição protege os interesses dos cidadãos, assegurando-lhes total liberdade religiosa e onde as diversas confissões religiosas são reconhecidas, não faz sentido a existência de uma Concordata.

Mas não deixa de ser curioso que os bispos portugueses, quando se sentiram incomodados pelo fisco, em vez de reagirem baseando as suas queixas nos direitos que decorrem da lei portuguesa, lei que está em conformidade com todos os acordos e convenções internacionais, optaram por invocar a Concordata, como se fosse directores locais de uma multinacional com direitos especiais sobre o mercado português.

Todos os dias o fisco adopta decisões em relação a empresas e cidadãos nacionais ou estabelecidos em Portugal e quando estes se sentem lesados recorrem aos mecanismos legais. Mas os nossos bispos preferiram recorrer às protecção medieval do Vaticano e vieram para a comunicação social berrar contra o Estado português, só faltou discursarem em latim como se sentissem mal com a legislação nacional.

Compreende-se que ao longo de séculos de privilégios a Igreja Católica, os seus padres e os seus bispos se tenham habituado a estar um pouco à margem das leis que se aplicam à plebe. O problema é que os tempos são outros e os negócios da Igreja estão sujeitos às regras que se aplicam a todos os cidadãos e apenas se lamenta que ainda circule muito dinheiro na Igreja sem que esteja sujeito a qualquer controlo ou registo contabilístico como sucede com qualquer empresa.

Mas como ´de evasão fiscal que estamos falando é pena que os padres e bispos se tenham  esquecido do seu próprio catecismo, que na última versão considera pecado o não pagamento dos impostos devidos ao Estado. Enfim, em Portugal sê romano, católico e apostólico.

O jornalismo tem razões para se arrepender todos os dias

(José Vítor Malheiros, in Público, 23/08/2016)

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     José Vítor Malheiros

Imaginem que o jornal online Observador, em vez de ser um órgão de propaganda da direita neoliberal, criado e financiado por empresários conservadores empenhados em impor na esfera política e em defender no espaço público uma agenda de privatização de serviços públicos, desregulação económica, liberalização do mercado de trabalho, destruição de direitos sociais e demonização do Estado, fosse um projecto criado e financiado por pessoas ligadas à esquerda, empenhadas em difundir um ideário de combate às desigualdades e à injustiça social e em noticiar a actualidade a partir de um ponto de vista socialmente empenhado e intelectualmente independente dos poderes vigentes.

É evidente que, nessas circunstâncias, não veríamos um elemento do Observador a ocupar um lugar cativo nos painéis de comentadores da RTP e, se por acaso esse jornal fosse alguma vez citado por outros órgãos de comunicação social, seria identificado como “o jornal de esquerda Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da esquerda radical” e os jornalistas que assim o identificassem considerariam estar a fazer uma descrição não só objectiva mas necessária da fonte em causa.

Porque é que isso não acontece, simetricamente, e pelas mesmas razões, com o actual jornal Observador e porque é que este não é sempre apresentado como “o jornal de direita Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da direita radical”?

Isso acontece devido à hegemonia do pensamento conservador que considera “normal” que se seja de direita, e portanto não digno de ser sublinhado ou sequer referido, e “anormal” que se seja progressista, e portanto exigindo referência que sublinhe esse “desvio”. Para este pensamento hegemónico, ser de direita não é ser nada porque essa é a posição “natural”, enquanto ser de esquerda é ser algo “não natural”. Era precisamente pela mesma razão que, durante o Estado Novo, os apoiantes de Salazar “não faziam política”, por muito radicais que fossem nesse apoio em todas as facetas da sua vida, e os oposicionistas eram considerados “políticos”.

É evidente que os jornalistas, de direita ou de esquerda, sabem que é tão marcadamente ideológico ser de direita como de esquerda, mas por que razão sublinham então uma coisa e passam a outra em branco? Em certos casos, por mimetismo irracional. Muitos querem apenas to blend in e seguem a onda, imitam os colegas, as revistas, os famosos, os gurus que aparecem nos media – e estes são esmagadoramente de direita mesmo quando “não falam de política”. Noutros casos, por mimetismo premeditado. Querem apenas passar despercebidos e não pôr em risco o seu posto de trabalho. Noutros casos por cálculo. Querem fazer carreira, seja onde for, e aprenderam na escola de antijornalismo por onde andaram que a adulação funciona e que não se pisam os calos dos poderosos. Noutros caso por medo. A direita conservadora está no poder e tem o dinheiro, a força e muito da lei do seu lado. Noutros casos, devido ao ritmo industrial de produção imposto na maior parte das redacções, que obriga a aproveitar a informação primária tal como chega de algum centro de poder e a republicá-la sem tempo para a editar, reconstruir, verificar seja o que for ou sequer pensar. Noutros casos por pura distracção, porque o vento reaccionário é tão constante que se torna hipnótico. Noutros casos ainda, uma minoria, por consciente adesão a um modelo ideológico que se pretende reproduzir.

Estas circunstâncias têm todas algo em comum. São todas contrárias à deontologia que rege o jornalismo, que obriga a uma total independência dos poderes e à adopção de uma atitude de equidade e saudável cepticismo em relação à informação recebida das fontes, oficiais ou não.

Seja qual for a razão em cada caso particular, é por isso que continuamos a ver os noticiários cheios de citações nunca contraditadas de Pedro Passos Coelho, diga este as inanidades que disser no seu escasso léxico e por frágil que seja a sua situação política no interior do partido, e é por isso que qualquer pergunta a um político de esquerda está sempre dedicada a tentar encontrar brechas no entendimento parlamentar à esquerda, mesmo quando elas têm de ser inventadas por uma edição imaginativa.

Porquê? Porque é preciso sublinhar, em cada momento, a contranaturalidade de um governo apoiado pela esquerda. Pensamento hegemónico da direita dixit. É também por isso que os pivots fazem uma careta quando dizem o nome de um dirigente do PCP mas não quando dizem o nome de um dirigente do PSD, numa demonstração de sectarismo que pode ser inconsciente, mas não é por isso menos sectária. É por isso que, numa entrevista de Catarina Martins publicada neste jornal, tem de ser colocada em título uma frase que dá a ideia contrária ao pensamento expresso pela entrevistada (dando a impressão de que, se fosse hoje, o BE não assinaria o acordo com o PS) mas que é conforme ao ar do tempo, sempre hegemónico, da direita.