O EIXO DO BEM – Produção Made in Portugal

(Luís Ochoa, in Facebook, 29/07/2026, Revisão da Estátua)


E quando tudo falha, resta-nos isto.


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E eu que já estava tão farto de ouvir Made in China!

Porque há países que produzem automóveis. Outros produzem petróleo. A Suíça, por exemplo, produz relógios, a Bélgica, chocolates. A Alemanha produz máquinas, a França produz vinho, queijo e revoluções ocasionais. A Itália produz beleza e estética, os Países Baixos, flores. Os Estados Unidos, tecnologia, o Japão produz precisão e a China produz praticamente tudo. Produz aço, navios, automóveis elétricos e objetos cuja utilidade só descobriremos dentro de três anos. Só não produz é comentadores. Isso é coisa cá para os nossos lados. Sim, Portugal produz, e em grande escala, comentadores. 

Não é uma produção qualquer. É uma produção intensiva. Quase industrial. Enquanto outras nações extraem minerais do subsolo, nós extraímos conclusões a todas as horas do dia e da noite.

É uma especialização económica como qualquer outra e, como todas as especializações nacionais, nasceu de uma adaptação inteligente aos recursos disponíveis.

A Suíça tem montanhas. A Arábia Saudita tem petróleo. Nós temos opiniões. E quem tem opiniões tem “opinadores”. E fazemos deste recurso a nossa melhor indústria.

Não falo apenas dos comentadores profissionais. Bem sei que estes são criaturas magníficas que surgem nas televisões ao cair da noite para explicar aos portugueses aquilo que os portugueses acabaram de ver com os próprios olhos. Refiro-me também a um fenómeno mais profundo. Mais civilizacional. Mais português. A produção nacional de explicadores.

Porque, e observando atentamente o país, percebe-se que já não existem acontecimentos. Existem apenas pretextos para interpretar. Um incêndio não arde. É analisado. Uma greve não acontece. É enquadrada. Uma eleição não produz resultados. Produz leituras. Até a chuva perdeu a simplicidade antiga de cair do céu. Hoje precipita-se sob a forma de narrativa.

Antigamente, quando uma árvore tombava numa floresta, colocava-se a questão filosófica de saber se produzia som. Hoje colocamos uma questão mais sofisticada: quem será o primeiro a comentar a queda? A isto chama-se progresso. Os gregos inventaram a democracia. Os romanos inventaram o direito. Portugal inventou a mesa-redonda permanente.

A nossa verdadeira instituição nacional já não é o Parlamento. É o painel. E como eu gosto tanto de ver todos aqueles paineleiros ordenadamente em posição de ataque. Não, não, não. Paineleiros não são aqueles que montam painéis, mas aqueles que fazem parte do painel. E o painel é uma criação genial.

Reúne quatro pessoas visionárias que discordam em absoluto umas das outras para explicarem, durante uma hora, que a realidade confirma precisamente aquilo que cada uma delas pensava antes dos factos acontecerem.

Isto é uma forma superior de conhecimento. Aristóteles acreditava que a observação devia preceder as conclusões. Nós ultrapassámos essa fase primitiva. As conclusões já vêm prontas de fábrica. Os acontecimentos limitam-se a confirmar a encomenda.

Mas que eficiência notável! Não é isto tudo verdade? Ainda bem! (Às vezes lá vem o Pe. António Vieira visitar a minha memória).

Imagine-se a perda de tempo que seria esperar pelos factos. Os factos são lentos. As convicções são imediatas. E vivemos numa época que valoriza a produtividade. Talvez por isso o comentador tenha substituído o antigo intelectual. O intelectual possuía dúvidas. O comentador possui certezas antes de qualquer dúvida. O intelectual passava anos a estudar um assunto. O comentador dispõe de sete minutos e meio após o intervalo publicitário. É muito mais moderno. Muito mais competitivo. Muito mais adaptado às exigências do mercado.

Nietzsche passou décadas a refletir sobre a moral europeia. Hoje um painel consegue resolver a questão durante a pausa para o café. Isto é evolução pura.

E nem sequer é necessário conhecer profundamente os temas abordados. Essa é práxis antiga. O comentador contemporâneo não trabalha com conhecimento. Trabalha com posicionamento. O conhecimento exige investigação, e isso cansa. O posicionamento exige apenas rapidez, e isto é produção em grande escala.

É por isso que os grandes comentadores conseguem falar com igual autoridade sobre geopolítica, educação, habitação, energia, futebol, inteligência artificial, sistemas eleitorais, alterações climáticas, fertilizantes agrícolas, a sexualidade na menopausa e o comportamento reprodutivo do ornitorrinco.

Tudo isto é um avanço extraordinário. Leonardo da Vinci dominava várias disciplinas. O comentador português domina todas. Sem exceção.

Mas seria injusto atribuir toda a responsabilidade a esta nobre classe profissional. Ela apenas responde a uma necessidade coletiva. O país gosta de ser explicado. Aliás, suspeito que gostamos mais de explicações do que de soluções. As soluções possuem um defeito irritante: exigem pensar. E o pensamento exige trabalho. Muito trabalho! E isso provoca cansaço. Um “supremíssimo cansaço,/

Íssimo, íssimo, íssimo,/ Cansaço…”. (Parece que senti a mão do Álvaro de Campos a empurrar-me a pena).

As explicações exigem apenas ouvir. E ouvir é infinitamente mais confortável do que o esforço.

Por isso floresce entre nós uma economia baseada na interpretação. Uns produzem factos. Outros produzem explicações sobre os factos. E um terceiro grupo produz explicações sobre as explicações.

E o momento mais risivelmente edificante é aquele momento histórico em que os comentadores comentam outros comentadores que comentam outros comentadores, num ciclo perfeito, autossustentável e ecologicamente responsável. É uma espécie de energia renovável da opinião. Confesso: é o clímax da intelectualidade. É como se fosse um orgasmo sem corpo. O prazer não lhes vem da carne, mas do instante raro em que uma ideia se acende e ilumina. É o instante mais caricatural de toda a narrativa. É  a mais requintada demonstração de comicidade involuntária. Talvez o momento em que o absurdo atingiu a sua expressão mais elevada e pura.

Os antigos alquimistas sonhavam transmutar o chumbo em ouro. Nós descobrimos algo ainda mais ambicioso: transformamos qualquer assunto em comentário. É uma produção exclusivamente nacional. Talvez seja mesmo a nossa última grande indústria pesada!

Se um dia desaparecer a agricultura, não tenho dúvida de que iremos sobreviver. Se desaparecer a indústria, facilmente nos iremos adaptar. Se desaparecer o turismo, reinventamo-nos. Mas se desaparecerem os comentadores, Portugal ficará perante um problema verdadeiramente existencial.

Quem nos explicará então aquilo que pensamos? Quem nos dirá quais das nossas opiniões são respeitáveis e quais pertencem ao folclore? Quem distinguirá o racional do irracional, o aceitável do extravagante, o culto do inculto? Quem?

Não quero sequer imaginar tal cenário. Seria o caos. Milhões de cidadãos abandonados à terrível responsabilidade de pensar por conta própria.

E uma civilização não pode pedir tanto aos seus filhos!

Fonte aqui

O actor e o abismo

(João Ferreira, in Facebook, 05/08/2026, Revisão da Estátua)


Zaluzhnyi Enterra o Sonho, Zelensky Enterra os Ucranianos.


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Valeriy Zaluzhnyi, o comandante que ainda tinha vergonha na cara, acabou de dizer o que qualquer soldado na trincheira já sabia: a Ucrânia nunca vai entrar na NATO. Doze anos a pedinchar, doze anos a servir de capacho, e a resposta é um não redondo – ou pior, um “talvez” que serve para manter o gado em fila. A própria Aliança, segundo Zaluzhnyi, levaria 12 anos para alcançar metade do poder militar da Rússia. Meia dúzia de blindados usados e promessas de “apoio incondicional” – mas sempre com a condição de que o sangue seja ucraniano, nunca americano ou britânico.

E então a pergunta que incomoda os senhores da NATO: se o sonho nunca se realizará, por que continuam os ucranianos a morrer?

Porque Volodymyr Zelensky, o ator de comédia que Washington escolheu a dedo, precisa que o espetáculo continue. Este homem – que antes de ser presidente era um palhaço de televisão a fazer piadas sobre o próprio país – descobriu que o papel de “herói em tempo de guerra” rende muito mais que qualquer sitcom. E rende em euros, dólares e ienes. Enquanto os soldados morrem congelados nas trincheiras, o séquito de Zelensky amealha milhões em contas offshore, compra mansões na Europa e negocia contratos de gás com intermediários duvidosos. A corrupção que sempre foi o seu cartão de visita agora está blindada por bandeiras azuis e amarelas.

E não nos esqueçamos do outro detalhe que a imprensa ocidental varre para debaixo do tapete: o vício. Relatos vindos de dentro do seu próprio círculo apontam para um homem cada vez mais dependente de estimulantes para aguentar a pressão do papel que lhe foi imposto – ou será que foi o papel que o escolheu a ele? Um ator toxicodependente, manipulado por assessores americanos, a decidir o destino de milhões de pessoas. Que bela democracia.

Zelensky não é ingénuo. Ele sabe que a NATO nunca o vai aceitar. Ele sabe que a Rússia avisou vezes sem conta. Ele sabe que os acordos de Istambul, em março de 2022, eram a saída honrosa. Mas Boris Johnson, em nome de Washington, voou a Kiev para dizer: “Não assinem. Nós aguentamos-vos”. E Zelensky, como o bom funcionário que sempre foi, obedeceu. E os ucranianos continuaram a morrer – por um cheque que nunca chegará, por uma promessa que nunca se cumprirá, por um sonho que nunca passou de um truque de palco.

Enquanto isso, o ator compra mais um iate (ou será que é o terceiro?), os seus ministros compram apartamentos em Londres e os generais da NATO coçam a cabeça a perguntar-se como é que a Ucrânia ainda não se render. Zaluzhnyi, que ao menos percebe de guerra, demitiu-se por não querer ser cúmplice desta farsa. Mas Zelensky continua – porque o espetáculo tem de continuar. Até ao último ucraniano. Até ao último cêntimo.

Os soldados não morreram por uma mentira – morreram por um negócio. E o homem de negócios chama-se Volodymyr Zelensky, tem um passado em palcos de comédia, um presente em cofres suíços e um futuro – esse, coitado, não terá. Porque quando o Ocidente se cansar do circo, o ator ficará sem plateia. E os ucranianos ficarão sem país.

O sonho acabou. A farsa também devia acabar. Mas enquanto houver dinheiro a lavar e corpos a cair, o ator continua em cena. E aplaudem-no. Até ao último ucraniano Slava Ukraine.

Um regime

(Henrique Raposo, in Expresso, 31/07/2016)

Quem gere a PJ como se fosse uma taberna só pode ter um destino: rua

(Como o tempo passa! Pela terceira vez desde a origem deste blog – a última já foi há quase dez anos, ver aqui -, publico um texto do Henrique Raposo, que é normalmente um escriba que defende os pontos de vista da direita com os quais não me identifico. Mas, esta análise que ele faz da nossa governação atual – uma espécie de panfleto radical de direita -, pela sua assertividade e contundência levou-me a reincidir.

Estátua de Sal, 04/08/2026)


A origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.


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Eu odiava Sócrates e os seus Governos, porque representavam a bancarrota moral e económica do país. As minhas filhas vão entrar na vida adulta num país ainda marcado pelos erros do socratismo. Eu agora não odeio Montenegro, mas desprezo-o. Sinto por este tempo malsão um desprezo que talvez seja mais grave do que o ódio. É que este desdém já tem um certo cansaço, uma semente de rendição: o país político é porventura irreformável. O ódio do passado continha uma esperança de mudança, reforma, europeização. Estou a ser demasiado pessimista? Não sei, talvez. Talvez seja o efeito destas semanas absolutamente inacreditáveis e anedóticas que envolvem um atrelado do negócio da droga num país sem liderança e oposição. Perante a falta de vergonha ou de noção do Governo, devíamos ter em campo duas forças a zelar pela salubridade do regime. Mas o Palácio de Belém está calado, tal como o Largo do Rato. Porquê?

O Presidente da República já devia ter falado com dureza em relação ao caso Luís Neves/atrelado. Porque não há aqui saídas limpas. De duas, uma: ou a história do atrelado resulta de uma incúria amadora ou resulta de uma história que vai dar cadeia. Seja qual for a verdade, Luís Neves não tem condições para permanecer no cargo. Ou está envolvido num negócio criminoso ou fez um ato de gestão revelador de total irresponsabilidade, desmazelo, amadorismo. Não há terceira via. O Presidente da República tem de sair da sua bonomia, porque o que está aqui em causa é o tal funcionamento das instituições.

Mas avancemos para a origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.

Só que nem um agosto limpa as dúvidas, sobretudo esta: porque é que o primeiro-ministro protege Luís Neves desta maneira? Porquê? Ou seja, o que é que Luís Neves, ex-PJ, sabe sobre Luís Montenegro e Hugo Soares que nós não sabemos? Repare-se nesta cronologia que tresanda.

(1) Havia (há?) investigações em curso sobre Montenegro e Hugo Soares.

(2) Montenegro e Hugo Soares, que estão debaixo de diversos escrutínios, resolvem escolher para MAI o diretor da principal polícia de investigação. Porque é que alguém rasga assim uma regra não escrita e fundamental da democracia? Um polícia não deve ser ministro, e vice-versa.

(3) Descobre-se que o percurso de Luís Neves está cheio de buracos, muitos deles inaceitáveis e que já deviam ter levado à sua demissão. No passado, pessoas foram demitidas por um décimo desta trapalhada. Uma democracia que se leva a sério tem de demitir a pessoa que está no centro da história rocambolesca do atrelado. Uma democracia que se leva a sério não pode passar semanas a fio debaixo deste ridículo.

(4) Contra qualquer lógica, o primeiro-ministro mantém a personagem. O que me leva de novo à pergunta: Luís Neves está no Governo para proteger o primeiro-ministro, escaldado com a história interminável da casa? E, já agora, tendo em conta o silêncio inacreditável do PS, há que perguntar: Luís Neves sabe alguma coisa sobre o PS que nós não sabemos? Esta pergunta seria ilegítima com qualquer outro cenário. Mas sucede que Luís Neves é ex-diretor da PJ. Porque é que o PS, que devia ser o principal partido da oposição preocupado com estes assuntos institucionais, está tão calado? Porque é que o PS parece mais incomodado com o caso Luís Neves do que, por exemplo, com as buscas às Juntas de Freguesia socialistas?

Lamento, mas o que se está a passar é demasiado grave. Os silên­cios são demasiado graves. Quando jornalistas ou intelectuais, como este que aqui vos escreve, têm de preencher um vazio político criado pela incompreensível inércia das instituições, então é porque estamos mesmo muito mal.

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Mas, se me permitem, e para contrariar o pessimismo, há que meter mãos à obra. Não podemos continuar nas mãos de medíocres como Luís Montenegro. Como é que isto se muda? Há que voltar às regras antigas dentro dos partidos. Enquanto as regras de eleição dos líderes partidários continuarem nesta linha das primárias e da democracia direta, então é certo e sabido que vamos continuar nas mãos de gente medíocre que jamais conseguiria um lugar de destaque fora dos partidos. Em qualquer outra atividade humana o sucesso não depende do facto de almoçarmos com 300 concelhias. Montenegro é uma figura medíocre que está no poder porque almoça com 300 caciques locais, é só isto; almoça e promete-lhes cargos e tachos num Estado que existe para satisfazer os membros do PSD e do PS. Quantos tachos não deu já Montenegro dentro da Segurança Social e dos hospitais? Um candidato a primeiro-ministro em Portugal é hoje em dia um sinal de mediocridade, é um refugo. Como é que saímos deste poço? Deixem-me voltar a uma certa esperança da juventude. Quando tinha 27 anos, precisamente, eu escrevi aqui que não podíamos cair na lengalenga do “défice democrático” porque isso iria abrir a caixa de Pandora da democracia pura, isto é, da demagogia e da mediocridade. Os partidos têm de ser instituições afastadas da democracia direta. Havia uma lógica na velha escolha do líder partidário, havia vários filtros até ao congresso decisivo. Agora não há filtros e o resultado está à vista. O triunfo das primárias é o triunfo do que há de mais primário no ser humano. É o triunfo dos fanáticos, como Ventura, e dos chico-espertos, como Montenegro.