A Engenharia da Desmobilização Popular por detrás do processo de militarização da Europa

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 04/06/2026, Revisão da Estátua)


Apenas quando os povos europeus identificarem o seu real inimigo e o perceberem como uma ameaça séria, real e vital, será possível colocar um fim a esta loucura.


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Há algo de profundamente paradoxal no estado atual das democracias ocidentais. Por um lado, os líderes da União Europeia, da NATO e dos Estados Unidos propagam, com insistência quase obsessiva, narrativas de ameaça existencial: a Rússia como império expansionista prestes a invadir o território da Aliança Atlântica; a Europa como vulnerável e despreparada, com urgência instada a multiplicar os seus gastos militares; o conflito na Ucrânia como prelúdio de uma confrontação mais vasta; e ainda o terrorismo, esse ente sempre presente que nos acorda constantemente, mais para enviarmos os nossos recursos para o além mar, para que não nos venha chatear mais tarde.

Por outro lado, essas mesmas narrativas — apesar do seu tom catastrofista — não produzem um ímpeto para a mobilização, não geram movimentos de massas de luta pela paz e não impelem as populações para a exigência de mudanças concretas e estruturais em matéria de política externa. Pelo contrário: aparentemente, geram uma espécie de apatia estrutural, uma atitude que poderíamos chamar de amorfa ou mesmo zumbi, face ao real e crescente risco de guerra aberta com a Federação Russa. Quanto maior o medo propagado e o risco percebido, maior a apatia na resposta, individual ou colectiva, a tal estado de coisas. Talvez por irresponsabilidade, por causa do estado de infantilidade política para o qual foram atirados os povos ocidentais, por preguiça ou por amorfismo, provocados por contínuos choques de terror, instabilidade e sobressalto, a verdade é que o estado de alerta parece não existir. Nem enquanto instinto de sobrevivência.

Se queremos compreender como se constitui, internamente, a decisão da União Europeia e dos Estados-membros, no sentido de nos fazer enveredar para uma deriva militarista e belicista, com contornos catastróficos facilmente previsíveis e perceptíveis, é fundamental compreender um mecanismo subtil e perigoso, alicerçado numa narrativa calibrada para gerar medo, mas não consciência; alarme, mas não acção. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que visa legitimar gastos armamentistas astronómicos e lucros pornográficos para o complexo militar-industrial NATO em expansão, transmite subliminarmente que a resolução do problema depende dos políticos e dos generais, e nunca das populações.

Com efeito, o resultado visado consiste numa desactivação democrática do ponto de vista operativo, a qual, informando as pessoas do risco, ao mesmo tempo, afasta-as da participação e influência na solução e, especialmente, de se sentirem capazes de transformar esta realidade.

Neste sentido, as narrativas de segurança propagadas pela UE, NATO e EUA não são concebidas para elevar o estado de consciência das populações, mas para o bloquear. Se o estado de consciência fosse verdadeiramente elevado — se as pessoas interiorizassem as implicações práticas do que lhes é dito —, retirariam consequências práticas e organizativas que poderiam ameaçar o poder instituído e, por maioria de razão, as decisões políticas tomadas à sua revelia e contra os seus interesses mais relevantes.

O facto é que, quando as pessoas se activam, como bem se sabe, sabemos onde começam os processos, mas nunca é possível saber bem onde acabam. A forma como as contradições mediaticamente expostas podem ser capitalizadas por movimentos pela paz e pela elevação das condições de vida, que fazem da luta de massas o seu campo de acção privilegiado, conduzindo a resultados muitas vezes diametralmente opostos aos pretendidos pela classe dominante, constitui um dos efeitos a evitar por uma estrutura dirigente autocrática e subserviente aos interesses oligárquicos.

Toda a construção argumentativa que desemboca na decisão final de conduzir a EU para a guerra com a Federação Russa e para a vertigem armamentista que tal desiderato pressupõe, foi sendo preparada no sentido de desarmar as populações dos seus direitos democráticos de intervenção nesse processo de decisão. O facto de se colocar toda a culpa numa Federação Russa cercada de bases da NATO, mas mesmo assim apresentada como estando em desenfreada expansão, visará criar a ideia de que o mal radica num agente exterior que vem desestabilizar a nossa paz, criando a sensação de que nada há a fazer, porque nada se pode fazer – exceptuando aceitar e legitimar a deriva belicista – para contestar e transformar um poder inacessível.

A primeira narrativa dominante apresenta a Rússia de Vladimir Putin como uma potência imperial em expansão, determinada a reconstruir um império euro-asiático – umas vezes o Império Tsarista Ortodoxo e outras o “Império” comunista Soviético – e prestes a atacar ou invadir território da NATO, encontro para o qual os dirigentes ocidentais até já lograram marcar uma data: 2029! Esta narrativa serve de fundamento para quase todas as políticas de rearmamento e de aliança militar dos últimos anos.

Contudo, uma análise minimamente atenta dos factos permite desmontar todos os pressupostos em que assenta. Após quatro anos de guerra na Ucrânia, e constante afirmação mediática de que a Rússia demonstrou possuir uma capacidade militar limitada, incapaz de conquistar de forma decisiva e rápida o território ucraniano, sendo obrigada a recrutamentos massivos e a sofrer perdas significativas em equipamento e pessoal, ou ainda a recorrer a mercenários e prisioneiros para manter as linhas de frente, a um mesmo tempo, transmitiu-se também a ideia de que esta mesma Rússia, exausta e sob sanções económicas sem precedentes, poderia lançar um ataque contra a NATO — aliança que reúne as maiores economias do mundo e o maior arsenal nuclear do planeta. Ao carecer de base empírica e histórica que a sustente, tal avaliação da realidade padece de um profundo enviesamento, transformando-a numa intrincada construção ideológica.

A função política desta narrativa é clara, visando justificar a existência e a expansão contínua da NATO, através da criação de um inimigo externo que unifique o bloco ocidental e legitime a militarização crescente da política europeia. Mas tal tem de ser feito, sem que se desmoralize o exército contratado para atacar a Federação Russa – o exército ucraniano sob comando do regime de Kiev. Daí que se opte por uma dupla camada argumentativa apenas na aparência contraditória: 1. A Federação Russa é uma potência fraca, incompetente e incapaz de conquistar a Ucrânia, o que permite criar a ideia de que se trata de um inimigo derrotável, plenamente ao alcance das forças de Kiev, justificando assim a estratégia ocidental que radica na sua utilização como proxy e o envio de constantes remessas de milhares de milhões de euros; 2. A Federação Russa é governada por um louco ditador e um povo agressivo e atrasado, que nos pode invadir a qualquer momento, aproveitando-se da grande capacidade industrial que possui, argumento que permite alimentar o medo e justificar a necessidade de militarização.

A passagem repetida de um argumento ou outro, normalmente de forma separada, usando comentadores bem educados que nunca impelem para a paz, mas apenas para a eliminação do perigo, nomeadamente pela força ou pelo isolamento e contenção, funciona como um processo de doutrinação, no qual o elemento democrático nunca é mencionado, a não ser que seja para atacar a Federação Russa como terrível ditadura. A ancoragem de tais discursos em amplas e abrangentes estratégias de comunicação, assentes em conferências, livros, programas dedicados, visa engrossar o exército complacente, tal como sucede com um professor contraditório no que lecciona, em que somente é apanhado por uma minoria de alunos mais atentos, mas que juntos não compõem a força suficiente para expor, mortalmente, tal contradição.

Uma segunda narrativa presente nos meios mediáticos, sustenta que a Europa está militarmente despreparada para enfrentar a Rússia e que, por isso, é forçada a aumentar drasticamente os seus gastos com armamento. Tal narrativa foi ganhando força, especialmente após o início da Operação Militar Especial na Ucrânia, em 2022, culminando no que a Alemanha designou como Zeitenwende — uma “viragem de época” que justificou a criação de um fundo especial de 100 mil milhões de euros para as Forças Armadas. Depois de participar dos acordos de Minsk e de Merkel assumir que tais acordos visaram apenas “ganhar tempo” para armar a Ucrânia e preparar a EU para o embate, bem podemos dizer que esta “viragem de época” não apenas foi ansiada, como foi provocada.

E eis que aqui emerge outra contradição flagrante: o discurso de “despreparação” surge precisamente quando os gastos militares da Europa já atingiam níveis históricos, e em que os orçamentos de defesa da NATO já superavam, em conjunto, os da Rússia por um factor de mais de dez vezes. Mesmo ao nível europeu, em 2022, o orçamento anual dos países da UE, superava o investimento da Federação Russa por um factor de 5 a 6 vezes. Desta forma, a teoria da “despreparação” não representa, portanto, uma descrição objectiva da realidade; antes constituindo, claramente, uma oportunidade de mercado, expressa, por exemplo, na forma como a VW, submersa numa crise económica sem precedentes, causada pela implacável capacidade competitiva chinesa nos carros eléctricos, aproveitou a deixa para transformar fábricas automóveis em fábricas de tanques de guerra.

A UE ao canalizar fundos públicos — dinheiro dos contribuintes — para o complexo militar-industrial, em detrimento de investimentos em saúde, educação, transição energética ou combate à pobreza – que nunca foi erradicada -, os “lucros brutais” que esta guerra gera não são um subproduto da mesma, mas antes são, em muitos casos, o objectivo principal e inicial.

A narrativa da despreparação funciona como uma máquina de transferência de riqueza do sector público para o privado, dos serviços públicos de interesse social relevante e que prestam necessidades sociais impreteríveis para as indústrias de armamento, das populações para os accionistas. Tudo isto acontece sob o véu da “segurança colectiva”, um conceito que parece justo, mas que, na prática, serve para blindar tais transferências financeiras em relação a qualquer escrutínio democrático. Nem por um momento os parlamentos nacionais discutiram profundamente o assunto, nem por um momento as populações foram instadas a pronunciar-se em relação a tais decisões. Ao invés, tudo isto aconteceu à margem de actos eleitorais e referendos, nunca constando dos programas dos partidos que representam esses interesses e que, por isso mesmo, beneficiam de tratamento privilegiado na média corporativa e, consequentemente, beneficiam das mais ricas e eficazes campanhas e instrumentos de propaganda.

Se as narrativas, atrás enunciadas, se tratassem apenas de retórica, poderíamos limitar-nos a denunciá-las como propaganda. Mas o problema é que elas são acompanhadas de acções concretas que, longe de reduzir o risco de confronto, o aumentam de forma perigosa. Podemos mesmo dizer que, desde a 2ª Guerra Mundial, nunca estivemos tão próximos de uma confrontação directa com uma potência militar como a Federação Russa. E apesar de tudo isto, nenhum governo perguntou às populações se pretendem tal guerra ou se pretendem negociar a paz com a Federação Russa.

A NATO, a UE e os EUA apoiam a Ucrânia de formas que vão muito além da “ajuda humanitária” ou da “defesa de um país soberano”. Fornecem drones de ataque, aviões sofisticados (agora aeronaves Gripen da Suécia), sistemas de artilharia de longo alcance, inteligência em tempo real, dados de satélites e dos seus sistemas de orientação (GPS). Tornam possíveis ataques ucranianos em profundidade no território russo — bombardeamentos contra infra-estruturas energéticas, bases militares, depósitos de munições e mesmo alvos em território civil.

Estas acções alteram a natureza do conflito e permitem-nos, ao poucos, identificar a verdadeira natureza do conflito em curso. O que começou, dissimuladamente, como uma guerra de defesa ucraniana transforma-se, progressivamente, numa guerra de projecção de força, em que países da NATO, sem declarar guerra, participam activamente na ofensiva contra a Rússia. De forma paulatina e ao conduzir a guerra para dentro da Federação Russa, a NATO revela o objectivo inicial pretendido. Enquanto tantos eram atacados por já em 2014 conseguirem identificar no EuroMaidan um movimento da NATO contra a Federação Russa, é em 2026 que se começa a materializar, na prática, essa evidência, mais ainda sob uma manta de dissimulação: a de que tal projecção de força no interior da Federação Russa constitui uma resposta legítima de Kiev aos ataques da Federação Russa no seu território.

O problema é que, apesar do amorfismo do lado de cá, desde 1991, desde a queda da URSS, o povo russo tem recebido inúmeros alertas sobre as reais intenções do Ocidente relativamente ao seu país. Primeiro foi o “Ieltsinismo”, que destruiu a malha social estatal e económica da URSS, deixando milhões na miséria extrema, coisa que há muito não conheciam, depois, foi a Tchetchénia através do terrorismo islâmico, a destruição da Jugoslávia e a expansão da NATO para oriente, a revolução Laranja no início do século XXI, na Ucrânia, a provocação através da Geórgia na Ossétia do Sul e, então sim, o Euromaidan, com um golpe de estado que visou virar o tabuleiro a favor das forças russófobas.

Ou seja, o povo russo está acordado para o problema e tal alerta e disposição para a defesa dos seus interesses, mas também para a paz, contrastam seriamente com o estado dos povos ocidentais, que apenas são arrastados para esta realidade, sem saberem bem se estão preparados ou não para defenderem os seus interesses. Esta activação do povo Russo e a pressão que pode exercer junto do Kremlin, ou mesmo a necessidade de uma resposta mais veemente por parte de Moscovo, coloca uma questão inquietante: se a Rússia retalia contra as infra-estruturas, fábricas ou bases em países NATO que lhe fornecem esses dados e esses sistemas, não estará a agir em legítima defesa? E tal ataque não arrastará a NATO para um confronto directo, potencialmente nuclear?

É aqui que chegamos ao núcleo do paradoxo. Se as narrativas de ameaça são tão alarmistas, porque não geram mobilização? Se a população da UE “compra” a ideia de que a Rússia é um perigo iminente, porque razão não exige medidas concretas de paz, desescalada ou, pelo menos, preparação civil?

A resposta pode residir na natureza do medo que é produzido. Não se trata de um medo concreto, tangível, que mobiliza para a acção — como acontece quando uma comunidade enfrenta uma inundação ou um incêndio, ou no caso de muitos russos, iranianos ou cubanos que se encontram muito mobilizados para a defesa do seu mundo. Tratar-se-á, antes, de um medo abstracto, crónico, mediático: a “ameaça russa” como entidade difusa, a “guerra nuclear” como cenário distante e quase cinematográfico, como algo que acontece apenas num espaço mediático e comunicacional longínquo, que tantas vezes se mistura com a ficção e sofre de uma crise de credibilidade profunda. A psicologia cognitiva há muito que identificou que o medo abstracto paralisa mais do que mobiliza. Quando a ameaça é invisível, imensurável e gerida por “especialistas”, a resposta humana natural é a resignação e não a resistência.

Este medo funciona como uma espécie de anestésico, mantendo as pessoas num estado de ansiedade constante, mas sem direcção alguma (como “baratas tontas”). Consomem notícias sobre a guerra como quem consome um thriller — com tensão, mas também com a certeza de que, no final, “alguém resolve”. Esse alguém são os políticos, os generais, os diplomatas. A população é espectadora, não protagonista. E esta constitui uma importante falha “democrática”. Num sistema que se diz democrático, o povo não pode ser alienado da participação nas decisões de um evento tão impactante como uma guerra apocalíptica.

E é aqui reside o mecanismo central de desmobilização popular. As narrativas são construídas de forma a transmitir, subliminarmente, que a segurança é um problema técnico-militar, não político-popular. A mensagem é: “Há perigo, mas nós (os decisores) estamos a geri-lo. A tua função é votar de quatro em quatro anos, pagar os teus impostos e, se necessário, aceitar cortes nos serviços públicos para financiar a defesa.” E, como tal, inundam-nos os telejornais de generais, comentadores militares, analistas militares, militares que não honraram a farda e civis frustrados que queriam ter sido militares. Todos falando de um mundo onde não entra o povo e onde nós não temos vós.

Trata-se de um processo de delegação tácita da responsabilidade que transforma a democracia num espectáculo onde a participação cívica é reduzida à expressão mínima de preferências eleitorais, nunca à intervenção activa na definição de políticas. Essa está vedada ao lobbying que os ricos pagam para acontecer e aos telefones directos dos ministros e CEO: Quem questiona a lógica militarista é rotulado de “pró-Putin”, “negacionista” ou “isolacionista” — rótulos que funcionam como mecanismos de exclusão social, deslegitimando qualquer debate substantivo e minimamente consequente.

Verifica-se também um factor de amnésia histórica. As gerações atuais na Europa — sobretudo as nascidas após a Guerra Fria — não têm experiência corporal da guerra, nem sequer do seu rumor próximo. A Segunda Guerra Mundial é arqueologia; a Guerra Fria, uma curiosidade histórica. A guerra tornou-se um conceito mediático, uma imagem no ecrã e não uma experiência de destruição, extremismo e perda, que revela o que de pior existe no ser humano. Isso facilita a sua banalização, mas não apenas. Facilita também a sua dramatização, no sentido em que se torna algo até glamoroso e excepcional, em que os homens revelam a sua coragem e as mulheres a sua destreza.

Enquanto nos inundam o Youtube com anúncios de “military workout” (exercícios físicos militares), “apetrechos e vestimentas de tipo militar”, a média vai falando de “escalada”, “dissuasão”, “prontidão” como quem fala de indicadores económicos — com distanciamento técnico, sem horror. Tal como se fala do genocídio de Gaza, ou da fome em África. Todo o terror é normalizado e cinematografado como se fizesse parte de um Hollywood, em que Von Der Leyen e Kaja Kallas são as actrizes principais de uma trágico-comédia escrita por Zelensky, dirigida por Macron e financiada por Friedrich Merz, através de um esquema europeu de angariação em pirâmide!

A desmobilização popular que vemos, não é, portanto, um acidente. É estrutural em relação ao funcionamento dos sistemas militarizados. Quando olhamos para isto que nos está a acontecer e todo o ódio que é facilmente cuspido por dirigentes políticos e populares contra imigrantes ou inimigos, percebemos porque é que foi possível um Holocausto nazi e porque é que é possível um genocídio em Gaza e no Líbano.

Os lucros prometidos do complexo militar-industrial dependem de decisões orçamentais tomadas em salas com portas fechadas, propositadamente não sujeitas à pressão popular. Daí que nos surjam como factos consumados. E que forma mais simples e distante de nos surgirem, do que através de monólogos televisivos que nos dizem “a União Europeia decidiu”, “Von Der Leyen disse”, “os maiores países da EU prometeram” … Se vem de cima, então nada há fazer, pensa o comum dos mortais, vítima de um sistema construído em pirâmide, que o esmaga através de uma cúpula tão autocrática como inatingível. O facto é que também a EU funciona como uma mistificação, como algo que está fora, demasiado longe. É como a especulação financeira, quanto mais nos destrói a vida, mais dificuldade temos em perceber como o faz. A burocracia europeia é complexa o suficiente para que opere o mesmo processo de distanciamento.

E esta contingência da vida revela-nos uma realidade inultrapassável do sistema em que vivemos: a economia belicista e ofensiva precisa de cidadãos passivos e não de cidadãos activos. Precisa de consumidores de notícias, não de organizadores de movimentos. Precisa de eleitores que escolhem entre opções pré-aprovadas, não de cidadãos que definem as próprias agendas.

Talvez aqui radique a grande diferença que nos permite desvendar as posições relativas de cada um dos contendores e revelar quem é realmente o agredido e quem é, de facto, o agressor. Enquanto a população ocidental se encontra amorfa, situacionista, ressentida mas intelectualmente desarmada, reprimida e ideologicamente derrotada, incapaz de gritar e exprimir revolta para com uma situação que esmaga o mundo que conhecia e tinha como garantido, apenas, aqui e ali, vociferando contra gente tão ou mais fraca que ela, que sofre das mesmas amarguras, como imigrantes, sindicalistas ou outras minorias, a generalidade da população russa encontra-se activada, consciente do perigo que a rodeia e mobilizada num esforço sem limites para superar o que considera ser um ataque à sua soberania e independência.

Afinal, quem é que está a ser arrastado para o quê? Para compreendermos a militarização da NATO, temos primeiro de compreender de que se faz tal ideologia. A ideologia subjacente ao rearmamento da EU veste-se das mesmas capas que se vestia Goebbels!

Apenas quando os povos europeus identificarem o seu real inimigo e o perceberem como uma ameaça séria, real e vital, será possível colocar um fim a esta loucura!

Esperemos que não venha tarde de mais!

Fonte aqui

Delação S.A.

(Rui Pereira, in Facebook, 04/06/2026)


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A fórmula “canal de denúncia”, que se tem multiplicado entre nós sob todos os aparentemente mais benévolos pretextos, chega agora à chamada Prestação Social Única (PSU). Instituída sob o signo estigmatizante de obrigar a trabalhar os desempregados e outros detritos do negócio socioeconómico, aprofunda o estereótipo de uma série de loosers preguiçosos que “preferem” a “subsidiodependência” a ir trabalhar “como os outros”.

Persuadidos de que são winners, os menos pobres dos pobres são virados contra os mais pobres do que eles, numa guerra social induzida a partir das esferas do poder, cujos efeitos e limites vão muito para lá do rendimento de que cada um dispõe.

A razão pela qual existe o “pobre de direita”, para usar a exatíssima expressão do sociólogo brasileiro, Jessé de Souza, não é meramente económica. Votar à direita, votar nas mentiras das diferentes direitas, mesmo sabendo e sobretudo sabendo que são mentiras, é um ponto simbólico de fuga, de desidentificação com a própria pobreza.

Quando não se percebe isto, não se percebe que se vive não só do dinheiro, mas também do reconhecimento social, do status e das suas aparências e de que existe uma componente psicossocial na sociedade humana que encontra correspondência psicopolítica na administração do poder.

A reprodução das práticas e dos ideologemas opressivos e discriminatórios dos menos pobres para com os mais pobres é uma aposta epigenética ganha por quem a induz e a realiza através de medidas como esta: fazer do pobre polícia do outro pobre.

Escrevendo sobre a delação no tempo do fascismo, a historiadora Irene Pimentel chamou-lhe “uma tragédia portuguesa”. Percorrer as páginas do seu estudo é, de facto, mergulhar nos abismos do humano. Ver como tantos milhares se tornaram bufos e muitos outros só não o fizeram porque a PIDE os rejeitou é uma ferida moral que o neofascismo instalado no poder há décadas a esta parte insiste em não deixar fechar, lançando-lhe por tudo e por nada a pitada de sal da instigação à delação.

Nos tempos da Inquisição, vizinhos e familiares, desconhecidos, gente desavinda de todo o tipo denunciava quaisquer outros, sabendo que se não a fogueira, pelo menos a tortura estava garantida ao denunciado. Porque, como afirmavam os pequenos e grandes Torquemadas da época, só a tortura garantia o selo de veracidade, tanto às declarações de inocência como de culpa.

Hoje, desde atribuir-se sorteios de automóveis de alta cilindrada entre quem substitua os fiscais do fisco reivindicando a “fatura” de cada café que tome (sinal de uma “cidadania exigente”), até aos múltiplos “canais da denúncia” com anonimato garantido e perseguição assegurada ao denunciado é uma das mais cínicas armas da refascização em curso.

Ao mesmo tempo, quem espreita o companheiro do lado por cima do ombro, preocupado com o rendimento mínimo que possa receber, nunca olhará para os do rendimento máximo garantido que estão acima, muito acima dele, locupletando-se com os canais do dinheiro que escorre do trabalho socialmente realizado para o lucro privado, escondido na imensa corrupção que vai dos conselhos de administração aos gabinetes ministeriais e de advocacia, escoado nos offshores sobre os quais denúncia alguma será estimulada.

Tudo pode mudar

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 04/06/2026, Revisão da Estátua)


Para explicar o dia de ontem é preciso não ter medo das palavras, nem mentir a nós próprios (a mentira mais perfeita porque parece verdade). Quero contar-vos o que a direita vai tentar fazer, e tocar nas nossas feridas, as feridas da esquerda.

Só a verdade é revolucionária. Porque quero, como vocês, vencer. E dedicar-me às minhas paixões, aos que amo, à história, jardinagem, literatura, bicicleta, e não a lutas sistemáticas por direitos elementares.

Warren Buffett disse à CNN a seguir às medidas “anticrise”, em 2011: “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está a  lutar e a ganhar”. Quando se retira a luta de classes, não se percebe nada. E fica-se na mão de comentadores superficiais, que repetem o discurso do PS da “dignidade do trabalho” e da “produtividade é culpa dos patrões” ou de mentirosos compulsivos, e patéticos, que atuam nas TVs pagos para tal pelos empresários de uma comunicação social que deixou de informar ou pensar. Primeiro, existem classes sociais e cada vez mais só existem duas classes (a burguesa, ou capitalista, e a trabalhadora, a nossa). A outra palavra é a Política, a única palavra que nos pode salvar, porque ela é a estratégia, para vencer. Porque podemos ser derrotados.

A burguesia portuguesa é fraca, nasceu de certa forma de um braço da burguesia inglesa, no século XIX. Há quem ache que nasceu dos artesãos da cidade e da expansão no século XV, não é o nosso caso. Mas esse é um debate, historiográfico, que não muda as conclusões seguintes que aqui avanço.

O capitalismo nasce no século XIX como um sistema inovador de concorrência que promove a inovação e a ciência e aumenta a produção. E que, rapidamente, se transforma em monopólio, a partir de 1870, concentrando as empresas que nas crises vão sendo engolidas. Isso explode na I Guerra Mundial, em 1910 – quando acaba a concorrência entre empreendedores que arriscavam, e passam os Estados, agigantados, a ser uma super concentração de grandes empresas, capitais financeiros, poder e força bruta, polícias e exércitos.

Mesmo hoje – tirando pequenas empresas familiares – , a maioria das chamadas PMEs são, na verdade, subcontratadas de grandes monopólios, da banca – onde estão asfixiadas -, de distribuição alimentar, da comunicação, da energia, ou de indústrias pujantes como a metalúrgica, das armas  e da aviação dos países centrais.

Nenhum dinheiro produz dinheiro, sem trabalho vivo. Turismo não produz capital – faz circular o capital -; comércio não produz capital, circula. Se colocarem milhões de euros e olharem para eles muito tempo e os perfumarem e taparem com um cobertor quente ou “investirem” na bolsa ou em casas, nada acontece. Alguém – aqui ou noutra parte do mundo – vai ter de trabalhar produtivamente (transformação de natureza) para esse capital se valorizar.

 Se venderem uma casa pelo dobro, camas de hotéis cheias, ou comprarem acções da Galp, alguém vai ter que produzir minério, mesas de madeira ou armas, sabões ou batatas, e alguém vai ter que transportar esses bens, e alguém vai ter que formar esses trabalhadores e tratá-los quando estão doentes (professores e pessoal de saúde).

A burguesia portuguesa, quando começa a fase imperialista, dos monopólios, vai para África capturar trabalhadores forçados (2 milhões até 1974) que apanham sisal, café, algodão, ouro (mineiros moçambicanos na África do Sul, entregavam até 60% do salário ao Estado português).

Para isso precisa de derrotar o sindicalismo revolucionário, o que faz em 1926, com uma ditadura, que proibia sindicatos, partidos e jornais livres. Ao mesmo tempo as mulheres deviam parir muitos filhos no mundo rural, onde se cavam as batatas que alimentam os operários da CUF.

Matérias-primas de África gratuitas, operários sem ter direito à greve e sem jornais alimentados a baixo custo pelos camponeses pobres, paridos às dezenas por mulheres, muitas mortas no parto. Era este o Portugal de Salazar.

É curioso ver que, se não erro, Passos Coelho, a Ministra do Trabalho, Ventura, a líder da IL, Gouveia e Melo, malta do CDS, toda esta gente é retornada, são colonos – é o retorno do reprimido. “Ai que saudades das colónias e da ditadura”.

A razão é só uma: a burguesia portuguesa depois de 1974 morreu. O que a salvava no quadro mundial, como Estado (a burguesia e o Estado são o mesmo) – ou seja, a possibilidade de competir mundialmente – era a ditadura do trabalho barato. Sem isso, Portugal não existe. Por isso os socialistas como eu são internacionalistas, não cantamos o hino no 10 de Junho, cantamos o Grândola no 25 de Abril.

A entrada da UE, depois da contra revolução em 1976, foi já um negócio de desespero – entregar o pouco que havia de produção em troca de investimentos na banca com juros artificialmente baixos (falida em 2008) – banca salva com cortes reais dos salários de 25% garantidos com as leis da troika – e venda de casas e camas de hotéis, depois de 2020. Para isso importou a burguesia 25% de trabalhadores do Brasil, do Nepal, e da Índia.

Todos os desastres laborais negociados, desde a derrota do sindicalismo de lutas de classe em 1986 – todos – foram negociados mantendo para a burocracia sindical (sindicalistas profissionais) os direitos. Os mais novos iam sendo precarizados: nos locais de trabalho nasceram como cogumelos trabalhadores, lado a lado, a fazer o mesmo mas a ganhar menos. Mantendo, os mais velhos, os seus direitos. A negociação era esta – a burocracia sindical lutava, e lutou. Mas não lutava para ganhar, apenas para dizer que existia e não perder a face na sua base. Foi assim em todas as revisões dos códigos de trabalho, quem era mais velho manteve direitos.

A razão é simples e é só uma: uma luta radical, de base, não é controlada pela burocracia (os que vivem do sindicalismo). Não quer dizer que seja caótica. Pelo contrário. Quer dizer que é feita com greves radicais, preparadas e não decretadas, com fundos de greve, por longos dias, plenários e assembleias que necessariamente criam novos dirigentes, mais radicais. E se há novos dirigentes, os que vivem do sindicalismo perdem o emprego.

Quem teve a paciência de me ler até aqui, sabe que já esteve em assembleias em que foram os dirigentes sindicais a fazerem tudo para impedir lutas ou a negociarem derrotas e dizer “foi o possível”.

Agora, este pacote laboral, pela primeira vez desde o 25 de Novembro – com a burguesia norte-americana a apostar na maior bolha da história com a IA e Musk, deixando Buffett parecer um menino de coro -, acaba com qualquer ideia de direito no trabalho, incluindo o direito à greve e – sublinho – ataca como nunca o tinha feito a burocracia sindical. Se ele for aprovado, o sindicalismo burocrático (profissional) morre. Por isso a UGT esteve na greve e a CGTP apoiou duas, no espaço de 8 meses. É a própria sobrevivência destes sindicatos que está em causa.

Mas há mais. A UGT é o PS e a CGTP é o PCP. Porque não existe independência política. Isso é ingenuidade. Quem não se mete em política deixa a política na mão dos outros. Tudo é político. Porque tudo é luta de classes. O problema não é o PS ter criado a UGT e o PCP a CGTP, fizeram muito bem, o problema é qual é a estratégia que têm para o sindicalismo.

O PS – quando a revolução, o PREC, em 1974 e 1975, afastou a direita do país, os ricos literalmente fugiram, e cá ficou a autogestão democrática dos trabalhadores – o PS foi o partido que a burguesia usou para ser recompor. E voltou a usá-lo na Geringonça, para acalmar as lutas contra Passos Coelho.

Hoje, a burguesia portuguesa – que não é mais existente: o Estado português não é independente, é tudo decidido em Bruxelas -, tem como projeto demolir o que resta e já em escombros dos serviços públicos, para pagar à indústria de armamento alemã, produzir drones ou seja, peças de morte, e mudar umas camas aos trabalhadores do Norte que vêm apanhar sol em Agosto.

Para isso têm a AD e o Chega a criminalizar imigrantes, para não fazerem greve nos hotéis e restaurantes, ou Passos Coelho, que veio a jogo dizer que está disposto a juntar-se ao Ventura para juntos serem uma espécie de Trump numa só pessoa. Trata-se de uma oposição neofascista, com ramificações nas forças armadas na sua ligação ao Chega (é isso que lhe dá o caracter fascista). São tropa de choque contra os trabalhadores (por isso ver a polícia bater em manifestantes não é assunto irrelevante).

O PCP – que resistiu como nenhum partido à ditadura – era o Partido fiel a Moscovo no PREC, contra a revolução, pelo capitalismo regulado, pela “dignidade do trabalho” mas não pela revolução (que o partido considerava e considera não estar no momento histórico). Foi sempre defensor da ordem Constitucional de 1976 e é hoje isso que coloca no seu programa, a defesa da Constituição.

Ou seja, temos uma oposição à ordem constitucional liberal, o neofascismo de Chega e Passos Coelho, e uma defesa da ordem constitucional liberal, PS, PCP e BE (este irrelevante). Nenhuma serve quem trabalha e vê a sua vida destruída por este regime.

Este vazio é o vazio que a esquerda se recusa a ocupar. Para a maioria dos que vivem em Portugal esta ordem já não serve, e não serve mesmo. Mas só surge uma oposição – a fascista. Precisamos de uma socialista. Por isso o centro adora dizer que o problema são “os extremos” e os “radicalismos”.

É que só uma política radical socialista pode derrotar o centro liberal da guerra e o neofascismo. Precisamos de um extremo – o extremo da igualdade e da liberdade, contra o centro e o fascismo.

Estas duas greves gerais demonstraram a força e a fraqueza dos sindicatos.

A força porque se quiserem amanhã param o país, têm fundos e força para isso, o pacote laboral morre, e conseguem reverter até as leis da troika. Mas isso vai abrir uma caixa de Pandora em que novos dirigentes, mais corajosos, ousados, vão tirar o lugar aos dirigentes sindicais actuais.

A fraqueza, porque se a UGT e a CGTP não param o país, o PSD, a IL e o Chega vão aprovar o pacote laboral e os dirigentes sindicais a muito curto prazo ficam sem o lugar.

Muito se tem escrito que quem é precário não faz greve. De facto o pacote laboral quer proibir a greve. Mas todo o sindicalismo nasceu no século XIX, e no PREC, com trabalhadores precários que faziam greve e venceram. A questão fundamental é que se queremos derrotar este pacote laboral, greves de um dia não chegam. É preciso uma oposição radical, socialista, igualitária, democrática contra a ordem constitucional liberal.

E isso – aqui termino – é a Política com P grande. Na Argentina uma líder radical de esquerda do PTS está à frente de todas as sondagens. Foi o mesmo PTS que quando Millei foi eleito disse aos trabalhadores “votem nulo” e organizem-se no nosso ou noutros partidos de esquerda, em sindicatos, em comissões de bairros. Não há “voto útil”, só os trabalhadores se salvam a si próprios, o voto útil no PS contra o Chega levou-nos ao pacote laboral da AD e do Chega. Este Governo só governa porque não há oposição socialista ao capitalismo. Governa porque o PS se absteve.

Só governa porque os trabalhadores andam a ouvir da burguesia portuguesa há 150 anos que a Política é com eles, com os partidos institucionais e os profissionais da política, e que os trabalhadores não se devem meter em política, devem trabalhar, e calar.

Estas greves mostraram a força de quem trabalha. E só há dois tipos de pessoas que trabalham neste país. Os mais de 5 milhões de trabalhadores, exaustos, e os milhares de pequenos empresários familiares, esmagados.

Do que precisamos? De sindicalismo combativo, e de partidos políticos radicais. Deitar para o lixo a palavra “independência”. Tudo é Política. Não podemos ter medo de ser socialistas, e debater – livremente – que sociedade queremos. Sem lutas para cumprir calendário, sem ilusões inúteis, e sem medo do papão. Porque foi esse medo que abriu a porta ao papão.

Precisamos de confiar nas nossas forças e não de votos “úteis” nas políticas dos outros. E isso só acontece se nos organizarmos politicamente, exige esforço e determinação, não é um sprint eleitoral, é um esforço concreto de organização.

Quem não quer militar, reunir, decidir, fazer, e só quer votar, vai ser derrotado. Se não lutamos a sério, vão aprovar este pacote e o que vem aí é morrer no trabalho de exaustão, viver com pânico do desemprego, o assédio de diretores e chefes como gestão corrente, e a farsa da educação e a desumanidade na saúde. Paremos de mentir a nós próprios.

Não tenho dúvidas que eles – o centro e o neofascismo, em suma, a burguesia -, parecem fortes, mas na verdade (ficará para outro texto) nunca estiveram tão frágeis. Têm armas e polícias, é muito pouco para governar. Eles parecem fortes porque nós parecemos frágeis, não temos programa, partido, organização. Basta deixarmos de nos comportar como vitimas e passarmos a agir como sujeitos, que o medo começa a mudar de lado.

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