(João Gomes, in Facebook, 22/06/2026)

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Há exatamente 85 anos, a invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, através da Operação Barbarossa, deu início a uma das páginas mais sangrentas da História humana. Milhões de vidas seriam destruídas por uma ideologia construída sobre o ódio racial, o nacionalismo extremo, a desumanização do outro e a crença na superioridade de uns sobre os demais.
Por isso, todos os anos, a Rússia assinala esta data como um dia de luto e memória. A cerimónia realizada em Moscovo, com a deposição de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, recorda os milhões de soldados e civis que perderam a vida naquilo que os russos designam como a Grande Guerra Patriótica.
Mas a memória só tem utilidade se servir de alerta.
O nazismo foi derrotado militarmente em 1945, mas as ideias que o alimentaram nunca desapareceram por completo. Permaneceram latentes, à espera de tempos de medo, de crises económicas, de insegurança social e de desilusão política para voltarem a emergir.
Hoje, a Europa assiste com inquietação ao crescimento de movimentos de extrema-direita, alguns dos quais recuperam discursos de intolerância, de supremacismo étnico, de demonização de minorias e de rejeição dos valores democráticos que nasceram precisamente das cinzas da Segunda Guerra Mundial.
Importa distinguir: nem toda a direita é extremista, nem todo o conservadorismo é antidemocrático. Porém, seria igualmente um erro ignorar que, em vários países europeus, grupos assumidamente neonazis e organizações de extrema-direita radical voltaram a ganhar visibilidade e capacidade de influência, sobretudo através das redes sociais e da exploração dos receios e frustrações de muitos cidadãos.
A História ensina-nos que as democracias raramente morrem de um dia para o outro. Morrem lentamente, quando a intolerância se normaliza, quando a mentira se torna aceitável, quando o ódio encontra justificação e quando se acredita que determinados direitos só pertencem a alguns.
O 22 de junho de 1941 não deve ser apenas uma data recordada pela Rússia. Deve ser uma advertência para toda a humanidade. O nazismo não é uma ameaça porque possa regressar exatamente com os mesmos símbolos e uniformes de há oito décadas. É uma ameaça porque as ideias que lhe deram origem continuam a poder reaparecer, adaptadas aos tempos modernos, alimentadas pelo medo e pela divisão.
Oito décadas depois, a melhor homenagem aos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial continua a ser a mesma: não esquecer, não relativizar e nunca permitir que o ódio volte a vestir-se de normalidade. E isso já acontece se olharmos para Israel.

