Francesca Albanese, uma voz pela justiça que o lobby israelita tenta silenciar

(Michael Lynk in Resistir, 26/02/2026)


Grupos israelitas de lobby propagaram citações adulteradas da Relatora Especial da ONU para os Direitos Humanos, Francesca Albanese, a fim de difamá-la.   Esta campanha desesperada é uma prova do seu bom trabalho e da ameaça que representa ao responsabilizar Israel pelo genocídio.


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Mark Twain e Winston Churchill teriam dito que uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças.

Em 7 de fevereiro, Francesca Albanese, atual Relatora Especial da ONU para os direitos humanos na Palestina, fez uma breve apresentação por videoconferência num fórum dos media em Doha, no Catar, organizado pela rede Al Jazeera. Ela participou de um painel que incluiu Fatou Bensouda, ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional, falando sobre o papel do direito internacional no tratamento de graves violações dos direitos humanos.

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Mais valia estarem calados

(João Gomes, in Facebook, 25/02/2026)


Em 2025 escrevi sob o peso de uma guerra prolongada e de um ambiente estratégico saturado de medo, rearmamento acelerado e retórica maximalista. A Europa despertava tarde para vulnerabilidades acumuladas, investia em defesa, falava de autonomia estratégica – mas fazia-o num clima psicológico que começava a normalizar o impensável. É nesse espírito de guerra que devem ser enquadradas as declarações de ontem do almirante na reserva Henrique Gouveia e Melo.

As suas palavras exatas foram claras: a Rússia só teria vantagem num conflito prolongado com a União Europeia se recorresse à guerra nuclear – algo que considerou “impensável”, porque as ogivas nucleares de França e Reino Unido seriam suficientes para dissuadir. “Não é preciso ter mil ogivas nucleares, basta 200 ou 300 para destruir o território todo”, afirmou.

Importa ser intelectualmente rigoroso: o almirante não defendeu a proliferação nuclear europeia. Referia-se ao arsenal já existente de França e Reino Unido como suficiente para dissuasão. A crítica, portanto, não é sobre expansão nuclear. É mais profunda do que isso.

1. A banalização aritmética do apocalipse

Mesmo no contexto da dissuasão, afirmar que “basta 200 ou 300 para destruir o território todo” reduz a questão nuclear a uma equação quantitativa. Ora a dissuasão não é uma operação de contabilidade. É um equilíbrio psicológico, político e estratégico extremamente delicado. Transformar centenas de ogivas – instrumentos de devastação irreversível – num argumento quase técnico produz um efeito perigoso: normaliza a linguagem da aniquilação como parte aceitável do debate corrente.

Dizer que algo é “impensável” enquanto se descreve, com aparente serenidade, a capacidade de destruição total cria uma tensão retórica inquietante.

2. A ilusão da estabilidade automática

A ideia implícita nas declarações é esta: a Rússia não recorrerá ao nuclear porque sabe que a resposta franco-britânica seria devastadora. Essa lógica parte de três pressupostos discutíveis:

– racionalidade perfeita de todos os atores;

– ausência de erro de cálculo ou escalada acidental;

– inexistência de cenários intermédios (uso limitado, demonstração tática, erro técnico).

A história da dissuasão nuclear mostra que o equilíbrio não depende apenas do número de ogivas, mas da prudência política, da comunicação controlada e da redução da retórica inflamada. Quanto mais o discurso público passa a falar em números de destruição total, mais se enfraquece a própria cultura estratégica que sustenta a estabilidade.

3. O “espírito de guerra” como enquadramento mental

O almirante identifica os próximos três anos como período de maior risco, associa vulnerabilidade europeia a um ciclo político específico e defende a necessidade de “prender a Rússia na Ucrânia” até que o rearmamento europeu esteja completo. Isto não é apenas análise estratégica. É a consolidação de uma mentalidade de contenção prolongada, quase estrutural.

Quando o debate passa a assumir como dado adquirido um horizonte de confronto inevitável, a política deixa de procurar saídas e passa a gerir tensões permanentes. É esse o verdadeiro risco do espírito de guerra: ele infiltra-se na linguagem antes de se manifestar nos campos de batalha.

4. Força não substitui estratégia

A Europa tem desafios reais:

– dependências estratégicas passadas,

– necessidade de reforço industrial e militar,

– incertezas na arquitetura transatlântica.

Mas nenhuma dessas fragilidades se resolve através da evocação explícita da capacidade de destruir “o território todo” de um adversário. A credibilidade europeia constrói-se com coesão política, capacidade industrial, clareza diplomática e prudência estratégica – não com a quantificação do poder de aniquilação.

5. A responsabilidade da palavra

Um almirante na reserva e ex-candidato presidencial não fala como comentador casual. Fala como alguém que conhece o peso real da guerra. Num continente que vive sob a sombra histórica de duas guerras mundiais e sob o equilíbrio nuclear desde 1945, a responsabilidade da palavra é parte da própria estratégia. A dissuasão funciona melhor quando é silenciosa. Quando se torna argumento televisivo, perde parte da sua racionalidade e ganha dimensão emocional.

Tem de se recusar a normalização discursiva do fim. Falar de centenas de ogivas como variável suficiente para “destruir o território todo” pode parecer frieza estratégica. Mas pode também revelar uma preocupante habituação à ideia do irreversível. Num tempo em que o espírito de guerra se infiltra no vocabulário político europeu, talvez a verdadeira maturidade estratégica consista em conter não apenas arsenais – mas também palavras.

Por vezes, a prudência não é fraqueza. É civilização. E, sim, há momentos em que mais valia estarem calados.

Bom dia!

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O “caso Mortágua” e o estado da Universidade e do Parlamento

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 24/02/2026, Revisão da Estátua)


É conhecida a metáfora do sábio que aponta para o céu e o ignorante olha para o dedo. Perante o ataque a Mortágua, uma onda de solidariedade da área política de Geringonça veio defendê-la dizendo o óbvio – o seu mérito científico é comprovado. Estou totalmente de acordo.

O que não posso concordar é que, perante este ataque, dirigentes políticos respondam apontando os méritos de Mortágua, indiscutíveis. Mas ignorem o céu, neste caso o inferno, que é a degradação, quer do sistema Universitário, quer da esquerda na sua relação com o Parlamento. Por cada Mortágua que acede aos concursos 70% fica para trás, no mínimo, com o mesmo currículo. E sim, o Parlamento é uma porta giratória de acesso a lugares escassos, por ausência de um sistema público científico nacional, que acaba por ter como função exportar quadros, precários, e distribuir cá lugares de gestão entre a esquerda e a direita, abraçadas no projecto neoliberal.

Sou professora, como é público, na FCSH/UNL de educação e história e delegada sindical do ensino superior, historiadora marxista, docente concursada com um projecto teórico-metodológico marxista e cidadã socialista. Não há qualquer neutralidade na minha vida. A minha teoria, docência, tempo sindical ou militância são uma só na mesma pessoa; procuro fazer tudo com o mesmo com rigor, objectividade e verdade, não isenta de erros, porque pensar e trabalhar é errar. O que aqui escrevo não é sobre uma Universidade em particular, nem sobre um caso, o de Mariana M., e só a mim me responsabilizam estas palavras; trata-se de opinião, livre, não há outra na Universidade. Sem liberdade não há pensamento.

A Universidade está a passar pela sua maior crise, há quem diga que a Universidade de Humboldt morreu – o projecto neoliberal, hoje aplicado por gestores de esquerda e de direita, é isolar os catedráticos, que se vão reformando, e substitui-los pelo poder dos professores-gestores, uns tiranetes que fazem a Universidade medieval parecer um paraíso.

E que recrutam os FCT tenures, bolseiros, e convidados, que fazem o trabalho docente, sem liberdade de cátedra, obedecendo às agências de financiamento determinadas pelo Estado e pela UE, sem autonomia. Temos assim parcerias! com a NATO, a SONAE, as farmacêuticas, fundações privadas como a Francisco Manuel dos Santos, do Pingo Doce. Há anos estive num projecto sobre os trabalhadores onde um director de uma das Universidades mandou retirar o seu logo porque não tinha sido ouvida a direcção da empresa dos referidos trabalhadores! Sequer ele compreendeu quando um colega lhe respondeu que ter directores de empresa num projecto nos impedia de fazer ciência…Fizemos o projecto, gratuitamente, no Observatório para as Condições de Vida.

A docência com liberdade de cátedra/carreira (as duas são indissociáveis) devia ser o mais nobre da Universidade, feita com investigação e divulgação, e os cargos de gestão nunca deviam contar para a carreira (a gestão devia ser democrática e feita por todos). O que há agora é degradação do acto docente, da aula, que aliás pouco ou nada conta na avaliação face à métrica dos artigos, para a alimentar a IA.

E carreiras, por este andar, só vai haver para os que acumulam cargos de gestão. E para algumas dezenas dos milhares de lambe botas que assistem a tudo isto em silêncio à espera de uma “progressão interna” – progressões inventadas pela Nova Gestão Pública para garantir a paz social. É a cumplicidade e servidão de que falava La Boétie e Primo Levi. Por isso é possível hoje trabalhos em IA serem avaliados com ajuda de IA…Um teatro brechtiano.

E não se enganem. Não é só dinheiro, é poder. Algumas destas pessoas ganham já 2800 ou 3500 euros líquidos, estão sentados a ouvir directores e reitores, e ficam em silêncio…

E o Parlamento? Oh meu Deus! É uma porta giratória entre cargos não só nas empresas mas no aparelho de Estado. A burguesia sempre governou com um corpo executivo de burocratas – políticos profissionais, traficantes de influências. A esquerda, contra isto, defendia, no século XIX, que não devia haver políticos profissionais pagos pelo Parlamento, porque iam passar a obedecer ao Estado, em vez de organizar as classes trabalhadoras e o mundo da cultura. Política é o que todos devemos fazer, em part time, e não deve haver um euro publico para remunerar partidos. Que são partes, representam interesses na sociedade e devem lutar pelas suas ideias, mas não com dinheiros públicos.

O que vemos, desde a vitória do nacionalismo há 120 anos, é que os políticos de esquerda também se tornaram profissionais. E que o seu acesso ao aparelho de Estado garante um capital simbólico, redes de contactos, que lhes dão emprego pela vida fora. Se os corruptos, em geral de direita, ganham milhões em empresas, os genuinamente incorruptíveis, em geral de esquerda, ficam com um emprego bem pago e uma boa reforma garantida. Algo que mais de 70% da população não tem.

Mortágua tem um emprego de professora porque o merece, mas há milhares que o merecem e não têm. Porque não debatemos este inferno?

O inferno é este. Não há um ataque neoliberal a Mortágua, porque esse ataque, neoliberal, já foi feito há muito e ele é hoje o dia a dia da Universidade. Os professores convidados e leitores estão sobrecarregados de aulas e piores horários, ali, ao nosso lado, sem emprego seguro; os cargos de gestão são o trampolim para subir a catedrático, ao mesmo tempo que se acusam os catedráticos de ser a peste. AUniversidade corporativa, com carreiras, é um paraíso ao pé desta, onde se trabalha para plataformas de dados e certificações como lembrou o catedrático marxista que se dedicou a estudar a Universidade neoliberal, Carlos Fernandez Liria ou o ex reitor e educador, também marxista, Roberto Leher.

Há muito que defendo quatro medidas e acções:

Que os concursos em Portugal deviam ser como no Brasil. Quem concorre tem que dar uma aula pública, escrever um exame que é afixado no corredor ao público, defender o seu currículo em público, preparar e defender de portas abertas uma disciplina. Como na agregação em Portugal, mas no Brasil é regra para todos os concursos. Ou como na França, um concurso nacional.

Que quem ocupa lugares de gestão e de poder não eleitos pelos pares em sufrágio universal não deve ser sindicalizado (façam um sindicato de gestores). Quem serve as agências de financiamento, o Estado, a colecta de dados, é patrão, não é colega. Quem impõe regras demenciais, como avaliação anónima de alunos ou o preenchimento de plataformas, medidas pedagógicas que colidem com a liberdade de cátedra, está a “cumprir ordens” de cima, não está a defender os “colegas”.

Que ser político é uma obrigação, cidadã. Não um emprego. Que ser socialista é lutar por organizar as pessoas, para a sua auto emancipação, não é pedir-lhes o voto e ficar a discursar no Parlamento, aprovando leis irrelevantes ou, quando relevantes, não cumpridas sequer.

Que deviamos fazer greve, por tempo indeterminado, nós os fixos pelos precários, e exigir contratos públicos para todos e carreiras com financiamento público. Como nas lutas de Cordoba de 1919. E nessa greve íamos todos os dias à Universidade fazer plenários, onde todos podemos falar e ser ouvidos, debater que carreiras queremos, que avaliação queremos, o que é Universidade.

Espero, ter ficado claro que não estou preocupada com os ataques dos neoliberais de esquerda e de direita à Universidade mas com aqueles que – à esquerda ou à direita – defendem por palavras a autonomia e o esclarecimento iluminista e crítico, mas são cúmplices, de facto, deste modelo devastador. Vamos fazer greve?

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