O gambozino da maioria absoluta

(Francisco Louçã, in Público, 22/08/2017)

 

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Este texto sugere-me alguns comentários caro Louçã:

  1. A direita já viu que a Geringonça vai até ao fim da legislatura.
  2. Tenta atrair o PS com “os cânticos da sereia” da maioria absoluta.
  3. Prepara a saída de Passos Coelho para tornar eventuais acordos ao centro mais tentadores e menos indigestos para o PS.
  4. Tenta convencer o PS que, mesmo sózinho, a maioria absoluta pode estar ao virar da esquina.
  5. Tudo fábulas encantatórias. Em eleições gerais, em 2019, antevejo um reforço eleitoral dos partidos à esquerda do PS, se até lá não cometerem grandes asneiras, como, por exemplo, abrirem uma crise política.
  6. E a razão é simples: todas as reversões na política de rendimentos que melhorou a vida das pessoas foram consequência das exigências ao PS feitas por esses partidos. Os eleitores viram que o seu voto quer no BE quer no PCP deixou de ser apenas um voto de protesto e que passou a ter influência na governação, logo nas suas vidas. 
  7. Logo, não há razão para que mudem o seu sentido de voto,, antes pelo contrário: muitos pragmáticos de centro-esquerda terão tendência a reforçar tal sentido de voto, porque ele passou a ter relevância prática e para que o PS enterre de vez as suas tentações de construir alianças ao centro, tipo bloco central.

Estátua de Sal, 22/08/2017


Que há quem garanta que os gambozinos existem, é ponto assente; mas que nunca foi caçado tal bicho, parece mais do que certo. Descontando as inquietações popperianas sobre a dificuldade de refutar a primeira hipótese, resta o problema maior para os duvidantes: devemos caçar gambozinos na presunção de que existem ou de que não existem? A questão complica-se ainda mais para quem sustenta que a inexistência de provas documentadas sobre alguma aparição do animal sugere que se trate de uma ficção. Então, a questão passa a ser: devemos aceitar a ideia da caçada que tomamos por pueril ou devemos recusar o jogo, ainda que algum dia pudesse ser provado que a ausência do registo do bicho foi descuido nosso?

A questão da maioria absoluta é mais ou menos como escolher com que estado de espírito se devem caçar gambozinos. Se tomamos por certo que não haverá maioria absoluta possível na actual configuração da relação de forças, então nem vale a pena considerar a fera. E há boas razões para tal agnosticismo: para uma maioria absoluta, o PS teria de comprimir o PSD muito para além do seu mínimo histórico, mesmo considerando que o CDS já está enfraquecido. Então, a única questão interessante passa a ser: porque é que se fala de coisa nenhuma e se discute uma inviabilidade, ou porque é que nos entretemos com uma veleidade gabozinesca?

A resposta pode ser: não interessa a fantasiosa maioria absoluta, interessam os motivos para se falar dela. Exemplo, para o director do Expresso é preciso que o PS tenha maioria absoluta para então ser mais pressionado do que agora. O raciocínio é decerto contraditório com a experiência dos eleitores: eles sabem que se o PS tivesse tido maioria absoluta teríamos tido pensões congeladas por mais quatro anos, redução nas pensões sociais (o previsto era 1020 milhões) e uma nova regra para facilitar despedimentos, pelo menos. O problema não é de pressões, é de realizações.

O director do PÚBLICO segue outra via e pergunta-se se a entrevista recente de Costa, sugerindo um pacto com o PSD depois das autárquicas para decidir fundos estruturais, é mesmo uma abertura a um novo bloco central e portanto a uma maioria absoluta que “só será possível se for construída por quem tem ideias semelhantes sobre como funciona a economia livre, num mercado europeu e cada vez mais global e competitivo.”

Desculpem a franqueza, mas são gambozinos. Nem haverá pacto, cujo enunciado é o tradicional jogo do empurra das culpas, nem haverá vontade de mudar de parceiro a meio do tango. Haverá mais dificuldades nesta segunda metade do mandato, isso tratarei proximamente, mas ninguém pode voltar para trás. É aliás por causa desta certeza que alguns preferem sonhar com a maioria absoluta, reconhecendo que nada podem fazer agora contra as condições que impuseram esta forma de maioria.

Para o PS, a maioria absoluta é também um gambozino: é evidentemente desejada, mas para jogar esse jogo tem de garantir que não conhece o bicho. Ora, vale a pena perguntar porquê. Qualquer enlevo do PS com essa ideia faria ressuscitar os temores de muitos dos seus eleitores, e mais ainda daqueles que precisa de ganhar para concretizar tal ambição, de que o PS volte ao seu programa e à sua política tradicional. Ou seja, para muitos eleitores do PS, a satisfação com a governação actual deriva essencialmente da certeza de que as circunstâncias excepcionais obrigaram o PS a um acordo com a esquerda. E uma maioria absoluta do PS significaria romper com esse acordo para voltar a um passado que assusta.

Assim, a equação gambozino passa a ser: o PS sabe que só conseguiria a maioria absoluta que lhe permitiria afastar os seus parceiros de esquerda se garantisse aos eleitores que nunca o faria e que, se tivesse o poder absoluto, nunca cumpriria o seu programa, antes continuaria submetido a esse mesmo compromisso que pretenderia romper. Gambozinos, portanto.

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Voltar a falar de economia

(In Blog O Jumento, 22/08/2017)

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Entre praias, incêndios, falsos suicidas, assaltos mal esclarecidos e, mais recentemente, atentados terroristas, pouco se tem falado do país e quando se fala a seriedade não é muita, como aconteceu com a resposta do líder parlamentar do PSD a propósito da proposta de António Costa em relação às infraestruturas.

 É evidente que a direita não quer falar de economia, Passos e Cristas são agora devotos do diabo e já não analisam a realidade pelas páginas de economia, preferindo os obituários. O jornal preferido da direita já não é o Expresso, o tipo de notícias que mais excitam Passos e Cristas é mais o tipo de jornal que mostra mortos e feridos, assaltos e escândalos na primeira página. Até o Observador já parece outro, depois de meses a dedicar a home page a notícias sobre subidas de juros ou entrevistas com analista de empresas de rating, dedica-se agora a incêndios, um dia destes ainda vamos pensar que o José Manuel  Fernandes é porta-voz da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Compreende-se que a direita fuja do tema economia como o diabo da cruz, as boas notícias para o país não são a praia de Passos e Cristas. Mas a verdade é que quando os incêndios estiverem apagados o país será confrontado com a realidade e mesmo que as boas notícias desagradem à direita teremos de falar de economia. Há todo um presente e um futuro para discutir, ainda há gente a sofrer com a austeridade, há muitos portugueses que ainda têm de suportar a sobretaxa, há impostos a mais, há problemas para resolver.

Oxalá os problemas económicos pudessem ser apagados como se apagam os incêndios, mas isso não sucede. Quando algumas populações mais atingidas pelos incêndios já estiver esquecida do verão de 2017, ainda subsistirão muitos problemas na economia portuguesa. É por isso que é urgente voltar a falar de economia, debater as propostas do governo e exigir a Passos e a Cristas que digam o que querem.


Fonte aqui

Sócrates: muita parra e pouca uva, acusação nem vê-la

(Dieter Dillinger, in Facebook, 22/08/2017)

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O “Observador” já recebeu do Amadeu Guerra a desculpa porque não vai ser cumprido o prazo determinado até 15 de Setembro para finalizar a “Operação Marquês”.

Dizem os magistrados ao “Observador”:

Porque não vai ser cumprido o prazo de 15 de setembro.

Por 2 razões essenciais:

Diligências que ainda não foram cumpridas, nomeadamente cartas rogatórias emitidas para diferentes estados europeus (Reino Unido e Luxemburgo) a solicitar o envio de informações bancárias e comerciais que ainda não tiveram resposta;
•Nova linha de investigação relacionada com o Grupo Espírito Santo que levou ao desenvolvimento de mais diligências.
A eterna desculpa das cartas rogatórias que foram enviadas no início do inquérito.

Mas, a despropósito, houve uma carta rogatória que foi respondida pelo “Serious Fraud Office” britânico que disse que o grupo Ferrostaal depositou 23 milhões de euros no BESCOM UK sem qualquer função que não fosse o pagamento de subornos a Paulo Portas e José Manuel Barroso pela aquisição de submarinos. Nem a Joana M. Vidal nem o Amadeu Guerra fizeram qualquer investigação, apesar de toda a gente saber que os dois nomes são mencionados por serem os únicos decisores respeitante à compra de material no valor de mais de mil milhões de euros.

O não cumprimento do prazo da “Operação Marquês”, que vai em mais de quatro anos e meios, contudo, já se adivinhava desde o final do ano passado.

Recordando — e contextualizando – diz o Observador como voz canídea dos donos da magistratura:

O prazo de 15 de setembro foi estabelecido a 30 de março por despacho de Amadeu Guerra, diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e devidamente publicitado por um comunicado da Procuradoria-Geral da República. Mas esse despacho do líder do DCIAP já deixava adivinhar um novo adiamento porque assumia que ainda estavam em curso diligências de cooperação internacional (“3 cartas rogatórias”) e admitia a fixação de um novo prazo mediante “razões excecionais, devidamente justificadas e fundamentadas”.

Acresce que este prazo foi fixado por Amadeu Guerra num clima de alguma tensão com Rosário Teixeira, procurador-geral adjunto responsável pela investigação da Operação Marquês, e Paulo Silva, inspetor da Autoridade Tributária que assume no caso o papel de órgão de polícia criminal por estarem em causa, entre outros crimes, alegados ilícitos fiscais.

Por um lado, Rosário Teixeira recordou em novembro de 2015 que, naquela altura, ainda tinha de ouvir 20 testemunhas, ler mil documentos e analisar 5.540.127 ficheiros informáticos. Agora já são ou foram 9 milhões, devendo ter sido adicionados mais por haver mais arguidos.

Por outro lado, existia uma divergência profunda na estratégia a seguir. Joana Marques Vidal, procuradora-geral da República, e Amadeu Guerra queriam um despacho de encerramento de inquérito mais rápido, concentrado nos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais imputados a José Sócrates, cujo valor era muito baixo por se cingir a empréstimos particulares do amigo de Sócrates, entretanto pagos. Rosário e Silva insistiam em incluir as imputações de corrupção para terem uma acusação mais global. E para isso necessitavam de tempo.

Curiosamente, Paulo Silva chegou a apontar no final de 2015 a data de setembro de 2016 como dead line desejável — prazo do qual o diretor do DCIAP discordava abertamente, conforme escreveu num despacho datado de 11 de novembro.

Amadeu Guerra mudou de ideias em março quando fixou então o novo prazo — 15 de setembro — que agora é alargado. E Joana Marques Vidal mostrou estar em consonância com a equipa de Rosário Teixeira ao autorizar (e assumiu) a prorrogação da investigação por mais 6 meses.