Pedrada no charco

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 19/02/2018)

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(Rui Rio tirou uma Fraga da cartola. A direita está em pé de guerra contra homem. A Joana Vidal já mandou tratar do assunto, e com tanto sururu dos pafiosos e afins concluo que a escolha foi boa, tal o incómodo que está a causar. Por este andar a esquerda ainda vai ter que defender o Rui Rio perante os ataques dos direitolas, mormente do bafio que sopra das catacumbas da Justiça, mormente da Procuradoria.

Comentário da Estátua, 20/02/2018)


Rui Rio já tinha surpreendido, com perfume de escândalo, quando em campanha eleitoral para o PSD teve a ousadia de criticar o actual mandato de Joana Marques Vidal. As suas palavras causaram temor e tremor no laranjal por serem absolutamente contrárias à cultura decadente da actual direita portuguesa. Nessa decadência, Sócrates é uma obsessão diária (horária?) não só por razões ligadas à vingança oligárquica em curso, não só por motivos relativos à antropologia tribal e seus fenómenos de diabolização dos adversários em ordem a serem destituídos de humanidade e violentados sem qualquer limite, mas também, e profundamente, e essencialmente, porque os decadentes são decadentes por terem reduzido a política à conquista do poder pelo poder, para tal valendo tudo no manual da baixa política. Logo, não têm ideias de interesse comunitário nem valorizam a inteligência construtiva, basta-lhes o consolo de possuírem um troféu magnífico chamado Sócrates para exibir em parada e ir torturando e achincalhando com paixão maníaca. Daí terem pegado em armas, desvairados, na intenção de entronizar vitaliciamente a santa Joana, a heroína que lhes corre nas veias.

Com a escolha de Elina Fraga para vice-presidente do PSD, Rio fez uma outra coisa que já não se consegue descrever apenas recorrendo aos vocábulos “surpresa” e “escândalo”. Talvez indo buscar “shock and awe” nos aproximemos, embora quem melhor conseguiu até agora traduzir conceptualmente o que está em causa tenha sido Paula Teixeira da Cruz: “chama-se traição“. E de facto, pelo menos esse facalhão no lombo dos pulhas está garantido. Só que se trata de uma traição àqueles que atraiçoaram os fundadores do partido, que atraiçoaram os valores da decência e da lei democrática, e que atraiçoam constantemente a sua honra ao se submeterem voluntariamente à degradação última: transformarem a sua palavra na realização da sua miséria. Seja lá o que for que Rio tenha pretendido alcançar com a decisão, ela fica absolutamente original; seja no plano do seu trajecto político individual, seja no plano do ecossistema da direita dos últimos 14 anos.

Fraga chega aqui depois de ter cometido o crime de ter falado em defesa do Estado de direito a propósito da “Operação Marquês”, entre outras avarias fonte de asco para os fanáticos do empobrecimento e do castigo aos piegas e madraços instalados na sua zona de conforto. O ódio não lhe perdoa ter tentado apelar aos princípios constitucionais perante um linchamento institucional e mediático em curso.

Acresce a este cadastro o ser mulher, saber do que fala e não ter especial gosto em passar despercebida. Vai ser o bombo da festa da pasquinagem – precisamente porque promete ser uma translúcida fonte de dignidade e coragem no charco degradante em que se encontra a direita nacional.


Fonte aqui

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Um ostensivo cheiro a chantagem

(Jorge Rocha, in Ventos Semeados, 19/02/2018)

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O descaramento dos procuradores do Ministério Público já atingiu tal dimensão que não constitui propriamente uma surpresa a notícia de ter bastado Rui Rio anunciar a disponibilidade para acordos de regime sobre a Justiça, para que os apaniguados de Joana Marques Vidal logo anunciem uma investigação a Elina Fraga no dia seguinte a saberem-na designada vice-presidente do PSD.

A mensagem é óbvia: os responsáveis pela inaceitável politização do poder judicial, há quinze anos  – com a corrupta investigação sobre a  pedofilia na Casa Pia – a tentarem prejudicar continuamente o Partido Socialista de forma a perenizar a direita no poder, constituindo-se ela numa barriga de aluguer para a proclamada intenção de transformar a República portuguesa numa ditadura dos magistrados.

A História tem-nos ensinado – quer em Itália, quer no Brasil – que a judicialização da política tem criado as condições ideais para a emergência de um fascismo ordinário que empobrece os respetivos povos, os torna presa fácil dos demagogos mais insanos.

É só uma questão de comparar o investimento feito nestes últimos anos nas investigações (em tempo e em muito, mas mesmo muito dinheiro!) contra Armando Vara, José Sócrates, José Magalhães, Conde Rodrigues, ou mesmo Mário Centeno, com as avançadas contra o grupo cavaquista do BPN (incluindo Dias Loureiro), Duarte Lima e, sobretudo, Paulo Portas. Quantos dias de prisão, mesmo sem provas que os fundamentassem, para políticos socialistas e quantos para os dos partidos das direitas, esses sim com comprovativos indisfarçáveis das suas corruptas atividades?

 Não surpreende que, nas direitas, se exija com tão intenso vigor a renovação do mandato da Procuradora Geral: ela tem sido o seguro de vida para que os interesses vinculados às direitas sejam acautelados sem que ninguém os belisque. Ainda este fim de semana a múmia de Boliqueime veio acrescentar gás (por certo fétido) a tal esforço.

O que o grupo que conspira ativamente contra a prevalência dos valores republicanos na Justiça não pode aceitar é que o seu braço político mais forte se vire contra si. A intenção manifestada por Rui Rio para alterar os desequilíbrios acumulados nos últimos anos e traduzidos em indignas violações do segredo de Justiça, foi oralmente expressa por Paula Teixeira da Cruz, que não hesitou em considera-la uma traição. Daí esta tentativa ostensiva de chantagear a nova direção do PSD instando-a a não se afastar do trilho dos últimos anos. Acaso o façam ficam sujeitos a também se verem na via sacra da devassa da vida privada devidamente transposta para o vómito matinal em forma de uma coisa que tentam considerar um jornal.

Resta saber se Rui Rio se acobarda ou se se juntará a quem, conhecendo bem por dentro o antro donde saiu para exercer as funções de Ministra, estará em condições de proceder ao devido saneamento.

Apesar das pressões de Marcelo em contrário, importará começar pela caducidade do mandato da testa-de-ferro do grupo em causa tão só termine o mandato daqui a nove meses, oferecendo ao sucessor uma boa barrela com que comece a tratar das manchas que conspurcam a instituição.


Fonte aqui

Rios não confluentes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/02/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Durante três dias observadores e oradores do congresso do PSD dedicaram-se ao “sexo dos anjos”, como lhe chamou Rui Rio: o regresso do bloco central. Se o debate é saber se o PSD está disponível para debater com o PS ou qualquer outro partido as grandes reformas que defende, é só um debate idiota. Qualquer partido que não seja liderado pelo ressentimento, como foi nos últimos dois anos, está disponível para aprovar as reformas que defende. Se se trata de permitir que o PS passe a governar com o pisca-pisca, umas vezes à esquerda outras vezes à direita, não me parece que o próximo ano e meio o permita e que seja sequer isso que esteja na cabeça de Rio. Nas suas duas intervenções Rio deixou clara a naturalidade com isto tem de ser encarado. O facto deste ser o grande cisma deste congresso diz até que ponto é nebulosa toda a restante linha estratégica de Rui Rio.

É significativo que o discurso politicamente mais clarificador na noite de sexta-feira não tenha sido o do novo líder, mas a do cessante. Passos Coelho reafirmou o que disse nos últimos anos sem que, em nenhum momento, tenha sido contrariado no congresso. A sua intervenção, que pretendeu reafirmar a natureza “pragmática” do PSD, não poderia ter sido mais ideológica. Uma intervenção fortemente antissocial-democrata, que insistiu em tratar serviços e prestações públicas como mera resposta a clientelas eleitorais. E que repisou aquela que foi a maior marca discursiva da sua liderança: a ideia de que tudo o que permita que as pessoas respirarem um pouco é irresponsável.

Se é tempo de crise são necessários sacrifícios, se a economia melhora continuam a ser necessários sacrifícios para prevenir o futuro. A austeridade eterna é a promessa que Passos Coelho quer que o PSD seja portador. O problema é que se o futuro for sempre uma promessa adiada a governação faz-se sempre contra a maioria das pessoas. Passos diz que isso é não querer agradar.

O grande problema das intervenções de Rui Rio (o de abertura foi muito mais fraco do que o de encerramento), é que julga poder manter-se na linha deste discurso passista em matéria económica, mudar o tom na agenda social e fazer ruturas do ponto de vista da saúde da nossa democracia. A crise da confiança dos cidadãos na democracia não resulta de questões institucionais, como o modo de eleição dos deputados, mesmo que essa seja a forma mais fácil de lidar com o problema. Ela é transversal a países com modos muito diferentes de eleger deputados e desenhos institucionais muito distintos. A crise da democracia corresponde à incapacidade da política responder às ansiedades das pessoas. É uma crise substantiva, com uma forte relevância no crescimento da desigualdade, não é uma crise formal. E Rio acredita que é mexendo na forma que resolve a substância.

Ninguém conhece em grande pormenor o que Rio considera serem “as reformas que são precisas” em matéria de regime político. Para além de umas generalidades, umas generosas outras disparatadas, elas não passam de um nobre desconforto com uma política que se afasta das pessoas e com um discurso demagógico que ganha espaço, a que ele próprio não consegue responder. Mesmo a sua corajosa posição em relação à judicialização da política e a politização da justiça, que subscrevo na integra, pouco ou nada depende de qualquer “reforma estrutural”. E a sua coragem logo tropeçou na escolha de Elina Fraga, antiga bastonária da Ordem dos Advogados que, em 2014, fez uma queixa-crime contra Passos Coelho e o seu governo por causa do mapa judiciário. Querem mais judicialização da política do que isto? Rui Rio tenta-se afastar da política de casos e escândalo, da demagogia e do justicialismo, em que a direita partidária e mediática tem apostado. É nobre da sua parte, mas poucas vezes um líder teve tão desfasado da corrente para onde segue o seu espaço político. Ao ponto de não conseguir rodear-se de pessoas que cumpram os mínimos nesta sua exigência.

Foi no discurso de encerramento que Rui Rio tentou o tão famoso recentramento, que ameaçava tornar-se no mito urbano deste congresso. Dedicou-se, acima de tudo, às políticas sociais. Cometeu alguns erros comuns. As suas boas intenções sobre a crise demográfica portuguesa teimam, tal como acontece com o CDS, em ignorar as condições sociais, económicas e laborais que levam os jovens a não tomar a decisão de ter filhos. Num partido que nunca teve na primeira linha no combate à precariedade, a conversa sobre a demografia vale de pouco. E Rio não falou de precariedade ou sequer de emprego. Quanto à segurança social, houve um piscar de olho ao PS sobre a sustentabilidade da segurança social. Só quando chegarmos às propostas é que saberemos de que massa é feito Rui Rio. Nisto, como em várias áreas que enumerou, ficou-se por um diagnóstico consensual. A exceção foi o que disse sobre o Serviço Nacional de Saúde, em que subscrevo todas as críticas que fez a este governo e lamento que não tenha tido a honestidade de as estender ao anterior. Mas Rui Rio parece querer mudar o tom sem fazer qualquer balanço do papel do PSD naqueles quatro anos de crise. Na educação, nem o tom muda. Repegou o discurso conservador de Nuno Crato, o ministro que reverteu um dos mais largos consensos que havia na política portuguesa. Espero que o moderado David Justino tenha, no seu novo cargo, tempo para explicar umas coisas a Rui Rio.

É quando chega à economia que Rio patina e isso está muito longe de ser um pormenor. Insiste na absurda dicotomia entre mercado interno e exportações, repetindo, mesmo que num tom menos castigador, todos os erros de análise do governo de Passos Coelho. A insistência em ver o aumento do consumo interno como um problema, ignorando que ele está aumentar ao mesmo tempo que assistimos a um crescimento económico acima da média europeia, demonstra que, apesar de toda a retórica, continua a subsistir um preconceito com a redistribuição da riqueza. Nunca chegou a altura das pessoas sentirem as vantagens do crescimento.

Juntando a intervenção de abertura e de encerramento, verificamos que Rui Rio tem um problema de dessintonia entre as suas várias agendas. Na justiça e noutras áreas, tem um forte cunho pessoal e quase nenhuma base de apoio política na área do PSD. Faz um discurso social muito genérico e quase exclusivamente concentrado no diagnóstico que se esforça por regressar ao PSD pré-passista, recentrando-o. Mas falta-lhe um discurso económico que o distinga de Passos Coelho, parecendo continuar a ver como um problema a participação de mais cidadãos nas vantagens de um crescimento acima da média europeia, visível com o aumento do consumo privado, e insistindo na falsa escolha entre exportações e mercado interno. Há uma dissociação de discursos que não se tocam para manter uma continuidade impossível com o passado recente. Ao ponto de comentadores e jornalistas acharem que Rio se aproximou, em simultâneo, do PS e do CDS. O que falta a Rui Rio é transformar as suas idiossincrasias políticas num discurso coerente. Aí acabarão as generalidades mais ou menos generosas que lhe permitem mudar o tom do PSD sem chocar com as grandes escolhas políticas que Passos fez.