A barbárie que nos governa… e triunfa (1)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 02/03/2026, revisão da Estátua)


Abedin Taherkenareh / EPA

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se.


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Depois da rábula da Gronelândia, do rapto e sequestro presidencial na Venezuela, como antecâmara da mudança de regime, da criminosa e desumana asfixia a que está submetido o povo de Cuba, chegou a vez do Irão. Já se previa, porque a aniquilação do regime independente iraniano é uma velha obsessão do sionismo internacional governante, de que o imperialismo norte-americano é o mais importante e fiável instrumento.

Esqueçam tudo quanto o nosso governo, a União Europeia, os Macrons, Merz, Starmers, Costas, Von der Leyens e outros energúmenos e energúmenas do género disseram sobre Donald Trump. Que era um louco, um demente, um aparentado de fascista, um inimigo da Europa, quiçá da NATO, um aliado de Putin e outros desvarios do mesmo tipo.

Esqueçam o mandado do Tribunal Penal Internacional emitido contra o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, as sucessivas declarações de reconhecimento do Estado Palestiniano feitas por governos da União Europeia, incluindo o português, as condenações, ainda que suaves, feitas ao regime sionista pelo genocídio do povo palestiniano.

Vivemos os dias em que todos os dirigentes ocidentais, desde os aparentemente menos trumpistas a todos os outros, acorreram, sem restrições, a beijar os pés de Donald Trump e as mãos sangrentas de Netanyahu, gratos pelo ataque bárbaro e assassino contra o Irão. Se os governos ocidentais já não passavam de caniches do império, agora resta-lhes seguir os rastos e ficar com as migalhas, cada vez mais racionadas.

Se são as horas dos beija-pés e beija-mãos a criminosos de guerra encartados, também são estes os tempos em que deixou de haver limites para a hipocrisia dos nossos dirigentes, arvorados em guias da «nossa civilização» superior e humanitária. 

Dizer que a selvajaria em curso contra o Irão se desenvolve para livrar o povo iraniano da tirania dos ayatollahs, como se ouve e repete desde Netanyahu ao joguete Montenegro, é o argumento em que só os débeis mentais poderão acreditar; sobretudo quando se sabe que o objectivo desta operação de terror é deitar a mão ao petróleo de um dos segundos produtores mundiais desta riqueza e devolver o governo do Irão ao jugo dos xás e correspondente polícia política, formada, industriada e coordenada pelo Mossad sionista É isso que está verdadeiramente em causa. Trump, Netanyahu, a União Europeia e até outros países e instituições menos «ocidentais» não querem saber para nada do povo iraniano, como aliás desprezam, por princípio, todos os povos do mundo.

Registe-se que, mais nuance menos nuance, os dirigentes não eleitos da União Europeia e a quase totalidade dos governos dos 27 (a Espanha de Sánchez é, de novo, a honrosa excepção) além de saudarem as acções ilegais norte-americanas e sionistas (à luz do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e das próprias leis dos Estados Unidos), não hesitam em condenar o Irão por responder militarmente à agressão.

Isto é, os governos mundiais – sejam eles quais forem – têm o dever de se ajoelhar e aceitar a punição quando as forças imperiais os atacarem apenas porque lhes apetece ou lhes convém.

É altura de nos interrogarmos por que razão a União Europeia se está a armar até aos dentes, arrasando o que resta das economias nacionais e ameaçando hipotecar o futuro das suas gerações mais jovens, invocando a simples suposição de que poderá ser vítima de uma agressão militar russa. Se os países que receiam ser atacados por Moscovo fizerem como Bruxelas e os seus governos amestrados exigem ao regime iraniano, podiam, pelo menos, poupar na militarização a todo o custo.

A última fronteira

Enquanto o enxame de comentadores que zumbe nas TV’s, nossas e dos outros – extasiando-se sadicamente com as supostas imagens do assassinado ayatollah Khamenei, um idoso com 86 anos, dirigente espiritual do Irão e da comunidade mundial xiita – se deleita com as maravilhas militares do imperial-sionismo e as limitações terceiro-mundistas de Teerão, avancemos um pouco mais, para as consequências que estão no horizonte se os agressores deitarem mão à velha Pérsia.

No início deste século, o general norte-americano Wesley Clark, que foi o comandante da NATO na Europa, escreveu que os neoconservadores, o suporte ideológico do imperialismo desde a queda da União Soviética, tinham como objectivo mudanças de regime ou, se necessário, a destruição de sete países que ensombravam o poder sionista e imperial sobre todo o Médio Oriente.

Esses países eram o Iraque, o Iémen, a Líbia, a Síria, a Somália, o Líbano e o Irão. O Egipto e a Jordânia já tinham sido conduzidos ao redil graças aos «processos de paz» montados sob «mediação» dos Estados Unidos e de Israel, pelo que não era necessário incluí-los na lista.

Não é preciso que o leitor faça grandes esforços de memória para recordar o que aconteceu e continua a acontecer a cada um desses países.

O general Wesley Clark não era um profeta nem um bruxo. Enquanto muitos dirigentes norte-americanos, sionistas, de países ocidentais e os seus mentores e apêndices, seja na banca, nos gangs económicos, nos media e no entretenimento, se refastelavam nas orgias de Epstein, revelando os seus elevados valores morais, cada um dos citados países foi abatido ao activo, contribuindo para o sossego dos salteadores sionistas – que assim puderam dedicar-se à sistemática chacina do povo palestiniano.

A Somália foi arrasada, e dessa operação veio a nascer uma aberração, a Somalilândia, agora transformada em braço militar de Israel no Corno de África. O Iémen estrebucha enquanto pode, depois de gravemente ferido durante a guerra programada que lhe foi movida pela Arábia Saudita, a rogo de Washington e Telavive. Em tempos recentes, os sectores patrióticos iemenitas ainda conseguiram incomodar Israel e perturbar o tráfego marítimo na região, mas a fragilização ou a eventual mudança de regime em Teerão irão pôr em causa essa resistência.

O Iraque está reduzido a uma pulverização de poderes tribais, religiosos e étnicos em todo o território, enquanto um arremedo de poder finge que governa – ainda assim sob tutela norte-americana – nos bunkers para lá da linha verde em Bagdade. O petróleo, porém, está nas mãos das multinacionais norte-americanas.

A Líbia foi arrasada. A guerra norte-americana e ocidental «contra o terrorismo» entregou o país a bandos de terroristas ditos islâmicos depois do assassínio repugnante de Muammar Khaddafi e o roubo das reservas de ouro do país. «Chegámos, vimos e ele morreu», declarou a secretária de Estado da Administração Obama, Hillary Clinton, mulher íntegra e com grande bagagem moral, ao desembarcar no território, a proclamar a tutela imperial e a garantir que o petróleo (as maiores reservas de África) passava a custar uns trocos às multinacionais do costume.

A Síria, que os Estados Unidos, Israel e a União Europeia entregaram a um chefe da al-Qaida, está a ser desmantelada para que, depois de correrem rios de sangue, fique transformada num quebra-cabeças de entidades étnicas, religiosas e tribais que nada obstem aos interesses dos Estados Unidos e de Israel. Antes disso, como já acontece, o petróleo escorre em direcção à entidade sionista e às vampirescas transnacionais. O próprio Trump assegurou que as suas tropas permaneceriam no país para tomar conta do petróleo.

O pobre Líbano, dizimado por sucessivas agressões de Israel ao longo de 50 anos, e pelas guerras internas apadrinhadas por Telavive e Washington, tem os dias contados caso o Irão independente não resista. Gravemente ferido pela desfecho da guerra imposta à Síria, o único movimento libanês armado, independente e com capacidade de resistência, o Hezbollah, dificilmente sobreviverá sem o apoio de Teerão.

O Irão, nascido do derrube do Xá Reza Pahlavi, em 1979, é a última barreira a ultrapassar pelo sionismo e o imperialismo, de acordo com os planos revelados há 25 anos pelo general Clark. Teerão garantia o apoio à resistência libanesa e iemenita, desenvolveu grande parte dos esforços para que a Síria não fosse desmantelada, ainda sustenta vários grupos que combatem pela independência no interior do Iraque. E, na verdade, o xiismo iraniano, num gesto que se sobrepõe a velhas questões religiosas, é o apoio que resta ao povo palestiniano, maioritariamente muçulmano sunita.

O Irão independente é a resistência que sobra para evitar que o sionismo e o imperialismo assumam o poder absoluto em todo o Médio Oriente e travar os avanços para a construção do Grande Israel, o sonho colonial e expansionista nascido no fim do século XIX. As petroditaduras selváticas do Golfo, da Arábia Saudita ao Qatar, são simples capachos dos Estados Unidos e Israel e, além disso, mais uma vez contra os interesses dos seus povos, que desprezam, anseiam por uma mudança de regime em Teerão.

A «bomba nuclear» iraniana e o «jugo dos ayatollahs» são meros e irrisórios pretextos para que se concretizem as transformações no sentido do domínio pleno do imperialismo-sionismo sobre a Ásia Central. Um terramoto geoestratégico, caso venha a consumar-se. Seguindo uma política em que o regime sionista é mestre, Trump fingiu negociar com o Irão o tempo necessário para montar a operação terrorista em curso e tentar que Teerão se mantivesse na dúvida sobre ser ou não atacado. 

Donald Trump não foi e não é, como se chegou a tentar fazer crer, um erro de casting do complexo militar-industrial-tecnológico norte-americano, transformado numa cáfila de ladrões e assassinos. Trump corresponde às necessidades de sobrevivência do neoliberalismo como estado actual e supremo do imperialismo – a fase em que o fascismo se apresenta cada vez mais como horizonte imprescindível perante o descalabro e o desprestígio da «democracia liberal».

A convergência temporal e ideológica do aparecimento de Trump nos Estados Unidos e da consolidação do totalitarismo sionista em Israel confirma a aposta no fascismo desencadeada pelo desespero do neoliberalismo, uma espécie de regresso às origens, ao terror do Chile de Pinochet, agora com uma ameaçadora amplitude transnacional. Já notaram, em termos domésticos, como Passos Coelho voltou a falar grosso, sobrepondo-se até ao ventríloquo Ventura?

O mundo está no fio da navalha. O terror norte-americano e sionista contra o Irão é muito mais do que uma fuga para a frente, atinge proporções que o podem conduzir a um grande salto em frente. Até ao momento, não existe qualquer movimentação no mundo que manifeste coragem para tentar travá-lo. O imperialismo-sionismo moveu-se e deu xeque no xadrez geoestratégico. No outro lado do tabuleiro são poucas as acções para evitar o xeque-mate. E as palavras de condenação leva-as o vento.

(1) Primeiro de dois artigos de José Goulão sobre a situação actual no Médio Oriente

Dez horas que abalaram a Ásia Ocidental

(Pepe Escobar in Resistir, 01/03/2026)


Talvez estejamos apenas a chegar ao portal da ordem pós-EUA na Ásia Ocidental, onde aquele culto da morte medonho, com o seu Deus patético e intolerante, estará estrategicamente atolado no lamaçal, com a sua dissuasão em frangalhos, consumido pela paranóia enquanto luta contra múltiplas instâncias de pressão assimétrica.


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Dez horas. Foi o tempo que o Irão levou para:

  • colocar o Império do Caos, da Pilhagem e dos Ataques Permanentes sob cerco em todo o Golfo.
  • bombardear 27 importantes bases militares dos EUA, sem piedade – causando danos extensos.
  • determinar que todos os bens e interesses dos EUA e israelenses na Ásia Ocidental são alvos legítimos para retaliação.
  • bloquear o Estreito de Ormuz (depois desbloqueado, mas com passagem livre apenas para navios russos e chineses).

A seguir: se os navios de guerra dos EUA não recuarem, serão afundados.

Todo o drama, previsivelmente, desenvolveu-se como uma fraude em formação. A guerra foi ordenada pelo líder de um culto da morte na Ásia Ocidental, um psicopata genocida que depois se refugiou na sua «Asa de Sião» e fugiu para… Berlim.

O seu ajudante americano, o neo-Calígula, um Narciso megalomaníaco, coordenou a guerra a partir de Mar-a-Lago.

O seu sucesso espetacular no primeiro dia: matar o líder supremo aiatolá Khamenei num ataque de decapitação. E matar dezenas de meninas – mais de 100 e contando – numa escola primária no sul do Irão.

Previsivelmente, isto também foi uma repetição do assassinato de Sayyed Nasrallah, do Hezbollah, em Beirute.

Durante as «negociações» indiretas em Omã, a equipa Trump 2.0 exigiu que Teerão esclarecesse uma oferta que precisava de alguns ajustes finais.

O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad al Busaidi, confirmou que o Irão, pela primeira vez, concordou em “nunca” acumular material nuclear para uma bomba; manter estoques zero de material enriquecido; concordar que os estoques existentes seriam diluídos; e permitir a verificação completa da AIEA.

A reunião ocorreu em Teerã na manhã de sábado, reunindo os principais membros da liderança iraniana.

O Epstein Syndicat bombardeou a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo aiatolá Khamenei. O Império do Caos não faz negociações: ele as utiliza como arma.

No entanto, não houve um colapso imediato que levasse a uma mudança de regime. Menos de meia hora após o ataque, a liderança de Teerão lançou um contra-ataque impressionante, rápido e coordenado em grande escala, em modo de lançamento contínuo 24 horas por dia, estabelecendo assim os parâmetros de escalada, bem como a supremacia da resiliência no campo de batalha.

Por exemplo, as táticas iranianas agora são muito diferentes em comparação com a guerra de 12 dias. Na segunda onda contra o Bahrein, eles usaram drones kamikaze Shahed-136 somente após uma barragem maciça de mísseis balísticos que confundiu completamente os sistemas de defesa dos EUA. O resultado: dezenas de interceptores caros gastos prematuramente. Os drones só vieram depois.

Somente no primeiro dia, o Irão disparou mais de 1.200 mísseis e drones. Teerã tem dezenas de milhares de mísseis e drones em estoque. Os interceptores dos EUA estão prestes a se esgotar em questão de dias. Cada THAAD custa US$ 15 milhões. A matemática definitivamente não está a favor do império.

Do martírio à vingança

O Irã ir atrás dos ativos dos EUA em Dubai é uma jogada estratégica magistral – ligada à destruição de abrigos de militares dos EUA e/ou esconderijos clandestinos da CIA. Todos aqueles símbolos cafonas de opulência de Dubai estão em chamas: Burj Khalifa, Burj Al Arab, Palm Jumeirah.

Como corretamente argumentado aqui, 88% da população de Dubai é estrangeira. Além de ser a capital mundial da lavagem de dinheiro, esta é, acima de tudo, uma zona económica especial com uma bandeira, agora correndo o risco de uma corrida aos bancos.

Afinal, os Emirados Árabes Unidos não produzem nada – como no capitalismo produtivo; é uma economia de serviços isenta de impostos, construída em torno da opulência e segurança (agora desaparecidas).

Dubai também tem uma enorme influência sobre o neo-Calígula – como nas «moedas Trump», investimentos pessoais, doações ao Conselho da Paz, também conhecido como Conselho da Guerra. A aviação representa 27% do PIB de Dubai – e 18% do PIB dos EAU. O aeroporto de Dubai no escuro é um desastre absoluto. Mega-companhias aéreas como a Emirates, a Etihad e a Qatar Airways – com os seus mega-aeroportos – são veículos/nós fundamentais da matriz global de transportes.

Dubai às escuras é uma proposta de negócio muito má para Trump. Não há dúvida de que MbZ já está ao telefone a implorar por um cessar-fogo. Além disso, Teerão também deixou claro que as gigantes da energia Chevron e ExxonMobil são alvos legítimos. Portanto, não é de admirar que o neo-Calígula já quisesse um cessar-fogo no primeiro dia, comunicado através dos canais diplomáticos italianos ao Irão.

Independentemente das torrentes de especulação sobre se o psicopata genocida em Telavive forçou o neo-Calígula a entrar em guerra quando a sua Armada Invencível ainda não estava pronta, o facto é que o Pentágono perdeu a iniciativa estratégica.

O guião está a ser escrito em Teerão; será uma guerra de desgaste, em que Teerão planeou todos os cenários possíveis.

Então, eis como tudo se desenvolveu, num piscar de olhos. Ataque de decapitação. Conselho de Peritos reunido em minutos. IRGC: resposta de «força máxima» dentro de uma hora, desencadeada sobre o culto da morte + petro-chihuahuas. Mecanismo de sucessão: em vigor. Estrutura de comando: em vigor. Sem mudança de regime. Domínio estratégico imperial zero. Do martírio à vingança.

Todo o Sul Global está a assistir.

Ruptura estratégica total

De acordo com várias fontes do IRGC, o aiatolá Khamenei tinha tudo preparado em detalhes minuciosos por meio de uma série de diretrizes. Ele instruiu Ali Larijani, secretário do Conselho de Segurança, e membros selecionados da liderança não apenas sobre como o Irão poderia resistir ao poderio bélico do Sindicato Epstein, mas também a quaisquer tentativas de assassinato, inclusive contra ele próprio. Khamenei foi morto ao lado de Ali Shamkhani, ex-secretário do Conselho de Segurança Nacional, e do comandante do IRGC, Mohammed Pakpour.

Khamenei nomeou nada menos que quatro camadas de sucessão para cada comando militar e função governamental importantes. Não é de admirar que todas as decisões cruciais após a decapitação tenham sido tomadas em tempo recorde.

A dupla genocida/assassina americano-israelense não faz ideia do que está por vir. Conseguiram ofender todo o mundo xiita – sem mencionar centenas de milhões de muçulmanos sunitas também.

A ruptura estratégica total nem sequer chega a descrever a situação: chegámos a um ponto de não retorno absoluto entre Washington e Teerão. Em vez desta noção infantil de mudança de regime, que só os sionistas fanáticos e sem cérebro podem alimentar, o assassinato de Khamenei está a consolidar um consenso nacional, legitimando uma retaliação sem limites e desencadeando um confronto em várias frentes que se estende do Golfo ao Levante.

As táticas imediatas do Irão são muito claras: saturar as defesas aéreas israelenses e desencadear uma enorme crise de interceptores. Isso obrigará os generais israelenses a implorar ao neo-Calígula por um cessar-fogo – mesmo que o Irão não pare de destruir a infraestrutura e a economia de Israel, possivelmente causando o colapso do culto da morte em questão de dias.

Enquanto isso, a Rússia e a China trabalharão nos bastidores para garantir que a rede de defesa do Irão permaneça intacta.

Se o gás e o petróleo da Ásia Ocidental pararem de fluir por apenas alguns dias, todas as apostas sinistras serão canceladas quando se trata da economia global. O Irão calculou todos os cenários e pode aplicar e liberar pressão à vontade.

O Sul Global aprenderá todas as lições de como a liderança iraniana demonstra solidariedade e objetivos claros enquanto é forçada a uma luta sem precedentes em várias frentes contra o colosso imperial – e isso após 47 anos de sanções implacáveis. Este tipo de resistência, por si só, já é um milagre.

Agora, o caminho pode estar aberto para o fim da presença militar americana na Ásia Ocidental – algo previsto por uma linhagem de mártires, de Soleimani e Nasrallah a Khamenei.

Talvez estejamos apenas a chegar ao portal da ordem pós-EUA na Ásia Ocidental, onde aquele culto da morte medonho, com o seu Deus patético e intolerante, estará estrategicamente atolado no lamaçal, com a sua dissuasão em frangalhos, consumido pela paranóia enquanto luta contra múltiplas instâncias de pressão assimétrica.

Fonte aqui.

Jeffrey Sachs: No Irão, os EUA apostaram tudo para recuperar a sua hegemonia global

(Jeffrey Sachs, in ObservatorioCrisis, 01/03/2016, Trad. Estátua)


A tentativa de derrubar o governo iraniano faz parte da luta pela hegemonia global americana; faz parte de uma guerra mundial que os Estados Unidos estão a travar.

(Entrevista com o Professor Jeffrey Sachs conduzida pelo académico e cientista político norueguês Glenn Diesen.)


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Glenn Diesen

Hoje, contamos com a presença do Professor Jeffrey Sachs para discutir a guerra que eclodiu no Irão. Enquanto a CNN noticiava que se estava perto de um acordo, poucas horas depois Israel e os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irão. Os ataques teriam ocorrido em todo o país, e agora o Irão está a responder com muita força, atingindo bases militares e alvos americanos em toda a região. Estamos a ver ataques no Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Iraque, possivelmente na Arábia Saudita e, claro, em diversas cidades de Israel. Gostaria de saber como é que interpreta essa situação? Quais são os objetivos dos Estados Unidos? E como é que explica, por exemplo, a forte resposta iraniana?

Jeffrey Sachs

Bem, o objetivo é claro. É a mudança de regime no Irão. Este tem sido um sonho israelita desde há 30 anos. Israel provocou guerras em todo o Médio Oriente, usando os Estados Unidos e seu controlo efetivo sobre Washington – que mantém por vários motivos -, em conflitos que se estendem da Líbia, Somália, Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria, Iraque e Iémen. E o Irão sempre foi o Grande Prêmio. Portanto, isso faz parte de um plano israelita de longo prazo.

O plano visa a hegemonia militar israelita na região, com o apoio dos Estados Unidos. O objetivo fundamental é o domínio de Israel por meio das suas armas nucleares e do apoio americano, a supressão do mundo árabe e, na prática, a expulsão da Rússia e da China da região. Trata-se, portanto, de uma manobra geopolítica.

É claro que se trata de uma tentativa de derrubar o Irão, mas faz parte de uma busca pela hegemonia global. Não há dúvidas. Isso faz parte de uma guerra mundial que os Estados Unidos estão a travar. A guerra foi na Venezuela. A guerra está a chegar a Cuba, ou já está lá. Ontem, o presidente disse que os Estados Unidos fariam uma tomada de poder amigável em Cuba. A guerra está a acontecer no Médio Oriente.

A Europa já é um estado vassalo dos Estados Unidos. Portanto, os Estados Unidos estão a tentar manter um mundo multipolar, manter a sua hegemonia global. É claro que, quando se age com tamanha violência, imprudência, mentiras e ilusões, os resultados podem ser absolutamente catastróficos.

Estamos nos primeiros momentos de algo que desencadeará reações em cadeia em todo o mundo. Não creio que tudo isto vá terminar bem. Considero uma ação extremamente perigosa. Aliás, nos Estados Unidos, existe um regime inconstitucional governado por uma pequena camarilha criada por Trump e pelo seu círculo íntimo. Não há autorização do Congresso, nem qualquer base legal para nada disto. Israel, por sua vez, está à beira de uma guerra civil. Além disso, os estados árabes vassalos são, para dizer o mínimo, impopulares.o

Os governos europeus também são impopulares, com os seus líderes mal atingindo 10 a 20% de aprovação. Portanto, é uma guerra marcada por enorme instabilidade política entre as nações beligerantes. Conflitos podem ocorrer em qualquer lugar.

O meu argumento é que nada disto se deve a nenhuma das razões apresentadas, como uma ameaça iminente do Irão. Muito pelo contrário. Como o mediador omanita afirmou repetidamente, mesmo após o início da guerra, as negociações continuaram, progrediram e seguiram de forma ordenada.

Falo com os iranianos frequentemente. Eles não estavam apenas dispostos a negociar; já haviam negociado todos esses acordos há 10 anos. Portanto, isso não tem nada a ver com ameaças iminentes, provocações ou armas nucleares, na verdade. Trata-se simplesmente de hegemonia e mudança de regime — hegemonia regional por parte de Israel e hegemonia global por parte dos Estados Unidos.

Todas as acusações sobre o Irão estar a desenvolver armas nucleares são falsas. A retórica bélica de Trump esta manhã é extraordinária, pois ele está dizendo a mesma coisa que Marco Rubio mencionou recentemente: a necessidade de restaurar a hegemonia ocidental. E acho que você tem toda a razão; há muita incerteza e insegurança no momento, com essa sensação de declínio relativo.

Existe um filme antigo, que tenho certeza que muitas pessoas já viram, O Mágico de Oz. Nele, no final, o grande mágico é revelado quando um cachorrinho puxa a cortina, mostrando que ele é apenas um velho falando por um megafone.

O curioso sobre a propaganda americana é que a cortina foi aberta há muito tempo. Aliás, no mês passado, a nossa Secretária do Tesouro, que tem um jeito meio autoritário, explicou que o objetivo da política americana no ano passado era esmagar a economia iraniana e levar as pessoas às ruas. Ela explicou passo a passo. Disse que em março passado Trump deu a ordem para se aplicar “pressão máxima”.

A ideia era afundar a moeda. Ele disse que em dezembro funcionou. Os bancos faliram, houve escassez de dólares, a moeda desvalorizou e as pessoas sofreram. Elas foram para as ruas, e ele disse que as coisas estavam a ir muito bem, e então revelou-se a verdade. Não se tratava de um protesto contra o regime; era uma operação de mudança de regime dos EUA.

A propaganda é tão descarada que eles não se importam se as pessoas acreditam neles ou não. Eles só se importam em ter uma narrativa. E é essa a situação em que nos encontramos agora. Houve uma tentativa de derrubar o regime economicamente. As negociações foram uma farsa porque, tanto no ano passado como este ano, quando as negociações estavam em andamento, os Estados Unidos atacaram.

Este é um ataque premeditado, sem qualquer justificação dada pelo governo dos EUA. Nem sequer possui a aparência moral de uma operação secreta de mudança de regime. Na maioria das vezes, os Estados Unidos agem com violência repugnante, mas fingem que não são eles.

Portanto, a maioria das operações de mudança de regime apoiadas pelos EUA são secretas. Agora, eles já não se importam mais. Essa audácia pode derivar da megalomania e da instabilidade psicológica de Trump. Pode ser a necessidade dos EUA reafirmarem sua dominância. E todas as explicações que dão são mentiras descaradas.

A explicação é clara. Israel deveria governar o Médio Oriente, dominá-lo, ser o Grande Israel. O nosso próprio embaixador em Israel, Mike Huckabee, que representa os sionistas cristãos nos Estados Unidos (aproximadamente 20% dos americanos, que são protestantes evangélicos fundamentalistas), disse que Israel deveria possuir todo o Médio Oriente porque é isso que a Bíblia diz.  Deus lhes deu isso. Então, essa é outra parte da história. Ele foi repreendido por dizer isso. Mas, de jeito nenhum. Tenho certeza de que houve aplausos na Casa Branca por isso, sem qualquer repreensão.

Por outro lado, o mundo árabe está essencialmente sob domínio imperial desde 1517, desde as conquistas otomanas das terras árabes. Os árabes estiveram sob domínio otomano durante séculos e, depois, sob domínio britânico. Agora estão sob domínio americano e israelita. Estão praticamente subjugados, não ousam manifestar-se, têm bases militares americanas por todo o seu território; são basicamente terras ocupadas. É tudo muito perigoso e muito triste.

Glenn Diesen

Mas porquê o embaixador dos EUA em Israel afirma abertamente que Israel pode ficar com metade do Médio Oriente?

Jeffrey Sachs

Israel é um país que essencialmente atua como provedor de segurança para todos os estados que agora estão ameaçados. E agora vemos aliados dos EUA em toda a região sendo atacados. Isso não é bom para a credibilidade americana, para a ideia de que o país é omnipotente. Se os Estados Unidos fracassarem na sua tentativa de destruir o Irão ou de promoverem uma mudança de regime, perderão toda a credibilidade.

Quais serão as consequências? Parece que os Estados Unidos apostaram tudo na recuperação de sua dominância, de sua hegemonia. O que acontece se falharem? Muitas coisas podem correr mal. De uma forma ou de outra, falharão, porque 4% da população mundial não pode governar o mundo. A premissa aqui é a mesma do Império Britânico no final do século XIX.

Recentemente li um discurso de Joseph Chamberlain, que chefiava o Ministério das Colónias em 1897, no qual ele afirmava que a Grã-Bretanha governaria o mundo até onde a vista alcançasse. E, claro, 50 anos depois, o Império Britânico havia desaparecido.

O mesmo acontecerá com os Estados Unidos. Este é o fim do jogo. Não se trata de uma verdadeira afirmação de hegemonia global, embora a mesma arrogância exista. E, em geral, essas guerras têm uma alta probabilidade de se transformarem numa guerra mundial. Que Deus nos ajude se ela se tornar nuclear, porque esse seria o fim do mundo.

Mas, segundo alguns, uma guerra mundial já está em curso, porque neste momento existem guerras interligadas em todas as regiões do mundo onde os Estados Unidos estão envolvidos. Mas, mais uma vez, os Estados Unidos não podem governar o mundo. Não possuem o domínio económico, tecnológico ou militar necessário para tal, e o resto do mundo também não deseja ser governado pelos Estados Unidos.

Não há a menor possibilidade de os Estados Unidos imporem um regime estável e pró-americano no Irão. É impossível. Não estamos em 1953, quando o MI6 e a CIA impuseram um estado policial no Irão. Isso não vai acontecer. A sociedade civil iraniana, independentemente de apoiar ou não o governo atual, não aceitará isso.

O Irão é um país com 100 milhões de habitantes com 5.000 anos de história, e não será governado pelos Estados Unidos ou por Israel sem tropas no terreno, que teriam que ser posicionadas a milhares de quilómetros de distância. Os Estados Unidos meteram-se numa grande enrascada, e não sabemos o que vai acontecer. Talvez matem muita gente nos próximos dias e declarem ser isso um grande sucesso. Há relatos de que já mataram 40 crianças num atentado à bomba nos arredores de Teerão

Mas não há forma de os EUA alcançarem seus objetivos estratégicos de longo prazo. Os próprios Estados Unidos não são estáveis ​​o suficiente para isso. Trump é, obviamente, uma figura muito impopular e profundamente divisora. A sua taxa de aprovação cairá quase certamente nos próximos meses. Às vezes, ela sobe ligeiramente, mas mesmo com a guerra, isso não melhorará os seus índices de aprovação. O público americano era firmemente contra esta guerra. Estamos a aproximarmo-nos das eleições de novembro, e Trump pode tentar subvertê-las porque está falando abertamente sobre federalizar as eleições, o que significaria fraude em massa.

Glenn Diesen

É verdade, esta é uma situação muito instável, um gatilho, ou melhor, um pavio, que foi aceso e terá consequências semelhantes a uma guerra em muitas regiões do mundo. Também no Paquistão, uma potência nuclear atualmente em guerra com o Afeganistão. O que é que isso significa? De onde veio? Qual é o papel dos Estados Unidos nisso? Suspeito que o papel dos Estados Unidos seja bastante real. E a ideia de que esta será uma guerra de 12 dias e que um novo regime iraniano surgirá, venerando Israel e os Estados Unidos, é pura fantasia. Como é que vê a resposta dos aliados dos Estados Unidos? Porque vimos recentemente o primeiro-ministro do Canadá dizer que a ordem internacional baseada em regras sempre foi um pouco uma farsa. Agora ele diz que é totalmente a favor desta guerra.

E a União Europeia não publicou nada que pudesse ser interpretado como uma crítica aos Estados Unidos — nenhum comentário crítico sequer. E isso depois de os Estados Unidos também terem voltado as suas atenções para o território da UE. Como é que tudo isso pode ser compreendido? Porquê esse ódio contra o Irão? Onde estão os princípios? Onde estão as regras? Onde está o direito internacional?

Jeffrey Sachs

Após a Guerra Fria, disseram-nos que a hegemonia ocidental traria regras, princípios e valores internacionais que se sobreporiam à brutal política de poder. E, no entanto, aqui estamos. Não há um único comentário crítico sobre essa violação do direito internacional. Não, eu ainda não vi um único comentário crítico. Isso, aliás, expõe mais uma vez Bruxelas como sendo quase fascista.

O ataque é contra o Irão, não é contra os Estados Unidos. Trump lançou um ataque premeditado. Nem uma palavra sobre isso. É dececionante. Não conheço o contexto completo, mas pelo que li, pelo menos Carney apoiou os Estados Unidos, e a Austrália também. Agora, acho que a verdade é que, se somarmos as populações dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, União Europeia e Austrália, chegamos a talvez 1 bilião de pessoas. Esse é o número do mundo branco, se me permitem dizer, o mundo ocidental que agora está entusiasmado com o ataque ao Irão.

Isso representa aproximadamente 12 ou 13 por cento da população mundial. Então, ouvimos essa propaganda porque este é o nosso mundo ocidental. O mundo ocidental domina os média, especialmente os média de língua inglesa, mas não acho que seja representativo da opinião mundial. É chocante que a ideia básica nos Estados Unidos seja a de que a Europa é uma região vassala e que não nos devemos preocupar com ela, já que seus líderes são vassalos, porta-vozes inúteis dos interesses americanos.

O Canadá havia demonstrado um lampejo de independência, mas parece tê-la perdido completamente. A Austrália não me surpreende; faz parte do mundo britânico. Há muito ódio contra os muçulmanos, muito ódio contra o Irão — talvez remonte a Heródoto e às Guerras Persas —, mas esses são estereótipos absolutamente grotescos.

Há muita ignorância no mundo branco sobre o resto do mundo. E é isso que estamos vendo agora. Há também um controle sionista muito forte sobre esses governos. Esses governos são subservientes a Israel. Eles são chantageados e subornados por Israel. Eles têm sistemas de armas e operações de inteligência com Israel. Eles usam o Pegasus e outras ferramentas de espionagem. Portanto, temos aqui uma aliança militar-industrial funcional e muito poderosa, na qual Israel é o protagonista, não apenas mais um membro do clube hegemónico americano. Parte disso tem a ver com a política interna.

Quando Trump fez o seu discurso sobre o Estado da União, houve uma ovação de pé no Congresso quando ele falou sobre o quão maligno era o Irão. O Congresso dos Estados Unidos é controlado e administrado pelo lobby sionista. Isso não é um exagero; é um facto concreto. Qualquer membro do Congresso pode explicar-lhe isso. Se eles se desviarem da linha do lobby, enfrentam retaliações, enfrentam rivais nas primárias, enfrentam difamação. Se seguirem a linha do lobby israelita, recebem recompensas, viagens, benefícios e contribuições para as suas campanhas.

E isso está ligado à CIA, à Mossad e ao complexo militar-industrial, que detém poder omnipresente e que é o que controla os Estados Unidos. Nós não temos realmente um sistema democrático. Temos um complexo militar-industrial que dirige a política externa dos EUA em todo o mundo, e Israel está profundamente inserido nesse sistema. Então, essa é outra razão para o que estamos a ver agora.

Mas, o que é chocante, é que este ataque descarado, premeditado, extraordinariamente violento e vulgar contra o Irão tenha ocorrido. E a Europa, juntamente com o Canadá e a Austrália, permanece em silêncio. Isso demonstra o tipo de mundo em que vivemos. Aparentemente, já não existem princípios.

Glenn Diesen

Trump também quer demonstrar que este é um mundo de gângsteres, e ele quer ser o gangster número um. Então, quão sério é isso? Quer dizer, você diz que, internacionalmente, isto pode incendiar o mundo inteiro, visto que parece afetar todos os cantos do planeta. Mas o que acontecerá nos Estados Unidos? Já existe uma divisão dentro do grupo MAGA que não aceita colocar Israel acima dos Estados Unidos. Israel em primeiro lugar, em vez dos Estados Unidos em primeiro lugar. Suponho que uma guerra fracassada e humilhante no Irão certamente influenciará isso. Mesmo uma guerra vitoriosa influenciará. Mas parece que seria muito difícil aceitar um fracasso. Internacionalmente, isso pode sair do controle e transforma-se numa terceira guerra mundial? É muito cedo para dizer. A guerra começou há apenas algumas horas, mas que cenários possíveis pode vislumbrar?

Jeffrey Sachs

A teoria é que o Irão será decapitado. Ataques massivos subjugarão o Irão rapidamente, e logo tudo estará em paz. Trump declarará vitória, será aclamado como herói e a vida seguirá o seu curso. Essa é a visão dos EUA. É possível. Pode-se estimar a probabilidade de sucesso em 5% ou 10%. Nenhuma operação desse tipo realizada pelos Estados Unidos, em décadas,  teve esse resultado.

Esta é a mesma teoria de que os Estados Unidos derrubariam Saddam Hussein em 2011, mas, na realidade, a guerra durou 15 anos. Esta é a teoria de que os Estados Unidos derrubariam Gaddafi em 2011. Essa guerra civil continua até hoje. Esta é a teoria do derrube do governo sudanês, que agora enfrenta duas guerras civis, uma no Sudão e outra no Sudão do Sul. Esta é a teoria da Guerra do Iraque, de que a guerra traria calma. E trouxe, missão cumprida, lembram-se? E então a guerra levou a anos e anos de instabilidade. Esta foi a guerra no Afeganistão, que durou 20 anos e terminou em fracasso.

Desta vez, nem sequer há planos para enviar tropas terrestres. Como é que os Estados Unidos vão controlar o Irão à distância? Não há resposta para isso. Portanto, veremos o padrão de sempre. Anúncios triunfantes em curtíssimo prazo, nas próximas 48 horas. Depois, muita propaganda nas semanas seguintes e, em seguida, testemunharemos as repercussões durante muitos e muitos anos. Creio que essas repercussões serão, sem dúvida, desestabilizadoras. Não vejo como isso pode ser estabilizador, de alguma forma. Não vejo como os objetivos podem ser alcançados.

Não vejo, praticamente, nenhuma chance de uma vitória estratégica. Da perspetiva americana ou israelita, isso significaria instalar um novo Xá no Irão, um novo estado policial como o que existiu entre 1953 e 1979. Mas acho que a possibilidade disso acontecer é nula. Considerando que acabamos de instalar Golani e seus comparsas do Estado Islâmico na Síria, isso não é nada bom, mas acho que precisamos ser muito claros.

Os Estados Unidos estão preocupados com a aparência da democracia. Isso não tem nada a ver com democracia. Não a temos nos Estados Unidos, não a temos em Israel e, na realidade, já não a temos no mundo ocidental. Temos alguns traços de democracia, mas já nos tornámos estados militarizados.

E nos Estados Unidos, isso certamente é verdade. O nosso sistema de governo é constitucional; ele estabelece que o Congresso tem o poder de declarar guerra. No entanto, acabamos de ter uma guerra declarada por uma única pessoa no meio da noite, contra a opinião pública. Portanto, não somos uma democracia.

Temos a aparência de uma república, mas o Império Romano também tinha. Eles tinham senadores de toga, mas era um império, não uma república. E essa é a realidade em que vivemos agora. Aliás, este não é um império estável nos Estados Unidos. É muito instável, e as divisões internas são muito profundas.

Portanto, mais uma vez, o horizonte temporal é crucial aqui. O que acontece em dias ou semanas pode ser muito diferente do que acontece ao longo de alguns anos, mas Trump acendeu um pavio que é completamente explosivo e que em breve explodirá em muitas partes do mundo, e a situação não voltará à estabilidade num dia ou num mês, não importa o que aconteça no curto prazo.

Trump acendeu o pavio que acabará com os Estados Unidos como os conhecemos e com a sua hegemonia. E acredito que, com o tempo, provavelmente também acabará com Israel como o conhecemos hoje, possivelmente dentro de uma ou duas décadas. É uma explosão que foi detonada, e é muito grande. Não será extinta com um ataque relâmpago ou uma operação de mudança de regime.

Glenn Diesen

Ontem à noite, eu estava com o juiz Napolitano, e ele perguntou-me se eu achava que haveria guerra. Eu disse que havia fortes indícios de que os Estados Unidos haviam investido recursos demais para simplesmente se retirarem. Havia muita retórica para poderem já recuar. E, claro, Israel não permitiria uma paz que deixasse o Irão sem pressão. Mas, por outro lado, eu defendi que o argumento a favor da paz não tinha um caminho viável. É tudo loucura. Não há estratégia ou narrativa que explique como isso poderia dar certo. Em essência, era previsível que isso incendiaria o mundo, e esse era o meu argumento. Sim, suponho que eu estava errado. Aconteceu, mas ainda não faz sentido. É por isso que achei difícil acreditar que eles realmente levariam isso por diante.

Jeffrey Sachs

Você, eu e todos os que pensamos em termos de razão e consequências diríamos que esta agressão não deveria existir. Quando acordei esta manhã em Nova York e liguei a televisão, fiquei perplexo, pois o mediador iraniano disse ontem à noite que estavam sendo feitos progressos significativos e que se reuniriam na próxima semana.

Acredito que a máquina de guerra dos Estados Unidos e de Israel seja extremamente poderosa. É uma espécie de fascismo com uma face diferente, mas muito poderoso. E o único presidente que tentou detê-la foi o presidente Kennedy, em 1963. E a CIA assassinou-o depois disso. Foi uma mensagem para os presidentes que lhe sucederam. O Estado profundo é uma máquina de guerra. O presidente dos Estados Unidos ocupa o cargo apenas temporariamente e é melhor que tenha cuidado.

Glenn Diesen

Bem, Jeffrey, obrigado como sempre por me dedicar o seu tempo. Espero sinceramente que Trump entenda essa agressão como um grande fracasso e declare que estão prontos para iniciar novas negociações sérias — alguma bobagem, o que geralmente é bom — e que ponha um fim nisso o mais rápido possível.

Jeffrey Sachs

Na verdade, Glenn, não tenho esperança nenhuma em Donald Trump. Se o resto do mundo levantar a voz com base no princípio fundamental de que a guerra pode acabar com tudo.

Não podemos esquecer que estamos certos, que a Constituição das Nações Unidas, no seu Artigo 2, parágrafo 4, afirma que é ilegal ameaçar ou usar a força contra qualquer Estado-membro da ONU. Se o mundo aderisse a esse princípio, estabelecido em 1945 para prevenir o que acabou de acontecer e para o impedir depois que acontecer, essa seria a nossa única esperança.

A esperança não é Trump. A esperança não é Netanyahu. A esperança não vem de dentro dos Estados Unidos. A esperança é que a maioria do mundo — talvez não os estados vassalos dos Estados Unidos, mas a maioria do mundo — diga que isso é completamente ultrajante, perigoso e ilegal. Eu sei que parece uma esperança vã. Porque não espere nem um sussurro dos europeus. Esses países estão atingindo novos níveis de covardia e falta de princípios.

Glenn Diesen

Sim, muito obrigado por dedicar seu tempo, e espero que isso não saia do controle. Obrigado.

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