Sinais de fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/07/2026)


A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia.


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Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.

Sinais de fogo
Hugo Pinto

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Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2 Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

“Teoria da internet morta”: já aconteceu, e está a matar a web como a conhecemos

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 01/08/2026)


A teoria da internet morta circula online desde a década de 2010, e a ideia de que a web é dominada por atividades não humanas era muitas vezes descartada como uma conspiração marginal. Agora, tornou-se um facto comprovado. E as máquinas já não se limitam a visitar. Estão a transacionar.


A certa altura de junho de 2026, sem cerimónia, os seres humanos tornaram-se minoria na internet que construíram.

Segundo a Fortune, a Cloudflare, que gere o tráfego de milhões de sites, revelou que os bots geram agora 57,5% dos pedidos de páginas web.  Em março, o presidente executivo da empresa, Matthew Prince, tinha previsto que esse cruzamento só chegaria no final de 2027.

Chegou mais de um ano antes.

A Thales, gigante mundial da defesa e da tecnologia, defende no seu relatório anual, o “Bad Bot Report“, que as máquinas passaram a ser maioria dos “utilizadores” da internet já em 2023.

As empresas divergem sobre quando se deu a inversão. Nenhuma discorda de que ela aconteceu.

A “teoria da internet morta“, a velha conspiração dos fóruns segundo a qual a maior parte da atividade online não é humana, é real. A única coisa que se disputa agora é como essa atividade é medida.

E escondida dentro dessa disputa está uma história bem maior: o modelo de negócio que financiou a web durante 30 anos acabou de apagar o pressuposto que lhe deu origem, escreve Rita McGrath, professora da Columbia University Business School, num artigo na Fast Company.

O pecado original foi uma escolha, não uma lei da natureza

Já nos esquecemos disto, mas quando a internet comercial começou a descolar, nos anos 1990, a forma de a monetizar estava genuinamente em aberto.

Houve quem propusesse a sério os micropagamentos. Debateram-se as subscrições. Chegaram a ser aventados modelos de financiamento público. Venceu a publicidade.

Não venceu por ser inevitável, mas por ser fácil. A atenção podia medir-se; os pagamentos, na altura, não se conseguiam tornar isentos de atrito.

Assim, fixámo-nos num grande pacto: os conteúdos seriam “gratuitos”, e o preço sairia da nossa atenção e, mais tarde, dos nossos dados. Como diz a velha máxima: “Se não pagas pelo produto, o produto és tu“.

Os efeitos de segunda ordem dessa escolha definiram uma era. A vigilância tornou-se o motor económico da web: quanto melhor se conhecia o humano do outro lado do ecrã, mais se podia cobrar para lhe pôr coisas à frente.

A imprensa tradicional, que tinha financiado o jornalismo com publicidade vendida em pacote, ficou esvaziada. Aceitámos como termos de serviço perdas de privacidade que teriam gerado indignação se um governo as tivesse imposto.

Todo um edifício de um bilião de dólares, feito de custos por clique, impressões de anúncios, funis de conversão, analítica de visualizações de página e modelos de atribuição, assentava num pressuposto: o de que o visitante é um ser humano a quem se pode convencer a comprar algo.

Esse pressuposto é hoje mais vezes falso do que verdadeiro.

As máquinas não se limitam a visitar. Estão a transacionar.

O que torna este momento diferente do tráfego de bots de outros tempos é o que as máquinas fazem.

Segundo o relatório de 2026 da Human Security, o tráfego de agentes de IA que executam ações na web, como clicar em ligações, preencher formulários e concluir tarefas, cresceu 7.851% em termos homólogos.

Não a extrair dados. A agir.

A plataforma fintech Stripe indica que cerca de 70% dos comandos que chegam às suas APIs de dados vêm agora de agentes, e não de pessoas.

A plataforma de negociação Alpaca viu as chamadas às APIs feitas por agentes saltar de valores de menos de 10% para 30% do seu volume num único trimestre. Hoje, 25% dos programadores concebem interfaces de programação de aplicações a pensar nos agentes, e não nos humanos, como cliente principal.

Rudy Yang, o analista da PitchBook que assinou o relatório de julho da empresa sobre aquilo a que chama a “economia das máquinas“, disse à Fortune que os agentes “consomem a web de forma completamente diferente da dos humanos”.

É, na prática, uma categoria de clientes totalmente nova. E nenhuma empresa quer fechar-se a um segmento inteiro de clientes.

Nos últimos meses, empresas como a Visa, a Stripe, a DoorDash, a Coinbase e a Ramp lançaram interfaces viradas para agentes. O ponto de inflexão é inconfundível.

Eis a realidade que os anunciantes têm agora de encarar. Os agentes não têm olhos. Não se demoram num banner publicitário, não sentem um lampejo de desejo perante a sapatilha que os persegue em anúncios, nem clicam em conteúdo patrocinado por mera curiosidade.

Não se consegue vigiar um agente até o empurrar para uma compra por impulso.

Cada dólar da economia da atenção partiu do princípio de que havia um primata distraível do outro lado da ligação. Os primatas estão a sair do edifício e a mandar o software no seu lugar.

Já vimos este filme

A economista Carlota Perez mostrou que todas as revoluções tecnológicas passam por um ponto de viragem. É um período de crise institucional, em que os modelos de negócio, as regulações e os pactos sociais da era de instalação se desmoronam, e é preciso inventar outros para a era de implantação.

O período febril de instalação constrói a infraestrutura. O ponto de viragem é quando descobrimos que as regras que escrevemos para o jogo antigo já não funcionam.

modelo de publicidade e vigilância é um artefacto da era de instalação da revolução digital. Foi montado à pressa nos anos 1990, hipertrofiou-se na década de 2010 e está agora a desfazer-se.

Não porque os reguladores tenham finalmente agido ou os consumidores se tenham finalmente revoltado, mas porque o próprio tráfego mudou de espécie.

Os pontos de viragem são precisamente o momento em que os pressupostos mais profundos vêm ao de cima. “O visitante é humano” era, afinal, um dos mais profundos de todos.

E antes que alguém declare a economia das máquinas a nova corrida ao ouro, aqui fica alguma perspetiva: a PitchBook estima que apenas cerca de 1% dos cerca de 20 biliões de dólares (cerca de 17,5 biliões de euros) em trabalho que poderiam plausivelmente passar por agentes de IA passam de facto por eles hoje.

A startup de IA Forsy estima o “PIB dos agentes” total em cerca de 36 mil milhões de dólares por ano (cerca de 31 mil milhões de euros).

É minúsculo, em comparação. As regras para o próximo modelo de negócio da internet escrevem-se agora mesmo, por quem aparecer para as escrever. É este o aspeto de um ponto de viragem visto por dentro.

O que vem depois da atenção

Se não é possível monetizar a atenção humana, o que é que se monetiza? Já se veem os contornos de vários modelos candidatos.

acesso passa a ser o produto. A Cloudflare e outras empresas estão a experimentar acordos de pagamento por rastreio (pay-per-crawl), em que as empresas de IA compensam os editores pelos conteúdos que os seus sistemas consomem.

O conteúdo deixa de ser isco para olhos e passa a ser matéria-prima licenciada, vendida ao token, não à impressão. Para os editores que passaram duas décadas a dar tudo de graça para atrair anunciantes, isto é uma inversão completa da cadeia de valor.

API passa a ser a montra. Quando 25% dos programadores já constroem para os agentes enquanto consumidor principal, a interface virada para as máquinas deixa de ser canalização. Passa a ser a montra, o motor de preços e a experiência de marca, tudo num só.

As empresas que tratarem o acesso dos agentes como um canal monetizável, com escalões, níveis de serviço e condições, vão encontrar receita onde outras só veem custos de servidor.

intenção substitui a atenção. Um agente chega com um mandato: encontrar a tarifa mais baixa, reabastecer o armazém, agendar a marcação. Não se deixa distrair, mas pode conquistar-se, por atributos como o preço, a fiabilidade, a qualidade dos dados estruturados e a confiança que inspira.

A economia da sedução dá lugar a uma economia da qualificação. Ser escolhido por um algoritmo pelo mérito é um jogo muito diferente de ser notado por um humano num feed, e vai recompensar capacidades muito diferentes.

humanidade verificada torna-se escassa. E valiosa. Quando a maior parte do tráfego é sintética, a prova de que se é uma pessoa real passa a ser um produto premium.

É de esperar que comunidades humanas autenticadas, avaliações verificadas por humanos e experiências “com humano certificado” atinjam preços que o espaço comum, gratuito e inundado de bots, nunca conseguirá.

A agenda dos líderes

Para os líderes, a tentação vai ser tratar isto como um problema de informática.

Seria um erro. Quando um pressuposto fundador se quebra, não se remenda. Replaneia-se à volta dele. Há agora três movimentos que importam.

Em primeiro lugar, reveja os seus instrumentos e métricas. As suas métricas de envolvimento já estão contaminadas.

Os navegadores agênticos inflacionam as sessões e reduzem as taxas de rejeição de formas que a analítica corrente não deteta. Descubra que fatia dos seus “clientes” são máquinas antes de tomar outra decisão com base em dados de tráfego.

Em segundo lugar, trate os agentes como um segmento, com o seu próprio percurso a mapear, as suas próprias necessidades a servir e os seus próprios preços a pagar. Algures na sua organização, alguém deve ser responsável pelo cliente-agente, tal como alguém é responsável pelo cliente empresarial.

Finalmente, conduza a transição como um conjunto de pressupostos a testar, não como um plano a executar. Ninguém sabe qual dos modelos pós-publicidade vai vencer. Isso aconselha uma abordagem orientada para a descoberta.

As empresas que ficaram presas na última transição de modelo de negócio foram as que apostaram tudo na hipótese de o mundo ficar quieto.

Há trinta anos, deixámos que um modelo de negócio nos escolhesse, e passámos décadas a viver com as consequências: a vigilância, a erosão da privacidade, o colapso das instituições que outrora pagavam o jornalismo sério. Agora o modelo está a morrer de causas naturais, morto não pelo nosso bom senso, mas pelo nosso próprio software.

Temos uma segunda oportunidade perante uma decisão que mal demos conta de estar a tomar da primeira vez. Seria uma pena voltar a atravessá-la a dormir.

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Mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 30/07/2026)


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Foi uma semana rica no Absurdistão, em vários temas, exames, politécnicos, peles da Rússia e cabras no monte. Vejamos. O Governo paga 2,5 milhões à Deloitte para digitalizar papéis e 1 euro por resposta aos classificadores. Como os classificadores deram este trabalho gratuito, estes dados, à IA, durante este inesquecível mês de Julho – sem um dia de greve, um – para o ano esta tarefa será certamente feita por classificadores externos porque a Agência para a Gestão do Sistema Educativo – já não existe Ministério – é agora um Instituto público com possibilidade de contratar serviços privados, ou seja classificadores. Que aliás acabaram de receber ontem via Deloitte um aviso de contabilidade do tempo como o Sr que arranja a minha máquina da Mielle – “está em sua casa entre as 17:53 e as 17:55”. Kean Loach fez um filme sobre isto, Desculpem, passei aqui/esqueci-me de ti (um belíssimo trocadilho que a tradução não deu conta).

Vejam que nunca usei o termo educação nos exames – educação não são exames, de cruzes, muito menos um professor é um classificador. Tudo isto é transferência de impostos da educação dos nossos filhos e netos para as empresas de tecnologia. Tudo isto vem do PRR, da União Europeia, que diz que os helicópteros russos não podem apagar fogos, estão parados sem importação de peças, mas peles para a indústria de luxo Italiana estão liberadas, que eu vejo sempre Lagarde com os melhores vestidos italianos.

Há mais – o CEO da Agência, Fernando Alexandre, a quem ainda chamam Ministro, quando ele mesmo acabou com o Ministério – anunciou a criação de duas universidades…como? Não, a passagem de politécnicos a Universidades que a primeira coisa que fez foi um despedimento coletivo de dezenas de colegas nossos – porventura centenas – de professores que não passam de uma instituição a outra, não têm antiguidade, etc. Uma espécie de pacote laboral da função pública.

Seguem de vento em popa nas Universidades o despedimento de professores convidados, outro despedimento colectivo tratado apenas como mais um regular acto de gestão.

O Governo da Spinumviva anuncia que os pescadores de costa, os pequenos, muitos idosos, que têm margens de lucro de 2%, são obrigados a pescar o dobro de 12 mil para 24 mil euros ou então ficam sem licença…(vejam a belíssima reportagem em video e artigo do jornalmaio.org estivemos lá, eu mesma também, a ouvi-los, deixo o link nos comentários). Há mais:

Nunca subestimem o que a burguesia mundial faz para se manter no poder. Foi dito por esta gente que as casas do ciclone Kristin não estão reconstruídas “porque não há mão de obra”, mas que os investimentos em guerra em Portugal – com jovens a montar drones que matam em Gaza onde influencers se passeiam -estão de boa saúde – 5,8 mil milhões -o que daria para renovar 200 mil casas. Informação importante – a margem de lucro da indústria de guerra é 12%, não são pescadores de carapau.

Uma senhora num canal de Tv espanhola explicou que a serra de Madrid/Ávila ardeu como papel porque a gestão das aldeias e terras foi retirada às populações, com as leis da União Europeia de Rede Natura, protecção disto e daquilo, o que aconteceu foi a abertura para transformar o sul da Europa em minas de lítio e painéis solares. Ela termina, partilho aqui em link o vídeo, inimitável, zangada, furiosa, com uma frase que podemos guardar para o nosso querido mês de julho, queremos auto gestão democrática dos povos e “mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições”