Semanada – Relvas ressuscita

(In Blog O Jumento, 23/04/2017)
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Esta semana iniciou aquilo que pode ser considerada como a Quaresma de Passos Coelho, a apresentação feita por Relvas de Luís Montenegro como um homem do futuro, um dia antes de uma entrevista ao Expresso em que defendeu a realização de diretas para a escolha do PSD, dá-se início a um longo período de liturgias partidárias que terminarão com a crucificação de Passos Coelho.
O mesmo Relvas que na hora da despedida do governo reclamou a invenção da criatura, decide agora dar início ao seu enterro político.
Assunção Cristas prometeu que com ela Lisboa deixaria de ter sem-abrigo. Como é pouco provável que os leve para casa resta saber se os vai mandar para Oeiras, para o Barreiro, para o Montijo ou para Odivelas. Uma coisa é certa, é um pouco mais fácil dizer aos funcionários do Ministério da Agricultura para não usarem gravata e desligarem o ar condicionado do que desligar tanta gente que vive nas ruas da cidade. Mas se a devota conseguir esse milagre, pode ser que nos prometa um euromilhões a cada lisboeta ou, quem sabe, um desconto na Uber ou nas bombas de gasolina do papá.
Montenegro descobriu uma solução para que um dia que ganhe eleições possa ter maioria absoluta no parlamento, propôs que o partido mais votado levasse uma borla de cinquenta deputados. O mais divertido é que o até aqui braço-direito de Passos Coelho argumenta que desta forma aproxima eleitores de eleitos, isto é, a melhor forma de os eleitores se identificarem com os eleitos seria cinquenta deputados que ninguém escolheu acabarem por decidir quem governa. Mas o ridículo da proposta não se fica por aqui, talvez rendido à Grécia foi nesse país até aqui maldito que foi buscar a ideia. Estamos cheios de sorte, imaginem se tivesse ido buscar a solução da estabilidade política à Venezuela.
Vítor Gaspar decidiu alegrar-nos com o seu refinado sentido de humor, como o mundo pouco sabe de política orçamental decidiu mandar parar as escolas de economia para lhe ouvirem aqueles a que definiu como os cinco princípios básicos da política orçamental: ser contra-cíclica, amiga do crescimento, inclusiva, suportada pela real capacidade fiscal, e conduzida com prudência. Graças a esta grande sumidade intelectual, só superada pela Maria Luís Albuquerque, o mundo vai saber gerir as suas contas, basta fazer tudo ao contrário do que o próprio Gaspar fez quando era ministro das Finanças.
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O “EXPRESSO” impresso!

(Joaquim Vassalo Abreu, 23/04/2017)

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Uma vez o Chico Buarque proferiu uma frase, que eu penso que já aqui citei, em que ele, a propósito das “mudanças”, diz que “não receia as mudanças e que só teme que elas não aconteçam”. Qualquer coisa assim…

Eu estou e sempre estive como ele: a favor da mudança, das mudanças, de quaisquer mudanças e, talvez por isso, ao longo da minha vida, por vontade própria ou não, tantas vezes tenha mudado de casa! Claro que isto é figurativo, mas há certamente coisas da vida que, sendo bem educadas, bem criadas e bem ensinadas, não mudam. Ou melhor, não devem mudar : os princípios, os valores…e tudo isso. O que não impede que eu seja, nós sejamos, a favor das mudanças, claro! De tudo, que não dos princípios civilizacionais que nos regem…

Naquela célebre canção imortalizada pela Mercedes Sosa (“Cambia, Todo Cambia”), o seu autor, Júlio Numhauser, um dos fundadores dos Quillapayun, exilado na Suécia depois do malfadado golpe de 1973 que depôs Allende, diz: “E assim como tudo muda, que eu mude não é estranho…”. Tal como o mundo, está claro!

Mas os avanços e as mudanças que existiram, existem e poderão vir a suceder, não querem significar que, pelo simples facto de serem mudanças, vão todas no sentido que eu e nós desejaríamos. Se todas elas em vez de, como se constata, apesar da democratização e livre acesso de muitos a muitas coisas novas, se dirigirem ao uso de uma elite que as aproveita para acumular riqueza e a concomitante miséria dos outros, tivessem como objectivo a consolidação da igualdade, da liberdade, da paz, do multiculturalismo e da não segregação, todos facilmente as aceitaríamos. Mas o facto é que, apesar das nossas cada vez mais passivas resistências, elas têm tido o efeito de fazer dos fortes cada vez mais fortes e fazer da maior parte de nós seres que apenas almejam a sobrevivência.

E esta quase irracional imposição conduz-nos ao estabelecimento de prioridades e ir, no fundo e passivamente, como disse, aceitando essas malévolas mudanças. Como que demonstrativas, tanto  da nossa inépcia , como também da nossa impotência em combater forças tão fortes e tão superiores.

E a pusilanimidade, minha e de quase todos, foi-se instalando. O termos baixado os braços é uma realidade que ninguém pode negar.

Mas perguntar-me-ão, e com toda a legitimidade, que é que tem o título deste texto a ver com tudo o que narrei? Tem porque, para mim, o “Expresso” impresso, perdoem-me a redundância, é um espelho fiel e a expressão inequívoca de tudo isso. Tal como as Televisões, de resto. E isto vem a propósito de uma das tais mudanças fundamentais, o aparecimento de novas ferramentas tecnológicas de comunicação às quais os Jornais não se conseguiram adaptar. E a tentativa de, qual náufrago, se salvarem, tem mostrado à saciedade até onde se pode chegar para unicamente se conseguir, não nadar, mas apenas boiar e, desesperadamente, sobreviver.

Que os jornais perderam relevância é um facto tão nítido que, eu próprio, já há tempos que deixei de os ler, quanto mais comprar… E é um facto que eu mudei pois, depois de mais de quarenta anos, deixei de comprar e de ler o Expresso! E, como de qualquer diário ou semanário, apenas leio, e de relance, as primeiras páginas no “Sapo”.

E, hoje de manhã, li a capa do Expresso deste fim de semana e rapidamente concluí: Ao que estes “tipos” chegaram! Qual a notícia mais importante, a chamariz, a de letras mais gordas e de primeira página? Que Relvas regressa para desafiar Passos para Primárias! E que “está na hora”, acrescenta ele, assim como quem diz: Acorda, porra, ou melhor, já é tarde para acordares! Mas o Expresso acrescenta que Rio já as defendia desde 2014! Claro que tudo o resto ficou para segundo plano e vem em letra miudinha, excepto as eleições Francesas que merecem fotografias!

De modo que eu, que sou “bué” de célere e quase repentista nas minhas conclusões, disse logo para comigo: eu, ser ainda fosse leitor, já não comprava! É que tão inopinada, tão idiota e tão surreal notícia, em vez da reflexão e curiosidade convoca precisamente ao contrário: à desistência. Pelo menos das pessoas com alguma sanidade ainda…

Pois então vejamos: Primárias? Que novidade quando é certo e seguro que aquilo não ata nem desata e que Passos continua em estado de sonambulismo! Isto em primeiro lugar. Em segundo: Relvas? Relvas a propor, a tirar o tapete, a abjurar e a promover seja quem for será sempre um verdadeiro “hara kiri”! Pois, penso eu de que, quem desafia deve ser quem se propõe, como fez Costa em relação a Seguro, quem vai disputar ou, como se diz em estrangeiro, será o “challenger”! O Relvas? O Relvas é assim como que o regresso de um Dillinger, de um Dr. Strangelove, ou de um qualquer anti-herói como aqueles pistoleiros do Far West, das bandas desenhadas ou das sagas Star Wars ou seja lá o que for! Eles até poderão querer regressar, quiçá até dar luta, mas nós, quer dizer todos ou quase, o que queremos é vê-los o mais longe possível, não é assim?

Pelo que, não sendo ele, só restará uma hipótese, já que, pelos vistos, se quer desfazer do afilhado: O Rio! O Rio? Eu não sei porque não li o miolo da notícia mas, a julgar pela “parangona”, se não houve repercussões é porque se tratava mesmo de pólvora seca, assim tipo “CM”.

E então eu, finalmente e para não os apoquentar mais, concluo: continuem assim, continuem, sem medos, com notícias assim, com os vossos oráculos do costume, os Ricardos, os Bernardos e os Monteiros, mais aqueles estagiários todos que por lá pululam que, qualquer dia, já nem estes vos leem…e a malta agradece!

PS- Que quer significar: para solução! Montenegro?  Vão-me deixar rir? Então eu Rio…


Fonte aqui

E se cortássemos as mãozinhas, ou que fosse só uma orelha, ao Vara?

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 21/04/2017)

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Por que razão, no Portugal de 2017, não temos conhecimento de quem defenda a lei de talião como princípio ordenador, ou inspirador, do nosso edifício penal? Por que razão não se faz um referendo sobre a adopção de castigos como o de cortar a mão a quem rouba, ou violar os violadores, ou matar os assassinos sem ser necessário julgamento de acordo com a lógica de que ao matarem, e serem apanhados não importa como, devem igualmente morrer sem precisarmos de os ouvir ou conhecer as suas motivações e circunstâncias? Por que razão não se permite às famílias cujas crianças foram violadas e/ou torturadas fazerem justiça pelas próprias mãos? E por que razão os polícias, quando prendem alguém por ordem de um tribunal, seja lá qual for a causa, não passeiam esses condenados pela via pública permitindo que a população os possa seviciar com insultos, cuspidelas e excrementos, antes ou depois de serem encarcerados?

Uma das formas de medir o sucesso do nosso sistema de ensino público seria fazer estas perguntas a quem acabe os 12 anos de escolaridade obrigatória. Que respostas iríamos obter? Onde está, nos diversos currículos da escolaridade obrigatória, essa matéria, essa preparação, essa avaliação? Na impossibilidade de fazer tal experiência, há outra que se oferece viável. A de perguntar estas e outras perguntas congéneres a quem envenena o espaço público montado em órgãos de comunicação social de vasto alcance. O veneno consiste no real processo de influência sobre procuradores e juízes com vista à distorção e perversão do Estado de direito democrático; pelo caminho, ou no mínimo, conseguindo manter durante anos processos de assassinato de carácter ligados às paixões e agendas políticas. Porém, no Portugal dos últimos 10 ou 15 anos não vemos este modus faciendi distribuído com a generosidade cartesiana atribuída ao bom senso. Para começar, não temos empresas “jornalísticas” dedicadas à calúnia como negócio e arma política no espaço partidário do PS, BE e PCP. Igualmente, não nos ocorrem figuras avulsas destas mesmas áreas ideológicas cujas carreiras mediáticas consistam na exploração do cardápio populista e calunioso. Já nos terrenos do PSD, CDS, mais as suas franjas e franco-atiradores, é um fartote. Não só têm dominado, a espaços quase de forma monopolista, a comunicação social portuguesa como têm uma simbiótica relação com a luta pelo poder político.

Um dos casos mais notáveis deste ecossistema político-mediático é o de Marques Mendes. Estamos perante alguém que foi parte integrante e directiva do cavaquismo, que chegou a presidente do PSD e que desde 2011 é conselheiro de Estado. Bastaria ficarmos por este último estatuto, o de ter poder para aconselhar formalmente o Presidente da República nas mais importantes questões da chefia do Estado, para termos matéria que chegue para a seguinte constatação: a calúnia grassa inimputável e está institucionalizada como forma legítima de intervenção no espaço público, independentemente das responsabilidades assumidas no regime pelos seus autores. Dou como exemplo a sua declaração de que “a impunidade acabou”, usada no comentário ao desfecho do recurso de Armando Vara no Tribunal da Relação do Porto. Ora, a “impunidade” a que se refere, refere-se a quê, exactamente? Uma primeira definição, obrigatória, é a de que este actual conselheiro de Estado tem conhecimento da prática de crimes que ficaram sem punição. O que agora está a faltar é a identificação dos crimes e criminosos em causa, para assim podermos saber quem são os responsáveis por essa gravíssima e inadmissível violação da Lei, a dar crédito às suas palavras. Como o próprio, aparentemente, não está disponível para prestar essa informação, temos de procurar noutras fontes.

Em 26 de Setembro de 2012, a ministra da Justiça ao tempo, Paula Teixeira da Cruz, foi interrogada por jornalistas a respeito da abertura de um inquérito-crime às parcerias público-privadas. Nesse âmbito, a Polícia Judiciária tinha feito buscas nas casas dos ex-ministros das Obras Públicas Mário Lino e António Mendonça, e do ex-secretário de Estado Paulo Campos. Que se lembrou a senhora de dizer? Isto:

A ministra da Justiça sublinhou que «ninguém está acima da lei», que «tudo deve ser investigado» e que «acabou o tempo» em que havia «impunidade».
Fonte

Ou seja, temos uma ministra da Justiça a denunciar oficialmente a ocorrência de crimes numa passado recente anterior à sua tomada de posse no Governo. Um passado, portanto, onde havia quem estivesse acima da Lei, onde nem tudo era investigado, onde havia impunidade. Mais uma vez, a pergunta imediata a fazer é relativa à identificação desses crimes e desses criminosos que declara existirem. E, uma vez mais, não obtivemos pela denunciante a informação respectiva. Contudo, neste caso ficamos com mais elementos para inferirmos de quem se trata. Pela associação de conteúdos, é altamente provável que Teixeira da Cruz se estivesse a referir em contexto, pretexto e subtexto aos envolvidos no tal inquérito-crime (já agora, alguém sabe alguma coisa, por mínima que seja, a respeito do seu andamento?) que suscitou o interesse dos jornalistas. A ter validade esta hipótese, então podemos começar a perceber quem eram os beneficiários da “impunidade”: malta do PS, com cargos nos Governos de Sócrates. No entanto, para afastar de vez o risco de termos interpretado mal tão séria senhora, o melhor será procurarmos ainda uma outra fonte para a definitiva hermenêutica da expressão.

Essa fonte é o grupo Cofina, através do Correio da Manhã e da Sábado. Nestes dois influentes órgãos de comunicação social tem vindo a ser estabelecida sistematicamente uma doutrina holística e consistente, mas com a beleza da simplicidade, acerca do que devemos entender sempre que se utiliza a cifra “acabou a impunidade”. Trata-se da referência a um fenómeno que começou nos princípios de 2005, que implicou a cumplicidade do topo da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal de Justiça durante vários anos, e onde os governantes e suas empresas cúmplices roubaram tanto e tão desvairadamente o Estado que provocaram a bancarrota em 2011. Este é igualmente o ano em que acaba a tal impunidade, graças à eleição de um novo Governo composto por pessoas honestas e corajosas. Em síntese, como se escreve aqui para a posteridade, o “tempo da impunidade” foi um período da nossa História em que Sócrates e seu bando de ladrões tentaram impor uma cleptocracia populista. Logo, podemos a partir dessa revelação, nascida do melhor que a imprensa nacional tem para nos oferecer, recuperar as declarações de Teixeira da Cruz e Marques Mendes, entre tantos outros, e dar-lhes o alcance que elas realmente têm para quem as consegue decifrar.

Mendes, em referência a um cidadão de nome Armando Vara, despejou para cima da sua particular situação judicial concernente a um crime de tráfico de influências com um sucateiro – situação ainda não transitada em julgado – este caudal de insinuações e correlações. O à-vontade com que o fez está directamente relacionado com a sua percepção de que o mesmo Armando Vara já não goza de todos os direitos e garantias que a Constituição, o Estado de direito e os variados códigos legais instituem para os restantes cidadãos na República Portuguesa. O processo pelo qual se chega a este ponto, em que um conselheiro de Estado assume este discurso e o propaga mediaticamente, consagra a eficácia da estratégia seguida pela direita e seus braços armados na comunicação social. A um ponto tal que, do meu conhecimento, só duas pessoas em Portugal tiveram a decência e a liberdade para mostrarem a sua repulsa pela violência em curso: Miguel Sousa Tavares e Estrela Serrano.

Importa explicar o mecanismo pelo qual o ardil se mantém e replica. Importa explicar como é que se consegue, ao longo de anos, ocupar o espaço público com uma absoluta irracionalidade onde se diz ter havido ministros, procuradores e juízes a cometerem as maiores e mais obscenas ilegalidades mas, ao mesmo tempo, não ter havido nem haver deputados, procuradores, juízes, polícias, jornalistas e um Presidente da República chamado Cavaco ou Marcelo que as denunciem com provas, sequer que se queixem às autoridades ou usem o seu poder institucional para as expor e combater. Importa explicar, mas importa igualmente que quem explique o faça no local e no modo próprios, adequados à gravidade do ataque em curso. E quais serão eles? Quem o conseguirá fazer?


Fonte aqui