Slava Ukraini” – o preço de um jardim cada vez mais isolado

(João Ferreira, in Facebook, 14/09/2026, Revisão da Estátua)


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Durante 4 anos repetiram-nos que era necessário isolar a Rússia. Sanções atrás de sanções, pacotes atrás de pacotes, discursos inflamados e uma política externa europeia cada vez mais subordinada a uma única ideia: cortar relações económicas, energéticas e políticas com Moscovo até colocar a Rússia de joelhos.

Passados estes 4 anos, talvez esteja na altura de fazer uma pergunta incómoda: quem está, afinal, a ficar isolado?

A política seguida pela União Europeia está a produzir precisamente o efeito contrário daquele que nos foi vendido. A Rússia não desapareceu do mapa, não deixou de vender energia incluindo à própria UE, não ficou sem parceiros comerciais e não foi expulsa da economia mundial. Reorientou-se. Aproximou-se ainda mais da China, da Índia e de outros países asiáticos, aprofundou relações com o chamado Sul Global e encontrou mercados alternativos.

E nós “União Europeia” ?

Nós ficámos orgulhosamente sentados no nosso “jardim”, a pagar a conta.

Uma Europa separada da Rússia: a grande vitória americana

Para compreender como aqui chegámos, é preciso recuar a 2014.

A minha interpretação do Euromaidan é conhecida e não coincide com a narrativa dominante nas televisões europeias, a que eu apelido de Igreja Universal do Reino dos Mirdia. Não considero que aquilo que aconteceu na Ucrânia possa ser analisado apenas como uma espontânea revolta popular democrática como dita as homilias dos sacerdotes da Igreja Universal do Reino dos Mirdia. Vejo-o inserido numa longa estratégia de influência norte-americana no espaço pós-soviético, com intervenção política, financiamento de estruturas e interesses geoestratégicos evidentes e, não sou eu que o diz, foi Victoria Nuland secretária de estado dos EUA que o admitiu e confessou no programa 60 minutos da CNN norte americana na qual até libertou uma gargalhada dizendo que valeu apena terem investido nesse golpe mais de 5 mil milhões de dolars.

Washington tinha um objectivo estratégico que me parece cristalino: impedir que Europa e Rússia se tornassem economicamente interdependentes ao ponto de constituírem um bloco continental autónomo.

Uma Europa industrial, tecnológica e financeiramente poderosa, associada às gigantescas reservas energéticas e minerais russas, seria uma potência económica dificilmente controlável pelos Estados Unidos e era este o ponto onde estávamos em 2014.

Hoje, essa possibilidade praticamente desapareceu.

A Europa afastou-se da Rússia, destruiu grande parte da relação energética que durante décadas alimentou a sua indústria e substituiu-a, em larga medida, por energia mais cara e por uma dependência acrescida de fornecedores alternativos, principalmente a Alemanha que à conta disso partiu do ponto zero após fim da segunda guerra mundial até ter atingindo a quarta posição global de país economicamente mais desenvolvido, hoje já não o é e está em processo de decadência económica.

Se este era o objetivo estratégico norte-americano, então é difícil não concluir: os Estados Unidos ganharam.Os países da UE e a Rússia perderam essa relação, mas economicamente o único que não se adaptou foi a UE.

Primeiro a energia russa. Agora também a iraniana Entretanto, continuamos a estreitar o corredor por onde pode entrar energia na Europa. A energia russa “não presta”. A iraniana também não pode prestar.

Outros fornecedores tornam-se inconvenientes conforme muda a geopolítica internacional.

E, curiosamente, aquilo que nunca parece deixar de prestar é a energia proveniente dos nossos aliados estratégicos — mesmo quando custa mais.

O consumidor europeu não paga apenas gasolina ou gasóleo. Paga geopolítica. Paga sanções. Paga conflitos. Paga rotas comerciais mais longas. Paga prémios de risco. Paga a substituição de fornecedores. E paga, sobretudo, a extraordinária incapacidade europeia de distinguir os interesses estratégicos dos Estados Unidos dos interesses económicos da própria Europa.

Quando instalações petrolíferas russas são atacadas pela Ucrânia, num conflito em que os países ocidentais acólitos dos EUA fornecem armamento, inteligência, financiamento e apoio político a Kiev, seria infantil imaginar que os mercados energéticos não incorporariam o risco de uma escalada sobre a capacidade produtiva e exportadora russa.

Depois ficamos surpreendidos quando o petróleo sobe. E quando o petróleo sobe, a bomba de combustível dá-nos uma excelente aula de geopolítica.

Não é preciso um doutoramento em Relações Internacionais. Basta olhar para o preço por litro. “Slava Ukraini” — e a fatura chega ao posto de abastecimento

A imagem que acompanha este artigo é, naturalmente, uma provocação satírica. Mas os combustíveis no maior país do mundo não subiram.

Mas talvez sintetize melhor a situação do que muitos debates (homilias) televisivos.

Slava Ukraini! Gasóleo: mais caro. Gasolina: mais cara. Energia: mais cara. Produção industrial europeia: pressionada. Competitividade: pressionada. Famílias: pressionadas.

E continuamos satisfeitos porque nos garantem que estamos do “lado certo da História”. ,A questão que coloco é muito simples: quanto custa, por litro, estar do lado certo da História?

Porque alguém acaba sempre por pagar a política externa. E esse alguém raramente é o político que anuncia a sanção numa conferência de imprensa. É o cidadão que abastece o automóvel. É o pescador que abastece o barco. É o transportador. É o agricultor. É a empresa que paga eletricidade.

E, finalmente, é novamente o cidadão quando todos esses custos aparecem incorporados no preço dos produtos que compra.

O “jardim” e a “selva”

Josep Borrell deixou-nos talvez uma das metáforas mais reveladoras da visão que uma parte das elites europeias tem do mundo: “A Europa é um jardim. A maior parte do resto do mundo é uma selva.”

Pergunto: será?

Porque começo a olhar para a chamada “selva” e encontro países que negoceiam simultaneamente com Washington, Moscovo e Pequim. Compram petróleo russo quando lhes interessa. Compram tecnologia americana quando lhes interessa. Negociam com a China quando lhes interessa. Defendem, bem ou mal, aquilo que entendem ser o seu interesse nacional.

A Índia não parece particularmente preocupada em pedir autorização moral a Bruxelas antes de comprar energia.

A China seguramente também não.

Grande parte do mundo recusou transformar as relações internacionais numa escolha infantil entre duas camisolas.

Enquanto isso, nós, europeus, parecemos ter desenvolvido uma extraordinária capacidade para prejudicar os nossos próprios interesses económicos em nome de uma superioridade moral que o resto do planeta está cada vez menos disposto a reconhecer.

Talvez a “selva” tenha percebido uma coisa que o “jardim” esqueceu: os países não têm amigos eternos; têm interesses.

Os vassalos pagam a conta O problema não está em a Europa ser aliada dos Estados Unidos. Uma aliança transatlântica pode perfeitamente fazer sentido. O problema começa quando aliança passa a significar subordinação.Quando Washington tem um interesse e Bruxelas automaticamente o transforma num interesse europeu, deixámos de ter política externa própria. Passámos a executar a política externa de outro.

E um continente com cerca de 450 milhões de habitantes, uma das maiores economias do planeta, capacidade científica, tecnológica, industrial e militar considerável que em pouco mais de 4 anos a sua economia deixou de ser 30% do PIB mundial e caiu para 16%, deveria ter maturidade suficiente para conversar simultaneamente com Washington, Moscovo, Pequim, Nova Deli, Teerão e quem mais fosse necessário.

Não precisamos de amar a Rússia. Não precisamos de amar o Irão. Nem sequer precisamos de gostar dos respectivos regimes. Precisamos de defender a Europa, leia-se países da UE.

E defender a Europa significa perceber que geografia não se altera através de sanções: a Rússia continuará a ser nossa vizinha quando Putin desaparecer, quando Zelensky desaparecer, quando Trump desaparecer e quando todos os actuais dirigentes europeus forem apenas uma nota de rodapé nos livros de História.

Talvez tenhamos isolado o país errado Queríamos isolar a Rússia. Mas Rússia, China, Índia, Irão e muitas outras economias continuam a negociar entre si e com uma enorme parte do planeta e em crescimento e prosperidade.

O famoso “isolamento da Rússia” deve ser uma modalidade de isolamento bastante sofisticada: Moscovo continua sentada na ONU, onde, para incómodo dos pregadores do seu desaparecimento internacional, é membro permanente do Conselho de Segurança e tem direito de veto; continua nos BRICS, G20, Organização de Cooperação de Xangai, CEI, União Económica Eurasiática, OTSC, APEC, OSCE, OMC, FMI, Banco Mundial, AIIB, BIS e OPEP+, além de continuar representada na UNESCO, FAO, OMS, OIT, UIT, OMPI, OMM, UNIDO, UNCTAD, ICAO, Organização Marítima Internacional e AIEA, entre muitas outras estruturas internacionais.

Um isolamento extraordinário, portanto: tem assento, vota, veta, negoceia, compra, vende, cria novas alianças e reforça relações económicas com uma enorme parte do planeta. Talvez fosse conveniente explicar isto aos nossos comentadores televisivos, porque, aparentemente, o “mundo” termina onde acabam a União Europeia, os Estados Unidos e os respectivos aliados. O resto — China, Índia, grande parte da Ásia, África, Médio Oriente e América Latina — deve ser apenas aquela famosa “selva” de Borrell.

 E, enquanto nós celebramos orgulhosamente o isolamento russo dentro do nosso pequeno jardim, seria prudente verificar se não fechámos simplesmente o portão por dentro e, convencidos de que deixámos a Rússia lá fora, ainda não percebemos que somos nós que estamos a ficar do lado de dentro cada vez mais sozinhos.

Talvez seja altura de olhar para o mapa-múndi sem as lentes de Bruxelas e perguntar: – E se, enquanto tentávamos isolar a Rússia do mundo, estivéssemos lentamente a isolar-nos de uma parte crescente do mundo?

É uma pergunta legítima.

E existe outra ainda mais desconfortável.

Se a energia russa não presta, se a iraniana também não presta e se amanhã aparecer mais um país cuja energia deixa subitamente de cumprir os nossos elevados padrões de pureza geopolítica, sobra-nos o quê?

Provavelmente energia mais cara. Mas politicamente correta.

Podemos então abastecer o automóvel, olhar orgulhosamente para os números luminosos da bomba e repetir:

“Slava Ukraini.” Dois euros e tal por litro.

Mas não faz mal. Afinal, dizem-nos que ainda vivemos no jardim. Só convém não perguntar quem é o jardineiro — e quem está a pagar a água.

O Grande Assalto: como a UE vendeu o petróleo dos povos antes do jackpot do século XXI

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 12/09/2026, Revisão da Estátua)


UE privatizou petroleiras e entregou lucros ao capital privado. Preços explodem enquanto Rússia e Bielorrússia mantêm gasolina barata.


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O superpoder da dissimulação da UE na preparação do assalto

No plano dos combustíveis fósseis, como a gasolina e o gasóleo, a história da energia dispendiosa não começa com o euro, não começa com a guerra da Ucrânia e nem agora com o desastre trumpista no Golfo Pérsico. Um dos capítulos mais importantes do desastre estratégico e energético da UE começa a desenhar-se muito antes, na lógica rentista, monopolista e privada que a UE representa. O drama energético que vivemos hoje na União Europeia resulta de algo muito profundo: uma arquitetura neoliberal que cobra um preço altíssimo pela entrada no clube restrito, que dá aos Estados periféricos o direito de perderem a sua soberania, a juventude mais qualificada e o condicionamento do seu setor produtivo aos ditames ocidentalistas.

Tudo começa quando a Comissão Europeia declarou guerra aos monopólios! Mas esta guerra aos monopólios, por acaso — e só por acaso — «estatais», visava outro objetivo, mais sub-reptício: a reestruturação do setor energético, de forma a que fosse colocado ao serviço da lógica rentista. Como tal, ao invés de destruir tais monopólios, a UE descobriu que a forma mais eficaz de os «derrubar» não passava por proibi-los, mas antes por obrigar os Estados a vendê-los. Golpe de mestre! Tudo sob uma capa de promissora «liberalização», já identificada, noutros momentos históricos, como altamente perniciosa.

As diretivas de liberalização dos mercados da energia, o mercado único e a Agenda de Lisboa traçaram o algoritmo pretendido: a) separar a rede da produção; b) abrir a entrada ao capital nacional e estrangeiro; c) proibir as participações cruzadas por parte do Estado. Neste processo, a UE mostrou todo o seu horror à soberania nacional, à independência dos povos, à sua liberdade, em última instância. Em troca da liberdade coletiva, que lhes roubou, prometia-lhes a liberdade individual de comprar, pagar, escolher, o endividamento fácil e o desenraizamento social.

O resto do percurso foi simples! A partir do poder que a Comissão tem de conformar os governos nacionais às pretensões que representa — através de um conjunto cruzado e integrado de condicionalidades, recomendações, planos, agendas e estratégias, bem ancoradas em fundos comunitários e na sua conexão com a política económica exigida —, foi o trabalho das próprias governações nacionais, ansiosas por mostrar «modernidade», «ambição», «pragmatismo» e «bom comportamento» (tudo muito contraditório), que fez o caminho chegar onde nos encontramos. A Comissão Europeia tem este superpoder da dissimulação: dona e senhora da capacidade de atribuir todas as culpas aos governos eleitos, reservando para si uma burocracia totalitária, inescapável, inescrutável e autoritária.

E assim, é razão para dizer que, antes do ser, já o era! Ainda antes de a moeda única nascer e levar com ela uma fatia enorme das soberanias nacionais, especialmente dos países mais periféricos, necessitados do Fundo de Coesão, os maiores países da futura moeda única despojaram-se dos seus maiores «ativos» estratégicos: a Itália vendeu a ENI em quatro ofertas públicas entre 1995 e 1998, «libertando» o Estado de cerca de 70% da empresa.

A Espanha «abriu» o capital da Repsol e da Cepsa, e a torneira jorrou até ficar seca; o Reino Unido já nem tinha o que vender — vendera a última fatia pública da BP entre 1979 e 1987, uma década antes dos outros sequer começarem (o Estado britânico, note-se, nunca deteve a maioria da BP). Até a França, que na energia elétrica chegou a reter jóias como a EDF — hoje integralmente pública outra vez, renacionalizada em 2023 —, teve de se «libertar» da Total. A fórmula utilizada era engenhosa: o Estado recebia uns milhares de milhões de euros — regularmente a pretexto de uma qualquer crise do déficit ou da dívida impulsionada por Bruxelas — e, em troca, entregava um fluxo infinito e contínuo de lucros monopolistas a acionistas privados, prescindindo assim de propriedade, controlo, rendimento e alavanca de política energética e industrial. Sobrou um controlo parcial na Itália — onde o Estado manteve cerca de 30% da ENI, hoje 33% — e pouco mais. A Alemanha, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo nunca contaram com estatais monopolistas neste domínio dos combustíveis.

O euro, esse acelerador da combustão dos «fardos» monopolistas estatais

A moeda única não foi só uma moeda: foi um catalisador, um aspirador de ativos estratégicos e um colete de forças. À sombra da entrada da «moeda única», a UE varreu os últimos vestígios de um mercado soberano de combustíveis fósseis. Tratou-se de um instrumento de convergência económica que incluía, nos seus pressupostos, a receita dogmática neoliberal da «redução do peso do Estado na economia». Nesses tempos, não houve noticiário televisivo, crónica económica e intervenção dos partidos do «centro moderado» que mostrassem alguma moderação na afirmação de tal princípio. O resultado foi direto: o que faltava vender, vendeu-se!

Portugal executou o modelo exemplar da privatização faseada, pois, à data, ainda havia muita força no lado soberanista da esquerda, que obrigava o «centro moderado», mas radicalmente neoliberal, a encontrar a forma mais dissimulada de dar a facada final nos combustíveis portugueses: quatro blocos de venda da Galp entre 1999 e 2006, culminando no IPO de 23% em outubro de 2006. Sob o pretexto do combate ao déficit e à dívida pública, com o executivo de Durão Barroso e de Manuela Ferreira Leite, a «Thatcher portuguesa», Portugal foi «libertado» do terrível monopólio da Galp. Grécia, Finlândia e Áustria são as únicas resistentes, com participações públicas acima dos 30%. Em 2021, a Grécia acordou a venda de 20% dos 35,5% que ainda detinha na Hellenic Petroleum — operação concluída em 2023.

A conclusão é simples: quando o euro entrou em circulação física, consagrando o sistema euro-dólar, em 2002, o mapa energético europeu já fora redesenhado: os monopólios nacionais deixaram de pertencer às nações, mas continuaram a existir, apenas tendo mudado de mãos públicas para privadas. Passaram a pertencer ao mercado. Como constataremos, ser do mercado significa ter dono, e significa que o dono tem de ganhar mais — muito mais!

Importa também não desligar esta estratégia fomentada por Bruxelas de dois outros fatores: a importância do petrodólar enquanto âncora do dólar e a necessidade de que as transações dos produtos petrolíferos passassem a ser feitas em moedas não nacionais, o que foi conseguido através do euro; e a importância da entrada do capital internacional dolarizado no capital das empresas privatizadas. Também aqui somos vítimas do dólar, do petrodólar e da subserviência do sistema euro ao dólar.

O alargamento: entregar o ativo energético como preço de entrada no clube restrito do «sonho europeu»

Se os capítulos anteriores foram uma desistência, o grande alargamento que decorreu de 2004 a 2013 foi uma rendição, uma chantagem e uma submissão. Para entrar no clube do «sonho europeu», os países do centro e leste europeu tiveram de vender as refinarias, os gasodutos e as petrolíferas. A taxa de entrada era entregar ao mercado algo de muito rentável e parte da âncora da moeda de reserva hegemónica. Tal como a unificação alemã, o alargamento a Leste deslocou o eixo do poder europeu, definitivamente, da França primeiro, e do eixo franco-alemão depois, para o outro lado do Atlântico, sob a tutela da burocracia de Bruxelas.

A cronologia é eloquente e não deixa dúvidas, valendo mais do que as palavras ocas em sentido contrário: a Roménia vendeu o controlo da Petrom à austríaca OMV em dezembro de 2004 — 669 milhões de euros pagos ao Estado romeno pelos 33,34% iniciais e mais um aumento de capital, no valor de 830 milhões de euros, que elevou a OMV a 51% e nem sequer entrava nas contas públicas. No total, a operação situava o valor da Petrom nos 2,2 mil milhões de euros. Uma oferta em nome do povo romeno!

A Chéquia vendeu cerca de 63% da Unipetrol aos polacos da PKN Orlen por uns míseros 11,3 mil milhões de coroas (cerca de 380 milhões de euros, à cotação da época). A Lituânia viu a única refinaria dos pequenos bálticos — a Mažeikių Nafta (da «pesada» herança soviética) — ser comprada pelos polacos da Orlen, em 2006, por cerca de 2,3 mil milhões de dólares no total, dos quais apenas cerca de 850 milhões reverteram para o Estado lituano, numa operação que Vilnius justificou explicitamente por razões de segurança nacional, porque os russos haviam tentado comprá-la! E que tal terem ficado com ela?

A Hungria é das únicas resistentes, mas não por acaso. Os russos da Surgutneftegaz haviam comprado em 2009 21,2% da MOL à austríaca OMV e, em 2011, o Estado húngaro readquiriu esse pacote — por 1,88 mil milhões de euros — para afastar o controlo russo. Com Orbán, talvez por isso mesmo, o Estado manteve-se acionista de referência, o que explica o ódio que lhe têm gente como Soros. Na Hungria, os combustíveis são mais baratos do que em grande parte da UE — muito mais baratos —, tão mais acessíveis que um eurocrata de Bruxelas, numa conferência em Budapeste, me disse que «o Estado húngaro subsidia os combustíveis». O eurocrata despejava ali o seu ódio, mas não contra o facto de Orbán ser da direita conservadora e reacionária; antes, culpava-o de ser um desastre na economia e na justiça. Talvez este tipo devesse olhar para cima, para a própria presidente da UE. O facto é que, na Hungria, onde vigoraram durante anos tectos de preço nos combustíveis, esses custam hoje menos do que na maioria dos países da Europa. A outra exceção é a Polónia, cuja petrolífera PKN Orlen permanece sob controlo do Estado e que, em 2022, reforçou esse controlo com a fusão Orlen–Lotos. Adivinhem que preços pratica? Pois: uns dos mais baixos da UE!

A recolha do grande prémio!

O mercado europeu estava pronto para o choque. Se o papel que hoje a UE tem na alimentação dos ganhos de energia dos EUA, na sustentação do dólar e do petrodólar e nos preços elevados dos combustíveis é resultado da arquitetura corporativista encetada por Bruxelas, ou o contrário — ou seja, se os preços elevados e o reforço dos fluxos de capital financeiro associado são resultado do papel assumido —, não sabemos. O que sabemos é que o resultado é simples: os Estados foram desapropriados de ativos importantíssimos para o desenvolvimento europeu, os povos ficaram a pagar o combustível muito mais caro, os Estados tiveram de aumentar os impostos sobre produtos petrolíferos para compensar as perdas e a economia europeia está um inferno. Com exceção das que se mantiveram públicas ou parcialmente públicas, comprar gasolina ou gasóleo é proibitivo para um trabalhador europeu médio, ou para um pequeno empresário!

O que nos é possível observar é muito simples: ao longo de todo o século XXI assistimos a um sem-fim de picos petrolíferos que resultaram em ganhos especulativos brutais e em preços dos combustíveis ainda mais brutais. As subidas abruptas e as descidas ténues passaram a constituir um instrumento para a obtenção de ganhos especulativos — não pelos Estados, mas pelos detentores privados desse capital. Aos povos europeus, à economia não especulativa, restaram os preços elevadíssimos e os impostos brutais, que visam compensar as perdas anteriores.

De 1999 — o ano do euro «em conta», quando o barril andava pelos 10–20 dólares — até hoje, o petróleo multiplicou o seu preço por vários fatores, com ciclos dos 147 dólares em 2008, da guerra da Ucrânia em 2022 e do choque de 2026.

Só em 2022, as cinco supermajors — ExxonMobil, Shell, Chevron, BP e TotalEnergies — somaram cerca de 200 mil milhões de dólares de lucros, o maior ano da sua história: a Shell bateu o recorde dos seus 115 anos, a ExxonMobil chegou aos 59,1 mil milhões de lucros. Desde o início da guerra na Ucrânia, o mesmo grupo acumulou, ao que se estima, quase meio bilião de dólares — cerca de 467 mil milhões.

O movimento do capital não mente: nos EUA, metade dos lucros extraordinários do setor fóssil de 2022 terá cabido ao 1% mais rico, enquanto os 50% mais pobres receberam 1% da riqueza produzida (dado que não foi possível confirmar em fontes públicas). Nesta montanha-russa de subidas e descidas, os EUA tornaram-se o fornecedor privilegiado da União Europeia e o maior produtor de petróleo do mundo!

A realidade fora da UE: a soberania contradiz a tendência

Não pode haver ingenuidades ou condescendências de qualquer tipo. Fora da UE, o mapa dos preços demonstra a tendência referida. Em abril de 2026, a gasolina custava na Rússia cerca de 0,80 dólares por litro e na Bielorrússia 0,90 — contra cerca de 2,50 euros na Alemanha, 2,60 na Dinamarca e 2,90 nos Países Baixos, os preços mais altos do mundo «avançado». Estes dois países recuperaram o controlo público perdido nos anos 90 e não querem saber de políticas anti-monopólio (do Estado, apenas) por parte da UE, do FMI e do Banco Mundial.

A Sérvia, candidata eterna ao clube e por isso pressionada a «reformar» o seu setor, situava-se nos 1,90 euros — bastante abaixo do preço dos Países Baixos. Contra a Sérvia temos o encravamento continental e o facto de não ter petróleo.

Daí que a explicação não seja geográfica e não interessa explicar. Onde o Estado controla a cadeia de valor — extração, refinação, importação —, pode fazer «trade-off» (compensações entre fatores diferentes) e decidir que o combustível é um bem estratégico e não uma mercadoria especulativa, transferindo, através de um preço interno mais reduzido, o rendimento que a UE entregou e decidiu obrigar outros a entregar ao mercado. Um mercado ávido de lucros, que quer vê-la crescer até ao céu, deslocando para os seus «offshores» fatias cada vez maiores de riqueza sonegada ao crescimento económico e social dos Estados.

A Noruega é talvez o caso mais instrutivo: tem dos preços mais altos da Europa na bomba, mas abriu o capital da Statoil em 2001 e nunca deixou o Estado descer dos dois terços do capital total (hoje Equinor). Então o que se passa? O que se passa é que o dinheiro dos preços altos não engorda um acionista: alimenta o fundo soberano que pertence a cada norueguês, a todos os noruegueses.

A Rússia e a Bielorrússia escolheram o preço baixo, beneficiando o consumidor; a Noruega escolheu o fundo soberano; a UE escolheu o acionista, a oligarquia. Todos escolheram. A diferença é quem recebe. Esta é a diferença, hoje, entre estar ou não estar na UE. O resto é conversa para estupidificar quem esteja excessivamente entregue à solidão reflexiva e brutalmente exposto à «informação» desconexa das redes sociais e à manipulação dos órgãos dominantes.

A UE como motor de empobrecimento: engordar uns poucos, matar de fome todos os outros

Volta-se assim ao princípio e fecha-se o círculo. Entre 1995 e 2009, a Europa — primeiro voluntariamente, depois sob coação de alargamento — transferiu para o capital privado os monopólios energéticos que as gerações anteriores construíram de forma coletiva e que foram responsáveis pela elevação incomparável dos padrões de vida e de rendimento.

A instituição de economias mistas, dotando os Estados de recursos estratégicos e fundamentais, possibilitou a socialização dos resultados da produção, elevando a educação, a saúde, o conhecimento, a tecnologia e a alimentação de todos os europeus. Entre os anos 50 e os anos 70, a Europa Ocidental viveu os seus 30 anos dourados. A presença de uma URSS dotada de padrões sociais elevados obrigou o capital a concessões antes impensáveis. Centenas de milhões de trabalhadores e suas famílias puderam beneficiar da socialização de alguns dos resultados da sua própria produção. A Europa tornou-se o continente mais desenvolvido, industrializado, democrático e avançado do ponto de vista humano.

Desaparecida a URSS e, com ela, o «perigo comunista», enfraquecidos os sindicatos e os partidos de classe que reclamam para quem trabalha a sua fatia digna de riqueza, chegámos ao tempo da desforra, da recolha dos despojos. O facto de nunca se ter ensinado o que foi realmente o fascismo, a sua ligação intrínseca ao capitalismo, o papel que a luta de classes teve na elevação dos padrões de vida da UE, a importância de partidos que sejam capazes de exigir e propor medidas radicalmente diferentes, que mudem, que criem rupturas, resultou num estado de inconsciência histórica que está a conduzir à repetição dos mesmos erros. Porque quem não conhece a sua história está fadado a repetir os mesmos dramas!

A concentração de riqueza nos países mais fragilizados pelas estratégias neoliberais encetadas pela UE, ao serviço de Washington e do seu sistema hegemónico, faz com que o cidadão comum pague a gasolina quase ao triplo do preço russo e trabalhe para a pagar com salários que não acompanham a curva do Brent. Existe alternativa, e a alternativa está no controlo público destes ativos estratégicos.

A Noruega, no topo dos índices sociais, mas fora do clube de Bruxelas, demonstra que a alternativa ao neoliberalismo não era utópica, que funcionava. Quem paga agora pelo dano causado? Quem nos compensa agora pelas perdas causadas, nas nossas vidas, nas vidas dos nossos filhos e netos, com as mentiras contadas?

E ainda há quem acredite nesta gente!

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Fontes

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  2. Banco Central Europeu — Blog: «Energy shock: why oil and gas prices have risen less than expected», 27-7-2026. https://www.ecb.europa.eu/press/blog/date/2026/html/ecb.blog20260727~1212bdb8f9.en.html
  3. FMI — «How the War in the Middle East Is Affecting Energy, Trade, and Finance», 30-3-2026. https://www.imf.org/en/blogs/articles/2026/03/30/how-the-war-in-the-middle-east-is-affecting-energy-trade-and-finance
  4. Wikipédia (EN) — «2026 Iran war fuel crisis» (consultado em 8-9-2026). https://en.wikipedia.org/wiki/2026_Iran_war_fuel_crisis
  5. Cargopedia — «Os preços dos combustíveis na Europa», 24-8-2026. https://www.cargopedia.pt/os-pre%C3%A7os-dos-combust%C3%ADveis-na-europa
  6. OMV — «OMV closes the acquisition of 51% of SNP Petrom SA», 14-12-2004. https://www.omvpetrom.com/en/media/latest-news/2004/omv-closes-the-acquisition-of-51-of-snp-petrom-sa-december-14-2004-10-30-am-
  7. Reuters / Ekathimerini — «OMV signs ‘historic’ Petrom buy», 24-7-2004. https://www.ekathimerini.com/economy/24477/omv-signs-historic-petrom-buy/
  8. wiiw — G. Hunya, «Privatization Disputes in Romania – the Petrom Case», 2007. https://wiiw.ac.at/privatization-disputes-in-romania–the-petrom-case-dlp-428.pdf
  9. PKN Orlen — «PKN ORLEN’s acquisition of Unipetrol» (anúncio regulamentar n.º 41/2004), 4-6-2004. https://www.orlen.pl/en/investor-relations/reports-and-publications/regulatory-announcements/2004/02/Regulatory-announcement-no-41-2004
  10. Wikipédia (EN) — «Orlen Unipetrol». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Unipetrol
  11. OSW — «Hungary will buy Russian shares in MOL», 25-5-2011. https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/analyses/2011-05-25/hungary-will-buy-russian-shares-mol
  12. Jamestown Foundation — «Major Russian Oil Company Secretly Buys Into Hungary’s MOL», 3-4-2009. https://jamestown.org/major-russian-oil-company-secretly-buys-into-hungarys-mol/
  13. Jamestown Foundation — «Polish Company Acquires Majority Stake in Lithuania’s Oil Sector», 2006. https://jamestown.org/polish-company-acquires-majority-stake-in-lithuanias-oil-sector/
  14. The New York Times — «Poland: Oil concern buys a refinery», 15-12-2006. https://www.nytimes.com/2006/12/15/business/world-business-briefing-europe-poland-oil-concern-buys-a-refinery.html
  15. Wikipédia (EN) — «Orlen Lietuva». https://en.wikipedia.org/wiki/Orlen_Lietuva
  16. Galp — Relatório & Contas 2006. https://www.galp.com/corp/Portals/0/Recursos/Investidores/SharedResources/Relatorios/PT/2006RA/RelatorioEContas.pdf
  17. Público — «Galp encerra hoje ciclo de duas décadas de grandes privatizações», 23-10-2006. https://www.publico.pt/2006/10/23/economia/noticia/galp-encerra-hoje-ciclo-de-duas-decadas-de-grandes-privatizacoes-1274215
  18. AbrilAbril — «Galp: Estado perdeu milhões nos últimos dez anos», 24-10-2016. https://www.abrilabril.pt/nacional/galp-estado-perdeu-milhoes-nos-ultimos-dez-anos
  19. Energy Monitor — «Big Oil profits soared to nearly $200bn in 2022», 8-2-2023. https://www.energymonitor.ai/finance/big-oil-profits-soared-to-nearly-200bn-in-2022/
  20. ExxonMobil — «ExxonMobil announces full-year 2022 results», 31-1-2023. https://corporate.exxonmobil.com/news/news-releases/2023/0131_exxonmobil-announces-full-year-2022-results
  21. AIE — Políticas: «Renationalisation of EDF» (atualizado em 1-4-2025). https://www.iea.org/policies/16429-renationalisation-of-edf
  22. EDF — «The French State becomes the sole shareholder of EDF again», 15-6-2023. https://chile.edf.com/en/news/the-french-state-becomes-the-sole-shareholder-of-edf-again
  23. Eni — «Eni’s shareholders» (estrutura acionista, atualizada em junho de 2026). https://www.eni.com/en-IT/governance/shareholding-structure.html
  24. HRADF / Greek Growth Fund — «Hellenic Petroleum». https://growthfund.gr/en/project/hellenic-petroleum/
  25. Gulf News — «Statoil debuts at premium to IPO price», 19-6-2001. https://gulfnews.com/business/energy/statoil-debuts-at-premium-to-ipo-price-1.419282
  26. Statoil — Annual Report and Accounts 2001. https://www.equinor.com/content/dam/statoil/documents/annual-reports/2001/statoil-annual-report-2001.pdf
  27. Bolsa de Valores de Budapeste — perfil da MOL Nyrt. (free float de 61,56%). https://bse.hu/pages/company_profile/$security/MOL

Hugo Dionísio

Hugo Dionísio is a Lawyer, researcher and geopolitics’ analyst. He is the owner of Canal-factual.wordpress.com Blog and co-founder of MultipolarTv, a Youtube Channel targeted to geopolitical analysis. He develops activity as Human Rights and Social rights activist as board member of the Portuguese Democratic Lawyers Association. He is also a researcher at the Portuguese Workers Trade Union Confederation (CGTP-IN).

Fonte aqui

O Projecto CYBERSYN — em memória de Salvador Allende

(José Catarino Soares in Tertúlia Orwelliana, 12/09/2026)

Sala de Controlo do Projecto Cybersyn

Salvador Allende — que morreu em condições trágicas fez ontem, 11 de Setembro de 2026, 53 anos — foi a primeira pessoa no poder a tentar pôr em prática, com os trabalhadores e para os trabalhadores, uma ideia que parecia então ser (e era, de facto) de uma ousadia extrema: a de substituir o mercado capitalista por um mecanismo cibernético socialista.

Corria o mês de Novembro de 1971, um ano após a eleição de Salvador Allende, do Partido Socialista Chileno, como presidente da República do Chile e da formação do seu governo de coligação apelidado de Unidade Popular (Partido Socialista [PS], Partido Comunista do Chile [PCCh], Partido Radical [PR], Movimento de Acção Popular Unitária [MAPU], Partido Social-Democrata [PSD], Acção Popular Independente [API]).

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