Da Ucrânia à Gronelândia: a redescoberta de Putin

(Armando Rosa, in MaisRibatejo.pt, 20/01/2026)

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No início da guerra na Ucrânia, arrisquei uma posição impopular. Em artigos e redes sociais, argumentei que, independentemente da condenação legal da invasão, era necessário analisar os interesses geopolíticos russos por trás do conflito e negociar a paz o mais rapidamente possível. A reação de superficiais e russofóbicos primários foi rápida: fui taxado de “putinista”, perdi contactos, até amigos e vi-me enquadrado no rol dos apologistas de ditadores.

Chavões morais e ideológicos frequentemente servem apenas para condimentar discursos e enviar os filhos dos outros para a guerra. Deixei claro que não subscrevia os métodos de Putin, mas que era ingénuo ignorar a perspetiva russa: a expansão da NATO, os massacres no Donbass e a perceção de uma ameaça existencial na sua fronteira.

Afirmei então que a Rússia, com o seu peso estratégico e económico, era um ator impossível de isolar e que era um erro crasso pensar que, sendo a maior potência nuclear, poderia perder esta guerra que considerava existencial. A Europa, tendo como mantra o apoio à guerra pelo tempo necessário até à derrota da Rússia, estava a ser irresponsável e condenava os seus povos à insignificância estratégica e ao inevitável empobrecimento.

O tempo deu-me razão de forma estrondosa. A cena que simboliza esta reviravolta foi a receção de Vladimir Putin nos Estados Unidos, com honras de Estado. De um dia para o outro, o demónio personificado tornou-se um interlocutor necessário. Os comentadores afiliados ao discurso oficial, que quase povoam em cem por cento as cenas televisivas e as páginas dos jornais do regime e da Europa, tiveram o seu primeiro choque de realpolitik e trataram de estudar a melhor maneira de se adaptarem aos novos paradigmas:  a Rússia ganha; a Rússia é um dos três vértices da multipolaridade geopolítica; as negociações para a paz são inevitáveis e as premissas dessa paz serão ditadas pelo vencedor.

Visitando alguns comentários e posts meus antigos e análises de comentadores encartados do regime, constatei um padrão: uma certa elite intelectual e mediática que nos vendia a “verdade” inquestionável do momento, ridicularizava e insultava os dissensos e impunha uma pauta de pensamento único. Até que o vento muda. Então, sem alarde, o discurso é reformulado, os comentários de então são escondidos ou apagados e a narrativa oficial dá uma guinada de 180 graus. Da derrota mais que certa e do colapso russo (lembrar que Zelensky disse que iria passar o Natal de 2022 à Crimeia…), passámos a implorar o cessar fogo e a paz, mas nas condições infantis e completamente fora do contexto bélico.

Questionar a histeria coletiva não era ser mais inteligente. Era apenas lembrar episódios recentes, como as falsas “armas de destruição massiva” no Iraque, ou a alteração das fronteiras da Sérvia/Kosovo pela força da NATO. Era desconfiar do vinho sempre envenenado que as elites e a imprensa nos servem.

Enquanto isso, os “comentadores” preferiam o consenso confortável. Factos históricos eram irrelevantes; a lógica, substituída pelo carimbo mediático do argumentador. Quem ousasse discordar era silenciado – o meu perfil no Facebook foi um dos bloqueados por várias vezes.

Agora, a realidade desferiu a sua lição final. As declarações duras de Trump sobre a NATO e Gronelândia, bem como a ação sobre Venezuela abalaram o Ocidente. De repente, a Rússia “isolada” e o “Estado terrorista” que “iria colapsar” está a tornar-se, qual fénix, o possível salvador de uma Europa receosa do seu aliado americano que ameaça invadir um país aliado.

O chanceler alemão, Merz, agora declara: «A Rússia é um Estado europeu. É de capital importância abrir canais de comunicação». O mesmo aconteceu com Macron e Melloni. Mais de 30 diplomatas ocidentais apresentaram recentemente credenciais em Moscovo. (A embaixadora de Portugal foi a única que, com a coragem dos imbecis, não cumprimentou Putin no ato da apresentação). O Kremlin, outrora o “palácio do diabo”, é redescoberto como um Vaticano da *realpolitik*.

Os analistas do regime e da voz do dono começam a escrever novos artigos, a retocar o discurso com a mesma engenharia retórica, mas agora a defender o diálogo e a reaproximação. Todos podem mudar de opinião, mas fazê-lo diariamente ao sabor dos ventos do poder revela uma falta gritante de integridade intelectual.

Raciocinar com independência custa caro – bloqueios, insultos, isolamento. No entanto, poupa-nos à vergonha de ter de apagar comentários passados e livra-nos da dependência de carimbos institucionais para validar um argumento.

Este texto não pede validação. É um retrato de um sistema que transforma o consenso mediano em dogma e trata o pensamento independente e fundamentado como heresia. Até que a realidade força uma mudança silenciosa e hipócrita.

Pensar com assertividade e autonomia é uma indústria rara. Raridades sem selo oficial geram desconforto. Como disse alguém: «a nossa elite intelectual raramente erra em público. Prefere mudar de opinião em silêncio».

A internet, ao dar voz a “idiotas” como eu, também expôs a debilidade e a incoerência de muitos doutos. Felizmente, a realidade objetiva está aí, pronta para ser analisada por qualquer um com um pingo de sentido crítico e a coragem de remar contra a maré.

A geopolítica é um filme de suspense com reviravoltas impróprias para cardíacos e fatal para certezas absolutas. No seu jogo sujo, a única constante é a ganância, a falta de responsabilidade coletiva e a cara de pau dos fortes. Se tivermos a ousadia de chamar as coisas pelo nome, acertar nos prognósticos será uma consequência natural, não uma ciência oculta.

Um amigo meu dizia que é desconfiar do espírito do vento quando se veem todas as árvores a inclinarem-se sempre para o mesmo lado. Eu subscrevo.

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Na Universidade, também parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo…

(André Carmo, In AbrilAbril, 17/02/2026)


…do que o fim do capitalismo. A já velha máxima de origem incerta parece fazer hoje especial sentido. E não pode deixar de causar perplexidade quando é também assim no lugar onde a noção de que tudo deve ser questionado até à raiz – a Universidade – devia ser inegociável.


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O exemplo máximo é o modo como se tem desenrolado a recepção dos mais recentes avanços na IA generativa que, por ignorância e comodidade analítica, irei circunscrever apenas e só aos chatbots e grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, o Gemini, o Claude, o Grok, outros que tais. Aqueles que permitem deixar de ler e escrever, como se estas atividades humanas não fossem elementos fundacionais da construção de sujeitos pensantes, críticos e lúcidos, num tempo em que quase todos são prisioneiros da «tirania da aceleração» e do produtivismo exacerbado.

Quando se trata de problematizar, questionar ou contestar o modo como estas tecnologias têm entrado na arquitetura das Universidades, e o verdadeiro alcance deste processo está ainda por compreender, parece haver uma suspensão do juízo crítico ou, na melhor das hipóteses, uma resignada aceitação dos termos do debate tal qual eles são definidos por quem tem maiores interesses na sua difusão por entre todos os interstícios da nossa existência coletiva: as grandes tecnológicas. Quem se deve estar agora a rir é Margaret Thatcher que nunca poderia imaginar que o «argumento» TINA (There is no alternative) viria a ser tão poderoso, mesmo junto de comunidades pagas para não deixar pedra sobre pedra quando se trata de interpelar o real tal qual ele se dá a conhecer.

Então agora a sustentabilidade ambiental, que não há muito tempo era um objetivo primordial da civilização humana, e que até fez de Greta Thunberg uma espécie de Ícaro que só caiu em desgraça quando passou a fazer da luta pela Palestina uma sua bandeira, agora é secundarizada porque se tem de perguntar ao chatbot quantos gramas de farinha leva um panado?

Então esquece-se agora o facto de que os 12 indomáveis patifes que se atropelam no topo da lista e possuem mais riqueza que os mais de 4 mil milhões de pessoas mais pobres, alguns deles destacados líderes das grandes tecnológicas, não passam da expressão absoluta de uma desigualdade obscena que a todos deve indignar e mobilizar?

Ou que quando o ideologicamente enviesado Grok, propriedade de Elon Musk – o sociopata tecnofascista mais rico do planeta –, serve de base para as respostas do ChatGPT isso não as torna nem credíveis nem neutras? Ou que quando se diz que o ChatGPT é como um martelo, uma calculadora ou qualquer outra ferramenta que será sempre aquilo que dela se fizer, se aceita a noção falaciosa de que a tecnologia paira acima e fora de uma realidade social profundamente marcada pela luta de classes? E que foi Warren Buffett quem alertou para o facto de ser a dele – a dos ultra-ricos – que está a ganhar?

Então agora aceita-se de ânimo leve que um elemento de soberania fundamental para qualquer Estado que se preze – o domínio digital – não passe de um serviço prestado por grandes conglomerados privados, mais ricos e poderosos que muitos países? (Até a desnorteada União Europeia parece preocupar-se com a negligente alienação da capacidade de intervenção em sectores estratégicos vitais). Ou que a exigência de transparência e condições para que o povo possa exercer escrutínio democrático sobre os mecanismos algorítmicos é condição sine qua non para que se possa dizer que ainda existem regimes democráticos?

Então agora aceita-se que poderosos interesses económicos entrem de rompante nas salas de aula, colonizando cérebros, mentes e corpos de todos os seres que as habitam? Será que as Big Tech têm interesse na qualidade do ensino e das aprendizagens, inclusive daqueles que podem produzir cidadãos críticos e esclarecidos capazes de pôr em causa a legitimidade da sua existência e rejeitarem a redução da sua condição existencial à de meros consumidores ou carne para canhão no mercado de trabalho?

Então agora espera-se que, a reboque de uma chantagem social-darwinista, se tenha de aceitar que o uso de novas ferramentas digitais é o futuro e que com meia dúzia de horas de formação, seguramente preparadas com todo o empenho e boa intenção de colegas, é possível passar a ser especialista encartado?

E que quem contesta este modus operandi está necessariamente a desvalorizar a inovação pedagógica e o ensino (que, de resto, nas universidades, foi sempre o parente pobre do trabalho académico, atividade muito menos prestigiada que a investigação)?

Ou que a instalação de um clima de grande imodéstia e bazófia – tudo muito macho-tech-bro-style – liderado por tão magníficos quanto incautos reitores, impede que se possa reconhecer e admitir, com humildade intelectual, que se é ignorante e apenas se é levado no fluxo torrencial do dilúvio digital? E que isso não é um problema, antes o primeiro passo para a construção de conhecimento verdadeiramente significativo e transformador do real?

Então agora, quando se corre o risco de ver filhos e netos serem enviados para uma guerra que é socialmente fabricada pelos crapulosos poderes que tudo desgovernam, aceita-se que, sem mais, existam 5% do PIB que passam a ser desviados de funções sociais como a educação e a saúde para a defesa? E que a extinta FCT desvie uma parte do seu já parco financiamento-lotaria para esta área? E que se diga sempre que não há dinheiro quando ele parece sempre aparecer quando há vontade política?

E que fazer questões, mais do que cuspir papers e patentes ou angariar financiamento competitivo, é o motivo pelo qual existem Universidades? E que estas só perduraram porque mesmo habitando um tempo que, naturalmente, sempre foi o seu, nunca deixaram de se atrever a pensar o impensado e a contestar aquilo que, a cada momento, era dado como natural, inevitável ou demasiado poderoso para ser travado? E que ceder ao argumento das inevitabilidades é a maior demonstração de empobrecimento e indigência intelectual que pode haver, uma enorme traição à liberdade académica? E que é isso que converte as Universidades em fábricas de encher chouriços onde a adopção do inglês como língua franca é vista como marcador de distinção e cosmopolitismo?

E que apesar de mais de um século de impressionantes desenvolvimentos tecnológicos – da descodificação do genoma humano, ao pisar da lua, da impressão 3D ao computador portátil, da world wide web ao GPS, da pílula contraceptiva aos motores a jacto, dos telefones sem fios às camisolas térmicas, etc. – continuam a existir jornadas de trabalho de oito ou mais horas diárias, com ritmos de trabalho que são indissociáveis da doença mental e física que se vai generalizando? E que de cada vez que alguém declara, com fé inabalável, que os avanços tecnológicos vão substituir todo o trabalho rotineiro, burocrático e mecânico subjacente ao exercício das funções académicas, só se pode esboçar um sorriso irónico porque, na realidade, se tem caminhado no sentido inverso, isto é, no da esgotante saturação do dia-a-dia com tarefas de micro-gestão permanente? E que isto se encontra intimamente ligado ao desinvestimento público que vai erodindo as Universidades até ao osso, tornando-as esquálidas manifestações do que já foram e do que podem voltar a ser?

E que nem sequer é preciso estar atento aos vários estudos que demonstram que a formação bruta de capital fixo é há décadas inferior às amortizações, fazendo do desinvestimento público a regra de ouro do funcionamento do sistema, para ter consciência de que, um dia, ao chegar aos locais de trabalho, os académicos vão ter o balde com a esfregona à porta, porque se passará a assumir que essa função, por se tratar de um custo desnecessário para as instituições, deve por eles ser assumida?

Por tudo isto, não será demais lembrar que o cepticismo e a dúvida são o alfa e o ómega do pensamento, não a credulidade, o consentimento ou o deslumbramento acrítico e que disso não se devia esquecer a Universidade se quer ter algum futuro enquanto tal. Caso contrário, e até porque parece ser mais fácil, pode já começar a construir o melhor itinerário para o fim do mundo.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein

(Edward Curtin, in Contercurrents.org, 19/02/2026, Trad. Estátua)


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Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.

Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente?  Cui bono ?

E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden?  Cui bono ?

O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão?   Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.

Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.

Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.

Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.

Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.

Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)

O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.

Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.

O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.

E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.

Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.

Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.

Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?

A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.

O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.

A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.

Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.

Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.

Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista  Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.

Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.

Há sempre um filme.

Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.

Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.

Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.

Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.

Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.

Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.

O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.

Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…

Corte!

Esqueça o guião.

Ainda não vimos nada.


    (1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.

    (2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).

    Fonte aqui.