Assisti em directo aos últimos, pungentes e quase dramáticos, minutos dos dez anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa — ou, mais correctamente, aos primeiros minutos da sua anunciada travessia do “deserto eterno”. Depois de descer a escadaria da Assembleia da República ainda institucionalmente escoltado, depois de olhar à esquerda e à direita, procurando os últimos abraços, os últimos beijos, as últimas despedidas, Marcelo, já despido da aura do cargo, dirigiu-se para o seu carro particular, cujo volante agora lhe cabia. Poderia ter estacionado previamente o carro nas traseiras da Assembleia ou mesmo em frente à escadaria. Mas isso seria quase uma chegada e saída clandestinas. Marcelo optou antes por deixá-lo bem longe, para que à chegada pudesse arrastar os street journalists atrás de si, mais uma vez embasbacando-os com os seus gestos “fora da caixa”: entrou num supermercado, numa papelaria e num antiquário, seguramente para compras inadiáveis, enquanto aproveitava e adiava até ao fim o inadiável. E no final, disputando até ao limite as atenções mediáticas com o novo Presidente num ecrã dividido ao meio entre os dois, Marcelo empreendeu a subida da íngreme Calçada da Estrela, arrastando atrás de si e de bofes de fora um miniesquadrão dos tais street journalists, de ora avante órfãos de sujeito e de objecto. Chapeau, Marcelo, só não foi de mestre porque, com dez anos em cima, de tão previsível só conseguiu, e esforçadamente, colher de surpresa o tal triste jornalismo de rua! Ali, naqueles instantes, vi espelhadas as duas principais marcas do consulado de Marcelo Rebelo de Sousa: a boa, a sua intimidade com a rua e as pessoas, e a má, o seu excesso de protagonismo, o seu quase desespero pelas atenções alheias. Mas então, meditando no destino daquele homem que saía do poder tal como tinha entrado dez anos antes — sozinho e a pé —, confesso que me impressionou a sua solidão: não havia mesmo ninguém — um familiar, um amigo, um colaborador — que fosse recolher e acompanhar o homem que passara uma década no topo do poder? Ou aquilo seria uma espécie da autoflagelação pública a que ele, católico militante e coerente, se entregava voluntariamente?
Partilho aqui a mesma perplexidade de que Maria João Avillez deu conta quando, no início da sua magistratura, o entrevistou, ainda ele morava na sua casa de Cascais, e no final da entrevista Marcelo lhe confessou que a seguir iria para casa, sozinho, “jantar uma salada”. Se imagino que o poder seja um exercício bastas vezes solitário, não imagino que ele possa ser exercido em solidão pessoal a acrescentar à solidão institucional. Mário Soares foi também um Presidente da rua — e dos abraços, beijos e até estaladas —, mas Soares derramava vida pelas ruas e pelos outros, enquanto Marcelo precisava da rua e dos “afectos” para ter uma vida. Para o bem e para o mal, para o que fez de certo e o que fez de errado, ao longo destes longos dois mandatos, o seu registo terá de ser analisado à luz dessa solidão pessoal. Que, queira-se ou não, desvirtua o olhar e o juízo de quem tem poder — mesmo que, como foi sempre o caso, a sua integridade pessoal e a sua honestidade funcional nunca tenham estado em causa.
Para o bem, muito haveria para dizer e já quase tudo foi dito. Para o que fez de errado, recordo sobretudo o episódio com João Galamba, quando Marcelo, o professor de Direito, embarcou na execução sumária, pública e totalmente injustificada de um ministro cujo crime fora o de ter sido assaltado no seu ministério por um assessor tresloucado e sedento de ridículo protagonismo, secundado por um Ministério Público que até hoje investiga o gravíssimo crime de suposta corrupção que consistiu em o ministro ter autorizado um investimento essencial ao país, mas que ocupava parte de um charco provisório onde, em noites de lua cheia, consta que se avistavam por vezes uma rã e um lagarto ainda mais essenciais ao país. E, claro, a aceitação sumária da demissão de António Costa, com base noutro devaneio político do Ministério Público. Aí, o Presidente Marcelo, nem sequer aceitando a substituição do primeiro-ministro, fez tábua rasa da estabilidade que apregoava e da vontade expressa pouco antes por uma rara maioria absoluta de eleitores. Mas, pior: ele, o guardião do regular funcionamento das instituições democráticas, caucionou um autêntico golpe de Estado institucional da magistratura sobre o Governo democraticamente eleito. E com isso assegurou o regresso do seu PSD ao poder e, de caminho, a ascensão às nuvens da extrema-direita, que ora nos ameaça. Não sei o que lhe terá passado pela cabeça então, mas talvez a tal solidão em que vivia e pensava possa explicar, sem o justificar, tamanha inversão de consequências.
Como sempre, o segundo mandato do Presidente Marcelo foi pior do que o primeiro. Como sempre, perdeu-se tanto em esforços para outorgar um legado que todos admirassem que deixou de ver claro e de conseguir indicar caminhos. Provou, se dúvidas ainda houvesse, que dez anos é demais, seja para quem for. E sai sem conseguir o resumo que certamente desejaria e que provavelmente merecia: deixar um país melhor do que aquele que encontrou. Mas, com ele, sem dúvida que o poder desceu à rua. Sem ter de descer ao nível da rua.
2 Eis algumas coisas que já podemos ter como certas ao fim de 13 dias do ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irão:
— Ninguém sabe quando é que a guerra vai acabar. Do lado americano, os seus líderes contradizem-se entre si, e Trump contradiz-se a si próprio ao longo dos dias ou das horas do dia.
— Não se sabe quantos mais mísseis balísticos terá o Irão disponíveis, pois também não se sabe quantos silos de lançamento terá Israel (sobretudo) conseguido destruir. E, enquanto tiver capacidade de atingir os inimigos, o Irão não se renderá.
— Não se vê como é que as forças atacantes conseguirão desimpedir o estreito de Ormuz sem desembarcarem tropas que o ocupem e sem destruírem todas as lanchas rápidas iranianas. E, enquanto isso não acontecer, a guerra estará longe de poder ser declarada “completa”, como o fez Trump com a sua habitual prosápia como animador dos voos a bordo do Air Force One.
— Enquanto o mundo inteiro — e a Europa particularmente — vive dias de angústia com a perspectiva de uma crise energética desencadeando uma crise económica global, mais de 90% dos israelitas sondados apoiam a continuação da guerra, supõe-se que até à aniquilação total do Irão — seja isso o que for e quando for.
— Israel é que comanda as operações do ponto de vista militar, de intelligence e político. Apesar de toda a sua imensa superioridade de meios e dos seus fornecimentos de armas a Israel serem determinantes, os Estados Unidos limitam-se basicamente a acompanhar a estratégia israelita. Trump está às ordens de Netanyahu — o que não admira, pois, como está à vista, ele não sabia o que era o Irão.
— A declaração de Donald Trump de que quem destruiu com um míssil a escola onde morreram 170 crianças iranianas foi o próprio Irão ficará nos anais da história como a mais estúpida mentira jamais dita por um líder mundial, só alcançável por quem há muito perdeu a vergonha de mentir à vista de todos sem se importar.
Mas episódios como esse têm tendência a fazer crescer a opinião contra a guerra entre os americanos. Isso, mais o afundamento de uma fragata iraniana por um submarino americano em águas internacionais ou o ataque a petroleiros civis em alto-mar, seguido de tiros sobre os náufragos no mar — as proezas de que se orgulha o secretário da Guerra, Pete Hegseth —, é uma nódoa sem remissão no curriculum das Forças Armadas americanas.
— Em toda a Europa, só Espanha parece ter percebido que os Estados Unidos de Donald Trump e dos MAGA não têm nada a ver com os Estados Unidos da Normandia ou do Muro de Berlim a que a Europa ficou a dever a sua libertação da besta nazi e posteriores 50 anos de paz face ao urso soviético. A desilusão vai-se instalando, mas, por ora, o discurso dos líderes europeus ainda assenta na ficção de que os Estados Unidos são um país aliado — quando o único aliado que eles têm e querem ter é Israel.
— Joe Biden impôs à Europa a proibição de comprar petróleo e gás à Rússia sob pena de sanções, e, para que não houvesse tentações, a Ucrânia, com a conivência da NATO, tratou de fazer explodir os dois gasodutos russos que traziam a energia para a Europa Central. Entretanto, os Estados Unidos aproveitaram e substituíram-se à Rússia na exportação do gás liquefeito para a Europa — só que bastante mais caro. E agora, com os preços da energia fora de controlo devido à guerra levada por americanos e israelitas ao golfo Pérsico, a senhora Von der Leyen teve de ir dizer aos deputados europeus que a solução de voltar a importar gás e petróleo da Rússia era inaceitável, mesmo que todos acabem a ganir. Putin deve estar a rebolar-se de gozo.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Lisboa sempre teve personagens curiosas. Houve reis excêntricos, cardeais conspiradores, fadistas dramáticos e ministros que fizeram uma cidade nova com um despacho. Mas poucos personagens urbanos rivalizam com o fenómeno contemporâneo chamado Carlos Moedas, o homem que trouxe para a política municipal uma nova categoria antropológica. O alentejano que queria ser betinho.
E atenção, que isto não é uma crítica ao Alentejo, muito longe disso. O Alentejo é terra de gente sólida, com voz arrastada, mas pensamento profundo e uma capacidade invejável de olhar para a estupidez humana com aquela calma milenar de quem diz: “deixa-o falar que ele já se cansa”.
Mas eis que surge Moedas, produto de um fenómeno raro da evolução sociopolítica portuguesa. O sujeito que nasce em Beja, mas decide que o destino etnográfico é Cascais.
Não é que seja uma coisa importante, mas não conheço ninguém que seja de Beja que tenha perdido o sotaque alentejano. Faz parte. Ter um falar cerrado é identitário e faz parte do orgulho das gentes daquela cidade. Renegar as origens etnográficas para ficar com uma falinha de betinho meio benzoca meio cabrito por desmamar também diz muito sobre a categoria do espécime.
E talvez seja precisamente aqui que começa a chave psicológica da governação cultural lisboeta. Quando alguém passa a vida a tentar provar que pertence a outro clube social, tende a compensar com gestos de grande zelo ideológico.
Mas vamos ao assunto.
Lisboa tem uma série de equipamentos culturais. Teatros, museus, centros de arte, galerias, espaços de programação contemporânea. E esses lugares são dirigidos por pessoas escolhidas, imagine-se o horror, por concursos públicos, avaliadas pelo trabalho e, em teoria, reconduzidas se fizerem um bom serviço.
Ora, recentemente ocorreu um fenómeno administrativo que merece estudo em universidades de ciência política e talvez também em laboratórios de psicologia comportamental.
Todos os responsáveis pelos equipamentos culturais da Câmara Municipal de Lisboa foram reconduzidos. Todos. Uma unanimidade administrativa tão perfeita que faria ciúmes ao comité central da Coreia do Norte.
Mas aqui entra a parte deliciosa. Houve duas pequenas exceções. Duas. Francisco Frazão e Rita Rato.
Coincidência absoluta. Francisco Frazão dirigia o Teatro do Bairro Alto, transformando-o num espaço relevante de programação contemporânea. Rita Rato dirigia o Museu do Aljube. Aquele museu profundamente inconveniente que insiste em recordar que Portugal teve uma ditadura e que houve gente que foi presa, torturada e morta por não alinhar com o regime. Claramente coisas perigosíssimas.
Portanto, o que fez a Câmara? Correu com os dois. Explicação? “Processos de avaliação.” É uma expressão administrativa magnífica. Serve para tudo até para limpar a sujidade.
Dos dois o mais interessante ainda é o caso de Rita Rato. Tinha sido escolhida por concurso público, através de uma maçada burocrática chamada mérito profissional.
E agora foi substituída por uma nomeação direta. Isto não é contraditório. Isto é meritocracia à Moedas. Primeiro faz-se um concurso para parecer civilizado. Depois escolhe-se quem se quer para parecer eficiente.
Mas claro que isto não tem nada a ver com política. Nada mesmo. Seria uma coincidência cósmica que as duas únicas pessoas não reconduzidas estivessem associadas a ambientes culturais progressistas ou à memória antifascista.
Seria também coincidência que o executivo municipal dependa frequentemente de uma espécie de coligação informal com sectores mais entusiasmados da direita grunha lisboeta, daquela fauna política do Coiso, cuja relação com a cultura é aproximadamente equivalente à relação de um javali com a porcelana chinesa. Mas tudo isto são coincidências.Pura meteorologia administrativa.
Enquanto isso, a cidade assiste a momentos gloriosos da gestão Moedas. Tivemos o épico altar da Jornada Mundial da Juventude, que começou como uma obra digna de Ramsés II e acabou reduzido, depois da opinião pública perguntar se aquilo vinha com pirâmides incluídas.
Tivemos também simpáticos contratos mediáticos que alguns vereadores consideraram propaganda institucional paga com dinheiro público.
E o malogrado elevador da Glória que o rapaz nos quer fazer esquecer.
Mas nada disto é tão importante como garantir que os equipamentos culturais de Lisboa não fiquem infestados de ideias perigosas, como pensamento crítico, memória histórica ou programação artística contemporânea. Isso sim, seria um desastre.
No fundo, a política cultural de Lisboa tornou-se simples. Não se fecham teatros. Não se queimam livros. Faz-se algo muito mais elegante. Muda-se quem manda. É uma técnica subtil de jardinagem ideológica. Cortam-se duas plantas mais incómodas, para o jardim parecer bem alinhado quando passam os convidados.
E assim trauteia Lisboa no seu campo de margaridas, em voz de falsete, governada pelo grande campeão da meritocracia municipal, o alentejano que queria ser betinho, homem que descobriu uma nova unidade de valor político.
Não é o euro. Nem o escudo. É o pataco. E infelizmente, no mercado da credibilidade política, da inteligência democrática e da honestidade intelectual, o Moedas, como o próprio nome sugere, parece não valer sequer um.
(Timothy Burke, in A Viagem dos Argonautas, 12/03/2026)
Suponhamos que estamos, de facto, a entrar numa era em que nações poderosas imaginam que deveriam subjugar territórios pela força — territórios que eles não pretendem incorporar às suas nações —, procurando impor o que geralmente tem sido chamado de “império” como forma territorial-política.
Começarei por dizer que os impérios são uma forma política mais antiga do que as nações, e que nem todos os exemplos de império na história global seriam necessariamente inferiores às nações do ponto de vista moral e pragmático.
Porquê? Às vezes tenho a sensação de que os Estados-nação — que têm apenas pouco mais de dois séculos em algo próximo à sua configuração atual — são apenas impérios que decidiram integrar os territórios e populações conquistados ao seu núcleo metropolitano. Como resultado, a maioria das nações modernas contém populações que foram menorizadas no processo de integração nacional e que, por isso, enfrentaram discriminação, perseguição e ameaças.
Em contrapartida, alguns impérios pré-modernos e vários dos mais proeminentes impérios do início da era moderna também concederam considerável autonomia a pequenos grupos de pessoas que falavam línguas diferentes, seguiam religiões distintas ou possuíam tradições políticas divergentes das do núcleo imperial. Alguns impérios na história mundial permitiram que migrantes das suas periferias se deslocassem para a sociedade metropolitana e dela fizessem parte, sem qualquer sentido de discriminação ou exclusão persistente, exigindo apenas que as populações do núcleo adotassem formas essenciais de pertença imperial — língua, vestuário e cultura material, normas políticas, entre outras. Muitos também se valeram de forças militares ou burocracias para facilitar esse tipo de integração das populações periféricas ao núcleo, ao mesmo tempo em que permitiam às periferias manter os seus próprios costumes e normas políticas locais, pedindo frequentemente apenas o pagamento de impostos e a recusa em pegar em armas contra o poder imperial.
É possível interpretar alguns dos primeiros estabelecimentos europeus modernos de poder territorial fora da Europa, entre 1400 e 1800 aproximadamente, como tendo começado, pelo menos, com o mesmo espírito, mas poucos permaneceram assim. Tanto as colónias de povoamento quanto os entrepostos comerciais agressivos despojaram e escravizaram as populações locais, redefinindo-as como classes permanentemente subordinadas por meio de um sistema cada vez mais rígido de hierarquia racial. Eles tiveram êxito, por vezes, menos em razão de uma força militar ou capacidade estatal esmagadoramente superior, e mais pelo fator surpresa: algumas sociedades que foram despojadas ou subjugadas já estavam a metade do caminho para a derrota antes de terem compreendido plenamente que estavam sob ataque.
No início do período moderno, quando postos avançados europeus não reivindicavam esse tipo de poder, isso geralmente ocorria por uma de três razões: primeiro, porque não tinham assimetria de força em relação às sociedades e entidades políticas locais; segundo, porque sabiam muito pouco sobre a região e o ambiente além do local de contacto, e o que sabiam tornava tanto a colonização como a conquista pouco atraentes; terceiro, porque tinham um número limitado de pessoas tanto para a colonização como para a conquista, e mesmo com mecanismos coercivos de recrutamento, não podiam despejar indiscriminadamente marinheiros, soldados e colonos europeus pelo mundo.
Por vivermos no outro extremo da história, tendemos a esquecer em particular a primeira dessas restrições: que muitas sociedades fora da Europa lutaram contra colonos e forças militares por séculos e mantiveram o seu terreno; que especialmente nos primeiros duzentos anos de expansão europeia pelo mundo mais amplo, postos avançados estabelecidos por um grupo de exploradores ou comerciantes simplesmente desapareciam quando o próximo grupo de navios passava uma ou duas décadas depois. Em muitos casos, os europeus aproveitaram o seu armamento embarcado e as suas tecnologias de navegação para agir como bandidos náuticos que exigiam resgate de navios mercantes no Oceano Índico e no Pacífico Ocidental, mas não exerciam força territorial significativa além de pequenos postos avançados que essencialmente alugavam de soberanos locais perfeitamente capazes de frustrar qualquer tentativa de conquista territorial. Colapsámos no fim desse período de expansão europeia — quando havia avanços territoriais acelerados – quando a industrialização incipiente começava a ser um multiplicador de força, quando os assentamentos do Novo Mundo estavam inteiramente entregues à escravidão e ao complexo da plantação — com os longos séculos anteriores a isso, quando os soberanos europeus enfrentavam muitos regimes que eram seus pares, bem como muitas entidades políticas menores capazes de frustrar a maior parte das intrusões nos seus territórios.
.O encerramento desta primeira era da expansão europeia — com as revoluções ‘liberais’ nas Américas, com a Revolução Haitiana e o início do longo fim da escravidão atlântica, com a obsolescência do mercantilismo enquanto sistema de organização do comércio global e da posse territorial — abriu caminho para uma nova era de globalização, que interligou regimes extrativistas com a produção industrial na Europa e na América do Norte, com a ascensão do Estado-nação na Europa e noutras regiões, e com as rápidas transformações tecnológicas e produtivas do século XIX, centradas na Europa e na América do Norte.
Essa mudança criou, no final do século XIX, uma era breve mas avassaladora de assimetria extrema de força entre muitas sociedades que até então haviam mantido os europeus do início da modernidade confinados, quando muito, às suas costas e às novas nações da Europa industrial. Os regimes administrativos estabelecidos na esteira das conquistas extraordinariamente violentas do final do século XIX eram uma “hegemonia com poucos recursos”, que existia apenas em razão dessa assimetria de força — em quase todos os territórios reivindicados pelos britânicos, franceses, portugueses, belgas e alemães naquele momento de transição, houve não apenas resistência militar à declaração inicial do império, mas também vários episódios de resistência violenta coordenada à conquista, quando os primeiros administradores avançaram para impor as suas novas formas de autoridade e as primeiras minas, plantações, ferrovias, portos e fábricas foram construídos. A breve janela em que a Europa e os Estados Unidos exerceram força militar esmagadoramente superior em todos os níveis do poder militar foi o que, essencialmente, lhes garantiu um período de tempo durante o qual as suas burocracias imperiais esparsamente distribuídas, enviadas diretamente da metrópole, se podiam ocupar com o controle administrativo sobre centenas de milhares de súbditos coloniais e tentar demonstrar que tudo aquilo era, de algum modo, necessário e benéfico tanto para os governantes como para os governados.
Três outras causas estruturais importantes do imperialismo moderno em ambas as fases merecem ser mencionadas. A primeira é a expansão ambiental da Europa para o que Alfred Crosby e outros historiadores chamaram de “neo-Europas” — partes do mundo ambientalmente favoráveis às culturas agrícolas e ao gado criados na Europa, onde espécies invasoras europeias podiam deslocar organismos locais e onde as populações humanas eram vulneráveis a doenças endémicas da Eurásia. O inverso disso é que certas regiões do mundo, principalmente as zonas tropicais, eram — e continuam a ser — ambientalmente resistentes a esse tipo de expansão.
A segunda é que o choque inicial da conquista violenta, tanto na fase do início da modernidade como na fase moderna do imperialismo europeu, foi significativamente descentralizado, conduzido por homens armados que não recebiam ordens diretas de comandantes metropolitanos para matar, escravizar ou reivindicar territórios. Em muitos casos, os soberanos e governos das metrópoles sancionaram essas ações retroativamente e aceitaram autoridade sobre territórios conquistados por cidadãos ou vassalos seus que atuavam na periferia global. Em virtude da assimetria de força proporcionada pela industrialização, os europeus e americanos de meados e fins do século XIX que desencadeavam processos de subjugação eram, com frequência, apenas um punhado de indivíduos fortemente armados, acompanhados de mercenários recrutados em portos ou em postos imperiais mais consolidados — ou então eram comandantes como Charles Gordon, enviados para proteger interesses metropolitanos estritamente definidos, mas que optavam por ignorar as ordens e agir de forma mais abrangente.
A terceira é que, no ‘novo imperialismo’ da segunda metade do século XIX, a expansão ocidental foi crescentemente sustentada e ampliada por uma visão estridente de hierarquia racial e privilégio civilizacional, e fortemente apoiado por uma série de instituições que se alinharam com o imperialismo, mas também perseguiram objetivos independentes sob a sua bandeira — mais crucialmente, o cristianismo missionário, a produção académica de conhecimento e a extração capitalista.
Estes pontos colocam-nos de volta à questão de porque é que na segunda metade do século XX e ao longo da primeira década ou mais do século XXI, é uma ideologia corrente — mesmo em regimes políticos de outra forma conservadores — acreditar que o colonialismo não apenas estava ultrapassado, mas tinha sido e sempre seria uma forma político-territorial mais imoral do que o Estado-nação. Apesar do facto de que os Estados-nações cometeram alguns dos genocídios e pogroms mais lancinantes do século XX, apesar do facto de que os Estados-nações foram definidos por hierarquias raciais e étnicas, apesar do facto de que os Estados-nações parecem não menos inclinados a envolverem-se em guerras territoriais com outras nações do que os impérios dentro e além das suas áreas de influência.
E ainda assim eu concordaria: não há possibilidade de que o império se transforme, no cômputo geral, numa forma melhor de soberania territorial na modernidade. Os impérios relativamente tolerantes e cosmopolitas da história mundial — o Império Otomano dos séculos XVI e XVII, o domínio Habsburgo sobre principados diversos do século XIV ao XVIII, os Estados imperiais centrais em mutação do poder dos Mande no alto e médio Rio Níger do século X ao XVI, e assim por diante — não são possíveis hoje, por causa da forma que o imperialismo europeu moderno assumiu. Na medida em que existe alguma analogia com esses impérios mais antigos, esta analogia talvez se encontre em assembleias supranacionais como a União Europeia.
O problema moral do império e da modernidade reside no seu enraizamento profundo e inextricável na dominação racializada exercida por um centro metropolitano sobre uma periferia que esse centro considera intrínseca e permanentemente inferior; na extração não apenas de impostos ou tributos, mas através da manutenção de regimes de trabalho que condenam as populações da periferia à exploração sem alívio nem saída por parte de qualquer autoridade governante; na recusa do império em aceitar responsabilidade pelo desenvolvimento de infraestruturas e serviços na periferia; e no uso necessariamente contínuo da violência e da ameaça de violência como único meio de manter a autoridade imperial.
Pode ser verdade que as nações pós-coloniais não abandonam necessariamente a hierarquia racial ou étnica dentro das suas fronteiras, não renunciam necessariamente aos regimes de trabalho extrativistas, não criam necessariamente as condições para a saúde, a educação e o florescimento humano no interior dos seus territórios, e com frequência recorrem à repressão violenta. Mas não precisam de governar segundo esse espírito. O futuro político das nações é contingente e poderia até mesmo abraçar novas formas de associação supranacional.
O futuro do Império não está em aberto. Não pode ser mais do que aquilo que foi. Um ponto com o qual os seus ardorosos defensores no governo americano concordam. Eles dizem que querem que seja o que foi: dominar sobre inferiores raciais e extrair deles qualquer valor que possa existir nas suas terras.
Isto não é apenas uma abominação moral, é empírica e pragmaticamente incoerente. As condições únicas que tornaram o imperialismo europeu possível no final do século XIX acabaram. A assimetria de força avassaladora e abrangente também já deixou de existir. Os estados-nação europeus repletos dos frutos do capitalismo monopolista e capazes de custear uma burocracia administrativa que abrangia grande parte do globo desapareceram. As populações subjugadas que dificilmente aceitavam a autoridade limitada de impérios de dominação indireta — em parte porque não compreendiam plenamente o que havia além das terras que conheciam — já não existem.
O império do ar que Trump e os seus aliados desencadearam agora contra a Venezuela e o Irão — e que sem dúvida desejam lançar também noutros lugares — não pode exercer nenhum tipo de poder administrativo direto dentro desses territórios. Não se trata de império em nenhum sentido antigo, ainda que alguns deles pensem que seja, e ainda que os analistas de notícias o vejam dessa forma. É banditismo. É a exigência de tributo sem sequer a oferta de proteção futura.
Isso pode funcionar por pouco tempo onde o regime em questão é o que Frederick Cooper chamou de “Estado guardião”. Estados guardiães coletam rendas por permitir que outros atores nacionais e internacionais operem dentro da sua soberania nacional, e viram os seus braços serem torcidos para terem de abrir os seus portões pelo endividamento, por concessão de condições favoráveis de acesso às oportunidades e às riquezas no Norte Global, e da prestação de serviços essenciais às suas populações por meio de ONGs ou ajuda bilateral.
O que Trump está a fazer é inverter de alto a baixo a relação de guardião: ele exige que as rendas fluam para o império, e que o império forneça apenas um único benefício recíproco ao sujeito dominado: não o matar. “Que bonito lugar é este em que está a viver, seria uma pena se algo lhe acontecesse” é basicamente tudo o que a máfia oferece na realidade. A ideia de alguém a proteger os interesses dos seus aliados/ clientes leais através da intimidação e de métodos coercivos (o que é típico da Máfia) é uma ficção. Pague ou morra.
A forma de império de Trump é decapitacionista. Ou se lhe paga, e pode-se viver, o seu palácio ainda fica de pé, a sua grande cidade não recebe uma leve chuva de munições aleatórias, e talvez alguns pescadores possam voltar para casa com o seu pescado. A Venezuela era, sob Maduro, mais ou menos um Estado guardião, embora relativamente pouco passasse pelos seus portões em qualquer direção. É possível cobrar um tributo decapitando o regime da Venezuela porque a sua estrutura de poder é efetivamente personalista — o seu soberano relativamente pouco se importa com o seu povo.
Não será um tributo muito expressivo: se o mafioso realmente o que quer é aquele petróleo, mas para isso vai ter que entrar lá e reconstruir um sistema para o extrair. As grandes empresas petrolíferas não vão fazer isso porque ajudar um regime decapitacionista é só risco, sem recompensa para elas. Sabem como pagar as suas rendas estáveis a um intermediário, mas colocar muito dinheiro para ajudar um gângster instável a receber o seu quinhão — especialmente um mafioso já bem conhecido por não pagar a quem lhe presta um serviço — é coisa para peixe miúdo, não para multinacionais com fortunas imensas. Talvez haja simplesmente algum ingénuo multimilionário que possui uns poços de petróleo e se possa interessar, boa sorte.
O Irão não é um Estado que se pode facilmente decapitar, por comparação. É um Estado ideológico. Construiu os seus bunkers mais profundos não na forma de betão armado, mas em termos de lealdades: juízes, policias, soldados, milícias teocráticas. Não é um Estado personalista, não importa o que o organograma possa aparentar.
Uma máfia pode cobrar um pequeno imposto do alfaiate que trabalha no bairro. Extorquir uma grande empresa é uma proposta diferente. Claro, o CEO quer continuar vivo, e o restante da alta direção pode ser favorável a fechar um acordo se souber que o próximo CEO não ganha a sala de reuniões, mas sim uma bomba na cara. Mas a maioria das empresas de médio e grande porte se recomporia e continuaria a funcionar mesmo que a sala do conselho fosse explodida uma vez por dia. Continue explodindo prédios de escritórios e, cedo ou tarde, você descobrirá que não sobrou nada para tributar.
“The Decapitation of St. John the Baptist”, 1621, Museu Städel Frankfurt am Main.
Ninguém pode administrar um império decapitacionista sobre uma hidra. Nem, paradoxalmente, consegue cobrar tributo facilmente de um alvo rico. O Irão tem muito petróleo, mas a produção petrolífera iraniana importa a muitos outros atores além do próprio Irão, e a maioria deles não toleraria um mafioso a dizer que tudo lhe pertence agora. Trump pode ficar com o petróleo da Venezuela se conseguir, ao ir por esse caminho, convencer alguém a reconstruir a capacidade produtiva, porque ninguém, exceto Cuba, depende tanto dela. A China tem outros fornecedores.
Uma máfia, um cartel, tem de estar extensamente dentro dos seus alvos para efetivamente cobrar o seu tributo, assim como um parasita tem de estar dentro do hospedeiro. O império decapitacionista de Trump está completamente fora dos seus alvos, ou seja, os resultados estão completamente desalinhados com o que é esperado. Trump vai descobrir muito rapidamente que mesmo que a próxima cabeça da hidra grite nah bishtar!, nunca mais ! — a única coisa que não se consegue ver desde a órbita é dinheiro, e não se pode mandar um drone para receber subornos. Ele vai descobrir que não se consegue coreografar a performance de uma nação de milhões, ou mesmo de um regime de centenas, a partir do ar. O poder aéreo só serve para algumas coisas, e nenhuma delas é “controlar um território”.
Trump vai descobrir que a assimetria de força que lhe é disponível, a ele e aos seus lacaios está inteiramente limitada ao céu, ao espaço, a drones, aviões e navios — e talvez à recolha de informações sobre sinais de comportamentos humanos precisos. Digo “talvez” porque creio que a peça de informação mais crucial que um decapitacionista necessita é “onde está a cabeça?”, e neste caso as indicações parecem ser que essa informação veio de Israel. O império de Trump parece estar a avançar a toda a velocidade na direção oposta no que toca a inteligência e informação — e por isso pode chegar rapidamente o dia em que não fazem a menor ideia de quem exatamente bombardear, nem onde esse inimigo poderá estar.
Há também isto a considerar. Existe uma razão pela qual o banditismo geralmente não é um jogo para os já ricos e poderosos. O custo de decapitar — caso o seu alvo tenha consideráveis recursos militares e vontade de continuar a lutar — é muito alto.
Quando um mafioso arrecada menos em tributos do que o custo das armas necessárias para reivindicá-los, esse mafioso não sobrevive por muito tempo. Uma máfia tem muitos pagamentos a fazer, assim como muito tributo a cobrar. Quando os primeiros superam os segundos, bem, as mãos estendidas à espera da sua prata tendem a sacar uma arma ou a ativar uma bomba e a vir reivindicar o que lhes foi prometido. Ou se livram do sujeito que comanda a gangue e o substituem.
O império é e seria um fracasso se é isso que os trumpistas realmente queriam fazer. Eles podem fantasiar que é isso que estão a fazer, mas fica evidente — pela completa falta de interesse em colocar tropas no terreno, em ocupação, em autoridade administrativa prática, ou mesmo em dizer o que realmente querem dizer ao encorajar os iranianos a assumir o controle de seu governo enquanto bombas caem do céu — que eles não estão a falar a sério sobre império.
Também não acho que haja muito futuro em fazer funcionar uma máfia de proteção. É uma imagem estranha para uma potência hegemónica global que, apenas uma década atrás, nadava em dinheiro e atravessava com confiança todos os portões que os guardiães haviam erguido. Isso pode levar alguns a concluir que o armário já está vazio, a herança completamente gasta. As munições inteligentes não estão apenas a acabar — estão a acabar as pessoas capazes de fabricar as munições inteligentes de amanhã.
Em pouco tempo, os antigos regimes guardiães chegarão à conclusão de que não estão muito animados com o bandido a debater-se num frenesi de bêbado. Eles preferem manter a cabeça no lugar, preferem não ter de dormir num bunker fortificado diferente por cada noite que passa, conectados por uma rede de caros túneis de betão. Em pouco tempo, as lideranças nacionais e supranacionais que temem que a máfia possa até invadir os seus bairros bem cuidados decidirão que algo precisa de ser feito, que isso está a custar muito dinheiro e tranquilidade. Em pouco tempo, o bandido vai descobrir que está a ficar sem armas e mantimentos, e que há muito resmungo lá no covil que lhe serve de quartel-general. O bandido vai descobrir que ter a única metralhadora disponível no covil não o vai levar a muito longe — se os camponeses ficarem a ser cada vez mais capazes de esconder o que têm e se conseguirem contratar os seus próprios pistoleiros.
Algumas pessoas precisam que se lhes lembre o motivo pelo qual o imperialismo deixou de funcionar — e seria uma aberração moral de qualquer forma — especialmente aquelas que acham que o velho império está a voltar a ter vida. Mas não é bem isso que as pessoas precisam entender sobre Trump. Marco Rubio pode falar quanto quiser sobre as maravilhas do imperialismo, mas o que ele está a dizer, na prática, é que os Estados Unidos não precisam de nenhuma autorização para se apropriarem do que quiserem, quando quiserem. É uma história com raízes bastante profundas, mas não é preciso ter um doutoramento em história para perceber como é que isso costuma acabar.