Operação Libertem Jacques Baud

(Por Scott Ritter, in Substack, 16/09/2026, Trad. Estátua de Sal)

Jacques Baud

Jacques Baud foi sancionado pela União Europeia por dizer a verdade ao poder. Ele merece o apoio de todas as pessoas que amam a liberdade em todo o mundo.


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Passaram nove meses desde que a União Europeia (UE) implementou um pacote de sanções concebido para impor “medidas restritivas face às atividades desestabilizadoras da Rússia”. Estas sanções entraram em vigor em dezembro de 2025.

Entre as pessoas afetadas por estas sanções da UE está Jacques Baud, coronel reformado do exército suíço, antigo analista estratégico e especialista em inteligência e terrorismo.

Jacques Baud está a ser punido porque a sua posição e análise da guerra na Ucrânia divergem da posição da União Europeia, que o acusa de ser “um convidado frequente em programas de televisão e rádio pró-Rússia”, de ser um “porta-voz da propaganda pró-Rússia” e de “criar teorias da conspiração, por exemplo, acusando a Ucrânia de orquestrar a sua própria invasão para se juntar à NATO”.

A UE acusa ainda Baud de ser “responsável pela implementação ou apoio a ações ou políticas atribuíveis ao Governo da Federação Russa que prejudicam ou ameaçam a estabilidade ou a segurança de um terceiro país (Ucrânia) através da manipulação e interferência da informação”.

As sanções contra Baud “preveem o congelamento dos bens das pessoas sancionadas, a proibição de entrada na UE e a proibição de lhes disponibilizar fundos”.

Em suma, a UE prendeu Jacques Baud, cidadão suíço, contra a sua vontade, obrigando-o a permanecer numa situação que, na prática, equivalia a prisão domiciliária em Bruxelas, na Bélgica, negando-lhe o acesso aos meios de subsistência para si e para a sua família. É isto que hoje em dia se considera democracia na Europa.

Jacques Baud nega as acusações, declarando aos jornalistas logo após a imposição das sanções que “nunca utilizei material russo nos meus livros, mas exclusivamente informação ucraniana e ocidental, e que, consequentemente, recusei convites dos meios de comunicação russos”.

Ofende-se particularmente com a alegação de que promoveu uma teoria da conspiração de que a Ucrânia teria orquestrado a sua própria invasão, referindo que, em vez disso, citou uma declaração de Oleksiy Arestovych , feita em 2019, quando atuava como conselheiro sénior do presidente Zelensky, na qual este alertava que as ambições da Ucrânia de aderir à NATO poderiam desencadear uma guerra com a Rússia.

O caso de Jacques Baud será analisado pela UE, e, neste contexto, é crucial que o maior número possível de americanos compreenda o que se passa na Europa hoje, e que as pessoas e instituições que nós, americanos, consideramos defensoras de valores partilhados estejam, na verdade, envolvidas em ações que são descaradamente antiamericanas em todos os sentidos da palavra.

Viajarei para a Europa em Outubro para esclarecer o caso de Jacques.

O objectivo da minha visita é conhecer e entrevistar Jacques Baud (ele concordou de bom grado com esta empreitada).

Planeio uma série de entrevistas que apresentarão Jacques Baud a um público americano mais vasto, explorando o seu percurso profissional, as suas avaliações sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, os detalhes do processo da UE contra ele, como é a vida sob as sanções da UE e a importância da neutralidade suíça para a paz e a segurança internacionais.

Como jornalista independente, o meu trabalho só é possível graças às generosas doações de apoiantes e seguidores.

Agradeço desde já o seu apoio a esta importante obra. A liberdade de expressão é um direito humano, não apenas um valor americano, e aqueles que dizem a verdade ao poder, como Jacques Baud, devem ter o apoio de todas as pessoas que amam a liberdade em todo o mundo.

Fonte aqui.


Sobre as sanções aplicadas a Jacques Baud

(Compilação da Estátua com base em fontes abertas, via Google)

A expressão “Operation Free Jacques Baud” refere-se à inclusão de Jacques Baud na lista de sanções da União Europeia (UE).

Esta decisão gerou grande debate jurídico e político internacional, sendo vista por apoiantes como uma violação da liberdade de expressão e pelas autoridades europeias como uma medida de segurança contra a desinformação.

1. Por que razão foi ele sancionado?

A União Europeia incluiu o ex-coronel suíço na sua lista de sanções sob a acusação de atuar como porta-voz da propaganda pró-russa e difundir teorias da conspiração sobre a guerra na Ucrânia.

  • A posição da UE: As autoridades europeias argumentam que as suas análises estratégicas e intervenções em canais como a RT France constituem manipulação de informação e interferência híbrida, ameaçando a estabilidade e a segurança da Ucrânia.

2. Quais são as penalidades aplicadas?

Como Jacques Baud residia em Bruxelas (Bélgica) quando a decisão foi tomada, o impacto das sanções da UE foi imediato e severo:

  • Congelamento de bens: Todas as suas contas bancárias e ativos financeiros na Zona Euro foram bloqueados, impedindo-o temporariamente de aceder ao seu próprio dinheiro.
  • Restrição de movimentos: Ficou impedido de viajar ou transitar por países da União Europeia, o que criou um impasse jurídico sobre a sua capacidade de regressar à Suíça.
  • Bloqueio económico: Cidadãos e empresas da UE ficaram proibidos de lhe transferir fundos ou conceder recursos económicos (como o pagamento de direitos de autor pelos seus livros).

3. A reação e a “Operation Free Jacques Baud”

Jacques Baud e os seus advogados contestaram fortemente as medidas, classificando-as como uma punição extrajudicial tomada de forma burocrática, sem direito a julgamento prévio.

  • Ação Judicial: A equipa de defesa recorreu ao Tribunal Geral da União Europeia (TGUE) para tentar anular as sanções, alegando que estas violam a Carta dos Direitos Fundamentais da UE e constituem uma perigosa censura ao debate académico e jornalístico.
  • Isenção Humanitária: Devido ao bloqueio total, o Ministério das Finanças da Bélgica acabou por conceder-lhe uma isenção humanitária, permitindo-lhe aceder a uma fração das suas contas para cobrir despesas básicas de subsistência, como alimentação.
  • A posição da Suíça: O governo suíço declarou que não adotará as sanções da UE contra Jacques Baud, uma vez que a Suíça não replica de forma automática as medidas da UE focadas em ameaças híbridas e desinformação.

O padrão NATO enquanto mecanismo de domínio da indústria militar europeia

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 15/09/2026, Revisão da Estátua)


Padrões da NATO impõem tecnologia e controle dos EUA à indústria militar europeia. BlackRock e Vanguard dominam ações das principais empresas.


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A narrativa oficial é conhecida e amplamente debatida e rebatida! Entre 8 de maio de 1945 e 24 de fevereiro de 2022, a Europa – o mundo – não conheceu a guerra. A Europa e o mundo viveram idilicamente em paz, apenas aqui e ali ameaçados pelas forças da ditadura, do mal e do terrorismo, o que obrigou, de forma humana e democrática, à intervenção pontual, casual e excecional dos EUA e dos seus aliados, motivados por uma altruísta motivação, infinita bondade e férrea vontade de defesa do bem.

O paraíso neoliberal na terra terminou com o que o Ocidente coletivo designou de «invasão» russa da Ucrânia, «obrigando» uma «agredida» Europa a rearmar-se. A Rússia estava a «atacar» a Europa; a Europa estava em guerra, declarada pela Rússia. Tudo o que tinha conduzido ao que os russos – à imagem do que fez a NATO no Kosovo – designavam de «operação militar especial» foi subitamente silenciado, sendo classificados como putinistas todos os que tentavam enquadrar histórica e objetivamente o problema. O reacendimento dos preconceitos supremacistas, russófobos e anticomunistas primários da Guerra Fria, desde logo, veio ao de cima.

Mas, mais do que falar da estupidez proverbial, ignorância e imbecilidade de uma classe dirigente de funcionários de má qualidade, que hoje atira a União Europeia para um abismo tão escuro que ameaça destruí-la, o importante é abordar, desvendar e revelar o que se escondeu por detrás deste teatro trágico-cómico de má qualidade.

Enquanto os dirigentes da UE, da NATO e do Reino Unido davam corpo e voz a uma comédia de stand-up tão miserável que pareceria ter sido programada pelo sonolento Joe Biden, os EUA, ao longo do tempo em que preparavam e aperfeiçoavam os instrumentos de submissão de Bruxelas através da NATO – esgrimindo os célebres padrões de interoperabilidade —, tomaram conta não apenas de dimensões estratégicas de segurança da UE – como no caso do fim da neutralidade sueca e finlandesa —, como aumentaram exponencialmente o comércio de armas com a Europa e passaram a controlar, como nunca, o complexo industrial-militar, mesmo de países antes resistentes em relação à defesa da sua independência militar, como a Suécia, a França, Itália ou Espanha.

Encoberta por uma narrativa russófoba que se foi acentuando à medida que a Ucrânia se ia instabilizando – resultado de duas revoluções coloridas, a Laranja, em 2004, e a «da Dignidade», em 2014, esta última um golpe de Estado contra um Presidente eleito —, a estrutura do complexo militar-industrial dos Estados da UE foi mudando de qualidade: a entrada de capitais norte-americanos nas empresas do complexo militar-industrial europeu, a sujeição das armas produzidas na União Europeia aos controlos de exportação dos EUA (os mecanismos ITAR/EAR – International Traffic in Arms Regulations e Export Administration Regulations) e a conversão de mecanismos comunitários – como o instrumento SAFE – em canais de transferência de recursos europeus para a indústria e para a dívida norte-americanas. O resultado é uma perda de soberania que já não é apenas política, mas também financeira, tecnológica e operacional.

O alargamento da NATO como abertura de novos mercados

O alargamento sucessivo da NATO – das vagas de 1999 e 2004 à adesão da Finlândia e da Suécia, em 2023-2024 – não pode ser entendido apenas como resultado de um qualquer processo de entendimento em matéria de segurança coletiva. Vê-lo assim implica deixar de fora um conjunto de dimensões que integram o processo, interagindo e co-determinando as decisões tomadas.

A cada novo alargamento, assistimos a todo um movimento de fluxo de capital, conhecimento, propriedade industrial e inteligência, que tendem a assumir uma corrente unidirecional, da periferia para um centro, o qual, não sem resistência, tende a concentrar, em benefício da sua estratégia, as vantagens daí decorrentes. Nesse sentido, cada novo membro admitido é confrontado com condicionalidades que vão no sentido da adoção dos padrões da Aliança (os Standardization Agreements, STANAG), os quais funcionam como mecanismos de harmonização e uniformização regulamentar, industrial e operacional em relação ao modelo norte-americano.

Estas normas técnicas, que são mais de 1.200, são depois integradas nos Acordos de Padronização que os membros da Aliança têm de assinar, um pouco à imagem do que os Estados-Membros da UE têm de fazer quando querem aderir, obrigando-se, através dos acordos de adesão, a cumprir os requisitos aí estabelecidos.

Para materializar tudo isto, o próprio Plano de Ação para a Produção de Defesa da NATO (Defence Production Action Plan) consagra a NATO como standard setter e requirements setter, impondo a interoperabilidade e a padronização de munições e sistemas como condição da coesão da Aliança. Ora, esta harmonização é, à partida, benéfica para os países que pretendem beneficiar do acesso a um mercado de armamento privilegiado, com fundos infindáveis. O problema é que, ao aceitarem estes requisitos, estão também a submeter-se às regras ditadas, essencialmente, pelos EUA, os grandes produtores e vendedores de armamento da Aliança, mas, acima de tudo, os que marcam o passo do desenvolvimento tecnológico, assegurando que, do ponto de vista tecnológico, se encontram sempre na fronteira do que existe de mais avançado.

A lei da gravidade do padrão NATO demonstra uma poderosa atração para os EUA

Não se pode dizer que o esquema não está bem concebido, parecendo tudo muito equilibrado e transparente, como sucede nos restantes casos em que a arquitetura internacional tem a mão dos EUA e em que se visa convencer-nos de que se trata de parcerias entre iguais. Também aqui, uns são mais iguais do que outros.

Assim, a primazia norte-americana nos STANAG não é formal ou oficial, uma vez que o processo é, à primeira vista, consensual e multilateral. Contudo, a sua primazia é de ordem estrutural, vertebral, sendo organizada por cinco tipos de mecanismos.

a) Os STANAG como standards reciclados a partir da normalização técnica dos EUA

Um montante significativo destes STANAG foi simplesmente adotado a partir de standards do Departamento de Defesa dos EUA, como é o caso, por exemplo, do MIL-STD-1553 (barramento de dados de aviónica), publicado pela Força Aérea dos EUA em 1973 e adotado pela NATO em 1981 como STANAG 3838. Hoje, este equipamento está integrado no Eurofighter Typhoon, no Tornado, no Rafale, no Gripen, no Leopard 2, no NH90, no Meteor e no Storm Shadow/Scalp – ou seja, nos programas europeus «soberanos» por excelência e vendidos ao público, como no caso do Rafale, como sendo à prova de controlos de exportação dos EUA. A manutenção da norma não é feita pela NATO, mas pelo Departamento de Defesa dos EUA e pela Society of Automotive Engineers. Não nos admiremos de que o projeto europeu FCAS tenha ficado em risco – este pretendia produzir um caça de 6.ª geração à prova de controlos de exportação dos EUA.

Este exemplo ilustra bem como é que um equipamento dos EUA acaba na tecnologia europeia, entregando assim, de bandeja, o controlo de exportações destes equipamentos à Casa Branca, ao passo que, no sentido inverso, nenhum outro país da NATO pode impor aos EUA qualquer restrição de exportação aos seus equipamentos militares. A normalização NATO constitui assim um fio condutor que transforma os requisitos dos EUA em requisitos NATO, impondo, por via indireta, a adoção de tecnologias que apenas os EUA dominam na perfeição. É caso para dizer que os standards NATO, antes de o serem, já o eram.

b) O caso do controlo criptográfico

Este exemplo é ainda mais pernicioso e vergonhoso para os supostos «aliados». A variante norte-americana do Link-16 (rede de comunicação de dados táticos militares, cifrada e resistente a interferências) inclui componentes classificadas como «NOFORN (not releasable to foreign nationals – não transmissível a estrangeiros)», sendo o «Link-16 da NATO» apenas o subconjunto das componentes que podem ser transferíveis de acordo com a regulamentação de controlo de exportações.

Concretamente: para que um aliado possa operar de forma interoperável com ativos norte-americanos, é necessário um crypto load devidamente autorizado pelos EUA, o que implica uma decisão de libertação da National Security Agency (NSA) e a abertura de um caso de Foreign Military Sales (venda militar a estrangeiros), de forma a obter a autoridade de libertação adequada. Ou seja: o standard é multilateral, mas a chave que o ativa é unilateral e norte-americana, atribuindo aos EUA o poder dominante sobre toda a informação e inteligência militar da NATO, tendo também o poder de ligar ou desligar a tecnologia em causa, tornando inúteis os equipamentos europeus.

c) Domínio da infraestrutura de teste e qualificação

Esta é uma das fatias mais importantes do domínio estratégico dos EUA sobre o armamento da NATO, pois o principal evento de teste de interoperabilidade da Aliança, o CWIX (Coalition Warrior Interoperability Exploration, Experimentation, Examination and eXercise), com mais de 30.000 testes ou exercícios de interoperabilidade em 2026, é executado pelo Allied Command Transformation, sediado em Norfolk, Virgínia – um dos dois comandos estratégicos da NATO —, e realiza-se no Joint Force Training Centre, em Bydgoszcz, Polónia. Já os laboratórios militares norte-americanos funcionam como nós permanentes do CWIX (ex.: o laboratório da US Navy em San Diego), o que significa que grande parte da validação ocorre, fisicamente ou por ligação remota, em solo e sistemas dos EUA.

Controlar todo este processo significa reter as competências, o know-how, a experiência e o aparato tecnológico respetivos. Ou seja, não se pode propriamente falar de um sistema de defesa da UE se todas estas valências absolutamente fundamentais, estruturais – a verdadeira espinha dorsal —, estão nas mãos de um só país. É caso para recorrer a uma das frases mais comuns de Scott Ritter: «a Europa não tem nada»! Por «Europa», entenda-se «União Europeia», porque a Rússia também é «Europa» e tem tudo, sendo essa uma das mais ameaçadoras características que esta nação encerra para os EUA.

d) O peso financeiro dos EUA, agravado pela submissão e decadência económica da EU

Os EUA financiam cerca de 22% dos orçamentos comuns da NATO, fornecem uma parcela significativa do pessoal da estrutura de comando e acolhem o quartel-general do ACT em Norfolk. Um documento do Congressional Research Service (CRS) regista que as participações norte-americanas nos fundos comuns situam-se historicamente entre 22% e 25% e que a capacidade da NATO de «fazer pagamentos a contratantes dos EUA» depende diretamente das apropriações do Departamento de Defesa – a NATO, enquanto compradora e financiadora de infraestrutura comum (NSIP), é também um canal de receita da indústria norte-americana.

e) O poder de atração é dos EUA

Os STANAG tendem a normalizar o equipamento que os exércitos aliados efetivamente operam – sendo o equipamento dominante o norte-americano: 58% das importações de armas dos países europeus da NATO em 2021-25 vieram dos EUA, e 12 países europeus da NATO (13, incluindo a Suíça) encomendaram ou selecionaram mais de 600 F-35. Quando a NATO padroniza interfaces, mensagens e testes, o «sistema de referência» contra o qual os outros se qualificam é, na prática, o sistema norte-americano, o que conduz, no mínimo, a adquirir um conjunto de valências e sistemas aos EUA.

De forma mais ou menos obscura, o resultado financeiro de todo este ecossistema militar-industrial está bem expresso nos números do SIPRI, os quais mostram o que isto significou em termos de mercado de armamento: entre 2021 e 2025, a Europa foi, pela primeira vez em duas décadas, o principal destino das exportações de armas dos EUA (38%), com um crescimento de 217% face a 2016-20. A «interoperabilidade» tornou-se, assim, o argumento jurídico-técnico que legitima toda a dependência estrutural.

Os verdadeiros detentores da indústria de defesa europeia

Mas a primazia norte-americana sobre o complexo militar-industrial da NATO não acaba aqui. Apesar dos belos discursos de von der Leyen sobre «autonomia estratégica», bastante encorajadores para quem está demasiado exposto à informação dominante e oficial, nada do que tem a ver com a NATO, o rearmamento da UE e a Fortaleza Europa tem a ver com «autonomia estratégica».

A prova disto mesmo é a forma como o capital dos EUA foi penetrando nas empresas do complexo militar-industrial da UE. As grandes campeãs europeias da defesa têm hoje estruturas acionistas fortemente norte-americanizadas.

Segundo análise de junho de 2025:

  • Rheinmetall (Alemanha): cerca de 28% da empresa estava em mãos de investidores institucionais norte-americanos no final de 2024 – incluindo BlackRock, Morgan Stanley, Bank of America e Goldman Sachs, cada uma com cerca de 5% dos votos. Em 2022, essa participação era de 40%.
  • Leonardo (Itália): dos 50% das ações geridas por investidores institucionais, os fundos norte-americanos representam 57% – ou seja, 28,5% do total da empresa. Entre eles, BlackRock, Capital Research & Management e Vanguard. Os investidores europeus e britânicos gerem apenas cerca de 12%. Em setembro de 2024, a Itália autorizou expressamente a BlackRock a elevar a sua participação na Leonardo acima dos 3%.
  • BAE Systems (Reino Unido): os interesses institucionais norte-americanos controlam quase 44% da empresa britânica.
  • Airbus SE: a maioria dos 74% de capital em free float é dominada por gestoras de ativos, com um peso muito significativo dos EUA, representadas através do Capital Group, BlackRock ou Vanguard.
  • Fincantieri S.p.A.: com cerca de 36% de capital flutuante, BlackRock, Vanguard ou State Street gerem posições importantes. Enquanto cliente de bancos como o Jefferies ou JP Morgan, a Fincantieri vê-se assim aberta à entrada de capitais dos EUA.
  • Safran: cerca de 75% a 80% do capital está em circulação livre, sendo a BlackRock, o Capital Group, a Vanguard e a TCI os principais acionistas. Os investidores dos EUA representam a maior fatia entre os acionistas, costumando representar entre 35% e 42% da Safran – mais do que a França.
  • Saab: a maior acionista é a família Wallenberg, tendo sido um dos principais veículos da chegada da Suécia à NATO. Neste sentido, e coincidentemente, a exposição da Saab aos EUA existe através da emissão de dívida, dependendo do rating da norte-americana S&P, e tem entre os maiores acionistas a BlackRock, a Vanguard, o Capital Group e ETFs da VanEck e Global X. Acresce que a sua exposição ao controlo de exportações dos EUA é brutal, uma vez que a dependência tecnológica é muito grande, especialmente nos caças Gripen.
  • Indra: esta empresa espanhola, que tem o Estado como maior acionista, é participada pelas grandes gestoras de ativos dos EUA, como a Fidelity, a BlackRock, a Vanguard e a T. Rowe Price.

É impossível não estabelecer uma relação entre a NATO e o formato e as características intrínsecas do complexo militar-industrial da União Europeia, sendo omnipresente a presença de capital norte-americano nas suas principais empresas de armamento. Do padrão NATO ao domínio do capital, passando pelas tecnologias vetoriais, como as ligadas aos sistemas mais avançados, nomeadamente de comunicações, informática, inteligência artificial, sensores e nanotecnologias, diversas são as formas que os EUA usam para sugar recursos e determinar as políticas europeias em matéria de defesa.

Poderíamos ainda falar mais aprofundadamente de outros mecanismos, como:

  • Controlo das vendas e exportações: um governo europeu que queira vender uma plataforma com componentes norte-americanos precisa de autorização de Washington – um processo que pode demorar dias, semanas ou meses e que pode ser politicamente bloqueado.
  • Controlo dos dados e do software: os sistemas de armas modernos dependem de atualizações contínuas de software, de bibliotecas de ameaças e de dados de missão. Quem controla o software controla a plataforma – incluindo a possibilidade de backdoors ou da interrupção de suporte em caso de conflito.
  • Efeito dissuasor: a exposição ao ITAR «contamina» programas inteiros e afeta a competitividade das exportações europeias, já que os compradores internacionais procuram plataformas livres de veto político externo.

Por outro lado, o instrumento SAFE (Security Action for Europe – Ação pela Segurança da Europa) disponibiliza empréstimos até 150 mil milhões de euros, financiados pela emissão de obrigações da UE nos mercados de capital, permitindo ganhos avultados, quer em compras diretas aos EUA, quer em ganhos de royalties e de domínio financeiro, nomeadamente em especulação e dividendos.

Neste domínio, embora o Regulamento (UE) 2025/1106 permita que até 35% do custo dos componentes do produto final provenha de fora da UE/Ucrânia/EEE-EFTA, já vimos que, mesmo comprando dentro, podemos estar a comprar fora. A decisão de comprar a empresas europeias ou nacionais não implica que, em grande medida, o ganhador final não sejam os EUA.

A guerra da Ucrânia: o negócio perfeito

Ora, se catalisador houve para toda esta negociata, esse catalisador foi a guerra da Ucrânia, daí a necessidade que os EUA têm de impedir que o conflito termine com uma vitória total do lado russo. Tal vitória, pelo fim do conflito que significaria, estou em crer que esbateria grande parte da histeria que hoje a Casa Branca explora para submeter a UE e torná-la no principal cliente do mundo, levando-a a gastar mais em despesas militares relacionadas com os EUA (todos os fatores combinados) do que o próprio orçamento militar da República Popular da China, que é o segundo maior do mundo.

O final russo que se prevê, mais cedo ou mais tarde, terá o condão de obrigar a UE a decidir se usa o que não tem para atirar à Federação Russa ou se, finalmente, os seus povos ouvem as vozes da razão e obrigam à negociação e a um acordo de segurança que nos traga a merecida paz. Essa paz é a maior inimiga dos EUA, mas será também mais um golpe mortal no seu domínio hegemónico global.

Daí o desespero da corrida a Moscovo em nome de Trump e a pedido dos cavaleiros da boa vontade!

Fontes

  1. SIPRI, «Global arms flows jump nearly 10 per cent as European demand soars», 9 de março de 2026 – Europa como principal destino das exportações de armas dos EUA (38%) pela primeira vez em duas décadas; aumento de 217%; os EUA forneceram 58% das importações de armas dos membros europeus da NATO em 2021-25.
    https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars
  2. NATO, «Updated Defence Production Action Plan», 13 de fevereiro de 2025 – papel da Aliança como «convenor, standard setter, requirements setter and aggregator».
    https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2025/02/13/updated-defence-production-action-plan
  3. EUR-Lex, Regulamento (UE) 2025/1106 (instrumento SAFE) – até 150 mil milhões de euros em empréstimos; componentes de fora da UE/Ucrânia/EEE-EFTA limitados a 35% do custo.
    https://eur-lex.europa.eu/PT/legal-content/summary/security-action-for-europe-safe-instrument.html
  4. MIL-STD-1553/STANAG 3838 – publicado pela USAF em 1973, adotado pela NATO em 1981; utilizado no Eurofighter Typhoon, Tornado, Rafale, Gripen, Leopard 2, NH90, Meteor e Storm Shadow/Scalp; manutenção pelo DoD dos EUA e pela SAE.
    https://www.milstd1553.com/resources-2/history-of-mil-std-1553/
  5. NATO ACT, «CWIX 26 Strengthens NATO’s Digital Interoperability», 30 de junho de 2026 – mais de 30.000 testes de interoperabilidade, 46 nações, liderado pelo Allied Command Transformation.
    https://www.act.nato.int/article/cwix-2026-concludes/
  6. CJCSM 6520.01B, «Link 16 Operations» – gestão de chaves criptográficas sob autoridade da NSA; restrições de libertação do tipo NOFORN.
    https://www.jcs.mil/Portals/36/Documents/Doctrine/training/jid/cjcsm6520.01b_link16.pdf
  7. Investing.com/Reuters, «BlackRock recebe aprovação da Itália para aumentar participação na Leonardo», 23 de setembro de 2024.
    https://br.investing.com/news/stock-market-news/blackrock-recebe-aprovacao-da-italia-para-aumentar-participacao-na-empresa-de-defesa-leonardo-93CH-1347804
  8. VOA Português, «NATO projeta reformas e anuncia redução da contribuição dos Estados Unidos», 2019 – os EUA pagavam cerca de 22% do orçamento central da NATO.
    https://www.voaportugues.com/a/nato-projecta-reformas-e-anuncia-redu%C3%A7%C3%A3o-da-contribui%C3%A7%C3%A3o-dos-estados-unidos-/5188334.html
  9. Aerospace Global News, «European countries completely transitioned to F-35», 13 de setembro de 2025 – 13 países europeus a adquirir o F-35, cerca de 668 aeronaves planeadas.
    https://aerospaceglobalnews.com/news/europe-f35-fighter-jet-transition/
  10. Breaking Defense, «Spain rules out F-35 order, prioritizes Eurofighter and FCAS», 6 de agosto de 2025 – estado do programa FCAS e disputa Airbus-Dassault.
    https://breakingdefense.com/2025/08/spain-rules-out-f-35-order-prioritizes-eurofighter-and-fcas/

Ireneu Teixeira – a Padeira da Geopolítica

(Luís Rocha, in Facebook, 10/09/2026, Revisão da Estátua)

Gente Boa. Passarei a estar convosco apenas aos domingos, em hora a anunciar em breve. Avisarei sempre que houver alguma alteração na programação. Obrigado por existirem na minha vida.

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Há uns tempos que tenho Ireneu Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos, lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW, deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue encolher em tempo real.

Ireneu é apresentado como comentador de política internacional, o que é uma classificação extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser a de um turista com um mapa de pernas para o ar.  Olha para ele, acha tudo muito interessante e depois vai parar a outro país.

 Em 2024, apresentou no NOW um vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro, explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para confirmar a informação.

É uma metodologia extremamente interessante.

 Antigamente verificava-se a notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se na televisão e logo se descobre o que era.

A ERC acabou por considerar que o NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de WhatsApp em política internacional.

Depois veio o episódio do suposto dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa, porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário internacional.

 E finalmente chegámos a Ceuta, ou melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões.

Toulouse em Ceuta, França em Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.

 É difícil errar tanto sem começar a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.

 Depois veio a fabulosa história da Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou como falsa.

 Mas nada disto se compara à monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a Restauração da Independência, em 1640.

São apenas 255 anos de diferença, uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois de inventarem a internet.

 O problema é que Ireneu não comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações, terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas sugestões.

 E talvez seja essa a verdadeira inovação.

Já não precisamos de correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente flexível com a verdade.

 Ireneu conseguiu transformar a política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na Restauração.

Há pessoas que explicam o mundo.

 Ireneu prefere inventá-lo.

 E fá-lo com aquele ar solene de quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a realidade se sinta intimidada e vá embora.

Só que a realidade tem este defeito terrível.

Insiste em existir.

E parece que finalmente alguém percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira, numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar a cara apenas ao domingo.

 É uma solução sensata e, sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.

 Ao domingo, portanto, lá teremos a sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos. A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir Toulouse com Ceuta.

 E tudo isto acontece na Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados, outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi entrevistada.

 É que, sendo accionista, Ronaldo adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.

No fundo, é uma espécie de reforma dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter de levar com ele todos os dias.

E talvez seja mesmo essa a grande conquista.

 Durante a semana, a Terra gira normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha, Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.

Depois chega domingo, abre-se a televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.

A História pode mudar de século, a geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente em Conselho de Segurança da ONU.

 Há pessoas que estudam o mundo para o compreender.

 Ireneu prefere recebê-lo por mensagem.

Felizmente, agora só ao domingo.

Valha-nos isso…

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://theblindspot.pt/desinformacao-no-canal-now…

https://theblindspot.pt/comentador-do-now-justifica…

https://theblindspot.pt/queixa-the-blind-spot-a-erc…

https://theblindspot.pt/depois-de-condenacao-da-erc-por…

https://www.rtve.es/…/falso-jovenes…/17178491.shtml

https://poligrafo.sapo.pt/…/mercadona-contactou-a…

https://www.jf-aljubarrota.pt/pt_pt/history/padeira