O florir do bambu e as bombas ou a simulação dos caudilhos

(Luís Rocha, in Facebook, 28/02/2026, Revisão da Estátua)


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Só podemos estar a viver dentro de uma simulação. Não digo isto com leveza mística nem com incenso new age aceso por todo o jardim. Digo-o com a frieza de quem olha para o écran e percebe que alguém carregou em “reset” outra vez. Sempre que o mundo começa a alinhar-se minimamente com prosperidade, avanços científicos e algum pudor civilizacional, surge um adolescente cósmico com borbulhas metafísicas que decide testar o botão vermelho.

A chamada hipótese da simulação, formalizada por Nick Bostrom, sugere que podemos estar a viver numa realidade computacional criada por uma civilização avançada. David Chalmers até concede que, mesmo que sejamos avatares, as nossas experiências continuam a ser reais para nós. Maravilha. Nada melhor que saber que a guerra pode ser apenas um bug ontológico.

Ora, se isto é um jogo, alguém activou o modo “Caudilho Imperial Deluxe”.

Donald Trump decidiu desencadear mais uma escalada contra o Irão, numa sequência de ataques que já vinham a fermentar desde a saída unilateral dos EUA do Joint Comprehensive Plan of Action. O argumento oficial é sempre o mesmo. Travar o programa nuclear iraniano, salvar o mundo, defender a liberdade, proteger o hambúrguer. A liturgia habitual.

Na prática, temos bombardeamentos a instalações nucleares, retaliações com mísseis e drones, bases na região em alerta máximo e o Médio Oriente a funcionar como campo de testes para testosterona geopolítica. O mundo observa, a bolsa oscila e o petróleo esfrega as mãos viscosas pelo disparo dos preços.

E a parte deliciosamente cínica do guião é que esta guerra serve sobretudo dois protagonistas. Trump, que transporta um passado incluído nos Epstein Files com uma carga judicial e política que lhe pesará como uma bigorna até às eleições intercalares, senão para o resto da vida, e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita encostado a investigações, acusações de crimes contra a humanidade e à erosão interna do seu poder. Nada une mais dois líderes pressionados do que uma boa guerra externa para consumo doméstico. É o truque mais antigo do manual. Quando a casa arde por dentro, aponta-se o dedo ao vizinho.

A mentalidade que sustenta esta lógica é antiga, mas aqui recicla-se que nem plástico tóxico. Totalitária no impulso, imperial na ambição, invasiva nos direitos. Surge ciclicamente. Como o florescer dos bambus, passam décadas a crescer vorazmente e, de repente, florescem todos ao mesmo tempo, independentemente da idade. E depois morrem, deixando tudo à sua volta seco e exaurido.

O ocidente tem este tique nervoso. Cansa-se da estabilidade e decide experimentar o abismo. De vez em quando, farta-se de estar relativamente bem e inventa um salvador musculado, um vendedor de grandezas passadas, um restaurador de impérios imaginários. A história está cheia deles. Mudam os penteados, mas mantém-se a vontade de pulsão fascista.

A ironia é que, se isto for mesmo uma simulação, estamos a ser governados por personagens com inteligência artificial de primeira geração. Previsíveis, reactivos, incapazes de aprender com versões anteriores do jogo. Já vimos este filme no século XX e o final não foi exactamente uma comédia romântica.

E não, este texto não é uma defesa do regime iraniano, que está longe de ser um modelo de virtude democrática. É uma constatação simples. Guerras preventivas raramente produzem democracias floridas. Produzem destroços, radicalização e décadas de instabilidade. A matemática usada noutras contas é brutalmente consistente.

Se a hipótese da simulação estiver correcta, talvez haja um servidor algures a sobreaquecer com tanta estupidez concentrada. Talvez um estagiário cósmico esteja a olhar para o ecrã e a dizer: “Épa, exagerei no parâmetro ‘ego’ destes dois NPCs.” E talvez estejamos a segundos de um patch corretivo.

Mas se não estivermos numa simulação e tudo indica que não temos como provar uma coisa ou outra, então isto é ainda mais grave. Porque significa que não há criança nenhuma a brincar com o joystick. Somos nós. Com eleições, opinião pública, instituições e memória histórica. Ou com a falta dela.

Para onde nos levará esta pulsão belicista saberemos nas próximas semanas.

Se isto for uma escalada regional, um conflito prolongado, ou se forem apenas negociações forçadas pela exaustão, o futuro imediato depende menos de metafísica e mais de cálculo político, equilíbrio militar e pressão internacional.

Se isto for um jogo, estamos a jogar no modo “hard”.

Se não for, estamos simplesmente a repetir os mesmos erros com gráficos em alta definição.

E nesse caso, não precisamos de um programador divino. Precisamos é de adultos na sala.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

Hipótese da simulação

https://pt.wikipedia.org/…/Hip%C3%B3tese_da_simula%C3…

Nick Bostrom, “Are You Living in a Computer Simulation?”

https://www.simulation-argument.com/simulation.html

United States strikes on Iranian nuclear sites https://en.wikipedia.org/…/United_States_strikes_on…

Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) https://en.wikipedia.org/…/Joint_Comprehensive_Plan_of…

Reuters – cobertura sobre operações militares dos EUA no Irão (2026) – https://www.reuters.com/world/middle-east/

Major-General Agostinho Costa: EUA e Israel atacam o Irão

(Agostinho Costa, in CNN, YouTube, 28/02/2026)

(Continuamos na alucinação e a brincar com o fogo. Queremos mesmo uma guerra que destrua o mundo. Estamos nas mãos de loucos. Na sequência dos últimos acontecimentos relativos ao ataque dos EUA e de Israel ao Irão, o especialista em segurança e defesa Major-General Agostinho Costa analisa os principais detalhes dos mais recentes acontecimentos.

É ver o vídeo abaixo.

Estátua de Sal, 28/02/2026)



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A Terceira Guerra Mundial vai começar

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 27/02/2026)


Sinais geopolíticos indicam escalada de tensão entre EUA, China, Rússia e Irão.


Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o cheiro da guerra estava no ar, um dos mais prolixos defensores da paz, o escritor Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura de 1915, escrevia que a urgência do momento já não permitia a circunspecção analítica da complexidade dos fatores que impulsionavam a guerra. A guerra podia começar a qualquer momento, antes mesmo de terminarmos as nossas reflexões. Posso estar redondamente enganado, mas sinto-me hoje a viver a mesma perplexidade que assombrou Rolland nos meses que antecederam o início da Primeira Guerra Mundial. Por isso, este texto desagradará aos meus leitores habituais. E, para complicar as coisas, eu desejo ardentemente estar enganado ao escrever, no que se segue, a iminência da guerra.

Ao contrário do que aconteceu nas guerras anteriores, menos gente no mundo pode declarar-se surpreendida quando as notícias da próxima guerra global rebentarem. É que os sinais são muito evidentes e são muito conhecidos. Tal como aconteceu com os impérios anteriores, o declínio do imperialismo norte-americano será lento e violento até que uma guerra precipite o seu fim. Em 1914, havia quatro grandes impérios: o alemão, o austro-húngaro, o russo e o otomano. Nenhum deles sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Restaram os impérios assentes em colônias (britânico, francês, italiano, japonês, português, holandês, belga e espanhol). Nenhum deles sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, embora agonizassem durante algum tempo (o português, até 1975).

Que impérios existem hoje? Se entendermos, por império, toda a unidade política de grande escala com um poder central que exerce o controle sobre povos distintos tratados discriminadamente em resultado de conquista militar, colonização ou pressão económica, podemos afirmar que hoje existem os seguintes impérios: EUA, China, Rússia, Israel e União Europeia. Pode surpreender incluir na lista Israel, porque a sua escala é menor. Mas em contrapartida é o país que mais diretamente assume as formas mais antigas de dominação imperial: conquista militar e colonização. Pode também surpreender que a União Europeia seja considerada um império. É um quase-império, um império em formação. Não o era na origem, mas tem-se vindo a constituir como tal à medida que aumenta a assimetria política entre os povos que a constituem (relações imperiais entre países supostamente iguais na partilha da soberania) e se prepara para agressões militares (ainda que justificadas como defesas militares). A nova rivalidade imperial pode definir-se assim: de um lado, EUA, UE e Israel; e do outro, China e Rússia. Cada grupo tem um líder que define uma estratégia colectiva. Na atualidade, os líderes são EUA e China.

Cada grupo imperial defende a ideia de multipolaridade enquanto isso convém ao seu fortalecimento. Continua a convir à China, mas deixou de convir aos EUA. É esta assimetria que vai conduzir à próxima guerra. Mas os rivais evitam enfrentar-se diretamente durante o maior tempo possível. Para isso, usam as guerras por procuração (proxy wars) com o objetivo de enfraquecer o rival. A primeira guerra por procuração é a guerra Rússia-Ucrânia, uma guerra encorajada pelos EUA para neutralizar um dos principais aliados da China – a Rússia. Enquanto precisar dos EUA para terminar a guerra com a Ucrânia, a Rússia não interferirá em qualquer outra intervenção imperial norte-americana.

A segunda guerra por procuração foi a guerra Israel-Palestina com o objetivo de consolidar a derrota histórica do Islão que remonta às Cruzadas. Devido a essa derrota, os países islâmicos têm estado sempre sob suspeita porque a sua lealdade às potências cristãs que historicamente os derrotaram é sempre vista como matéria de conveniência. O modo como eles se têm comportado perante a guerra Israel-Palestina mostra ao grupo imperial EUA-UE-Israel que o Islão está bem neutralizado. Com uma excepção, o Irão, o único Estado que se define como teocracia e que, como tal, vê a ferida da derrota histórica como permanentemente sangrando. O Irão não pode ser neutralizado. Tem de ser destruído. O mesmo se pode dizer de Cuba, mas Cuba não tem para a China ou para a Rússia a importância que tem o Irão.

Por esta razão estou convencido de que a guerra vai começar e o Irão será o centro dessa guerra. O problema é que o Irão é muito mais forte que a Ucrânia ou que a Palestina e por isso uma guerra por procuração contra o Irão terá consequências imprevisíveis.

Entre elas, a menos imprevisível é a generalização da guerra quando a China concluir que, com a derrota do Irão (que é muito provável), deixou de poder dispor dos recursos energéticos essenciais para a sua expansão. É preciso ter em vista que a China acaba de sofrer uma enorme derrota na Venezuela e que os países latino-americanos são para a China o que os países do Médio Oriente são para os EUA. A sua lealdade decorre da conveniência e, além disso, estão sob crescente pressão norte-americana para diminuir as relações com a China.

É, pois, muito provável que a Terceira Guerra Mundial comece. Como disse, os sinais são evidentes, mas isso não significa que não cause surpresa. É que tal como Cuba é o mesmo que Gaza, mas sem bombas, a Terceira Guerra Mundial pode começar por qualquer elo fraco do imperialismo EUA-UE-Israel. Suspeito que esse elo fraco seja o dólar como moeda de reserva mundial. A guerra começa com a perda do poder econômico à escala mundial e amplia-se com o colapso do capital financeiro assente no dólar. As bombas podem ser usadas como causas ou como consequências. Só assim não será se as reservas de ouro que os países têm vindo a acumular freneticamente o impedir. Duvido muito.

Nada podemos fazer para evitar a Terceira Guerra Mundial?

Podemos.

1 – Uma petição internacional, pedindo ao Secretário-geral da ONU, António Guterres, que se demita imediatamente ante a alta probabilidade da ocorrência da guerra e a impotência da ONU para a evitar.

2 – Ir para as ruas em defesa de Cuba e do Irão como fomos em defesa da Palestina.

3 – Organizar protestos em frente das embaixadas dos EUA, de Israel e das representações da UE.

4 – Considerando que o elo mais repugnante (ainda que não mais fraco) da tríade EUA-UE-Israel é Israel, boicotar Israel por via do movimento BDS.

Fonte aqui

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