A guerra, a verdade e o silêncio

(José Sócrates, in ICL Notícias, 12/10/2026)


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Há qualquer coisa de estranho e de extraordinário na maneira como a Europa fala da guerra da Ucrânia. Uma guerra que dura há mais de quatro anos, que destruiu cidades, devastou uma economia e sacrificou incontáveis vidas humanas parece ter produzido no espaço público ocidental uma unanimidade quase perfeita.

Da esquerda à direita, dos governos às redações dos jornais, dos comentadores militares aos especialistas em geopolítica, repetem-se as mesmas certezas, os mesmos juízos morais, as mesmas fórmulas. Como se a complexidade da história tivesse sido abolida pela evidência do agressor. Como se condenar uma invasão dispensasse a obrigação de pensar.

Pequeno exemplo. Iulia Mendel, antiga porta-voz do presidente Zelensky, escreveu recentemente um artigo na revista britânica Spectator com o seguinte título: “A estratégia de Zelensky é um suicídio nacional”. O diagnóstico é devastador e os números assustam.  A Ucrânia tem hoje cerca de 20 a 25 milhões de habitantes (tinha 43,8 antes da guerra). Em cada dia, em média, morrem quatro pessoas por cada uma que nasce (números do próprio Ministério da Justiça ucraniano). Segundo a autora, metade da população que permanece na Ucrânia está já na idade de reforma. Com estes números, a sobrevivência demográfica e económica do país está ameaçada. E, no entanto, o silêncio sobre o artigo foi total – como se não existisse. Nenhuma reflexão, nenhuma controvérsia, nenhum debate.  O mais perturbador não são os números, mas a dificuldade em discuti-los.

A guerra parece ter criado na Europa uma nova ortodoxia. Uma convergência extraordinária de pressupostos, vocabulário e conclusões que é absolutamente estranha ao costume e à tradição política pluralista europeia. Quem pergunta pelo objetivo político da guerra arrisca-se a ser confundido com quem justifica a invasão. Quem fala de negociações é suspeito de defender a capitulação. Quem recorda que a Rússia continuará a existir aconteça o que acontecer na guerra parece estar a desculpar Putin. Sim, é certo que a Rússia invadiu a Ucrânia e essa responsabilidade não deve ser relativizada. Mas reconhecer a responsabilidade pela guerra não resolve, por si só, o problema de saber como terminá-la. A condenação moral identifica uma injustiça; não substitui uma estratégia diplomática.

Mas talvez o mais odioso no comportamento europeu seja a nacionalização da culpa. Talvez o fenómeno mais inquietante não seja a hostilidade política contra o Kremlin, mas a facilidade com que essa hostilidade se estendeu à própria ideia de Rússia. O país foi impedido de competir nos Mundiais de Futebol e nos Jogos Olímpicos. Os atletas russos passaram a ser suspeitos pela sua nacionalidade. As relações culturais tornaram-se politicamente embaraçosas. Em Amsterdam, uma instituição museológica rompeu a colaboração com o Hermitage de São Petersburgo e acabou por abandonar o próprio nome Hermitage. Ainda não se proibiu a arte russa, é certo, mas dizem-me que os maestros russos deixaram de ser contratados para dirigir orquestras na Europa. O canal Russia Today foi proibido de transmitir no espaço europeu – com a aquiescência dos tribunais europeus. Este é o risco por detrás de uma russofobia que ultrapassa a crítica legítima ao poder russo: a política cedeu o lugar à condenação moral da nação inimiga.

Na verdade, o problema dos dirigentes europeus talvez não seja a guerra. Será a paz. Nessa altura serão chamados a prestar contas do que aconteceu. Enquanto a guerra durar, haverá sempre uma explicação para tudo. Há a urgência, há a necessidade, há a solidariedade, há a defesa dos valores, há a obrigação de resistir.

Mas a paz chegará. Não sabemos quando, nem em que condições, nem sequer se será uma paz duradoura. Sabemos apenas que nenhuma guerra dura eternamente. Mas, quando chegar, começará uma outra história, a história do que ficou. Ficarão as cidades destruídas, os mortos que não regressam, os mutilados, os órfãos, os milhões de refugiados. E ficará a Europa. Uma Europa em transformação histórica e mergulhada numa cega corrida aos armamentos. A Alemanha prepara-se para dispor, ainda antes de 2030, de um orçamento de defesa muito superior – quase o dobro – ao da França ou ao Reino Unido. Quando a paz chegar, esta nova distribuição do poder militar não desaparecerá e cada um começará a olhar por cima do ombro. Esta será uma das heranças políticas mais duradouras da guerra.

Fonte aqui

Acender o rastilho do futuro

(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/10/2026, Revisão da Estátua)


(Magnifico. A Estátua não se coibe de deixar aqui uma menção pública à qualidade deste texto, quer no aspeto formal, quer quanto ao desenho das causas que conduziram o mundo atual ao caos larvar em que se encontra, e ceifaram rente o futuro e a esperança das gerações novas. Parabéns, Bruno.

Estátua de Sal, 19/10/2026)


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Depois do fim da União Soviética, tentaram convenceram-nos de que a História havia acabado. Restava-nos o capitalismo para o resto da nossa existência enquanto Humanidade. Como uma doença silenciosa, fizeram-nos acreditar que os sindicatos eram nossos inimigos, que as colectividades eram algo fora de moda e que os partidos comunistas estavam ultrapassados. Fomos domesticados e as cidades foram higienizadas. Passámos a gostar de ruas cheias de anúncios publicitários, das praças vazias e do silêncio.

Achamos que progresso é ter um McDonalds ou um KFC. Os lugares onde vivemos, a pouco e pouco, perderam a identidade e passaram a ser todos iguais. Deixámos de ver manifestantes como gente de bem que luta por todos nós e deleitámo-nos com piquenicões do Continente ou com mega feijoadas na Ponte Vasco da Gama. A pouco e pouco, a arte e a cultura foram-se esvaziando de conteúdo. Os cinemas fecharam e passámos a gastar os nossos dias a ver Netflix.

Enquanto nos esvaziavam a alma, traímos a memória dos nossos pais e avós. Começámos a desdenhar de quem vive do seu trabalho e a celebrar os vendedores de banha da cobra. Primeiro foram os empreendedores e o mito de que sozinhos e com muito trabalho conseguíamos ser melhor que os outros. Dantes, o filho do operário, do sapateiro, da padeira, da costureira sabia que a união fazia a força e havia orgulho em ser-se parte dos que trabalham. Agora, está na moda a cultura criptobro, os que vivem fascinados com a bolsa, as criptomoedas e as apostas online. Deixámos de ser trabalhadores e passámos a ser colaboradores.

Já se sabe, tudo o que vem de fora é bom. Desde que venha dos Estados Unidos. E que não sejam imigrantes. Importa muito pouco que os nossos avós fossem migrantes descalços quase mortos de fome do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Ou que vivessem em barracas. Agora, odiamos quem vem trabalhar e viver nessas condições e até nos ajoelhamos se for preciso quando se trata de um americano louro que vem dar-nos uma gorjeta. Fomos colonizados. Vendemo-nos. Eles ficam com as nossas casas e com as nossas praias. E não, não são os pretos e os indianos.

Deixámos que os bancos e os fundos imobiliários tivessem no governo os seus representantes. São eles que traçam o nosso destino. E chegámos ao ponto em que não nos podemos revoltar porque a violência é sempre má, menos quando é a polícia a violentar-nos. Aí encontramos todas as justificações. “Não querem trabalhar”, “são arruaceiros”, “a lei é para cumprir”. Neste tempo do team building, querem-nos calados, sem dignidade, sem coragem. Escravos. Só nos resta um futuro colectivo com a ruptura do actual estado de coisas.

Não, não és colaborador. És trabalhador e vives fodido para pagar a casa, o colégio do puto e as compras do mês. Na era das percepções, querem vender-te a ilusão de que sozinho podes tudo e de que calado vais longe na empresa. Talvez um dia, sentado na poltrona às portas da morte, te dês conta da cobardia do que fomos e de que juntos poderíamos ter sido tudo. É o medo. O medo é a mordaça que nos põem todos os dias para que sintamos que melhor assim do que num lugar desconhecido.

Preferimos não arriscar do que pensar que talvez haja mesmo uma forma de vivermos todos melhor e que não haja um filho da puta a comprar iates e uma nova casa na Comporta com o dinheiro do nosso suor. Agora imagina que um dia incendiamos o horizonte e descobrimos que o riso das nossas crianças será um dia a nossa vingança, como escreveu um dia Bobby Sands.

Imagina um país de gente digna, com a coluna vertebral intacta, que não prefere enfrentar o colega ou o vizinho a enfrentar os poderosos. Imagina o combustível colectivo que seríamos para queimar de uma vez por todas o sistema que permite que um ser humano possa ter centenas de casas e outro não tenha nenhuma, que permite que uma pessoa possa ganhar tanto num mês como milhares numa vida inteira, que permite que um primeiro-ministro, à frente de um governo, olhe para todos nós e diga, sem medo, que somos egoístas.

Fonte aqui

Leis de merda, arremesso de tijolo ou a arte de ser governado por um azeiteiro

(Luís Rocha, in Facebook, 17/10/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma meia dúzia de pormenores extraordinários na maneira como os políticos portugueses falam quando começam a desconfiar de que o país já não está para aí virado. A voz continua firme, o fato está impecável, a gravata não denuncia o suor frio. Mas há ali qualquer coisa. Uma pressa em explicar, um excesso de serenidade que faz lembrar o sujeito que parte o vaso na casa dos outros e se apressa a garantir que aquilo já estava rachado. É o pânico fininho a instalar-se. O medo apocalíptico de que o pessoal se canse de discutir o penálti de domingo e resolva começar a olhar para a carta de despejo em cima da mesa.

Quando o rebanho deixa de berrar pelo esférico e começa a fazer contas à vida, os pastores tremem.

Luís Montenegro tem andado particularmente interessante de observar neste teatro do absurdo. Primeiro, garantiu que Portugal não estava em turbulência, que não havia aquela instabilidade de que tanto se fala na rua. Tudo calmo, tudo controlado, a vida flui na Suíça plantada à beira-mar. Depois, bastou um manifestante falar em atirar um tijolo contra a sua residência para o herói de Espinho entrar em colapso institucional. O gabinete do primeiro-ministro divulgou o vídeo com a urgência de quem anuncia uma invasão alienígena. A habitação, que até aí era um detalhe menor na vida de quem dorme num quarto interior por seiscentos euros, passou a ser tratada como o maior problema da segurança nacional.

A preocupação deste moço azeiteiro tem um raio muito curto. Só ganha escala quando sai do bairro social e ameaça o sossego de São Bento.

É a velha e benta hipocrisia do poder.

A miséria pode durar décadas sem direito a uma única conferência de imprensa. As rendas podem subir até à estratosfera, as pessoas podem ser postas na rua por leis de merda feitas à pressa por trastes para agradar a fundos de investimento e as famílias podem fazer contas ao cêntimo a meio do mês. O Governo acompanha, avalia, monta comissões e pede resiliência à malta.

Mas basta a palavra “tijolo” aparecer numa assembleia popular e instala-se um histerismo comunicacional digno da proteção civil sueca.

Descobrem subitamente que as pessoas perdem os brandos costumes quando são governadas por psicopatas que as atiram para a miséria com o carimbo do Diário da República.

Mas para alegrar a festa temos também Belém, agora com António José Seguro, que subiu os degraus do palácio com promessas de seriedade e rigor, mas que perante o cheiro a esturro na rua parece estar a descobrir que a dignidade das instituições não enche a barriga a ninguém nem paga hipotecas. O estilo mudou, já não há os afetos e as canjinhas para acamados do anterior inquilino, mas o susto burocrático é rigorosamente o mesmo.

E o apelo à calma pachorrenta sai-lhe entremeado com cobardia política. Pura miufa.

Ao mesmo tempo, em Lisboa, Carlos Moedas sobressalta-se com a estética do protesto de hoje. A indignação popular incomoda-o quase tanto como as ciclovias ou a falta de unicórnios na Almirante Reis. O civismo do protesto, para esta gente, é uma coisa superlativa, desde que seja praticado em silêncio, de preferência no recato do lar e sem estragar o trânsito aos turistas. Tudo feito em voz de falsete, misturada com o esterco moral, de quem jurou a pés juntos que deu apoio às famílias das vítimas do elevador.

Cá fora, o país real começa a perceber que há leis que parecem redigidas por senhorios com assento parlamentar e aprovadas por gente que nunca teve de escolher entre pagar a renda e encher o frigorífico.

É divertido ver esta tropa de privilegiados, habituada a confundir silêncio com respeito e resignação com consentimento, descobrir subitamente que os portugueses também têm voz e, pior ainda, vontade de a usar.

No Parlamento, há sempre um figurão qualquer, de uma bancada grunha qualquer, a perguntar quem autorizou o barulho, como se a democracia fosse um jantar de gala e o povo tivesse entrado pela cozinha sem convite.

Montenegro, entretanto, continua diante dos microfones, com aquele ar grave de administrador de 55 propriedades apanhado a aumentar a própria comissão, a garantir que está tudo sob controlo e a exigir ordem a quem já não tem onde arrumar a vida.

O espetáculo é extraordinário.

Os responsáveis pela desordem social apresentam-se como bombeiros, dão ordens para que ninguém grite e ficam ofendidos quando alguém lhes aponta um dedo.

E agora, pelos vistos, também têm medo dos tijolos.

Compreende-se. Um tijolo é uma coisa incómoda, sobretudo para quem passou tanto tempo a atirar os outros para a rua e começa a perceber que a rua também sabe onde mora.

O verniz estala, a gravata aperta e a pose de estadista dá lugar à figura de um homem que vai verificar se fechou a porta, espreita pela janela, volta a verificar a fechadura e acaba por dormir de luz acesa.

Tudo em nome da tranquilidade pública, naturalmente.

Porque governar é isto.

Deixar milhares de pessoas a viver na rua e depois chamar as autoridades quando alguém toca à campainha.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.rtp.pt/…/montenegro-preocupado-apos-ameacas…

https://rr.pt/…/descobrir-o-endereco-da-casa-do…/489537

https://observador.pt/…/montenegro-critica-ameaca-a…

https://www.rtp.pt/…/montenegro-nao-ve-pais-em…

https://pt.euronews.com/…/manifestantes-pelo-direito-a…

https://rr.pt/…/porto-psp-intervem-em-protesto…/489246

https://www.rtp.pt/…/protestos-pela-habitacao-e-contra…