(Hugo Dionísio, in Facebook, 22/10/2026, Revisão da Estátua)

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Percebo a repressão dos comportamentos violentos, como a percebi na Venezuela ou Irão. A política não é futebol e só alguém preconceituoso, mal-intencionado ou fanatizado não entende a repressão desses comportamentos, sempre que o Estado em causa não alinha com os ditames ocidentais.
Mas já a questão da cara tapada, acto punido de per se, mesmo quando a atitude é pacífica, essa já não aceito!
E só se entende no quadro de um estado de super vigilância, em que estamos rodeados de câmaras e sinais GPS, porque o regime se habituou a vigiar-nos e a identificar-nos de forma discricionária, injustificada e invasiva.
Não sei se alguém sabe, mas nós, indivíduos, temos direito á privacidade e ao anonimato e, a não ser em situações em que a nossa identificação seja absolutamente necessária – desprotegendo dimensões de proteção da intimidade da vida privada, direito á imagem e privacidade – porque nos encontremos numa situação que afete direitos que envolvam a perturbação da ordem pública e da segurança coletiva, não se percebe porque é que um manifestante pacífico não pode fazer o seu protesto de cara tapada.
Só se percebe a negação desses direitos, se o Estado quiser identificar quem anda nas manifestações, ou quando considera as manifestações como actos perigosos. O que já fazem, através de câmaras na rua, que indiscriminadamente recolhem as nossas imagens, afetando direitos sem que esteja em causa a proteção direta de outros direitos de igual valor.
O facto de não nos poderem identificar numa via pública só interessa no caso de comportamentos violentos. Aplicar a mesma medida a todos os cidadãos, negando os seus direitos de personalidade, é punir o justo pelo pecador. Partir do princípio de que, porque numa manifestação não podemos ter cara tapada, pode levar-nos a questionar porque então filmam as ruas 24 horas, 7 dias por semana, mesmo sem a cara tapada.
Até porque está provado que muitos dos distúrbios são provocados por agentes infiltrados, provocadores, que visam desmoralizar e desacreditar as manifestações justas. Quanto mais justas, aliás, maiores são essas provocações.
Independentemente do acordo ou desacordo com esta vertigem super vigilante, tão criticada noutros casos e sem que as respetivas autoridades tenham o mesmo aparato tecnológico à disposição desta gente, julgo não haver dúvidas de que vivemos numa sociedade em que os nossos direitos de personalidade são devassados de todas as formas e feitios. Em prol do lucro ou da suposta “segurança”, que mais não é do que a justificação provocada ou oportuna, que torna a vertigem super vigilante mais aceitável aos olhos de todos.
O foco nos jovens é outra matéria sensível:
1. Já admitia Kissinger, no seu Kissinger Report, que eram os jovens aqueles que originavam, com a sua vitalidade, as revoluções que, na periferia do sistema capitalista, funcionam contra o “interesse nacional dos EUA“;
2. São os jovens que veem negado, com mais força, de forma autoritária, um direito ao futuro, sendo que, a atitude até ver, não mostra qualquer intenção de alterar o que quer que seja;
3. A incapacidade, inabilidade ou não intencionalidade destes dirigentes em alterar o estado de coisas e ouvir os justos protestos.
Estas atitudes cabem bem na noção de totalitarismo criada a pedido e com apoio da CIA e think thank ocidentais. A pretensão de que estas políticas anti sociais, degradantes e destrutivas, são inevitavelmente para aplicar, não importando as eleições, as promessas em sentido contrário e a vira e volta a virar dos partidos do extremo centrismo, cabe bem no conceito de totalitarismo. Não existe nenhuma dimensão do Estado ou da vida privada que lhe escape.
Este totalitarismo é, contudo, invertido, pois visa a proteção do grande capital e não a proteção do Estado. É plutocrático e fisiocrático. E nem o anonimato nos safa.
O medo das caras tapadas de gente pacífica, só se justifica na medida em que se tratem de governos que usem esta máscara contra outros, instrumentalizando manifestações, para que possam depois condenar a resposta repressiva, e de governos que, repetidamente prometem tudo, fazem nada e vivem no pânico da ilegitimidade que obriga á vigilância em massa.
Por fim, importa dizer também que não é justo que – a continuarem as ações de luta, sem que estes governos cegos, surdos e mudos no que respeita aos interesses das populações e dos povos -, se culpem depois as vítimas da violência insidiosa, psicológica, moral e cognitiva que é perpetrada diariamente por governos que importam o neoliberalismo mais radical e sectário, quando essas vítimas explodem de raiva e desespero pela impotência que sentem.
Nenhuma sociedade consegue parar indeterminadamente a revolta e a explosão do ressentimento, provocado pela violência da autocracia dos interesses dominantes. Nesse processo, ficando bem claro quem é quem e que classes sociais estão em confronto, culpar o pobre que desespera equivale a culpar uma pessoa reiterada e continuamente torturada, por está tentar repelir os símbolos da agressão usando a violência também.
Quem o faz, normalmente é quem cala a tortura psicológica e física da precariedade, fome, privação material e económica, de que são alvo milhões de trabalhadores, jovens e suas famílias, todos os dias, anos e governos a fio, às mãos de uma burocracia europeia autocrata, não eleita e ilegítima, secundada nacionalmente pelos seus preceptores nacionais.
Aliás, a atitude arrogante de um Montenegro ou de um Macron, quando confrontados com a revolta das vítimas da sua tirania, demonstra varias coisas: que não identificam no povo a fonte da sua legitimidade, daí retirando que podem mentir e incumprir de forma impune; que não é ao povo que eles sentem dever explicações; que sabem ser possível manter, voltar e obter o poder, apesar da oposição popular.
Este comportamento diz muito sobre o que é, na verdade, esta democracia, cujas eleições não mais são do que um ritual vazio de sentido, tão válido como uma espécie de ritual religioso, cuja escolhas internas, se diz depois terem sido resultado da intervenção divina. Tal como o padre pecador sabe que a sua legitimidade advém de decisões bem terrenas, não sentindo assim dever prestar contas á entidade que diz respeitar, mas sabe não existir ou determinar o que quer que seja, também estes políticos autocratas, sabendo que a sua legitimidade é comprada com os trinta dinheiros de Judas, sabem não dever explicações aos que participam no seu ritual iniciático.
Só isto explica a atitude arrogante, prepotente, cobiça e hipócrita, de quem diz não haver “respaldo na sociedade portuguesa” para os protestos da habitação. Se isto não nos diz por que causas está gente se movimenta, diz ao menos da sua desfaçatez.
São agentes do federalismo, pretendem a mobilidade que desenraíza o povo, a precariedade que atira jovens e adultos para a imigração, apoiam a circulação de capitais e, sobretudo, a circulação de recursos nacionais para o capital estrangeiro… E sendo responsáveis por estas políticas de portas escancaradas ao capital e de remoção da nossa soberania, incluindo a cognitiva, quando se trata da circulação de solidariedade, de mensagens e identidades de luta, por parte de povos que sentem na pele as mesmas agressões, com origem na autocracia de Bruxelas, eis que já estão contra a “importação“. Não há problemas com a “importação” do neoliberalismo, das doutrinas do fim da História e do consenso de Washington, mas há problemas com a “importação” das mensagens e solidariedade da luta que lhe dá combate!
Não admitem tendas como símbolo de protesto, mas admitem tendas para viver, ao invés de casas. Querem fronteiras abertas para a pilhagem, mas não as querem para a solidariedade e fraternidade!
Existe algo mais paradigmático do que são, de facto, esta UE e este sistema?

