Acampadas: a coisa mais bonita desde o 25 de Abril

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 04/11/2026)


As praças de volta a nós. Toda a violência foi do Estado, a acampada resiste.


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1. Segunda-feira à noite, sentada nas ondas do mar do Rossio, a olhar aquelas centenas de jovens também sentados, e as centenas de pé atrás deles, uns e outros a votarem de braço no ar, pensei há quanto tempo não reparava nas ondas do mar do Rossio. Porque há muito tempo que não me sentava nelas, e porque entre a Assembleia Popular e o microfone várias ondas brilhavam, descobertas. Eram a parte da calçada onde se podia passar, falar, cantar, dançar. Tudo isso aconteceu.

Íamos a caminho das 23h de um dia de semana em que grande parte daquelas pessoas já tinha trabalhado ou tido aulas. E por um segundo, ali aos pés de D. Pedro IV de Portugal/I do Brasil, vi as ondas do calçadão carioca, que são cem Rossios no oceano. Mas agora o futuro estava ali também. O Rossio tinha voltado a nós. Como a praça de D. João I voltou ao Porto, o pioneiro destas acampadas.

Há quanto tempo não me sentava na cidade onde nasci sem querer fugir? Sem sentir que não a reconheço, que nos foi tirada, expropriada dela mesma? Sem a toda a volta ouvir inglês, não o da língua franca, mas o de quem está em Lisboa ou no Porto como se os nativos fossem invisíveis. E serão até não serem.

Mas a causa não são os turistas nem os expatriados. Tal como a causa das três cargas policiais que fizeram mais de cem feridos não são os polícias. À frente da alienação das nossas cidades estão presidentes de câmara, neste momento Carlos Moedas em Lisboa, Pedro Duarte no Porto.

E por trás dos bastões, dos cães, dos infiltrados com armas de fogo, com petardos, está um governo cobarde chefiado por Luís Montenegro, a fazer-se fascista julgando que assim não é engolido pelos fascistas. Mais um Presidente da República, António José Seguro, que primeiro não abriu a boca, traindo milhões de votos úteis antifascistas, e depois quando falou foi tão remendado, remediado como um Portugal que a ditadura gerou.

E onde estiveram nas últimas semanas 226 eleitos com os nossos votos? Porque dos 230 deputados que compõem a Assembleia da República só vi notícia de quatro a tentarem travar a última carga policial, Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto, Paulo Muacho e Fabian Figueiredo (que na carga anterior tentara mediar sozinho e desta vez foi acompanhado pela ex-deputada Joana Mortágua).

Descontando os deputados que insultam a democracia, sobram muitas dezenas ainda. Já estiveram nas acampadas? Observaram estas centenas, por vezes milhares de pessoas em assembleias populares a interpelarem, contraporem, votarem propostas, dia a dia articuladas por núcleos tão ágeis na palavra como no vídeo, tanto nas redes como ao vivo? Eles organizam grupos de trabalho, rodam lugares de representação, asseguram que homens brancos cis não prevalecem, aliam-se a gente ameaçada de despejo nas periferias, fazem a sopa de graça para quem vier, animam as crianças que podem ser bastantes, cantam e dançam a decisão do tribunal anunciada na segunda-feira, têm graça, pinta, carisma. E todos os dias — todos os dias — enchem a praça de música, começando pela Primavera dos Coros.

Segunda-feira, antes das 19h, éramos um círculo em coro, e no meio a maestrina Inês Proença (27 anos, do Coro Regador), tamanho de menina com não sei quantos braços, para a esquerda para a direita, a toda a roda, montando um cânone de gente que nunca se tinha visto, telemóvel com as letras manuscritas, canções populares, canções de luta, do Rossio ao Barroso. Um coro: que força.

Mais pena tenho de não ter estado na véspera, apenas partilhado o vídeo de quando Tomás Frazer (31 anos) dirigiu uma orquestra de 300 intérpretes organizados por WhatsApp em canções como Traz outro amigo também, de Zeca Afonso, com arranjos feitos agora por Francisco Máximo (23 anos). Na mesma calçada onde de madrugada a polícia voltara a espancar pessoas pacíficas, já com capacetes para se protegerem, já com mães/pais a tentarem proteger os filhos (como já acontecia nas periferias, tem lembrado Brito Guterres).

Nestas três semanas, toda a violência foi do Estado português. E o tribunal veio dizer que a ilegalidade também. Violência e ilegalidade de um governo que até hoje não conseguiu arrancar violência aos acampados.

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2. A destruição da Palestina estará no historial de Moedas e Montenegro. Em 2024, no pico do genocídio (e contra a vontade de trabalhadores da câmara), Moedas cedeu o Cinema São Jorge para Israel celebrar o seu 76.º aniversário. Os diplomatas do extermínio & seus convidados vieram de copo na mão à varanda zombar dos lisboetas que protestavam lá em baixo. Um cinema da cidade ocupado por Israel, pregado na lapela do embaixador, em recompensa. No Porto, entretanto, os novos israelo-portugueses compravam bairros inteiros. E Montenegro acabava de se tornar primeiro-ministro de um novo governo facilitador do genocídio.

Neste país onde, em Outubro de 2026, pivôs de TV mencionam símbolos da Palestina como potencial argumento para a carga da polícia, até uma Helena Roseta se insurgir. Mas o Rossio agora é também essa praça que em qualquer direcção tem lenços da Palestina misturados com cravos vermelhos. Nunca esteve tão perto do 25 de Abril.

O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Milliband, disse há semanas: vocês tinham razão. Dirigia-se a quem há muito se opõe ao genocídio na Palestina. Em parte por convicção, em parte para conquistar votos muçulmanos (remeto para a leitura do veterano Tariq Ali). Mas mesmo esta fasquia, nem por isso alta, é difícil de imaginar entre responsáveis portugueses. Para começo de conversa, faltam essas palavras: vocês tinham razão. Os palestinianos tinham razão. Os aliados deles tinham razão. Tal como a acampada tinha razão antes da decisão do tribunal.

Uma das decisões de segunda-feira no Rossio foi não sair do Rossio para o mercado de Natal de Moedas. Que Moedas o monte noutro lugar. Qualquer cristão a sério saberá que mercado e Natal são duas palavras incompatíveis. A praça do Rossio não é um mercado, será “do povo como o céu é do condor”, algo escrito há 150 anos pelo poeta brasileiro Castro Alves.

Hoje, no tempo do extermínio em directo, acabamos de ter a vitória de Lula, conquistada por milhões que foram à luta, voto a voto. Coincide com a acampada, que se define também por isto: uma das suas vozes ser a imigrante brasileira Priscila Valadão. Ouvir o sotaque dela no Rossio, aos pés daquela estátua, atava a história. E o momento em que as centenas de pessoas sentadas se levantaram para aplaudir foi quando falou uma jovem afrodescendente.

Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho. São eles que estão a dormir lá, a apanhar da polícia, não eu, que só de vez em quando vou a Lisboa. E calha que tenho levado na sacola, porque estou a lê-lo, Caminhos da Insubmissão, de Jorge Valadas, um português com idade para ser meu pai, desertor da guerra colonial, depois exilado em Paris.

Esta segunda-feira, sentada na cidade de onde saí há nove anos, capital do país de onde sempre quis sair, a acampada era uma espécie de fim de exílio. Como disse uma das “acampadas”, já nem nos lembrávamos dos turistas.

O elfo de Espinho e o milagre dos pães imobiliários

(Luís Rocha, in Facebook, 04/11/2026, Revisão da Estátua)


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Tinha eu reservado o postalinho de hoje para dar uns calduços valentes naquele agrobeto militante do Coiso, criatura espampanante que sonhava ser bombista nas horas vagas, mas eis que o Elfo de Espinho resolveu ocupar o horário nobre das televisões. Há prioridades que não se escolhem, meus caros. E quando o primeiro-ministro decide de repente falar à nação, até o agrobeto do Coiso pode esperar mais um bocadinho na gaveta das insignificâncias.

Lá apareceu o homem no ecrã, com aquele ar enfatuado de quem vem explicar aos portugueses que a culpa da desgraça habitacional é exclusivamente deles, mas que o Governo está a trabalhar arduamente para lhes tornar a existência ainda mais interessante. ~

Foi uma comunicação penosa, cheia de números mágicos, promessas piedosas e daquela segurança muito própria de quem confunde a nobre arte de governar um país com a apresentação de uma lista de cantores pimba para abrilhantar o magusto de São Martinho.

Montenegro falou de habitação, de jovens, de casas, de rendas e de tudo o que o seu executivo tem feito para resolver um problema que, caprichosamente, continua a crescer a olhos vistos mesmo debaixo do seu nariz.

Anunciou cento e trinta mil jovens apoiados na compra da primeira casa, quarenta mil com financiamento a cem por cento, dezenas de milhares de habitações entregues ou previstas no papel, apoios às rendas e um aumento exponencial das licenças de construção. Uma autêntica fartura estatística. Só faltou mesmo explicar em que partes do país estão escondidas essas casas, e em que planeta remoto vivem os jovens que ganham o suficiente para conseguir comprá-las.

O problema da habitação, pelos vistos, está praticamente resolvido nos delírios do ministério.

Na vida real, há quem trabalhe que nem um mouro, pague impostos escandinavos e simplesmente não consiga arrendar um quarto digno sem entregar metade do seu ordenado líquido. Mas isso, claro, deve ser uma mera questão de falta de otimismo crónico da populaça.

Talvez o Governo esteja a preparar um apoio psicológico gratuito para quem insiste na loucura de procurar casa com os preços simpáticos do mercado.

Depois veio a habitual conversa fiada sobre a reforma da lei do arrendamento. O Governo quer mexer, simplificar, dinamizar, libertar o mercado e outras palavras fofas que costumam aparecer quando alguém pretende facilitar a vida a quem já tem a vida bastante facilitada. Os inquilinos que se preparem e comecem a rezar aos santinhos. A solução milagrosa para a crise da habitação continua a ser dar mais confiança aos proprietários, como se a confiança herdada fosse uma chave mestra e o mercado imobiliário um senhorio simpático que só precisasse de um pequeno incentivo fiscal para baixar voluntariamente a renda ao pessoal.

E Montenegro não recuou um milímetro. Nem pediu desculpa pelos falhanços. Nem pareceu particularmente preocupado com a contestação social que tomou conta das ruas das grandes cidades. Pelo contrário, manteve aquele tom de professor zangado e altivo que está convencido de que a turma não percebe a matéria porque é burra e não estudou o suficiente. O país tem uma crise habitacional galopante, mas o primeiro-ministro parece ter apenas uma profunda falta de noção e de leitura da sala.

Também não houve grande esclarecimento sobre a atuação musculada da polícia nas acampadas de Lisboa e do Porto. Houve apenas conversa política de conveniência, encontros anunciados e uma disponibilidade repentina e comovente para falar com o PS e com o Coiso. O que é sempre reconfortante para o cidadão comum.

Quando a contestação social aperta nas ruas, o Governo descobre subitamente que o diálogo é uma coisa muito bonita, desde que seja feito com os partidos certos, à hora marcada e sem povo a estorvar.

A reação dos partidos da oposição também não trouxe propriamente uma surpresa ao panorama. O PS criticou por desporto, o Coiso aproveitou para fazer o seu habitual número de circo, a IL tratou de defender a sua cartilha liberal patética e os restantes partidos apontaram as insuficiências gritantes de uma política que continua a não responder à real dimensão do problema.

Cada um fez o seu papel coreografado. A diferença entre eles é que há quem esteja a discutir a vida das pessoas comuns e há quem pareça estar apenas a discutir a melhor maneira de as convencer de que vivem muito melhor do que aquilo que julgam.

Mas o mais espantoso de isto tudo é a persistência na alucinação. Montenegro fala ao país como se estivesse a apresentar resultados extraordinários de uma multinacional de sucesso, enquanto milhares de pessoas continuam sem conseguir encontrar uma nesga de casa que possam pagar com os seus salários de miséria. A cada intervenção pública, surgem mais números. A cada número atirado aos olhos, mais uma promessa.

E a cada promessa, impõe-se a mesma pergunta. Se está tudo a correr tão bem na propaganda, por que raio é que continua tudo tão mal na realidade?

Este personagem arrisca-se seriamente a ficar para a História como o pior primeiro-ministro de sempre, ultrapassando com distinção até Santana Lopes, que já tinha deixado a fasquia da anedota política num patamar bastante respeitável.

As declarações de ontem estiveram ao nível de uma conferência de imprensa de Roberto Martínez. Muito discurso formatado, muita convicção artificial, uma quantidade impressionante de palavras ocas e, no fim, a nítida sensação de que ninguém percebeu exatamente o que acabou de ouvir, mas fomos todos aldrabados com um sorriso no rosto.

É uma chatice monumental termos de voltar sempre à estaca zero quando o país precisa desesperadamente de avançar.

Mas não podemos continuar a perder tempo precioso.

Esta tralha governativa tem de sair rapidamente, porque não há um único ministro que se aproveite naquela bancada e o país não pode ficar eternamente à espera que o Elfo acabe de contar as casas que ainda não existem em lado nenhum.

Ontem foi mais uma noite na vida do Elfo de Espinho. Falou à nação, apresentou os seus números virtuais, distribuiu promessas gasosas e foi dormir de consciência tranquila.

Os portugueses ficaram com a parte mais difícil e fustigante do costume. Tentar encontrar uma casa para morar que consigam pagar, antes da próxima comunicação oficial do regime.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.portugal.gov.pt/…/habitacao-governo-reforca…

https://www.rtp.pt/…/montenegro-chama-ps-e-chega-para…

https://www.dn.pt/…/montenegro-anuncia-reunies-com…

https://www.noticiasaominuto.com/…/ao-minuto-luis…

https://eco.sapo.pt/…/montenegro-fala-ao-pais-sobre…

Os esbirros estão de volta… ou nunca partiram!

(Jacinto Furtado, in NoticiasOnline, 01/11/2026)

Shield covering a parchment labeled "Sealed Document"
Um escudo desgastado repousa sobre um documento lacrado, sob um feixe de luz dramático: como a força pode abafar os direitos dos cidadãos – Imagem gerada por IA

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Em 12 de Outubro de 1972, no anfiteatro do ISCEF, em Lisboa, os estudantes descobriram um bufo da polícia política no meio da reunião.

A PIDE mandou dois esbirros, um deles, António Gomes da Rocha esvaziou o revólver. Ribeiro Santos, estudante de Direito, morreu no Hospital de Santa Maria. O infiltrado não matou ninguém; matou quem veio atrás dele. O processo foi arquivado em Outubro de 1973.

Cinquenta e quatro anos depois, na madrugada de domingo, nos Aliados, no Porto, quatro polícias à paisana foram descobertos no meio de gente que protestava pelo direito a uma casa. Um deles sacou a pistola e apontou-a aos manifestantes. Há vídeo.

Ninguém morreu. Ainda bem. A cena de abertura é a mesma, e nós conhecemos o resto do filme.

A PSP confirmou, claro, porque negar o que toda a gente filmou seria pior. Por isso fez melhor, baptizou a coisa. “Uso passivo da arma de fogo.” Passivo! Eu gostava de ver o senhor porta-voz do lado de cá do cano, a explicar a passividade a quem lá estava.

A versão oficial diz que três dos quatro foram agredidos e o quarto defendeu-se. Faz sentido que um polícia espancado tenha medo. Agredir agentes é crime e quem o fez, se o fez, deve responder em tribunal, com prova. O que é estranho é que a única testemunha apresentada seja o próprio Estado.

Esbirro não é uma farda. É um comportamento, o de quem usa o poder do Estado para meter medo a quem o contesta. Se me provarem a legítima defesa, retiro a palavra ao agente. Ao que o mandou para lá, ao que o cobre e ao que o aplaude, mantenho-a inteira.

A Constituição da República, no artigo 45.º, garante o direito de nos reunirmos “pacificamente e sem armas”, sem pedir licença a ninguém. Só se esqueceu de avisar os que andam à paisana. Quem tinha a arma, na madrugada de domingo, não era a malta da acampada.

E o artigo 272.º diz que as medidas de polícia não podem ir além do estritamente necessário. Cães, escudos e bastões contra um cordão humano de gente sentada ao lado de tendas: eu quero ver quem lê aquilo como “estritamente necessário” e consegue olhar-se ao espelho.

O ministro Luís Neves diz que a PSP tem autonomia, que não houve instruções políticas e que tem “total confiança” nela. Sobre a pistola, disse que não tinha informação e que o uso de armas “tem de ser justificado”. Confiança total em quem ainda não sabe o que fez. Bela coisa.

Só há duas hipóteses. Ou o ministro mandou, e então mentiu. Ou não mandou, e então não manda. Qualquer das duas exige que rolem cabeças. Ainda não vi nenhuma a rolar.

Entretanto, a malta fez as contas. No Porto, 38 feridos, três graves, segundo a organização. Nas duas cidades, cerca de cem, treze deles polícias. Treze detidos, já libertados. Um repórter da CMTV agredido à bastonada, a trabalhar. Houve tinta na Câmara e, diz a PSP, objectos arremessados; quem os atirou que responda, caso a caso, com prova. Mas a “pequena franja” do ministro rende uma centena de feridos, e a tinta lava-se com água.

Ainda a propósito do repórter agredido, não esqueçamos que a PSP tentou proibir que os órgãos de comunicação social utilizassem drones para obter imagens aéreas. Teriam medo do que podia ser filmado e transmitido?

Um país que manda cães e bastões contra quem acampa porque não consegue pagar uma casa não tem política de habitação. Tem Corpo de Intervenção.

O ministro garante que o cargo está “permanentemente à disposição” do primeiro-ministro. Disposição não lhe falta; mostra-a todos os dias, para tudo menos para se ir embora.

Provocação deliberada? Não o posso provar e não o escrevo como facto. Mas a dúvida nasceu no dia em que se meteu polícia sem farda e sem identificação no meio de quem protestava, e só quem a criou a pode desfazer. Quem se cala quando lhe perguntam o que andavam lá a fazer quatro homens com bastões extensíveis e pistolas diz tudo o que há para dizer.

A oposição não é toda igual, e convém dizê-lo. O Livre pediu a demissão do ministro e vai queixar-se ao Comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa e ao Alto Comissário da ONU. É o único pedido que faz sentido, e quem o fez merece que se lhe reconheça. Que a queixa tenha de ir a Estrasburgo e a Nova Iorque diz muito do que falta cá dentro.

O PS achou a força “inaceitável numa democracia”. Palavra dura, pedido mole: quer o ministro no Parlamento e o Sistema de Segurança Interna convocado. O PCP quer um debate urgente e fala em “repressão”. O BE chama “ilegal” à carga. Tudo certo, e tudo a mesma coisa, pedir esclarecimentos é o que faz quem já perdeu a rua, e quem governa conta com isso.

Do outro lado, o CDS defendeu a polícia e achou que o problema é o PS, “refém do radicalismo”. Há quem veja uma pistola apontada a cidadãos e só consiga ver o adversário. O Chega, sempre pronto a exigir mão pesada, achou tempo para chamar “arruaceiros” a alguns manifestantes e para criticar a falta de empatia do Governo. Empatia! Com cães e bastões em cima, a empatia é o menor dos problemas.

O Presidente da República falou com o primeiro-ministro e pediu esclarecimentos à Provedora de Justiça. Muito bem. Não consta que a pistola tenha ouvido a conversa.

Isto não é um caso de polícia. É um ensaio. Cada madrugada em que a rua é limpa à bastonada sem que ninguém pague por isso, o atropelo seguinte fica mais barato. Hoje são tendas de gente sem casa. Amanhã é a greve, depois a vigília, depois o jornalista que filma o que não devia. Os direitos, liberdades e garantias não se perdem num dia. Gastam-se, como as solas, e só se dá por isso quando se pisa o chão.

Por isso exijo o que qualquer cidadão pode exigir. A demissão do ministro. Um inquérito independente ao agente da pistola, com conclusões públicas. O nome de quem ordenou aquela operação à paisana. E o fim de polícias sem farda e sem identificação no meio de manifestações pacíficas. Quem tem medo de tudo isto é porque tem alguma coisa a esconder.

Não lhe chamo ditadura. Ainda. A palavra guarda-se para quando já for tarde para a usar. Mas conheço o guião: primeiro é a arma que é “passiva”, depois o protesto que é “franja”, depois o inquérito que nunca chega, e quando damos por ela já ninguém pergunta quem mandou os homens à paisana.

O processo do homem que matou Ribeiro Santos foi arquivado em Outubro de 1973. Convém não dar ideias.

Fonte aqui