Os disparates que omitem o país real

(Tiago Franco, in Facebook, 05/04/2026, Revisão da Estátua)


Tomei o pequeno-almoço, ontem, em Bragança e resolvi ir dar uma volta. Julgo que me enganei numa rotunda, ou duas, e quando dei por ela estava na Holanda. Acontece-me com alguma frequência.

Pelo caminho fui ouvindo as notícias e, sempre que possível, aqueles podcasts que habitualmente me fazem companhia. Ontem percebi que o grande debate do momento, na AR, é sobre a revisão da Constituição. E bem, muito bem. Também não me consigo lembrar de mais nada que esteja a arder.

Hoje, durante umas boas horas, as televisões passavam o “guião Trump”. Não sei se já repararam mas metade do nosso espaço informativo é a debater os posts do Trump e a tentar adivinhar o que ele dirá no dia seguinte.

De manhã, encheu-se muito e bom chouriço com o piloto encontrado, e de tarde discutiu-se o ultimato dado aos iranianos (para abrirem o estreito de Ormuz), depois de Trump ter afirmado que não queria abrir o canal, que eles estavam obliterados e que não havia ninguém para negociar. É difícil seguir a lógica de um mentiroso compulsivo que coincide, no mesmo espaço físico, com um ignorante.

Enquanto ouvia isto tudo fui metendo combustível para ir ganhando horas no alcatrão. Em Portugal levei aquele dedo maroto com 2.1 eur/L mas em Espanha, do camarada Sanchez, ninguém deu pelo Irão e a coisa fez-se por 1.5 eur/L.

Quando cheguei a França comecei a empurrar o carro, tipo Flinstones, para evitar bombas onde o combustível estava entre 2.3 e 2.7 Eur/L. Já, na Bélgica, voltei a entrar no carro e a “aproveitar” a gasolina a 1.9 eur/L.

Pela minha pequena sondagem parece-me que o governo belga e, em especial, o espanhol, estão a absorver os custos energéticos da guerra no Irão e, para já, a proteger as populações. Portugal, como sempre nestas alturas de crise, antes do primeiro míssil aterrar, já está a anunciar os aumentos. E isto enquanto o Montenegro se vai babando com o superavit (que vem não de qualquer gestão prodigiosa mas simplesmente de mais cobranças de impostos).

Isto são problemas da vida real. Era isto que eu gostava que os deputados do meu país discutissem. Depois das burcas, da cidadania, dos trans e da revisão da Constituição, acham que seria possível reservarem, vá, uns 20 ou 30 minutos, para falarem sobre o facto de andarmos de crise em crise, a esmifrar o que já está esmifrado?

Como é que o combustível na Bélgica é mais barato do que em Portugal? Como é que em Espanha o litro custa menos 50 cêntimos? Como é que pessoas, com os salários dos mais baixos da Europa, podem viver com um custo de vida energético/habitacional superior ao dos países mais ricos?

Era isto que eu gostava de ver nas sessões da AR TV (que sigo) e era sobre isto que eu apreciava que a CNN, o NOW, a SIC e RTP, convidassem especialistas para opinar, sugerir e antecipar.

Sobre as diarreias do Trump e a cobertura mediática que aquele imbecil gera, já todos percebemos que é uma perda de tempo. Facto algum se aguenta mais de 24h e qualquer análise deixa de fazer sentido no dia seguinte. Para o Trump merecer tempo de antena de mais do que 20 minutos, todos sabemos que notícia deverá estar na origem e não poderá ser apenas a orelha.

Problemas reais. Pobres esmifrados. Gente que não consegue pagar contas. Salários que não chegam ao fim do mês. Um governo de propaganda que vive noutro país. Era isso. Se puderem ajudar, agradeço.

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A ressurreição de um piloto

(João Gomes, in Facebook, 05/04/2026)


No princípio era o desaparecimento. E o desaparecimento gerou versões. E as versões geraram certezas – absolutas, incompatíveis, irreconciliáveis. Como em toda a boa liturgia da guerra, a verdade não morreu: foi dividida em narrativas.

Num lado do altar, proclama-se o milagre. O piloto – perdido nas areias hostis, envolto em fogo e silêncio – teria sido resgatado. Elevado, quase, das profundezas do território inimigo por uma força invisível, técnica e moralmente superior. Um corpo ferido, mas salvo. Um homem recuperado, como se a vontade bastasse para dobrar o espaço, o tempo e o adversário.

No outro lado, a negação do prodígio. Não houve ressurreição. Apenas destroços. Metal retorcido. Provas tangíveis de queda, não de ascensão. E talvez – sussurrado com calculada ambiguidade – um corpo ainda por reclamar, ainda por capturar, ainda por exibir.

E assim, neste domingo de Páscoa, celebra-se não a verdade da guerra, mas a sua ausência.

A guerra moderna aperfeiçoou aquilo que as religiões antigas apenas ensaiaram: a multiplicação de realidades paralelas. Cada lado com os seus evangelhos. Cada porta-voz com a sua revelação. Cada fotografia, cuidadosamente escolhida, como um fragmento de escritura. Mas há algo de peculiar nesta narrativa.

Durante décadas, o poder que agora proclama o milagre da recuperação habituou o mundo a outra linguagem – não a da dúvida, mas a da inevitabilidade. Falava-se em supremacia total, em domínio absoluto dos céus, em operações cirúrgicas que não falham, em inimigos reduzidos – sem apelo nem retorno – à “idade da pedra”. E, no entanto, aqui estamos.

Um piloto desaparecido torna-se um problema geopolítico. Um resgate alegado exige fé, não evidência. Um ultimato de 48 horas dissolve-se no tempo como incenso ao vento. A superpotência que prometia precisão milimétrica vê-se agora a gerir a incerteza. E, talvez mais grave, a gerir perceção. Porque esta é a essência dos “conceitos informativos” na guerra: não importa apenas o que aconteceu – importa o que pode ser sustentado, repetido, acreditado.

Ora, a verdade operacional é subordinada à verdade narrativa. Se o piloto foi resgatado, por que não o mostraram? Não existiram meios para mostrar uma foto do resgate com tanta tecnologia que destrói silos nucleares? Porque, no fundo, ambas as partes compreendem o mesmo princípio: na guerra, a verdade demasiado cedo pode ser tão perigosa quanto a mentira demasiado tarde.

Os iranianos mostraram fotos de alguns aviões que foram destruídos nas areias do deserto. Afirmaram ser dos que tentavam encontrar o piloto. Entre os que dizem que sim e os que dizem que não, entre o milagre e o destroço, entre a ressurreição anunciada e o silêncio persistente, fica o domingo de Páscoa declaradamente com esse mistério: Talvez o piloto tenha regressado. Talvez não. Mas uma coisa é certa: nesta Páscoa, não é apenas um homem que paira entre morte e redenção.

É a própria credibilidade de quem prometeu que nunca perderia o controlo da narrativa – e que hoje parece incapaz de controlar sequer o desfecho de um único acontecimento. E isso, mais do que qualquer destroço no deserto, é o verdadeiro sinal dos tempos.

Bom domingo de Páscoa!

Relembrar o fascismo para exorcizar o fascismo

(Whale Project, in Estátua de Sal, 05/04/2026, revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Pacheco Pereira sobre o ataque que a direita está a empreender contra o quadro democrático-constitucional (ver aqui). Pelo realismo da descrição do Portugal do antigamente, antes do 25 de Abril, que muitos já esqueceram e outros não viveram, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 05/04/2026)


Os portugueses gostavam tanto de cá estar que – numa população que rondaria os nove milhões de habitantes -, nos anos 60 mais de um milhão emigrou, em especial para França, onde era mais fácil chegar “a salto” fazendo de Paris “a segunda maior cidade de Portugal”.

A grande desertificação do interior do país começou aí, aldeias inteiras foram despovoadas ficando só os demasiado velhos para arrotear novos caminhos e muitas vezes as crianças.

Portugal teve o destino da Galiza plasmado numa canção: “Este parte, aquele parte e todos, todos se vão. Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão. Tens em troca órfãos e órfãs, tens campos de solidão, tens mães que não têm filhos, filhos que não têm pai…” (Ver vídeo abaixo com a canção interpretada por Adriano Correia de Oliveira).

Em Portugal até mulheres e crianças enfrentaram os perigos de “ir a salto”. Clandestinos, ilegais, nunca saberemos quantos os que, acusados de terem ido para França e abandonado mulher e filhos, na realidade nunca lá chegaram. Abatidos por guardas-republicanos ou guardas-civis espanhóis encontraram a morte nos caminhos de serras, desaparecidos. Nunca saberemos quantos foram.

O êxodo português foi provavelmente o maior movimento migratório da década na Europa, chegando a ser comparado ao grande êxodo da Irlanda no tempo da Grande Fome dos anos 1845 e 1848.

Era por estarem muito de bem com a vida que os portugueses arriscavam a vida para viver em cidades de contentores.

Mesmo assim há uns anos um idoso que vivera num desses bidonvilles dizia que tinha valido a pena. Era de uma aldeia perdida no centro de Portugal. Dizia ele: “Em Portugal comíamos para ali umas couves, carne era uma vez por ano, ali tínhamos carne três vezes por semana, era melhor’.

Tudo isto e conhecido, está nos livros. Ainda há gente viva desse tempo. Por isso, é simplesmente indecente haver gente a dizer que alguém que vivesse do seu trabalho vivia bem nesse tempo e estava de bem com a vida.

Podiam estar alguns com o cérebro lavado pela propaganda e pela religiosidade entranhada que pregava o sofrimento nesta vida como passaporte para a bem aventurança eterna. “No céu triunfarei”, era com esta promessa de uma canção de negros brasileiros que muita gente por aqui, em especial no Norte do país ia safando a vida e odiando os “comunistas” que diziam que merecíamos melhor desta vida.

Cabe acrescentar que, nesse tempo, qualquer um que falasse mal do regime era comunista e tinha direito a estadia num dos muitos “hotéis” do regime. De onde ninguém sabia quando e como sairia.

O que a direita quer é um regresso a esse tempo. Em que os preços das casas eram tão proibitivos que viviam três ou quatro famílias numa casa de dois quartos. Por isso o Governo está tão preocupado com a crise da habitação que está a vender casas a fundos privados abaixo do preço de mercado.

A verdade é que voltámos a ter fascistas no poder e desta vez fomos nós que votámos neles. Não houve mortos a votar nem apenas chefes de família.

Tudo por muita gente ir em contos de sereia como o ficar rico por pagar menos impostos ou acabar com as mordomias daqueles malandros dos funcionários públicos.

E, quem canta esses cantos de sereia, a única coisa que quer é fazer a nossa vida andar para trás, dizendo que e um andar para a frente.

O pacote laboral é um exemplo disso mesmo. Vendido como modernidade pretende o regresso ao poder discricionário que os patrões tinham noutros tempos. Acordem ou um dia acordam nos anos 60. E acreditem, poucos eram os que iam aguentar.

Fascismo nunca mais.


Cantar de Emigração – Adriano Correia de Oliveira