Revisitar as Leis da Robótica de Asimov pode ajudar-nos a evitar o “momento Chernobyl” da IA

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 12/04/2026)


O conflito no Irão — mas também a guerra na Ucrânia — mostra não só que a IA está a alterar radicalmente a economia da guerra, o que pode ser uma boa notícia, mas também que poderemos estar a caminhar para uma espécie de “momento Chernobyl”.


Poderemos em breve enfrentar um desastre que nos obrigue a perceber, tarde demais, que devíamos ter estabelecido regras comuns para enquadrar um desenvolvimento tecnológico que nós próprios desencadeámos.

Até Dario Amodei, fundador da Anthropic, que parece empenhado em agir para evitar o Armagedão, reconhece que não tem a resposta de que desesperadamente precisamos.

Uma das tentativas mais interessantes de regular o uso da IA poderá ter sido a esboçada, durante a Segunda Guerra Mundial, por um doutorando da Columbia University que, nessa altura, trabalhava temporariamente para a Marinha dos Estados Unidos.

Chamava-se Isaac Asimov e, no seu primeiro conto, Runaround (1941), formulou três leis que continuam a ser surpreendentemente inspiradoras para quem pensa em como resolver o problema intelectual e político que a IA representa no contexto da guerra: as famosas três Leis da Robótica de Asimov.

Leis da Robótica

  1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano nem, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto quando essas ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  3. Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

Mais tarde, Asimov acrescentou ainda uma Lei Zero:

Um robô não pode fazer mal à Humanidade nem, por inação, permitir que a Humanidade sofra algum mal.

Ao contrário das tentativas mais recentes da OCDE e da União Europeia para criar regulamentação, as leis de Asimov distinguem-se por uma concisão admirável, diz Francesco Grillo, investigador da Università Bocconi, em Itália, e diretor do think tank Vision, num artigo no The Concersation.

As famosas leis de Asimov estabelecem que um robô, aquilo a que hoje chamamos um “agente artificialmente inteligente”, nunca deve causar dano a um ser humano, nem permitir, pela sua inação, que esse dano ocorra.

Deve sempre obedecer às ordens dadas pelos seres humanos, salvo se essas ordens entrarem em conflito com a primeira proibição. E, finalmente, deve sempre proteger sempre a sua própria existência — a menos que isso colida com a primeira e a segunda disposições.

No seu conto, o próprio Asimov mostra como estas três leis podem gerar contradições internas e conduzir à “paralisia” dos robôs. Ainda assim, os três princípios de Asimov podem continuar a ser úteis como ponto de partida para a estratégia de que agora necessitamos, diz Grillo.

Anthropic toma posição

O maior mérito da nota que Dario Amodei escreveu recentemente sobre os perigos de uma tecnologia que ainda está na adolescência é o reconhecimento de que a Anthropic, a empresa que fundou, está a usar o seu próprio grande modelo de linguagem, Claude, para desenvolver versões mais avançadas de si próprio.

IA está a gerar robôs ainda mais inteligentes, e isso aproxima-nos daquela “singularidade” teorizada pelo grande matemático John von Neumann: o momento em que a inteligência artificial ultrapassa a inteligência humana e nos torna irrelevantes.

Se esta tecnologia é um adolescente, está a crescer muito depressa e em breve escapará ao controlo do seu criador.

Amodei não parece, contudo, ter uma proposta concreta sobre como gerir este problema. Disse que os contratos da Anthropic com o Departamento da Guerra dos Estados Unidos nunca deveriam incluir o uso dos modelos da empresa para reforçar quer a “vigilância interna em massa”, quer “armas totalmente autónomas”.

É uma exigência que colocou a Anthropic num duro confronto com o governo dos Estados Unidos. Ainda assim, parece uma resposta relativamente limitada, que cobre apenas uma dimensão de um problema muito mais vasto.

Amodei centra-se sobretudo na segurança dos cidadãos norte-americanos, quando são atualmente pessoas noutras partes do mundo as mais afetadas pelo uso de armas autónomas. Precisamos de uma visão mais ousada — e as intuições de Asimov podem ajudar, diz Grillo.

Novas regras

Uma via seria exigir a todos os criadores de modelos de IA que introduzissem, nos seus códigos fundamentais, três comandos simples e arrojados, em moldes como estes, à moda de Asimov:

  • Nunca matarás um ser humano, salvo em legítima defesa;
  • Procurarás sempre agir para o bem da humanidade, salvo se essa disposição implicar a violação do primeiro comando;
  • Quando tiveres dúvidas de que as tuas ações podem violar o primeiro ou o segundo comandos, optarás pela inação e pedirás instruções.

Muito provavelmente, esta iniciativa terá de partir de um grupo de países, seguindo um modelo semelhante ao dos tratados de não proliferação de armas nucleares. E seria desejável debater ideias novas antes de sermos forçados a fazê-lo por alguma consequência nuclear involuntária potenciada pela IA.

Como todas as outras tentativas de regular um futuro que ainda nem sequer conseguimos imaginar, estes três comandos terão limitações.

Um robô poderia ter-se recusado a matar o ex-líder iraniano Ali Khamenei, mas esse poderá ser um preço aceitável se isso significar evitar a criação de um precedente para outras interpretações discricionárias e perigosas.

Os robôs poderão nem sempre conseguir identificar seres humanos com sucesso, como o próprio Asimov reconheceu em textos posteriores, mas esse poderá bem ser um daqueles problemas intelectualmente fascinantes que modelos concebidos para interpretar a linguagem humana acabarão por resolver.

Mais importante ainda: será preciso não apenas informação, mas também muita sabedoria, para perceber o que é bom para a humanidade.

Os robôs poderiam acabar muitas vezes parados, à espera de instruções. Ainda assim, a eficiência não é uma religião que tenhamos de seguir quando o desafio está ligado à sobrevivência da nossa espécie.

Compreender o que cada vez mais se afigura como uma das maiores revoluções tecnológicas de sempre exige reflexão cuidada e capacidade de antecipação, conclui Grillo.

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Tense peace talks in Islamabad with participants holding torn peace agreement, secret deal, and weapons

Mais incertezas do que certezas

(José Carmona, in Facebook, 12/04/2026, Revisão da Estátua.)

Tense peace talks in Islamabad with participants holding torn peace agreement, secret deal, and weapons
Imagem gerada por IA

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O que se passou este fim de semana em Islamabad não foram negociações: foi uma farsa. Uma farsa montada pelos EUA com desígnios que iremos perceber em breve, mas que, seguramente, passam pela necessidade de ganhar tempo.

O Irão cedo percebeu que não se tratava de negociações, mas acabou por aceitar estar presente para que não recaísse sobre si o ónus de as inviabilizar. Fez bem. Tal como é perfeito o seu comunicado final.

Tudo nesta guerra é um tremendo disparate americano, não israelita. Israel tem um plano genocida e expansionista para o Médio Oriente e esta fase – o aniquilamento do Irão – era essencial, sendo para isso necessária a intensa colaboração americana. E o momento histórico era único e tinha que ser aproveitado: dificilmente tornaria a ter um POTUS tão tosco e tão permeável às suas intenções.

Tudo na atuação israelita é racional, dentro do seu magno plano sionista. Quanto aos EUA, o único interesse que poderiam ter, nesta estúpida aventura, seria minar o terreno à China, mas esta foi seguramente a pior via para o conseguir. Do estrito ponto de vista pessoal de Trump, o único interesse visível seria desviar as atenções da pressão brutal em que se estava a tornar o caso Epstein, e isso pelo menos momentaneamente conseguiu. É a única racionalidade que se consegue descortinar na intervenção americana, mas ainda assim estúpida, pelo alto preço envolvido.

Trump foi enganado por Netanyahu, isso parece seguro, tal como parece seguro que não sabe como sair do atoleiro em que se meteu e em que meteu o seu país. A grande questão agora é saber como vai reagir o menos racional dos estadistas mundiais e o mais imprevisível de entre eles: uma fuga para a frente, ou uma saída pela esquerda baixa?

O estado de destruição a que levou o seu movimento MAGA, o perigo iminente de queda abrupta do Império, uma réstia de bom senso entre os seus mais próximos colaboradores (já todos um pouco fartos dele) talvez o levem a uma decisão mais ponderada do que aquilo que é costume. Se escalar a guerra, os perigos são enormes e tal colidirá com os interesses económicos do capitalismo mundial. Provavelmente, nesse caso, será destituído ou assassinado.

Israel, por seu lado, se for abandonado no meio da batalha, não poderá prosseguir com o seu plano, pelo menos para já e para os tempos mais próximos e Netanyahu terá que enfrentar a ira do seu povo e os casos em tribunal em que está mergulhado. A carreira dele terminará aqui. Quer Trump opte pela saída, quer seja impedido, os EUA nunca lhe permitirão (a Israel) o uso de armas nucleares, o que seria a tentação óbvia. O único risco de utilização de armas nucleares – que torna a situação absolutamente descontrolada e provavelmente final – é haver mais uma loucura de Trump, que não seja bloqueada pela sua entourage ou pelo próprio sistema. É possível, mas pouco provável.

Resta uma parte importante da equação: o que fará o Irão perante a derrota dos EUA? O apoio da China e da Rússia permitir-lhe-á continuar, mas esse apoio não é desinteressado e tem por detrás o interesse em desgastar os EUA, mas à custa do Irão. E o Irão sabe isso. Os seus dirigentes são hábeis e inteligentes.

Contudo, não é de descartar que tente aproveitar a situação para deixar Israel em estado lastimável e convocar uma aliança árabe (e não só) – que já se está a desenhar – para o ajudar.

No meio de tanta incerteza, algumas certezas há: os EUA não são o que eram e sairão daqui em pior estado; a China e a Rússia estão a ganhar com a situação e não a perder; Israel enfrenta uma situação delicadíssima, como nunca lhe tinha acontecido e que pode consistir numa ameaça existencial; o Irão ultrapassou todas as expetativas de capacidade militar; o movimento MAGA está destruído; Israel não é invencível; Netanyahu enganou Trump; o povo iraniano uniu-se em torno do regime; foram abertas fissuras na relação Israel-EUA.

O que une um governante, uns banqueiros e uns bispos?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/04/2026)


O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.


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Tivemos, durante o Estado Novo, uma diplomacia que, à falta de melhor e pretendendo defender a justiça de um colonialismo aberrante, há muito já denunciado e descartado pela História, se dizia “orgulhosamente só”. Mas não era orgulhosamente e sim vergonhosamente, mantendo três guerras coloniais em África e uma ditadura na pátria. Tivemos depois, entre o saloio e o arrogante-subserviente, o episódio em que o primeiro-ministro Durão Barroso ofereceu a Base das Lajes e o nosso comprometimento para que um refractário à guerra do Vietname, George W. Bush, pudesse limpar o seu cadastro e declarar-se “um Presidente em guerra” — uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega.

Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que o preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhes estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso “aliado” americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns peanuts, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa… aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.

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2 Em 2025, os três maiores bancos portugueses, a Caixa, o BCP/Millennium e o Novo Banco, por circunstâncias diferentes, registaram a maior margem de lucro em toda a Zona Euro. Juntos, e alavancados nas taxas de juro do BCE, tiveram uma média de 15,37% de lucro, de tal maneira os deixando eufóricos que decidiram distribuir dividendos exorbitantes pelos seus accionistas, oferecendo-se ainda para lhes recomprar, com ganhos imensos, acções dos próprios bancos. O Novo Banco, sustentado durante anos com as injecções de dinheiro público a título de “capital contingente”, e após ter-se desembaraçado a mata-cavalos e estranhamente do imenso património herdado do Grupo BES, vai ainda mais longe na euforia, propondo-se reservar já 500 milhões para oferecer ao futuro dono do banco, os franceses do BPCE, que assim começam a facturar antes mesmo de entrar. Mas se tudo isto voltar a dar para o torto (longe vá o agoiro!) adivinhem a que porta irão eles bater para pedir ajuda? Sim, aos mesmo contribuintes e depositantes, que, à falta de alternativa, vêm as suas poupanças depositadas a render pouco mais que zero, enquanto ouvem os banqueiros gabarem-se de ter conseguido “lucros históricos”. Felizmente, nem tudo são más notícias: somos um país pobre mas com bancos ricos — ciclicamente ricos, num país eternamente em apertos.

3 A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa — (só o nome já diz muito sobre a ignomínia de que se tratava) — começou por apurar 4815 crianças abusadas em escolas católicas, seminários, residências paroquiais ou até nos confessionários, em Portugal e ao longo dos anos. Esse número, que se supõe ser apenas uma pequena parte da realidade vivida, desceu primeiro, e após exaustivas e traumáticas inquirições às vítimas que tiveram a coragem de se apresentar, para 512 pedidos de indemnização “validados”; depois para 95 “aprovados”; e finalmente, e após repetição da devassa inquisitória sobre as vítimas, para 57 a indemnizar. Cinquenta e sete casos que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) aceitou indemnizar por anos de abusos silenciosos e — (reconheceu-o a Comissão Independente) — deliberadamente encobertos e silenciados pela hierarquia católica ao longo dos anos: 57! E assim, com esta ligeireza sobre os ombros, a CEP estabeleceu como valores indemnizatórios a pagar quantias entre os 9000 e os 45.000 euros, tudo desembocando num esforço de indulgência plenária a si própria que no total monta a 1,6 milhões: uma gota de água na imensa riqueza de que dispõe a Igreja Católica Portuguesa e uma redução “significativa” sobre os valores propostos pela Comissão Independente. E com isto, comunicou a CEP, os bispos portugueses “expressam o compromisso que sempre assumiram” de honrar as suas responsabilidades, “colocando as vítimas no centro das nossas prioridades”. Deveras? Será mesmo isso em que eles acreditam e que julgam que nós acreditamos?

Numa conclusão misericordiosa, posso pensar que os nossos bispos não entenderam bem o que estava em causa e a dimensão do pântano que foram chamados a drenar. Só isso poderá explicar, benevolamente, todos os inúmeros esforços para minimizar o assunto, desmotivar as vítimas, desvalorizar e desconsiderar as queixas, ignorar as recomendações da Comissão nomeada e, de um modo geral, tentar passar a mensagem de que nada do que tinha acontecido fora excessivamente grave, frequente e sabido, conforme logo se apressou a declarar o bispo do Porto, quase brincando com a situação. Já tínhamos visto isto com o caso do infame padre Frederico, da Madeira, pedófilo e assassino, cujo julgamento foi comparado pelo bispo do Funchal ao “martírio de Cristo”. Mas precisamente porque já tínhamos visto isso e porque em toda a Cristandade, e sob o impulso intransigente do Papa Francisco, se sucediam as revelações dos escândalos ocultados durante décadas e a responsabilização da hierarquia envolvida, por acção ou por omissão, houve quem acreditasse que a Igreja Portuguesa, embora chegando tarde, estaria à altura das exigências. Puro engano: foi tudo o contrário aquilo que aconteceu. Mas ao pensarem que assim fecham o caso à luz da justiça humana (porque na divina, se existir, não terão perdão), os nossos bispos mostraram que preservam mais os criminosos do que as vítimas, o dinheiro do que a justiça, o esquecimento do que a dignidade. E pior: assim decidindo, passam a mensagem de que tudo o que de sinistro aconteceu foi feito com o seu conhecimento, talvez mesmo com o seu consentimento, mas seguramente com a sua conivência. Porém, se a pedofilia já é, sem mais, um crime difícil de perdoar, em que uma vítima inocente é arrastada e marcada para a vida pelas perversões sexuais do seu algoz, pior ainda é imaginar que estes crimes foram cometidos sobre crianças indefesas, cuja guarda e educação tinha sido confiada aos criminosos pelas famílias ou pela sociedade.

Eu sei que é injusto tomar a parte pelo todo e que, dentro desta Igreja, existem milhares de exemplos anónimos de sacerdócio dedicado aos outros e ao bem comum. Mas precisamente porque o nosso episcopado pareceu tão pouco interessado em apurar o que verdadeiramente se passou e reparar o que foi feito, não sabemos que parte do todo esteve envolvida. E essa é a injustiça final: manchar a imagem dos bons achando que assim se protege a imagem de todos, incluindo os que não mereciam protecção alguma.

4 O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia