A traição do projeto europeu

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 18/06/2026, Revisão da Estátua)


Como a deriva belicista subverte o direito comunitário e enriquece o complexo militar-industrial norte-americano.


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O problema da União Europeia não passa somente por um desfasamento total entre o que representa e o significado semiótico da sua própria designação – “união” –, como o facto de utilizar e almejar a inconsistente imagem de “união” que nos surge na media corporativa e nos discursos dos seus dirigentes, basear-se apenas e tão só no fomento de que a Federação Russa é um inimigo vital, em torno do qual toda a estratégia territorial, militar, industrial e comunicacional, deve assentar. Quando observamos o assédio da UE a um país asiático como a Arménia, especialmente depois de rejeitada a Turquia, como podemos não constatar que, hoje, a União Europeia baseia toda a sua existência neste logro, que tenta alimentar comportando-se como uma extensão da NATO e, logo, dos EUA?

O desfasamento é tal que, um dos mais importantes ideólogos da construção europeia, de seu nome Robert Schuman, acreditou que tal construção se faria pela fusão dos interesses económicos, ao invés da força das armas, como haviam tentado Hitler, Napoleão e tantos outros antes deles, e que essa fusão de interesses económicos conduziria à paz. Partindo de tal concepção, Schuman idealizou que as matérias-primas fundamentais, de então, como o carvão e o aço, deveriam ser colocadas sob uma autoridade europeia e supranacional comum, tornando “materialmente impossível” a guerra entre França e Alemanha. Para os construtores e ideólogos da construção europeia, o carvão e o aço tinham o mesmo papel que hoje a energia e os minerais críticos, algo que tornou possível a coexistência entre a Europa ocidental e a União Soviética ou a Federação Russa.

O projeto europeu nasceu, portanto, e pelo menos na Teoria, como um projeto de desarmamento e de troca da força das armas, pela força económica daqueles que eram, à data, alguns dos países economicamente mais desenvolvidos do mundo.

Setenta e seis anos depois, a União Europeia tornou-se capaz de gastar 90 mil milhões de euros em empréstimos, para financiar um país em guerra, de criar um Fundo Europeu de Defesa, lançar o plano “ReArm Europe” e aprovar instrumentos como o EDIRPA, o ASAP e o EDIP – todos destinados a transformar o orçamento comunitário num motor de produção de armamento. A pergunta que se impõe vai para além da conformidade de tais políticas para com os desígnios iniciais do projeto – usar o poder da economia como arma de construção da paz –, mas também, se tais mecanismos cumprem, ao menos, para com a própria legislação europeia. Será que ainda existe “União Europeia”?

O n.º 2 do artigo 41.º do Tratado da União Europeia é muito claro: “As despesas operacionais (…) ficarão igualmente a cargo do orçamento da União, com excepção das despesas decorrentes de operações que tenham implicações no domínio militar ou da defesa e nos casos em que o Conselho, deliberando por unanimidade, decida em contrário”. Esta redacção não é de modo nenhum ambígua, visando duas coisas muito importantes: 1. Manter a UE e as suas instituições afastadas, operacionalmente, das coisas da Guerra; e, 2. Impedir que a União Europeia financie despesas militares. Ler este artigo hoje parece estarmos perante uma anedota e diz-nos o quão longe tem sido a traição dos “princípios e valores” que tanto apregoam Von der Leyen e Kaja Kallas. Quanto mais os apregoam, mais deles se afastam.

O TFUE é muito claro a este respeito, na alínea d) do seu artigo 32.º diz que “a Comissão orientar-se-á pela necessidade de evitar perturbações graves na vida económica dos Estados-Membros e de assegurar o desenvolvimento racional da produção e a expansão do consumo na Comunidade”. Gostava de saber onde ficou esta norma na decisão de acabar com o consumo de gás russo, aplicar 21 (?!?!) pacotes de sanções e prescindir de todos os factores de produção garantidos pela Federação Russa, com base em argumentos – de ofensa a outros Estados – que não encontram o mesmo tipo de resposta em casos mais graves como os dos EUA e Israel.

É inequívoco que a Comissão Europeia contorna constantemente a proibição que diz respeito às restrições quanto à sua interferência em matéria de política de segurança e assuntos militares, recorrendo amiúde à criatividade malandra, perpetrada por todo um gabinete jurídico que, tal como a Guerra, também nos custa milhões. Tornando-se o que nunca poderia vir a ser, a Comissão Europeia dedica o seu tempo a encontrar formas de violar os tratados que jurou defender, provocando, com as suas acções – em representação dos interesses inconfessáveis que a dominam –, precisamente o contrário do que prevê a legislação a que teria de se submeter.

Por exemplo, no caso dos empréstimos à Ucrânia (90 mil milhões) invoca-se o artigo 122.º do TFUE – a cláusula de “dificuldades excepcionais” – como se a geopolítica fosse uma catástrofe natural e como se a Ucrânia fosse um Estado da União Europeia, que justificasse a aplicação de tal mecanismo. Já o ReArm Europe (150 mil milhões) usa a mesma base legal, argumentando que os empréstimos são realizados aos Estados-Membros e não à Ucrânia. Para que tudo seja menos evidente, cria-se a narrativa de que a Federação Russa vai atacar a NATO amanhã, daqui a um ano, dois, três, ou dez, consoante os calendários e as pretensões de rearmamento através do dinheiro dos contribuintes, e, assim, o perigo passa a ser para a própria União Europeia, comprovando, desta forma, a sua relação instrumental com a NATO. Assim, a Ucrânia recebe dinheiro e os Estados-Membros da UE podem rearmar-se porque “ocorrências excepcionais” que não podem controlar, surgiram, subitamente, por graça divina.

Um artigo que se refere a “dificuldades de aprovisionamento de certos produtos, designadamente energia”, “calamidades naturais”, é usado para justificar, não apenas o enviesamento belicista, mas também a centralização de cada vez mais competências na Comissão Europeia, uma estrutura burocrática não eleita e muito longe da vida do europeu comum. Energia, armas, semicondutores, tudo passou a ser centralizado ao abrigo de circunstâncias excepcionais que só existem por incompetência da própria UE.

Já a reindustrialização em torno da defesa, recorre ao mecanismo do artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial), como se a produção de munições e tanques fosse uma questão de mercado interno. Não apenas a UE e a Comissão Europeia, passam a concentrar-se em matérias que não era suposto concentrarem-se, como passam a fazer leituras enviesadas dos tratados, encontrando em todas as previsões, uma justificativa para a Guerra e para o desvio de verbas, da área social, para o complexo militar-industrial. Uma UE que entregou a competição pela 4ª revolução industrial aos EUA, que deixou cair na amargura a estratégia de transição energética e a energia atómica, vem usar o artigo que trata da “capacidade concorrencial” económica, não para a economia, mas para a Guerra. Para a competição militar.

Isto não é interpretação jurídica! É uma técnica de contorno sistemático. O artigo 24.º, n.º 1 do TUE proíbe a adopção de actos legislativos na Política Externa e de Segurança Comum (PESC). A solução? Não adoptar os instrumentos sob a insignia da CFSP. O artigo 41.º, n.º 2 do TUE proíbe a utilização do orçamento da UE para operações militares. A solução? Criar instrumentos intergovernamentais “off-budget” (como o EPF – European Peace Facility (que é para a Guerra e não para a paz)) ou invocar bases legais industriais. O artigo 4.º, n.º 2 do TUE estabelece que a segurança nacional é da “exclusiva responsabilidade de cada Estado-Membro”. A solução? Centralizar o financiamento da defesa em Bruxelas.

A Comissão, o Parlamento e os dirigentes nacionais que participam no Conselho sabem que os Tratados não foram feitos para isto. Como o sabem muitas caixas de ressonância com tempo de antena diário! Um estudo do Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus (SIEPS) questiona precisamente se esta “utilização criativa de bases legais”, acusando-a de reflectir um “desalinhamento crescente entre os Tratados actuais e a resposta da UE a uma realidade geopolítica em evolução”. O problema é que, ao contrário do que nos querem fazer crer, o desalinhamento não é uma fatalidade geológica – é uma escolha política. E escolhas políticas erradas e antidemocráticas, costumam ter consequências jurídicas.

Contudo, e depois de tudo isto, mesmo assim, o caso mais escandaloso é mesmo o dos empréstimos à Ucrânia. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa opuseram-se. Sob as regras da PESC. De acordo com as regras e tratando-se de segurança comum, tal oposição deveria ter automaticamente bloqueado o processo – a unanimidade é a regra e não por acaso. O objectivo é não fazer Guerra e seguir o caminho da economia que conduz à paz, lembram-se? Mas a Comissão recorreu ao artigo 332.º do TFUE, argumentando com a lógica da “cooperação reforçada”, permitindo que 26 Estados avançassem sem os dissidentes, mas usando normas que não haviam sido construídas para situações como esta. Ou seja, violando o princípio da especialidade das normas, que devem ser usadas para o que foram previstas. Mais uma estratégia sabuja para contornar a legislação europeia.

Isto constitui, em termos constitucionais, um golpe. A cooperação reforçada foi concebida como último recurso, para quando a integração não pode avançar por unanimidade em áreas de competência partilhada. Mas a PESC não é uma área de competência partilhada como as outras. É uma área de competência exclusiva dos Estados-Membros, ou seja, não partilhada. É uma área onde a unanimidade é a própria alma do compromisso soberano que deveria enformar esta União Europeia, uma UE que vive e se alimenta da soberania dos povos. Usar a cooperação reforçada para contornar o veto de um Estado-Membro em áreas que nos podem levar à Guerra, a uma Guerra mundial, é como usar uma ambulância para fugir da polícia: tecnicamente possível mas moralmente inaceitável.

O que está em jogo para os povos europeus, contudo, não é apenas a legalidade formal. É o princípio da confiança mútua entre Estados-Membros. Se a maioria puder impor a Guerra à minoria, a UE deixa de ser uma união de soberanos e torna-se uma federação coerciva – sem, no entanto, ter o mandato democrático de uma federação. E esta é o logro para o qual nos conduziram os dirigentes nacionais, nomeadamente todos os governos Portugueses desde a entrada na então CEE. A cada passo, contribuíram para e aprofundaram a natureza puramente colonial desta União Europeia.

Mas há, no entanto, uma traição ainda mais profunda. A deriva belicista da UE não fortalece a Europa. Fortalece, especialmente, os Estados Unidos. Os números são implacáveis. Entre 2020 e 2024, as importações de armas dos EUA para a Europa – incluindo a Ucrânia – mais do que triplicaram em relação ao quinquénio anterior. A quota dos EUA nas exportações globais de armamento subiu de 35% para 43%. A Alemanha, historicamente reticente em matéria militar, viu as suas importações de armas aumentarem 334%, cerca de 70% das quais provenientes dos EUA.

O F-35 é o símbolo perfeito desta dependência. Mais países europeus compraram este caça americano desde a invasão da Ucrânia. Todos passaram a depender do governo dos EUA e da Lockheed Martin para actualizações de software. O avião foi concebido para usar armas americanas e adaptá-lo a armamento europeu exigiria aprovação de Washington – algo que não é realista. Aliás, a quebra no consórcio de construção do caça de sexta geração França-Alemanha, não deverá ser alheia a esta realidade.

O plano “ReArm Europe” de 150 mil milhões de euros, apesar do nome pomposo, não é, nem de longe nem de perto, um plano de autonomia europeia. Trata-se, isso sim, de um plano de compra. E quem vende? Os EUA. O Presidente Trump exigiu explicitamente que os parceiros da NATO aumentassem o gasto em defesa para 5% do PIB e comprassem armas americanas.

O “Buy European” de Berlim – que prevê apenas 8% de compras a fornecedores americanos – é uma reacção tardia e ainda assim incompleta. O problema não é apenas quem vende as armas, mas sim quem controla a tecnologia. Os sistemas de inteligência militar, as bases de dados de targeting, os softwares de defesa, a Inteligência Artificial – tudo isto depende dos EUA. É a própria Chatham House quem diz que “dados de sistemas de armas americanos são enviados automaticamente para os EUA, actualizações cruciais de software dependem de fabricantes americanos”.

A traição é dupla. Trata-se de uma traição aos Tratados – que a UE viola com a conivência de um exército de juristas criativos, para não lhes chamar outra coisa, sendo também uma traição ao espírito do projeto europeu, pelo menos, aquele que havia sido vendido para consumo interno.

Schuman poderia não ser ingénuo, mas sabia que se a integração não se fizesse pela paz, nunca se faria. Pelo menos assim o dizia. Não obstante, podemos sempre dizer que, um projeto de Guerra apenas pode dividir, porque é isso que a Guerra faz, divide, ao invés de unir!

A UE está a fazer exactamente isso. Está a usar o orçamento comunitário – financiado por contribuintes europeus que pagam impostos para hospitais, escolas e infraestruturas – para garantir empréstimos que financiam a indústria de defesa. Está a transformar o Banco Europeu de Investimento, historicamente proibido de financiar armamento, num banco de guerra. Está a aprovar regulamentos que obrigam a compra de produtos de defesa “europeus” – mas que, na prática, beneficiam empresas americanas com joint ventures na Europa e com diversos controlos de capital incorporados nas companhias europeias.

O argumento preferido dos defensores desta deriva belicista reside na “excepcionalidade” do momento. Ao classificarem a invasão russa da Ucrânia como um evento sem precedentes, arrastam todos os povos da UE para a ideia de que enfrentamos a inevitabilidade da adaptação. Poderiam apresentar-nos a inevitabilidade da denúncia e rejeição da Guerra, para que aponta a legislação europeia e internacional, aplicada na UE, mas não. Aproveita a excepcionalidade para não aplicar a lei que visava, precisamente, responder a tal situação.

Ao traírem o projeto europeu que venderam aos povos europeus e para o qual, muitas vezes de forma antidemocrática, os arrastaram, esta estirpe de dirigentes não trai apenas esse projeto. Trai tudo o que disseram que seria tal projeto, traem o que venderam, traem o que prometeram.

Houve quem, analisando a natureza profunda desse projeto o denunciasse desde sempre e acusasse tal empreitada de ser impossível, dada a relação de forças em confronto. Mas ter razão quando vem a desgraça, não é algo de que se orgulhe quem esteve nessa luta! A luta hoje reside em parar esta deriva para o abismo, sob pena de todos a ela capitularmos, uns conscientemente, uns culposamente e outros, ingenuamente!

FONTES E REFERÊNCIAS EXTERNAS

  1. Empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia (2026-2027):
  1. Plano “ReArm Europe” (150 mil milhões de euros):
  1. European Peace Facility (EPF) – instrumento “off-budget”:
  1. Base legal do artigo 122.º do TFUE (dificuldades excepcionais):
  1. Base legal do artigo 332.º do TFUE (cooperação reforçada) e veto da Hungria, Eslováquia e República Checa:
  1. Exportações de armas dos EUA para a Europa (2020-2024):
  1. Dependência tecnológica dos EUA e dados militares:
  • Chatham House, referências sobre dependência de sistemas de armas americanos e partilha de dados (citado no texto original; fonte específica a confirmar em publicações do Royal Institute of International Affairs).
  1. Artigo 41.º, n.º 2 do TUE (orçamento da UE e operações militares):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 41.º, n.º 2.
  1. Artigo 32.º, alínea d) do TFUE (desenvolvimento racional da produção):
  • Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 32.º, alínea d).
  1. Artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial):
  • Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 173.º.
  1. Artigo 24.º, n.º 1 do TUE (proibição de actos legislativos na PESC):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 24.º, n.º 1.
  1. Artigo 4.º, n.º 2 do TUE (segurança nacional – exclusiva responsabilidade dos Estados-Membros):
  • Tratado da União Europeia (TUE), artigo 4.º, n.º 2.
  1. Estudo do SIEPS sobre “utilização criativa de bases legais”:
  • SIEPS (Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus), publicações sobre desalinhamento entre Tratados e resposta da UE à realidade geopolítica.

Fonte aqui

Desistorização do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro

(Por Frei Betto, in Diálogos do Sul, 30/04/2026)

Broken antique clock with cracked face lying in sandy beach.

Um relógio antigo, em pedaços, jaz parcialmente enterrado na areia ao pôr do sol em uma praia. (Imagem gerada por IA).

Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais”. Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.


Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida; e esse poder é inelutável. 

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser. 

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal.  O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico. 

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água fresca. 

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos. 

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância. 

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único. 

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala… 

Minha geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública — contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias.

* Artigo em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

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O Imperador vai nu

(In RiseUp Portugal, in Facebook, 20/06/2026, Revisão da Estátua)


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Há um pequeno problema com a guerra dos Estados Unidos contra o Irão. Os Estados Unidos ganharam-na. Pelo menos, foi isso o que nos disseram.

O Líder Supremo iraniano foi assassinado nas primeiras horas da campanha. Grande parte da marinha convencional do Irão foi destruída. As instalações nucleares sofreram danos severos. Durante cem dias, a maior potência militar do planeta utilizou tudo aquilo que a tecnologia moderna consegue oferecer: bombardeiros furtivos B-2, grupos de ataque de porta-aviões, munições de precisão e uma superioridade aérea praticamente absoluta. À primeira vista, parece uma vitória bastante convencional. E, no entanto, bastou ler o memorando de entendimento de 14 pontos agora acordado entre Washington e Teerão para surgir uma dúvida embaraçosa. Se isto foi uma vitória americana, talvez seja altura de atualizar os dicionários.

Os objectivos anunciados, quando a Operação Epic Fury começou em coligação com Israel, a 28 de Fevereiro de 2026, eram claros. Destruir permanentemente o programa nuclear iraniano, eliminar a capacidade de produção de mísseis balísticos, neutralizar o apoio de Teerão aos grupos aliados na região e, embora ninguém o admitisse publicamente, criar condições para uma mudança de regime. Não eram objectivos particularmente subtis. Eram resultados de quem pretende remodelar profundamente um adversário e redefinir o equilíbrio de forças numa região inteira.

Por isso, é interessante observar aquilo que consta do acordo final. Os Estados Unidos comprometem-se a respeitar a soberania iraniana e a não interferir nos assuntos internos do país. Suspendem as sanções ao petróleo e aos petroquímicos. Levantam o bloqueio naval. Retiram forças da região. Descongelam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos. E comprometem-se, juntamente com os seus aliados, a financiar planos de reconstrução avaliados em pelo menos 300 mil milhões de dólares. O acordo é fascinante porque parece ter sido redigido por alguém que não assistiu ao início da guerra. À medida que se percorrem os seus termos, surge até uma sensação ligeiramente desconfortável. A certa altura, o leitor sente necessidade de confirmar qual dos dois países foi efetivamente atacado, porque a distribuição de concessões parece pouco compatível com aquilo que normalmente se associa a uma vitória total e esmagadora.

Naturalmente, a expressão utilizada é “fundo de reconstrução”, porque a diplomacia existe em grande medida para evitar palavras desconfortáveis. Mas a História tende a ser menos delicada. Quando um país destrói infraestruturas noutro e depois paga para as reconstruir, existe uma designação tradicional para esse fenómeno: Reparações. E as reparações possuem uma característica curiosa. Costumam ser pagas pelos derrotados. Foi assim após as Guerras napoleónicas. Foi assim com a Alemanha após as duas Guerras Mundiais. Foi assim com o Japão depois de 1945. Foi assim com o Iraque após a invasão do Kuwait. Agora, aparentemente, os Estados Unidos são convidados a participar nessa tradição histórica. Talvez exista uma explicação perfeitamente razoável para isto, mas é difícil ignorar o facto de que, em toda a história moderna, os países raramente celebram as suas grandes vitórias pagando centenas de milhares de milhões de dólares ao adversário.

A situação torna-se ainda mais intrigante quando se observa aquilo que desapareceu das negociações. O programa de mísseis iraniano deixou de estar em discussão, e mais, Donald Trump admitiu em direto na TV que afinal é injusto e o Irão deve ter mísseis balísticos. O apoio a grupos como o Hamas, o Hezbollah e os Houthis deixou de estar em discussão. Em suma, alguns dos principais motivos apresentados para justificar a guerra deixaram simplesmente de fazer parte da conversa. Vale a pena refletir sobre o significado disto. Os Estados Unidos gastaram oficialmente cerca de 30 mil milhões de dólares em apenas três meses, embora algumas estimativas elevem o valor para perto dos 200 mil milhões. Consumiram munições a um ritmo que vários analistas consideram insustentável, prevendo entre três e cinco anos para a reposição dos arsenais. Contribuíram para uma crise energética global. E, no final, os mísseis iranianos nem sequer estiveram em cima da mesa. É um resultado peculiar. É como contratar uma empresa para demolir uma garagem, destruir metade da casa e terminar a obra explicando que a garagem afinal nunca foi a questão principal.

Entretanto, Donald Trump passou de proclamar uma vitória total para celebrar o facto de ter assinado um acordo de paz com o Irão numa guerra que ele próprio iniciou. A mudança é compreensível. Quando os acontecimentos se recusam a colaborar com a narrativa, normalmente é a narrativa que acaba por se adaptar. A dificuldade agravou-se quando uma avaliação confidencial da Agência de Informações da Defesa norte-americana sugeriu que grande parte do urânio enriquecido tinha sido transferida antes dos ataques. As instalações subterrâneas não colapsaram. O programa nuclear sofreu atrasos de meses, não de anos. Trump falou em destruição completa e total. A Agência de Informações descreveu algo substancialmente diferente. É uma distinção importante, sobretudo porque um dos inconvenientes da realidade é continuar a existir mesmo quando contradiz uma conferência de imprensa.

Muitas pessoas comparam esta situação ao Vietname, mas a comparação talvez não seja inteiramente justa. No Vietname, os Estados Unidos perderam após anos de combate terrestre, dezenas de milhares de mortos e um desgaste contínuo que acabou por esgotar a vontade política do país. No Irão, estamos a falar de apenas cem dias. Cem dias durante os quais os Estados Unidos utilizaram aquilo que possuem de mais avançado, mais sofisticado e mais devastador. Se o Vietname foi uma derrota por desgaste, o caso iraniano parece mais próximo de uma demonstração involuntária dos limites do poder militar. Porque o Irão nunca precisou de vencer militarmente. Precisava apenas de evitar uma derrota política e preservar aquilo que considerava essencial. Olhando para os termos do acordo, é difícil não concluir que o conseguiu.

Apesar dos danos sofridos, a República Islâmica emerge com a sua soberania reafirmada, as suas alianças preservadas, o seu programa estratégico protegido, a economia desbloqueada e a reconstrução garantida. Depois de todo o fogo, toda a retórica e toda a demonstração de força, os americanos parecem ser os mais ansiosos por encerrar o assunto e regressar a casa.

É aqui que a questão deixa de ser apenas iraniana. Durante sete décadas, a influência dos Estados Unidos no Médio Oriente assentou numa ideia extremamente simples: Washington podia impor resultados através da força militar. Todos os cálculos feitos em Riade, Amã, Cairo, Ancara ou Telavive partiam dessa premissa. As bases militares espalhadas pela região não eram apenas instalações militares. Eram símbolos físicos dessa capacidade. Representavam uma mensagem simples: estamos aqui e decidimos.

Mas essa mensagem torna-se mais difícil de sustentar quando o país que deveria ser intimidado termina a guerra com os seus mísseis protegidos, os seus aliados preservados e um plano de reconstrução financiado pelo adversário. As bases podem continuar onde estão. Os porta-aviões podem continuar a navegar. Os bombardeiros podem continuar a voar. O problema é que a credibilidade não funciona como uma pista de aterragem. Quando desaparece, não pode ser reconstruída apenas porque existe orçamento para isso.

É assim que os impérios costumam encontrar os seus limites. Não necessariamente quando deixam de ser poderosos, mas quando o resto do mundo começa a suspeitar que esse poder já não produz os resultados prometidos. Quando aliados e adversários começam a recalcular expectativas. Quando países mais pequenos observam atentamente aquilo que aconteceu e retiram as suas próprias conclusões.

O Irão não derrotou militarmente os Estados Unidos. Ninguém está seriamente a argumentar isso. O que fez foi algo potencialmente mais importante: demonstrou que a maior potência militar do mundo pode vencer quase todas as batalhas e, ainda assim, perder a única que realmente importa. A batalha pelos objectivos políticos que justificaram a guerra.

Demonstrou a todo o Sul Global, a todas as nações que vivem sob a sombra da coerção americana, que a resistência é possível, que a soberania pode ser defendida e que a máquina militar mais poderosa do mundo pode ser derrotada politicamente mesmo quando vence todas as batalhas.

Talvez seja cedo para declarar o fim da hegemonia americana no Médio Oriente. Mas é difícil ignorar que, pela primeira vez em muitas décadas, a questão deixou de ser impensável.

A História registará este momento como aquele em que o século americano encontrou os seus limites da forma mais direta possível. Não nas selvas do Sudeste Asiático. Não nas montanhas do Afeganistão. Mas no Golfo Pérsico, numa guerra que durou 100 dias e terminou com Washington a concordar reconstruir aquilo que destruiu. O Irão até exigiu que seja em dinheiro líquido, e não aceitará quaisquer auditorias estrangeiras ou permitirá empresas de construção ocidentais no processo.

Se uma guerra começa com promessas de mudança de regime e termina com a reconstrução financiada pelo agressor, então pelo menos uma coisa parece evidente: alguém saiu desta história convencido de que venceu. E é difícil argumentar que foi quem enviou os porta-aviões.

A cronologia dos acontecimentos torna tudo ainda mais curiosamente simbólico.

A 9 de Março, Donald Trump garantia que os Estados Unidos eram agora totalmente independentes do Médio Oriente e que não precisavam do seu petróleo.

A 1 de Abril, assegurava que o país possuía muito mais petróleo do que aquele de que necessitava.

A 17 de Junho, porém, explicava que, sem o memorando de entendimento, os Estados Unidos ficariam sem reservas dentro de cerca de quatro semanas.

A História está cheia destas pequenas ironias. Não porque provem alguma coisa, mas porque ajudam a ilustrar a distância que por vezes separa a retórica da realidade.

E existe ainda uma última coincidência. Trump assinou o memorando de entendimento no Palácio de Versalhes. O mesmo edifício que deu o nome ao Tratado de Versalhes, assinado em 1919 após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. Naturalmente, há algo de involuntariamente cómico em terminar uma guerra cuja vitória foi proclamada como total, assinando um acordo que prevê o levantamento de sanções, o descongelamento de ativos, a reconstrução do país atacado e o reconhecimento da sua soberania precisamente no local mais associado da história moderna às consequências impostas aos derrotados.

Não é uma posição confortável para um império. Sobretudo porque é exatamente neste momento que as pessoas começam a olhar para o Imperador. E a reparar que talvez ele esteja nu.