O solo sobre o qual a Europa se ergue está a tremer

(Alastair Crooke in S C F, 03/11/2026)


A Comissão Europeia propõe um aumento de 81% nas contribuições anuais dos Estados-Membros para o orçamento da UE no próximo ano.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Configurar a hostilidade generalizada em relação à Rússia tem sido um projeto de longa data para a Europa desde pelo menos a década de 1990. O setor de segurança dos EUA abraçou por muito tempo a expansão da Europa para o leste como um objetivo fundamental do pós-guerra — em primeiro lugar, para combater o comunismo na Europa pós-guerra; e em segundo lugar, a expansão da OTAN e, posteriormente, da UE, serviu para vincular os Estados-membros da UE a uma arquitetura de segurança liderada pelos EUA. Essa engenharia estrutural fez com que as estruturas de política externa e de segurança da UE se tornassem disfuncionais, presas como estavam no “paralisado” entre a tomada da “Nova Europa” pela “Velha Europa” (como o Secretário de Defesa dos EUA, Rumsfeld, provocou em 2003 na sede da OTAN em Bruxelas), minando efetivamente qualquer tentativa de ter uma política externa autônoma da UE.

A expansão para o leste também esvaziou efetivamente o projeto político da UE — a ideia era que a UE se tornasse um “ator geopolítico global” como contrapeso à unipolaridade americana. A UE, portanto, transformou-se em pouco mais do que uma grande zona comercial regulamentada, com pouca coesão política e sem uma visão abrangente e clara do que significava ser europeia.

Com a entrada maciça de novos Estados na União, inspirada pelos Estados Unidos, cujas lealdades em termos de segurança e política externa estavam mais voltadas para Washington do que para os interesses dos cidadãos dos principais Estados europeus, essa perda de propósito claro prejudicou a evolução de qualquer “projeto” europeu coerente.

Assim, na ausência de uma identidade europeia coerente (“Nova Europa” ou “Velha Europa”) ou de um sistema de valores que se consolidasse na consciência pública, a defesa da “democracia liberal” na Ucrânia levou inevitavelmente a um recurso de último recurso: a “Ucrânia” tornou-se o projeto em torno do qual os líderes europeus imaginaram que poderiam manter a coesão europeia minimamente intacta.

Manter o ‘projeto Ucrânia’ tornou-se uma tábua de salvação.

Assim, a “Ucrânia” tinha como objetivo injetar propósito e direção — particularmente após a cisão do Iraque em 2003, quando a França e a Alemanha se recusaram a apoiar a invasão do Iraque liderada pelos EUA. O clima era tóxico (como me lembro de ter trabalhado como assessor de Javier Solana, então chefe da diplomacia da UE, entre 1997 e 2023).

Agora, porém, a “Ucrânia” tornou-se um problema. Embora a divisão “Nova Europa – Velha Europa” que ela deveria atenuar já não seja tão aguda, um cisma diferente surgiu em seu lugar — o cisma atual reside entre a classe dominante e oligárquica da Europa, distante e distante, de um lado, e, do outro, seus cidadãos cada vez mais desesperados. Esse novo cisma constitui uma crise de outra ordem — pois é existencial para a UE.

Nenhum líder europeu de renome possui um plano viável para pôr fim ao impasse na Ucrânia, nem uma ideia clara de como financiar a continuação da guerra sem comprometer a própria arquitetura financeira que sustenta a Europa “liberal”. Isso colocaria em risco o mito fundador da UE de garantir aos cidadãos um padrão de vida próspero.

O dilema é evidente: apoiar a Ucrânia como símbolo da “democracia liberal” tornou-se paradoxal, visto que a própria modernidade liberal está em colapso . A própria reivindicação da Europa à democracia é cada vez mais questionada — mais recentemente pelos acontecimentos na Polônia , onde o primeiro-ministro Donald Tusk, um bastião da UE, insiste que a legislação da UE prevalece sobre a Constituição polonesa.

Com Washington insistindo agora que a Europa se torne seu representante na continuidade da guerra de desgaste contra a Rússia, o dilema se agravou, tornando-se uma escolha de Hobson: a UE pode tentar salvar sua estrutura financeira atual ou continuar financiando a guerra de Zelensky. Mas, dentro da própria estrutura da UE, não pode fazer as duas coisas.

Os pagamentos a Zelensky ao abrigo do empréstimo de 90 mil milhões de euros para apoio à Ucrânia no período 2026-2027 continuam a ser desembolsados ​​pela UE; contudo, segundo Zelensky, esta quantia já foi em grande parte gasta, o que torna urgente a necessidade de mais 70 mil milhões de euros.

“Precisamos de pelo menos mais 70 bilhões de euros da sua parte – para defesa, armamento e resiliência. Este é um valor realista. E peço que encontrem esse apoio.”

Incrível, o empréstimo de € 90 bilhões da UE não apareceu como uma rubrica específica no orçamento atual da UE. Não foram emitidos cheques de € 90 bilhões dos Estados-membros para Bruxelas. O que o orçamento ofereceu foi apenas uma garantia de que, se a Ucrânia não pagasse esse empréstimo, a própria UE honraria a dívida com os detentores de títulos. (Vários Estados-membros, no entanto, recusaram-se a participar da garantia da UE e afirmam que se recusarão novamente, caso sejam solicitados a garantir outro empréstimo desse tipo).

Além disso, os 90 mil milhões de euros nunca entraram no orçamento da UE especificados como “despesas”. A Comissão apenas afirma que o empréstimo foi concedido ao abrigo de uma “margem de manobra” no seu orçamento. (A UE define esta margem como a diferença entre o limite máximo absoluto que os Estados-Membros concordaram que a Comissão pode exigir que paguem e as dotações orçamentais nominais para sete anos). Até agora, a subvenção à “Ucrânia” tem sido “facilitada” por este procedimento de margem de manobra “enrolado” — mas isto não pode continuar.

Isso não pode continuar porque quaisquer outras subvenções desse tipo devem estar abrangidas pelo quadro orçamentário de sete anos da UE, que agora é objeto de intenso debate.

A proposta orçamental atual pressupõe que, simplesmente para manter os níveis atuais de gastos da UE, é necessário que os Estados-Membros contribuam com muito mais dinheiro a cada um dos próximos sete anos. A Comissão propõe que o total das contribuições nacionais anuais suba para 235 mil milhões de euros — um aumento de 81% aos preços atuais. Até o embaixador de Berlim considerou isso “simplesmente inviável”.

Sem a aprovação do orçamento da UE para os próximos sete anos, não será possível encontrar uma solução financeira para as crescentes reivindicações da Ucrânia aos Estados-membros da UE.

E o orçamento de sete anos está longe de ser definido — a Alemanha, com dificuldades fiscais, está sendo instruída pela Comissão a aumentar suas contribuições de aproximadamente €40 bilhões para €60 bilhões, e a França, ainda mais fragilizada fiscalmente, está sendo instruída a aumentar sua contribuição nos próximos sete anos de aproximadamente € 30 bilhões para € 40 bilhões por ano. Essas são exigências alarmantes.

Resumindo: a UE não tem condições de financiar a Ucrânia sem recorrer a medidas de austeridade devastadoras em seu próprio país, o que agravaria a crise social e política em toda a Europa .

Walter Münchau aponta para um problema mais sério:

“Tenho dificuldade em ver como a França poderá ter um governo que consiga fazer tudo isto: (1) controlar o défice orçamental; (2) evitar agitação social; (3) cumprir as regras europeias; e (4) permanecer na zona euro. Algo tem de ceder .”

Marine Le Pen rejeitou a ideia de um aumento na contribuição da França para o orçamento da UE, caso seja eleita presidente francesa no próximo ano. Pelo contrário, afirmou que buscaria reduzir a contribuição francesa do nível proposto (30 bilhões de euros) para 10 bilhões de euros — e suspender todas as contribuições francesas para a Ucrânia.

O resultado final, caso ela assumisse a Presidência, seria provavelmente o recurso da França ao BCE para solicitar um resgate financeiro que, se recusado, poderia levar a um incumprimento dos pagamentos aos detentores de obrigações da dívida francesa.

A situação é crítica porque, como sugere Münchau:

“O calote da França em sua dívida provavelmente levaria à saída do país do euro. Caso chegássemos a esse ponto, a crise financeira resultante seria muito maior do que qualquer outra que já tenhamos vivenciado. Instituições financeiras faliriam no mundo todo. Por sua vez, a zona do euro poderia não sobreviver, à medida que outros países também deixassem de honrar suas dívidas e entrassem em colapso. Ironicamente, um dos países europeus mais afetados nesse cenário seria o Reino Unido. Apesar de não ser membro da UE, muito menos da zona do euro, o mercado de capitais britânico seria extremamente vulnerável ao caos do outro lado do Canal da Mancha.” (Münchau sublinha que não está sugerindo que esse resultado seria a opção preferida de Le Pen)

No entanto, quando confrontada com a ameaça de Le Pen de reduzir drasticamente a contribuição da França para o orçamento da UE e de romper relações com a Ucrânia, ela não parece comprometida com a UE (embora negue querer sair da zona do euro).

Contudo, caso um calote da dívida se tornasse inevitável, a saída da França da zona do euro por meio desse calote poderia ocorrer por força maior, e não por escolha deliberada. Esse desfecho — embora de grande consequência para a Europa, como alerta Münchau — permitiria à França adotar uma taxa de câmbio mais competitiva e definir taxas de juros mais adequadas às suas circunstâncias.

Bruxelas tem poucas opções: quer continue a financiar Kiev ou não, a guerra está perdida. E uma ameaça ainda mais profunda se avizinha —

Veja o que aconteceu desde o início das guerras na Ucrânia e no Irão: Preços do gás natural: +206%; Preços do diesel: +39%; Preços da gasolina: +27%; Preços do petróleo bruto: +50%; Inflação na zona do euro: 1,9% → 3,8%.

O inverno está realmente chegando. Tudo vai mudar, enquanto as elites governantes da Europa tentam fingir que nada mudou.

Fonte aqui

Como foi possível?

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 31/10/2026, Revisão da Estátua)


Este texto é longo mas merece ser lido com toda a atenção. Ele explica em grande parte o percurso errado que conduziu às catástrofes que assolam o mundo na atualidade, mormente os países do dito Ocidente.

Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 03/11/2026)


O Relatório Kissinger instrumentalizou emancipação feminina e migração para conter natalidade e pressionar salários. O resultado: fascismo.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Europa, Paris, ano 2100. Num qualquer livro de história de um país que outrora pertencera à extinta União Europeia, tenta-se explicar o que conduzira à trágica situação ocorrida setenta anos antes. Uma professora, tentava em vão explicar, como fora possível ter-se chegado ali.

Primeiro, apoiando-se no programa fornecido, a docente começou por alegar uma grande crise de mão de obra, criada pelo decréscimo abrupto da taxa de natalidade nos países com as economias mais avançadas. As causas desse declínio eram extremamente complexas e, entre inúmeras causas, a explicação mais em voga situava-se na intersecção entre justas dinâmicas de luta e de emancipação social, a forma como essas medidas foram aproveitadas pela classe dominante – conforme descrito no próprio Relatório Kissinger – e o modo como as condições de trabalho, não evoluírem e corresponderam às necessidades sociais sentidas e exigidas pelos trabalhadores, no âmbito da terceira e na quarta revoluções industriais, provocando um desajustamento entre as necessidades populacionais e demográficas e o modo de exploração capitalista, que não dava espaço e tempo à mulher, à família, para procriar e planear o futuro. O trabalho tinha de vir primeiro, a carreira, o rendimento, e depois, para muitas, foi tarde demais.

O Relatório Kissinger, concluído em 1974, representando o expoente máximo da contradição entre capitalismo e necessidades sociodemográficas, explorava de forma subversiva o planeamento familiar e associava a educação e a condição das mulheres à redução da fecundidade, como formas de controlar o crescimento da população mundial. Para os seus autores, o cálculo era simples: demasiada população conduzia à escassez de recursos; demasiados jovens, conduzem a reivindicações e até revoluções pelo controlo nacional dos respetivos recursos. Num caso e no outro, isso jogava contra o interesse nacional dos EUA. Na prática, o Relatório Kissinger, em vez de olhar para a luta feminina pela emancipação como um ganho civilizacional puro, propunha uma instrumentalização imperialista dessa luta legítima pela liberdade e igualdade, agravando uma das graves contradições do sistema capitalista, das primeiras décadas do século XXI.

A lógica promovida foi simples: a libertação da mulher só interessava na medida em que se alinhasse com os interesses nacionais dos EUA e do imperialismo. Muito do que foi feito (ou deixado fazer), a partir daí, nomeadamente em matéria de negação dos direitos de parentalidade e de acomodação do direito à família, no quadro das relações laborais e sociais, não apenas constituiu um instrumento perverso de controlo populacional, como ainda negou às mulheres emancipadas e seus companheiros, o direito a fruírem de uma nova liberdade, a liberdade de se constituir família em resultado do amor, do planeamento da vida e não da retrógrada imposição económica e social. A ideologia dominante nos EUA tinha esta capacidade de tornar feio tudo o que bonito era.

Distinguir entre o que resulta de contradições próprias do sistema capitalista, ou de um programa subversivo, não é tarefa fácil. Contudo, os EUA, tal como sucedeu com muitas das mais importantes lutas sociais – democracia, liberdade, direitos humanos, igualdade – acabaram por conseguir virar o bico ao contrário, tornando-as muitas vezes perniciosos cavalos de Tróia, como sucedeu com a Primavera árabe, as invasões do Iraque, do Afeganistão, a destruição da Jugoslávia, da Líbia, da Síria e do Iémen, a cobertura dos direitos humanos e do combate ao terrorismo. Tal como nas épocas mais medievais, usava-se a pretensão civilizatória, para ocupar, pilhar, desmantelar.

Duas tendências aparentemente avançadas e inatacáveis — a emancipação da mulher em relação ao poder patriarcal do pai, dos irmãos ou do marido, e a possibilidade de as famílias escolherem quando ter filhos, abrindo também a porta à revolução sexual seguinte, em que o sexo deixou de ser tabu e passou a ser visto como algo livre e até saudável — foram resultado por um lado, da luta, mas, por outro, não deixaram de ser instrumentalizadas por interesses mesquinhos, egoístas e narcisistas, e até imperialistas. Tudo isto usado para retirar amplitude e abrangência política a estas lutas sociais.

Um dos resultados, numa primeira fase, foram, em parte, os trinta anos de ouro dos EUA e do ocidente, com a entrada de todo esse «PIB feminino» na economia, criando a riqueza industrial que alimentaria a reconstrução europeia pós segunda guerra mundial, e o poderio económico que viria não apenas a derrotar a URSS, através do outspending (gastar mais do que), como a sustentar um Estado de bem-estar cuja existência tivera de ser concedida para que o sistema capitalista não desmoronasse moralmente, perante uma proposta socialmente mais justa apresentada pelo outro lado do Muro de Berlim. Esta dinâmica social mais vasta, em que se inseriu a luta das mulheres, alimentou o poder da classe trabalhadora, deu-lhe amplitude e conduziu a uma conquista de direitos sem precedentes, com o consequente retorno em matéria de redistribuição de riqueza.

No final desse período, nomeadamente a partir dos anos sessenta e sobretudo nas décadas seguintes, a Escola de Chicago começou a praticar o que mais tarde se viria a designar por neoliberalismo, depois consagrado no conhecido «Consenso de Washington», expressão criada por John Williamson em 1989. A proposta, numa fase decadente da URSS, em que esta já se encontrava em retracção e os EUA encontravam na República Popular da China de Mao Tsé Tung um aliado ocasional, conduziu, sucessivamente, à brutal desregulação do mundo do trabalho e a um ataque sem precedentes aos direitos sociais, antes pilares da “democracia social liberal”. As mulheres, os homens e as famílias começaram, primeiro, a deixar de ter tempo para a vida familiar; em seguida, as mulheres foram obrigadas a adiar a maternidade para não comprometer a carreira, muitas vezes num adiamento sem fim. Mais tarde, com a queda dos salários e a degradação dos serviços públicos, ter filhos passou a ser um luxo a que cada vez menos pessoas se podiam dar ao direito.

Nesta fase, convém explicar por que razão os serviços públicos se desagregaram. A proposta neoliberal assentava em contas públicas supostamente certas, baixos impostos para as «empresas», com a justificação avançada de se fomentar o trickle down (infiltração dos ricos para os pobres), impostos altos sobre o trabalho, comodificação de setores fundamentais, como a saúde, a educação, a habitação e a segurança social, e privatização em massa de setores antes considerados estratégicos. A federalização e degradação das soberanias foram instrumentos da lógica privatizadora, veículo de transmissão e entrada de capitais estrangeiros, em “livre circulação”, que se apoderaram dos monopólios estatais. Países como Portugal soçobraram de tal forma que privatizaram quase 100% do sector empresarial público. Nada escapou à ânsia dos gaviões de Wall Street.

Nessa altura, como forma de marinar bem o processo e torná-lo mais lógico, tinham sido introduzidos termos como «anarcocapitalismo», «Estado mínimo» e «Estado austeritário». O que antes fundamentara a necessidade de assegurar a existência do Estado deixava de ser necessário, perante a ideia de que este era pernicioso, demasiado grande e que a riqueza deveria estar do lado «de quem a cria», ou seja, das «empresas». Nunca dos trabalhadores. Tudo o que falhava economicamente era tido, pela ideologia dominante, como culpa das resistências legais e sociais à liberalização total. Convém dizer que esta «ideologia dominante» se apresentava como não sendo «ideologia» mas “técnica».

O fim desse salário invisível, pago através de benefícios e direitos sociais, serviços públicos gratuitos ou muito acessíveis, energia, comunicações e logística a preços comportáveis, associado à queda da natalidade e à acumulação sem precedentes dos activos, em cada vez menos mãos, conduziu a uma estagnação económica sem fim, dramática para uma «economia» que se media — e que arcaico isso era! — em PIB: produto interno bruto! Os mais ricos acumulavam como nunca, faziam os recursos sair para os paraísos fiscais e activos financeiros improdutivos, mas tudo isso era PIB. Quanto mais PIB, piores eram as condições de vida da maioria. O que se media não eram as variáveis da civilização, como o crescimento produtivo, o acesso a infraestruturas, a circulação de mercadorias, energia produzida e eficiência energética, acesso a serviços fundamentais, poder de compra, mas sim a quantidade de riqueza como um todo. O desperdício fazia crescer o PIB! A guerra fazia crescer o PIB! Tornou-se demasiado fácil mentir e apresentar como crescimento o que era destrutivo e improdutivo.

Perante a falta de saídas, a alegada escassez de mão de obra fazia pressão para o aumento dos salários; ao mesmo tempo, uma estagflação sem fim levava o patronato a exigir a entrada de imigrantes, a governos cada vez mais dóceis e habitados por funcionários da «C-suite» empresarial — governos pelo patronato financiados e por ele promovidos na comunicação dita «social». Foi a época em que as maiores associações patronais exigiam portas abertas. Mão de obra barata, para actividades de baixo valor acrescentado, mas muito lucrativas e com o prémio de pressionar, para baixo, os salários dos trabalhadores locais.

A entrada de imigrantes correspondia não apenas a um acréscimo de PIB — tanto pelo que produziriam como pelo que consumiriam —, mas também à repetição, sessenta anos depois, do efeito que tivera a emancipação da mulher durante os tais trinta anos de ouro. Realidade a que se associou ainda a guerra da Ucrânia, motor de venda de armas, bem como a bolha da Inteligência Artificial.

Ao longo de décadas, entraram muitos milhões de trabalhadores migrantes no Ocidente. Os EUA passaram de cerca de 249 milhões de habitantes, em 1990, para aproximadamente 342 milhões, em 2025. Em França, a população da França metropolitana passou de cerca de 50 milhões, em 1968, para mais de 66 milhões, em 2023; no conjunto do país, estimava-se em 69,1 milhões no início de 2026. A Alemanha, que, já reunificada, tinha 79,8 milhões de habitantes em 1990, ultrapassara os 84 milhões em 2023. Portugal, que durante décadas rondara os dez milhões, atingiu 11,4 milhões em 2025.

Entre outras razões, também para melhor ajudar esse PIB vivo, dinâmico e em movimento a entrar, potências ocidentais e organizações internacionais envolveram-se, directa ou indirectamente, em guerras e intervenções que desestabilizaram vários países. A NATO assumiu o comando das operações militares na Líbia em 2011; no Iraque, a invasão de 2003 fora conduzida por uma coligação liderada pelos EUA, mas não pela NATO enquanto organização. A Síria afundara-se numa guerra com múltiplas intervenções externas, fomentada pelos EUA; o Irão e o Líbano enfrentavam outros conflitos e crises, em que EUA e ocidente também foram actores principais, não raramente sob a máscara de um instrumento chamado Israel.

Tais processos conduziram à destruição de países soberanistas que recebiam migrantes. Países que, em diferentes graus e períodos, tinham conhecido regimes laicos e fases de prosperidade económica viram-se destruídos pela máquina imperialista. As justificações existiram sempre, mas hoje sabemos que eram tão falsas quanto insatisfatórias. O resultado foi o que se viu: imensas multidões desesperadas à procura de atravessar o Mediterrâneo, a qualquer custo. Dos campos de «detenção» na Turquia, às instalações de triagem da Grécia ou Itália, a Europa foi “invadida” pelo desespero económico, produto da sua incúria, egoísmo, criminosa irresponsabilidade e imbecil arrogância, responsáveis pela provocação de um êxodo inverso ao da Segunda Guerra Mundial. Os europeus que haviam migrado para muitas dessas paragens, quando se tratou de fugir desesperadamente ao terror nazifascista, agora eram eles próprios quem não queria entre si, muitos dos que os haviam albergado antes. A história neofascista na Europa é também uma história de ingratidão histórica sem fim.

Milhões de muçulmanos, hindus e budistas entraram pelo Ocidente adentro, pela Europa adentro, chocando comunidades, desafiando costumes, impondo naturalmente as suas culturas e valores. Não porque o quisessem, mas porque a sua entrada em números tão grandes acabaria por conduzir a tal. Poder-se-ia perguntar, por que razão estes Estados não se haviam preparado para tal processo, já que pretendiam encetá-lo. Uma entrada que poderia enriquecer culturalmente um continente em morte lenta, foi vista como uma espécie de parasítica invasão.

Os países ocidentais não se prepararam precisamente pelas mesmas razões que conduziram à destruição do ponto de equilíbrio anterior. O PIB entrou, mas o lucro da sua exploração ficou em pouquíssimas mãos. Foi o tempo em que as plataformas do Vale do Silício exploraram migrantes como escravos e, com essa exploração, atomizaram os direitos laborais ainda existentes. Condutores de Uber, entregadores de comida, trabalhadores na apanha da fruta, turismo de massas: não houve actividade de baixo valor acrescentado, baixa qualificação e baixo salário em que não fossem empregues. Esse PIB foi acumulado e concentrado, mas para a comunidade autóctone ficou apenas o desafio da integração.

Talvez esse tenha sido um dos problemas. Não se podia esperar muito crescimento de actividades com um perfil tão pobre. Mas, se os governos, nesse momento ainda mais dóceis, isentaram de impostos e subsidiaram avultadamente aqueles que exploraram essa mão de obra, sem nada exigir em troca, esses mesmos governos, demitidos da responsabilidade da coesão social, deixaram às sociedades os impactos, os custos e os encargos. Tal como se haviam divorciado em relação às necessidades dos trabalhadores locais, por maioria de razão também se divorciaram em relação às necessidades dos migrantes e do investimento necessário com a sua integração saudável. Uns e outros, trabalhadores locais e migrantes, foram carne para canhão de um modelo económico cada vez mais selvagem e voraz.

Transportes públicos lotados, serviços públicos exauridos, sociedades espartilhadas: o choque para o comum dos trabalhadores foi brutal. Até as casas faltaram nessa altura! Subitamente transformadas em mercadoria e em activos financeiros, vendê-las e arrendá-las tornava-se, não poucas vezes, menos vantajoso, pois a sua entrada no mercado desvalorizava — pelo aumento da oferta — activos sobre os quais se estruturavam swaps, derivados, futuros, ETF, obrigações, etc. Mais pessoas, menos casas. Mais procura, mais casas vazias, menos casas no mercado, preços mais elevados, e mais casas em cada vez menos mãos. Garantias constitucionais que deveriam ter sido redimensionadas foram vítimas da ideologia dominante do estado mínimo.

As guerras do império e a financeirização da energia provocaram preços elevadíssimos, que desembocaram num aumento brutal do custo de vida: inflação, estagflação, deflação, não houve nada que não atacasse. Tudo isto enquanto assistíamos aos Estados serem governados por governos que viviam alheados, abstraídos das dores e dos lamentos da população.

Não foi preciso muito para que o imigrante passasse a ser visto como invasor. Políticos comprometidos pelo apoio e pela cumplicidade com as políticas até aí aplicadas, para se divorciarem das suas responsabilidades e lucrarem politicamente com a revolta, elegeram o trabalhador estrangeiro como culpado.

Não valeu a pena dizer que esse trabalhador não vinha porque queria, que o seu país estava destruído pelas guerras e neocolonialismo provocados pelo Ocidente, que esse migrante ficaria lá se pudesse, que vinha em desespero, que o tinham trazido e lhe tinham facilitado a entrada para o poderem explorar, para que os nossos salários fossem contidos e desvalorizados, e para que patrões sem escrúpulos e políticos corruptos pudessem lucrar com tudo isso. De nada valeu dizê-lo, demonstrá-lo e prová-lo. Estava escrito na parede, como estivera escrito na parede alemã dos anos trinta do século XX: os judeus não eram os culpados.

O bode expiatório estava arranjado e ainda trazia a vantagem de fracturar a classe trabalhadora.

Não tardaram as acusações de que apenas queriam os subsídios. Como se todos os trabalhadores não quisessem subsídios que aliviassem a sua miséria. Como se fosse crime um trabalhador querer um subsídio para o qual havia pago com impostos, no trabalho ou como consumidor. Como se uma família, com o pai e a mãe a trabalhar, não merecesse alívio pela luta árdua do dia a dia, por uma vida de trabalho prometida, e sem Eldorado no final.

As acusações não pararam! Não valeu a pena dizer que os refugiados — apresentados como os únicos que recebiam sem ter de trabalhar — eram residuais; que mesmo as famílias numerosas, cujos filhos não trabalhavam e recebiam subsídios da segurança social, estavam a preservar PIB futuro e mão de obra barata; que os maiores subsídios, isenções, prémios e perdões, aos biliões, eram dados ao capital, às «empresas», empresas que tantas vezes não pagavam impostos. Dessas, ninguém falava.

A tensão foi subindo e passou para quem antes tinha uma vida digna e a via agora ameaçada. Insensíveis, os governos permaneceram surdos, cegos e mudos. Não reforçaram os serviços públicos, não aumentaram os salários, não melhoraram as pensões, não integraram os migrantes como estes mereciam ser integrados enquanto seres humanos, especialmente depois de terem sido deslocados. Fizeram como haviam feito em meados do século XX. Fuga em frente. As massas humanas tornaram-se tão desumanas como só os seres humanos podem ser.

Havia que rechaçar as culpas. Foi fácil colocar os brancos que recebiam apoios ao arrendamento, ao desemprego e à doença, reformas, pensões, complementos e outras formas de assistencialismo a culpar os outros por também os receberem. Havia uma sensação de que não chegava para todos e ninguém avançava com melhor explicação que «o dinheiro não chegava». Esse ódio cresceu e deu jeito a governos cada vez mais impotentes para afrontar os interesses que os tinham eleito. Umas notícias sobre o fim da Segurança Social, a inevitabilidade da austeridade e o fim dos direitos incendiaram tudo. O que antes chegava para todos agora não chegava para ninguém, e a única explicação lógica que passava, dia e noite, nos órgãos da ideologia dominante era que os culpados eram «os migrantes».

Nenhum cidadão médio dessa altura saberia dizer por que razão o dinheiro já não chegava. A economia crescia, a produtividade crescia, a riqueza coletiva aumentava, mas para onde ia o dinheiro, então? Só poderia ser para os «migrantes». Pouco adiantou explicar que, segundo estimativas da Oxfam, desde 2015 os 1% mais ricos detinham mais riqueza do que os 99% e que, em 2017, oito homens possuíam tanto como a metade mais pobre da humanidade. Um minibus chegava, afinal, para transportar os detentores dessa riqueza concentrada. Tudo isto acontecia ao ritmo de menos impostos pagos, mais subsídios e benefícios fiscais recebidos, menos direitos dos trabalhadores, salários mais baixos e mais horas de trabalho. Empresas antes públicas, privatizadas e pagas com o seu próprio dinheiro davam agora lucros bilionários aos 1%, retirando ao Estado recursos fundamentais. Mas a culpa era dos «migrantes».

O inimigo estava escolhido e dava muito jeito a uma classe que enriquecia e concentrava cada vez mais. Os «migrantes» tinham dado muito jeito para concentrar ainda mais riqueza; agora, davam jeito como bodes expiatórios. Tal como nos idos 30’s do século XX, em que o grande capital europeu não se quis ver afectado pela crise económica pós 1ª grande guerra e pela primeira vaga de descolonização, também nos 30’s do século XXI, o grande capital de então, especialmente o Francês, perdido que estava o sorvedouro neocolonial do Sahel, também não quis dividir com o povo os resultados da crise do período pré-guerra mundial e resultante do esgotamento do modelo económico neoliberal. Perdida a indústria, degradada a hegemonia do dólar, o Ocidente acabara de perder, por culpa própria, o seu toque de Midas.

Perante as dificuldades, a falta de uma ideologia resistente, forte — resultado de vinte anos de cinzentismo do «não há esquerda nem direita», «as ideologias acabaram», «o marxismo é coisa do passado» e «a luta de classes nunca existiu» — deixou a população trabalhadora ideologicamente desarmada, presa fácil de uma ideologia dominante disfarçada de «pragmatismo», «neutralidade», «isenção» e «moderação». Os avisos dos sábios de outrora quanto ao perigo do discurso que se apresentava como isento de ideologia, a ninguém recordaram.

O que não existia mesmo, na sociedade, era «moderação». Hordas de trabalhadores e jovens estudantes, em protesto por direitos, entrelaçavam-se com redes sociais inflamadas de ódio pelos «migrantes» e pelos contestatários. Governos assustados foram incendiando ainda mais os ânimos, como na metáfora das formigas: colocadas num frasco, sem alimento, as formigas morrem, mas não se matam; abanado o frasco e atiradas umas contra as outras, começam a matar-se. Nem nos parlamentos, nem na comunicação dita «social», nem nos governos se encontrava a tal «moderação», a tal «contenção». Toda a decência parecia ter desaparecido.

Os mais «moderados», os que tentavam compreender e explicar a situação, eram acusados de serem cúmplices dos «invasores». A sua luta, as suas denúncias e as suas reivindicações pelo civismo, pela dignidade e pela liberdade para todos conduziram à sua ilegalização e prisão. As manifestações passaram a ser reprimidas e os seus participantes, perseguidos.

Cem anos depois, a humanidade voltou a matar indiscriminadamente outros seres humanos etnicamente diferentes. Desses, passou aos «politicamente diferentes» e, destes, ainda, aos que não podiam trabalhar. Milhões foram parar a campos de concentração; outros tantos foram atirados ao mar e bombardeados para que fugissem. Um horror sem fim que vitimou mulheres, crianças e idosos, sem qualquer dó nem piedade. Quanto maior o ódio, mais cresciam os partidos que o promoviam, num transe homicida coletivo sem fim.

Vinte anos antes desses acontecimentos, muitos tinham-se questionado sobre como fora possível aos nazis matarem tantos judeus, ciganos, comunistas, eslavos, negros e pessoas com deficiência. Trinta anos mais tarde, já muito poucos queriam saber. Hoje, em 2100, voltamos aqui a questionar-nos: como foi possível?

Fontes

  1. Conselho de Segurança Nacional dos EUA, National Security Study Memorandum 200: Implications of Worldwide Population Growth for U.S. Security and Overseas Interests, 10 de dezembro de 1974; Departamento de Estado dos EUA, Foreign Relations of the United States, 1969–1976, Population Policy
  2. John Williamson, The Washington Consensus as Policy Prescription for Development, Peterson Institute for International Economics, conferência proferida no Banco Mundial em 13 de janeiro de 2004
  3. U.S. Census Bureau, Historical Population Change Data (1910–2020) e U.S. Population Growth Slows Due to Historic Decline in Net International Migration, 27 de janeiro de 2026
  4. Institut National de la Statistique et des Études Économiques (INSEE), Full set of local data — France métropolitaine, e Demographic Report 2025, 13 de janeiro de 2026
  5. Statistisches Bundesamt (Destatis), A Changing Population — Assumptions and Results of the 14th Coordinated Population Projection, e Population by Age Groups
  6. Instituto Nacional de Estatística (INE), Estimativas de População Residente, 22 de junho de 2026.
  7. NATO, NATO Operations and Missions: NATO and Libya (February–October 2011) e NATO Training Mission Iraq (2004–2011).
  8. Oxfam, An Economy for the 1%, 2016, e Just 8 Men Own Same Wealth as Half the World, 16 de janeiro de 2017.
  9. United States Holocaust Memorial Museum, Holocaust Encyclopedia: Victims of the Nazi Era — Nazi Racial Ideology, 20 de setembro de 2024.

Fonte aqui

O Triunfo do Porco de Intervenção

(Por A Crónica que Veio do Frio, in Facebook, 01/11/2026, Revisão da Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Em Agosto de 1974, o Governo Provisório assinou um decreto para cumprir o Programa do MFA. O Decreto-Lei 406/74 regulava o direito de reunião e de manifestação. Cinquenta e dois anos depois, a PSP usa-o para varrer manifestantes de praças à bastonada.

O decreto ordena acabar as reuniões em público à 00h30. Explicado por um constitucionalista que a ideia é proteger o descanso dos outros cidadãos. O que tem piada. A cidade que dorme sem se queixar com o barulho dos tuk-tuks, obras e concertos de Verão descobriu repentinamente uma sensibilidade acústica ao nível de um convento de clausura.

Existe também, do outro lado, o artigo 45.º da Constituição, que garante a manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de autorização. Entre um decreto do Governo Provisório e a Constituição, o Governo e a PSP escolheram o decret. Em Madrid, onde a acampada durou vários dias, o Tribunal Constitucional deu razão aos manifestantes e proibiu o desmantelamento. Cá, o procurador-geral desafiou o Parlamento a rever o diploma e recusou levá-lo ao Tribunal Constitucional. O presidente da Assembleia diz que cabe ao Tribunal Constitucional dizer se a lei é constitucional. O decreto anda de mão em mão, Como um miúdo a berrar numa viagem de metro em hora de ponta . Ninguém o quer, ninguém o larga.

Na rua, o debate foi muito menos jurídico.

No domingo, 25 de Outubro, a polícia dispersou os manifestantes à bastonada e com cães, deixando pelo menos 33 feridos. Voltaram aos mesmos procedimentos na noite passada.

Sábado à tarde, milhares de pessoas marcharam do Largo de Camões ao Rossio. A PSP avisou que as tendas tinham que ser desmontadas e retiradas até à meia-noite e meia; a Acampada de Lisboa retaliou respondendo que a ideia era acordar no Rossio e que estariam dispostos a resistir. Cada lado apresentou o seu horário, e o relógio, que não vota, deu razão aos que tinham mais armas. Por volta das 4h30, o Corpo de Intervenção avançou em simultâneo em Lisboa e no Porto. Na capital, os manifestantes formaram um cordão humano para atrasar a polícia, que o atravessou à bastonada. No Porto, a Praça D. João I foi esvaziada e carrinhas da Câmara trataram da limpeza.

A polícia fala em treze agentes feridos e treze manifestantes detidos, seis em Lisboa e sete no Porto, e o porta-voz, subintendente Sérgio Soares, garante que a actuação foi proporcional. Proporcional ao quê, não disse. A organização do Porto conta 38 feridos, e a Acampada de Lisboa fala em mais de 30 feridos, dez deles hospitalizados. Dois boletins, duas tabuadas.

No Porto, a PSP confirmou ainda a presença de quatro agentes à paisana, e que um deles sacou de uma arma de fogo, descrita como meio de dissuasão perante a agressão de manifestantes. Fica registrado: bastão para a praça, pistola para a conversa. Entre os detidos da Invicta, quatro mulheres e três homens, contam-se duas Mães pela Acampada. O Estado ficou, finalmente, protegido das mães, grupo que a história sempre mostrou ser o mais perigoso para os regimes.

O corpo de intervenção agiu sem identificação, e no Porto os capacetes azuis não tinham número. Um repórter de imagem da CMTV levou uma bastonada e diz que estava completamente identificado e que a polícia sabia que ele não era manifestante. A PSP não discrimina: bate na imprensa com a mesma isenção com que bate no povo. A Provedoria de Justiça mandou observadores para o Rossio, que é o que um Estado faz quando começa a desconfiar de si próprio. Segundo o movimento, é a terceira intervenção violenta contra a Acampada de Lisboa em menos de três semanas.

Um agente sem número, de bastão em punho, a dispersar quem traz um cartaz. É a ordem pública, na versão que só convence quem nunca esteve do lado errado dela.

Luís Neves garantiu que a PSP não excederia os poderes que a lei lhe dá e que o direito à manifestação é respeitado por todos. Depois vieram os cães, os bastões e os capacetes anónimos, o que prova que os poderes da PSP são generosos: cabe lá tudo, menos um número. Informou ainda o Parlamento de que esteve sempre em articulação com a PSP. Estatuto curioso: presente em todas as fases, responsável por nenhuma. Espectador de camarote de um espectáculo que não tinha encenador. Repete firmemente que a lei é para cumprir, e percebe-se: é uma lei de 1974, a Constituição é de depois, e o ministro, como bom funcionário, cumpre a mais antiga.

E o primeiro-ministro? Luís Montenegro tem a coragem de um cao debaixo do sofá em noite de fogo de artifício. Há quem precise urgentemente de aprender Constituição, e a escola é o sítio indicado. Depois disse que esteve a trabalhar, e acredito: gerir cinquenta e cinco imóveis dá trabalho a tempo inteiro, e ainda fundou uma empresa de consultoria e imobiliário. Falta explicar porque nenhum desses trabalhos incluía abrir a boca sobre as bastonadas em duas cidades.

Não escrevo «fascismo» de ânimo leve, escrevo como aviso. A democracia raramente morre de tanques; morre de um decreto desenterrado, de um polícia sem número, de um ministro que repete que a lei é para cumprir e de um primeiro-ministro que desaparece para visitar escolas. É assim que o ensaio começa. Ainda não é a estreia, mas já se ouvem as pancadas de Molière .

Quem aplaude é o Chega, e aplaude duas vezes, com a mesma mão. Ventura gabou a paciência, a proporcionalidade e a educação da PSP. Educação, de facto: ensinaram anatomia e primeiros socorros a dezenas de pessoas, em directo. Apelidou de «vândalos e provocadores» os manifestantes e culpou arruaceiros da extrema-esquerda. Garantiu que o Estado não se podia acobardar e, nos entretantos, desafiou o Presidente da República a aplaudir publicamente a polícia, pois nada completa uma bastonada como uma salva de palmas institucional.

Falemos então de casas.

Os 220 membros do Governo e deputados do PSD, Chega, IL e CDS-PP possuem, em conjunto, 1.039 imóveis. Montenegro é dono de 55 imóveis e Paulo Rangel de 18. A lei de 1974 acaba com as reuniões à meia-noite e meia, mas nenhuma lei impede quem tem imóveis de legislar sobre arrendamento. Uma economista avisa que os benefícios correm o risco de ficar nos senhorios, sem chegar aos inquilinos. Até a disputa entre partidos tem um toque de comédia de condomínio: o PSD mandou distribuir os registos de interesses de deputados do Chega com imobiliárias, senhorios a denunciarem-se uns aos outros como vizinhos que se queixam do barulho. A casa, parece, está sempre bem tratada. O inquilino é que anda lá fora, de tenda, a ser desmontada com bastonadas às 4h30.

O direito à habitação não é um favor, está no artigo 65.º da Constituição, no mesmo livro do artigo 45.º, o que dá aos dirigentes uma única dificuldade: terem de consultar o livro. Os direitos básicos têm um defeito em comum: ficam incómodos assim que alguém os reclama em voz alta, depois da meia-noite e meia.