“É patético acreditar no conto de fadas do derrube do regime iraniano para instaurar uma democracia”.

(Viriato Soromenho Marques, entrevista à CNN Portugal, 02/03/2026)


ENTREVISTA || O que está a acontecer no Irão não anuncia uma abertura política trazida de fora, diz Viriato Para Soromenho-Marques, mas antes o risco de um país empurrado para o caos, para a fragmentação e para uma guerra de consequências incalculáveis. “A mudança pretendida por Israel e pelos EUA consiste na destruição do Irão como Estado funcional.” Nesta entrevista, o filósofo argumenta que é Israel que domina os EUA e não o inverso, mas independentemente de quem lidera quem: “O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia”.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

No Irão, o presente chega sempre carregado de passado. Ali Khamenei, líder supremo desde 1989, morreu este sábado num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao complexo onde se encontrava em Teerão, depois do colapso de novas negociações sobre o programa nuclear iraniano. A morte abre um período de transição incerto, num sistema em que o líder supremo concentra a última palavra sobre o Estado, as Forças Armadas e o aparelho judicial, e em que um conselho interino deverá segurar o poder até ser escolhido um sucessor.

Mas o Irão raramente cabe apenas na urgência do dia. A memória do derrube de Mohammed Mossadegh, em 1953, num golpe apoiado por Londres e Washington, e a revolução de 1979 que instituiu a República Islâmica continuam a atravessar tudo: o modo como o país se pensa, o modo como olha para o Ocidente, o modo como reage quando a pressão externa regressa com linguagem de salvação. É nesse fio longo que Viriato Soromenho-Marques lê a ofensiva atual: não como atalho para uma democratização, mas como mais um capítulo de uma história de violência, tutela e disputa pela soberania.

Filósofo e professor catedrático da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques descreve uma sociedade “muito complexa e sofisticada”, com elevada capacidade tecnocientífica, que coabita com o regime sem lhe entregar “nem particular simpatia, nem um apoio incondicional”. Em entrevista à CNN Portugal, rejeita a ideia de uma transformação imposta a partir do exterior, acusa o “paternalismo democrático de Washington” de prolongar uma velha gramática imperial e deixa um aviso: destruir um Estado funcional não é libertar um povo. É abrir espaço a mais ruína, mais medo e mais arbitrariedade.

Quando Washington e Telavive falam em “mudança de regime”, de que falam exatamente no caso iraniano: da queda de um homem, o aiatola Khamenei; da queda do seu círculo dirigente; da desmontagem de uma arquitetura de poder religioso, militar, económico e simbólico que levou décadas a consolidar-se? Pode mesmo haver uma mudança de regime?

Para começar o nosso diálogo, gostaria de assinalar a gravidade do momento que estamos a viver. Este ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos, com o que me parece ser a liderança de Telavive sobre Washington, tem todos os ingredientes para, no menor dos casos, atirar o nosso mundo para um turbilhão económico — imaginemos uma longa privação do mercado mundial relativamente ao fluxo de petróleo que sai pelo estreito de Ormuz, ou pior ainda — ou para uma guerra generalizada, se não existir um recuo dos agressores. Neste terceiro dia de guerra já é possível ver o impacto do conflito sobre as bolsas e a subida vertiginosa do preço dos combustíveis fósseis no mercado mundial, em particular o petróleo e o gás natural.

A mudança pretendida por Israel e pelos Estados Unidos consiste na destruição do Irão como Estado funcional. É patético acreditar no conto de fadas do derrube do regime nascido da Revolução de 1979 para instaurar uma democracia. Como muito bem escreveu o jornalista norte-americano Stephen Kinzer — veja-se o seu livro de 2006 “Derrube: o século dos Estados Unidos a mudar regimes, do Havai ao Iraque” —, veterano premiado em estudos sobre relações internacionais, o Irão já teve uma democracia representativa constitucional, com um primeiro-ministro culto, honesto e amado pelo povo, que teve a coragem de devolver os recursos petrolíferos persas à sua nação através da nacionalização da Anglo-Persian Oil Company [APOC, hoje BP], que desde o início do século XX sugava essa riqueza para o império britânico. 

Esse primeiro-ministro foi Mohammed Mossadegh.

Que governou entre 1951 e 1953. Foi derrubado por um golpe organizado pelo MI6 britânico — preparado pelo governo trabalhista de Clement Attlee, mas realizado no tempo do último governo de Winston Churchill – e pela CIA, no tempo do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower. Como? Usando os instrumentos do costume: sanções económicas; suborno de altos funcionários e militares; organização de grupos de civis armados, muitos deles delinquentes comuns, e, sobretudo, oferecendo ao Xá Reza Pahlavi poderes absolutos, em violação clara da Constituição então vigente.

E a democracia no Irão “desapareceria” — defendem muitos politólogos. Porque a seguir ao regime autoritário dos Pahlavi emergiu, em 1979, na Revolução de 1979, a República Islâmica — liderada pelos aiatolas.

Os Estados Unidos destruíram a única democracia liberal iraniana.

Voltando ao princípio — ou ao presente. A morte de Ali Khamenei abre automaticamente uma sucessão ou abre, antes de mais, uma luta pelo controlo da sucessão — entre o clero, a Guarda Revolucionária, o aparelho de segurança e as elites que vivem à sombra do regime?

Teerão já revelou o caminho da sucessão. O que importa é perceber como os pormenores do assassínio de Khamenei são horríveis. Parece que terá saído sexta-feira do seu abrigo para falar com os negociadores sobre as promessas das conversações com os Estados Unidos. Apesar da armadilha montada por Washington e Telaviv aos negociadores iranianos antes da Guerra dos 12 Dias, em junho passado, Khamenei continuou a acreditar na bondade de um acordo com os Estados Unidos que trocasse a renúncia ao nuclear pelo fim das sanções e relações pacíficas com Washington. Terá sido isto que o fez perder a vida. . Importa salientar, também, que este ataque mortífero foi premeditado com antecedência, e a acreditar na sombría alegria manifestada por Trump na sua mais recente mensagem, terá ceifado a vida a mais de quarenta líderes religiosos e militares iranianos. Nessa mesma intervenção de Trump, ele falava em retomar as negociações. É inqualificável pedir diálogo depois de ter trucidado a coluna vertebral da confiança que lhe serve de base

O terrorismo de Estado israelita e norte-americano é de uma sinistra eficácia. Contudo, só quem não conhece o valor do martírio na cultura xiita é que não percebe que este abominável assassínio de um chefe religioso não irá unir apenas o xiismo. 

Então?

O mundo sunita pensará mais do que duas vezes no modo desprezível como o Ocidente trata o mundo islâmico. Estou à espera de uma declaração condenatória deste ato terrorista por parte do Papa Leão XIV, líder de mais de mil e quatrocentos milhões de católicos. Espero que o ecumenismo não tenha morrido com o Papa Francisco.

Mesmo entre iranianos que “odeiam” a República Islâmica, pode haver aceitação de uma mudança trazida por bombardeiros americanos e israelitas? Ou a origem externa da violência contamina à partida qualquer futuro político que saia daqui?

Importa recordar que esta guerra está a ser preparada há muito tempo, em particular depois do fracasso da Guerra dos 12 Dias, em junho de 2025. Os meios de comunicação social aqui no Ocidente tendem a apresentar a morte violenta de milhares de manifestantes nas ruas de Teerão e outras cidades — mais de 3000 vidas perdidas, cujos nomes foram divulgados pelo governo de Teerão  — nos confrontos de 6 a 10 de janeiro, que aparentavam ser manifestações pacíficas iniciadas em 28 de dezembro de 2025, num surto revolucionário popular contra o regime.

E não o foi? Uma tentativa de revolução? 

Tudo indica que, à semelhança do ocorrido em agosto de 1953 em Teerão [quando Mossadegh foi derrubado num golpe apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido], e noutros países, como em fevereiro de 2014, na morte de quase 100 pessoas na praça Maidan, em Kiev, houve a presença de agentes armados externos, neste caso ligados à Mossad e a agências dos Estados Unidos, incluindo o apoio da Starlink, de Elon Musk, o que foi fundamental para transformar um protesto pacífico contra a perda do poder de compra, devido sobretudo às sanções norte-americanas, num massacre. 

O que é incrível é a existência de uma narrativa condenatória do regime já estar pronta antes mesmo de os acontecimentos sangrentos estarem consumados. A repetição de 1953 é tão grosseira que até foram buscar Reza Pahlavi, o filho já idoso do antigo Xá, como se daí viesse alguma melhoria para o povo iraniano.

A operação militar, incompetente e mal-organizada dos Estados Unidos, pode matar muitos milhares de pessoas, sobretudo se os israelitas usarem o método de Gaza, como já o fizeram no primeiro dia matando cerca de 150 estudantes numa escola primária feminina em Minab, que é o extermínio sem contemplações de civis. Mas, internamente, acabará por unir a resistência em torno do regime.

Quando Donald Trump justifica a ofensiva com a ameaça nuclear e com a defesa da segurança americana, estamos perante um perigo iminente e demonstrável ou perante uma formulação política que mistura factos, perceções e oportunidade estratégica? A Agência Internacional de Energia Atómica vinha reportando enriquecimento de urânio até 60%: isso, para si, aponta para uma arma em preparação, para uma lógica de dissuasão ou para uma moeda de negociação levada ao limite?

Horas antes do início do ataque ao Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Sultanato de Omã, Badr al-Busaudi, explicou, com visível satisfação, perante as câmaras da Al Jazeera, os pormenores, considerados positivos por iranianos e americanos, atingidos nas negociações nesse dia e que deviam prosseguir esta  segunda-feira. 

No essencial, Teerão iria renunciar à produção de armas nucleares, neutralizando o urânio enriquecido que já tinha em seu poder, recusando-se também a manter reservas futuras. Ficaria apenas com as instalações nucleares para fins civis, nomeadamente para usos médicos. 

O que é que isso significava? 

Isso significava que o Irão respondia positivamente à única exigência de Trump no seu recente discurso sobre o Estado da Nação, onde pedia ao Irão que nunca produzisse armas nucleares. Trump não falou nos mísseis convencionais, apenas nos nucleares. 

Imagino que este avanço nas negociações precipitou a agressão de Trump e Netanyahu. Na verdade, as negociações foram um pretexto para dar tempo à mobilização de forças e, pelos vistos, um isco para fazer Khameni sair do seu abrigo, para ser imolado na sua própria credulidade. 

Uma palavra, ainda, sobre o diretor da AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica], Rafael Grossi: o seu comportamento tanto no dossiê do Irão como no caso da central de Zaporizhzhia, na Ucrânia, mostram-no mais interessado em ser o sucessor de António Guterres nas Nações Unidas, com apoio de Washington, do que na busca da verdade objetiva, como é seu dever na liderança da AIEA.

Mas quero voltar a Teerão. Fala-se muito do regime como se fosse um bloco único. Mas o que é hoje, na prática, o coração do poder iraniano: o princípio religioso da República Islâmica, a máquina coerciva da Guarda Revolucionária ou a fusão entre ideologia, negócios, repressão e sobrevivência?

A sociedade iraniana é muito complexa e sofisticada. O grau de instrução da população, incluindo a feminina, é muito elevado. A relação com o Ocidente, apesar de todos os motivos de queixa, está longe de ser hostil, como qualquer turista europeu disso tem experiência como turista. Estudos de opinão revelam que até os Estados Unidos são mais populares no Irão do que, por exemplo, em França. Os autores ocidentais, modernos e clássicos, são apreciados. A cinematografia iraniana é uma das melhores do mundo. Ao contrário do mundo árabe, que se ressentiu asperamente contra as brutalidades do imperialismo europeu e ocidental — da Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos —, os persas e os xiitas em geral têm uma aproximação crítica, mas mais moderada. Isso traduz-se no facto de as maiores organizações islâmicas que praticam ações terroristas serem sunitas, como é o caso da Al Qaeda ou do ISIS, e não xiitas.

Num país onde 17% da população com 25 anos ou mais já tem pelo menos uma licenciatura — ou equivalente — e onde há mais de 3,2 milhões de estudantes universitários, reduzir o Irão a um retrato de atraso é, no mínimo, “preguiçoso”?

Sim. A sua capacidade tecnocientífica faz inveja à maioria dos países europeus. Em 2024, um estudo do Australian Strategic Policy Institute indicava que o Irão estava entre os primeiros cinco países mais avançados em oito tecnologias, de entre as 64 mais críticas na atualidade. É uma sociedade que coabita com o regime, sem lhe dar nem particular simpatia, nem um apoio incondicional. Contudo, julgo que Washington e Telavive nunca podem ser “padrinhos democráticos” de um povo que querem lançar no caos e na miséria, como têm feito por todo o Médio Oriente.

O paternalismo democrático de Washington é hoje a versão mais hipócrita do argumentário neocolonial e imperialista. A “anomalia” iraniana de um regime teocrático apenas se explica pela ditadura sangrenta do Xá e pela continuada perseguição dos Estados Unidos a um país e um povo que querem preservar a sua soberania. Nos anos da ditadura do Xá, os clérigos foram os setores de resistência mais poupados à violência da repressão policial, e com uma capacidade de ecoar, transversalmente a toda a sociedade, uma memória de identidade cultural profunda. Lembremo-nos, também, como os Estados Unidos lançaram o Iraque de Saddam Hussein contra o Irão numa sangrenta guerra entre 1980 e 1988. Sem a pressão externa dos Estados Unidos, com o acesso aos seus recursos naturais, sem a ameaça do outro regime teocrático, que capturou a democracia israelita, o povo iraniano encontraria — encontrará? — o caminho interno e livre para reformar o seu sistema constitucional e político.

No fundo, quem quer o quê no Irão de amanhã? Os Estados Unidos querem neutralizar uma ameaça e redesenhar o equilíbrio regional. Isso é algo muito claro. Israel quer remover um inimigo estratégico. O que é também algo óbvio. Parte da oposição quer aproveitar a brecha — quando falamos de Reza Pahlavi, filho mais velho do último xá do Irão. Mas o que querem os iranianos comuns, depois de anos de sanções, medo, repressão e morte: reforma, rutura, vingança, ordem ou simplesmente voltar a ter um país habitável?

Vou responder isto. Os Estados Unidos querem continuar a manter o mais possível a sua hegemonia, usando o único argumento que lhes resta: a força bélica e a influência no sistema financeiro internacional. Ao lançar o Irão no caos, os Estados Unidos atingem, também, a China, que é um importantíssimo cliente do petróleo iraniano.

Por seu turno, Israel quer realizar a última etapa que falta de um projeto com 30 anos, uma nova estratégia desenhada a pedido de Netanyahu, na primeira vez que assumiu a liderança do governo de Telavive, em 1996. Esse documento, coordenado pelo neoconservador norte-americano Robert Perle, intitula-se “Uma rutura limpa: uma nova estratégia para proteger o reino”. 

Ao contrário da estratégia de pacificação com os palestinianos e de troca de “terra pela paz”, impedindo mais colonatos – que foi o caminho que levou ao assassínio de Isaac Rabin por um terrorista sionista em 1995 —, a nova estratégia propôs replicar com Israel no Médio Oriente aquilo que os Estados Unidos pretendiam à escala mundial: hegemonia unipolar exclusiva e sem rivais que a pudessem desafiar. 

O que é surpreendente é o modo como os Estados Unidos se identificaram com a causa de Israel, como é o caso agora, mesmo quando ela é contrária aos próprios interesses de Washington. Em 1996 foram identificados uma série de países a abater: Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Irão. Só falta mesmo o Irão.

Recomendo, para quem queira aprofundar a bizarra subordinação das elites políticas e mesmo económicas dos Estados Unidos aos interesses dos sionistas mais extremos em Israel, a leitura de um livro extremamente revelador da autoria de duas personalidades maiores do universo académico dos Estados Unidos, pela inteligência e independência: “O Lobby de Israel e a Política Externa dos EUA”, de 2007, da autoria de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt.

Mas regresso ao início da nossa conversa. O Irão está motivado para resistir, e tem os meios para isso. Neste terceiro dia da guerra, já foram atingidas 14 bases e instalações dos Estados Unidos e afetados 12 países e territórios, onde Teerão tem visado interesses americanos, diretos e indiretos. Os Estados Unidos podem decidir fazer uma guerra total ao Irão. Trump pode tentar usar a guerra, qual César embriagado, para enterrar o que sobra da democracia americana, cada vez mais infetada pelo cancro da plutocracia. Mas, nesse caso, o preço a pagar poderá ser a destruição da infraestrutura energética de todo o Médio Oriente. Não se trata apenas de fechar o Estreito de Ormuz — o que já foi feito. Trata-se de destruir materialmente todos os sistemas de exploração, produção, transporte e exportação de petróleo e gás natural, deixando o mundo privado durante meses ou até anos de mais de 20% da energia fóssil que continua a ser a alavanca maior que faz mover a economia mundial.

Muito bem.

E, já agora, deixo uma palavra final para expressar a minha profunda tristeza pelo colapso político, para não dizer ético, da União Europeia. Tenho desgosto em dizê-lo, mas parece que somos governados por vultos e sombras, quase indistintos entre si, tal a ausência de pensamento, para já não falar de carácter, que campeia. Esses vultos, em vez de condenarem o ataque, juntam-se aos lobos.

Contudo, essas sombras não produzem os poderosos uivos de predador, mas sim latidos suaves de obediência e submissão ao chefe da alcateia.

Fonte aqui

“O início de uma guerra mundial”

(Entrevista a Emmanuel Todd, in Resistir, 05/03/2026)


Aconteça o que acontecer no Irão, a derrota do Ocidente e da sua civilização é inevitável. Trump não consegue impedir a sua implosão, pelo contrário, está a acelerá-la. Os chineses e os russos armam os mulás, os americanos tiveram de reconhecer que um porta-aviões não era suficiente. E dois também não.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Weltwoche: Senhor Todd, a guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano. Em retrospetiva, há aspetos que avaliou mal?

Emmanuel Todd: Continuo a ter escrúpulos e dúvidas. A previsão estava correta:   o Ocidente perdeu esta guerra há muito tempo. Se os americanos a tivessem ganho, Joe Biden teria sido reeleito. Donald Trump é o presidente da derrota. Hoje, é preciso acrescentar que a consequência da derrota é o declínio do Ocidente. Podemos comparar esse colapso de uma civilização – a civilização ocidental – ao fim do comunismo e da União Soviética. Ainda é difícil ter uma ideia precisa de sua evolução. Seu sintoma mais espetacular é a perda da realidade.

Continuar a ler a entrevista completa aqui.

Ataque de Trump-Netanyahu ao Irão repete golpe traiçoeiro de Hitler contra URSS

(Por Atilio A. Boron in Diálogos do Sul, 04/03/2026)

– Donald Trump (cartoon): chrisinphilly5448 / Flickr
– Benjamin Netanyahu (cartoon): stillunusual / Flickr

Trump e Netanyahu são dois larápios que dispõem de um enorme arsenal de armas de todo tipo e que só não vão para a cadeia porque, há anos, travam guerras sem cessar.


Os dois “Estados canalhas” mais perigosos do mundo, Estados Unidos e Israel, lançaram um ataque surpresa contra alvos indiscriminados no Irão, tanto civis quanto militares. Em um ato de infame traição e desprezo pelas regras mais elementares da diplomacia, do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, a agressão ocorreu enquanto Washington afirmava que seu governo estava negociando com Teerão.

Essa transição para a violência armada, enquanto ainda vigorava um acordo prévio entre os dois países, tem muitos antecedentes na história do sistema internacional. O mais conhecido talvez seja a traiçoeira punhalada pelas costas desferida por Adolf Hitler contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), com a fulminante ruptura do Pacto Molotov-Von Ribbentrop e a súbita invasão da URSS na chamada Operação Barbarossa.

Trump e Netanyahu são dois larápios que dispõem de um enorme arsenal de armas de todo tipo e que só não vão para a cadeia porque, há anos, travam guerras sem cessar.

São poucos os dados que permitem avaliar o alcance da agressão sofrida pelo Irão. Tampouco se sabe muito sobre os danos infligidos pela resposta iraniana a diferentes cidades de Israel e às numerosas bases militares que os Estados Unidos mantêm espalhadas pelo Golfo Pérsico. O aiatolá Ali Hoseiní Khamenei, líder supremo do Irão desde 1989, morreu nos ataques. No sábado (28), um mortífero bombardeio a uma escola primária de meninas na cidade de Minab, situada no sul do país, matou 175 pessoas, entre crianças e funcionários. Esse ataque só pode ter sido realizado a partir de uma convicção profunda por parte da liderança israelense: a de que os iranianos são uma “raça inferior”, assim como os palestinos, e que podem — e devem — ser mortos sem qualquer escrúpulo. E que as crianças, desde muito cedo, seriam, sem exceção, terroristas e assassinas em potencial, com as quais não se deve ter nenhum tipo de consideração.

A justificativa para o ataque combinado de Estados Unidos e Israel seria impedir que o Irão tenha acesso à fabricação de um arsenal de bombas atômicas. Para Washington e Tel Aviv, a segurança regional só pode ser garantida pelo monopólio atômico que o Ocidente proporcionou a Israel. Trata-se de uma premissa absurda, que cria as condições ideais para a interminável explosão de guerras e conflitos de toda natureza, além de atentados terroristas e da generalização da violência.

Até os ataques sofridos em junho de 2025, o Irão permitia inspeções periódicas de suas instalações nucleares por especialistas da Organização Internacional de Energia Atômica. Após os ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra o país, essas permissões foram suspensas. Sobre isso, a imprensa falou — e muito —, em geral controlada pelo império e pela direita mundial, hoje identificada com o sionismo. O que essa mesma imprensa não destacou, porém, é que Israel jamais permitiu que esse organismo, ou qualquer missão ad hoc das Nações Unidas ou de outro organismo internacional, realizasse inspeções em suas instalações nucleares.

Em relatório recente, a Federação de Cientistas Estadunidenses estimou que Israel dispõe atualmente de 90 ogivas nucleares, contra zero do Irão e de qualquer outro país da Ásia Ocidental. É evidente que uma situação como essa não apenas é injusta, como também promove um nível permanente e crescente de assimetria militar na região. Israel, protegido pelos Estados Unidos, tem direito à defesa e à segurança; os demais países, não. O resultado: uma guerra interminável.

O objetivo da administração Trump e do regime racista israelense é a mudança de regime no Irão. Querem que o país retroceda e restaure a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, um sinistro tirano imposto pelos Estados Unidos depois que a CIA derrubou o governo do líder nacionalista e reformista Mohammad Mosaddeq, orquestrando o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953 — o primeiro que “a agência” realizaria em sua história; o segundo seria o perpetrado contra Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 27 de junho de 1954.

O herdeiro da coroa persa, Reza Ciro Pahlavi, vive em Maryland, perto de Langley (Virgínia), cidade onde se localizam os escritórios da CIA, de modo que tudo está à mão. Do exílio, o príncipe herdeiro inspirou-se no “patriotismo” de María Corina Machado, a inverossímil Prêmio Nobel da Paz que buscou por todos os meios que os Estados Unidos invadissem a Venezuela. Para sua surpresa, quando isso ocorreu em 3 de janeiro do corrente ano, não foi para chamá-la a assumir a presidência do país, mas para relegá-la a um discreto terceiro plano. Roma não paga traidores, diz o ditado — e muito menos alguém tão avarento quanto Trump.

Voltando ao caso iraniano, o príncipe herdeiro aplaudiu o ataque sofrido por seu país e conclamou as massas a se livrarem do “regime dos aiatolás”. Seu apelo parece ter caído em ouvidos moucos, pois os mais velhos lembram muito bem que a monarquia liderada por seu pai deixou para trás um rastro interminável de encarceramentos, exílios, torturas e execuções sumárias, além de colocar as riquezas do país, sobretudo o petróleo, em mãos estadunidenses. A revolução que pôs fim ao regime, em 1979, contou com um impressionante nível de apoio popular justamente em razão das tropelias e da brutalidade de seu pai. Parece pouco provável que o filho possa retornar nos ombros de uma enorme mobilização popular.

A guerra contra o Irão seguirá seu curso. Para os Estados Unidos, acabar com “o regime iraniano” é fundamental porque isso poderia complicar o abastecimento de petróleo à China, objetivo prioritário da política externa estadunidense. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, condenou na rede social X a agressão dos Estados Unidos e de Israel, mas também, e sem qualquer qualificação, a represália lançada pelo Irão. Tanto aqueles quanto este seriam igualmente culpados, segundo Guterres. O agredido mereceria a mesma sanção que o agressor. O direito à legítima defesa desaparece na declaração de tão alto funcionário.

Quando muitos se perguntam sobre as causas da crise das Nações Unidas, a covardia e a submissão aos ditames do império por parte de seu secretário-geral oferecem uma boa pista para compreender a gênese do problema. Por isso, Trump, aspirante a ditador mundial, propôs-se, com seu clube de amigos — o Conselho da Paz —, a estabelecer em Gaza, a Gaza dos palestinos, um gigantesco Mar-a-Lago, onde se reunirá essa pandilha de megamilionários, estafadores e pedófilos com a pretensão de administrar a terra roubada dos palestinos como se fosse própria, substituindo o Conselho de Segurança da ONU na gestão cotidiana dessa operação imobiliária. Trump e seus sequazes terão um rude despertar, porque os palestinos não cessarão em sua tentativa de recuperar sua terra.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.