O Pai Natal também vai recorrer ao crowdfunding

(In Blog O Jumento, 13/12/2018)

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Sem quaisquer sacrifícios uns quantos enfermeiros conseguem paralisar os principais bancos de cirurgia dos hospitais portugueses matando muitos coelhos com uma cajadada. Tiram uns dias de férias pagas, criam condições para provocar a morte de portugueses, ajudam a direita a chegar ao poder e ajudam ainda as contas dos hospitais privados.

A direita agradece, desestabiliza a democracia num momento em que está desorientada, ajuda os grupos privados da saúde que ao lado dos do ensino são os seus principais apoiantes e provavelmente financiadores e promovem a desestabilização do SNS para que ponham em causa a sua existência.

Tudo isto é legítimo em democracia, mas a partir do momento em que tudo é financiado de forma anónima também é duvidoso. Em finais do século XIX os trabalhadores solidarizavam-se para sobreviverem à fome quando faziam greve, mas à medida que os rendimentos dos trabalhadores foram melhorando essa solução entrou em desuso, e passaram a ser os sindicatos a dar apoio financeiro com base nas quotizações.

O financiamento privado de uma greve nada tem que ver com este passado, estamos perante grevistas que estão longe das dificuldades de outros tempos ou mesmo da maioria dos trabalhadores portugueses que têm feito greve. Mas pior do que ser privado é ser confidencial e, quando se sabe que num tempo recorde foi recolhido quase meio milhão de euros, e agora pede-se outro tanto (ver aqui), há razões mais do que legítimas para se poder suspeitar de que poderão ser interesses privados a financiar esta greve.

E quem nos garante que um dia destes não comecem a surgir sindicalistas a venderem-se para promover greves, para destruir setores do Estado, ou até para prejudicar umas empresas em favor de outras? Quando uma greve é financiada nestes termos tudo é possível, até porque a história mostra que os sindicatos têm um longo passado de vulnerabilidade à corrupção.

Em tempos um congresso de magistrados foi patrocinado por entidades como o BES; quem nos garante que daqui a uns anos os juízes não se lembram de seguir o modelo dos enfermeiros e bloqueiam a justiça portuguesa com recurso ao pagamento aos grevistas com base em receitas doadas ao abrigo do anonimato?

Enfim, agora que estamos na quadra natalícia começo a acreditar que existe mesmo o Pai Natal e que algum político enriquecido recebeu tudo do Pai Natal que, por sua vez, recorreu ao crowdfunding para conseguir o dinheiro para comprar uma casinha na Quinta do Lago, um Ferrari ou um iate para lhe oferecer.


Fonte aqui

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A razão dos “coletes amarelos”

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 13/12/2018)

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É certo que o movimento dos “coletes amarelos” conta entre os seus líderes e participantes com muitos elementos da União Nacional, o partido de extrema-direita dirigido por Marine Le Pen. É igualmente verdade que a causa próxima não é necessariamente a mais progressista: um mundo sem impostos é um mundo sem serviços públicos e sem redistribuição, e foi precisamente em revolta contra os impostos que nos EUA emergiu o movimento populista reacionário (“TEA Party”, de “Taxed Enough Already”) que nos últimos anos esteve na origem da mutação gradual do Partido Republicano e culminou na eleição de Trump.

No entanto, é um erro desconsiderar a legitimidade popular das reivindicações e ressentimentos que subjazem a estes protestos. Se a intenção de aumentar o imposto sobre o gasóleo foi apresentada por Emmanuel Macron e pelo seu governo com uma justificação ambientalista, é preciso ter em conta a forma como o seu custo se iria distribuir pela sociedade e principalmente o facto de se somar a um conjunto de medidas, a nível fiscal, orçamental e da segurança social, que desde a eleição de Macron beneficiaram fortemente os ultra-ricos e penalizaram sobretudo os mais pobres.

Macron tem feito juz ao cognome de “Presidente dos ricos” com que foi apelidado ainda antes de iniciar o mandato, pelo que a atual revolta das classes populares em França não é apenas contra o imposto sobre o gasóleo, mas de uma forma mais fundamental contra o caráter injusto de uma política que favorece os mais ricos, as grandes empresas e as elites.

É por isso que este não é um mero movimento reacionário mas uma revolta popular legítima, que se for abandonada pela esquerda cairá diretamente nos braços da extrema-direita, aumentando fortemente a probabilidade de concretização da funesta profecia “Macron 2017, Le Pen 2022”. É por isso, também, que as tentativas de transposição para o caso português fazem pouco sentido, independentemente da relação quantitativa entre o preço do gasóleo e o montante do salário mínimo num e noutro país: é que o momento político em Portugal nos últimos anos é de reforço de direitos e rendimentos e de redução da desigualdade, não o seu contrário, ainda que esse reforço e essa redução não sejam tão rápidos ou abrangentes como seria desejável.

É significativo da capacidade de pressão que a ação popular de massas pode ter que o bonapartista Macron se tenha visto obrigado a renunciar à intransigência e a oferecer um conjunto de concessões que, apesar de limitadas e algo enganadoras, vão já para além do recuo no imposto sobre o gasóleo. Não sabemos onde este processo irá levar, mas pode alterar significativamente o contexto político não só em França como na Europa: os 10 mil milhões de euros de despesa adicional que este conjunto inicial de cedências deverá implicar deverão fazer o défice orçamental francês do próximo ano exceder largamente os 3% das regras europeias, minando a capacidade da Comissão impor o seu espartilho normativo a países como a Itália ou, já agora, Portugal. É irónico que este desenvolvimento surja no horizonte dias depois do anúncio pelo Eurogrupo de uma nova reforma da zona euro que é tão insignificante que já ninguém se lembra do seu conteúdo. Mais do que das decisões tecnocráticas, é da força das reivindicações populares que podemos esperar mudanças.

Tomás Correia é o regime e o regime somos nós

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 12/12/2018)

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Daniel Oliveira

Tomás Correia é investigado pelo Ministério Público e pelo Banco de Portugal. Foi obrigado a afastar-se da direção do banco, onde deixou um rasto de prejuízos e negócios ruinosos. E mesmo assim venceu as eleições para o seu quarto mandato no Montepio. Perdeu a maioria absoluta e dirigiu toda a campanha como sempre dirigiu o banco e continua a dirigir a associação: atropelando adversários, regras e princípios básicos da democracia. Impedindo o controlo do processo eleitoral pelas restantes listas, guardando apenas para si o acesso às bases de dados para fazer campanhas e mantendo apenas um local de voto em Lisboa, para que o mínimo de pessoas votasse presencialmente. Mas ganhou.

Os portugueses queixam-se da desonestidade dos políticos e elegem autarcas depois de saírem da prisão. Queixam-se de banqueiros irresponsáveis e reelegem quem fez os investimentos que os bancos comerciais não se arriscavam a fazer. Fazem-se de vítima dos políticos, dos banqueiros, da oligarquia e do regime e sempre que têm oportunidade de corrigir as coisas optam por confirmá-las. Levo a sério a revolta de quem luta. Não levo a sério a indignação vazia das redes sociais que se prepara para um dia destes votar num demagogo depois de ter passado a vida a votar em gente desonesta, mesmo quando tinha alternativas. A vantagem da democracia é não podermos ser vítimas dela. Somos responsáveis pelas nossas escolhas.

Até estas eleições, o quase meio milhão de sócios da Associação Mutualista Montepio com direito a voto ainda podia alegar desconhecimento. Mas com o que foi falado, escrito, repetido nas televisões, todos já sabiam de quem estávamos a falar quando falávamos de Tomás Correia. Ninguém pode alegar desconhecimento.

A grande vantagem da democracia é não termos o direito a ser vítimas dela. No Montepio, o voto de quase meio milhão de portugueses podia ter travado Tomás Correia. Afinal, o regime que está podre somos nós

A partir de agora, tudo o que aconteça ali tem responsáveis. E não são apenas os 18 mil que votaram na lista A. São os mais de 430 mil que não votaram. São Maria de Belém, Jorge Coelho, Luís Patrão, a antiga secretária de Estado de Vieira da Silva, Idália Serrão, e Vítor Melícias, que integraram a lista de Tomás Correia. E são Carlos Zorrinho, Lacerda Machado, João Soares, João Matos Correia e o presidente da Misericórdia da Lisboa, Edmundo Martinho, que apesar de terem cargos públicos apoiaram a lista A. São os artistas que venderam o seu apoio para agradecer financiamentos, não se distinguindo civicamente de qualquer homem de negócios.

E se tudo no Montepio vos soa a PS com um pequeno toque de PSD para disfarçar, quer dizer que têm bom ouvido. Tão bom como quando o BPN vos soava a PSD com um pequeno toque de PS para disfarçar.

Também já apoiei quem não devia e assumi publicamente essa responsabilidade. Espero que todos estejam preparados para o fazer. Porque, depois de tanta tinta sobre o currículo deste homem nesta instituição, isso terá de lhes ser cobrado. Com Ricardo Salgado pouco mais se poderia ter feito do que garantir que o Banco de Portugal cumpria a sua função. No Montepio, o voto de quase meio milhão de portugueses podia ter travado Tomás Correia. Afinal, o regime que está podre somos nós.