A paciência irritante de Putin — e o princípio do fim?

(João Ferreira, in Facebook, 06/09/2026, Revisão da Estátua)


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Há qualquer coisa de extraordinariamente irritante na paciência de Vladimir Putin. Sobretudo para quem passou quatro anos a anunciar, com a solenidade habitual dos grandes funerais políticos europeus, que a Rússia estava prestes a cair.

Era amanhã. Depois para a semana. Depois no próximo pacote de sanções. Depois quando faltassem microchips. Depois quando faltassem munições. Depois quando o rublo colapsasse. Depois quando a economia russa implodisse. Depois quando o povo russo se revoltasse. Depois quando Putin ficasse internacionalmente isolado.

O problema é que Putin nunca pareceu ter consultado o calendário de Bruxelas. Esperou. E continua a esperar. Talvez porque tenha percebido desde o início uma coisa muito simples: a guerra não se travava apenas nas trincheiras da Ucrânia. Travava-se também dentro das economias, das sociedades e, sobretudo, das urnas europeias.

E é precisamente aí que chegamos à Alemanha. Enquanto Moscovo joga com o relógio, alguns dirigentes alemães parecem jogar contra ele. Têm pressa. Pressa em rearmar. Pressa em escalar. Pressa em transformar cada incidente numa nova confirmação da ameaça russa. Pressa em encontrar a próxima prova de que a Europa precisa exatamente de continuar pelo caminho que está a seguir. E, aparentemente, cada vez menos paciência para esperar que as investigações terminem antes de apresentar conclusões políticas.

O Nord Stream deveria ter ensinado alguma prudência. A destruição dos gasodutos que transportavam gás russo para a Alemanha foi durante demasiado tempo envolvida num ambiente político em que apontar para Moscovo parecia quase intuitivo. Hoje sabemos que a investigação alemã tomou um rumo bastante diferente daquele que muitos sugeriam inicialmente.Talvez por isso seja saudável recordar uma regra elementar: primeiro investigam-se os factos. Depois escolhem-se os culpados. Não o contrário.

Agora temos novamente acusações alemãs relativas a operações russas em território alemão. Podem revelar-se verdadeiras. Podem revelar-se falsas. Podem revelar-se parcialmente verdadeiras. Mas depois do Nord Stream há uma pergunta que deixou de ser inconveniente para passar a ser obrigatória: onde estão as provas?

E é justamente aqui que a impaciência de Berlim começa a contrastar de forma quase cómica com a paciência de Putin. Porque Putin parece ter percebido, desde 2022, que não precisava necessariamente de convencer os europeus de que a Rússia tinha razão. Precisava apenas de esperar que os europeus começassem a desconfiar de que os seus próprios dirigentes poderiam estar errados.

E esperou. Esperou pelas consequências económicas. Esperou pelas faturas energéticas. Esperou pelo desgaste social. Esperou pela desindustrialização e pelas dificuldades da economia alemã. Esperou pela fadiga de uma guerra apresentada sucessivamente como decisiva, urgente e próxima do desfecho.Esperou pela distância crescente entre o discurso político e aquilo que muitos cidadãos sentem na sua vida quotidiana.

E, sobretudo, esperou pelas urnas. Hoje, 6 de Setembro de 2026, chegaram as urnas da Saxónia-Anhalt. E fizeram bastante barulho. A AfD passou dos 20,8% em 2021 para cerca de 44,4%, segundo as projeções desta noite. Mais do dobro. A CDU, que tinha 37,1%, caiu para cerca de 18,3%. E isto aconteceu com uma participação eleitoral superior a 80%.

Portanto, não estamos perante uma sondagem. Não estamos perante bots russos. Não estamos perante comentários nas redes sociais. Não estamos perante um editorial do Kremlin. Estamos perante alemães, dentro da Alemanha, colocando votos dentro de urnas alemãs. E escolheram esmagadoramente uma força política que defende algumas das ruturas mais profundas com a orientação seguida por Berlim durante os últimos anos: restabelecer relações com Moscovo, abandonar o euro e devolver soberania dos organismos supranacionais ao Estado alemão.

A AfD considera mesmo necessária a saída da Alemanha da atual União Europeia caso esta não possa ser profundamente transformada, propondo em sua substituição uma nova comunidade europeia de Estados soberanos. É aqui que talvez devamos começar a pronunciar uma expressão que, há poucos anos, provocaria gargalhadas nos corredores de Bruxelas: o princípio do fim?

Não necessariamente o fim da Europa. Muito pelo contrário. Talvez o princípio do fim desta União Europeia. Da UE centralizadora. Da UE progressivamente federal. Da UE que transfere competências dos Estados para instituições supranacionais e depois se surpreende quando os cidadãos começam a exigir essas competências de volta. E também o princípio de uma discussão que inevitavelmente chegará à arquitetura militar europeia e à própria NATO.

Convém ser rigoroso: a AfD não propõe simplesmente abandonar amanhã a NATO. Defende que a pertença alemã corresponde aos interesses do país enquanto a NATO permanecer uma verdadeira aliança defensiva. Defende simultaneamente a retirada das tropas estrangeiras estacionadas na Alemanha, incluindo armas nucleares, rejeita um exército europeu e reclama uma aproximação estratégica à Rússia. Por outras palavras: o que ontem era considerado absolutamente impensável começa hoje a entrar no debate político alemão através de milhões de votos.

E talvez seja isso que Putin tenha previsto melhor do que muitos dos seus adversários. As instituições não começam a morrer quando alguém assina o documento que as extingue. Começam muito antes. Começam quando aquilo que era impensável passa a ser discutível. Depois torna-se admissível. Depois popular. Depois eleitoralmente rentável. E um dia pode tornar-se maioritário.

Putin não precisava, portanto, de destruir a União Europeia. Bastava-lhe esperar para descobrir se os próprios europeus começariam a querer transformá-la radicalmente. Também não precisava de derrotar militarmente a NATO. Bastava esperar para perceber se os cidadãos dos países que sustentam a Aliança começariam a perguntar para que serve, quais devem ser os seus limites e se a confrontação permanente com Moscovo corresponde verdadeiramente aos seus interesses nacionais.

É uma estratégia desesperantemente simples. Esperar. Porque há uma diferença fundamental entre os relógios políticos de Moscovo e de Bruxelas. Um governo pode controlar uma narrativa durante semanas. Pode dominar manchetes durante meses. Pode repetir uma mensagem durante anos.

Mas nas democracias existe um inconveniente periódico chamado eleições. E as eleições têm péssimos hábitos. As eleições transformam faturas de eletricidade, salários, impostos, imigração, indústria, segurança, guerra, medo e descontentamento numa coisa extraordinariamente simples: um voto.

E talvez seja precisamente isso que torna a paciência de Putin tão irritante. Enquanto os dirigentes alemães procuram demonstrar incessantemente que Putin constitui a ameaça que justifica as suas políticas, Putin pode limitar-se a esperar que sejam os próprios alemães a julgar essas políticas. Não através da televisão russa. Não através da RT. Não através de discursos do Kremlin. Através das urnas.

E hoje essas urnas disseram qualquer coisa que Bruxelas faria muito mal em fingir que não ouviu. Quase metade dos eleitores da Saxónia-Anhalt votou numa força política que pretende alterar profundamente a relação da Alemanha com a Rússia, com o euro, com a União Europeia e com a arquitetura política construída nas últimas décadas.

Isso não significa que amanhã termine a União Europeia. Não significa que depois de amanhã desapareça a NATO. Não significa sequer que a AfD consiga governar a Saxónia-Anhalt. Significa algo politicamente mais interessante: aquilo que ontem era marginal tornou-se eleitoralmente gigantesco.

E a História ensina-nos uma coisa curiosa. Os grandes sistemas raramente percebem o momento exato em que começam a enfraquecer. Continuam as reuniões. Continuam as cimeiras. Continuam as fotografias. Continuam os comunicados. Continuam as bandeiras. Continuam os dirigentes a garantir solenemente que tudo está mais unido do que nunca. Até ao dia em que descobrem que os cidadãos já começaram a sair mentalmente do edifício.

Talvez seja por isso que Putin continua sentado. Talvez seja por isso que espera. Talvez desde o início tenha percebido que o seu maior aliado não seria uma arma secreta russa. Seria simplesmente o tempo.

Os dirigentes alemães tiveram uma enorme pressa em derrotar Putin. Putin teve a irritante paciência de esperar pelos alemães.

E esta noite, na Saxónia-Anhalt, ouviu-se um pequeno estalido. Pode não ser nada. Pode ser apenas mais uma eleição regional. Ou pode ser aquilo que tantas vezes só conseguimos identificar quando já passaram muitos anos: o princípio do fim de uma época.

Fonte aqui.

És um “putinista”?

(Miguel Szymanski in Facebook, 05/09/2026, Revisão da Estátua)


Quem argumenta (com dados orçamentais) que a UE e o Reino Unido estão numa espiral belicista e em declínio económico (só o grupo Volkswagen anunciou esta semana o despedimento de até cem mil pessoas, as exportações para a China sofreram uma quebra de 30% desde o início da guerra);

quem argumenta que as cedências de território – temporárias, de jure, de facto, não interessa – fazem parte das guerras e dos acordos de paz, desde que há guerras e acordos de paz, e que são o mal menor, quando de um lado está a maior potência nuclear e, do outro, um país que, por alguma razão, não fazia, nem faz parte da NATO;

quem argumenta que a dupla bitola dos “valores europeus” (Ucrânia versus Palestina, Venezuela, Irão etc.) descredibiliza a narrativa da União Europeia e do Reino Unido de alimentar esta guerra “pelos nossos valores”;

quem argumenta que a expansão da NATO é uma das razões desta guerra (desde o Papa Francisco a Kissinger passando por uma longa lista de prestigiados analistas militares e civis ocidentais ainda vivos e a escrever todos os dias);

 quem argumenta que a russofobia, tal como, em geral, demonizar os vizinhos dificulta a convivência;

 quem argumenta que os EUA têm um interesse, assumido, em enfraquecer as actuais democracias na Europa e militarmente a Rússia (ver o último Relatório do Pentágono de Novembro de 2025);

 quem argumenta com todos estes factos, cumulativamente, já é um “putinista”? Sim ou não?

Se a resposta é sim, percebe-se que chamar a alguém “putinista” (ou “Putinversteher” em alemão) não passa de uma expressão carregada de hipocrisia para rotular e tornar suspeito quem se limita a opor-se à atual narrativa de Berlim, Bruxelas, Paris ou Londres.

É o mesmo tipo de lógica perversa de quem insulta como sendo antissemitas as pessoas que protestam contra o genocídio na Palestina.

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É proibido fotografar as prateleiras vazias dos supermercados

(Major-General Carlos Branco, in Facebook, 05/09/2026)


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A imagem acima circula em vários canais de Telegram. Achei que a devia publicar depois de ter visto e ouvido uma comentadora assídua num canal televisivo nacional afirmar que a Ucrânia está na mó de cima e por isso quer ir para negociações.

Os cartazes dizem que é proibido fotografar as prateleiras vazias de supermercados. “Fotografar prateleiras vazias de supermercados é PROIBIDO. A multa é de 3 mil hryvnias.” O salário mínimo na Ucrânia é 8.647 hryvnias (cerca de $204). Se o problema não for mostrado, ele não existe. A ousadia de fotografar a realidade significa poder perder 35% do salário.

A comentadora em causa, não percebe nada do que está a acontecer. A Ucrânia quer ir para negociações porque está numa situação de extrema dificuldade e quer travar o ímpeto russo para ganhar tempo. Nada do que ela disse faz sentido. Fazendo uma analogia com o basquetebol, o treinador pede desconto de tempo (ou timeout) para parar o jogo quando a sua equipa está em dificuldades e pretende mudar de estratégia.

Só uma cabecinha pensadora pode dizer que a parte que: tem mais de 200 mil abandonos de soldados das fileiras; tem mais de quinhentos mil cidadãos em fuga do serviço militar, não tem capacidade para repor os soldados que perde diariamente em combate (o Chefe de Gabinete de Zelensky fala em 30 mil por mês), tem mais de 10 milhões de cidadãos fora do país, se encontra numa tremenda regressão demográfica, sem acesso ao mar, sem capacidade para exportar os seus produtos, etc., etc. está na mó de cima.

Mais tarde ou mais cedo, essa senhora e outras que regurgitam semelhantes atoardas têm de vir prestar contas com a história. E depois não venham com tretas dizer que fizeram avaliações erradas.

Participam há mais de 4 anos numa despudorada campanha de manipulação da opinião pública sendo coniventes ativas na desinformação a que estamos sujeitos e somos diariamente vítimas.