O teatro diplomático reabriu as suas portas

(BPartisans, In Fórum da Escolha, in Facebook, 05/06/2026, Revisão da Estátua)


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Nos últimos dias, o teatro diplomático reabriu as suas portas. Todos estão a vestir os seus figurinos, a aperfeiçoar os seus discursos e a retomar os seus papéis favoritos: o do lado que quer a paz… desde que o outro lado concorde primeiro com a capitulação política.

Vladimir Putin declarou-se pronto para negociações diretas com Kiev. Mas por detrás desta aparente abertura esconde-se uma preocupação muito jurídica: quem assinará os acordos? O Presidente russo tem sublinhado repetidamente que qualquer documento deve ser assinado por uma autoridade cuja legitimidade não possa ser contestada posteriormente. Em resumo: Moscovo não quer outro acordo ao estilo de Minsk, aplaudido num dia e enterrado no outro.

Do outro lado, Volodymyr Zelensky divulgou uma carta aberta e propôs um encontro presencial num país neutro. O objetivo é claro: transferir o debate da esfera jurídica para a esfera mediática. Uma foto histórica, um aperto de mão, algumas declarações solenes, e a narrativa ocidental pode anunciar que “o diálogo começou”.

O problema é que Moscovo não está a negociar para uma foto. Moscovo está a negociar um texto.

A diferença é fundamental.

Kiev exige um cessar-fogo prévio, uma estrutura de negociação sob supervisão internacional e o envolvimento dos EUA na supervisão do processo. Moscovo responde com termos muito menos fotogénicos: garantias, legalidade, mecanismos de aplicação e a estabilidade dos acordos.

Como costuma acontecer, Washington desempenha simultaneamente o papel de bombeiro e de fornecedor de combustível. Donald Trump manifestou apoio a uma reunião, ao mesmo tempo que lembrou publicamente a todos que a Ucrânia continua dependente das armas americanas. Uma forma elegante de lembrar a todos que, mesmo quando se fala em paz, a Casa Branca ainda detém o comando.

As declarações oficiais ilustram perfeitamente a divisão. O Kremlin afirma que qualquer acordo deve ter em conta as “realidades territoriais” e as causas profundas do conflito. Kiev reitera que a sua integridade territorial é inegociável. Por outras palavras, ambos os lados dizem querer negociar, mas consideram as respetivas linhas vermelhas inegociáveis.

Assistimos, pois, a um fenómeno já clássico: as negociações sobre negociações.

Ainda não estamos a discutir a paz. Estamos a discutir onde discutiremos a paz. Depois, o formato. Depois, os observadores. Depois, o cessar-fogo. Depois, as garantias. Depois, as assinaturas. Depois, os mecanismos de monitorização.

A diplomacia moderna tornou-se uma matriosca russa administrativa: cada negociação contém outras cinco.

A verdadeira questão, portanto, não é o encontro Putin-Zelensky. As cúpulas produzem imagens. Os tratados produzem consequências.

A questão central é simples: quem definirá a estrutura para o processo futuro?

Moscovo procura um acordo juridicamente irreversível. Kiev procura um processo politicamente sustentável. Washington procura manter o seu papel de árbitro indispensável. A Europa, por seu lado, continua a observar à margem, afirmando ser indispensável num jogo para o qual ninguém a está verdadeiramente a convidar.

A paz, portanto, ainda não está no horizonte. Para já, todos estão, antes de mais, a definir as regras do jogo no campo onde esperam vencer. E, como sempre nos conflitos modernos, a batalha pela estrutura precede a batalha pela essência.

As armas ainda falam. Os advogados, entretanto, já aquecem as canetas.

A Engenharia da Desmobilização Popular por detrás do processo de militarização da Europa

(Hugo Dionísio, in S. C. F., 04/06/2026, Revisão da Estátua)


Apenas quando os povos europeus identificarem o seu real inimigo e o perceberem como uma ameaça séria, real e vital, será possível colocar um fim a esta loucura.


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Há algo de profundamente paradoxal no estado atual das democracias ocidentais. Por um lado, os líderes da União Europeia, da NATO e dos Estados Unidos propagam, com insistência quase obsessiva, narrativas de ameaça existencial: a Rússia como império expansionista prestes a invadir o território da Aliança Atlântica; a Europa como vulnerável e despreparada, com urgência instada a multiplicar os seus gastos militares; o conflito na Ucrânia como prelúdio de uma confrontação mais vasta; e ainda o terrorismo, esse ente sempre presente que nos acorda constantemente, mais para enviarmos os nossos recursos para o além mar, para que não nos venha chatear mais tarde.

Por outro lado, essas mesmas narrativas — apesar do seu tom catastrofista — não produzem um ímpeto para a mobilização, não geram movimentos de massas de luta pela paz e não impelem as populações para a exigência de mudanças concretas e estruturais em matéria de política externa. Pelo contrário: aparentemente, geram uma espécie de apatia estrutural, uma atitude que poderíamos chamar de amorfa ou mesmo zumbi, face ao real e crescente risco de guerra aberta com a Federação Russa. Quanto maior o medo propagado e o risco percebido, maior a apatia na resposta, individual ou colectiva, a tal estado de coisas. Talvez por irresponsabilidade, por causa do estado de infantilidade política para o qual foram atirados os povos ocidentais, por preguiça ou por amorfismo, provocados por contínuos choques de terror, instabilidade e sobressalto, a verdade é que o estado de alerta parece não existir. Nem enquanto instinto de sobrevivência.

Se queremos compreender como se constitui, internamente, a decisão da União Europeia e dos Estados-membros, no sentido de nos fazer enveredar para uma deriva militarista e belicista, com contornos catastróficos facilmente previsíveis e perceptíveis, é fundamental compreender um mecanismo subtil e perigoso, alicerçado numa narrativa calibrada para gerar medo, mas não consciência; alarme, mas não acção. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que visa legitimar gastos armamentistas astronómicos e lucros pornográficos para o complexo militar-industrial NATO em expansão, transmite subliminarmente que a resolução do problema depende dos políticos e dos generais, e nunca das populações.

Com efeito, o resultado visado consiste numa desactivação democrática do ponto de vista operativo, a qual, informando as pessoas do risco, ao mesmo tempo, afasta-as da participação e influência na solução e, especialmente, de se sentirem capazes de transformar esta realidade.

Neste sentido, as narrativas de segurança propagadas pela UE, NATO e EUA não são concebidas para elevar o estado de consciência das populações, mas para o bloquear. Se o estado de consciência fosse verdadeiramente elevado — se as pessoas interiorizassem as implicações práticas do que lhes é dito —, retirariam consequências práticas e organizativas que poderiam ameaçar o poder instituído e, por maioria de razão, as decisões políticas tomadas à sua revelia e contra os seus interesses mais relevantes.

O facto é que, quando as pessoas se activam, como bem se sabe, sabemos onde começam os processos, mas nunca é possível saber bem onde acabam. A forma como as contradições mediaticamente expostas podem ser capitalizadas por movimentos pela paz e pela elevação das condições de vida, que fazem da luta de massas o seu campo de acção privilegiado, conduzindo a resultados muitas vezes diametralmente opostos aos pretendidos pela classe dominante, constitui um dos efeitos a evitar por uma estrutura dirigente autocrática e subserviente aos interesses oligárquicos.

Toda a construção argumentativa que desemboca na decisão final de conduzir a EU para a guerra com a Federação Russa e para a vertigem armamentista que tal desiderato pressupõe, foi sendo preparada no sentido de desarmar as populações dos seus direitos democráticos de intervenção nesse processo de decisão. O facto de se colocar toda a culpa numa Federação Russa cercada de bases da NATO, mas mesmo assim apresentada como estando em desenfreada expansão, visará criar a ideia de que o mal radica num agente exterior que vem desestabilizar a nossa paz, criando a sensação de que nada há a fazer, porque nada se pode fazer – exceptuando aceitar e legitimar a deriva belicista – para contestar e transformar um poder inacessível.

A primeira narrativa dominante apresenta a Rússia de Vladimir Putin como uma potência imperial em expansão, determinada a reconstruir um império euro-asiático – umas vezes o Império Tsarista Ortodoxo e outras o “Império” comunista Soviético – e prestes a atacar ou invadir território da NATO, encontro para o qual os dirigentes ocidentais até já lograram marcar uma data: 2029! Esta narrativa serve de fundamento para quase todas as políticas de rearmamento e de aliança militar dos últimos anos.

Contudo, uma análise minimamente atenta dos factos permite desmontar todos os pressupostos em que assenta. Após quatro anos de guerra na Ucrânia, e constante afirmação mediática de que a Rússia demonstrou possuir uma capacidade militar limitada, incapaz de conquistar de forma decisiva e rápida o território ucraniano, sendo obrigada a recrutamentos massivos e a sofrer perdas significativas em equipamento e pessoal, ou ainda a recorrer a mercenários e prisioneiros para manter as linhas de frente, a um mesmo tempo, transmitiu-se também a ideia de que esta mesma Rússia, exausta e sob sanções económicas sem precedentes, poderia lançar um ataque contra a NATO — aliança que reúne as maiores economias do mundo e o maior arsenal nuclear do planeta. Ao carecer de base empírica e histórica que a sustente, tal avaliação da realidade padece de um profundo enviesamento, transformando-a numa intrincada construção ideológica.

A função política desta narrativa é clara, visando justificar a existência e a expansão contínua da NATO, através da criação de um inimigo externo que unifique o bloco ocidental e legitime a militarização crescente da política europeia. Mas tal tem de ser feito, sem que se desmoralize o exército contratado para atacar a Federação Russa – o exército ucraniano sob comando do regime de Kiev. Daí que se opte por uma dupla camada argumentativa apenas na aparência contraditória: 1. A Federação Russa é uma potência fraca, incompetente e incapaz de conquistar a Ucrânia, o que permite criar a ideia de que se trata de um inimigo derrotável, plenamente ao alcance das forças de Kiev, justificando assim a estratégia ocidental que radica na sua utilização como proxy e o envio de constantes remessas de milhares de milhões de euros; 2. A Federação Russa é governada por um louco ditador e um povo agressivo e atrasado, que nos pode invadir a qualquer momento, aproveitando-se da grande capacidade industrial que possui, argumento que permite alimentar o medo e justificar a necessidade de militarização.

A passagem repetida de um argumento ou outro, normalmente de forma separada, usando comentadores bem educados que nunca impelem para a paz, mas apenas para a eliminação do perigo, nomeadamente pela força ou pelo isolamento e contenção, funciona como um processo de doutrinação, no qual o elemento democrático nunca é mencionado, a não ser que seja para atacar a Federação Russa como terrível ditadura. A ancoragem de tais discursos em amplas e abrangentes estratégias de comunicação, assentes em conferências, livros, programas dedicados, visa engrossar o exército complacente, tal como sucede com um professor contraditório no que lecciona, em que somente é apanhado por uma minoria de alunos mais atentos, mas que juntos não compõem a força suficiente para expor, mortalmente, tal contradição.

Uma segunda narrativa presente nos meios mediáticos, sustenta que a Europa está militarmente despreparada para enfrentar a Rússia e que, por isso, é forçada a aumentar drasticamente os seus gastos com armamento. Tal narrativa foi ganhando força, especialmente após o início da Operação Militar Especial na Ucrânia, em 2022, culminando no que a Alemanha designou como Zeitenwende — uma “viragem de época” que justificou a criação de um fundo especial de 100 mil milhões de euros para as Forças Armadas. Depois de participar dos acordos de Minsk e de Merkel assumir que tais acordos visaram apenas “ganhar tempo” para armar a Ucrânia e preparar a EU para o embate, bem podemos dizer que esta “viragem de época” não apenas foi ansiada, como foi provocada.

E eis que aqui emerge outra contradição flagrante: o discurso de “despreparação” surge precisamente quando os gastos militares da Europa já atingiam níveis históricos, e em que os orçamentos de defesa da NATO já superavam, em conjunto, os da Rússia por um factor de mais de dez vezes. Mesmo ao nível europeu, em 2022, o orçamento anual dos países da UE, superava o investimento da Federação Russa por um factor de 5 a 6 vezes. Desta forma, a teoria da “despreparação” não representa, portanto, uma descrição objectiva da realidade; antes constituindo, claramente, uma oportunidade de mercado, expressa, por exemplo, na forma como a VW, submersa numa crise económica sem precedentes, causada pela implacável capacidade competitiva chinesa nos carros eléctricos, aproveitou a deixa para transformar fábricas automóveis em fábricas de tanques de guerra.

A UE ao canalizar fundos públicos — dinheiro dos contribuintes — para o complexo militar-industrial, em detrimento de investimentos em saúde, educação, transição energética ou combate à pobreza – que nunca foi erradicada -, os “lucros brutais” que esta guerra gera não são um subproduto da mesma, mas antes são, em muitos casos, o objectivo principal e inicial.

A narrativa da despreparação funciona como uma máquina de transferência de riqueza do sector público para o privado, dos serviços públicos de interesse social relevante e que prestam necessidades sociais impreteríveis para as indústrias de armamento, das populações para os accionistas. Tudo isto acontece sob o véu da “segurança colectiva”, um conceito que parece justo, mas que, na prática, serve para blindar tais transferências financeiras em relação a qualquer escrutínio democrático. Nem por um momento os parlamentos nacionais discutiram profundamente o assunto, nem por um momento as populações foram instadas a pronunciar-se em relação a tais decisões. Ao invés, tudo isto aconteceu à margem de actos eleitorais e referendos, nunca constando dos programas dos partidos que representam esses interesses e que, por isso mesmo, beneficiam de tratamento privilegiado na média corporativa e, consequentemente, beneficiam das mais ricas e eficazes campanhas e instrumentos de propaganda.

Se as narrativas, atrás enunciadas, se tratassem apenas de retórica, poderíamos limitar-nos a denunciá-las como propaganda. Mas o problema é que elas são acompanhadas de acções concretas que, longe de reduzir o risco de confronto, o aumentam de forma perigosa. Podemos mesmo dizer que, desde a 2ª Guerra Mundial, nunca estivemos tão próximos de uma confrontação directa com uma potência militar como a Federação Russa. E apesar de tudo isto, nenhum governo perguntou às populações se pretendem tal guerra ou se pretendem negociar a paz com a Federação Russa.

A NATO, a UE e os EUA apoiam a Ucrânia de formas que vão muito além da “ajuda humanitária” ou da “defesa de um país soberano”. Fornecem drones de ataque, aviões sofisticados (agora aeronaves Gripen da Suécia), sistemas de artilharia de longo alcance, inteligência em tempo real, dados de satélites e dos seus sistemas de orientação (GPS). Tornam possíveis ataques ucranianos em profundidade no território russo — bombardeamentos contra infra-estruturas energéticas, bases militares, depósitos de munições e mesmo alvos em território civil.

Estas acções alteram a natureza do conflito e permitem-nos, ao poucos, identificar a verdadeira natureza do conflito em curso. O que começou, dissimuladamente, como uma guerra de defesa ucraniana transforma-se, progressivamente, numa guerra de projecção de força, em que países da NATO, sem declarar guerra, participam activamente na ofensiva contra a Rússia. De forma paulatina e ao conduzir a guerra para dentro da Federação Russa, a NATO revela o objectivo inicial pretendido. Enquanto tantos eram atacados por já em 2014 conseguirem identificar no EuroMaidan um movimento da NATO contra a Federação Russa, é em 2026 que se começa a materializar, na prática, essa evidência, mais ainda sob uma manta de dissimulação: a de que tal projecção de força no interior da Federação Russa constitui uma resposta legítima de Kiev aos ataques da Federação Russa no seu território.

O problema é que, apesar do amorfismo do lado de cá, desde 1991, desde a queda da URSS, o povo russo tem recebido inúmeros alertas sobre as reais intenções do Ocidente relativamente ao seu país. Primeiro foi o “Ieltsinismo”, que destruiu a malha social estatal e económica da URSS, deixando milhões na miséria extrema, coisa que há muito não conheciam, depois, foi a Tchetchénia através do terrorismo islâmico, a destruição da Jugoslávia e a expansão da NATO para oriente, a revolução Laranja no início do século XXI, na Ucrânia, a provocação através da Geórgia na Ossétia do Sul e, então sim, o Euromaidan, com um golpe de estado que visou virar o tabuleiro a favor das forças russófobas.

Ou seja, o povo russo está acordado para o problema e tal alerta e disposição para a defesa dos seus interesses, mas também para a paz, contrastam seriamente com o estado dos povos ocidentais, que apenas são arrastados para esta realidade, sem saberem bem se estão preparados ou não para defenderem os seus interesses. Esta activação do povo Russo e a pressão que pode exercer junto do Kremlin, ou mesmo a necessidade de uma resposta mais veemente por parte de Moscovo, coloca uma questão inquietante: se a Rússia retalia contra as infra-estruturas, fábricas ou bases em países NATO que lhe fornecem esses dados e esses sistemas, não estará a agir em legítima defesa? E tal ataque não arrastará a NATO para um confronto directo, potencialmente nuclear?

É aqui que chegamos ao núcleo do paradoxo. Se as narrativas de ameaça são tão alarmistas, porque não geram mobilização? Se a população da UE “compra” a ideia de que a Rússia é um perigo iminente, porque razão não exige medidas concretas de paz, desescalada ou, pelo menos, preparação civil?

A resposta pode residir na natureza do medo que é produzido. Não se trata de um medo concreto, tangível, que mobiliza para a acção — como acontece quando uma comunidade enfrenta uma inundação ou um incêndio, ou no caso de muitos russos, iranianos ou cubanos que se encontram muito mobilizados para a defesa do seu mundo. Tratar-se-á, antes, de um medo abstracto, crónico, mediático: a “ameaça russa” como entidade difusa, a “guerra nuclear” como cenário distante e quase cinematográfico, como algo que acontece apenas num espaço mediático e comunicacional longínquo, que tantas vezes se mistura com a ficção e sofre de uma crise de credibilidade profunda. A psicologia cognitiva há muito que identificou que o medo abstracto paralisa mais do que mobiliza. Quando a ameaça é invisível, imensurável e gerida por “especialistas”, a resposta humana natural é a resignação e não a resistência.

Este medo funciona como uma espécie de anestésico, mantendo as pessoas num estado de ansiedade constante, mas sem direcção alguma (como “baratas tontas”). Consomem notícias sobre a guerra como quem consome um thriller — com tensão, mas também com a certeza de que, no final, “alguém resolve”. Esse alguém são os políticos, os generais, os diplomatas. A população é espectadora, não protagonista. E esta constitui uma importante falha “democrática”. Num sistema que se diz democrático, o povo não pode ser alienado da participação nas decisões de um evento tão impactante como uma guerra apocalíptica.

E é aqui reside o mecanismo central de desmobilização popular. As narrativas são construídas de forma a transmitir, subliminarmente, que a segurança é um problema técnico-militar, não político-popular. A mensagem é: “Há perigo, mas nós (os decisores) estamos a geri-lo. A tua função é votar de quatro em quatro anos, pagar os teus impostos e, se necessário, aceitar cortes nos serviços públicos para financiar a defesa.” E, como tal, inundam-nos os telejornais de generais, comentadores militares, analistas militares, militares que não honraram a farda e civis frustrados que queriam ter sido militares. Todos falando de um mundo onde não entra o povo e onde nós não temos vós.

Trata-se de um processo de delegação tácita da responsabilidade que transforma a democracia num espectáculo onde a participação cívica é reduzida à expressão mínima de preferências eleitorais, nunca à intervenção activa na definição de políticas. Essa está vedada ao lobbying que os ricos pagam para acontecer e aos telefones directos dos ministros e CEO: Quem questiona a lógica militarista é rotulado de “pró-Putin”, “negacionista” ou “isolacionista” — rótulos que funcionam como mecanismos de exclusão social, deslegitimando qualquer debate substantivo e minimamente consequente.

Verifica-se também um factor de amnésia histórica. As gerações atuais na Europa — sobretudo as nascidas após a Guerra Fria — não têm experiência corporal da guerra, nem sequer do seu rumor próximo. A Segunda Guerra Mundial é arqueologia; a Guerra Fria, uma curiosidade histórica. A guerra tornou-se um conceito mediático, uma imagem no ecrã e não uma experiência de destruição, extremismo e perda, que revela o que de pior existe no ser humano. Isso facilita a sua banalização, mas não apenas. Facilita também a sua dramatização, no sentido em que se torna algo até glamoroso e excepcional, em que os homens revelam a sua coragem e as mulheres a sua destreza.

Enquanto nos inundam o Youtube com anúncios de “military workout” (exercícios físicos militares), “apetrechos e vestimentas de tipo militar”, a média vai falando de “escalada”, “dissuasão”, “prontidão” como quem fala de indicadores económicos — com distanciamento técnico, sem horror. Tal como se fala do genocídio de Gaza, ou da fome em África. Todo o terror é normalizado e cinematografado como se fizesse parte de um Hollywood, em que Von Der Leyen e Kaja Kallas são as actrizes principais de uma trágico-comédia escrita por Zelensky, dirigida por Macron e financiada por Friedrich Merz, através de um esquema europeu de angariação em pirâmide!

A desmobilização popular que vemos, não é, portanto, um acidente. É estrutural em relação ao funcionamento dos sistemas militarizados. Quando olhamos para isto que nos está a acontecer e todo o ódio que é facilmente cuspido por dirigentes políticos e populares contra imigrantes ou inimigos, percebemos porque é que foi possível um Holocausto nazi e porque é que é possível um genocídio em Gaza e no Líbano.

Os lucros prometidos do complexo militar-industrial dependem de decisões orçamentais tomadas em salas com portas fechadas, propositadamente não sujeitas à pressão popular. Daí que nos surjam como factos consumados. E que forma mais simples e distante de nos surgirem, do que através de monólogos televisivos que nos dizem “a União Europeia decidiu”, “Von Der Leyen disse”, “os maiores países da EU prometeram” … Se vem de cima, então nada há fazer, pensa o comum dos mortais, vítima de um sistema construído em pirâmide, que o esmaga através de uma cúpula tão autocrática como inatingível. O facto é que também a EU funciona como uma mistificação, como algo que está fora, demasiado longe. É como a especulação financeira, quanto mais nos destrói a vida, mais dificuldade temos em perceber como o faz. A burocracia europeia é complexa o suficiente para que opere o mesmo processo de distanciamento.

E esta contingência da vida revela-nos uma realidade inultrapassável do sistema em que vivemos: a economia belicista e ofensiva precisa de cidadãos passivos e não de cidadãos activos. Precisa de consumidores de notícias, não de organizadores de movimentos. Precisa de eleitores que escolhem entre opções pré-aprovadas, não de cidadãos que definem as próprias agendas.

Talvez aqui radique a grande diferença que nos permite desvendar as posições relativas de cada um dos contendores e revelar quem é realmente o agredido e quem é, de facto, o agressor. Enquanto a população ocidental se encontra amorfa, situacionista, ressentida mas intelectualmente desarmada, reprimida e ideologicamente derrotada, incapaz de gritar e exprimir revolta para com uma situação que esmaga o mundo que conhecia e tinha como garantido, apenas, aqui e ali, vociferando contra gente tão ou mais fraca que ela, que sofre das mesmas amarguras, como imigrantes, sindicalistas ou outras minorias, a generalidade da população russa encontra-se activada, consciente do perigo que a rodeia e mobilizada num esforço sem limites para superar o que considera ser um ataque à sua soberania e independência.

Afinal, quem é que está a ser arrastado para o quê? Para compreendermos a militarização da NATO, temos primeiro de compreender de que se faz tal ideologia. A ideologia subjacente ao rearmamento da EU veste-se das mesmas capas que se vestia Goebbels!

Apenas quando os povos europeus identificarem o seu real inimigo e o perceberem como uma ameaça séria, real e vital, será possível colocar um fim a esta loucura!

Esperemos que não venha tarde de mais!

Fonte aqui

Delação S.A.

(Rui Pereira, in Facebook, 04/06/2026)


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A fórmula “canal de denúncia”, que se tem multiplicado entre nós sob todos os aparentemente mais benévolos pretextos, chega agora à chamada Prestação Social Única (PSU). Instituída sob o signo estigmatizante de obrigar a trabalhar os desempregados e outros detritos do negócio socioeconómico, aprofunda o estereótipo de uma série de loosers preguiçosos que “preferem” a “subsidiodependência” a ir trabalhar “como os outros”.

Persuadidos de que são winners, os menos pobres dos pobres são virados contra os mais pobres do que eles, numa guerra social induzida a partir das esferas do poder, cujos efeitos e limites vão muito para lá do rendimento de que cada um dispõe.

A razão pela qual existe o “pobre de direita”, para usar a exatíssima expressão do sociólogo brasileiro, Jessé de Souza, não é meramente económica. Votar à direita, votar nas mentiras das diferentes direitas, mesmo sabendo e sobretudo sabendo que são mentiras, é um ponto simbólico de fuga, de desidentificação com a própria pobreza.

Quando não se percebe isto, não se percebe que se vive não só do dinheiro, mas também do reconhecimento social, do status e das suas aparências e de que existe uma componente psicossocial na sociedade humana que encontra correspondência psicopolítica na administração do poder.

A reprodução das práticas e dos ideologemas opressivos e discriminatórios dos menos pobres para com os mais pobres é uma aposta epigenética ganha por quem a induz e a realiza através de medidas como esta: fazer do pobre polícia do outro pobre.

Escrevendo sobre a delação no tempo do fascismo, a historiadora Irene Pimentel chamou-lhe “uma tragédia portuguesa”. Percorrer as páginas do seu estudo é, de facto, mergulhar nos abismos do humano. Ver como tantos milhares se tornaram bufos e muitos outros só não o fizeram porque a PIDE os rejeitou é uma ferida moral que o neofascismo instalado no poder há décadas a esta parte insiste em não deixar fechar, lançando-lhe por tudo e por nada a pitada de sal da instigação à delação.

Nos tempos da Inquisição, vizinhos e familiares, desconhecidos, gente desavinda de todo o tipo denunciava quaisquer outros, sabendo que se não a fogueira, pelo menos a tortura estava garantida ao denunciado. Porque, como afirmavam os pequenos e grandes Torquemadas da época, só a tortura garantia o selo de veracidade, tanto às declarações de inocência como de culpa.

Hoje, desde atribuir-se sorteios de automóveis de alta cilindrada entre quem substitua os fiscais do fisco reivindicando a “fatura” de cada café que tome (sinal de uma “cidadania exigente”), até aos múltiplos “canais da denúncia” com anonimato garantido e perseguição assegurada ao denunciado é uma das mais cínicas armas da refascização em curso.

Ao mesmo tempo, quem espreita o companheiro do lado por cima do ombro, preocupado com o rendimento mínimo que possa receber, nunca olhará para os do rendimento máximo garantido que estão acima, muito acima dele, locupletando-se com os canais do dinheiro que escorre do trabalho socialmente realizado para o lucro privado, escondido na imensa corrupção que vai dos conselhos de administração aos gabinetes ministeriais e de advocacia, escoado nos offshores sobre os quais denúncia alguma será estimulada.