A extrema-direita está perplexa?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 06/11/2026)

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há um ano a marcha da extrema-direita parecia irresistível. A direita tradicional adaptava-se-lhe, os grandes interesses económicos festejavam e uma verdadeira tropa de comentadores anunciava uma esquerda condenada à irrelevância. Acontece que as pessoas, o inestimável povo que tanto nos embaraça com as suas aposturas misteriosas, está, outra vez, a reescrever essa história. Em vários países começam a multiplicar-se mudanças políticas que pareciam impossíveis.

Como se sabe, em Portugal o pacote laboral do Governo caiu em junho, depois de meses de contestação sindical, de duas greves gerais e apesar de uma maioria de dois terços à direita no Parlamento quase garantir, à partida, a passagem do diploma. O Chega, porém, assustado com a contestação popular acabou por votar contra, em cálculo próprio. O papel da mobilização dos trabalhadores na derrota de uma reforma apresentada como inevitável foi surpreendente e crucial.

Agora, nas ruas, as “acampadas” pela habitação, enfrentadas com cargas policiais e detenções, conseguiram impor o tema na agenda nacional. O Governo, pressionado pelo Presidente da República que, por sua vez, foi pressionado pelo que se passava nas ruas, passou a oferecer diálogo quando antes só via um problema de ordem pública. Ainda não é uma vitória sobre a crise da habitação, mas é a demonstração de que resistir pode obrigar o poder a mudar de posição.

No Brasil, Lula fez aquilo que nunca sucedera numa segunda volta presidencial: recuperou da desvantagem da primeira e derrotou Flávio Bolsonaro, com 51,79% dos votos. A vitória foi impulsionada por multidões nas ruas, pela participação dos jovens e por uma enorme mobilização popular nas redes sociais.

Nos Estados Unidos, Donald Trump sofreu uma enorme derrota nas intercalares: os democratas conquistaram as duas câmaras do Congresso. Pelo menos cinco socialistas democráticos foram eleitos para a Câmara dos Representantes e Abdul El-Sayed, defensor de um serviço de saúde universal (o que nos Estados Unidos é quase tão escandaloso como defender o comunismo), ganhou um lugar no Senado.

Há cada vez mais políticos bem-sucedidos nos EUA que apresentam uma alternativa à desmesurada concentração da riqueza e do poder depois de em Nova Iorque, em 2025, o socialista Zohran Mamdani ter sido eleito para presidente da Câmara, numa campanha com mais de cem mil voluntários.

Também na Irlanda, Catherine Connolly chegou à Presidência apoiada por uma frente de partidos de esquerda e por uma vasta rede de ativistas.

Em Berlim, o Die Linke, que há dois anos surgia nas sondagens com 6%, tornou-se o partido mais votado, com 25,7%. Fez campanha porta a porta contra rendas incomportáveis e o poder dos fundos imobiliários. Os berlinenses apoiaram.

Seria ingénuo anunciar o fim da extrema-direita ou das suas alianças com o centro-direita. Ela conserva votos, dinheiro, influência mediática e posições de poder. E há muita gente que vota sobretudo em rejeição contra quem está no poder.

Mas talvez esteja aí a lição. Quando a oposição abandona o medo, organiza a indignação em torno de coisas concretas como salários, casas, saúde, direitos, liberdade, e chama as pessoas a participarem, consegue reunir maiorias que os especialistas julgavam impossíveis.

O ascenso da extrema-direita no mundo está a ter uma resposta política que há um ano poucos poderiam prever. E a extrema-direita, que julgava ter a vida facilitada, está, neste momento, perplexa.

Os EUA vão abandonar a NATO?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/11/2026)


A tentativa de lançar o debate sobre a possibilidade de a NATO existir sem os americanos não passa de um exercício fútil e absurdo. Os EUA pretendem reduzir os seus gastos com a NATO, mas não o seu poder na Aliança.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Poucos entenderam Donald Trump quando ele disse que a NATO se encontrava obsoleta. O que ele afirmou, de forma sintética, foi que a Aliança deixou de servir os interesses da política externa norte-americana do modo que teve na Guerra Fria e no período que se seguiu, nomeadamente no Afeganistão. Além de não ser verdade, Trump estava a ser injusto e ingrato, uma vez que a NATO continuava a ser extremamente útil na confrontação que os EUA travavam com a Rússia na Ucrânia.

Mas havia que saber ler nas entrelinhas. Trump estava implicitamente a dizer que a NATO era inapropriada para o embate que os EUA pretendiam travar com a China no Índico-Pacífico. Era preciso uma nova NATO que continuasse a servir os interesses norte-americanos noutras áreas do globo onde os EUA pretendiam intervir. Os factos vieram dar-lhe razão, Trump não esquecerá a indisponibilidade dos aliados para o socorrerem, quando precisou deles, em fevereiro de 2026, para superar o desaire militar do ataque norte-americano ao Irão, que levou ao fecho do estreito de Ormuz.

Uma narrativa agressiva e ameaçadora da NATO relativamente à China podia agradar a Trump, mas era insuficiente. Com base nesta reação europeia, não será difícil extrapolar o que farão os aliados europeus num putativo confronto dos EUA com a China, em que a possibilidade de virem a prevalecer é cada vez mais remota. Os EUA não podiam contar com a Aliança. Era a isto que Trump se referia quando considerava a NATO obsoleta.

O facto de a NATO ter deixado de ter a importância que já teve no cálculo estratégico norte-americano reforçou os argumentos dos que, nos EUA, pugnavam pela redução das despesas com a Aliança, transferindo esse ónus para os restantes Estados-membros.

Uma leitura errada

A redução dos gastos com a defesa europeia declarada por Washington, impondo uma divisão dos encargos, foi recebida com muita ansiedade e desconforto pelas chancelarias europeias, que interpretaram isso como um abandono da defesa da Europa. O sentimento de insegurança gerado levou alguns aliados europeus, como a França e a Polónia, a assinarem em maio de 2026 um tratado bilateral de defesa mútua. A Alemanha e a Grã-Bretanha estão a seguir o mesmo caminho, preparando também o seu próprio acordo de defesa mútua.

A assinatura de tratados de defesa mútua entre membros da Aliança denota desconfiança na eficácia da NATO e descrédito na sua capacidade de honrar o seu compromisso fundamental: o Art.º V e a defesa coletiva, o leitmotiv primordial que justifica a sua existência.

Tudo indica que os aliados europeus estão a fazer uma leitura errada dos propósitos declarados da Administração Trump. A exigência de Trump para os aliados aumentarem, até 2035, as suas despesas com defesa para 5%, sendo 3,5% delas destinadas às designadas despesas essenciais de defesa, e o anúncio da redução da presença de forças norte-americanas na Europa, inserem-se numa divisão de tarefas que Trump quer implementar e não numa estratégia de abandono da defesa da Europa.

Uma leitura atenta da NSS (Estratégia de Segurança Nacional), publicada em novembro de 2025, e da NDS (Estratégia de Defesa Nacional) publicada em janeiro de 2026, devia sossegá-los. Em nenhum momento é dito naqueles dois documentos que os EUA vão abandonar a defesa da Europa.

Pelo contrário, é claramente dito nesses documentos que os EUA não sairão do continente europeu: “O Departamento [da guerra] continuará também a desempenhar um papel fundamental na própria NATO, mesmo enquanto ajustamos a postura e as atividades das forças norte-americanas no teatro de operações europeu, de modo a ter em melhor conta a ameaça russa aos interesses norte-americanos, bem como as próprias capacidades dos nossos aliados”. O compromisso norte-americano com a defesa da Europa permanece inalterado, mas a Europa deve assumir a responsabilidade principal pela sua própria defesa convencional.

Este pensamento baseia-se em duas premissas fundamentais: (1) “Moscovo não está em posição de reivindicar a hegemonia europeia”; (2) “a “NATO europeia” “supera a Rússia em termos económicos, população e, por conseguinte, em poder militar latente”. Trump considera que a Europa deixou de ter capacidade de vir a ser um polo estratégico competidor dos EUA – seguramente que a destruição do Nord Stream e a dependência energética europeia dos EUA que se seguiu, muito contribuiu para isso -, e que a Rússia não atacará a Europa.

A leitura da ameaça russa feita por Washington diverge claramente daquela feita pelos dirigentes europeus, por sinal subscrita por largos setores do partido democrata. A concretizar-se essa possibilidade remota, Washington reserva-se a prerrogativa de intervir.

Uma «NATO 3.0»

Trump sabe que os europeus meteram na gaveta a ideia de uma Europa estrategicamente autónoma, apesar dos arrufos frequentes de Bruxelas nesse sentido. A não ser assim, a visão de Trump para a NATO e para a defesa europeia representaria uma oportunidade histórica para a Europa concretizar as aspirações de autonomia estratégica articuladas pelos seus fundadores e reiteradas em vários documentos estratégicos associados ao projeto europeu.

Recorrendo ao que se encontra previsto na NSS, e na então recentemente aprovada NDS, o subsecretário da guerra Elbridge Colby informou os europeus, na ministerial de defesa da NATO, em fevereiro de 2026, sobre algumas ideias fundamentais do que irá ser a política externa norte-americana. “Os Estados Unidos estão a dar prioridade às ameaças aos interesses norte-americanos mais importantes, especialmente no que respeita à defesa do território nacional e aos seus interesses no Hemisfério Ocidental, bem como ao reforço da dissuasão por meio da negação no Pacífico Ocidental.” Acrescentando, que “esta abordagem da «NATO 2.0» já não serve o seu propósito – certamente não para os Estados Unidos”.

Nesta nova NATO que Colby apelidou de “NATO 3.0”, “o que é necessário é… algo muito mais próximo da «NATO 1.0» do que a abordagem dos últimos trinta e cinco anos. Esta «NATO 3.0» exige esforços muito maiores por parte dos nossos aliados para que estes assumam a responsabilidade principal pela defesa convencional da Europa.” “Nós, no Departamento da Guerra, continuaremos a preparar as nossas forças para cumprir a nossa parte nos termos do Art.º V, com a Europa a assumir a liderança na sua defesa convencional”. “Queremos parcerias, não dependências.”

Noutros tempos, estas declarações teriam sido interpretadas pelos europeus como uma oportunidade e não como um perigo.

Curiosamente, já em 1997 Brzezinski dizia algo muito parecido: “A unidade europeia exigirá que essa estrutura se adapte à nova realidade de uma aliança baseada em dois parceiros mais ou menos iguais, em vez de uma aliança que, para utilizar a terminologia tradicional, envolva essencialmente um hegemónico e os seus vassalos.”

“Olhando para o futuro, a promessa para 2026 e os anos seguintes é esta: uma NATO em que a Europa seja o principal defensor convencional do teatro de operações europeu, apoiada pelo poder estratégico e pelo alcance global dos Estados Unidos”.

Portanto, os EUA continuarão a desempenhar um papel vital na aliança, mas ajustando a distribuição de forças e a sua atividade no teatro europeu tendo os europeus de assumir custos que não assumiam do antecedente. “A Europa aumentará o seu contributo para a Aliança que continuará a ser liderada pelos EUA.”

Trump “apenas” pretende reduzir os custos com uma Organização que perdeu a utilidade do passado, transferindo esses custos para os europeus, mas sem prescindir da posição de liderança que os EUA sempre dispuseram. Trump nunca manifestou interesse em retirar o chapéu nuclear à Europa, como também não ameaçou retirar os meios de comando e controlo que disponibiliza para a NATO e que os europeus não dispõem.

A intervenção de Colby foi omissa relativamente a um possível emprego da NATO no Indo-Pacífico. A “NATO 3.0” que ele propõe assemelha-se mais à “NATO 1.0” do que à “NATO 2.0”, que ele refuta. Embora seja prematuro prospetivar o papel da NATO no Indo-pacífico, no momento em que este artigo foi escrito, parece que a Administração Trump não alimenta grandes ilusões sobre a sua utilidade nesse potencial teatro de operações. O que não significa que os EUA não possam vir a beneficiar da colaboração de alguns Aliados e parceiros da Aliança.

Apesar da exagerada ansiedade de alguns líderes europeus, tudo indica que os EUA não abandonarão a Europa. A defesa europeia continuará a efetuar-se no quadro da NATO e não em nenhuma instituição europeia alternativa. A tentativa de lançar o debate sobre a possibilidade de a NATO existir sem os americanos não passa de um exercício fútil e absurdo. Os EUA pretendem reduzir os seus gastos com a NATO, mas não pretendem reduzir o seu poder na Aliança, tencionando continuar a definir a sua agenda.

A prova do empenho norte-americano na defesa europeia é evidente. Na recente redistribuição de comandos da Aliança, os EUA cederam aos aliados europeus dois comandos de Forças Conjuntas, mas não prescindiram do SACEUR, o comando militar mais importante da NATO, o único de escalão estratégico militar e dos três comandos de componente.

Foi durante as Administrações Trump que foram desenvolvidos e consolidados dois conceitos fundamentais de atuação da Aliança, erigidos sob a supervisão de generais norte-americanos: em junho de 2020, o DDA (Deterrence and Defence of the Euro-Atlantic Area), com o objetivo de reformular a estratégia da Aliança após as alterações de segurança iniciadas com a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014; e a EFDI (Iniciativa de Dissuasão do Flanco Oriental), iniciada pelo comandante do Exército dos EUA na Europa e em África e do Comando Terrestre Aliado da NATO, que consiste em restabelecer a dissuasão por negação, através do reforço da defesa e da prontidão em todo o flanco oriental da NATO.

A peugada norte-americana na definição do futuro da Aliança, em particular no domínio militar, é demasiadamente forte para se poder alegar com credibilidade o seu abandono da Aliança. Não é verosímil aceitar que os EUA alguma vez fossem abrir mão de um ativo tão importante como a Europa, na prossecução do seu projeto de primazia global facilitando a intrusão de um rival, sabendo-se ser a geoestratégia o principal racional inspirador da sua ação externa.


Tenho vergonha dos líderes deste país

(Tita Broz, in Facebook, 05/11/2026, Revisão da Estátua)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há muitos anos que deixei de acreditar nos nossos líderes. Mas isto, agora,  ultrapassa tudo.

Falam de uma fábrica de drones com a Ucrânia. Falam de produção conjunta de armamento. E o nosso Presidente da República, António José Seguro, senta-se à mesa com Zelensky e assegura o “continuado apoio de Portugal“. Discutem drones. Discutem dinheiro. E ninguém fala do que isto significa para nós.

Do outro lado está um homem que, em nome da “defesa da democracia“, proibiu partidos de esquerda e socialistas na Ucrânia. Um homem que se rodeia de gente com índole nazi. Um homem que glorifica Stepan Bandera, colaborador dos nazis, responsável por pogroms e por um sonho de pureza étnica. Isto não é democracia. É a celebração de um legado fascista. E o nosso Presidente senta-se ao lado dele e discute armamento.

E não é só a vergonha moral. É o risco para Portugal.

A Rússia já avisou. A embaixada russa em Lisboa chamou a isto “escalada do conflito“. E Viktor Medvedchuk, o homem forte do Kremlin na Ucrânia, acusou Portugal e Espanha de produzirem drones e mísseis para atacar território russo e avisou que as indústrias de armamento na Península Ibérica podem tornar-se “alvos legítimos” de retaliação russa.

Leiam bem. Alvos legítimos.

Portugal, um país pequeno e periférico, está a ser colocado no mapa dos alvos russos. Por quem? Por um Presidente que não foi eleito para nos meter numa guerra. Por um governo que decidiu transformar o nosso país numa fábrica de drones para um conflito que não é nosso. E ninguém nos perguntou nada.

Já nos consideram “um dos países mais hostis da Europa“. Já rescindiram acordos militares connosco. A escalada já começou. E os nossos líderes fingem que não é nada connosco.

Não me venham com “defesa da democracia“. Isto não é defesa de nada. É colocar o nosso país em risco sem debate, sem escrutínio, sem perguntar aos portugueses se querem ser parte disto.

Portugal não é um alvo. Portugal não é uma fábrica de drones para guerras alheias. Portugal não tem de pagar as decisões de líderes que não nos representam.Tenho vergonha de ver o meu país arrastado para um conflito que não é nosso. Vergonha de ver os meus impostos a financiar uma indústria de guerra que pode trazer retaliações para o nosso território.

Enquanto estes senhores estiverem em Belém e em São Bento, a discutir drones e a apertar a mão a quem prende socialistas e idolatra carrascos, este país não terá descanso. E eu recuso-me a baixar a cabeça e a dizer que está tudo bem. Não está. E a vergonha não é minha. É deles.