Está na hora de sair à rua

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 12/06/2026, Revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

É triste ver a prostituição política do PSD… entregar a sua alma social-democrata para se agarrar ao poder, não para fazer reformas sérias, não para melhorar o país, mas para alimentar uma máquina de clientelismo 100 vezes pior do que tudo o que já vimos.

E é por isso que já não chega comentar. Já não chega assistir a isto como se fosse uma novela.

O que está a acontecer em Portugal é uma mutação política, a destruição do PSD enquanto partido social-democrata e a criação de uma máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores, dos mais fracos, dos mais pobres e dos mais fáceis de culpar. O PSD negoceia com o Chega o pacote laboral, negoceia a Prestação Social Única, acerta calendários para rebentar a Constituição, aprova uma lei migratória que permite deter menores — menores metidos na máquina administrativa de detenção do Estado —, aprova diplomas para perseguir bandeiras que simbolizam a igualdade que a própria Constituição devia proteger e, ao mesmo tempo, continua a fingir que existe uma linha vermelha.

Continua a fingir que governa, que resolve o SNS, que melhora a escola pública, que combate as rendas especulativas deste país…que melhora a vida de quem trabalha.

E quando um partido que dizia defender a democracia passa a depender da extrema-direita para mexer no trabalho, esmagar os mais pobres, domesticar símbolos de igualdade e desmantelar a Constituição, então não estamos perante política normal.

Estamos perante uma emergência democrática, daquelas que movem nações inteiras.

O PSD precisa de sobreviver em nome dos boys, dos lugares, das muitas Spinumvivas do país e dos interesses instalados. O Chega precisa de legitimação, de aparecer na televisão e de distribuir poder aos seus — enquanto mantém a massa entretida com TikToks.  A IL e os sectores mais neoliberais precisam de uma janela histórica para transformar direitos em custos, protecção social em suspeita e tirar a Constituição da frente das grandes fortunas.

Cada um oferece a sua parte. O PSD oferece a respeitabilidade institucional que já só existe no seu passado. O Chega oferece votos e ruído suficiente para distrair o povo com bandeiras, burcas, ciganos, casas de banho, fantasmas inventados e guerras culturais feitas à medida da taberna. A IL oferece o roubo, a exploração de quem trabalha e a destruição da sociedade em linguagem económica jovem, moderna e de business school — mas que na verdade anda a falhar desde os anos 80. No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e dar mais poder aos de cima.

E nós vamos ficar a ver? Vamos ficar sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por causa de pedaços de pano, enquanto as elites comem caviar e explicam na televisão que temos de ser “flexíveis”? Um país de chico-espertos, negócios imobiliários, criptomoedas, casinos online e turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis, enquanto os espanhóis nos vendem comboios?

Está na hora de todos os sociais-democratas verdadeiros, de todos os socialistas democráticos, de todos os democratas, de todos os trabalhadores, de todos os que acreditam que um país não é uma quinta privada dos poderosos, saírem à rua.

O pacote laboral é a primeira frente.Flexibilidade? Dizem eles… Palavra neutra que na verdade significa trabalhador mais descartável, despedimento mais fácil, sindicatos mais fracos, vida das famílias mais insegura. Quando o trabalhador fica sozinho, o salário não sobe. A precariedade aumenta. O medo entra nas casas. E quem trabalha aprende a agradecer migalhas como se fossem conquistas.

A Prestação Social Única é a segunda frente. Juntar prestações sociais podia ser uma boa ideia. Nas mãos deste Governo, simplificação tornou-se vigilância, punição e populismo barato para quem acha que é tudo malandro a viver de subsídios.

O que vemos não é só cortar apoios — é humilhar quem precisa deles…incluindo crianças — é ensinar os pobres a ficarem submissos. O beneficiário deixa de ser alguém empurrado por salários baixos, rendas impossíveis, doença, toxicodependência, saúde mental ou exclusão. Passa a ser tratado como preguiçoso que deve ser castigado e vigiado. E por isso o pobre deve trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem direitos. Mão-de-obra gratuita para os de cima, em troca de um valor que não chega ao ordenado mínimo.

Até a miséria pode ser capitalizada pelos poderosos. É a mesma lógica que agora vende reclusos a limpar florestas como se fosse uma grande solução nacional.  O trabalho prisional já existia. A floresta não se resolve com performance penal para telejornal e redes sociais. Isto serve sobretudo para alimentar a fantasia taberneira de ver “criminosos” postos a trabalhar, enquanto se evita falar de ordenamento do território, abandono rural, lucro fácil e Estado ausente.

O Chega entra aqui com a função que melhor sabe desempenhar… Transformar uma reforma social em mais uma performance para o tik tok. Enquanto se prepara trabalho mais barato, pobres mais vigiados e Constituição mais domesticada, inventa-se uma ameaça em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza uma coisa tão simples como igualdade de direitos independentemente de quem amas ou de quem és, passa a ser tratada como perigo ideológico.

Como se a igualdade fosse uma provocação. Como se direitos humanos fossem propaganda. Como se a Constituição não dissesse, no seu espírito mais básico, que ninguém pode ser diminuído por existir de forma diferente.

É assim que se distrai o povo dos problemas reais: salários baixos, rendas impossíveis, SNS em rutura, escola pública cansada, custo de vida a disparar e trabalhadores esmagados. Dão-lhes uma bandeira para odiarem enquanto lhes roubam o futuro.

E em Lisboa vê-se o mesmo desprezo social…Moedas prepara cortes nos apoios às refeições escolares, podendo obrigar milhares de famílias a pagar mais pela comida dos filhos, enquanto há dinheiro público para piqueniques de luxo, eventos chiques e negócios bem instalados. Até a comida das crianças entra na conta da austeridade, desde que os de cima continuem bem servidos.

A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave.

A Constituição portuguesa ainda guarda a memória de que democracia não é apenas votar. É escola pública, saúde pública, direitos laborais, proteção social, habitação e limites ao poder económico. Para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um incómodo que querem apagar. Querem uma Constituição menos social, menos antifascista, mais compatível com um país onde o mercado manda e o Estado castiga — e onde os mais pobres são ensinados a culpar bandeiras arco-íris, burcas, ciganos, imigrantes. Qualquer coisa menos quem lhes rouba o salário, a casa e a dignidade.

A coligação Spinumviva–PSD–CDS–IL–Chega simboliza a nova direita…  A nova direita que favorece os que ganham 10.000 euros por mês enquanto diz aos que ganham 1.000 euros que a culpa de tudo é do “malandro” que recebe 200 euros.

É essa a obscenidade política do momento. E é por isso que temos de sair à rua. Porque quando a televisão transforma isto em algo “debativel”, quando os jornais fecham o enquadramento, quando os comentadores de sempre fingem que isto é apenas “governabilidade”, alguém tem de dizer basta.

Uma manifestação tão grande, tão clara, tão impossível de ignorar, que nem as televisões com os seus planos fechados, nem os jornais com as suas manchetes domesticadas, nem os comentadores todos do mesmo lado consigam fingir que não viram.

O PSD está a prostituir-se politicamente ao Chega não porque concorde com todos os seus delírios, mas porque aceita depender deles. E quem aceita depender da extrema-direita acaba sempre por lhe pagar renda ideológica.

Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores. Depois cede na Constituição. Quando dá por si, já não está a usar o Chega.TORNOU-SE CHEGA.

O Chega, por sua vez, não precisa de governar formalmente para vencer. Aliás, governar seria o fim do Chega — e o desastre final do país. Para eles basta contaminar o debate, fazer ruído para aparecer nas televisões.

Basta obrigar o PSD a falar como eles. Basta transformar pobres em inimigos, imigrantes em ameaça, menores em detidos, reclusos em propaganda, crianças em custo municipal, direitos em privilégios, sindicatos em entraves, igualdade em ideologia, Constituição em problema e democracia em espectáculo de ódio e gritaria permanente.

Portugal está perante uma aliança de conveniência entre neoliberalismo e populismo punitivo. O neoliberalismo trata da parte material: reduzir direitos, baratear trabalho, fragilizar o Estado social e abrir espaço ao negócio privado. O populismo trata da parte emocional: produzir inimigos, espalhar paranoia, alimentar fobias e convencer quem sofre que o culpado não é quem explora, mas quem está ainda mais abaixo.

É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras, alimentados por algoritmos, televisões e comentadores a explicar aos pobres que têm direitos a mais — e na carroça, bem sentados, os bilionários a rir.

A pandemia não pôs este país de joelhos. A guerra não pôs este país de joelhos. A crise inflacionária não pôs este país de joelhos. Mas este tsunami de extrema-direita taberneira, neoliberalismo de business school, clientelismo, ódio organizado e destruição social está a rebentar com o país por dentro.

E desta vez não são os bancos que estão em risco. És tu. É o teu salário. É a tua renda. É o teu contrato. É a tua escola pública. É o teu hospital. É a tua reforma. É a tua Constituição. É a tua vida.

No fim, a pergunta decisiva é sempre a mesma: quem ganha? Ganha o trabalhador que fica mais protegido? Não. Ganha o pobre que passa a viver com mais dignidade? Não. Ganha o imigrante que trabalha, desconta e é usado como bode expiatório? Não. Ganha quem tem uma renda da casa impossível de pagar? Não. Ganha o doente que precisa de uma cirurgia? Não. Ganha quem só quer viver com os mesmos direitos, sem ser usado como boneco numa guerra cultural? Não. Ganha a democracia constitucional, social e plural? Não.

Ganham os de cima. Ganha quem quer trabalho mais barato, Estado social mais fraco, pobres disciplinados, sindicatos enfraquecidos, Constituição domesticada e uma população entretida com ódio, bandeiras, performances e inimigos imaginários enquanto a riqueza continua a subir para o topo.

É por isso que esta não é apenas uma disputa parlamentar. É uma disputa sobre o tipo de país que vai sobrar. Uma democracia social, com direitos e dignidade? Ou uma sociedade de castigo, medo e obediência, onde os pobres trabalham sem salário, os trabalhadores vivem sem segurança e os poderosos governam por trás da cortina, enquanto os seus porta-vozes atiram paranoias, mentiras e inimigos inventados para a arena mediática?

Está na hora de sair à rua. Não para defender um partido.  Não para salvar uma bandeira. Mas para defender a ideia simples de que um país não pode ser governado contra quem trabalha, contra quem é pobre, contra quem precisa, contra quem não tem voz, contra quem ama de forma diferente, contra quem existe fora da norma que eles querem impor.

Está na hora de uma manifestação que diga, sem ambiguidades: Não aceitamos que transformem Portugal numa máquina de castigar pobres, explorar trabalhadores, perseguir símbolos de igualdade e servir elites.

Porque desta vez não estão só a brincar com governos. Estão a mexer na vida de todos nós. E chega uma altura em que o povo percebe que foi enganado — e nessa altura ele não perdoa.

A Prestação Social e os Parasitas

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 12/06/2026, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Creio que posso explicar num segundo o que significa a prestação social única deste Governo, e como ela pode fazer ajudar a garantir os juros dos investimentos de alguém como Palma Ramalho, Ministra do Trabalho, ou da venda e compra de imobiliário de Montenegro, sem que ambos tenham de trabalhar um único dia da vida deles.
Nas sociedades saudáveis só os velhos, crianças, e doentes não trabalham. Porque o trabalho deve ser dividido por todos. Era assim, mais ou menos, até ao capitalismo, quando surgiu a figura do “desempregado”, esse desconhecido até ao século XIX. O desempregado é aquele que garante que o empregado tem medo de perder o emprego, e por isso aceita piores salários. Também, nas nalgumas sociedades, antes do capitalismo, havia o cuidado com os doentes, idosos. Quanto mais idoso mais bem tratado era. No capitalismo quando mais doente ou idoso – já não é “produtivo” – mais abandonado deve ficar, se for das classes trabalhadoras. Os idosos ricos têm trabalho social especializado.

Ora, aqui vai telegraficamente:
1 – se há trabalho social a fazer, como diz o Governo, contratam-se pessoas e paga-se bem. Se se pagar mal, apenss o salário mínimo, são 1600 euros (dos quais 800 líquidos vão para o trabalhador directamente e o resto para a sua reforma, doença, etc).

2 – A proposta da AD, Chega, IL – e da UE – é que se contrate quem tem um subsídio, de 300, 400 ou 600 euros, ou seja, cortar para menos de metade o salário mínimo nacional. O lar privado ou do Estado passa agora a ter empregados por 400 euros. O que sobra deste corte de mais de metade do salário pode ser investido em guerra, ou a remunerar os investidores em juros da dívida pública.

3 – As prestações sociais não são, na sua maioria, “não contributivas”, mentem-nos com todos os dentes – são desempregados que ficaram doentes aos 50 anos, que contribuíram 20 ou 30 anos, gente que ficou sem casa, desmoralizados, ou pessoas que sempre foram doentes. Não são preguiçosos ou arrivistas, como por norma são os filhos de accionistas, netos de banqueiros, especuladores ou políticos profissionais.

4 – O trabalho social não é desqualificado. Algo que qualquer um pode fazer. São terapeutas ocupacionais, psicólogos, terapeutas da fala, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas – tudo isto, altamente qualificado para cuidar de idosos acamados, esquizofrénicos, gente que não pode andar por maleitas do trabalho, bebés que nasceram com paralisia cerebral.
O que a AD-Chega propõe, é que desempregados pagos abaixo do salário mínimo sem qualificações passam a cuidar de idosos e doentes. É repugnante.

A proposta vem de Palma Ramalho e de Montenegro, Ramalho tem um património de 5 milhões de euros. Que, se estiverem todos no banco, sem ela fazer nada – zero, nestum – recebe no final do ano 75 mil euros em juros! Ou seja, 6 250 euros por mês. Leram bem, mais de 6 mil euros por mês sem nunca trabalhar!

Como, no capitalismo, só o trabalho real produz valor, alguém vai ter de produzir 75 mil euros para os entregar a pessoas como Ramalho. E pode ser uma operária por turnos, despedida com hérnias discais, obesa da má alimentação, deprimida, por ter perdido a casa, aos 50 anos de idade. Esta operária é tratada como parasita na lei da AD e do Chega. Palma Ramalho como uma Sraª Ministra digna.

5 – Acresce algo ainda mais grave – doentes e idosos são os mais vulneráveis a abusos sexuais e maus tratos. Com o trabalho ocasional, degradado, pode haver uma tendência para os tratar mal, e ninguém dá por isso.

6 – Em suma, isto significa: cortes de salário, trabalho forçado (por todas as definições legais e históricas), e abandono de idosos e doentes, com acréscimo de maus tratos. Eis a lei da Prestação Social Única.

Devia responder-se a isto com uma greve conjunta do sector social. Que há muito se deviam unificar numa única organização sindical – façam um grande encontro nacional, unifiquem-se – que questione esta medida de barbárie, mas também as condições de trabalho nas misericórdias, os esquemas de instituições religiosas nos cuidados, que ocuparam o lugar abandonado pela segurança social, e que distribuem tachos aos partidos de direita e extrema direita, que sempre adoraram um pobrezinho, doente, de mão estendida. É a caridade. Afinal, como podia haver alguém com 5 milhões de património se não existissem muitos pobres a pagar a conta?

PS: às maquinas/bots do Chega que aqui vêm sem dar a cara insultar-me perguntando “se se permite uma professora marxista paga por uma Universidade pública” eu escrevi este artigo gratuitamente, como os que aqui escrevo diariamente, em geral às 6 da manhã; a investigação que faço na Universidade devolvo-a em conhecimento a toda a sociedade, é isso que faz um intelectual público, oferece ideias e conhecimento, de rosto à vista; e ainda pago e com alegria, mensalmente, uma quota para o Jornal MaioMaio e outra anual para a Associação Científica que ajudei a fundar, o Observatório para as Condições de Vida – OCV. E sempre que os trabalhadores me pedem ajuda a organizar uma greve eu ajudo, pro bono, com todo o saber que estudei de greves passadas. Contam comigo, trabalhadores e desempregados, idosos e doentes. É a solidariedade. Bem unidos, façamos.

E pode ver também o artigo abaixo sobre o mesmo tema no jornal Maio.

Mundial nos EUA transforma festa do futebol em vitrine de exclusão e vigilância

(Por Verbena Córdula, in Diálogos do Sul, 11/06/2026)


A deportação de um árbitro somali e as denúncias de gentrificação, vigilância e exclusão mostram como a Copa de 2026 convive com estruturas que hierarquizam povos, territórios e formas de circulação.


Copa do Mundo de Futebol é apresentada como uma das poucas experiências verdadeiramente universais da contemporaneidade, um momento em que nações inteiras suspenderiam suas diferenças para compartilhar a mesma emoção diante do futebol.

pngtree the world cup trophy png image 21077521
.

FIFA constrói essa narrativa com disciplina quase monástica — apoiada por campanhas publicitárias, cerimônias de abertura e discursos oficiais que insistem na ideia de que o esporte seria um território capaz de produzir união onde antes haveria apenas conflito.

Entretanto, quando observamos o que se acumula ao redor desse espetáculo ao longo das décadas, torna-se difícil sustentar essa imagem sem ignorar o que acontece fora do enquadramento das câmeras. E agora, em 2026, não é diferente.

Mas algumas perguntas precisam ser feitas. Que tipo de união é possível quando as fronteiras permanecem abertas para investidores e patrocinadores enquanto trabalhadores, migrantes e cidadãos de determinados países são tratados como suspeitos? Que universalidade existe em um evento que depende de um sistema internacional profundamente desigual? Que fraternidade pode ser construída sobre estruturas que reproduzem discriminações históricas?

Vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias

Desde que a Copa se transformou em um megaevento global plenamente integrado à lógica corporativa e estatal contemporânea, ela passou a funcionar como uma poderosa engrenagem de reorganização dos espaços urbanos e das relações sociais nos países-sede. O que se anuncia como festa frequentemente se materializa como um processo de reestruturação acelerada de cidades inteiras, no qual interesses econômicos, políticos e imobiliários se sobrepõem às necessidades concretas das populações que ali vivem.

A promessa de desenvolvimento — repetida em cada edição — costuma vir acompanhada de endividamento público, flexibilização de leis urbanísticas e expansão de dispositivos de vigilância. E também de intensificação do controle policial sobre territórios considerados estratégicos para o espetáculo.

As perguntas que fiz acima ajudam a explicar por que os movimentos contra a Copa se expandiram para além das críticas tradicionais aos gastos públicos e às obras urbanas. É nesse contexto que se evidenciam, de forma recorrente e em diferentes continentes, movimentos de resistência à Copa do Mundo e à própria FIFA enquanto instituição. E esses movimentos não podem ser reduzidos a uma única identidade política, pois reúnem desde organizações de moradores ameaçados por remoções até coletivos feministas, sindicatos, grupos antirracistas, organizações indígenas e iniciativas ecologistas.

Da Olimpíada nazista à Copa do mundo dos EUA, a neutralidade do esporte volta a encobrir violência

O que os conecta não diz respeito a uma oposição abstrata ao futebol, mas à percepção concreta de que o megaevento funciona como vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias sociais já existentes. Suas denúncias conectam o futebol-espetáculo a questões mais amplas — como colonialismo, racismo estrutural, destruição ambiental, violência de gênero, militarização dos territórios e concentração de riqueza. Essa crítica se fortalece quando observamos a repetição de padrões ao longo das edições da Copa do Mundo.

Agora, em 2026, no México, por exemplo, organizações feministas e coletivos de familiares de desaparecidos lembram que a chegada da Copa ocorre em um país marcado por uma crise humanitária permanente.

Omar Abdulkadir Artan seria o primeiro árbitro da Somália a apitar uma Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram Omar Abdulkadir Artan
Omar Abdulkadir Artan seria o primeiro árbitro da Somália a apitar uma Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram Omar Abdulkadir Artan

Em diversas regiões, mães continuam procurando filhos desaparecidos enquanto autoridades investem recursos na construção da imagem internacional do país. Em comunidades indígenas, persistem conflitos ligados à exploração econômica dos territórios. Em áreas urbanas, moradores denunciam processos de gentrificação associados à preparação para o megaevento.

Esses movimentos demonstram que a Copa não funciona como um evento isolado. Ela deve ser lida como um dispositivo de reorganização de relações de poder em escala transnacional, pois mobiliza recursos públicos e privados, redefine prioridades estatais e constrói uma imagem cuidadosamente administrada dos países-sede para consumo global.

Nesse processo, a FIFA atua como um centro de poder capaz de negociar diretamente com governos, influenciar políticas públicas e impor exigências estruturais. Isso tudo evidencia o distanciamento entre a narrativa de neutralidade esportiva e as condições materiais que tornam o espetáculo possível.

A preparação para a Copa de 2026 — organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá — tornou visível o papel das fronteiras e dos regimes migratórios na definição de quem pode participar efetivamente daquilo que é anunciado como um evento que une povos.

O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan — reconhecido internacionalmente e selecionado para atuar no torneio, mas impedido de entrar nos Estados Unidos e posteriormente deportado, apesar de sua credencial oficial — tornou-se emblemático por escancarar que nem mesmo a condição de agente diretamente integrado à estrutura da Copa garante mobilidade plena dentro do sistema que a sustenta.

A justificativa baseada em procedimentos migratórios internos do país anfitrião foi aceita pela FIFA sem contestação significativa, evidenciando os limites de sua autoridade quando confrontada com regimes estatais de controle fronteiriço.

Legitimador de concentração de poder e [re]produtor de desigualdades

Mas esse episódio não é o único. Ele está contido em um contexto de revistas excessivas, constrangimentos administrativos e tratamento diferenciado enfrentado por delegações, jornalistas e profissionais oriundos de países africanos e do Sul Global durante o processo de preparação do torneio. Ainda que essas práticas sejam frequentemente apresentadas como “questões burocráticas” ou “de segurança”, elas reforçam uma assimetria estrutural que contrasta diretamente com o discurso de inclusão global promovido pela organização.

 Copa do Mundo
Aymen Hussein jogador do Irã foi interrogado por 7 horas ao entrar nos EUA para disputar a Copa do Mundo

A ideia de uma Copa do Mundo aberta a todos os povos torna-se, nesse contexto, uma abstração que convive com sistemas concretos de filtragem, hierarquização e controle de circulação baseados em nacionalidade, origem e posição geopolítica.

Sendo mais enfática, parece-me uma piada de mau gosto. Essa coexistência entre discurso universalista e prática seletiva legitima a crítica à FIFA e ao modelo de megaevento esportivo que ela representa. Para os movimentos que se opõem à Copa, não se trata tão somente de questionar custos financeiros ou impactos urbanos.

A intenção é evidenciar o futebol — ao ser incorporado plenamente à lógica corporativa global — como legitimador de processos mais amplos de concentração de poder e de [re]produção de desigualdades.

A celebração do espetáculo não elimina esses problemas, como querem pensar muitas pessoas; ao contrário, frequentemente os encobre sob a estética da festa, da emoção compartilhada e da identidade nacional temporariamente reativada.

Mas é preciso ressaltar que a crítica à Copa não se confunde com uma rejeição ao futebol enquanto prática social. Em diversos contextos surgem iniciativas que buscam recuperar o esporte como experiência comunitária, desvinculada da mediação corporativa e das estruturas de mercado que caracterizam o futebol de elite.

Campeonatos populares, ligas autogeridas e projetos esportivos de base expressam a tentativa de reinscrever o jogo em circuitos locais de sociabilidade, nos quais o futebol não é mercadoria, e sim prática coletiva.

Essa dimensão é central para que possamos compreender que o conflito não se dá entre o futebol e seus opositores, mas entre diferentes formas de organização e apropriação de uma prática enraizada nas classes populares.

Precisamos não perder de vista que a Copa do Mundo concentra fluxos financeiros globais, reorganiza territórios, intensifica regimes de controle e, ao mesmo tempo, mobiliza afetos e identificações profundas em escala planetária. E que essa combinação entre emoção coletiva e estrutura de poder torna possível a sua permanência como espetáculo global, mesmo diante das denúncias reiteradas que a acompanham há décadas.

E devemos ressaltar que os movimentos contra a Copa querem lembrar que essa festa não é igualmente vivida por todas as pessoas que dela participam — seja como espectadoras, trabalhadoras ou habitantes das cidades que a tornam possível; que, em vez de uma suspensão temporária das desigualdades, o evento frequentemente funciona como um mecanismo que as reorganiza e, em muitos casos, as intensifica sob novas formas.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.