A barbárie que nos governa… e triunfa (2)

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 11/03/2026, revisão da Estátua)


Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O mundo está no fio da navalha ou, se preferirem em linguagem circense, é como um funâmbulo em cima de uma corda a tremer em todas as direcções sabendo que lá em baixo não existe qualquer rede. De um lado, as poucas vozes de dirigentes e de instituições internacionais a tentar fazer valer o senso comum que ainda resta; do outro, o abismo, o caminho aberto para a generalização do terror que está a ser percorrido pelo chamado «Ocidente colectivo» ou a «nossa civilização», com a demência do imperial-sionismo à cabeça.

O Irão resiste e contra-ataca, ainda capaz de demonstrar que a farronca não vence guerras, enquanto os protagonistas mundiais desta tragédia injustificada continuam convencidos de que a sua imagem de escolhidos de Deus chega para dizimar os bárbaros e hereges.

Não tenho simpatia pelo regime iraniano, como sou naturalmente avesso a qualquer política confessional, seja na Arábia Saudita e outras petroditaduras do Golfo, em Israel e mesmo nos Estados Unidos. No entanto, os governos ocidentais são bastante selectivos. O que é odioso nuns lados é tolerado ou mesmo elogiado noutros; o «Irão dos ayatollahs« é o inimigo, mas o fascismo sionista, tal como o terror saudita, são amigos, representam-nos bem, tanto no mundo da política como dos negócios. É a conhecida política de dois pesos e duas medidas que o triste Josep Borrell, quando era o chefe da diplomacia da União Europeia, considerou apropriada para defender os nossos  interesses e necessidades.

O Irão ainda não foi derrotado nesta ofensiva, apesar de o seu dirigente espiritual, o ayatollah Khamenei, ter sido assassinado. Não se escondeu e continuou a trabalhar, sob os cobardes ataques, no seu gabinete de sempre. Partilhou o sacrifício com o seu povo.

Para demonstrar a imensa perspicácia de Trump e seus mastins recorda-se que foi Khamenei quem emitiu a «Fatwa», uma directiva religiosa de cumprimento obrigatório, que rejeita a posse de armas nucleares pelo Irão. O Ocidente acaba de abater um dirigente que se opôs às armas de destruição massiva, o que demonstra, por outro lado, que a invocação da questão nuclear sempre foi um pretexto e não correspondia a uma preocupação real. 

O sacrifício de Khamenei tornou-o um mártir e, fruto dos óculos de cortiça usados pelo mundo ocidental, que nunca se engana e tem a razão sempre do seu lado, provocou efeitos contrários aos desejados pelos criminosos. O povo desceu às ruas às centenas de milhares, em muitas cidades, embora a media globalista apenas tenha canetas, microfones e câmaras para registar os movimentos da oposição. O magnicídio em Teerão teve também como resultado o endurecimento das posições dominantes do regime, elevando os níveis de decisão da Guarda Revolucionária e contribuindo mais para unir do que desagregar. A escolha de Mojtaba Khamenei, filho do dirigente assassinado, como novo líder espiritual, desloca claramente o regime em direcções menos moderadas.

O grande xadrez euroasiático

O primeiro-ministro da República Portuguesa, Luís Montenegro, coitado, declarou-se surpreendido  com o início dos ataques contra o Irão. Das duas uma: ou está a mentir, actividade em que é mestre, para tentar esconder a mais do que exposta incapacidade de gerir o país, sobretudo em situações de catástrofe como os incêndios, as cheia ou as guerras; ou não anda neste mundo e não percebe nada do que se passa à sua volta, pelo que não é mais do que o homem errado no lugar errado.

A relação de forças internacional a que chegámos 35 anos depois da implosão da União Soviética, uma espécie de impasse entre o velho domínio ocidental, imposto através da totalitária e arbitrária «ordem internacional baseada em regras» e a afirmação crescente de uma ordem multipolar, tem a Eurásia como o cenário geoestratégico decisivo, a encruzilhada entre os dois caminhos. E, dentro da Eurásia, o Irão é o nó que precisa de ser desatado para quebrar o impasse.

O Irão é um país imenso, com quase cem milhões de habitantes e mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados, uma área superior à do conjunto da Espanha, França e Suécia, três dos cinco países europeus com maiores dimensões, a seguir à Rússia e à Ucrânia.

O Irão, porém, representa muito mais do que isso. É, desde sempre, uma ponte civilizacional, cultural e comercial entre a Ásia Oriental e Central e a Ásia Ocidental ou Médio Oriente, que abre os caminhos para as regiões ocidentais da Eurásia. No território iraniano coexistem culturas milenares de vários povos, etnias e tribos, formando um mosaico riquíssimo e de saber profundo, desenvolvido desde muito antes do Império Persa e que a cultura ocidental plastificada é incapaz compreender. Daí que a corrompida casta governante neoliberal tenha, para sermos rigorosos, um enorme complexo de inferioridade em relação ao velho e gigantesco país. Um complexo que tenta combater com base na arrogância, na manipulação propagandística e em pretextos inventados para consumo público, a que se agarra desesperadamente de maneira a tentar submeter o Irão à «ordem internacional baseada em regras». 

Esqueçam as lágrimas de crocodilo que Trump e os seus submissos seguidores, da Ucrânia a Portugal, do Reino Unido à Austrália, passando pelo Canadá, vertem pelas «vítimas» do «regime dos ayatollahs» e a situação do povo iraniano. Nada disso os preocupa, como demonstra o estado devastador em que se encontram os países da região agraciados com o proselitismo da «democracia ocidental» ou «liberal», transportada nas ogivas de milhões de toneladas de mísseis, com a colaboração dos carrascos ao serviço da al-Qaida. O que logo se percebeu pelo assassínio de 165 meninas na escola primária feminina de Sharajeh Tayyebeh Minab, ao que dizem devido a um «engano» do sistema de inteligência artificial a quem as forças armadas dos Estados Unidos decidiram entregar a «escolha dos alvos». O «lapso» de pontaria dos mísseis assassinos aconteceu mais ou menos na altura em que Melania Trump, a «primeira-dama» norte-americana, dirigia nas instalações da ONU uma reunião dedicada ao «problema das crianças em conflito». 

As inocentes alunas da escola abatidas por esta agressão «libertadora», que pretende salvar os iranianos «do jugo dos ayatollas», como explica o genocida Benjamin Netanyahu, não devem considerar-se abrangidas pela inquietação da senhora Trump e pelo humanismo próprio da «nossa civilização». Na verdade, graças a esse acto piedoso o mundo ficou livre de 165 «hereges» e potenciais terroristas. Voltando a citar aquele que, segundo membros da administração Trump, é o verdadeiro comandante em chefe desta operação, o primeiro-ministro sionista, a liquidação de recém-nascidos e crianças palestinianas em geral é uma actividade legítima porque um palestiniano – e agora um iraniano – «já é um terrorista quando nasce».

O Irão está, de facto, a ser atacado porque é uma peça essencial no «Grande Jogo de Xadrez» definido em livro pelo falecido «ideólogo» norte-americano Zbigniew Brzezinski, antigo secretário de Estado da Administração Carter e discípulo do criminoso Henry Kissinger. Segundo ele, quem governa a Eurásia governa o mundo e, deduz-se, quem dominar o Irão domina a Eurásia… e o mundo.

Ou seja, o Irão é um obstáculo a remover pelo colonialismo-imperialismo-sionismo ocidental porque desafina a engrenagem da «ordem internacional baseada em regras», atravanca o avanço do globalismo totalitário e, não menos importante do ponto de vista geoestratégico, tem conseguido fechar os caminhos para a construção do Grande Israel.

Não tenhamos dúvidas: a guerra pelo controlo ocidental do Irão demonstra que o desumano globalismo e o poderoso sionismo mundial são faces de uma mesma moeda e alavancas interligadas da expansão imperial. 

O Irão tem resistido, continua a resistir e explora todas as possibilidades para não ser derrotado. Fechou o Estreito de Ormuz e lançou a instabilidade militar nas petroditaduras do Golfo que albergam bases militares dos Estados Unidos. E que, por via disso, se transformaram em instrumentos do poder sionista no interior do mundo árabe. Os militares iranianos têm conseguido desactivar, um após outro, todos os radares estratégicos montados pelos Estados Unidos na Ásia Ocidental, incluindo o que protege a V Esquadra norte-americana, estacionada no Bahrein. O que acontece apesar de Trump, Netanyahu e os seus caniches europeus – com a honrosa excepção de Pedro Sanchez – garantirem, com todo o orgulho e esplendoroso humanismo, que o Irão está a ser derrotado. 

A propaganda de guerra, porém, esconde outras realidades, as adversas. Na verdade, Israel, as bases norte-americanas na Ásia Ocidental e as tropas imperialistas têm demonstrado algumas vulnerabilidades, sobretudo devido às falhas, à insuficiência e à incapacidade de repor os sistemas de defesa antiaérea,  que têm manifestado mais fama do que eficácia.

Experientes militares norte-americanos na reserva não se coíbem de garantir que os Estados Unidos têm limites temporais para conduzir uma guerra de desgaste como esta, porque a canalização de material de guerra para a Ucrânia delapidou gravemente os arsenais que permitiriam eternizar o conflito até à hipotética rendição do Irão. Os mesmos peritos militares não estão certos de que os Estados Unidos consigam suportar uma guerra de desgaste durante mais tempo do que o Irão.

O significado da resistência iraniana

O Irão resiste. O que é bom, fundamental mesmo, para o mundo em geral. Não porque o Irão tenha um regime elogiável – o confessionalismo, repete-se, é a desvirtuação da política – mas porque é um país independente, decide por si próprio, é o único apoio externo institucional que resta ao martirizado povo palestiniano e não se verga ao poder e às ordens ocidentais.

É bom que o Irão resista porque é um pilar da multipolaridade internacional em desenvolvimento. Desempenha um papel insubstituível no desenho de novas rotas de transportes e comerciais alternativas às da velha ordem imperial, as que se baseiam na Iniciativa Cintura e Rota, ou Nova Rota da Seda lançada pela China e na qual participam já mais de uma centena de países. Combater a criação de rotas alternativas é hoje um objectivo prioritário da clique dirigente ocidental.

O Irão integra ou está associado a organizações que defendem um novo tipo de cooperação internacional, igualitária e não de submissão, como a Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS, a citada Nova Rota da Seda, a União Euroasiática, que têm em comum a defesa da vigência plena do Direito Internacional e a desactivação da «ordem internacional baseada em regras» – o que seria um grande favor para os desprotegidos povos dos países ocidentais.

A derrota do Irão e consequente nomeação dos novos dirigentes por Donald Trump, a sua maior obsessão actual, acompanhada com júbilo pela estrutura depravada que governa o mundo ocidental, seria um obstáculo à acção dos BRICS e de outras organizações internacionais igualitárias orientadas pelo Direito Internacional.

Esta derrota significaria a abertura imediata do caminho para a Construção do Grande Israel, porque o Irão «ocidentalizado» deixaria de ser um estorvo e, além disso, governos de países como a Síria, o Iraque, o Líbano e o Egipto (sem contar com a martirizada Palestina) não estão em condições nem os seus dirigentes possuem a vontade necessária para combater o domínio da Ásia Ocidental pela aberração do colonialismo sionista, como braço fundamental do imperialismo.

Sendo o sionismo, além disso, uma grande potência nas áreas das finanças, dos media e do entretenimento anestesiadores do chamado «grande público», o seu triunfo seria um passe de gigante na construção do globalismo totalitário, no qual as pessoas não seriam mais do que instrumentos descartáveis. 

Esta guerra ocidental contra o Irão contribuiu também para decifrar um pouco a intrincada associação entre o regime dos Estados Unidos e o sionismo, uma vez que, segundo declarações do secretário de Estado, o fascista Marco Rubio, e do próprio Trump, Washington avançou para a acção militar porque, mesmo que não o fizesse, Israel iniciaria a guerra. E o imperialismo não se poderia dar ao luxo de permitir a derrota do sionismo. Deste modo ficámos a conhecer mais um pouco sobre o mistério de quem manda em quem na aliança Trump-Netanyahu.

Um imenso Irão «ocidentalizado», incrustado como um cancro na Eurásia, seria mais uma machadada no Direito Internacional, uma catástrofe para a construção de uma nova ordem internacional nele baseada e um triunfo geostratégico gigantesco para a «ordem internacional baseada em regras». Este conjunto de circunstâncias iria criar um cenário de base para a construção do globalismo neoliberal em forma de fascismo, de modo a generalizar o poder totalitário do dinheiro e o desprezo absoluto pelas entidades nacionais e pelo ser humano. A China e a Rússia ficariam mais vulneráveis nessa situação, uma vez que a Índia, através do ditador Modri, foi neutralizada imediatamente antes da guerra durante a visita deste a Israel e na qual o genocida Netanyahu o recebeu como um «irmão».

A alternativa entre a construção de uma nova ordem internacional e o triunfo do terror imperialista joga-se em torno do futuro do Irão, o qual, por essa razão, tem um alcance geoestratégico decisivo. A vitória do fascismo de Trump, arrastando com ela todo o mundo ocidental, representaria a agonia da Venezuela – Cuba está no horizonte – e, ironia das ironias, da Dinamarca, neste caso através da anexação da Gronelândia.

Iria garantir também o prosseguimento da conquista imperial de sucessivos países que, não tendo capacidade para entrar no confronto directo, ousem tentar resistir ao diktat de Washington. Então, a guerra, a demência, a irresponsabilidade e a arbitrariedade seriam as únicas leis em vigor no mundo.

Se os cidadãos de todo o mundo não acordarem, continuarem hipnotizados pela propaganda de guerra e a campanha de calúnias contra o Irão, que já entraram no domínio da mentira pura, o futuro imediato do mundo será o agravamento do terror imperial, ancorado na depravação colonial sionista, além da inevitável concretização de uma aniquiladora Terceira Guerra Mundial.

Eis, portanto, o que se joga em torno da dicotomia entre a resistência do Irão e a anulação da sua independência como grande nação euroasiática.

(2) Segundo e último artigo da série A barbárie que nos governa… e triunfa, sobre a situação actual no Médio Oriente. O primeiro pode ser lido aqui.

O vestido que abalou a civilização ocidental

(Luís Rocha, in Facebook, 10/03/2026, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Portugal acordou em sobressalto. Não foi um terramoto, nem uma crise financeira, nem sequer uma daquelas crises governativas que brotam como cogumelos no outono. Não. Desta vez a República foi confrontada com algo muito mais grave. O preço de um vestido.

Sim, um vestido. A peça de tecido que Margarida Maldonado Freitas, empresária, farmacêutica e mulher de um Presidente recém-empossado, teve a ousadia de vestir na cerimónia. Um acto escandaloso que obrigou a imprensa especializada em assuntos de elevada gravidade nacional, como decotes, pulseiras e destinos de férias de celebridades, a mobilizar os seus mais experientes analistas têxteis.

A investigação começou como todas as grandes investigações jornalísticas. Com um zoom numa fotografia e uma busca no Google. Pouco depois surgiu a manchete: “Descobrimos o vestido!”. Um trabalho hercúleo digno de Watergate, mas com muito mais seda e muito menos Nixon.

A partir daí abriu-se um debate profundo sobre a democracia portuguesa. Não sobre salários, habitação ou política externa. Não. Sobre se uma mulher adulta, empresária e economicamente independente pode comprar a roupa que lhe apetece com o dinheiro que é dela.

O choque moral foi imediato.

De repente, Portugal descobriu que a República está perigosamente dependente do preço das bainhas. Um vestido caro pode aparentemente comprometer a estabilidade institucional, abalar a Constituição e talvez até provocar uma ligeira ondulação no Atlântico.

Naturalmente, esta análise política sofisticadíssima nasceu no laboratório intelectual de uma revista cuja missão civilizacional é acompanhar a evolução histórica da humanidade através de três indicadores fundamentais. Roupa, casamentos e dietas milagrosas.

Refiro-me, claro, àquela publicação dedicada ao estudo científico das celebridades que pertence ao grupo que também controla o Correio da Manhã, a CMTV, o Record e outras catedrais do rigor informativo. Esse mesmo grupo, hoje chamado Medialivre, herdou um vasto império mediático que inclui jornais, revistas e canais televisivos capazes de transformar qualquer trivialidade numa catástrofe nacional em menos de dez minutos.

É um ecossistema mediático impressionante. Lançam uma história numa revista de celebridades, amplificam-na na televisão, discutem-na em painéis, repetem-na nas redes sociais e, quando damos por nós, o país inteiro debate a bainha presidencial como se fosse uma questão de soberania.

É assim uma espécie de economia circular da indignação pimba.

E não se pense que isto é casual. Não. Há método. Há disciplina. Há uma dedicação quase monástica à arte de transformar trivialidades em escândalos.

Durante anos este mesmo ecossistema mediático serviu de palco permanente a uma figura política que os portugueses conhecem carinhosamente como “o Coiso”, personagem omnipresente em estúdios televisivos, debates inclinados e manchetes que pareciam escritas com a banda sonora das Valquirias de Wagner. Muito 3º Reich.

Agora que começa um novo mandato presidencial vindo da esquerda, os mastins mediáticos parecem ter decidido iniciar a temporada com aquilo que na ciência política se chama um “ataque preventivo à bainha institucional”.

Primeiro, o vestido. Depois talvez os sapatos. Mais tarde, quem sabe, a cor das cortinas de Belém. A vigilância republicana não pode abrandar.

Entretanto, nos estúdios televisivos, continuam os debates conduzidos por comentadores de grande erudição, incluindo a inevitável astróloga residente, figura omnisciente que analisa política internacional, economia global, conspirações planetárias e o alinhamento de Vénus com a taxa Euribor.

É reconfortante saber que o destino da República está também dependente dos trânsitos de Mercúrio.

Mas voltemos ao escândalo têxtil.

O que torna esta polémica particularmente patusca é o seu objecto. Uma mulher adulta, com carreira própria, que provavelmente ganha o suficiente para comprar quantos vestidos quiser sem pedir autorização ao país.

No entanto, segundo a nova escola de pensamento mediático, a esposa de um Presidente deve vestir-se segundo um rigoroso código de austeridade patriótica. Talvez uma túnica de serapilheira, um xaile de lã e sandálias franciscanas.

Tudo o resto ameaça a democracia.

E assim caminhamos, num país parolinho, onde o preço de um vestido provoca mais indignação mediática do que meia dúzia de escândalos financeiros. Um país onde uma revista especializada em frivolidades e pimbalhices consegue lançar o grande debate político da semana e pôr um sem número de alminhas a debitar parvoíces sobre uma mulher emancipada, que apenas comprou um vestido com o seu dinheiro.

Isto tudo um dia depois do Dia da Mulher e dos milhares de clichês sobre a sua emancipação. No fundo, talvez devamos agradecer.

Num mundo cheio de guerras, crises e desigualdades, é reconfortante saber que ainda existem instituições mediáticas dedicadas a proteger a nação contra o perigo mais terrível de todos.

Uma senhora bem vestida. A República agradece.

Beijinhos e até à próxima.

Referências consultadas

https://eco.sapo.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19…

https://revistabusinessportugal.pt/medialivre-a-nova…

https://ban.pt/…/medialivre-com-lucros-de-19-milhoes…

https://www.flash.pt/moda-e-beleza/detalhe/descobrimos-o-vestido-da-nova-primeira-dama-saiba-quanto-custa-e-como-ela-o-adaptou-a-portugalidade

Rússia – a charneira inesperada?

(João Gomes, in Facebook, 10/03/2026)


Há momentos na história em que as engrenagens da geopolítica parecem mover-se segundo planos cuidadosamente calculados. E há outros em que esses planos se revelam, afinal, um exercício de imaginação demasiado otimista. O conflito recente que envolve o Irão e a coligação formada por Israel e pelos Estados Unidos parece pertencer claramente à segunda categoria.

Quando a escalada começou, o argumento apresentado por Trump era simples: neutralizar rapidamente uma ameaça considerada intolerável. Havia negociações em curso, é verdade, mas também havia a convicção – expressa de forma particularmente confiante por Trump – de que qualquer confronto, se necessário, seria curto e decisivo. O Pentágono, segundo diversas análises estratégicas divulgadas nos meses anteriores, partilhava uma avaliação semelhante: uma pressão militar suficientemente intensa poderia levar o Irão a recuar rapidamente. A realidade, porém, decidiu seguir outro guião.

A resistência iraniana revelou-se mais sólida do que muitos analistas previam. Não apenas pela capacidade militar demonstrada, mas também por uma certa disciplina estratégica que deixou no ar a sensação de que nem todas as cartas foram ainda colocadas na mesa. Teerão respondeu, resistiu e manteve uma postura que mistura firmeza e cálculo – sugerindo que a sua estratégia talvez não seja ganhar uma guerra total, mas sobreviver a ela com suficiente capacidade de continuidade.

Esse ponto é central. Para o Irão, a lógica política pode não estar em prolongar indefinidamente o confronto, mas sim em parar no momento certo. Não por falta de meios ou por colapso da resistência, mas por uma razão mais estrutural: preservar o ritmo de modernização tecnológica e económica necessário para os seus projetos estratégicos futuros. Entre eles, naturalmente, o programa nuclear que Teerão insiste em apresentar como tendo objetivos energéticos e não militares. Uma guerra prolongada poderia comprometer esse horizonte.

É neste cenário – paradoxalmente – que surge a figura da Putin. A Rússia, que muitos imaginavam estar apenas a observar à distância, e a lucrar futuramente com a possibilidade de vender o seu petróleo – face à crise colocada no Estreito de Ormuz – aparece agora como potencial mediadora. Não era necessariamente o papel esperado.

Putin telefonou a Trump e ofereceu-se para mediar o conflito. Trump ainda não respondeu, mas ontem – ao divulgar que “a vitória estava para breve” já anunciava um pensamento diferente; as vitórias para Trump nunca são no terreno – são sempre no mediatismo televisivo!

A política internacional raramente segue a lógica simples do ganho imediato. Para Moscovo, apresentar-se como mediador oferece algo muito mais valioso: estatuto. Se conseguir transformar-se no eixo que permite uma saída diplomática – salvando a face de Washington, preservando a sobrevivência estratégica de Teerão e evitando uma conflagração regional – a Rússia ganha aquilo que realmente procura: reconhecimento como o polo indispensável na arquitetura de poder global que é e sempre foi e que a Europa não tem reconhecido.

A guerra Israel-EUA contra o Irão foi iniciada sob o impulso da iniciativa estratégica de Israel e Washington e pode terminar com a Rússia a desempenhar o papel de charneira diplomática. IS já depois de Trump ter anunciado a eventual retirada de sanções à Rússia para que esta pudesse fornecer petróleo ao Mundo e diminuir o impacto dessa guerra. Putin prefere a paz ao lucro – o que demonstra a sua posição consciente do que esta guerra está a provocar nos mercados.

Quanto a Israel, o quadro é particularmente delicado. O país demonstrou, mais uma vez, uma extraordinária capacidade de resistência sob pressão – algo profundamente enraizado na sua própria história nacional. Contudo, o desgaste de um conflito prolongado será inevitável. A sociedade israelita, que já vive há décadas sob a tensão permanente da segurança, enfrenta novamente um dilema existencial: até que ponto a lógica da confrontação permanente pode coexistir com um projeto político estável para o futuro.

Alguns setores ideológicos continuam a invocar a ideia de uma “Grande Israel”, uma visão maximalista que imagina uma expansão territorial ou estratégica muito além das fronteiras atuais. Mas a realidade política do Médio Oriente contemporâneo é muito menos permissiva para tais ambições. A região tornou-se demasiado complexa, demasiado multipolar e demasiado interdependente para que projetos dessa natureza encontrem viabilidade real. O projeto sionista não tem viabilidade – por muito que se esforcem os que o defendem.

Assim, o conflito que começou com promessas de resolução rápida transformou-se numa equação muito mais complicada. Washington procura uma saída que não pareça uma retirada. Teerão calcula o momento adequado para preservar as suas capacidades estratégicas. Israel mede o custo humano e político de uma guerra prolongada.

E, no meio dessa engrenagem, surge Moscovo – não como protagonista inicial, mas como a inesperada peça de ligação entre forças que já não sabem exatamente como travar o movimento que iniciaram.

A história tem destas ironias. Às vezes, a porta de saída de uma guerra aberta por uns acaba por ser construída por aqueles que tantos criticam por ações que – noutra região – são a expressão da defesa da sua segurança global.

João Gomes

Boa tarde!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.