A Rússia não poupa esforços para derrotar a agressão por procuração da NATO

(Editorial in SCF, 03/07/2026, Tradução Estátua)


A guerra está declarada. Parece não haver outra hipótese.


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Existe agora uma sensação palpável de que a Rússia aumentou significativamente o seu poderio militar para eliminar o regime de Kiev, apoiado pela NATO.

Não é apenas o antro neonazi em Kiev que precisa de ser erradicado. É todo o projeto de agressão por procuração da NATO que o regime personifica. A Rússia está a vencer no campo de batalha, de forma metódica e gradual, mas, dada a campanha de terror aéreo que o regime da NATO está a promover em território russo, o golpe final precisa de ser desferido o mais rapidamente possível.

Esta semana ficou marcada pela maior onda de ataques aéreos russos contra a Ucrânia desde a escalada do conflito em fevereiro de 2022. Vários alvos na capital, Kiev, foram atingidos durante a noite de quinta-feira, assim como outras cidades e regiões. Foram utilizados centenas de drones, mísseis balísticos e munições hipersónicas. As imagens de vídeo indicaram que a maioria dos ataques atingiu os seus alvos com uma interceção mínima por parte das defesas aéreas.

Moscovo afirmou que todos os alvos eram instalações do complexo militar-industrial. Declarou ainda que o uso da força maciça será intensificado até que todos os objetivos sejam atingidos.

Diversos analistas respeitados notaram uma nova determinação da Rússia em vencer em termos militares diretos, abandonando um esforço diplomático paralelo. Andrey Martyanov, Larry Johnson, Douglas Macgregor e John Mearsheimer estão entre estes analistas experientes que avaliam que a liderança russa concluiu que precisa de derrotar o regime de Kiev e os seus aliados da NATO e pôr fim a este conflito rapidamente, nos termos da Rússia.

A via diplomática que os Estados Unidos tinham promovido com Donald Trump chegou a um beco sem saída. Entretanto, o regime de Kiev, sob a orientação da NATO, intensificou os seus ataques terroristas contra a população russa. Nos últimos meses, quase 400 civis russos foram mortos em ataques com drones e mísseis de longo alcance.

A pior atrocidade ocorreu a 22 de maio, quando um dormitório universitário em Starobelsk, Lugansk, foi destruído por múltiplos ataques de drones, matando 21 estudantes, a maioria adolescentes. Foi um ponto de viragem. Após este ato deliberado de assassinato em massa, a Rússia intensificou e manteve o seu ataque militar contra o regime de Kiev e os seus centros de poder. Esta semana, o bombardeamento aéreo aumentou consideravelmente, e Moscovo afirmou que a intensidade irá crescer.

Como comentou o analista Andrey Martyanov, o regime da NATO perdeu a guerra no terreno, exceto nas últimas e cada vez mais pequenas linhas de batalha. O grupo apoiado por Kiev, sob instruções dos seus comandantes da NATO, está a recorrer à última e desesperada arma do terrorismo contra civis russos. Mas Moscovo precisa de esmagar esta tática desesperada para incitar uma guerra em grande escala na Europa, extinguindo preventivamente o projeto da NATO na Ucrânia.

Existe um compreensível sentimento de raiva entre os russos pelo facto de a guerra por procuração da NATO se estar a prolongar e continuar a atingir civis. Esta semana, cinco pessoas morreram quando um mercado na cidade de Tokmak, em Zaporozhye, foi alvo de um ataque de drone ucraniano. Houve também mortes em ataques nas regiões de Belgorod e Nizhny Novgorod. Um bebé de seis meses foi morto por um drone na região de Moscovo, a cerca de 100 km a sul da capital russa.

No dia 17 de junho, um autocarro que transportava uma equipa de futebol juvenil da Bielorrússia foi atingido por drones ucranianos na região de Bryansk, matando uma mulher grávida. Esta semana, um outro autocarro que transportava turistas da Bielorrússia também foi alvo de um ataque.

Não há dúvida de que a NATO e os planeadores europeus estão por detrás deste aumento dos ataques terroristas perpetrados pelo regime de Kiev. A União Europeia, sob a liderança da ex-ministra militar alemã Ursula von der Leyen e outros, está a fornecer à Ucrânia uma ajuda de 90 mil milhões de euros, a maior parte destinada a aumentar o poder de fogo dos drones de longo alcance contra a Rússia.

Os governos ocidentais e os meios de comunicação social estão a encobrir a campanha terrorista da NATO, como sublinha o diplomata russo Rodion Miroshnik.

A cobertura mediática ocidental sobre os ataques deliberados contra civis russos é mínima. O massacre na faculdade de Starobelsk foi largamente ignorado ou, quando noticiado, as negações cínicas do regime de Kiev ganharam credibilidade.

Além disso, as potências da NATO estão a encorajar o regime de Kiev a intensificar a campanha terrorista. Reportagens dos meios de comunicação ocidentais caracterizam os ataques ucranianos com drones e mísseis como legítimos e deleitam-se com a afirmação de que “a guerra está a ser levada para a Rússia”. Existe uma especulação febril sobre “Será que Putin conseguirá resistir?”, o que significa que o Ocidente aprova os ataques contra civis como forma de desestabilizar o Estado russo. Isto é terrorismo por definição.

Na sua obsessão russófoba, o Ocidente está a arriscar iniciar a Terceira Guerra Mundial. Como argumentou o estratega russo Sergey Karaganov, a Rússia deve agir de forma decisiva para eliminar a ameaça que emana não só do regime em Kiev, mas também dos planeadores da NATO que o apoiam.

Outra função de propaganda do Ocidente é retratar os ataques russos como “terroristas” e como chacinas indiscriminadas de civis ucranianos.

Ao mesmo tempo que ignorava as mortes de civis russos, os meios de comunicação ocidentais destacaram as alegadas vítimas ucranianas. O bombardeamento maciço levado a cabo pela Rússia esta semana terá matado entre 20 e 30 civis. Os números baseiam-se em informações de autoridades ucranianas.

Todas as mortes de civis são lamentáveis. Mas os governos e os meios de comunicação ocidentais não condenam a Ucrânia pelas vítimas russas, aliás, nem sequer as reconhecem ou retratam as mortes como justificadas. A Rússia afirma que não está a atacar deliberadamente os centros civis. É preciso ter em conta que o regime da NATO instala rotineiramente fábricas de drones e centros de comando em edifícios civis. Em segundo lugar, assumindo que se verifica o último número de mortos em Kiev, de 20 a 30, os números são notavelmente baixos tendo em conta o enorme poder de fogo russo utilizado, o que indica que a intenção não é ferir civis; caso contrário, o número de vítimas estaria na casa dos milhares.

Outro fator é que as defesas aéreas da NATO são extremamente ineficientes na interceção de mísseis russos. O professor Ted Postol, especialista americano em armamento, numa entrevista detalhada a Nima Alkhorshid, estima que os intercetores Patriot têm uma taxa de sucesso de apenas 2 a 3%. Isto significa que, em qualquer ataque aéreo, dezenas de ogivas Patriot podem atingir edifícios residenciais e outras estruturas civis. Isto poderá explicar as fotos que mostram edifícios residenciais com os andares superiores danificados, que o regime ucraniano alega terem sido causados ​​por ataques russos e que os meios de comunicação ocidentais publicam sem questionamento.

O conflito na Ucrânia arrasta-se desde o golpe de Estado apoiado pela CIA em 2014 e a subsequente instrumentalização do regime neonazi em Kiev pela NATO. Desde 2014, o regime, que glorifica os colaboradores nazis da Segunda Guerra Mundial, assassinou milhares de russos étnicos em campanhas terroristas deliberadas. A guerra aberta que eclodiu em 2022 poderia ter sido evitada se a via diplomática de Moscovo tivesse sido correspondida em 2015, através dos Acordos de Minsk, e novamente no final de 2021, quando a Rússia ofereceu uma nova estrutura de segurança à Europa. Os Estados Unidos e os seus parceiros europeus rejeitaram qualquer diplomacia, visando, em vez disso, “derrotar estrategicamente” a Rússia através do seu aliado ucraniano.

Os leitores devem consultar o editorial semanal da SCF de 25 de fevereiro de 2022, publicado um dia após a intervenção das tropas russas na Ucrânia, numa operação que foi classificada como militar especial. Sob o título: “A agressão contra a Rússia, apoiada pelos EUA e pela NATO, foi finalmente contida”, escrevemos:

“Há anos que a Rússia alerta que a agressão dos EUA e da NATO representa um perigo crítico para a segurança internacional e que precisa de ser travada. A revogação dos tratados de controlo de armas pelos EUA (ABM, INF, Tratado de Céus Abertos) e a expansão das ameaças de mísseis perto das fronteiras da Rússia tornaram-se intoleráveis. A Ucrânia é apenas um elemento de um quadro muito maior. Mas esta semana, a Rússia finalmente tomou medidas para travar a agressão. É um ponto de viragem histórico.”

É fácil falar depois do sucedido. A operação militar especial da Rússia não foi suficientemente decisiva para erradicar a agressão da NATO e do seu regime neonazi. Havia muita expectativa depositada na possibilidade de um empenhamento diplomático ocidental. A incursão fútil de Trump dissipou qualquer ilusão nesse sentido, enquanto, ao mesmo tempo, as potências europeias da NATO encorajam ainda mais o terrorismo a partir de Kiev.

Mais de quatro anos de guerra aberta e derramamento de sangue, com um número estimado de 1,5 milhões de mortos entre os militares ucranianos, poderiam ter sido evitados. Centenas de civis russos foram mortos pelo terrorismo apoiado pela NATO. A tolerância e a disponibilidade da Rússia para procurar uma solução diplomática não foram correspondidas.

Moscovo parece ter percebido que a solução, neste momento, não passa pela diplomacia nem pela recuperação de território histórico, mas sim pelo fim do projeto de agressão da NATO, que a Ucrânia personifica. Sem dúvida.

Como observou recentemente o presidente russo Vladimir Putin, o Ocidente quer a guerra com a Rússia através da Ucrânia, tal como a Alemanha nazi quis em 1941. Nestas circunstâncias, um murro na cara é mais apropriado e tem maior probabilidade de sucesso do que um falso aperto de mãos diplomático.

A guerra está declarada. Parece não Parece não haver outra hipótese.

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O Irão arrisca tudo numa guerra

(Por Alastair Crooke, in SCF, 08/06/2026, Tradução Estátua)


Esta fase do conflito iraniano provavelmente só terminará quando o Ocidente cair no precipício económico iminente.


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A guerra entre os EUA e o Irão ultrapassou a sua fase inicial e entrou numa nova fase emergente — na qual o Irão implicitamente aposta as suas possibilidades na guerra na próxima etapa. Muito provavelmente, essa guerra ocorrerá em episódios breves e limitados, mas que, mesmo assim, possuem o potencial de se expandir regionalmente, caso os EUA (e Israel) optem por uma escalada acentuada.

A nova fase envolve riscos, é claro, mas o Irão detém a grande vantagem de poder infligir danos desproporcionalmente maiores à infraestrutura do Golfo como retaliação a qualquer prejuízo sofrido — e a consciência de que o Ocidente está cada vez mais perto de cair no “abismo” energético.

Os três pilares que sustentam essa mudança são, em primeiro lugar, a confiança de que o Irão não será (e não pode ser) afastado do seu controlo sobre Ormuz, e que, ao consolidar as suas estruturas administrativas na região, a realidade do domínio iraniano sobre Ormuz será cada vez mais assimilada pelos Estados e refletida na sua aceitação do controlo iraniano-omani.

Associada a esse princípio fundamental está a implementação, por parte do Irão, de uma dissuasão intensificada em relação ao bloqueio naval americano. Qualquer tentativa de intercetar ou atacar embarcações iranianas ou interferir na administração do Estreito será recebida com respostas cada vez mais duras. Em última análise, essa política pode levar o Irão a infligir danos crescentes a navios da Marinha dos EUA – outro ponto de atrito.

Por exemplo, em 3 de junho, os EUA dispararam um míssil Hellfire contra um petroleiro iraniano perto do Estreito de Ormuz. Em resposta, um navio de propriedade (ou parcialmente de propriedade) dos EUA, o Panaya, foi atingido por mísseis. Além disso, o Irão lançou três ondas de mísseis de cruzeiro contra a base aérea de helicópteros dos EUA no Kuwait, de onde o ataque havia partido. Imagens também mostram sérios danos no aeroporto internacional do Kuwait (embora a causa dos danos ainda seja controversa).

O segundo princípio subjacente que afeta essa mudança reflete simplesmente o desprezo iraniano pela constante inflação das exigências de Trump, pelas ameaças exageradas (que claramente não correspondem às capacidades dos EUA), juntamente com sua retórica vacilante e desdenhosa em relação ao Irão.

A liderança iraniana parece ter concluído que um acordo provavelmente não será alcançado e que é melhor encerrar as “negociações” do que “continuar as negociações inúteis e de má-fé com um regime americano enganador e decadente” , como o New York Times denominou as “negociações” com o Irão — sugerindo que o “caos do acordo” não é uma falha isolada de Trump restrita à questão iraniana, mas sim um padrão consistente de disfuncionalidade que se repete em praticamente todas as iniciativas de “paz” de Trump.

Por detrás da decisão do Irão de suspender as negociações, porém, provavelmente reside a clareza gradual, que emerge das declarações e análises israelitas e americanas, de que o verdadeiro objetivo do ataque surpresa EUA-Israel em 28 de fevereiro nunca foi a mudança de regime em si — visando substituir os “linha-dura” iranianos por um líder mais moderado ao estilo de “Delcy Rodrigues”; mas sim provocar a destruição e a fragmentação completas do Irão — uma perceção que certamente alteraria os cálculos iranianos.

Essa perceção consolidou enormemente o apoio público à República Islâmica e, ao mesmo tempo, transformou a guerra numa luta existencial para preservar os valores éticos da Revolução. Sob essa ótica, há pouco para o Irão discutir com Trump, exceto por algum modus vivendi futuro — quando Washington perceber que está encurralado e que um novo realismo se imponha.

O terceiro princípio que sustenta esta nova fase do conflito é aquele enunciado pelo Irão desde o início das negociações de Islamabad: “Cessar-fogo para todos; ou cessar-fogo para ninguém“. Isso foi reiterado no último ultimato do Irão a Trump: “Se as ameaças israelitas da semana passada de arrasar o subúrbio de Dahiyeh, ao sul de Beirute, tivessem sido cumpridas, o Irão teria atingido duramente o norte de Israel com os seus mísseis. Era um cessar-fogo para todos – ou nenhum cessar-fogo“.

Trump optou pelo cessar-fogo e, após a sua ligação com Netanyahu, anunciou que ele estava em vigor. Ele disse a Netanyahu para cancelar o bombardeio planeado de Dahiyeh, no sul de Beirute. Em Israel, uma onda massiva de indignação de todos os lados do espectro político atacou Netanyahu pela mera ideia de conter quaisquer ataques israelitas no Líbano. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett acusou Netanyahu de “perder o controlo sobre a soberania israelita“. E o ex-primeiro-ministro Yair Lapid disse que Israel havia sido reduzido a um “estado vassalo” após o cancelamento dos ataques.

Os Estados Unidos e Israel vêm tentando, há alguns meses, convencer uma parcela da liderança libanesa a aceitar a tarefa de desarmar o Hezbollah, como explicou Rubio, “para que Israel não precise fazê-lo” — algo que os líderes libaneses claramente não podem fazer.

Israel não possui uma estratégia coerente para o Líbano. Danny Citrinowicz, ex-oficial senior da inteligência militar israelita, descreve uma nova “conquista iraniana” estratégica:

“Teerão conseguiu efetivamente vincular a frente libanesa ao cenário mais amplo do conflito Irão-Israel. Qualquer escalada no Líbano é agora cada vez mais vista através do prisma da dinâmica EUA-Irão”.

No entanto, ele observa:

“A situação no Líbano permanece altamente instável. Israel e o Hezbollah continuam a interpretar os entendimentos atuais de maneiras fundamentalmente diferentes. Enquanto Israel afirma que mantém a liberdade de ação em todo o Líbano, exceto em Beirute, o Hezbollah insiste que qualquer atividade militar israelita – por menor que seja – viola o acordo de cessar-fogo. Essas interpretações conflituantes criam um potencial significativo para o reacendimento do conflito e a escalada da violência no terreno”.

Em Israel, a situação nas cidades do norte continua sendo um ponto sensível para quase todos os israelitas. Muitas cidades ao longo da fronteira com o Líbano e na Galileia estão quase desertas — “extensões inteiras de terra abandonadas pelo governo”, escreve Ben Caspit. Políticos locais afirmam que “também são israelitas” e que o governo precisa tomar providências.

O Líbano certamente continuará a ser um ponto de discórdia. Não é uma questão de “se”, mas de “quando” a próxima crise ocorrerá. Israel não deixará a situação como está — até mesmo líderes da oposição liberal exigem a destruição do Hezbollah e protestam contra a medida imposta por Trump que limitou a atuação de Netanyahu no Líbano.

O Irão também não deixará a situação como está. Os mediadores informaram os americanos que o Irão considera o fim da guerra no Líbano, a retirada das forças israelitas e a retirada de Ormuz como condições obrigatórias — antes de discutir outras questões.

E aqui estamos. Os confrontos militares — na prática, uma série abreviada de ataques das forças americanas contra navios iranianos e a infraestruturas no Estreito, decorrentes do desejo de Trump de afirmar o bloqueio naval à opinião pública americana — continuam. Essa situação é claramente explosiva, assim como o contexto do Líbano.

O Irão está, na prática, a reconhecer a realidade de que, nesta nova fase — com tantos pontos de tensão inerentes —, uma escalada militar americana provavelmente se tornará, nalgum momento, uma necessidade política para atender às pressões internas de Trump e dos seus financiadores judeus.

E as negociações? Elas não irão a lado nenhum enquanto Israel e os bilionários doadores judeus dos EUA rejeitarem qualquer acordo com o Irão que deixe o país intacto e mais forte e — pari passu nessa linha de raciocínio binária — o projeto “Israel Primeiro” dentro dos EUA e na região consequentemente enfraquecido.

Um acordo que não resulte num enfraquecimento irreversível do Irão será condenado por essas últimas forças como uma “traição descarada” por parte de Trump. Ele será atacado impiedosamente. No entanto, ele deve reconhecer que o Irão está, de qualquer forma, prestes a libertar-se das amarras americanas.

Esta fase do conflito iraniano provavelmente só terminará quando o Ocidente cair no precipício económico iminente…

Fonte aqui.

As baixas debaixo do tapete: O Pentágono está a esconder as perdas dos EUA no Médio Oriente

(Por Nick Turse, in The Intercept, 01/04/2026, Tradução Estátua)


O Pentágono divulgou declarações desatualizadas sobre o número de soldados norte-americanos mortos ou feridos durante a guerra com o Irão, resultando numa subestimativa.

Uma análise do The Intercept revelou que quase 750 soldados norte-americanos foram feridos ou mortos no Médio Oriente desde Outubro de 2023. Mas o Pentágono recusa-se a reconhecer o facto.

O Comando Central dos EUA (CENTCOM), que supervisiona as operações militares no Médio Oriente, parece estar envolvido naquilo a que um oficial da defesa chamou “encobrimento de baixas“, oferecendo ao The Intercept números subestimados e desatualizados e não fornecendo esclarecimentos sobre mortes e ferimentos de militares.

Pelo menos 15 soldados norte-americanos ficaram feridos na sexta-feira num ataque iraniano a uma base aérea saudita que alberga tropas norte-americanas, de acordo com dois funcionários do governo que falaram com o The Intercept. Centenas de militares norte-americanos foram mortos ou feridos na região desde que os EUA iniciaram a guerra contra o Irão, há pouco mais de um mês.

O presidente Donald Trump — que usou um fato azul, gravata vermelha e boné na cerimónia solene de transferência dos primeiros norte-americanos mortos na guerra — disse que as baixas eram inevitáveis. “Quando se tem conflitos como este, há sempre mortes“, disse depois. “Conheci os pais e eram pessoas incríveis. Pessoas incríveis, mas todos tinham uma coisa em comum. Disseram-me, uma coisa, cada um deles: Termine o trabalho, senhor. Por favor, termine o trabalho.

Na terça-feira, Trump deu a entender que iria terminar a guerra com o Irão em apenas duas semanas, apesar de não ter alcançado muitos dos seus objetivos declarados, como a “liberdade para o povo” do Irão, “tomar o petróleo do Irão” e forçar a “rendição incondicional” do Irão. A dado momento, o presidente chegou a declarar que a guerra duraria “o tempo necessário para atingirmos o nosso objetivo de PAZ EM TODO O MÉDIO ORIENTE E, DE FACTO, NO MUNDO!

Entretanto, o CENTCOM enviou declarações desatualizadas sobre o número de baixas, resultando em subnotificação, incluindo uma declaração enviada na segunda-feira pelo porta-voz, Capitão Tim Hawkins, referindo que “Desde o início da Operação Epic Fury, aproximadamente 303 militares americanos foram feridos”. O comentário tinha três dias e excluía pelo menos 15 feridos no ataque de sexta-feira à Base Aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita. O comando não respondeu a pedidos repetidos de dados atualizados.

O CENTCOM também não forneceu uma contagem dos soldados que morreram na região desde o início da guerra. Uma análise do The Intercept estima o número em pelo menos 15.

Este é, obviamente, um assunto que [o Secretário da Guerra Pete] Hegseth e a Casa Branca querem manter em absoluto segredo”, disse o oficial de defesa que falou sob anonimato para poder falar francamente.

Em 2024, durante a administração Biden, o Pentágono forneceu ao The Intercept cronologias detalhadas de ataques a bases americanas no Médio Oriente, listando o posto avançado específico que foi atacado, o tipo de ataque e se houve — ou quantas — baixas, juntamente com uma contagem agregada de ataques por país.

Os números da administração Trump, em comparação, carecem de detalhes e clareza. Os números atuais de baixas do CENTCOM não parecem incluir mais de 200 marinheiros tratados por inalação de fumo ou feridos de outras formas devido a um incêndio que devastou o USS Gerald R. Ford antes de este se dirigir para a Baía de Souda, na Grécia, para reparação. O CENTCOM não respondeu a quase uma dúzia de pedidos de esclarecimento sobre a contagem de baixas e informações relacionadas enviados esta semana.

“O CENTCOM e a Casa Branca deveriam fornecer informações precisas e oportunas sobre os custos e as baixas envolvidas nesta guerra. Afinal, são os contribuintes americanos que a estão a financiar, e a prosperidade e o bem-estar económico dos EUA estão a ser prejudicados por ela”, disse ao The Intercept Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do Defense Priorities, um think tank que defende uma política externa americana ponderada.

Enquanto os EUA bombardeavam o Irão implacavelmente, este país respondeu com ataques a bases americanas em todo o Médio Oriente, utilizando mísseis balísticos e drones. O CENTCOM recusa-se mesmo a fornecer uma simples contagem das bases americanas que foram atacadas durante a guerra. “Não temos nada para vocês”, disse um porta-voz ao The Intercept. Uma análise do The Intercept, no entanto, revela que foram visadas bases no Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita, Síria e Emirados Árabes Unidos.

Na terça-feira, Hegseth afirmou que o Irão mantinha a capacidade de retaliar os ataques dos EUA, mas que os seus ataques seriam ineficazes. “Sim, ainda lançarão alguns mísseis“, disse, “mas nós abatemo-los“. Na manhã de quarta-feira, as autoridades do Bahrein, Kuwait e Qatar reportaram ataques com mísseis ou drones vindos do Irão.

Os ataques iranianos forçaram as tropas norte-americanas a recuar das suas bases para hotéis e edifícios de escritórios em toda a região, de acordo com dois funcionários do governo. O responsável da defesa estava furioso com a falha do Pentágono em reforçar adequadamente a segurança das bases e ridicularizou a oração de Hegseth na terça-feira, numa conferência de imprensa do Pentágono. “Que Deus os proteja a todos, de dia e de noite. Que os seus braços omnipotentes e eternos de providência se estendam sobre eles e os protejam”, disse Hegseth.

Porque é que Hegseth não os protegeu?”, Perguntou o oficial da defesa. “Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência sabia que estes ataques estavam para vir.” O porta-voz do Pentágono, Kingsley Wilson, não respondeu a vários pedidos de comentários.

O general na reserva Joseph Votel, antigo chefe do Comando Central, recordou que as tropas norte-americanas na região enfrentam ataques de drones há pelo menos uma década. “Nessa altura, identificámos a necessidade de nos protegermos contra esta ameaça, e o Departamento de Defesa demorou muito tempo a responder e a fornecer proteção adequada às nossas tropas destacadas”, disse ao The Intercept, referindo-se aos ataques com drones durante a campanha contra o Estado Islâmico na primavera de 2016. “Era uma expectativa conhecida que, se fosse atacado, o Irão retaliaria contra as nossas bases, instalações e forças, e concordo que deveríamos ter previsto e preparado para esta inevitabilidade.”

Kavanagh, que já tinha chamado a atenção para a vulnerabilidade dos postos avançados dos EUA no Médio Oriente, fez coro com Votel. “Há anos que é claro que a rápida proliferação de drones e mísseis baratos colocaria as bases americanas e os radares de deteção precoce dos EUA na região em risco, mas o Pentágono pouco fez para os proteger”, disse ela. “A falha em investir em infraestruturas reforçadas foi uma escolha. O Congresso deve ver esta falha como prova de que simplesmente dar mais dinheiro ao Pentágono não é um caminho para a segurança nacional.” “Estaríamos em melhor situação se as bases em toda a região fossem definitivamente encerradas”, acrescentou ela.

Em declarações públicas, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Seyed Abbas Araghchi, criticou os EUA por utilizarem civis, nas monarquias árabes vizinhas dos estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), como escudos humanos. “Os soldados norte-americanos fugiram de bases militares no CCG para se esconderem em hotéis e escritórios”, escreveu no X na semana passada. “Os hotéis nos EUA negam reservas aos oficiais que possam colocar os clientes em perigo. Os hotéis do CCG deveriam fazer o mesmo.”

Votel também manifestou preocupação com a utilização de hotéis e escritórios pelas tropas, referindo que isso “poderá transformar a infraestrutura civil normal em alvos militares para o regime”.

No mês passado, um ataque com um drone iraniano a um hotel no Bahrein feriu dois funcionários do Departamento de Guerra, de acordo com um telegrama do Departamento de Estado analisado pelo Washington Post. O CENTCOM não respondeu a um pedido do The Intercept para confirmar se estes ferimentos resultam de um ataque ocorrido a 2 de março no hotel Crowne Plaza, um hotel de luxo em Manama, capital do Bahrein, mas um responsável indicou que tal era provável.

Votel disse que a falha em fornecer proteção adequada às tropas pode prejudicar as operações dos EUA. “Penso que isto realmente complica o comando e o controlo e pode afetar a coesão e a eficácia da unidade“, disse ao The Intercept, referindo-se à transferência de tropas para hotéis e edifícios de escritórios. “Dito isto, podemos não ter muitas opções se não conseguirmos proteger as bases militares onde normalmente estariam alojados.”

Pelo menos 15 soldados norte-americanos no Médio Oriente morreram desde o início da Guerra do Irão, incluindo seis militares que foram mortos num ataque de drone em Port Shuaiba, no Kuwait, e um soldado que morreu devido a um “ataque inimigo a 1 de março de 2026 na Base Aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita“. Mais de 520 militares norte-americanos também ficaram feridos, incluindo os que sofreram inalação de fumo no Ford.

Antes da atual guerra com o Irão, as bases americanas no Médio Oriente foram cada vez mais visadas por uma combinação de drones de ataque unidirecional, rockets, morteiros e mísseis balísticos de curto alcance, após o início da guerra de Israel em Gaza em Outubro de 2023, tendo a maioria dos ataques ocorrido no ano seguinte ao início do conflito. Pelo menos 175 soldados foram mortos ou feridos nestes ataques, incluindo três militares que morreram num ataque em janeiro de 2024 à Torre 22, uma instalação na Jordânia. Outros ataques tiveram como alvo a Base Aérea de al-Asad, o Centro de Apoio Diplomático de Bagdade, o Campo Victory, Union III, a Base Aérea de Erbil e a Base Aérea de Bashur no Iraque, e a guarnição de Al-Tanf, a Base Aérea de Deir ez-Zor, o Sítio de Apoio à Missão Euphrates, o Sítio de Apoio à Missão Green Village, a Base de Patrulha Shaddadi, a Zona de Aterragem de Rumalyn, Tell Baydar e Tal Tamir na Síria.

As estatísticas de baixas não incluem os contratados, a maioria estrangeiros que sofreram ferimentos não relacionados com o combate. As estatísticas oficiais dos EUA mostram que houve quase 12.900 casos de ferimentos em pessoal na área de operações do CENTCOM só em 2024. Mais de 3.700 foram ferimentos não fatais graves, incluindo traumatismo crânio encefálico, que exigiram mais de sete dias de ausência do trabalho. Dezoito contratados foram também mortos, todos no Iraque. Os números representam provavelmente uma subestimativa significativa, mas mesmo que parte dos contratados lesados ​​seja contabilizado, isso já seria um grande avanço.

Com a adição de mais vítimas à contagem, o número de baixas entre americanos e militares nas bases dos EUA pode já ultrapassar as 13.600.

Fonte aqui.