Algumas consequências geoestratégicas do ataque norte-americano ao Irão

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2026)


A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA.


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A incapacidade de os EUA concretizarem os objetivos políticos a que alegadamente se propuseram, isto é, a mudança de regime no Irão, com o recurso à força militar, evidenciou as limitações do seu poderio bélico: as suas bases militares no Golfo Pérsico foram atacadas e destruídas pelos mísseis e drones iranianos, foram incapazes de honrar os compromissos securitários com os seus aliados da região, e os navios da quinta esquadra debandaram do Golfo para não serem afundados.

Entretanto, o estreito de Ormuz encontra-se sob o controlo de Teerão que determina quem o cruza. Os EUA não conseguiram restabelecer a liberdade de navegação na região. A marinha norte-americana não foi sequer capaz de colocar na região três grupos de porta-aviões, uma capacidade militar muito distante daquela empregue nas guerras em que se envolveu nessa parte do mundo (seis grupos em 1991 e oito em 2003, nas guerras contra o Iraque). Todos estes desenvolvimentos estão a ser seguidos por todo o mundo com muita atenção, em particular pela China.

A antes ‘senhora dos mares’, vê-se agora em dificuldades. Para além do estreito de Bab-el Mandeb e do mar do Sul da China, enfrenta também sérias dificuldades no controlo do estreito de Ormuz. O resultado pífio do embate nestas duas frentes poderá ser determinante nas ambições hegemónicas norte-americanas. Ao que se junta o facto de a indústria naval dos EUA enfrentar uma crise sistémica, a qual faz perigar as pretensões dos EUA de domínio incondicional dos oceanos.

A confrontação militar com Pequim

Os acontecimentos recentes no Irão permitem-nos antever o resultado desse possível confronto. O tema tem sido recorrentemente abordado nos círculos militares norte-americanos. Os argumentos em abono de uma confrontação militar com a China são mais do foro comunicacional do que do técnico, podendo isso levar os decisores a confundir narrativas com factos e, consequentemente, a tomarem decisões erradas.

A ocorrer, esse embate teria lugar na Ásia Oriental/Pacífico ocidental, onde se situam os potenciais focos de um conflito sino-americano, e seria provocado pelas restrições à liberdade de navegação no Mar do Sul da China ou por uma ação militar chinesa em Taiwan. Em qualquer dos casos, os EUA encontrar-se-iam sempre numa situação difícil e desvantajosa. A China combaterá na sua área geográfica e começa a dispor de vantagem tecnológica.

A China tem vindo ao longo das duas últimas décadas a preparar-se para esse eventual embate. O confronto seria travado principalmente no ar, mar, espaço (contra satélites) e ciberespaço (contra sistemas informáticos). É pouco provável que envolva operações terrestres de relevo. O combate no Pacífico Ocidental obrigaria os EUA a operar uma extensa e vulnerável linha de comunicações.

As bases militares norte-americanas na primeira e na segunda cadeia de ilhas não lhes conferem presentemente o potencial de combate necessário para derrotar as forças chinesas. O sistema de ilhas artificiais, criadas pela China no Mar do Sul da China, enquadra-se num poderoso sistema de A2AD (Anti acesso/Negação de Área) desenvolvido por Pequim para controlar o acesso à região e para dificultar ou impedir que o oponente opere nelas.

Uma força expedicionária norte-americana participante nesse combate colocaria os porta-aviões norte-americanos vulneráveis aos mísseis hipersónicos da China, para os quais não têm defesa. As bases norte-americanas localizadas na segunda cadeia de ilhas seriam igualmente alvos ao alcance dos mísseis chineses. Falamos, por exemplo, de Guam. Há dez anos, os EUA estariam numa situação de vantagem. Hoje essa vantagem desvaneceu-se, tanto em meios como em tecnologia.

Os ‘choke points’

É conhecida a dependência chinesa das vias marítimas para as exportações e importações de mercadorias e, consequentemente, a sua vulnerabilidade a um bloqueio da marinha norte-americana. Com base no que temos assistido nos últimos dois meses, é importante perceber se Washington seria, nesta altura, capaz de levar por diante o bloqueio das rotas marítimas no Pacífico e dos choke points que lhes estão associados, quando não foi capaz de o fazer no estreito de Bab el-Mandeb, perturbado pela ação dos Hutis, no Iémen. Incapaz de os derrotar, imagine-se o resultado de uma intervenção numa área consideravelmente mais vasta contra um opositor incomensuravelmente superior.

Para fazer frente a esse risco, que pode evoluir para ameaça, a China tem vindo a aumentar a sua marinha, que, nesta altura, é a maior do mundo. Já tem três porta-aviões operacionais e estão mais dois em construção, sendo um deles nuclear. A sua frota de submarinos tem tido um crescimento constante, construindo anualmente cerca de quatro unidades. A sua enorme guarda costeira é composta por navios de combate e é dotada de uma capacidade que deve ser levada muito a sério. Pelo contrário, a marinha norte-americana, apesar de ser uma força de combate formidável, perdeu o fulgor de há algumas décadas.

Taiwan, sempre Taiwan

Neste confronto pela manutenção da liderança global insere-se o controlo de Taiwan que, no caso de uma confrontação militar com a China, conferiria uma grande vantagem aos EUA, por integrar a “primeira cadeia de ilhas”, crucial para impedir e/ou dificultar a projeção de poder da China na região do Indo-Pacífico.

Cabe dizer que não nos encontramos nos preliminares de uma invasão, a menos que Taipé optasse por declarar a independência, o que é altamente improvável. Enquanto isso não acontecer, uma operação militar chinesa em Taiwan não acontecerá. Se assim não fosse, Taipé já teria tomado uma série de medidas preventivas, nomeadamente preparar uma defesa robusta do seu território. Um país que está prestes a ser invadido não mantém um serviço militar de apenas quatro meses.

A China não tomou no passado a iniciativa de desencadear uma guerra no Pacífico, não se vê porque o faria agora. Não se descortinam razões plausíveis para que isso aconteça, nem precedentes históricos. Nas últimos séculos em que a China foi a potência dominante da região, excluindo os últimos 150 anos, nunca tentou invadir o Japão. Pelo contrário, foi Tóquio que atacou a China em várias ocasiões (1592, 1894-5, 1931 e 1937).

No entanto, não se pode descartar a ocorrência de wild cards. A militarização do Japão (onde se inclui a aquisição de uma eventual capacidade nuclear) e/ou a colocação de uma força militar norte-americana na ilha, para lá de pequenos contingentes com a missão de formar as forças militares locais, poderia provocar uma reação militar por parte de Pequim. Independentemente da modalidade de ação escolhida pela China para intervir em Taiwan, interrogamo-nos como é que os EUA reagiriam a uma operação militar chinesa de grande envergadura na ilha, cientes da estratégia de ambiguidade estratégica seguida por Washington. Estariam os EUA dispostos a combater por Taiwan?

E os aliados asiáticos?

Depois do que aconteceu aos aliados dos EUA na Ásia Ocidental, os aliados asiáticos devem estar muito apreensivos. Ao contrário dos democratas (liberais intervencionistas), o presidente Donald Trump assume não necessitar de aliados para afirmar as suas ambições hegemónicas. A hubris está a sair-lhe cara. Já hostilizou os europeus – não se trata apenas de não cooperar com eles, mas também de os criticar e punir – e também já deu indícios de o vir a fazer com os asiáticos.

A posição dos EUA em relação ao QUAD – uma aliança informal entre os EUA, Japão, Austrália e Índia, criada para contrariar a influência da China na região – que outrora foi a pedra angular da estratégia norte-americana no Indo-Pacífico, deteriorou-se significativamente desde o regresso de Trump à Casa Branca, em 2025, deixando o grupo sem liderança e com o seu valor geoestratégico degradado. No seu primeiro mandato, Trump reavivou o QUAD, após uma década de dormência, e integrou-o firmemente na estratégia norte-americana, para agora o relegar para a insignificância geopolítica.

O comandante do Comando norte-americano do Pacífico manifestou publicamente a sua preocupação com o facto de não ter navios anfíbios, contratorpedeiros e submarinos de ataque suficientes. Alguns responsáveis da administração vieram dizer que os EUA gastaram tanta munição no Irão que não conseguiriam executar na íntegra os planos de contingência para defender Taiwan em caso de uma invasão chinesa. Os EUA poderão demorar até seis anos a repor as munições gastas.

O que à partida visava ser um passo na afirmação do poderio norte-americano, está a transformar-se num desaire que afeta seriamente a reputação militar norte-americana, deixando claro aos olhos de todos que uma aventura militar vencedora contra a China, no Pacífico ocidental, não tem qualquer viabilidade. A ambição hegemónica norte-americana poderá ter soçobrado no estreito de Ormuz.

Como se isso não bastasse, Pequim não reconhece nem vai cumprir as sanções dos EUA às compras de petróleo iraniano. O presidente Xi Jinping deu instruções às empresas e aos bancos chineses para desrespeitarem as sanções norte-americanas à refinação de petróleo na China. As enormes reservas estratégicas de petróleo, a diversificação das fontes de abastecimento e um mix energético único (o petróleo representa apenas cerca de 4% da produção de eletricidade da China) tornaram a China praticamente invulnerável aos acontecimentos em curso.

A ação militar norte-americana contra o Irão serviu para clarificar os limites do seu poder e a capacidade de resposta de Pequim às ameaças de Washington, tornando evidente uma correlação de forças internacionais comprometedora da liderança global dos EUA. É neste cenário que Trump e Xi se vão encontrar.

Nas mãos de um louco mau

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/05/2026)


Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente.


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Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump. Nero era um aprendiz de incendiário que pegou fogo a Roma mas não ao mundo inteiro. Calígula era um pobre vaidoso comparado com a demência narcísica do Presidente dos Estados Unidos. Até o grande, o infalível Kim Jong-il fica aquém do culto de personalidade deste louco insaciável. E mesmo Estaline, Hitler, Mao ou Pol Pot, encarnações do mal absoluto, tinham pelo menos um plano de acção coerente, ainda que tenebroso, enquanto que com Trump nem ele próprio sabe onde o conduzirão as suas bravatas — como se está a ver no Irão. É verdade que eles perseguiam e fuzilavam os adversários, ao passo que Trump também os persegue, mas ainda não os fuzila, apenas porque não pode, embora, como qualquer outro ditador, vá dando os passos necessários para lá chegar. Os seus recentes ataques à Alemanha e, por arrasto, à Europa e à NATO mostraram, para quem ainda tivesse dúvidas, que ele não respeita tratados, nem acordos, nem palavra dada. Que não conhece regras, nem limites, nem vergonha, e por isso é capaz de se gabar e orgulhar-se de actos de pirataria internacio­nal ou de ameaçar destruir numa noite toda uma civilização pelo método Hiroxima de vitória militar.

Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente. Mas as coisas agora parece que finalmente começam a mudar e vemos aliados ou contemporizadores do trumpismo, como Merz, Meloni, Starmer, Von der Leyen ou António Costa, já a balançarem face ao óbvio. A recente Cimeira Política Europeia, na Arménia — para a qual foram convidados países outros como Inglaterra, Turquia ou Canadá —, foi a prova disso, com uma agenda centrada na coordenação de uma resposta política ao destrambelhamento (até fisicamente patente) deste alucinado. Porém, ocupado com o banco de horas e a caça aos imigrantes (também aí em contracorrente com o resto da Europa), o nosso primeiro-ministro não “teve agenda” para estar presente. Mas há que compreender: Erevan fica longe e o que iria fazer a uma cimeira convocada em parte para responder a Trump, o único Governo que, além do Governo genocida de Israel, apoia sem rodeios, compreende e ajuda Donald Trump no seu crescente desvario? O nosso Governo, em nome de Portugal, face ao ataque sem aviso contra o Irão, “está com o nosso aliado americano” e oferece as Lajes, de borla e sem questionar. Face às sucessivas amea­ças de Trump de retirar os Estados Unidos da NATO ou de desproteger a Europa, obedece à ordem de se arruinar a comprar armas — e de preferência americanas, como uma caterva de F-35 ao preço de €100 milhões cada e mesmo que depois não haja pilotos para os aviões. Ele manda e Montenegro e Rangel obedecem e até agradecem, na mais indecente postura da nossa diplomacia desde o “orgulhosamente sós” de Salazar.

Nas mãos de um louco mau

2 Nunca hei-de perceber por que razão é que os nossos deputados acham que é gritando que se tornam mais credíveis, ou mais verdadeiros, ou mais populares. Não são todos, é claro, mas há um grupo seleccionado deles e delas que só sabe falar aos gritos — e por vezes até servidos por vozes estridentes ou esganiçadas, que transformam a Assembleia da República não numa peixeirada de mercado, porque as peixeiras não gritam assim, mas numa espécie de gaiola das loucas, onde é suposto estarmos representados. Também constato que quanto maior é a demagogia do discurso maior é a gritaria, como se achassem que o povo é mais facilmente enganado por quem mais estardalhaço causa. E nesse capítulo ninguém bate os deputados do grupo parlamentar do Chega, que, seja qual for o tema e o pretexto, gritam como se quisessem vender casacos de pele aos tuaregues do Saara num souk da Argélia. Seguem as pisadas do seu líder, André Ventura, forçado a gritar ainda mais para vender ao povo o supra-sumo da demagogia: subida das pensões e baixa da idade de reforma. De facto, é preciso gritar muito para conseguir argumentar a favor de uma progressão aritmética contra uma progressão geométrica: as pessoas a viverem cada vez mais e as pensões a subirem sempre. Se pensarmos que baixando apenas um ano na idade da reforma haveria 100 mil portugueses que automaticamente deixavam de ser contribuintes da Segurança Social e passavam a ser beneficiá­rios, quanto anos seriam necessá­rios para o sistema rebentar? Como explicar ao povo, mesmo aos gritos, que a geração no activo deve pagar os custos insustentáveis da geração reformada até que o sistema vá à falência e os que andaram a pagar não tenham depois reformas?

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3 Por más razões, fui um privilegiado no que respeita a saber de perto o que significa a violação do direito à intimidade da vida privada e o direito ao sigilo da correspondência, que é um direito instrumental do outro e ambos consagrados na nossa Constituição: cresci numa casa onde fui ensinado a saber que a PIDE escutava todas as conversas telefónicas, e anos mais tarde, na Comissão de Extinção da PIDE, não quis, obviamente, consultar a transcrição das nossas conversas escutadas pelos esbirros da PIDE, mas encontrei cartas enviadas pelos meus pais e que nunca chegaram ao destino ou outras que nunca receberam. Julguei que tudo isso tinha acabado de vez na manhã do Largo do Carmo, mas a verdade é que desde o 25 de Abril só tenho visto, revisão legal após revisão, recuarem as garantias individuais e avançarem as excepções permitidas à investigação penal.

Uma semana depois de ser conhecido um relatório de uma inspecção interna ao DCIAP — o coração e a jóia da coroa do Ministério Público (MP) —, que, entre outras graves descobertas, se deparou com processos há anos sem qualquer movimento, enquanto os investigados continuavam com computadores apreendidos, contas bancárias congeladas e suspeitas públicas permanentes, eis que um grupo de trabalho do mesmo MP veio apresentar as suas propostas para acelerar a tramitação dos processos. A primeira conclusão dessas propostas (lidas na imprensa), que não constitui surpresa, mas não deixa de ser chocante, é que não existe uma só medida prevista para penalizar os procuradores que arrastam processos sem sentido nem desfecho previsível, majestaticamente sentados em cima do tempo como se não houvesse ninguém a sofrer consequências enquanto eles dormem o sono dos justos: chamam a isso, a essa absoluta irresponsabilidade profissional, a autonomia do MP. Logicamente também é sem surpresa que vemos o grupo de trabalho propor duas medidas que tinham sido recomendadas pelo Conselho Superior da Magistratura e, ao que parece, em vias de serem adoptadas pelo Governo: multas pesadas aos arguidos ou seus defensores que usem “expedientes dilatórios” para atrasarem o andamento dos processos (uma avaliação subjectiva unicamente a cargo dos próprios magistrados) e a impossibilidade de recorrer de uma sentença para o Supremo Tribunal de Justiça por quem não foi condenado a menos de 12 anos de prisão. Mas é no campo da invasão da privacidade alheia que os senhores procuradores mais exibem as suas pretensões visionárias. Eles querem poder ter acesso à geolocalização instantânea de quem considerem suspeitos, a poder examinar todo o correio electrónico apreendido em computadores sem antes passarem pelo crivo de um juiz de instrução que lhes diga o que podem e não podem usar e, cereja no topo da libertinagem, poderem aceder remotamente ao correio electrónico dos visados sem sequer terem de examinar os seus computadores na sequência de um mandado de busca e apreensão de um magistrado e da sua autorização para tal. Ou seja, e indo isto para a frente, um cidadão, que pode ser absolutamente inocente de qualquer suspeita — vítima, por exemplo, de uma simples denúncia anónima por razões de vingança pessoal —, pode ter os seus telefonemas escutados sem qualquer motivo para desconfiar de tal e indefinidamente; pode, via telemóvel, dar a conhecer a um procurador onde está e por quanto tempo, em qualquer momento, e pode, tranquilamente e como todos nós, estar a usar o seu computador, nele armazenando a sua correspondência privada, a sua vida profissio­nal, financeira, familiar e pessoal, enquanto à distância o vigilante procurador vai seguindo passo a passo tudo o que acontece na sua vida.

Creio que não vale a pena perder muito latim a classificar estas 130 medidas reivindicadas: trata-se de propor, sem mais, a substituição de um Estado democrático, fundado no respeito pelos direitos das pessoas, num Estado policial. Mas seguramente haverá quem não se importe: por alguma razão havia tantos informadores da PIDE e muitos até voluntariamente e pro bono.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Trump vai para a China sem nenhuma carta na manga

(Pepe Escobar in SakerLatam.org, 07/05/2026)


Há alguns dias, tivemos o Sr. Araghchi indo à Rússia. No início desta semana, tivemos o Sr. Araghchi indo à China.


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Essas duas viagens refletem em toda a sua pompa o poder dos RIC (Rússia-Irã-China): o que eu escolhi definir há algum tempo como o novo triângulo de Primakov, onde o Irã substitui a Índia como um dos catalisadores da integração da Eurásia e do impulso rumo à multipolaridade.

Algumas das observações do ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi à mídia iraniana foram bastante fascinantes. Por exemplo:

“Nossos amigos chineses acreditam que o Irã pós-guerra é diferente do Irã pré-guerra. Sua posição internacional melhorou, e o país demonstrou suas capacidades e poder. Portanto, uma nova era de cooperação entre o Irã e outros países está por vir.”

Isso é um código para que Pequim agora reconheça — e apoie — Teerã como uma grande potência global.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, por sua vez, deu a definição definitiva da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã: “ilegítima”.

Isso é um código para dizer que tudo relacionado a essa guerra de escolha, desde as causas até as inúmeras consequências, está atolado em um pântano de ilegalidade.

Wang enquadrou a iniciativa diplomática chinesa com a cortesia que lhe é característica:

“Estamos prontos para continuar nossos esforços para reduzir a intensidade das tensões.”

Mas ele foi muito mais assertivo quanto ao caminho para uma resolução:

“A China acredita que a cessação completa das hostilidades é imperativa, que reiniciar o conflito é inaceitável e que persistir nas negociações é particularmente importante.”

Isso deveria ser o preâmbulo para uma verdadeira negociação que leve ao fim da guerra – e de todas as guerras – na Ásia Ocidental contra todo o Eixo da Resistência. Essa é exatamente a posição iraniana.

Wang Yi enfatizou que “a China apoia o Irã na manutenção de sua soberania e segurança nacionais e aprecia a disposição do Irã em buscar uma solução política por meio de canais diplomáticos.”

Isso é um código para o apoio total da China aos direitos soberanos e à diplomacia – não à intimidação.

O Estreito de Ormuz é absolutamente vital para a China devido às importações de energia, não apenas do Irã, mas também das monarquias petrolíferas do Golfo. Portanto, a posição de Pequim deve ser matizada:

“A comunidade internacional compartilha uma preocupação comum em restaurar a passagem normal e segura pelo Estreito, e a China espera que as partes envolvidas respondam prontamente aos fortes apelos da comunidade internacional.”

Isso é um código para o fim do bloqueio americano, ao mesmo tempo em que demonstra respeito pelo novo sistema jurídico em Ormuz que está sendo elaborado por Teerã.

Sobre a questão nuclear, “a China valoriza o compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares, ao mesmo tempo em que reconhece o direito legítimo do Irã ao uso pacífico da energia nuclear.”

Essa é exatamente a posição de Teerã – em nítido contraste com o Trump 2.0.

Bem-vindos à nova ordem da Ásia Ocidental

A China, por meio de Wang Yi, esclareceu três pontos essenciais: apoio a todas as reivindicações razoáveis do Irã; apoio à retirada das bases militares dos EUA em todo o Golfo Pérsico; e participação ativa na reconstrução pós-guerra do Irã.

Simultaneamente, Pequim está exortando os países árabes a se organizarem e trabalharem em direção a uma nova estrutura de segurança – excluindo o Império do Caos, das Mentiras e, mais recentemente, da Pirataria (totalmente admitido pelo presidente dos EUA). Mais uma vez: essa é exatamente a posição de Teerã.

Com a proverbial delicadeza, Pequim está, de fato, alinhando-se com o ex-comandante da IRGC, Mohsen Rezaee, principal conselheiro militar do novo líder Mojtaba Khamenei.

Pequim compreende plenamente como Teerã está enquadrando a resistência como um ativo estratégico. Para a nova configuração de poder em Teerã, a guerra tem girado em torno de sobreviver à pressão máxima – e aos bombardeios devastadores; absorver e controlar a armadilha da escalada; e recusar-se a ceder à coerção militar e econômica.

Tudo isso, em conjunto, não poderia ser mais estratégico. Aqui vemos a resistência transformada em capital político. E isso se traduz instantaneamente na mesa de negociações, apesar das perdas táticas (nenhuma delas é estratégica).

Esse entendimento se reflete nas duas formulações-chave de Araghchi e Wang Yi. Vamos analisá-las lado a lado.

O Irã “apoia o estabelecimento de uma nova arquitetura regional pós-guerra capaz de coordenar o desenvolvimento e a segurança”.

A China “apoia o estabelecimento de uma arquitetura regional de paz e segurança na qual os países da região participem conjuntamente, salvaguardem interesses comuns e alcancem o desenvolvimento comum”.

Essa nova arquitetura é a nova ordem da Ásia Ocidental.

Portanto, não é de se admirar que o universo Trump 2.0 esteja desorientado.

Porque essa nova ordem da Ásia Ocidental é um microcosmo, diretamente ligado ao macrocosmo da Nova Ordem Global, da qual a China é um dos principais impulsionadores, ao lado da Rússia.

A Rússia está concentrada em implementar, a longo prazo e contra todas as adversidades, uma Parceria da Grande Eurásia, que se expande para a Afro-Eurásia.

Pequim é muito mais ambiciosa. Essencialmente, tudo é enquadrado por meio das Quatro Iniciativas Globais. A mais recente é a Iniciativa de Governança Global, lançada na cúpula da SCO Plus em Tianjin, em setembro do ano passado.

Isso segue as Novas Rotas da Seda, ou BRI (Iniciativa Cinturão e Rota), que depois evoluiu para as três primeiras Iniciativas Globais: a Iniciativa de Desenvolvimento Global; a Iniciativa de Segurança Global; e a Iniciativa de Civilização Global – até chegar à Governança Global.

No conjunto, esse é o roteiro chinês para “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”; a alternativa de fato para o liberalismo ocidental em colapso. A ambição é, sim, global.

China-Irã: totalmente alinhados na Ásia Ocidental

O que já está bastante claro é que a China e o Irã compartilham uma visão totalmente alinhada para a Ásia Ocidental; na verdade, essa é a base de sua confiança e dependência mútuas. Pequim e Teerã compreendem como todo o mundo árabe foi colonizado e como a história pós-Segunda Guerra Mundial tem sido essencialmente uma narrativa de Washington usando a Ásia Ocidental para controlar o planeta por meio de uma obsessão pelo petróleo.

Por mais que Teerã tenha aprendido muito com a Arte da Guerra chinesa – “pareça fraco quando estiver forte” e desinteressado quando estiver mergulhado na guerra –, a viagem de Araghchi a Pequim foi essencial para ressolidificar a parceria estratégica. Por mais que a Rússia esteja totalmente comprometida – como confirmado pela reunião em São Petersburgo entre Araghchi e Putin –, a China está em uma posição de “estamos do seu lado”.

Os petroleiros chineses, aliás, continuam a transitar diariamente pelo Estreito de Ormuz. Nem um pio de Washington.

Apesar de toda a fanfarronice e das bravatas do tipo “vamos bombardear de novo”, Trump parece estar extremamente nervoso com a viagem à China na próxima semana para um encontro cara a cara com Xi, sem ter cartas na mão; ridicularizado praticamente em todo o planeta; e em uma sequência de “cansado de vencer” que é vista na China como uma grande farsa. Sem mencionar que ele não tem nada a oferecer que a China tenha interesse em comprar.

Depois, há o total desafio da China ao mais recente capítulo de sanções.

Até recentemente, a China contornava as sanções dos EUA de forma não oficial e/ou por meio de intermediários. Agora, declara oficialmente que não reconhece as sanções unilaterais dos EUA contra o Irã ou a Rússia, por exemplo, bem como as sanções contra suas próprias refinarias de petróleo.

Estamos em plena Guerra Fria financeira e em uma ofensiva do RIC (Rússia, Irã, China) para amputar permanentemente o poder da obsessão pelas sanções.

O Irã foi totalmente expulso do SWIFT em 2012. Então, o que Teerã fez foi reconfigurar o sistema, aproveitando a experiência de construir uma arquitetura comercial paralela.

O Irã realiza a maior parte do comércio transfronteiriço em yuans, rublos, rúpias, dirhams dos Emirados Árabes Unidos (a partir de agora, não mais) e dinares iraquianos. A China é responsável por até 35% do comércio total do Irã. Tudo é liquidado em yuans ou por meio de troca.

O Irã e a Rússia formalizaram um sistema de liquidação de moedas em 2023, contornando totalmente o SWIFT, ligando o SEPAM iraniano e o SPFS russo. No primeiro período do pedágio no Estreito de Ormuz – o mecanismo está sendo constantemente ajustado e otimizado – um modo-chave de pagamento era via CIPS chinês.

A exigência de contrapartidas é inevitável. Teerã está plenamente ciente de que Trump nunca concordará em pagar indenizações pela guerra ilegal que iniciou, e também está ciente das inevitáveis manobras grosseiras que ocorrerão quando se tratar de suspender o congelamento dos fundos iranianos.

O pedágio pode funcionar como uma alternativa para obter reparações e arrecadar algo equivalente aos fundos iranianos congelados em bancos ocidentais; e também forçará o Ocidente a suspender as sanções contra os bancos iranianos e o sistema financeiro iraniano.

Afinal, Teerã já deixou claro que apenas seus bancos estão autorizados a cobrar as taxas no Estreito de Ormuz.

Tradução: todas as nações que precisarem transitar terão que lidar com o sistema financeiro iraniano.

Além disso, as taxas ajudarão o Irã a reconstruir sua infraestrutura destruída.

Enfrentando a vulnerabilidade estrutural dos EUA

Trump nem sequer joga damas, quanto mais pôquer. A China joga weiqi (“go”). O weiqi consiste em moldar o tabuleiro, devagar mas com segurança, sacrificando um detalhe aqui e ali em prol de uma supremacia geral. A China vem moldando pacientemente o tabuleiro nas últimas duas décadas. No weiqi, uma vez que você molde corretamente o tabuleiro, o resto do Grande Jogo se desenrola por si só.

É aí que estamos agora.

Se ele tiver curiosidade intelectual – e isso é um grande “se” –, Trump será capaz de ver o poderoso poderio industrial da China (isso se chama capitalismo produtivo) e o controle total sobre as cadeias de abastecimento das quais os EUA dependem.

Ele se deparará com a vulnerabilidade estrutural dos EUA: a proverbial lista de elementos de terras raras, cadeias de abastecimento industriais, acesso a materiais essenciais para o F-35, mísseis Patriot e grandes setores do complexo industrial-militar americano.

E ele será lembrado de que a lei dos EUA não possui mais autoridade extraterritorial automática dentro da China. Sim, isso dói.

Enquanto isso, os sete séculos de impasse entre a Roma imperial e a Pérsia continuarão a se repetir, na velocidade da luz, no século XXI. A guerra de Trump provou-se totalmente impotente: impossível de vencer contra o desgaste, e isso levará a Pérsia à supremacia na Ásia Ocidental.

Essa surpreendente reviravolta geopolítica está sendo alcançada por uma potente mistura de ideologia, coesão social, desprezo total por bárbaros grosseiros e a determinação de levá-los à falência usando logística impossível. Sem mencionar o controle total do Estreito de Ormuz.

As bolhas estão estourando rapidamente no Império do Caos, das Mentiras e da Pirataria, impiedosamente atingido pela realidade do RIC.

  • Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui