Nas mãos de um louco mau

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/05/2026)


Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente.


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Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump. Nero era um aprendiz de incendiário que pegou fogo a Roma mas não ao mundo inteiro. Calígula era um pobre vaidoso comparado com a demência narcísica do Presidente dos Estados Unidos. Até o grande, o infalível Kim Jong-il fica aquém do culto de personalidade deste louco insaciável. E mesmo Estaline, Hitler, Mao ou Pol Pot, encarnações do mal absoluto, tinham pelo menos um plano de acção coerente, ainda que tenebroso, enquanto que com Trump nem ele próprio sabe onde o conduzirão as suas bravatas — como se está a ver no Irão. É verdade que eles perseguiam e fuzilavam os adversários, ao passo que Trump também os persegue, mas ainda não os fuzila, apenas porque não pode, embora, como qualquer outro ditador, vá dando os passos necessários para lá chegar. Os seus recentes ataques à Alemanha e, por arrasto, à Europa e à NATO mostraram, para quem ainda tivesse dúvidas, que ele não respeita tratados, nem acordos, nem palavra dada. Que não conhece regras, nem limites, nem vergonha, e por isso é capaz de se gabar e orgulhar-se de actos de pirataria internacio­nal ou de ameaçar destruir numa noite toda uma civilização pelo método Hiroxima de vitória militar.

Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente. Mas as coisas agora parece que finalmente começam a mudar e vemos aliados ou contemporizadores do trumpismo, como Merz, Meloni, Starmer, Von der Leyen ou António Costa, já a balançarem face ao óbvio. A recente Cimeira Política Europeia, na Arménia — para a qual foram convidados países outros como Inglaterra, Turquia ou Canadá —, foi a prova disso, com uma agenda centrada na coordenação de uma resposta política ao destrambelhamento (até fisicamente patente) deste alucinado. Porém, ocupado com o banco de horas e a caça aos imigrantes (também aí em contracorrente com o resto da Europa), o nosso primeiro-ministro não “teve agenda” para estar presente. Mas há que compreender: Erevan fica longe e o que iria fazer a uma cimeira convocada em parte para responder a Trump, o único Governo que, além do Governo genocida de Israel, apoia sem rodeios, compreende e ajuda Donald Trump no seu crescente desvario? O nosso Governo, em nome de Portugal, face ao ataque sem aviso contra o Irão, “está com o nosso aliado americano” e oferece as Lajes, de borla e sem questionar. Face às sucessivas amea­ças de Trump de retirar os Estados Unidos da NATO ou de desproteger a Europa, obedece à ordem de se arruinar a comprar armas — e de preferência americanas, como uma caterva de F-35 ao preço de €100 milhões cada e mesmo que depois não haja pilotos para os aviões. Ele manda e Montenegro e Rangel obedecem e até agradecem, na mais indecente postura da nossa diplomacia desde o “orgulhosamente sós” de Salazar.

Nas mãos de um louco mau

2 Nunca hei-de perceber por que razão é que os nossos deputados acham que é gritando que se tornam mais credíveis, ou mais verdadeiros, ou mais populares. Não são todos, é claro, mas há um grupo seleccionado deles e delas que só sabe falar aos gritos — e por vezes até servidos por vozes estridentes ou esganiçadas, que transformam a Assembleia da República não numa peixeirada de mercado, porque as peixeiras não gritam assim, mas numa espécie de gaiola das loucas, onde é suposto estarmos representados. Também constato que quanto maior é a demagogia do discurso maior é a gritaria, como se achassem que o povo é mais facilmente enganado por quem mais estardalhaço causa. E nesse capítulo ninguém bate os deputados do grupo parlamentar do Chega, que, seja qual for o tema e o pretexto, gritam como se quisessem vender casacos de pele aos tuaregues do Saara num souk da Argélia. Seguem as pisadas do seu líder, André Ventura, forçado a gritar ainda mais para vender ao povo o supra-sumo da demagogia: subida das pensões e baixa da idade de reforma. De facto, é preciso gritar muito para conseguir argumentar a favor de uma progressão aritmética contra uma progressão geométrica: as pessoas a viverem cada vez mais e as pensões a subirem sempre. Se pensarmos que baixando apenas um ano na idade da reforma haveria 100 mil portugueses que automaticamente deixavam de ser contribuintes da Segurança Social e passavam a ser beneficiá­rios, quanto anos seriam necessá­rios para o sistema rebentar? Como explicar ao povo, mesmo aos gritos, que a geração no activo deve pagar os custos insustentáveis da geração reformada até que o sistema vá à falência e os que andaram a pagar não tenham depois reformas?

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3 Por más razões, fui um privilegiado no que respeita a saber de perto o que significa a violação do direito à intimidade da vida privada e o direito ao sigilo da correspondência, que é um direito instrumental do outro e ambos consagrados na nossa Constituição: cresci numa casa onde fui ensinado a saber que a PIDE escutava todas as conversas telefónicas, e anos mais tarde, na Comissão de Extinção da PIDE, não quis, obviamente, consultar a transcrição das nossas conversas escutadas pelos esbirros da PIDE, mas encontrei cartas enviadas pelos meus pais e que nunca chegaram ao destino ou outras que nunca receberam. Julguei que tudo isso tinha acabado de vez na manhã do Largo do Carmo, mas a verdade é que desde o 25 de Abril só tenho visto, revisão legal após revisão, recuarem as garantias individuais e avançarem as excepções permitidas à investigação penal.

Uma semana depois de ser conhecido um relatório de uma inspecção interna ao DCIAP — o coração e a jóia da coroa do Ministério Público (MP) —, que, entre outras graves descobertas, se deparou com processos há anos sem qualquer movimento, enquanto os investigados continuavam com computadores apreendidos, contas bancárias congeladas e suspeitas públicas permanentes, eis que um grupo de trabalho do mesmo MP veio apresentar as suas propostas para acelerar a tramitação dos processos. A primeira conclusão dessas propostas (lidas na imprensa), que não constitui surpresa, mas não deixa de ser chocante, é que não existe uma só medida prevista para penalizar os procuradores que arrastam processos sem sentido nem desfecho previsível, majestaticamente sentados em cima do tempo como se não houvesse ninguém a sofrer consequências enquanto eles dormem o sono dos justos: chamam a isso, a essa absoluta irresponsabilidade profissional, a autonomia do MP. Logicamente também é sem surpresa que vemos o grupo de trabalho propor duas medidas que tinham sido recomendadas pelo Conselho Superior da Magistratura e, ao que parece, em vias de serem adoptadas pelo Governo: multas pesadas aos arguidos ou seus defensores que usem “expedientes dilatórios” para atrasarem o andamento dos processos (uma avaliação subjectiva unicamente a cargo dos próprios magistrados) e a impossibilidade de recorrer de uma sentença para o Supremo Tribunal de Justiça por quem não foi condenado a menos de 12 anos de prisão. Mas é no campo da invasão da privacidade alheia que os senhores procuradores mais exibem as suas pretensões visionárias. Eles querem poder ter acesso à geolocalização instantânea de quem considerem suspeitos, a poder examinar todo o correio electrónico apreendido em computadores sem antes passarem pelo crivo de um juiz de instrução que lhes diga o que podem e não podem usar e, cereja no topo da libertinagem, poderem aceder remotamente ao correio electrónico dos visados sem sequer terem de examinar os seus computadores na sequência de um mandado de busca e apreensão de um magistrado e da sua autorização para tal. Ou seja, e indo isto para a frente, um cidadão, que pode ser absolutamente inocente de qualquer suspeita — vítima, por exemplo, de uma simples denúncia anónima por razões de vingança pessoal —, pode ter os seus telefonemas escutados sem qualquer motivo para desconfiar de tal e indefinidamente; pode, via telemóvel, dar a conhecer a um procurador onde está e por quanto tempo, em qualquer momento, e pode, tranquilamente e como todos nós, estar a usar o seu computador, nele armazenando a sua correspondência privada, a sua vida profissio­nal, financeira, familiar e pessoal, enquanto à distância o vigilante procurador vai seguindo passo a passo tudo o que acontece na sua vida.

Creio que não vale a pena perder muito latim a classificar estas 130 medidas reivindicadas: trata-se de propor, sem mais, a substituição de um Estado democrático, fundado no respeito pelos direitos das pessoas, num Estado policial. Mas seguramente haverá quem não se importe: por alguma razão havia tantos informadores da PIDE e muitos até voluntariamente e pro bono.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O Major-general Carlos Branco deixa a CNN

(Major-General Carlos Branco, in Facebook, 24/07/2025)


(Foram muitas as patifarias que fizeram ao Major-general Carlos Branco os pivôs da CNN e outros comentadores ignorantes, avençados e insolentes. Uma atuação orquestrada de bullying mediático com – pelo menos – o beneplácito da estação. Mas atingiram o objetivo: calar uma voz informada, isenta e desmistificadora da parcialidade e da propaganda disfarçada de notícia, que é a especialidade da CNN.

Uma perda para a liberdade de expressão e para a democracia. Bem haja, Major-general Carlos Branco. Os verdadeiros democratas estão consigo.

Estátua de Sal, 24/07/2025)


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No seguimento da minha “entrevista” com Pedro Bello Moraes (PBM), no dia 10 de julho, na CNN Portugal, pelas 13 horas, em que este ultrapassou todos os limites da ética e da deontologia jornalística, sem posteriormente se retratar ou admitir o erro pela sua prestação vergonhosa, não me restava outra alternativa que não fosse a de cessar a minha colaboração com a CNN Portugal. Ficou evidente uma assimetria de papéis que tem de ter consequências e que eu não posso consentir.

Criou-se uma situação insustentável em que foram transpostas todas as linhas vermelhas que a paciência sem limites pode tolerar. Foi um péssimo exemplo, um caso daquilo que o jornalismo não pode nem deve ser. O desempenho medíocre e desastrado de PBM vai tornar-se num estudo de caso nas escolas de jornalismo, para se mostrar aos iniciados na carreira o que não se deve fazer, e como não se devem comportar quando se é ignorante e impreparado numa matéria.

O meu agradecimento ao Nuno Santos pelo convite que me fez há três anos para colaborar na análise do conflito ucraniano. A CNN foi pioneira em Portugal no convite a militares para analisarem/comentarem de forma continuada e sistemática situações de conflito, algo que já se fazia noutros países, em particular nos EUA, mas que foi mal recebido num meio que se julga “prá frentex” onde, infelizmente, ainda prevalece alguma inveja e provincianismo. Na altura, isso criou azia a muita gente. Primeiro estranhou-se, mas depois entranhou-se. Agora vários canais, copiando a CNN, recorrem a militares. O que há três anos era considerado, por alguns, um crime de lesa-pátria tornou-se normal, até mesmo incontornável para quem quiser estar no topo das audiências.

Gostaria de sublinhar que a CNN Portugal é a única cadeia de televisão que ainda permite diversidade de opiniões, num panorama nacional onde os laivos censórios se tornam cada vez mais evidentes, no qual se incluem os canais públicos.

O pensamento não alinhado com a propaganda imposta pelo mainstream corre o risco de se tornar delito.

Desejo votos de sucesso à CNN Portugal e aos que nela trabalham com afinco, elevado profissionalismo e dedicação. Não confundo a CNN com a mediocridade de PBM, colocado em horários em que ninguém vê televisão. Os períodos da grande audiência estão destinados a jornalistas com menos de metade da sua experiência profissional, mas indiscutivelmente com mais talento, algo que manifestamente falta a PBM.

A ausência nesta fase do comentário televisivo não significa o abandono da análise dos acontecimentos, que continuarei a fazer noutras plataformas, lembrando sempre que há mais marés do que marinheiros.

Não há Bello sem senão – Resposta da ERC à nossa participação

(Estátua de Sal, 20/07/2025)

Na sequência da participação que fizémos à ERC (ver aqui) sobre o comportamento deontologicamente abusivo de Pedro Bello Moraes, na sua qualidade de jornalista da CNN, em relação ao Major-general Carlos Branco, recebemos daquela entidade pública o texto que abaixo reproduzimos.

No essencial, a entidade – apesar de reconhecer que algo de errado existiu no comportamento do jornalista -, minimiza a gravidade do sucedido. Além de dizer que não é a ela que compete aplicar sanções a jornalistas.

Mas leiam e que cada um tire as suas ilações sobre o estado da comunicação social em Portugal. Já agora faço notar que a reação da CNN foi mandar retirar o vídeo do incidente do Youtube, ao abrigo dos direitps de autor – como podem constatar se seguirem o link que coloquei acima e que remetia para o vídeo -, bem como do seu próprio site. Afinal, não se passou nada, não há imagens logo não houve crime… 🙂

Estátua de Sal, 20/07/2025


Exposição contra a CNN Portugal relativa à conduta do pivô do “CNN Meio-Dia” de 10 de julho de 2025 – EDOC/2025/5796

Exmo/a. Senhor/a,

Agradecemos a comunicação remetida à ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a qual mereceu a nossa melhor atenção.

A exposição rececionada vem apontar a conduta do jornalista que liderou a edição de 10 de julho de 2025 do programa “CNN Meio-Dia” da CNN Portugal, considerando não ser esta consentânea com os deveres da profissão, em concreto, o dever de isenção, na interação com o comentador habitual do serviço de programas, major-general Carlos Branco, tendo colocado em causa a prerrogativa profissional de clara separação entre factos e opinião.

Cabe, antes de mais, referir que sobre os jornalistas impendem deveres de rigor e isenção e de demarcação clara entre factos e opinião no desempenho da tarefa de informar, conforme a alínea a), n.º 1, do artigo 14.º do Estatuto do Jornalista.

Em paralelo, é de notar que ao jornalista não está vedada a emissão de opinião, que consuma o direito fundamental dos jornalistas de liberdade de expressão (alínea a), artigo 6.º do Estatuto do Jornalista), desde que essa opinião seja emitida de modo que não interfira na produção do conteúdo jornalístico concreto (notícia, reportagem, entrevista, etc.) e se encontre dele demarcada. Dito de outro modo, deve ser clara aos olhos do público a separação entre as peças noticiosas e as opiniões emitidas pelos jornalistas, as quais não se confundem com a factualidade a que se devem cingir os conteúdos jornalísticos.

No que concerne ao caso concreto, foram visionados os conteúdos identificados na participação, constatando-se que os mesmos têm início cerca das 12h51, num espaço de comentário, devidamente identificado. O espaço cénico em que se desenvolve é diverso daquele em que o jornalista e pivô do “CNN Meio-Dia” conduz o noticiário. Neste caso, o jornalista e o comentador convidado apresentam-se em pé, frente a frente, junto de um ecrã em que são mostradas imagens que dão suporte às interpretações produzidas.

A condução de espaços de comentário por parte do jornalista atribui-lhe a responsabilidade pela condução da conversa e lançamento dos respetivos temas, admitindo a colocação de perguntas, podendo suscitar novas interpretações e confrontar o entrevistado com outras opiniões e contradições.

Atendendo ao facto de a CNN Portugal ter garantido que a interação entre o jornalista e o comentador ocorresse num espaço notoriamente identificado como sendo de comentário, isto é, um conteúdo fundamentalmente orientado para a opinião, admite-se que haverá maior latitude para a intervenção do jornalista do que aquela que existe em géneros jornalísticos como a entrevista. Essa sim, orientada por normas que visam garantir que o público é informado, de forma transparente, pelo órgão de comunicação social.

Contudo, apesar da demarcação do espaço de opinião em que interagiram os dois intervenientes, denota-se que não surtiu clara aos olhos do público a amplitude de intervenção do jornalista naquele espaço, que questionou as análises do seu interlocutor e conduziu o segmento de forma assumidamente assertiva.

Ora, a condução destes espaços admite um estilo mais personalizado e idiossincrático, desde que dentro dos limites admissíveis de uso da palavra dos intervenientes. No caso concreto, ainda que se verifique uma conduta menos usual e disruptiva relativamente a conteúdos inseridos no mesmo género, considera-se que a mesma se encontra ainda dentro do espectro da autonomia de que goza a condução de espaços dedicados à divulgação de opiniões, quando devidamente identificados perante o público, o que é o caso em análise.

Não deixa, no entanto, a ERC de tomar devida nota das preocupações manifestadas na participação e reveladoras de que não foi apreendida a condução daquele espaço no sentido acima exposto, com prejuízo da separação de papéis entre a missão de informar e o direito de emissão de opinião. Neste sentido, será suscitada reflexão sobre essas mesmas preocupações junto da CNN Portugal, dando-se conhecimento da presente participação.

Adicionalmente, é relevante salientar que não cabe nas competências da ERC sindicar a conduta profissional dos jornalistas no desempenho das suas funções, atribuição da CCPJ – Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, entidade à qual compete a aplicação de eventuais sanções disciplinares decorrentes da ação dos jornalistas no desempenho da profissão. À ERC compete, sim, verificar o cumprimento das normas reguladoras da atividade de comunicação social por parte dos órgãos de comunicação social.

Assim, informa-se que procedemos nesta data ao reencaminhamento da sua participação para a CCPJ (n.º 1 do artigo 41.º do Código do Procedimento Administrativo).

Com os melhores cumprimentos,                                                      

Unidade de Análise Qualitativa •  Qualitative Analysis Unit 


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