OS COMENTADORES ISENTOS

(In Blog 77 Colinas, 09/10/2017)

Mijadouro

– Marques Mendes, boa noite.

– Boa noite Clara, pode tratar-me por Dr. Marques Mendes que eu não sou de cerimónias.

– Com certeza, mais alguma objecção?

– Esqueceram-se de pôr as quatro listas telefónicas em cima da cadeira e não chego à mesa.

– Pedimos desculpa, a produção já vai tratar disso.

– Não tem importância, eu fico de pé.

– Dr. Marques Mendes, como é que o Costa sai destas eleições autárquicas?

– O Costa é o grande perdedor destas eleições. Ganhou, mas perdeu.

– Como assim?

– Porque, se perdesse, o Jerónimo e a Catarina ficavam felizes e facilitavam a negociação do orçamento.

– E o Dr. Passos Coelho?

– O Dr. Passos Coelho, com um resultado melhor, não deixaria a presidência do PSD e a oposição continuaria enfraquecida.

– Mas assim, o Costa perdia as eleições e apresentava a demissão.

– Claro, Clara. Eleições antecipadas e o Costa obtinha a maioria absoluta.

– Dr. Marques Mendes, estou mesmo muito confusa. Então, visto desse modo, o Dr. Passos Coelho afinal ganhou.

– Claro, Clara. Assim deixa a presidência do PSD e vem para comentador isento da SIC onde ganha muito mais dinheiro. Tal como eu.

– É um raciocínio brilhante.

– Claro, Clara. Próprio de um brilhante cientista político, como é o meu caso. Génio é o meu nome do meio.

– Dr. Marque Mendes, estou muito curiosa. O que é que se passa com aqueles putativos candidatos à presidência que têm vindo a desistir por razões pessoais?

– Clara, é óbvio. Eu e o Dr. Passos Coelho comentamos ao domingo e ao sábado, logo restam cinco vagas para mais comentadores isentos do PSD, bem remunerados.

– Portanto, mais oportunidades de sacar dinheiro ao Balsemão.

– Claro, Clara.

– Dr. Marques Mendes, porque é que lhe chamam Tangerina?

– Porque sou muito pequeno para ser laranja e muito velho para ser laranjinha.
(Pum!!! O programa foi interrompido para prestar assistência médica à Clara de Sousa.)


Fonte aqui

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O clube dos cínicos

(António Guerreiro, in Público, 06/10/2017) 
Guerreiro

António Guerreiro

Os comentadores e analistas políticos são uma categoria profissional que tem como missão esvaziar e despolitizar a esfera política.


 

Se o mundo fosse justo e as regras da reversibilidade não estivessem muitas vezes bloqueadas, teria já chegado o tempo de avaliar os avaliadores, de analisar os analisadores, de comentar os comentadores. Estes dois últimos, que na verdade são só uma classe (neste campo, não há diferenças metodológicas entre analisar e comentar), expõem-se de maneira tão conspícua mal são revelados os primeiros resultados das eleições, como pudemos ver no passado domingo, que bem merecem ser “objectivados” e classificados nas listas dos que perdem e dos que ganham. De um modo geral (e é de uma tipologia que falo, não de ninguém em particular), são eles os grandes derrotados da noite e a alguns é concedido o dia seguinte para a consumação da derrota. Não é que digam ou escrevam coisas erradas, até porque não se trata de um tipo de discurso que se inscreva na ordem da verdade e da mentira. E, tendo em conta a situação, também não saem desqualificados quando são só inócuos e, cheios de bom senso, permanecem rente aos factos e aos dados. Mas eles não estão lá para serem relatores ou arquivistas. Só cumprem a missão de que estão encarregados quando respondem à injunção: analisa, comenta, interpreta, dá a tua opinião. Então, o resultado é aquele que todos nós já verificámos, sem precisarmos de mais instrumentos do que os de uma análise empírica.

O que se revela com evidência na análise dos analistas é que eles concebem a política como um jogo de tácticas, manhas, habilidades e às vezes alguma estratégia (não raro confundida com a táctica). Um político perde ou ganha conforme o grau de eficácia da sua táctica. Há uma coisa, porém, que escapa a esta lógica e faz com que o jogo perca a racionalidade e triunfe a força mágica, mimético-afectiva: são os “populismos”, apontam categóricos os analistas do púlpito onde exercem o mais descarado tecno-populismo.

Não há uma única ideia política — na melhor das hipótese há apenas lógica gestionária — que perpasse no discurso dos analistas É como se o cinismo fizesse parte das leis naturais e das deformações profissionais dos analistas e comentadores.

E como desempenham com gáudio o papel do “sujeito suposto saber”, encontraram um método infalível para parecer inteligentes e desvelar o que o vulgo não consegue ver. Este método, usado na análise dos resultados das últimas eleições, é aquele que vislumbra derrotas nas vitórias e vitórias nas derrotas. O que é preciso é que as coisas não pareçam aquilo que são e toda a análise seja projectada no futuro. Procura-se adivinhar o “cenário” que se segue e produzir  uma ficção. A análise imanente é desconhecida dos comentadores. Lacan, o famoso psicanalista  francês, avisou um dia que um dos maiores perigos da psicanálise consiste em assumir que ela permite ao indivíduo alcançar uma posição acima de todos aqueles que se deixam enganar facilmente, os incautos, ou, para utilizarmos a palavra francesa usada por Lacan os “dupes”. Ele faz então um trocadilho com a frase “les non-dupes errent”, jogando com uma homofonia, já que nesta frase ouvimos também “les noms du père”. Ou seja, os espertos, os “non-dupes” erram precisamente ao querer sê-lo. Assim são os comentadores e analistas políticos: espertos como só eles. Submetida aos seus instrumentos de análise, a política fica reduzida a uma espécie de torso, a um corpo informe sem pés nem cabeça: Eles desconhecem absolutamente que o medium da política não são as táticas, é a linguagem. E se na verdade os políticos também tendem a esquecê-lo e assim esvaziam a política de sentido é porque foi firmada uma terrível aliança político-mediática.

O país dos enigmas

(In Blog O Jumento, 06/10/2017)
enigmas
A vida política portuguesa tem dado lugar a um jogo nacional, o jogo dos enigmas dos discursos presidenciais. é uma espécie de rally paper organizado pela Presidência da República, cada vez que um presidente faz um discurso o país passa a semana seguinte a tentar descobrir, escondidas nas entrelinhas, o que o presidente disse. Estes discursos tipo perguntas de rally paper foram inventados por ramalho Eanes, continuados por Sampaio, levados ao ridículo por Cavaco Silva e parece que retomados por Marcelo Rebelo de Sousa. O único que falou sem papas na língua e poupando os jornalistas, comentadores e líderes partidários a um esforço inteletual adicional foi Mário Soares, que dizia o que tinha a dizer o que era dispensável pois neste país todos sabiam muito bem o que pensava.
É ridículo ver um país à espera de beber da sabedoria do nosso “Confúcio de Belém” que fala ao país a horas e dias certos. Já sabemos a que horas vai falar na mensagem de ano novo ou do 5 de Outubro. todos sabemos que para além destes discursos e o das posses dos governos, o Presidente fala nas comemorações do 25 de Abril e mais nalgumas ocasiões oficiais. O espetáculo chega a ser ridículo e é sempre o mesmo, na semana anterior todos se interrogam sobre o que o Presidente irá dizer, terminado o discurso começa uma semana em que todos tentam perceber o que ele terá querido dizer.
No tempo de Cavaco o país ficava com  prisão de ventre sempre que o homem falava, nunca se percebia o que queria dizer, salvo quando recordava ao país os avisos que tinha feito no passado. Ainda hoje estão por se entender muitas das suas frases enigmáticas, muitos avisos que deixou no ar e apesar de nas suas contas existirem por cá 80 comentadores profissionais, nem mesmo com os seus livros “póstumos” ou com o livro do Fernando Lima, aquele que durante anos dizia aos jornalistas o que Cavaco ia dizer, conseguiremos alguma vez entender.
Se procurarmos nos jornais as notícias sobre o discurso de Marcelo no dia 5 de Outubro, todas estão envolvidas num grande mistério, todos os jornais se esforça de explicar aos parvalhões dos portugueses o que Marcelo tentou dizer e que só jornalistas muito inteligentes perceberam. O Observador titula “O que disse Marcelo nas entrelinhas este 5 de outburo”, o ECO enumera “as três mensagens no 5 de outubro”, o Público traduz e titula “o que disse Marcelo e o que quis dizer”.
Mas o mais divertido do último rally paper presidencial, agora organizado por Marcelo, foi o país ter retido como grande frase a declaração de Marcelo “Não há sucessos eternos nem reveses definitivos”, algo que costumo dizer muitas vezes de outra forma “se a minha avó não tivesse morrido ainda estaria viva” ou que pode ter outra interpretação segundo um dito popular segundo o qual “não há bem que sempre dure ou mal que nunca acabe”.
Os que em vez de aproveitarem a manhã do feriado optaram por se levantar cedo para ouvir Marcelo não terão dado o esforço por perdido, não é todos os dias que um presidente diz uma frase tão enigmática e complexa, digna de ser título de primeira página e ainda hoje de manhã servia para abrir os telejornais. Até ao próximo discurso de Marcelo o país vai tentar perceber o que ele quereria dizer quando declarou que “Não há sucessos eternos nem reveses definitivos”, algo só acessível aos tais 80 comentadores profissionais referidos por Cavaco e mais algumas mentes superiores.
Enfim, neste país perde-se com facilidade a noção do ridículo.